22% ao abandono

Este ano, o Dia de Cheng Ming (Dia de Finados) e o Domingo de Páscoa calharam na mesma altura, por isso muitos residentes de Macau aproveitaram os feriados consecutivos para irem para fora, enquanto muitos turistas chegavam à cidade. Como é lógico, a actividade comercial em Macau durante este período deveria ser mais intensa do que em dias normais. Ao fim da tarde do dia que se seguiu ao Domingo de Páscoa, que também era feriado, fui a um restaurante chinês perto da Praça Flor de Lodão, na Zona de Aterros do Porto Exterior (ZAPE) com alguns amigos e reparei que o restaurante tinha menos clientes do que seria esperado. Nos restaurantes circundantes a situação era semelhante, chegando a ser fácil encontrar lugar para estacionar os carros. No tempo em que os casinos-satélite estavam abertos os comerciantes desta zona enfrentavam muito menos dificuldades.

Por acaso, vi uma reportagem na televisão sobre a situação do comércio na ZAPE. O Governo da RAEM está a estudar uma forma de implementar medidas para apoiar e subsidiar os lojistas de certos bairros comunitários e para tentar transformar sua abordagem comercial, planeando introduzir e promover a instalação de esplanadas como ponto de partida. As autoridades responsáveis já avançaram com alguns projectos turísticos na ZAPE para mitigar os impactos negativos do encerramento dos casinos-satélite no comércio da zona que tiveram resultados positivos consideráveis. No entanto, segundo os proprietários de restaurantes locais, após a conclusão dos projectos para atrair turistas e locais, os seus negócios voltaram a regredir, contando quase exclusivamente com a clientela habitual que frequenta os restaurantes ocasionalmente. Mesmo com a oferta de bebidas e de petiscos não conseguiram ser atractivos, porque muitos dos jogadores deixaram de considerar a ZAPE como um destino a visitar.

Os donos dos estabelecimentos da ZAPE acreditam que a iniciativa do Governo da RAEM para introduzir esplanadas permitirá pelo menos colocar mais mesas em redor dos restaurantes, o que pode aumentar o fluxo de pessoas e melhorar a situação actual, evitando ao mesmo tempo que a ZAPE pareça tão deserta. Além disso, o responsável de uma associação situada nesta zona declarou que das cerca de 580 lojas locais, 22% fecharam. Também afirmou que as esplanadas terão de ter características especiais e que a forma de as rentabilizar irá depender do apoio aos restaurantes no seu todo.

22% de lojas ao abandono é uma quantidade significativa, que eu testemunhei pessoalmente. Mencionei previamente que o Governo da RAEM teria de ser cuidadoso nos ajustes feitos ao sector do jogo de Macau, porque a reestruturação “1+4” dos sectores económicos ainda está em curso, e actualmente a economia de Macau é dominada pelas áreas do jogo e do turismo. Com um poder de consumo limitado e perante a competição da área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, as pessoas de Macau foram-se acostumando progressivamente a comprar, a abastecer o carro e a morar em Zhuhai, na Grande Baía, aumentando assim a pressão e os desafios dos sectores comerciais de Macau. Os casinos- satélite foram um problema decorrente da liberalização do sector do jogo. Embora gerassem menos receitas para o Governo da RAEM, mantinham desde há muito uma relação simbiótica com os negociantes das proximidades. Por isso, desde que não continuassem a aumentar, a sua gradual transformação, que, a seu tempo, levaria à extinção teria sido a melhor abordagem, muito melhor do que esta mudança drástica que foi “dolorosamente rápida”.

Na varanda de minha casa, crescem muitas vezes ervas daninhas nos vasos das plantas. Quando a minha mulher pede para as tirar, insiste que tenho de “cortá-las rentes” em vez de “arrancá-las”. Para mim, arrancá-las garantiria a sua completa remoção; de outra forma, voltariam a crescer. No entanto, a minha mulher afirma que se as arrancar também vou danificar as raízes das nossas plantas. Se o crescimento das ervas daninhas for controlado, não há necessidade de optar pela técnica da “destruição mútua”.

Nos anos que se seguiram à fundação da República Popular da China, houve uma campanha nacional para a eliminação dos pardais, que eram considerados transmissores de doenças. No entanto, a eliminação em larga escala dos pardais levou ironicamente ao aumento drástico de outras doenças, que acabou por conduzir ao fim da campanha. As leis da natureza são realmente maravilhosas, e as lições que aprendemos no nosso quotidiano e com a nossa História ilustram o que acabámos de dizer.

Existem muito modelos que vale a pena considerar para melhorar os negócios da ZAPE, como a rua Sanlitun, em Pequim, Lan Kwai Fong em Hong Kong e os antigos bares de rua da Zona Nova de Aterros do Porto Exterior (NAPE). Sugiro um modelo comercial que combine esplanadas com espectáculos de rua gratuitos, que funcionem desde o pôr do sol até às 22 h, sem perturbar a vida dos residentes, mas que tragam animação e entretenimento à ZAPE. Esta será uma das opções viáveis? E por fim, os 22% de lojas ao abandono passará a ser coisa do passado ou o início de uma nova fase.

Pyongyang confirma realização de vários testes com mísseis

A Coreia do Norte reconheceu ontem ter realizado vários testes com mísseis nos últimos dias, incluindo um com um míssil balístico equipado com uma ogiva de fragmentação, confirmando as denúncias feitas anteriormente pela Coreia do Sul e Japão.

Segundo a agência noticiosa estatal norte-coreana, KCNA, os testes foram realizados nos dias 06, 07 e 08 de Abril sob a direcção do general Kim Jong Sik, vice-director de departamento do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. Um dos testes serviu para “avaliar as aplicações de combate” do míssil balístico Hwasongpho-11 Ka, equipado com uma ogiva de fragmentação.

O armamento “pode reduzir a cinzas qualquer alvo que cubra uma área de 6,5 a 7 hectares com a potência máxima”, detalhou o meio de comunicação estatal norte-coreano. Além disso, as autoridades do regime norte-coreano testaram um “sistema de armamento electromagnético e bombas de fibra de carbono” e um sistema móvel de mísseis antiaéreos de curto alcance.

Mar de enganos

O Exército sul-coreano informou esta quarta-feira do lançamento de vários projécteis da Coreia do Norte em direção ao Mar do Japão, e afirmou que também foi registado um lançamento a partir da zona de Pionyang na terça-feira.

Estes ensaios ocorreram depois de o primeiro vice-ministro dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, Jang Kum-chol, ter minimizado o recente optimismo de Seul, na sequência dos elogios da liderança de Pionyang ao Presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, pelas suas palavras conciliatórias sobre as incursões de drones civis sul-coreanos em território norte-coreano entre Setembro de 2025 e janeiro de 2026.

A Coreia do Sul tinha interpretado como um sinal positivo uma mensagem invulgar emitida esta semana por Kim Yo-jong, a influente irmã do líder norte-coreano, Kim Jong-un, na qual ela afirmava que o líder considerava que Lee demonstrou uma atitude “honesta e de mente aberta” ao expressar pesar pelas incursões dos drones.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros norte-coreano sublinhou, no entanto, que a mensagem de Kim Yo-jong não era conciliadora, mas sim um aviso para se evitar novas provocações. Antes do teste de terça-feira, o último lançamento de mísseis balísticos norte-coreanos ocorreu a 14 de Março, quando em simultâneo decorriam exercícios militares conjuntos entre Seul e Washington.

Xangai | Aguiar-Branco sublinha convergência com a China na defesa do multilateralismo

O presidente da Assembleia da República deu seguimento à sua visita à China com encontros em Pequim e Xangai, onde destacou a importância da visão de ambos os países sobre a ordem internacional

O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, destacou ontem, em Xangai, a importância do multilateralismo e da cooperação internacional, sublinhando que Portugal e China partilham uma visão comum sobre o papel das instituições internacionais.

Em declarações à agência Lusa, após um almoço com membros da comunidade portuguesa em Xangai, no segundo dia de uma visita oficial à República Popular da China, Aguiar-Branco afirmou que “há uma ideia comum da importância do multilateralismo” e da necessidade de respeitar o direito internacional na resolução de conflitos.

“A nova ordem internacional que, eventualmente, possa querer ser construída com a desvalorização do papel da Organização das Nações Unidas, não deve acontecer”, disse, acrescentando que Portugal defende o reforço do papel da ONU como “plataforma multilateralista” para alcançar consensos.

O presidente do parlamento português referiu ainda ter agradecido o apoio chinês à candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança da ONU para o biénio 2027-2028. A visita decorre no âmbito da diplomacia parlamentar e inclui encontros institucionais e contactos com autoridades chinesas, sendo acompanhada pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal – China, composto por deputados de cinco partidos.

Segundo Aguiar-Branco, esta presença multipartidária demonstra “o reconhecimento da importância da relação de Portugal com a China”, que classificou como “uma relação que deve ser estimulada e desenvolvida em benefício de ambos”. O responsável sublinhou que os laços bilaterais têm vindo a consolidar-se nas últimas duas décadas, após a assinatura da parceria estratégica entre os dois países, com crescimento “brutal” das exportações e do investimento chinês em Portugal.

Em 2025, o comércio bilateral atingiu 9,4 mil milhões de euros, representando um crescimento homólogo de 8,2 por cento. Até ao terceiro trimestre de 2025, a China foi o quinto maior país de origem do investimento estrangeiro em Portugal, com um investimento direto acumulado de 14,4 mil milhões de euros, desde 2012, segundo dados oficiais.

Confiança reforçada

Aguiar-Branco destacou também a relevância de Macau, considerando que o modelo “um país, dois sistemas” na região semiautónoma da China continua a ser reconhecido como uma base importante da relação bilateral. A 20 de Dezembro de 1999, a administração de Macau passou de Portugal para a China, sob o princípio “um país, dois sistemas”, que garante à região alto grau de autonomia, sistema jurídico próprio, moeda e passaporte próprios, distintos da China continental.

“Senti, do lado chinês, uma grande confiança no que diz respeito às relações com Portugal”, afirmou Aguiar-Branco, referindo ainda a disponibilidade para aprofundar a cooperação parlamentar e económica, nomeadamente em áreas como a transição energética e as energias renováveis. Questionado sobre a posição chinesa face à guerra na Ucrânia, reiterou que a posição portuguesa é diferente da de Pequim, mantendo-se “inequívoca” desde o início do conflito.

“Condenamos a invasão e a violação do direito internacional e defendemos o respeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia”, disse, sublinhando que Portugal mantém essa posição “sem desvio de um milímetro”. Pequim tem defendido que é neutra no conflito, mas intensificou a sua relação política e económica com Moscovo, desde a invasão da Ucrânia.

De Pequim a Macau

A visita de Aguiar-Branco ocorre num contexto de retoma dos contactos políticos presenciais de Portugal com a China após a pandemia, incluindo recentes deslocações ao mais alto nível, como a do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que esteve em Pequim em Setembro passado. Em Pequim, Aguiar-Branco reuniu-se com o vice-presidente chinês, Han Zheng, e com o Presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional da China, Zhao Leji.

Ontem, em Xangai, Aguiar-Branco participou em encontros com autoridades locais e visitou instituições culturais e de planeamento urbano, seguindo depois para Macau e Hong Kong, para contactos com as comunidades portuguesas e autoridades locais.

Coreia do Norte | Wang Yi de visita a Pyongyang

O chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, iniciou ontem uma visita de dois dias à Coreia do Norte, na mesma semana em que Pyongyang realizou vários testes com mísseis balísticos, incluindo um com uma ogiva de fragmentação.

A visita de Wang “é um passo importante para que ambas as partes ajam conforme os entendimentos comuns entre os mais altos líderes dos dois partidos e dos dois países e para impulsionar o desenvolvimento” das relações, afirmou na quarta-feira a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning.

Esta será a primeira visita de Wang à Coreia do Norte desde 2019, e ocorre a convite do ministério dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, segundo informou a agência noticiosa oficial chinesa Xinhua, sem avançar detalhes sobre a agenda ou encontros previstos.

A viagem tinha sido já anunciada pela agência estatal norte-coreana KCNA, que ontem revelou que Pyongyang realizou esta semana vários testes de mísseis (ver página 13).

A visita ocorre também num contexto em que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou a intenção de voltar a tentar organizar uma reunião com Kim Jong-un, após a tentativa falhada do ano passado, o que aumentou as expectativas de que o líder norte-americano possa aproveitar a sua passagem pela China, prevista para meados de Maio, para uma cimeira bilateral.

A visita de Wang surge após o reforço dos laços bilaterais resultante da cimeira entre o Presidente chinês, Xi Jinping, e Kim, em Setembro de 2025, após a qual os países expandiram os seus intercâmbios comerciais e reativaram ligações ferroviárias e voos que ligam ambas as nações, depois de cerca de seis anos de encerramento.

Médio Oriente | Pequim pede “calma e contenção” após ataques israelitas no Líbano

A China pediu ontem “calma e contenção” após ataques de Israel no Líbano que causaram centenas de vítimas, sublinhando, em plena trégua entre Estados Unidos e Irão, que a soberania e segurança dos países não devem ser violadas. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning afirmou, em conferência de imprensa, que “as vidas e os bens dos civis devem ser protegidos” e apelou às partes envolvidas para “promoverem um arrefecimento da situação regional”.

A responsável reiterou ainda que a China mantém contactos com as partes desde o início do conflito e manifestou o desejo de que a trégua seja aproveitada para resolver as divergências “através do diálogo e da negociação”.

As declarações surgem depois de Israel ter lançado, na quarta-feira, bombardeamentos em larga escala contra mais de uma centena de alvos no Líbano em apenas dez minutos, dos quais resultaram pelo menos 254 mortos e mais de 1.100 feridos, a maioria civis, segundo as autoridades libanesas, que decretaram um dia de luto nacional.

O ataque intensificou a tensão na frente libanesa, onde o grupo xiita Hezbollah denunciou a violação do cessar-fogo e retomou os ataques contra Israel.

A ofensiva coincide com uma trégua de duas semanas acordada entre Washington e Teerão para facilitar negociações de paz no Paquistão, com base num plano de dez pontos apresentado pelo Irão, após mais de um mês de guerra iniciada no final de Fevereiro com ataques dos EUA e de Israel contra alvos iranianos. O acordo inclui a reabertura do Estreito de Ormuz, essencial para o comércio energético global, embora persistam dúvidas quanto ao seu alcance e sobre se a frente no Líbano está abrangida pelo cessar-fogo.

Poemas de Meng Haoran traduzidos

Tradução de Rui Cascais

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

示孟郊

蔓草蔽極野

蘭芝結孤根

眾音何其繁

伯牙獨不喧

當時高深意

舉世無能分

鐘期一見知

山水千秋聞

爾其保靜節

薄俗徒云云

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Para Mostrar a Meng Jiao 1

Heras e ervas infestam tudo pela remota província,

Mas o eupatório e o cogumelo crescem a sós. 2

Emaranhadas, as melodias criam igual cacofonia.

Porém, a sós, Bo Ya nunca destoa. 3

Quando o seu sentido profundo

Ainda não era acessível ao mundo,

Zhong Ziqi logo discerniu

Mil Outonos de montanhas e rios.

Que possas suster a tua sóbria serenidade

Entre o zum-zum dos reles e vulgares.

NOTAS:

A autenticidade/autoria do poema é duvidosa, pois o poeta Meng Jiao (751–814) só nasceria onze anos após a morte de Meng Haoran.

O Eupatorium cannabinum e os cogumelos políporos são, curiosamente, uma planta e um tipo de fungos, usados na medicina tradicional pelas suas potentes qualidades purgativas. A sua presença aqui, em comparação à desarmonia, ou cacofonia, das infestantes, serve para exemplificar os aspectos virtuosos de solidão e amargura (ou “melancolia”) em que se pode fundar um encontro salubre e profícuo entre duas pessoas embebidas no remédio da rectidão. Também é interessante que Meng Jao tenha ficado conhecido como um dos poetas “amargos” (juntamente com Li He, apesar deste ser tudo menos sóbrio), o que reforça não só a natureza anacrónica e espúria do poema – um provável acrescento ao cânone de Meng Haoran–, mas também a sua singularidade. Alguém, seguramente apreciador dos dois poetas, terá tentado, assim, estabelecer um elo/diálogo entre eles através do tempo, “gizando” este poema.

Bo Ya, o lendário tocador de cítara (qin), e o seu amigo e auditor ideal, Zhong Ziqi (figura lendária do fertilíssimo Período da Primavera e Outono e um simples lenhador conhecido por distinguir as mais finas nuances da musicalidade natural das montanhas e torrentes); o entendimento entre os dois daria origem à expressão 知音 (zhīyīn), “conhecer o tom”, que descreve a mais intima, imediata compreensão entre amigos.

(五言古體詩)

遊雲門寺寄越府包戶曹徐起居

我行適諸越

夢寐懷所歡

久負獨往願

今來恣遊盤

台嶺踐嶝石

耶溪溯林湍

捨舟入香界

登閣憩旃檀

晴山秦望近

春水鏡湖寬

遠行佇應接

卑位徒勞安

白雲去久滯

滄海竭來觀

故國眇天末

朋在朝端

遲爾同攜手

何時方挂冠

Visita ao Templo da Porta da Nuvem; Enviado ao Oficial de Finanças Bao e ao Tabelião Xu da Administração Yue1

As minhas viagens trouxeram-me agora a Yue,

Onde mesmo a sonhar recordo quem me é querido.

Há muito desejava viver a expensas próprias;

Hoje posso partir e vaguear à vontade.

Numa crista de Tiantai vou pelas pedras marcadas;

No Ribeiro de Ruoye subi contra a corrente veloz pelo bosque.

Deixando o barco, entrei num reino de incenso;

Após subir a um pavilhão, descansei entre volutas de sândalo.

Eis os gentis montes, onde a vista de Qin parece já ali,

E as águas primaveris, onde o Lago do Espelho se espraia.

Nesta viagem longínqua anseio pelo nosso encontro;

Apesar de baixa condição, posso entretê-los relativamente bem.

As nuvens brancas foram-se, estão há muito presas algures;

Ao mar vigiado cheguei por fim para divisar.

O meu velho estado natal, demasiado longe para avistar, fica no fim do céu,

Mas velhos amigos estão aqui, à beira da manhã.

Há muito de devíamos estar já de braço dado,

Pendurando os chapéus de oficial quando aprouver.

O mosteiro situava-se na Montanha da Porta da Nuvem, algumas léguas a sul de Shaoxing, no Zhejiang.

Creative Macau | Nova exposição de fotografia a partir de domingo

É inaugurada este domingo, dia 12, uma nova exposição de fotografia na Creative Macau. “Human Presence” é organizada pela Halftone – Associação Fotográfica de Macau, e pode ser visitada até ao dia 5 de Maio, reunindo trabalhos de 14 membros da associação que se dedicam à fotografia de forma profissional ou amadora. Na mostra constam nomes como Carmen Serejo, Cristiana Figueiredo, Elói Scarva, Francisco Ricarte, Henry – Chao Kai Hang, Inela Kovacevic ou João Palla, entre outros.

Segundo uma nota oficial, é oferecida ao público “a interpretação [dos fotógrafos] do tema, contribuindo para uma colecção rica e visualmente diversificada”. Neste caso, o tema é a “presença humana” nomeadamente em “sociedades caracterizadas por uma variedade de expressões e representações culturais”.

Desta forma, o “foco [das imagens] vai desde a individualidade da figura humana até às formas como os indivíduos pertencem a comunidades, ambientes ou paisagens urbanas”. Esta exposição traz, assim, “um amplo espectro visual e estético, apresentando fotografia tradicional, contemporânea e conceptual, tanto a preto e branco como a cores”.

Convida-se, assim, o público a “reflectir sobre a importância da ‘Presença Humana’ na formação das sociedades e das identidades culturais”.

Livro | Obra de Huang Qichen sobre História de Macau editada em português

“História Geral de Macau” é a tradução para português de um livro editado nos anos 90 e agora revista. O académico Huang Qichen imprimiu nela os principais acontecimentos da história do território desde o tempo das dinastias imperiais até 2019, contando-se, sob a perspectiva chinesa, muitos detalhes da administração portuguesa e do relacionamento com os chineses. A obra, editada pela Caminho, foi lançada no CCCM esta quarta-feira

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) acolheu esta quarta-feira o lançamento de “História Geral de Macau – Desde a Antiguidade até 2019”, da autoria de Huang Qichen, e que ganha agora tradução para português graças ao trabalho de seis anos da professora Hu Jing. A edição no mercado editorial português esteve a cargo da Caminho, na figura de Zeferino Coelho, contando com revisão do professor Carlos Ascenso André.

Na apresentação, Zeferino Coelho, editor das obras do Prémio Nobel José Saramago, destacou a importância de ter uma obra deste género no mercado português. “Talvez há cinco anos recebemos na Leya [grupo editorial a que pertence a Caminho] uma proposta de edição da História Geral de Macau. Perguntaram-me se me interessava por isso, e eu disse que sim, sobretudo porque era um chinês a escrever sobre a história de Macau. Nunca tinha visto o que os chineses escrevem acerca da história de Macau”, descreveu.

Zeferino Coelho disse que “as coisas levaram o seu tempo, pois queria fazer uma coisa bem feita, e não em cima do joelho”, tendo o processo sido “acompanhado quase linha a linha”. “Estou muito feliz com a edição deste livro, porque não sendo historiador ou competente para falar do [conteúdo do] livro, li-o com muito gosto e parece-me de fácil leitura. É um livro de divulgação e não propriamente de investigação histórica, dando-nos aquilo que precisamos de saber, com os aspectos mais e menos agradáveis da nossa passagem por Macau. A verdade é para ser dita e deve ser entendida por todos nós”, apontou.

A sessão contou com comentários do professor Jorge Santos Alves, coordenador do Instituto de Estudos Asiáticos da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Este descreveu uma obra que “está a meio caminho entre o que costumo chamar de divulgação séria e trabalho académico”, estando também “muito satisfeito com o trabalho de tradução”, pois não se trata “de uma tradução literal ou trabalhada para um público português/ocidental”.

Novas perspectivas

Jorge Santos Alves referiu ter conhecido Huang Qichen em 1992, numa conferência que procurou reunir, na Casa Garden, em Macau, historiadores e académicos portugueses e chineses em torno da história do território.

“Não me surpreende que mais tarde, em 1999, Huang Qichen tenha editado uma história geral de Macau”, destacando esta edição agora, que constitui “o regresso de Macau ao panorama editorial comercial de Portugal”. “Na perspectiva do utilizador, é muito interessante poder contar com uma perspectiva historiográfica completamente diferente das perspectivas historiográficas ocidentais e, em particular, a portuguesa”, adiantou o docente da UCP. “Acho muito bom que os historiadores portugueses tenham contacto com a cultural dos colegas chineses, e se a tradução for como esta, tanto melhor.”

Contra mitos

Jorge Santos Alves elencou oito pontos importantes desta obra, que faz o leitor reflectir sobre a questão de Macau, as questões de soberania ou mera transferência de poderes de Portugal para a China, em 1999; ou ainda o relacionamento entre as comunidades portuguesa, macaense e chinesa.

O docente da UCP destacou, desde logo, a cronologia escolhida por Huang Qichen, focada nas dinastias do antigo império. A obra passa, portanto, pela posição de Macau no tempo das dinastias Ming e Qing, indo depois ao período republicano e até 1949, quando é fundada a República Popular da China. Seguem-se os meados do século XX e depois os anos posteriores à transição de 1999.

Jorge Santos Alves referiu outro ponto importante do livro, pelo facto de este apontar para a questão da “fundação de Macau”. “Uma das coisas que a academia chinesa faz há vários anos é recusar a ideia do mito fundacional de Macau, a ideia de que Macau não existia e que era, portanto, um pequeno porto piscatório que, de repente, foi projectado como um porto a partir do momento em que os portugueses chegam a Macau, vamos dizer por volta de 1555 ou 1557. Ora, o que o professor Huang nos mostra, e que está dentro da linha historiográfica chinesa, e que sabemos que, historiograficamente está correto, é que não há nenhuma fundação de Macau e que há, sim, toda uma linha de continuidade da presença humana, rural, comercial e também cosmopolita naquilo a que hoje chamamos Macau”, desde os tempos da antiguidade.

Deu-se depois um grande desenvolvimento no território a partir dos séculos XII e XIII, sobretudo na dinastia Ming, com Macau a tornar-se, nesses anos, “um ponto de apoio e de espera de todos os comerciantes que iam fazer negócio a Cantão”, sendo “oficialmente o porto aberto para o comércio com o grande império”.

A obra de Huang Qichen explora ainda “a ideia de que Macau é um território chinês sob administração portuguesa”, enfatizando que “Macau foi sempre, na sua essência, um território chinês”.

“Sabemos que, até do ponto de vista arquitectónico, Macau foi sempre uma cidade chinesa, e até ao século XIX falamos de uma cidade de matriz chinesa, cuja população era maioritariamente chinesa”, descreveu o docente, lembrando que o dinheiro que circulava também era chinês e onde “os principais agentes e grupos sociais e políticos eram chineses, em estreita ligação com a comunidade macaense, que foi absolutamente decisiva”.

Houve, depois, “outros agentes, a que chamaríamos metropolitanos, e que, na altura, se chamavam reinóis”. Jorge Santos Alves lembrou que “os macaenses foram, juntamente com os agentes chineses, absolutamente extraordinários para a sobrevivência de Macau”, sendo um ponto que sobressai da leitura de “História Geral de Macau”.

Que soberania?

O docente da UCP lembrou também que esta obra faz referência “à ideia de que Portugal exerceu apenas um direito de administração”, sobre o território, não sendo, portanto, uma “soberania colectiva”.

“Uma das coisas interessantes é o facto de, ao longo da obra, o professor Huang Qichen insistir na ideia de que tudo se fez através do pagamento de uma taxa de aluguer (palavras dele) no arrendamento [territorial]. Sabemos, pela documentação portuguesa, do chamado pagamento do foro de chão”, referiu Jorge Santos Alves. Foram estes pagamentos que cimentaram as relações comerciais entre os portugueses e as autoridades imperiais da dinastia Ming, algo que pode ser analisado à lupa na “História Geral de Macau”.

O livro de Huang Qichen olha ainda para outras matérias, nomeadamente os vários acordos comerciais que portugueses e chineses tentaram assinar a propósito do estabelecimento dos portugueses em Macau, incluindo o Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, a 1 de Dezembro de 1887.

Na visão de Jorge Santos Alves, “é muito interessante ver que também na perspectiva chinesa é a partir do século XIX que a presença portuguesa [em Macau] adquire uma outra característica ou modalidade, devendo ser vista no contexto mais amplo daquilo que foi o século da humilhação da China, iniciado após a Primeira Guerra Mundial, como talvez já tenham ouvido”, considerou.

Houve, depois, “um conjunto de tratados desiguais impostos à China por potências identitárias, incluindo os EUA, para poder, digamos, exercer direitos de soberania e outros relativamente a alguns territórios circunscritos”, adiantou o professor.

Essencialmente, o que Huang Qichen faz na sua “História Geral de Macau”, agora traduzida, é referir “que há uma continuidade de relações pacíficas e harmoniosas entre Portugal e a China em Macau”, tirando alguns momentos “de maior tensão”.

“Ele fala, o que me parece muito bem, do destaque da comunidade macaense, da qual muitas vezes nos esquecemos, e fazemos muito mal em nos esquecermos dela”, disse Jorge Santos Alves, que destacou também o facto de o autor da obra encarar como “aspecto positivo” Macau ser “um espaço de intercâmbio”, de “expressão sino-ocidental”.

O que os leitores podem encontrar “é uma leitura muito equilibrada da parte do professor Huang Qichen, que vê Macau como uma espécie de laboratório de interacção cultural”. Sobre a transição propriamente dita, em 1999, Huang Qichen interpreta-o como sendo “o evento da como a restauração da soberania chinesa e não como uma simples transferência de soberanias”, quando Macau “regressou à terra”.

“Repare-se no termo usado pela professora Hu Jiang [na tradução], o regresso de Macau à terra-mãe chinesa. Este ponto é essencial na narrativa contemporânea e, também, de Huang Qichen, do regresso de Macau à China após, segundo palavras dele, um período histórico anónimo, mas longo.”

Contrabando | Mulher fez-se passar por grávida em Hengqin

As autoridades de Gongbei anunciaram um caso de contrabando em que uma mulher se fez passar por uma grávida, para tentar entrar em Hengqin, vinda de Macau, com 19 quilos de grãos de prata.

O caso foi registado a 13 de Março por volta das 10h59, embora apenas tenha sido divulgado ontem. Segundo o relato citado pelo jornal Ou Mun, as autoridades na fronteira de Hengqin suspeitaram da mulher, que se encontrava ao volante de uma viatura, por considerarem que estava demasiado nervosa. Além disso, os agentes suspeitaram das formas físicas pouco naturais da interceptada.

Quando procederam à revista da mulher, aperceberam-se que não estavam diante de uma grávida, mas antes de uma pessoa que carregava 19 quilos de grãos de prata numa bolsa que simulava a barriga de uma grávida. O objectivo deste tipo de contrabando visa evitar o pagamento de impostos à entrada no Interior.

Incêndio | Fogo em residencial leva duas pessoas ao hospital

As chamas na Rua de São Paulo deflagraram por volta das 21h40 de quarta-feira, causaram dois feridos ligeiros, que tiveram de ser hospitalizados, e obrigaram a que cerca de 31 moradores tivessem de abandonar as suas habitações

Um homem e uma mulher tiveram de ser levados para o hospital, em condição estável, depois de um incêndio ter deflagrado na noite de quarta-feira, na Rua de São Paulo. Além dos feridos, houve ainda 31 pessoas que tiveram de abandonar as habitações e esperar na rua que o Corpo de Bombeiros extinguisse as chamas.

Segundo as autoridades, citadas pelo jornal Ou Mun, os feridos têm nacionalidade filipina e não correm perigo de vida. O homem, com 26 anos, transportado para o hospital apresentava feridas numa mão, que se terão ficado a dever a cortes causados por um vidro, enquanto a mulher, com 41 anos, apresentava sintomas de inalação de fumo e ainda ferimentos nas pernas. Os dois apenas conseguiram deixar o edifício devido à intervenção dos bombeiros.

As chamas deflagraram por volta das 21h40, altura em que o Corpo de Bombeiros recebeu o alerta para o incêndio. Quando chegaram ao local, os bombeiros verificaram que as chamas se encontravam activas ao nível do rés-do-chão do edifício. Durante o combate ao fogo, os bombeiros tiveram ainda de retirar da fracção três botijas de gás, que foram colocadas de forma temporária na rua enquanto decorreram as operações das autoridades.

Curto-Circuito

As investigações preliminares apontam para que o incêndio tenha tido origem num curto-circuito nos fios eléctricos, de acordo com o canal chinês da Rádio Macau. A fracção afectada era utilizada como armazém e as chamas atingiram uma área com 8 metros de comprimento e 10 metros de largura.

As chamas apanharam de surpresa cerca de 31 pessoas do edifício afectado e dos adjacentes, o que levou a que tivessem de abandonar as suas casas. Na rua, enquanto decorria o combate às chamas, era possível ver várias pessoas vestidas de pijamas, roupas de noite, algumas enroladas em toalhas, sendo que também houve moradores se fizeram acompanhar pelos animais de estimação.

No local, as equipas de salvamento disponibilizaram assistência a quem necessitou, mas apenas duas pessoas foram transportadas para o hospital.

Metro | Compras de peças custam quase 80 milhões

O Metro Ligeiro vai comprar peças à representação de Macau da Mitsubishi Heavy Industries no valor de 79,3 milhões de patacas. A informação foi revelada através do portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos (DSSGAP) e o contrato foi atribuído por ajuste directo.

As peças são indicadas como “necessárias” para a operação de manutenção dos equipamentos de grande porte do Metro Ligeiro. O contrato assinado entre as partes entrou em vigor a 27 de Março e vai prolongar-se até 31 de Março de 2028. A Mitsubishi Heavy Industries é representada em Macau pela MHI Mobilidade Macau, Sociedade Unipessoal Limitada.

Zona Sul | Obras de aterro a partir de Julho

A obra de aterro e diques no Aterro para Resíduos de Materiais de Construção, localizada na Zona Sul, vai arrancar a partir de Julho. O Governo procedeu ontem à abertura das 21 propostas recebidas para a realização das obras no âmbito do concurso público. A obra está a ser executada em duas fases, a primeira fase, na zona sudoeste, foi iniciada em Outubro de 2025.

A segunda fase que está agora a ser atribuída, fica localizada na zona sul e tem uma área de cerca de 81 mil metros quadrados. Após a conclusão das duas fases da obra, prevê-se que o aterro fique com capacidade para suportar cerca de um total de 711 mil metros quadrados de solo mole. A obra abrange a construção de canais de drenagem, de ensecadeira e de muros de contenção.

Calçada portuguesa | Defendida mudança mantendo traços originais

O arquitecto Tiago Aleixo, que na Câmara Municipal de Lisboa esteve ligado a projectos de renovação da calçada portuguesa, defende que é possível uma substituição em prol de maior segurança sem que se alterem traços históricos e fala dos casos bem-sucedidos em Lisboa

“Macau quer substituir calçada portuguesa por ser perigosa quando molhada. Este assunto não é novidade em Lisboa, pois na altura em que entrei para a Equipa do Plano de Acessibilidades, já se falava deste assunto.” Foi desta forma que o arquitecto Tiago Aleixo comentou, nas redes sociais, uma notícia de que, em Macau, se pretende substituir a calçada portuguesa em algumas zonas por questões de segurança.

A notícia foi avançada pela Lusa e data de Março. Para o arquitecto, que trabalha na Câmara Municipal de Lisboa (CML) e esteve envolvido em projectos de renovação da calçada portuguesa na capital, é possível uma substituição sem que se destruam os traços históricos e criativos deste tipo de pavimento tipicamente português.

“Continuo a dizer que a estrada evoluiu dos cubos de basalto para os betuminosos, e porque não evoluem os passeios das calçadas para lajetas, por exemplo?”, questionou na mesma publicação, feita na rede social Linkedin. Contactado pelo HM, o arquitecto adiantou que “a calçada portuguesa é um tema muito interessante e controverso”, existindo a calçada artística portuguesa, com “a mistura de duas pedras cromaticamente diferentes, e que são colocadas com mestria” e depois a calçada regular, “sem desenhos ou padrões”.

“Calçada é escorregadia”

No caso de Lisboa, o arquitecto descreve que “não se pretende radicalizar a calçada artística, que deve ser mantida e preservada”, mas cita dados que falam da perigosidade deste tipo de pavimento. “A calçada é escorregadia e provoca quedas gravíssimas, principalmente na geração mais idosa. Também para quem anda de cadeira de rodas a trepidação traz um desconforto imenso e dores. Vê-se regularmente pessoas em cadeira de rodas a preferirem o perigo de andarem na estrada em vez de andarem nos passeios pelo desconforto que a calçada produz. Temos, portanto, um problema que tem de ser resolvido”, disse.

Tiago Aleixo citou ainda dados do Plano de Acessibilidade Pedonal, da CML, quando se ouviram cerca de 200 pessoas com mais de 55 anos. Verificou-se que “metade destes já tinham caído no passeio e 92 por cento tinham medo de cair e achavam que o passeio era desconfortável”, segundo o documento.

Assim, Tiago Aleixo explica que o que foi feito em Lisboa, nomeadamente na Avenida da República, foi “criar um percurso confortável e seguro com uma largura de 1,5 metros”, sendo usados “materiais que não escorregam, como lajetas com inerte à vista ou betão branco desactivado”. Depois, “à volta deste percurso a calçada pode coexistir”, descreveu.

“Este percurso confortável é também um percurso acessível, querendo isto dizer que não pode ter qualquer obstáculo ou degrau em toda a sua extensão. Quando existe este tipo de percurso, vemos recorrentemente as pessoas a preferirem andar nele em vez de andar na calçada”, adiantou ao HM.

Para Tiago Aleixo, tanto nos casos de Lisboa como de Macau “há muitas alternativas à calçada”, mas “o mais difícil será aceitar a primeira troca por outros materiais com maior aderência e superfícies mais regulares”. O arquitecto acredita mesmo que “a calçada pode sempre coexistir com os outros materiais”.

Tiago Aleixo descreve que o padrão da calçada artística portuguesa mais conhecida é o “Mar Largo”, replicado no “Calçadão” do Rio de Janeiro e também em Macau. O arquitecto considera que existe “muita informação” sobre a calçada portuguesa, escrevendo-se “pouco sobre o quanto pode ser perigoso andar nela e quanto é desconfortável andar” nela.

No que diz respeito à notícia adiantada pela Lusa, o Instituto para os Assuntos Municipais adiantou que a calçada poderá ser substituída em certas zonas por materiais antiderrapantes, mas mantendo “o padrão e design original”. Este organismo diz que vai proceder a alterações depois de avaliar a “utilização das rodovias e os fatores ambientais em diferentes locais”, além da “paisagem e a cultura urbana” de Macau.

A calçada portuguesa foi substituída, recentemente, em algumas zonas da cidade, nomeadamente na praça de Ferreira do Amaral. O IAM disse ainda que irá seleccionar os materiais de “acordo com diferentes situações”.

Consumo | Grande Prémio arranca hoje

A partir de hoje, tem lugar a nova ronda do Grande Prémio Para o Consumo Nas Zonas Comunitárias 2026 que vai distribuir 400 milhões de patacas em descontos, durante 10 semanas. A iniciativa foi justificada pelo Governo com o objectivo de promover o consumo e incentivar os residentes a permanecerem e a consumirem em Macau durante os fins-de-semana.

Segundo o novo modelo da iniciativa, quando, entre sexta-feira e domingo, os consumidores utilizarem meios de pagamento electrónicos para contas superiores a 50 patacas ficam habilitados a três sorteios imediatos de atribuição de vales de consumo com descontos. No entanto, as carteiras virtuais nas aplicações electrónicas de pagamentos têm de estar registadas com o nome real. No caso de receberem cupões com os três sorteios, os consumidores vão poder utilizar os descontos entre segunda-feira e quinta-feira.

Os cupões têm valores de 10 patacas, 20 patacas, 50 patacas, 100 patacas e 200 patacas e podem ser utilizados em mais de 20 mil lojas. Para utilizarem os cupões, os residentes têm de fazer compras com um valor igual ou superior ao triplo do valor nominal do cupão, ou seja, se quiserem gastar um cupão de 10 patacas têm de fazer compras de pelo menos 30 patacas.

TurboJet | Reduzido horário de viagens para Hong Kong

A Turbojet anunciou uma redução do horário das ligações marítimas entre Macau e Hong Kong, a começar a partir de 15 de Abril, de acordo com o portal Macao News. Segundo os novos horários, a última partida do jacto-planador de Hong Kong para Macau (Porto Exterior) vai ser antecipada para as 22h30, quando actualmente a última viagem acontece às 23h.

No caso da última partida do Porto Exterior para Hong Kong, não há alterações, mantendo-se o horário das 23h. No caso das ligações para a Taipa, as alterações são mais significativas. As actuais três viagens diurnas de Hong Kong para Taipa vão ser reduzidas para duas, e as duas viagens diárias de Taipa para Hong Kong vão ser reduzidas para uma.

Estacionamento | Edifício Mong Son com entrada suspensa

A entrada do parque de estacionamento do Edifício Mong Son vai estar encerrada à circulação no sábado, entre das 14h e as 17h, de acordo com a informação divulgada ontem pela Direcção dos Serviço para os Assuntos de Tráfego (DSAT). O encerramento temporário foi justificado com a obra de instalação e substituição das placas informativas na entrada.

“Durante este período, o respectivo parque de estacionamento adoptará medidas provisórias de trânsito que permitem apenas as saídas e proíbem as entradas. Solicita-se a atenção dos condutores e que estes utilizem, conforme a necessidade, outras instalações de estacionamento nas proximidades. Agradece-se a compreensão pelas quaisquer inconveniências causadas”, foi comunicado pela DSAT.

Aviação | Aeroporto e Air Macau com práticas opostas

Enquanto o Aeroporto Internacional de Macau comunica o aumento de ligações no Verão, a companhia de bandeira do território tem estado a cancelar voos nos últimos dias, e a suspender rotas, justificando a acção com “razões comerciais”

O aeroporto de Macau quer expandir este Verão a rede de destinos, apesar do “desafio dos preços elevados dos combustíveis”, indicou a infra-estrutura aeroportuária.

“Perante o desafio dos elevados preços dos combustíveis, o Aeroporto Internacional de Macau [AIM] mantém uma comunicação estreita com as companhias aéreas para avançarem os planos de lançamento de rotas para a China Continental e o Nordeste Asiático em Junho e Julho deste ano, reforçando assim ainda mais a rede de rotas nacionais e internacionais”, lê-se num comunicado divulgado na quarta-feira pela CAM – Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau.

Apesar da intenção de expansão manifestada, a Air Macau, companhia de bandeira do território, tem estado a cancelar voos e a suspender rotas, de acordo com uma notícia divulgada esta semana pela emissora pública local.

A companhia de bandeira do território não avança os motivos dos cancelamentos, justificando-os apenas com “razões comerciais”, segundo “relatos de passageiros”, informou a Teledifusão de Macau (TDM), que deu conta de publicações “nas redes sociais onde têm sido publicadas as mensagens que a Air Macau tem enviado aos passageiros”. De acordo com os relatos, passageiros foram informados sobre o cancelamento das ligações e “aconselhados a contactar a transportadora para assistência”, noticiou ainda a TDM.

A TDM simulou a marcação de um voo para Jacarta, mas as ligações para a capital indonésia estão “suspensas sem aviso adicional”. A Lusa, que se deparou com o mesmo problema ao tentar marcar um voo para o mesmo destino, questionou a Air Macau sobre estes cancelamentos, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.

Política de cancelamentos

Numa pesquisa ao ‘website’ do aeroporto de Macau foi possível observar por volta das 12h00 que, para o dia de ontem, estavam canceladas 13 ligações – para vários destinos no interior da China e ainda Taiwan, Filipinas, Singapura e Malásia – sendo seis voos operados pela Air Macau, dois pela Air Asia, dois pela Shenzhen Airlines, outros dois pela China Eastern e um pela Xiamen Air.

De acordo com dados divulgados ontem pela CAM, o aeroporto de Macau registou, entre Janeiro e Março de 2026, um movimento de 2,1 milhões de passageiros, o que representa um aumento de 15 por cento face ao mesmo período do ano passado.

O número de movimentos de aeronaves alcançou 15.952, um acréscimo de 10 por cento em termos homólogos, “reflectindo um desempenho sólido” da infra-estrutura aeroportuária, lê-se ainda no comunicado. Em termos de mercado, acrescentou a CAM na nota, os passageiros oriundos do interior da China representaram 41 por cento do total, os de Taiwan corresponderam a 19 por cento e do Sudeste Asiático e Nordeste Asiático somaram 40 por cento.

No que diz respeito aos passageiros internacionais, o movimento alcançou 224 mil clientes nos dois primeiros meses do ano, um acréscimo de 11 por cento em relação ao mesmo período de 2025. Durante as férias da Páscoa e do festival de Ching Ming, entre 3 e 7 de Abril, o aeroporto registou 115 mil passageiros e 856 movimentos de aeronaves, representando aumentos de 2,6 por cento e 9,1 por cento, respectivamente, refere-se ainda no comunicado.

Segurança nacional | Sam Hou Fai destaca exposição

Sam Hou Fai, Chefe do Executivo, destacou esta quarta-feira a importância da exposição sobre a história do Exército de Libertação do Povo Chinês na Guarnição em Macau, patente no Complexo do Fórum Macau.

Ao discursar na inauguração, o governante adiantou que “é necessário aproveitar plenamente esta plataforma de educação patriótica para que os cidadãos de Macau, especialmente os jovens, possam, através das visitas, sentir de perto a história gloriosa, a força poderosa e o espírito brilhante deste exército do povo”.

Devem também os jovens entender, segundo Sam Hou Fai, que “a segurança nacional é responsabilidade de todos”. O Chefe do Executivo lembrou como o Exército tem contribuído para a implantação do princípio “um país, dois sistemas”, participando ainda “em operações de socorro em situações de emergência e actividades de interesse público”, ganhando, dessa forma, “a confiança e respeito dos compatriotas de Macau”.

Mulheres | Associação pede mais restrições ao tabaco

A Associação Geral das Mulheres defende que o Governo deve estar preparado para ajustar de forma dinâmica a área das zonas onde é proibido fumar, tendo em conta as queixas recebidas, o fluxo de visitantes e as infracções cometidas. A associação defende ainda a criação de espaços semi-abertos para fumar nas ruas

A Associação Geral das Mulheres de Macau defende que o Governo deve ajustar e aumentar as zonas em que é proibido fumar de forma dinâmica, tendo em conta o número de visitantes, as queixas recebidas e os dados sobre os locais com maiores infracções. A posição foi tomada através de um comunicado, em que a associação revelou as opiniões submetidas ao Executivo no âmbito das consultas públicas sobre as alterações do Regime de Prevenção e Controlo do Tabagismo, que decorreram até 8 de Abril.

Para a associação tradicional, é imperativo criar zonas de proibição de fumar nas ruas à frente de todas as entradas de escolas e jardins-de-infância, assim como em zonas adjacentes. No entanto, a associação defende também que se estude a criação deste tipo de zonas nas entradas e proximidades das instituições sociais, lares para idosos e instalações desportivas.

A associação defende também que sejam criadas zonas para fumadores nas ruas, adoptando um modelo de espaços semiabertos, para impedir que o fumo se propague e incomode as pessoas que não fumam. Como parte desta sugestão, a associação quer que se estude a instalação de purificadores do ar nesses espaços. A Associação das Mulheres pede ainda o fim da instalação de cinzeiros nos caixotes do lixo, por considerar que criam um mau ambiente, porque muitas vezes os cigarros não são apagados, continuando a arder e a espalhar o fumo.

Caça ao cigarro electrónico

As alterações propostas pelo Governo vão tornar a lei Prevenção e Controlo do Tabagismo de Macau uma das mais restritivas a nível mundial. E a associação pretende que essas restrições sejam colocadas em prática.

Para garantir que as pessoas apanhadas na posse de cigarros electrónicos não têm qualquer zona cinzenta para evitarem as penalizações, mesmo que sejam turistas de passagem por Macau e nem estejam a fumar, a associação defende um diploma legal que defina muito bem o conceito de posse, para evitar disputas durante o processo de execução da lei.

Ao mesmo tempo, a associação pretende que o Governo aumente as acções de sensibilização para os malefícios do tabaco nas escolas, entre as famílias e nas diferentes organizações associativas. Além disso, a associação considera necessário o reforço dos avisos sobre o controlo do tabagismo em todos os postos fronteiriços, passando as informações relevantes aos turistas através das aplicações de viagens e plataformas das redes sociais para aumentar a sensibilização para cumprir as regras.

Ainda no âmbito das medidas não punitivas, a associação sugere que os maços de tabaco deveriam ter um código QR com ligação directa para portais na internet de ajuda a deixar de fumar.

TikTok | Investidos 1.000 ME em segundo centro de dados na Finlândia

A TikTok anunciou ontem um novo investimento de 1.000 milhões de euros para abrir um segundo centro de dados na Finlândia, que se junta ao já existente desde 2025 pelo mesmo montante e no mesmo país. Segundo um comunicado enviado pela empresa à Efe, o novo centro de dados estará situado na cidade de Lahti (sul), a cerca de 60 quilómetros a oeste de Kouvola, onde se espera que as instalações anunciadas em 2025 comecem a operar ainda este ano.

Ambos os investimentos, aponta o documento, enquadram-se dentro do que a plataforma desenvolvida pela tecnológica chinesa ByteDance denomina ‘Projecto Clover’, um investimento de 12.000 milhões de euros ao longo de uma década para garantir “protecções líderes no sector para os dados de mais de 200 milhões de utilizadores europeus”.

O centro de Lahti “reforçará a capacidade da empresa para garantir o armazenamento predeterminado dos dados dos utilizadores europeus na Europa, sob rigorosos controlos de acesso e sistemas de supervisão avançados”, acrescenta. A aposta na Finlândia deve-se à “combinação única de uma sólida infraestrutura digital, acesso a energia limpa e fiável, e uma mão de obra altamente qualificada” que o país oferece, segundo o director local de Políticas Públicas, Christian Hannibal.

A rede social de vídeos curtos TikTok tem estado nos últimos anos no olho do furacão nos Estados Unidos, onde no final de Janeiro confirmou a venda da maioria das suas operações a um grupo de investidores não chineses para evitar a sua proibição, enquanto na Europa enfrenta agora uma batalha contra os reguladores, que exigem que a plataforma mude o “design viciado”.

Brasil | China diz exigir às empresas cumprimento da lei

Pequim afirmou ontem que exige às empresas chinesas o cumprimento da lei, após acusações contra a BYD no Brasil por alegadas condições laborais análogas à escravatura, sublinhando que as companhias devem operar segundo a legislação vigente.

Questionada sobre a inclusão da empresa numa “lista suja” elaborada pelas autoridades brasileiras após uma inspecção laboral num dos seus projectos, a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros Mao Ning indicou que o Governo chinês “atribui grande importância à protecção dos direitos e interesses legítimos dos trabalhadores” e reiterou que exige às empresas chinesas no estrangeiro o cumprimento da legislação em vigor.

Segundo órgãos de comunicação brasileiros, a decisão surge na sequência de uma investigação à construção de uma fábrica da BYD no estado da Baía, onde trabalhadores terão sido sujeitos a jornadas prolongadas, retenção de salários e condições de alojamento inadequadas.

As autoridades brasileiras incluíram a BYD, maior fabricante mundial de veículos eléctricos, na chamada “lista suja” de trabalho escravo, um registo oficial destinado a expor infrações laborais e que pode limitar o acesso a financiamento.

O caso remonta a uma inspecção realizada em 2024, na qual foram resgatados mais de uma centena de trabalhadores ligados a uma empresa subcontratada, num contexto em que o Ministério Público do Trabalho mantém acções judiciais contra a BYD e outras empresas envolvidas por alegadas irregularidades laborais.

Macau | IA e robótica em destaque na G2E Asia e Asian IR Expo

A edição deste ano da maior exposição de jogo da Ásia, realizada em Macau, vai pela primeira vez dar destaque à inteligência artificial (IA), robótica e outras “inovações digitais para salas de jogo”, anunciaram ontem os organizadores. A G2E Asia e Asian IR Expo, dois eventos de referência para a indústria do jogo, entretenimento e hotelaria, vão ocorrer em paralelo entre os dias 12 e 14 de Maio, no hotel-casino Venetian Macau.

De acordo com Yip Je Choong, presidente executivo da Reed Exhibitors, o foco nas tecnologias de ponta deverá atrair 8.000 profissionais da indústria do jogo, provenientes de mais de 90 países e regiões, um aumento de 33 por cento face ao ano passado.

A exposição vai ocupar uma área superior a 30.000 metros quadrados, com os organizadores a descreverem o evento como uma plataforma “para explorar inovações, trocar ideias e forjar parcerias estratégicas”. “Os participantes vão obter conhecimentos práticos e descobrir novas oportunidades para se manterem na vanguarda, num cenário cada vez mais digital”, acrescentou Yip Je Choong.

Olha o robô

A exposição Digital Innovation, por exemplo, vai contar com 150 marcas, “abrangendo todos os segmentos da cadeia de abastecimento da indústria. Entre os destaques incluem-se um bar robotizado e actuações ao vivo de uma banda musical robótica.

Tanto a G2E Asia como a Asian IR Expo vão também ser palcos para três dias de conferências, que abordarão “as tendências actuais, as tecnologias emergentes e as principais questões que moldam as respetivas indústrias”, segundo um comunicado dos organizadores. Mais de 50 sessões educativas com mais de 100 oradores vão focar-se em temas como as perspectivas para o mercado do Jogo na Ásia: tecnologia e inovação na indústria; e desenvolvimento sustentável.

Nos primeiros três meses do ano, os casinos de Macau somaram receitas totais de 65,9 mil milhões de patacas, mais 14,3 por cento do que em igual período de 2025. No ano passado, as receitas dos casinos atingiram 247,4 mil milhões de patacas, um crescimento de 9,1 por cento em comparação com 2024.

Estas receitas representaram quase 83 por cento do orçamento da região administrativa especial chinesa em 2025, através de impostos sobre o jogo.

A Dinâmica das Guerras Globais

(Continuação da edição de 2 de Abril)

A distinção entre guerras regionais e guerras mundiais é essencial para compreender a natureza dos conflitos contemporâneos. A terceira guerra do Golfo, embora frequentemente interpretada como parte de um confronto mais amplo entre modelos civilizacionais, não reuniu as características estruturais de um conflito global. Não envolveu alianças planetárias em confronto directo, nem desencadeou uma mobilização total das grandes potências.

No entanto, o modo como foi percepcionada revela a fragilidade do sistema internacional. A intervenção militar, justificada por argumentos de segurança e de ordem internacional, expôs as tensões entre unilateralismo e multilateralismo, bem como a dificuldade de estabelecer consensos sobre o uso legítimo da força. A guerra tornou-se um símbolo da crise da hegemonia e da contestação à ordem estabelecida, mas não constituiu, em si mesma, uma guerra mundial.

A confusão entre escala regional e impacto global é um dos desafios analíticos do nosso tempo. A interdependência económica, a circulação instantânea de informação e a multiplicidade de actores não estatais criam a ilusão de que qualquer conflito pode transformar-se num confronto planetário. Contudo, a guerra mundial exige condições específicas como envolvimento directo das principais potências, colapso das instituições internacionais e percepção generalizada de ameaça existencial. A terceira guerra do Golfo, apesar da sua relevância, não cumpriu estes critérios.

Se as guerras mundiais resultam de acumulação e não de planeamento, a prevenção da escalada exige mecanismos robustos de gestão de crises. A arquitectura internacional contemporânea, embora mais complexa do que a dos séculos anteriores, enfrenta limitações significativas. As instituições multilaterais, concebidas para mediar conflitos e promover a cooperação, encontram-se frequentemente paralisadas por rivalidades entre grandes potências. A incapacidade de actuar de forma eficaz em momentos críticos contribui para a erosão da confiança e para a proliferação de iniciativas unilaterais.

A prevenção da guerra exige, portanto, mais do que tratados e declarações. Requer uma cultura política que valorize a contenção, a diplomacia e a negociação. Requer também a capacidade de reconhecer sinais de declínio hegemónico e de gerir transições de poder sem recorrer à força. A história demonstra que estas condições são difíceis de alcançar, mas não impossíveis.

A ideia de que as guerras mundiais “se tornam tais por acumulação” constitui um alerta para a forma como as sociedades contemporâneas devem encarar o risco de conflito. A escalada não é inevitável, mas torna-se provável quando os Estados ignoram os sinais de deterioração da ordem internacional e persistem em estratégias que reforçam a desconfiança mútua. A convicção de que “ninguém pode recuar” é, em última análise, uma construção política e psicológica que pode e deve ser desconstruída.

A terceira guerra do Golfo, embora não tenha sido uma guerra mundial, oferece lições importantes sobre os perigos da percepção de ameaça existencial e sobre a facilidade com que conflitos regionais podem ser interpretados como confrontos globais. A compreensão destas dinâmicas é essencial para evitar que futuras crises se transformem em catástrofes de escala planetária.

Timor-Leste e Coreia do Sul com acordos nos sectores florestal e da nutrição

O Governo de Timor-Leste autorizou ontem, em Conselho de Ministros, a assinatura de acordos com a Agência Internacional da Coreia do Sul para desenvolvimento de um projecto no setor da floresta e de um programa de segurança alimentar.

O primeiro projecto de Desenvolvimento da Capacidade de Restauração Florestal e Gestão Sustentável de Timor-Leste conta com uma subvenção de cerca de seis milhões de dólares e vai ser implementado, durante seis anos, nos municípios de Baucau e Manatuto, a leste de Díli.

O objectivo do projecto, segundo o comunicado do Conselho de Ministros, é “reforçar a prevenção e degradação ambiental e promover a recuperação de ecossistemas florestais, através da modernização do centro nacional de viveiros, da implementação de programas de reflorestação e da capacitação de instituições públicas e comunidades locais”, pode ler-se no comunicado do Conselho de Ministros.

O Programa Integrado de Nutrição e Segurança Alimentar, Alimentação Escolar, Fortificação Alimentar e Infraestruturas Escolares será desenvolvido nos municípios de Baucau e Viqueque, a leste da capital timorense, Manufahi, no sul do país, e Bobonaro, a oeste de Díli, durante um período de cinco anos e conta com um financiamento de 7,2 milhões de dólares.

“Este projecto visa melhorar as condições de alimentação e nutrição escolar, através do reforço das infraestruturas e equipamentos das cozinhas escolares, da implementação de sistemas de gestão e monitorização, da fortificação alimentar e da promoção de cadeias de abastecimento baseadas na produção agrícola local”, explica o comunicado. O programa inclui também a formação para professores, auxiliares escolares e comunidade e apoio ao desenvolvimento local para abastecimento das escolas.

Combate em curso

Segundo os dados divulgados pelo Governo, 47 por cento das crianças com menos de cinco anos sofre de má nutrição crónica, 8,6 por cento de desnutrição aguda, 32 por cento têm peso abaixo do previsto e deficiências de vitamina A, ferro e iodo.

As autoridades timorenses apresentaram, em Março do ano passado, um plano de acção multissetorial de nutrição, que visa reduzir o atraso no crescimento infantil para 25 por cento até 2030 com foco nos recém-nascidos e crianças até aos 23 meses e mulheres em idade reprodutiva.

Seul | Coreia do Norte dispara “vários mísseis balísticos”

Pyongyang lançou ontem vários mísseis em direcção ao mar do Japão. Desde o início do ano, este é o quarto ensaio levado a cabo pelas forças norte-coreanas

A Coreia do Norte disparou ontem “vários mísseis balísticos não identificados”, de acordo com o exército sul-coreano, que relatou um lançamento semelhante ocorrido no dia anterior.

O exército afirmou ter detectado, durante a manhã de ontem, “vários mísseis balísticos não identificados, lançados a partir da região de Wonsan, na Coreia do Norte, em direcção ao mar do Leste”, em referência ao nome coreano do mar do Japão. Os mísseis percorreram cerca de 240 quilómetros.

Uma hora antes, o exército deu conta do lançamento, na terça-feira, de um “projéctil não identificado”, desta vez a partir da região de Pyongyang, capital norte-coreana. As manobras militares ocorrem pouco depois de Seul ter-se desculpado pelo envio de drones para o Norte por civis em Janeiro, o que foi bem recebido por Pyongyang.

O Gabinete de Segurança Nacional da Casa Azul, sede da presidência sul-coreana, realizou uma reunião de emergência após os lançamentos de mísseis, indicando ainda que, “tendo em conta o conflito em curso no Médio Oriente, as agências envolvidas receberam instruções para redobrar a vigilância, a fim de manter um estado de preparação ideal”. O gabinete “exortou a Coreia do Norte a cessar imediatamente os lançamentos de mísseis balísticos, qualificando-os de actos provocadores, que violam as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, precisou num comunicado.

Desculpas e hostilidades

Segundo analistas, estes disparos são um sinal de que a Coreia do Norte permanece indiferente à mão estendida do vizinho, apesar de a influente irmã do líder norte-coreano, Kim Yo-jong, ter qualificado de “sensata” a decisão de Lee Jae-myung de manifestar pesar pelo incidente dos drones. “O nosso governo saudou esta decisão como sendo feliz e sensata”, disse Kim.

O Presidente sul-coreano tem procurado retomar as relações bilaterais desde que foi eleito, em Junho, contrastando com a linha dura do antecessor.

“Um incidente a envolver drones civis, que não deveria ter ocorrido, teve lugar sob esta administração, e foi confirmado que um responsável do serviço nacional de inteligência e um soldado no activo estavam envolvidos”, lamentou Lee na segunda-feira. Na terça-feira, porém, um alto responsável da diplomacia norte-coreana considerou absurdas as informações divulgadas pelos meios de comunicação social sul-coreanos, que apresentaram os comentários de Kim Yo-jong de forma positiva.

“Isto ficará também nos anais como uma ‘interpretação sonhadora e cheia de esperança por parte de imbecis’ que espantam o mundo”, afirmou Jang Kum-chol, primeiro vice-ministro dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, num comunicado em inglês divulgado pela agência de notícias oficial KCNA. O responsável reafirmou que o Norte considera o Sul como o “Estado inimigo mais hostil”.

“Os disparos sucessivos e as recentes declarações [de Pyongyang] sublinham a determinação da Coreia do Norte em ignorar as tentativas do Sul de melhorar as relações intercoreanas”, resumiu Lim Eul-chul, especialista em assuntos norte-coreanos da Universidade de Kyungnam.

E vão quatro

Os lançamentos de ontem constituem o quarto teste de mísseis balísticos norte-coreanos registado desde o início do ano. Em meados de Março, as Forças Armadas sul-coreanas detetaram “cerca de dez mísseis balísticos não identificados lançados a partir da região de Sunan, na Coreia do Norte”, em direcção ao mar do Japão, quando em simultâneo decorriam exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos, que Pyongyang criticou duramente.

Sob a presidência do antecessor de Lee, Yoon Suk-yeol, as tensões entre as duas Coreias agravaram-se consideravelmente, com várias provocações de um lado e de outro, nomeadamente o lançamento de nuvens de balões com lixo lançados pelo Norte em meados de 2024, em resposta ao envio, a partir do Sul, de propaganda por activistas anti-Pyongyang.

Irão | China saúda cessar-fogo e destaca empenho diplomático

Pequim manteve contactos constantes com os países envolvidos na crise desde o início da guerra para tentar restabelecer a paz no Médio-Oriente

A China saudou ontem a trégua de duas semanas alcançada entre os Estados Unidos e o Irão, sublinhando o seu envolvimento activo nos esforços para pôr termo às hostilidades, sem avançar detalhes. O anúncio do cessar-fogo surgiu uma hora antes do fim de um ultimato do Presidente norte-americano, Donald Trump, que ameaçava “erradicar uma civilização inteira” caso Teerão não reabrisse o Estreito de Ormuz.

“A China saúda o anúncio, pelas partes envolvidas, da conclusão de um acordo de cessar-fogo”, declarou a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning, numa conferência de imprensa. Questionado na terça-feira sobre se a China tinha estado envolvida em levar o Irão à mesa de negociações para este acordo, Donald Trump respondeu: “sim, esteve”.

Instada a comentar estas declarações, Mao Ning afirmou que “desde o início da guerra no Irão, a China tem-se empenhado activamente na promoção da paz e no fim do conflito”. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, manteve 26 contactos com os seus homólogos de países envolvidos na crise, precisou a porta-voz. Mao Ning referiu ainda os contactos com o Paquistão, mediador na crise.

Na sombra

O Irão é um parceiro comercial e estratégico da China. Antes da guerra, mais de 80 por cento das exportações de petróleo iraniano tinham como destino a China, segundo a empresa de análise Kpler. A China condenou firmemente os ataques dos Estados Unidos e de Israel, tendo também criticado implicitamente os ataques iranianos contra países da região e o bloqueio do Estreito de Ormuz.

Pequim tem-se mantido discreta quanto à sua acção diplomática e aos seus contactos, nomeadamente com o Irão. “Enquanto grande potência responsável, a China continuará a desempenhar um papel construtivo e a contribuir activamente para o restabelecimento da paz e da estabilidade na região do Golfo e no Médio Oriente”, afirmou Mao Ning.