Hoje Macau VozesAs guerras que não são nossas – Uma vez mais (2.0) Por Manuel Silvério Há conflitos que nascem de grandes ideias. Outros, de grandes egos. E há ainda os mais inquietantes: os que nascem de pequenos desencontros e crescem, por falta de forma, até parecer inevitáveis. Nas comunidades, como na vida, é verdade que ninguém trabalha “para aquecer”. Todos têm objetivos, ambições e visões. Ainda assim, convém não generalizar. Há quem trabalhe com horizontes mais abrangentes, a pensar no todo, e não apenas no imediato ou no espaço que ocupa. O problema nunca foi a ambição. O problema começa quando diferentes legitimidades — umas construídas no terreno, outras afirmadas nas instituições — deixam de ser complementares e passam a disputar o mesmo espaço. Durante muito tempo, esse equilíbrio existe. Funciona até bem. Uns agregam, outros estruturam. Uns falam com muitos, outros pensam para muitos. E, enquanto cada um permanece no seu lugar, tudo parece natural. Até deixar de ser. O que era entendimento passa a expectativa. O que era expectativa passa a direito. E o que nunca chegou a ser formal passa a ser lembrado como se tivesse sido. É nesse momento que o informal colide com o institucional. E, curiosamente, é também nesse momento que todos descobrem — um pouco tarde — que os estatutos existem. Depois vem a fase mais moderna do conflito: a sua versão pública. Com textos, metáforas, leituras profundas sobre a natureza humana, a fragilidade da vida e a injustiça do mundo. Tudo muito legítimo. Tudo muito bem escrito, mas raramente suficiente para resolver o essencial. E, do outro lado, instala-se também a reação — por vezes em tom semi-público, entre insinuações, sinais de ressentimento e até acusações de traição, alimentando um galhardete aéreo que, curiosamente, dispensa o confronto direto e se sustenta à distância. Pelo meio, não faltou sequer quem apontasse a via mais elementar e mais digna: um encontro franco, direto e sem plateia, capaz de pôr termo a uma guerra aberta que há muito deixou de honrar quem nela persiste. Porque, no fim, os conflitos reais não se resolvem em parábolas — nem em campanhas verbais. Resolvem-se com clareza, com responsabilidade e, sobretudo, com a capacidade — hoje cada vez mais rara — de conversar diretamente sem plateia. Talvez o maior equívoco destes episódios seja a necessidade de transformar desacordos em narrativas épicas, como se cada decisão tivesse de carregar um simbolismo maior do que a própria realidade, como se tudo tivesse de ser uma travessia, uma luta ou uma metáfora. Nem tudo precisa de ser tão grande. Às vezes, trata-se apenas de reconhecer que houve caminhos que divergiram, decisões que alteraram equilíbrios e expectativas que não foram acauteladas. Um lê o lugar como continuidade do que foi construído; o outro, como exercício legítimo do cargo que assumiu. E quando estes dois planos não coincidem, o conflito torna-se quase inevitável. Mas inevitável não é o mesmo que interminável. Talvez ainda vá a tempo de prevalecer o bom senso sobre o ruído, a contenção sobre o impulso e a responsabilidade sobre a vaidade. Nenhum estatuto se dignifica no desgaste público, nenhuma causa se fortalece na troca de acusações, e nenhuma comunidade ganha quando os seus acabam por se consumir uns aos outros. Há momentos em que insistir deixa de ser firmeza e passa apenas a prolongar o erro. E há silêncios, recuos e conversas francas que valem mais do que muitas proclamações. Há guerras que mobilizam. Outras apenas desgastam. Há conflitos que pertencem a quem os vive. E há outros que, mesmo quando expostos, pouco acrescentam ao que verdadeiramente importa à nossa terra. E depois há aquelas que, vistas com alguma distância, nunca chegaram verdadeiramente a ser nossas — embora, de ambos os lados, haja sempre quem procure recrutar participantes. Nessas, talvez a maior prova de maturidade não seja escolher um lado. É, simplesmente, não entrar. E, quando já se entrou, saber sair a tempo.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA Dinâmica das Guerras Globais (Continuação da edição de 2 de Abril) A distinção entre guerras regionais e guerras mundiais é essencial para compreender a natureza dos conflitos contemporâneos. A terceira guerra do Golfo, embora frequentemente interpretada como parte de um confronto mais amplo entre modelos civilizacionais, não reuniu as características estruturais de um conflito global. Não envolveu alianças planetárias em confronto directo, nem desencadeou uma mobilização total das grandes potências. No entanto, o modo como foi percepcionada revela a fragilidade do sistema internacional. A intervenção militar, justificada por argumentos de segurança e de ordem internacional, expôs as tensões entre unilateralismo e multilateralismo, bem como a dificuldade de estabelecer consensos sobre o uso legítimo da força. A guerra tornou-se um símbolo da crise da hegemonia e da contestação à ordem estabelecida, mas não constituiu, em si mesma, uma guerra mundial. A confusão entre escala regional e impacto global é um dos desafios analíticos do nosso tempo. A interdependência económica, a circulação instantânea de informação e a multiplicidade de actores não estatais criam a ilusão de que qualquer conflito pode transformar-se num confronto planetário. Contudo, a guerra mundial exige condições específicas como envolvimento directo das principais potências, colapso das instituições internacionais e percepção generalizada de ameaça existencial. A terceira guerra do Golfo, apesar da sua relevância, não cumpriu estes critérios. Se as guerras mundiais resultam de acumulação e não de planeamento, a prevenção da escalada exige mecanismos robustos de gestão de crises. A arquitectura internacional contemporânea, embora mais complexa do que a dos séculos anteriores, enfrenta limitações significativas. As instituições multilaterais, concebidas para mediar conflitos e promover a cooperação, encontram-se frequentemente paralisadas por rivalidades entre grandes potências. A incapacidade de actuar de forma eficaz em momentos críticos contribui para a erosão da confiança e para a proliferação de iniciativas unilaterais. A prevenção da guerra exige, portanto, mais do que tratados e declarações. Requer uma cultura política que valorize a contenção, a diplomacia e a negociação. Requer também a capacidade de reconhecer sinais de declínio hegemónico e de gerir transições de poder sem recorrer à força. A história demonstra que estas condições são difíceis de alcançar, mas não impossíveis. A ideia de que as guerras mundiais “se tornam tais por acumulação” constitui um alerta para a forma como as sociedades contemporâneas devem encarar o risco de conflito. A escalada não é inevitável, mas torna-se provável quando os Estados ignoram os sinais de deterioração da ordem internacional e persistem em estratégias que reforçam a desconfiança mútua. A convicção de que “ninguém pode recuar” é, em última análise, uma construção política e psicológica que pode e deve ser desconstruída. A terceira guerra do Golfo, embora não tenha sido uma guerra mundial, oferece lições importantes sobre os perigos da percepção de ameaça existencial e sobre a facilidade com que conflitos regionais podem ser interpretados como confrontos globais. A compreensão destas dinâmicas é essencial para evitar que futuras crises se transformem em catástrofes de escala planetária.
Hoje Macau China / ÁsiaHong Kong | Bairro evacuado por causa de bomba da II Guerra Mundial [dropcap]M[/dropcap]ilhares de pessoas foram ontem retiradas do bairro de Wanchai, em Hong Kong, devido ao perigo de rebentamento de uma bomba de 450 quilos dos tempos da Segunda Guerra Mundial, encontrada numa zona de construção. Segundo relatos das autoridades locais, dezenas de especialistas estão a tentar desactivar o engenho explosivo, o que levou à retirada forçada de mais de quatro mil pessoas no distrito comercial e financeiro de Wanchai, um dos mais movimentados da cidade. No espaço de quatro dias é a segunda bomba dos tempos da Segunda Guerra Mundial que é encontrada naquela área urbana, onde decorrem escavações no subsolo. Uma primeira bomba de 450 quilos dos tempos da Segunda Guerra Mundial provocou na quarta-feira o encerramento de várias ruas importantes e a suspensão de serviço de balsas no bairro. “A bomba está numa situação perigosa. O mecanismo do fusível está gravemente danificado e a sua posição impede que a nossa equipa trabalhe de uma maneira eficiente”, disse ao jornal South China Morning Post o especialista em desativação de engenhos explosivos Alick McWhirte. Segundo as autoridades locais, ambos os engenhos explosivos foram lançados pela aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, ficando “incrustados no solo” sem explodir até agora.