VozesGuilherme Pegado e Ernesto Gherzi – Os seus contributos para a meteorologia em Macau Andreia Sofia Silva - 4 Jun 2026 Vem este texto a propósito de duas figuras históricas que percorreram caminhos ligados à Meteorologia em Macau. Trata-se de Professor Guilherme José António Dias Pegado (1803-1885), ilustre macaense pioneiro da Meteorologia de Estado em Portugal, professor de Física e Matemática na Universidade de Coimbra e na Escola Politécnica de Lisboa. Foi também o primeiro diretor do então designado “Observatório do Infante D. Luiz”, em Lisboa. O padre italiano Ernesto Gherzi (1886-1973), conhecido como “Pai dos Tufões” e autor de trabalhos científicos nas áreas da Meteorologia e da Geofísica, adquiriu a sua formação científica dentro da Companhia de Jesus e em institutos europeus. Não chegaram a ser contemporâneos, mas as obras de ambos contribuíram para o desenvolvimento da Meteorologia em Macau. Guilherme Pegado nasceu em 23 de maio de 1803, na freguesia de São Lourenço, e faleceu também em Macau, em 22 de outubro de 1885. Ernesto Gherzi nasceu em 8 de agosto de 1886, em Sanremo, Itália, e faleceu em 6 de dezembro de 1973, em Saint-Jerôme, Montreal, no Canadá. Tal como Ernesto Gherzi, que é conhecido como “Pai dos Tufões”, Guilherme Pegado pode ser considerado como o “Pai da Meteorologia” no nosso país, na medida em que foi fundador da Meteorologia de Estado em Portugal e territórios ultramarinos sob administração portuguesa, incluindo Macau, onde foi grande impulsionador das práticas meteorológicas segundo as normas internacionais. É em grande parte graças a este eminente macaense que a estação meteorológica localizada junto à sede dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau (SMG), na Taipa Grande, foi designada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) “Estação Meteorológica Centenária”. Apesar de ser relativamente recente, pois começou a funcionar quando se deu a mudança da sede dos SMG da Fortaleza do Monte para a Taipa Grande, em 1996, a OMM considerou que se cumpriram os rigorosos critérios para essa classificação, entre os quais observação sem interrupção durante pelo menos cem anos, independentemente de ter mudado de um local para outro relativamente próximo. Na realidade, as estações meteorológicas em Macau mudaram várias vezes de local. O primeiro observatório meteorológico, ainda sem instalações próprias, foi criado em 1861, no então chamado Hospital Militar. As observações eram feitas duas vezes por dia sob a responsabilidade do Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906), médico cirurgião luso-indiano, então chefe dos Serviços de Saúde do território. Os instrumentos eram devidamente aferidos na Escola Politécnica de Lisboa. No entanto, foi só a partir de 1881 que se passaram a fazer oficialmente observações com continuidade, por pessoal da Marinha, na Capitania dos Portos. Mais tarde o observatório mudou várias vezes de local: para uma dependência da Ermida da Nossa Senhora da Penha (1900); Colina de S. Jerónimo, em pavilhões das antigas dependências do Hospital do Conde de S. Januário (1904); Fortaleza do Monte (1966) e Taipa Grande (1996). Foi sob proposta de Guilherme Pegado que se deu início à construção de uma infraestrutura de observação meteorológica em Portugal, que veio a designar-se por “Observatório Meteorológico anexo à Escola Politécnica”, como consequência da aplicação do estabelecido na portaria governamental publicada em 2 de agosto de 1853. O Observatório, instalado no atual Jardim Botânico, adjacente à antiga Escola Politécnica de Lisboa, veio posteriormente a ser referido sucessivamente como “Observatório Meteorológico de Lisboa” e “Observatório do Infante D. Luiz”, em homenagem ao infante que viria a ser rei de Portugal e que nutria grande interesse pela ciência e pela Marinha. Começou a funcionar regularmente, sob a direção do cientista macaense, em 1 de outubro de 1854, seguindo as regras estabelecidas internacionalmente. Guilherme Pegado foi nomeado pelo Ministério da Marinha, em 1853, diretor científico das observações meteorológicas a bordo de navios. Divulgou em Portugal os critérios estabelecidos na “Conferência Marítima de Bruxelas” que se realizou em agosto, estendendo-se por setembro de 1853, para a uniformização das observações meteorológicas no mar. Os navios portugueses iniciaram essa prática na viagem de Lisboa para Macau da corveta D. João I, em 1853, passando-se a registar várias vezes por dia observações meteorológicas a bordo. Foi também seguindo as suas instruções que se iniciou a instalação das primeiras estruturas meteorológicas em Macau. Guilherme Pegado, além de cientista e professor universitário, foi também deputado às Cortes pelo círculo de Macau durante várias legislaturas. No que se refere ao Padre Ernesto Gherzi, este cientista desempenhou as funções de diretor do Observatório de Zikavei, de1930 a 1949. Foi impedido de voltar a Xangai depois de participar numa missão às Filipinas, onde participou num congresso científico em Manila. Após uma breve estada em Hong Kong, optou por aceitar o convite das autoridades portuguesas para trabalhar na área da Meteorologia, em Macau, onde permaneceu de 1950 a 1954. Na sequência da lei que criou oficialmente os serviços meteorológicos nos antigos territórios ultramarinos portugueses, em 1950, foi criado o Serviço Meteorológico de Macau (SMM), que anteriormente era designado simplesmente por Observatório Meteorológico. Durante dois anos o Padre Ernesto Gherzi deu forte apoio ao meteorologista português Manuel Tomás Ferreira Cabrita, que permaneceu em Macau, de 1951 a 1955, como o primeiro diretor do SMM. Apesar da lei que criou este Serviço tivesse sido promulgada em 1950, o SMM só entrou oficialmente em funcionamento em março de 1952. Foi adquirido novo equipamento e estabelecida a ligação à rede meteorológica mundial, o que permitiu o intercâmbio de informação com Manila e Hong Kong. Por iniciativa do Padre Gherzi tiveram início outras atividades nunca antes exercidas em Macau, como a observação da ionosfera. Segundo Gherzi, a observação de perturbações radioelétricas na ionosfera constituía uma boa ferramenta para a previsão da aproximação de tufões. A sua experiência como diretor do Observatório de Zikavei durante cerca de vinte anos, onde dirigiu um eficaz serviço de alerta de tufões, contribuiu grandemente para a melhoria da previsão do tempo associado a estas tempestades. Foi durante a sua estada em Macau que o Padre Gherzi escreveu o livro “Meteorology of China”, considerado um clássico, com a colaboração de Manuel Cabrita, publicado em 1951 pela Imprensa Nacional de Macau. É de salientar o interessante trabalho da historiadora britânica Priscilla Mary Roberts, no que se refere à investigação sobre o padre italiano e o seu contributo para o serviço de Meteorologia em Macau. Sobre este assunto a historiadora apresentou na sede da Fundação Rui Cunha, em 5 de novembro de 2025, a palestra intitulada “The Father of Typhoons – Ernesto Gherzi and the Macao Meteorological Service, 1950-1954”. Fica aqui a sugestão àquela Fundação, que tanto tem contribuído para a divulgação de assuntos relacionados com Macau, que coloque na sua agenda algo de semelhante no que se refere a Guilherme Pegado.