O Ocidente desfeito (II)

“Nations do not die in a day; they dissolve slowly, as the ideas that sustained them lose their force.”
– Alexis de Tocqueville

O que está a ruir é a ordem construída após 1945, em que a Europa funcionava como extensão estratégica dos Estados Unidos. Para Washington, essa estrutura deixou de ser um activo e passou a ser um fardo. Ainda assim, os Estados Unidos não pretendem retirar as suas forças do continente nem abandonar as bases e infra-estruturas que garantem presença e influência. Podem ocorrer ajustamentos, mas não uma retirada profunda, enquanto os interesses americanos assim o exigirem.

Tentar definir agora o novo mapa geopolítico europeu seria presunção. Mas acreditar que o Ocidente regressará ao modelo anterior é ilusão. A actual liderança americana declarou encerrada a fase de globalismo missionário, substituindoa por uma estratégia centrada na competição entre grandes potências e na redução de compromissos externos.

Entre os ideólogos que influenciam esta mudança destacamse correntes que combinam elementos de contracultura, autoritarismo e capitalismo tecnológico extremo. Personalidades associadas ao universo digital defendem uma visão do mundo que pouco tem de europeia e que nem sempre se identifica com a tradição americana. Em contraste, outros representantes do novo poder político reivindicam raízes profundas na cultura popular dos Estados Unidos. Apesar das diferenças, ambos os grupos convergem numa ideia de que existe uma separação estrutural entre o Novo e o Velho Mundo. Muitos europeus, por razões opostas, chegam à mesma conclusão.

A noção de que o “Ocidente” enquanto entidade política e cultural está a desaparecer tornouse comum dos dois lados do Atlântico. Falta determinar como e quando essa transformação se materializará. A transição americana de potência hegemónica para dominante mas limitada é um salto no escuro, motivado pela percepção de que o tempo se esgota. A Europa, por seu lado, reage com uma mistura de negação e improvisação.

Perante este cenário, tornase urgente reavaliar a posição europeia. As famílias políticas do espaço atlântico enfrentam tensões profundas. A aproximação entre Estados Unidos e Rússia, mesmo que parcial ou táctica, desorienta os países do Nordeste europeu, que sempre confiaram na protecção americana. Muitos descobrem agora que a garantia de segurança que julgavam eterna pode estar a evaporarse. A pergunta impõese: se soubessem que a Aliança Atlântica se encontraria neste estado, os ucranianos teriam lutado tanto para nela entrar?

As nações mais hostis a Moscovo, desde a Escandinávia até ao Mar Negro, vêem o seu alinhamento automático com Washington perder relevância. A frustração leva a medidas extremas, como restrições políticas a cidadãos de origem russa ou bielorrussa, ou tentativas de excluir candidatos considerados demasiado próximos de Moscovo. Em alguns países, surgem até propostas para repetir eleições caso o resultado não corresponda ao que certos sectores consideram aceitável. Esta tendência culmina em decisões judiciais que procuram impedir figuras políticas controversas de concorrer a cargos de topo, reflectindo um clima de desconfiança generalizada.

A exclusão política através de mecanismos judiciais tornouse prática recorrente em várias democracias ocidentais, alimentando suspeitas de que estruturas profundas do Estado continuam a operar longe do escrutínio público. Não admira que muitos vejam nessas decisões a mão invisível de aparelhos que nunca aceitaram perder controlo.

No mundo anglófono, a inquietação cresce. O Reino Unido, horrorizado com o rumo das antigas colónias, discute discretamente a possibilidade de se emancipar da tutela política e estratégica de Washington. Nos círculos mais exclusivos da City, multiplicamse críticas aos novos poderosos americanos, vistos como arrivistas que não compreendem a etiqueta imperial. O desconforto alastra ao Canadá, alvo de declarações intempestivas vindas de Washington, e à Austrália, cada vez menos disposta a desempenhar o papel de sentinela antichinesa num Pacífico onde a influência de Pequim não pode ser ignorada. A presença australiana numa reunião europeia de países “voluntários” foi interpretada como sinal de que Camberra procura alternativas.

(Continua)

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