A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (III)

A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da Independência Financeira, Reforma Antecipada (FIRE na sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria. No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

Para lidar com a instabilidade no emprego criada pela IA, as pessoas com trabalhos como os designers gráficos, mencionados a semana passada, podem pensar em recorrer a várias ferramentas financeiras faseadas para os ajudar a tornar viáveis os seus planos de reforma:

1. Criar um fundo de emergência, pondo de lado o equivalente às despesas básicas efectuadas ao longo de 12 a 24 meses. Este valor deve ser distribuído por participações em contas correntes e investimentos de curto prazo, mantendo a liquidez suficiente para cobrir despesas domésticas em caso de desemprego ou de um período de transição profissional.

2. Criar um conjunto de activos tangíveis resistente à inflação comprando propriedades para arrendamento em localizações privilegiadas e REITs (Fundos de Investimento Imobiliário). Os retornos fixos proporcionam fluxo de caixa estável e, a longo prazo, combatem a inflação.

3. Criar um conjunto de activos que ofereçam dividendos comprando acções conservadores de baixa volatilidade e altos dividendos, acções de utilidade pública e ETFs de qualidade. Esta estratégia de dividendos passivos aumenta gradualmente o rendimento da reforma.

4. Criar uma protecção a longo prazo, como anuidades vitalícias, seguro de poupança participante e seguros de saúde. Desta forma as despesas de saúde e a subsistência durante velhice deixam de ser uma preocupação, prevenindo ao mesmo tempo o risco de investimento que desgastem o capital da reforma nos anos seguintes.

5. Assegurar produtos de investimento diversificados. Por exemplo, comprar ETFs de base alargada no estrangeiro e diversificar a alocação de activos para evitar riscos associados a recessões económicas numa única região ou alterações na política do sector, melhorando assim a estabilidade dos activos de reforma.

O declínio físico é inevitável com o envelhecimento, e o planeamento da reforma deve ser feito em função do nosso ciclo fisiológico. Como parte das soluções a curto prazo temos a passagem do trabalho a tempo inteiro para o trabalho a tempo parcial, para criar um equilíbrio entre o esforço e o rendimento; nas soluções a médio prazo podemos apontar a mudança de executivo para orientador profissional, auditor qualificado ou consultor, usando a experiência para gerar valor sem necessidade de grande desgaste físico e mental; nas soluções a longo prazo inclui-se a transição para serviços profissionais menos exigentes para ainda assim se obter um rendimento sustentável.

As empresas podem implementar um “sistema de consultoria”, permitindo que os executivos seniores abdicem dos seus cargos de gestão após a reforma e se tornem consultores. Desta forma a empresa preserva pessoas com experiência prática valiosa, ao mesmo tempo que abre canais de promoção para colaboradores mais jovens, criando uma situação vantajosa quer para empregadores quer para os trabalhadores.

Em termos gerais, a reforma na era da IA já não se resume a poupar dinheiro suficiente, mas sim a construir um sistema abrangente que tenha por base a “competitividade profissional + o rendimento passivo de activos + planos de seguros. O essencial do período da reforma é poder ter a liberdade de escolher, passando de ‘trabalhar para viver’ para desfrutar de uma ‘carreira baseada nos interesses pessoais’. Perante a incerteza, só priorizando as poupanças, a evolução contínua com a IA e o auto-investimento é que podemos criar uma rede de segurança para a reforma e construir uma competitividade sustentável num meio em constante mudança.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência, e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras.


Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

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