Veículos eléctricos | Novos postos de carregamento no Cotai este ano Andreia Sofia Silva - 7 Jan 2026 Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, disse ontem, no hemiciclo, que deverá ser implementado este ano o “Projecto-piloto de postos de super carregamento para veículos ligeiros e pesados”. Uma das primeiras medidas passa pela instalação, na Rua da Patinagem do Cotai, “postos de ‘super’ carregamento para veículos ligeiros e pesados, envidando-se esforços para que entre em funcionamento em 2026”, disse o secretário em resposta a uma interpelação oral do deputado Iau Teng Pio. Na sua interpelação, o deputado Iau Teng Pio questionou o Executivo sobre a possibilidade de instalar postos de carregamento de veículos eléctricos em prédios residenciais com condomínio, mas o Governo assegurou que há entraves legais para a sua implementação. Iau Teng Pio sugeriu que a instalação de equipamentos de carregamento e de contador individual pudesse ser considerada uma “benfeitoria necessária” das partes comuns dos edifícios, mas o secretário explicou que “não estão reunidos os requisitos legais para tal, uma vez que envolve as disposições relevantes do Regime Jurídico da Administração das Partes Comuns do Condomínio”. O Executivo, em conjunto com a CEM, criou as “Instruções para o pedido de autorização de instalação de equipamentos de carregamento de veículos eléctricos nos auto-silos de edifícios privados”. Actualmente, “para lugares de estacionamento registados em regime de propriedade partilhada, basta obter o consentimento de metade dos proprietários do auto-silo, desde que a potência original de fornecimento de electricidade do edifício não seja alterada”. O deputado sugeriu ainda a revisão das disposições do Código Civil e do Regime Jurídico da Administração das Partes Comuns do Condomínio, a fim de simplificar a burocracia inerente à instalação de postos de carregamento em parques de estacionamento privados, mas da parte do Governo a resposta foi a necessidade de uma “avaliação prudente, assente na coordenação com o regime geral”.
Estudo indica que habitação pública é suficiente para cinco anos Andreia Sofia Silva - 7 Jan 2026 Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, assegurou ontem que a habitação pública construída, quer social, quer económica, é suficiente para as necessidades populacionais dos próximos cinco anos. É o que aponta um dos dois estudos sobre habitação encomendados pelo Governo. “Os resultados do estudo indicam que o número de fracções de habitação social e económica em Macau será suficiente para satisfazer as necessidades nos próximos cinco anos”, declarou Raymond Tam. Já em relação à habitação intermédia, pensada para a classe média, “não se prevê uma procura acentuada”, disse o governante, tendo em conta os resultados do estudo. O secretário falou ainda dos resultados de um segundo estudo sobre a possibilidade de permuta na habitação económica, algo que “tem elevado grau de aceitação na sociedade”. “Com base nos resultados do estudo, o Governo da RAEM vai efectuar uma avaliação científica das condições de permuta, do mecanismo de fixação de preços e restrições à sua implementação”, além de “elaborar um plano de implementação de modo a salvaguardar a distribuição equitativa dos recursos públicos”. A deputada Ella Lei lembrou que persistem “muitas limitações para pedir uma habitação económica e as exigências são muito elevadas”. “Na zona dos novos aterros há cada vez mais habitação económica e temos de ter um plano. Além da possibilidade de permuta, temos de saber se existe um mecanismo permanente para os pedidos de habitação económica, ou se um agregado familiar pode, ou não, pedir mais uma habitação”, inquiriu. Já o deputado Nick Lei lembrou, no debate, que apesar de a habitação pública ser suficiente para daqui a cinco anos, “preocupa” o tempo de atribuição das casas. “Mais de metade dos que estão agora em lista de espera candidata-se a um T1, demorando cerca de um ano a ter uma fracção. Se mudarmos para outras tipologias pode demorar até três anos. Podemos reduzir esse tempo de espera?”, questionou. Lado comercial Outros dados avançados pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, prendem-se com a residência para idosos. “Atendendo à tendência de envelhecimento demográfico, o Governo encontra-se a explorar o funcionamento da Residência segundo um modelo de exploração comercial, o que constitui uma abordagem inovadora para a promoção da chamada ‘indústria prateada’ e servindo de referência ao desenvolvimento de serviços destinados à terceira idade”, disse. Esta “indústria prateada” destina-se à terceira idade e implica uma série de serviços, foi explicado. No debate, um responsável do Governo disse que “vão ser avaliados os preços do mercado a fim de ser definida uma renda para as fracções dos idosos”, além de que alguns dos idosos que vivem na Residência recebem apoios dos familiares, disse. O secretário adiantou ainda que o Instituto de Acção Social “encontra-se a proceder à revisão, compilação e análise dos dados relativos à utilização e ao funcionamento da Residência”, sendo que no final do ano passado foi realizado um inquérito. Estudo indica que habitação pública é suficiente para cinco anos Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, assegurou ontem que a habitação pública construída, quer social, quer económica, é suficiente para as necessidades populacionais dos próximos cinco anos. É o que aponta um dos dois estudos sobre habitação encomendados pelo Governo. “Os resultados do estudo indicam que o número de fracções de habitação social e económica em Macau será suficiente para satisfazer as necessidades nos próximos cinco anos”, declarou Raymond Tam. Já em relação à habitação intermédia, pensada para a classe média, “não se prevê uma procura acentuada”, disse o governante, tendo em conta os resultados do estudo. O secretário falou ainda dos resultados de um segundo estudo sobre a possibilidade de permuta na habitação económica, algo que “tem elevado grau de aceitação na sociedade”. “Com base nos resultados do estudo, o Governo da RAEM vai efectuar uma avaliação científica das condições de permuta, do mecanismo de fixação de preços e restrições à sua implementação”, além de “elaborar um plano de implementação de modo a salvaguardar a distribuição equitativa dos recursos públicos”. A deputada Ella Lei lembrou que persistem “muitas limitações para pedir uma habitação económica e as exigências são muito elevadas”. “Na zona dos novos aterros há cada vez mais habitação económica e temos de ter um plano. Além da possibilidade de permuta, temos de saber se existe um mecanismo permanente para os pedidos de habitação económica, ou se um agregado familiar pode, ou não, pedir mais uma habitação”, inquiriu. Já o deputado Nick Lei lembrou, no debate, que apesar de a habitação pública ser suficiente para daqui a cinco anos, “preocupa” o tempo de atribuição das casas. “Mais de metade dos que estão agora em lista de espera candidata-se a um T1, demorando cerca de um ano a ter uma fracção. Se mudarmos para outras tipologias pode demorar até três anos. Podemos reduzir esse tempo de espera?”, questionou. Lado comercial Outros dados avançados pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, prendem-se com a residência para idosos. “Atendendo à tendência de envelhecimento demográfico, o Governo encontra-se a explorar o funcionamento da Residência segundo um modelo de exploração comercial, o que constitui uma abordagem inovadora para a promoção da chamada ‘indústria prateada’ e servindo de referência ao desenvolvimento de serviços destinados à terceira idade”, disse. Esta “indústria prateada” destina-se à terceira idade e implica uma série de serviços, foi explicado. No debate, um responsável do Governo disse que “vão ser avaliados os preços do mercado a fim de ser definida uma renda para as fracções dos idosos”, além de que alguns dos idosos que vivem na Residência recebem apoios dos familiares, disse. O secretário adiantou ainda que o Instituto de Acção Social “encontra-se a proceder à revisão, compilação e análise dos dados relativos à utilização e ao funcionamento da Residência”, sendo que no final do ano passado foi realizado um inquérito.
Coloane | Governo promete resolver falhas no abastecimento eléctrico Andreia Sofia Silva - 7 Jan 2026 O deputado Leong Sun Iok denunciou as alegadas falhas no abastecimento de electricidade em algumas zonas rurais de Coloane, referindo que a potência contratada não é suficiente. O Governo fala em 26 mil famílias com uma potência de 3.400 KV, que considera suficiente, e promete resolver questões legislativas relativas à propriedade Há casas na vila de Coloane com baixa potência de electricidade, onde ligar dois electrodomésticos ao mesmo tempo pode fazer disparar o quadro da luz. A denúncia partiu do deputado Leong Sun Iok numa interpelação oral apresentada ontem na Assembleia Legislativa (AL). “Tenho recebido queixas dos moradores de bairros antigos das Ilhas, especialmente dos que residem em casas rurais, dizendo que a actual capacidade eléctrica não consegue satisfazer as necessidades dos dias de hoje”, disse. Ainda segundo Leong Sun Iok, os residentes dizem que “a maior parte dos contadores eléctricos foi instalada no século passado e a potência é baixa para os electrodomésticos utilizados na sociedade actual”. Na resposta ao deputado, o secretário Raymond Tam, com a tutela dos Transportes e Obras Públicas, começou por dizer que “actualmente encontra-se assegurado o abastecimento em todo o território”, embora Leong Sun Iok tenha feito um contraponto, dizendo que “há uma grande discrepância no abastecimento de electricidade”. O deputado pediu mesmo a Raymond Tam para se deslocar a estas povoações com a sua equipa. “Queria que fosse verificar, in loco, com os funcionários dos serviços da sua tutela para ver essa discrepância.” Raymond Tam citou dados fornecidos pela CEM – Companhia de Electricidade de Macau, sobre a existência de cerca de 26 mil famílias nestas casas. De frisar que muitas delas têm a propriedade registada em antigos papéis de seda, o que traz problemas de legalização, não permitindo, por vezes, mudar os contratos de luz e água. “Os serviços competentes têm acompanhado a situação das zonas antigas das ilhas, incluindo onde existem obras ilegais. Trata-se de problemas históricos. Há barracas construídas com betão e cimento e, em princípio, já não existem barracas de madeira. Penso que a potência de 3.400 KV é suficiente”, explicou o secretário, referindo que os gastos de luz e necessidades variam de família para família. Problema legal Na sua interpelação oral, o deputado Leong Sun Iok lembrou que “devido a razões históricas, há proprietários de alguns prédios das Ilhas que não viram os seus pedidos aceites para o aumento da potência eléctrica”, pelo que “não conseguiram resolver o problema”. Raymond Tam assegurou que não vão ser permitidas legalizações de situações ilegais. “Temos uma atitude aberta em relação à revisão legislativa, mas temos primeiro de pensar como vamos prestar serviços a utentes que reúnam as condições. Merece a nossa atenção um pedido de aumento da potência, ou a instalação de um contador de luz e água, sem direito de propriedade? Será que as empresas devem permitir a instalação? Vamos analisar as circunstâncias em que os pedidos devem ser aprovados.” O secretário disse ainda esperar “que a sociedade compreenda a situação que o Governo enfrenta”. “Não podemos abrir precedentes a casos ilegais”, clarificou.
Sofia Ferreira da Silva, autora de um estudo sobre ópera nos anos de Mao: “Rota da Seda foi a maior influência” Andreia Sofia Silva - 7 Jan 2026 Em “Cantando a Revolução: O Papel das Cancões e da Ópera na Disseminação do Comunismo na China de Mao Zedong”, Sofia Ferreira da Silva analisa a forma como canções e ópera difundiram ideais políticos, deixando marcas no panorama cultural do país. A análise saiu da tese de doutoramento em Estudos Artísticos, defendida pela autora na Universidade Nova de Lisboa Como era o ambiente musical no país antes da chegada de Mao Zedong ao poder? A China era, e continua a ser, um território com uma enorme variedade de práticas a nível regional, local e étnico. Podemos falar em quatro tipos principais: uma música de carácter mais erudito, simbolizada pela música de corte (yayue) e pela música para guqin, mais centrada em ideais confucianos e com funções rituais e de auto-cultivo da moral individual; música folclórica, com géneros vocais e instrumentais variáveis conforme a região e a etnia; música religiosa taoísta, budista e de outras crenças; e ópera tradicional, como a Kunqu e as óperas de Pequim, de Sichuan e de Cantão, combinando canto, declamação, movimentos estilizados e artes marciais. A maior influência na música chinesa foi, porventura, a Rota da Seda, pois uma boa parte dos instrumentos musicais que agora são considerados “chineses”, como o erhu, a pipa, a suona e o sanxian, têm origem em instrumentos estrangeiros trazidos para território chinês, e que foram gradualmente adaptados e incorporados na sua música. Por outro lado, alguns géneros narrativos e operáticos evoluíram da adaptação e combinação de congéneres provenientes dos territórios atravessados por esta rota. Não fosse a Rota da Seda, e a música chinesa tradicional seria radicalmente diferente. Que outras influências existem? A outra grande influência é a da música ocidental. Esta, apesar de ter entrado no país nos séculos XVI e XVII, fez-se sentir com maior intensidade a partir de meados do século XIX e ao longo do século XX. A crescente presença e influência estrangeira levou à introdução sistemática da notação ocidental, da formação académica em moldes europeus e de géneros de música erudita e popular ocidentais, que viriam a ser assimilados de forma variável por compositores chineses, como Ma Sicong, Li Jinhui ou Xian Xinghai, combinando-as ou não com motivos da música tradicional. Fala, na tese, de duas grandes mudanças nos anos de Mao, com a criação dos chamados “espectáculos-modelo (yangbanxi)” e as óperas de Pequim revolucionárias. De que forma estes formatos ajudaram a reformular o cenário musical da época? Os espectáculos-modelo, nos quais se inserem as óperas de Pequim, e as canções revolucionárias, desempenharam um importante papel na reforma do panorama musical maoísta, implicando mudanças não apenas nos estilos musicais, mas também na função social da música. A produção passou a estar inteiramente subordinada ao projecto político do Partido Comunista Chinês (PCC), traduzindo-se na adesão obrigatória de artistas e associações artísticas designadas, e na supressão, através da crítica nos órgãos de comunicação social, de elementos ou géneros musicais considerados “feudais”, “burgueses” ou “supersticiosos”. Por oposição, e acompanhando sucessivos movimentos e campanhas políticas, foram sendo promovidos outros formatos, mais em linha com os ideais do regime. Como, em termos concretos? No caso das “yangbanxi”, da Revolução Cultural, o facto de serem apelidadas de “modelo” implicava que todas as novas criações deveriam seguir à risca os preceitos estéticos estabelecidos através destas, sobretudo as regras da “tarefa básica”, com a construção de figuras heroicas revolucionárias como fim último da criação artística. Havia ainda as “Três Proeminências”, com a atribuição de maior ou menor proeminência a determinada personagem consoante o seu grau de positividade ou negatividade, da sua função na trama. Estas regras orientavam não apenas a estrutura narrativa e o papel das personagens, mas também aspectos como a integração entre música e gestualidade, a construção de figurinos e cenários, e a harmonia entre elementos musicais tradicionais e ocidentais. Esta codificação visaria, nesta medida, garantir a uniformidade ideológica e estética essenciais à criação de uma cultura musical controlada, funcional e politicamente eficaz no quadro dos objectivos da revolução. Quais as principais mensagens políticas transmitidas através destes dois tipos de espectáculos? A primeira grande ideia é a lealdade quase religiosa a Mao Zedong e a observância incondicional das suas ideias. É o seu pensamento que inspira e guia as acções dos heróis e personagens heroicas, a segunda mais importante categoria de personagens nas óperas revolucionárias, e as conduz à conclusão bem-sucedida da missão que lhes seria imputada ou ao sacrifício heroico em prol da causa comunista. A segunda é a luta de classes como motor da história. Temos, por um lado, a classe opressora, capitalista, imperialista e feudal como vilã, e por outro o povo trabalhador, explorado e oprimido pela primeira, sofredor das maiores tormentas às suas mãos. Os conflitos e situações difíceis atravessadas pelos heróis ou outras personagens positivas, como a morte de familiares, a prisão ou escravidão, eram sempre a expressão directa dessa luta, e a sua resolução só adviria da postura revolucionária e da assunção de um papel activo na construção do socialismo. E a terceira ideia presente nos espectáculos? Trata-se do colectivismo, pois um verdadeiro revolucionário coloca os interesses do Partido e do Povo acima de qualquer sonho ou desejo individual. Por mais destacado que seja o seu papel, o herói precisa do apoio popular para a conclusão da sua missão: as suas aspirações são as aspirações do povo, e é na solidariedade entre todos que se superam as dificuldades e se alcança a tão desejada harmonia socialista. A realização pessoal só tem valor se estiver ao serviço da causa colectiva, e o sacrifício individual é glorificado quando contribui para o progresso comum. As óperas promovem, nesta medida, uma visão de mundo onde a identidade individual se dissolve na identidade do colectivo revolucionário, e onde a participação activa das massas é não só desejável, mas necessária. Estes foram anos do chamado maoísmo cultural, como refere na tese. Como se caracteriza? O maoísmo cultural apresenta pontos de contacto no que toca à subordinação da arte à política, à valorização do quotidiano das massas como matéria-prima da criação e à defesa da sua ampla popularização. Contudo, distingue-se pela ênfase na proletarização do próprio artista, que deveria abandonar a sua posição de intelectual afastado e tornar-se membro activo do povo trabalhador, aprendendo através da prática e inserindo-se nas suas lutas quotidianas. Quais as principais influências deste movimento? Além da matriz marxista-leninista, o maoísmo cultural ficaria marcado por influências confucianas, atribuindo à arte uma função ética e formativa, pois tal como em Confúcio, Mêncio ou Xunzi, a arte moldava o carácter. No entanto, no contexto maoista, esta moldagem era canalizada para a construção da consciência socialista e para a erradicação dos vestígios da mentalidade burguesa. Um dos princípios centrais desta política foi a “linha de massas”, uma espécie de dinâmica cultural circular em que as ideias e expressões populares eram recolhidas e sistematizadas pelo Partido, antes de serem devolvidas ao povo de forma mais clara e politicamente orientada. Outro aspecto a considerar é a valorização da herança cultural nativa e estrangeira, condensada na máxima “usar o passado para servir o presente, usar o estrangeiro para servir a China”. De que forma? Para a criação de novos trabalhos artísticos, Mao recomendava o estudo inicial de obras ocidentais, tidas como “científicas” e tecnicamente superiores, antes da incorporação selectiva de elementos da tradição chinesa. Em ambos os casos, o valor das formas artísticas residia na sua função social e política, não na sua preservação enquanto património. Neste contexto, o líder do PCC propôs dois critérios para a avaliação artística: o político, que exigia a promoção da unidade nacional e a rejeição de ideias contrárias ao Partido; e o artístico, que pressupunha rigor técnico e estético seguindo uma noção abstrata de “critérios científicos da arte” ao serviço das massas. Esta dupla exigência substituía, no maoísmo, a distinção confuciana entre qualidade moral e qualidade estética. Nestes anos, quais foram as grandes influências na composição de canções? A composição de canções foi grandemente influenciada por duas grandes tradições musicais: a nativa, com o emprego de melodias e motivos regionais e das várias minorias étnicas que compõem o território; e a ocidental, na qual incluo a tradição musical soviética, mais visível em marchas e nas chamadas “canções artísticas”, que poderão ser entendidas como uma espécie de ‘lieder’ revolucionários ou de conteúdo altamente politizado. A influência de cada uma delas era mais ou menos visível consoante a situação política do território. De que forma os anos do “maoísmo cultural” alteraram o panorama musical do país? Alguns aspectos da produção das óperas da Revolução Cultural, como a introdução da orquestra ocidental e o emprego de técnicas provenientes da música ocidental, a incorporação de cenários mais realistas e o carácter melodramático das histórias influenciaram e continuam a influenciar a produção de novas óperas de Pequim, sobretudo as de temáticas contemporâneas ou históricas referentes ao séc. XX. Ao longo dos últimos 30 anos, têm vindo também a ser produzidas óperas de temas históricos com alguns destes elementos, sobretudo ao nível da música e cenários, como “Cao Cao e Yang Xiu”. Também na interpretação de óperas tradicionais se observam alguns resquícios deste período, especialmente na apresentação de árias ou excertos em programas televisivos. Vejo inúmeras representações que combinam, assim como no repertório revolucionário, arranjos com orquestra ocidental e cenários realistas, com recurso extensivo a novas tecnologias. No entanto, aquele que considero ser o maior resquício das óperas revolucionárias será, talvez, uma maior audácia artística da parte dos criadores de novas óperas. É uma questão que merece maior aprofundamento por parte da academia, mas, das minhas observações enquanto espectadora, noto uma maior abertura à incorporação de elementos de outras artes, como a dança e o teatro, e uma maior complexidade nas personagens, especialmente aquelas consideradas negativas, menos antagónicas, com mais nuances no que toca às motivações para agirem de determinada forma. É óbvio que o sofrimento psicológico infligido por estas óperas em toda uma geração de chineses é inegável e não pode, em circunstância alguma, ser esquecido; no entanto, as óperas-modelo impulsionaram o ímpeto criativo de compositores e libretistas, em linha com o processo evolutivo, de fusão com outras artes, da Ópera de Pequim ao longo dos séculos.
Mais uma cantora japonesa com concerto cancelado em Macau Hoje Macau - 6 Jan 2026 A cantora japonesa Mika Nakashima anunciou o cancelamento, “devido a circunstâncias incontornáveis”, de um concerto previsto para 14 de Março em Macau, numa altura em que se vivem tensões diplomáticas entre Pequim e Tóquio. Num comunicado publicado na página oficial de Nakashima na Internet, a artista sublinhou que está “em negociações para reagendar o concerto”, que estava marcado para o hotel-casino Londoner Macau, e agradece a compreensão dos fãs. O concerto em Macau seria o primeiro de uma digressão asiática da cantora e actriz de 42 anos, que continua a incluir passagens por Banguecoque, Taipé, Kuala Lumpur, Seul, Osaka e Tóquio. Em 12 de Dezembro, o Governo de Macau negou qualquer interferência no cancelamento de pelo menos três concertos com artistas japoneses marcados para a região e garantiu que se trataram apenas de decisões comerciais dos organizadores. “Acho que diferentes partes têm os seus factores de ponderação”, disse, numa conferência de imprensa, a presidente do Instituto Cultural, Deland Leong Wai Man. “É normal ter ajustamentos sobre concertos ou diferentes eventos. Situações de cancelamento por força maior, é algo corrente”, acrescentou. Porém, a vaga de cancelamentos tem afectado apenas eventos com artistas japoneses. Em 9 de Dezembro, o hotel-casino Venetian Macau – que pertence ao mesmo grupo do Londoner Macau – anunciou o cancelamento de um concerto da cantora de ‘pop’ japonesa Ayumi Hamasaki, em 10 de Janeiro. Isto após o espetáculo de Hamasaki em Xangai, em 29 de Novembro, ter sido cancelado. Um dia antes, tinha também sido cancelado um espectáculo de Natal, previsto para 25 de Dezembro no Studio City, que incluía a banda feminina Say My Name, que integra as japonesas Hitomi Honda e Terada Mei. No mesmo dia, foi cancelado um terceiro espectáculo, desta vez da banda Hi-Fi Un!corn, grupo que integra artistas japoneses, marcado para 21 de Dezembro num terceiro hotel-casino, Galaxy Macau. Pura coincidência Questionada pela Lusa sobre se havia indicações do Governo para a não realização de eventos culturais com artistas do Japão, Deland Leong Wai Man garantiu que “esta é uma questão do sector comercial, é uma decisão do organizador”. “Não tenho mais nada a acrescentar”, sublinhou a dirigente. Em 15 de Novembro, Macau seguiu o exemplo de Pequim e desaconselhou deslocações ao Japão, “dado que a partir de meados deste ano, a tendência de ocorrência de ataques no Japão contra cidadãos chineses tem vindo a aumentar”.
Como lidar com 5,8 Milhões (I) David Chan - 6 Jan 2026 Uma jovem canadiana de 20 anos ganhou a lotaria e ficou perante duas opções: na primeira, recebia de uma vez um milhão de dólares canadianos, equivalente a 5,8 milhões de patacas. Na segunda, recebia 1.000 dólares todas as semanas, equivalente a 5,800 patacas, até morrer. A escolha da rapariga desencadeou acesas discussões online. Em última análise, quem não sonha em ganhar a lotaria? Quem é que não anseia por dinheiro caído do céu? Se o leitor ganhasse hoje o jackpot em Macau, o que escolheria? Consideremos os seguintes dados antes de tomar uma decisão. Em primeiro lugar, vamos assumir que um dólar canadiano continua a valer 5,8 patacas. Em segundo lugar, todos os números são estimativas para facilitar o cálculo. Em terceiro lugar, projectos com retorno sobre o investimento inferior a 4% não são aceites. Além disso, os investimentos são afectados por muitos factores; um retorno de 4% é apenas um indicador teórico e não uma garantia de lucro. Os dados publicados online mostram que o rendimento médio mensal no Canadá é de 5,600 dólares, equivalente a 32.000 patacas. Em 2024, o preço de um apartamento com 65 metros quadrados variava entre 300.000 e 1 milhão de dólares. Os activos médios das famílias eram de 1,03 milhões de dólares, equivalente a 6 milhões de patacas. Por regra, os canadianos têm como objectivo poupar 1 milhão como fundo para a reforma. Cada milhão pode gerar entre 5.000 a 6.000 dólares por mês, o que combinado com a pensão atribuída pelo Governo, garante segurança. A esperança de vida das mulheres canadianas é de 85 anos. Em Macau, o rendimento mensal médio ronda as 20.000 patacas. O preço de um apartamento com 65 metros quadrados situa-se entre os 3 e os 8 milhões de patacas. Em Abril de 2024, a poupança média por residente de Macau era de 1,4 milhões de patacas. Não existem dados online que indiquem qual é o valor que os residentes da cidade ambicionam ter no fundo de reforma. Tendo em consideração o actual sistema de pensões de reforma de Macau, os pensionistas recebem mensalmente 3,900 patacas. O subsídio anual para residentes seniores é 10.000 patacas, mais 10,000 patacas em cash sharing e 7.000 patacas anuais do Fundo de Previdência Central não obrigatório. Cada residente de Macau recebe a partir dos 65 anos 6.500 patacas por mês. Este cálculo não inclui os vouchers médicos, os subsídios de transporte, os subsídios para a electricidade, etc, dados pelo Governo. A esperança de vida das mulheres residentes em Macau é de 88 anos. Comparando os dois conjuntos de dados, podemos verificar que se a jovem optasse por receber o milhão de dólares de uma vez, poderia comprar um apartamento com 65 metros quadrados, resolvendo o problema da habitação. Um milhão representa as poupanças de uma família canadiana e o objectivo do fundo de reforma. O retorno deste montante proporcionaria uma reforma em segurança. Em Macau, 5.8 milhões de patacas podem ajudar a comprar um típico apartamento de 65 metros quadrados. Se os bens de cada residente da cidade atingem 1milhão e 400 mil patacas, uma família de 4 pessoas terá no seu conjunto bens no valor 5,6 milhões de patacas. Com 5,8 milhões de patacas, a vida familiar estaria mais estável. 5,8 milhões de patacas podem proporcionar um fundo de reforma estável, no entanto isso depende de cada pessoa; de qualquer forma, com um retorno de 4%, rende 19.000 patacas por mês. Do ponto de vista do residente comum, é apenas um rendimento extra. Combinado com os valores mensais que recebe da segurança social de Macau, 6.500 patacas, o rendimento durante a reforma seria de 26.000 patacas por mês, valor que proporciona uma segurança considerável. Se a jovem escolher receber 1.000 dólares por semana, receberá o equivalente a 52.000 patacas por ano. Embora este valor não atinja o rendimento mensal médio no Canadá, fica próximo da média. Uma situação semelhante ocorre em Macau, onde os vencedores da lotaria recebem um rendimento mensal, também próximo da média. Na próxima semana, continuaremos a analisar as diferentes consequências de cada uma das opções. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnicade Macau Email: cbchan@mpu.edu.mo
Hong Kong | Mais de 150 pessoas retiradas de bairro social após incêndio Hoje Macau - 6 Jan 2026 Mais de 150 residentes tiveram ontem de ser retirados de um complexo de habitação pública em Hong Kong, devido ao segundo incêndio a atingir um bairro social em dois dias. De acordo com o jornal South China Morning Post (SCMP), o alerta foi dado por volta das 02h20 de segunda-feira, e podia ser visto fumo espesso a sair de um apartamento do 33.º andar no edifício Tai Yuan, na zona de Tsuen Wan, nos Novos Territórios. Os bombeiros arrombaram a porta do apartamento e salvaram a moradora de 63 anos, de apelido Chan, que se tinha refugiado no quarto de banho. A idosa foi levada para o Hospital Princess Margaret. Uma fonte policial, citada pelo SCMP disse que a idosa terá acendido uma vela antes de adormecer e que a chama se alastrou a outros objectos na casa. O incêndio foi extinto enquanto mais de 150 moradores foram aconselhados pelos bombeiros a esperar no rés-do-chão do bairro social até que a situação estivesse controlada. Este é o segundo incêndio a atingir habitação pública em Hong Kong em dois dias. No domingo, pelo menos uma pessoa morreu e oito ficaram feridas num incêndio que atingiu o edifício Mei Yue, no bairro Shek Kip Mei, em Kowloon, no centro da região. De acordo com a imprensa local, os bombeiros acreditam que um curto-circuito eléctrico poderá ter causado as chamas, que obrigaram à retirada de mais de 270 moradores do bairro social. O subchefe interino do departamento de Serviços de Incêndios, Yip Kam-kong, afirmou que o equipamento de combate às chamas estava a funcionar correctamente no edifício, negando relatos de uma mangueira de incêndio com defeito no 21.º andar.
Economia | Primeiro-ministro irlandês defende “livre comércio” Hoje Macau - 6 Jan 2026 O primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, defendeu ontem o “livre comércio” durante um encontro com o Presidente chinês, Xi Jinping, num momento de crescentes tensões comerciais entre Pequim e a União Europeia. “Acreditamos no livre comércio, em boas relações, e, no que respeita em particular ao comércio, acreditamos que é fundamental trabalharmos juntos para o promover”, afirmou Martin, numa reunião com Xi no Grande Palácio do Povo, em Pequim. A visita de cinco dias à China é a primeira de um chefe de Governo irlandês desde 2012 e visa reforçar os laços bilaterais, numa altura em que Dublin se prepara para assumir, em julho, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia. Xi Jinping saudou a evolução das relações sino-irlandesas e sublinhou que o volume de comércio bilateral “quadruplicou” desde 2012, quando os dois países estabeleceram uma parceria estratégica mutuamente benéfica. “A China deseja reforçar a comunicação estratégica com a Irlanda, aprofundar a confiança política mútua e ampliar a cooperação concreta, em benefício dos dois povos e para impulsionar as relações sino-europeias”, declarou o chefe de Estado chinês. Martin deverá ainda reunir-se com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, antes de se deslocar a Xangai, o centro financeiro da China. Segundo dados do Governo irlandês, a China é o principal parceiro comercial da Irlanda na Ásia e o quinto maior a nível global. A Irlanda exporta sobretudo equipamentos médicos, produtos farmacêuticos, bens agroalimentares e serviços informáticos e financeiros para o mercado chinês. O encontro decorre num contexto de crescente alarme por parte da UE face ao desequilíbrio comercial com a China, com Bruxelas a acusar Pequim de dificultar o acesso ao seu mercado interno.
Venezuela | China alerta para risco de instabilidade na América Latina Hoje Macau - 6 Jan 2026 Pequim voltou ontem a reclamar a “libertação imediata” do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e alertou para o risco de instabilidade na América Latina. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês sublinhou que nenhum país se pode assumir como juiz mundial O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, afirmou ontem que a China “não aceitará que nenhum país se assuma como juiz do mundo”, após a detenção do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, numa operação norte-americana. “Nunca considerámos que algum país possa agir como ‘polícia do mundo’, nem aceitaremos que se autoproclame ‘juiz do mundo’”, declarou Wang, numa reunião em Pequim com o homólogo paquistanês, Ishaq Dar. A declaração surge após os Estados Unidos terem raptado Maduro e a esposa, Cilia Flores, no sábado, numa operação militar surpresa, transportando-os para Nova Iorque, onde aguardam julgamento por “narcoterrorismo”. “O panorama internacional está cada vez mais turbulento e complexo”, disse Wang Yi, denunciando o que classificou como fenómenos de “unilateralismo” e “abuso hegemónico” nas relações internacionais. Pequim reiterou que se opõe “de forma consistente” ao uso ou ameaça do uso da força, bem como à imposição da vontade de um Estado sobre outros. Wang acrescentou que a China está disposta a trabalhar com a comunidade internacional, “incluindo o Paquistão”, para defender a Carta das Nações Unidas, “salvaguardar a linha mínima da moral internacional” e promover a construção de uma “comunidade de destino comum da humanidade”. Por outra voz “O uso da força pelos Estados Unidos (EUA) viola claramente o direito internacional e os princípios fundamentais das relações internacionais”, afirmou também o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, durante uma conferência de imprensa em Pequim. Lin manifestou “profunda preocupação” com a detenção de Maduro e da sua esposa, Cilia Flores, e instou Washington a “garantir a sua segurança pessoal” enquanto permanecerem fora da Venezuela, além de exigir a sua libertação. O porta-voz denunciou o “uso descarado da força” contra um país soberano, acusando os EUA de “ameaçar a paz e a estabilidade na América Latina e nas Caraíbas”, região que a China considera uma “zona de paz”. Pequim reiterou a sua oposição ao uso ou ameaça de uso da força nas relações internacionais e às práticas de “assédio hegemónico”. Lin apelou à resolução da crise na Venezuela através do diálogo e negociação, e manifestou apoio à convocação de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Questionado sobre contactos com Caracas, Lin afirmou que a China “respeita a soberania e independência da Venezuela” e acredita que o país “lidará com os seus assuntos internos de acordo com a Constituição e as leis”, sem confirmar se houve conversações com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o cargo de chefe do Executivo. Direito torto Sobre a cooperação bilateral, o porta-voz sublinhou que os projectos energéticos entre os dois países “são entre Estados soberanos” e estão protegidos pelo direito internacional. Acrescentou que, “independentemente das mudanças na situação interna venezuelana”, a disposição da China para aprofundar a cooperação com Caracas “não se alterará” e que os “interesses legítimos” de Pequim “continuarão a ser salvaguardados”. Lin rejeitou ainda que a China procure estabelecer “esferas de influência” na América Latina, frisando que a sua política para a região é “coerente e estável”, baseada na não ingerência, igualdade e benefício mútuo, sem alinhamentos ideológicos. “A China continuará a ser um bom amigo e parceiro” dos países da região, afirmou, acrescentando que está pronta para cooperar com eles na defesa da Carta da ONU e da justiça internacional, bem como para responder às tensões decorrentes da situação na Venezuela. As declarações surgem num contexto de elevada tensão, após os EUA terem raptado Maduro e o terem transferido para Nova Iorque, onde se encontra detido. O episódio motivou críticas de vários governos e o pedido de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que se realizou ontem.
Permanecer Humano: Giacometti, Miró, Calder Hoje Macau - 6 Jan 2026 Por Caroline Pires Ting Há momentos na história da arte em que a resistência importa mais do que o progresso. Momentos em que permanecer de pé, ver com atenção e mover-se com cuidado tornam-se gestos radicalmente significativos. Alberto Giacometti, Joan Miró e Alexander Calder trabalharam a partir de um desses momentos. Sua arte é depurada, hesitante, viva. Ela não promete certezas. Oferece algo mais raro: uma forma de permanecer humano quando as formas se fragmentam, os sentidos se deslocam e o equilíbrio precisa ser continuamente renegociado. A arte moderna costuma ser narrada como uma história de ruptura: novas formas substituem as antigas, tradições se quebram, linguagens colapsam para logo serem reinventadas. No entanto, ao observarmos atentamente a trajetória desses três artistas, outro enredo se impõe. Não o da ruptura como gesto heroico, mas o da insistência silenciosa: uma tentativa persistente de manter a arte ancorada na experiência humana em um mundo marcado pela instabilidade histórica, política e existencial (Arendt, 2007; Agamben, 2009). Nenhum deles buscou a eternidade por meio do monumento ou da grandiosidade. Suas perguntas eram mais discretas, quase frágeis. Como um corpo persiste após o colapso das certezas. Como o sentido se forma antes de se fixar em linguagem. Como o equilíbrio pode sobreviver em um mundo submetido à mudança constante. Giacometti: a ética da presença As figuras de Giacometti parecem carregar consigo a memória de um acontecimento anterior ao olhar do espectador. Estreitas, gastas, reduzidas ao essencial, foram frequentemente interpretadas como emblemas do desespero existencial do pós-guerra. Contudo, como observam Jean-Paul Sartre e James Lord, essas figuras não encenam a ausência, mas a persistência da presença humana em condições extremas (Sartre, 1949; Lord, 1985). O que Giacometti esculpe não é a falta, mas a recusa. A recusa em desaparecer. Seus corpos não ocupam o espaço de forma afirmativa ou triunfante; antes, o atravessam com dificuldade e dignidade. Eles caminham, permanecem de pé, aguardam. Após a guerra, o exílio e a falência das narrativas totalizantes, Giacometti abandona as proporções ideais e os corpos heroicos, esculpindo aquilo que Maurice Merleau-Ponty identificaria como a condição encarnada do existir: um corpo vulnerável, exposto, irredutível (Merleau-Ponty, 1999). Sua obra formula, assim, uma proposição ética contundente: permanecer humano não significa ser íntegro, completo ou poderoso, mas simplesmente estar presente. A eternidade, em Giacometti, não é transcendência. É resistência. Miró: as origens do sentido Miró afasta-se do realismo não como fuga da realidade, mas como retorno às suas camadas mais profundas. Suas pinturas são habitadas por estrelas, olhos, pássaros, linhas flutuantes e formas fragmentadas. Esses elementos não operam como símbolos estáveis, mas como uma espécie de pré-linguagem: uma gramática da percepção anterior à fixação conceitual do sentido (Miró, 1978; Dupin, 1993). Frequentemente associada ao lúdico ou ao infantil, a obra de Miró é, em sua essência, rigorosa e profundamente crítica. Seu gesto consiste em desfazer a violência da hiperracionalização moderna, recuperando um estado em que o ver antecede o nomear. Como sugeriu Theodor W. Adorno, a abstração moderna, quando levada ao limite, não representa o mundo, mas tensiona suas condições de possibilidade (Adorno, 2008). As constelações de Miró não descrevem o universo; ensaiam o instante inaugural em que o sentido começa a emergir. Nesse contexto, a abstração assume uma função ética: ela protege a fragilidade, mantém o sentido em suspensão e convida o olhar do outro a participar da produção de significado (Didi-Huberman, 2015). A eternidade, em Miró, não se apresenta como permanência da forma, mas como recomeço incessante. Calder: equilíbrio como visão de mundo Ao introduzir o movimento na escultura, Calder não transformou apenas a forma artística, mas sua lógica interna. Seus móbiles respondem ao ar, à gravidade e ao acaso. Nunca se repetem exatamente, mas tampouco se desintegram em desordem. Como observa Rosalind Krauss, trata-se de uma redefinição radical da escultura enquanto sistema relacional, e não como objeto estático (Krauss, 1977). Calder não organiza hierarquias nem impõe centralidades. Ele compõe relações. Cada elemento depende dos demais para que o conjunto se sustente. O equilíbrio que emerge é dinâmico, provisório, vivo. Observar um móbile é assistir a um microcosmo em negociação contínua (Calder, 1966). Em um século profundamente marcado pela obsessão com o controle, Calder propõe outra ética: baseada na confiança, na escuta e na adaptação mútua. Sua obra afirma que a estabilidade não exige rigidez. A eternidade, aqui, manifesta-se como continuidade em meio à transformação. Três modos de permanecer humano Considerados em conjunto, Giacometti, Miró e Calder delineiam três dimensões fundamentais da experiência humana contemporânea: Ser: o corpo que persiste, mesmo fragilizado (Giacometti) Significar: o sentido antes de se cristalizar em linguagem (Miró) Relacionar-se: o equilíbrio que se constrói no movimento (Calder) Eles não ilustram teorias nem propõem sistemas fechados. Encarnam atitudes diante da vida após a perda das certezas, após a devastação histórica, após o colapso das ilusões de totalidade. Cada um, à sua maneira, recusou o espetáculo e escolheu a contenção, apostando que a simplicidade poderia sustentar profundidade. Por que ainda importam Em uma época marcada pela aceleração, pela proliferação de imagens sem densidade e pela redução dos corpos a dados e métricas, esses artistas revelam uma atualidade inesperada. Eles nos lembram que a arte não precisa gritar para permanecer. Precisa manter-se próxima daquilo que não pode ser otimizado, traduzido ou plenamente capturado (Cassin, 2004). Permanecer de pé. Ver com atenção. Mover-se com cuidado. Isso não é nostalgia do modernismo. É a lembrança de que, talvez ainda hoje, o gesto mais radical seja simplesmente permanecer humano. Referências Bibliográficas Sobre Alberto Giacometti Lord, James. Giacometti: A Biography. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1985. Genet, Jean. L’Atelier d’Alberto Giacometti. Paris: Gallimard, 1957. Sartre, Jean-Paul. “La Recherche de l’absolu.” In: Situations III. Paris: Gallimard, 1949. Bois, Yve-Alain. Giacometti: Sculpture, Painting, Drawing. London: Thames & Hudson, 1991. Sobre Joan Miró Miró, Joan. Écrits et entretiens. Paris: Daniel Lelong, 1978. Dupin, Jacques. Joan Miró: Life and Work. New York: Abrams, 1993. Adorno, Theodor W. Teoria Estética. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008. Breton, André. Le Surréalisme et la Peinture. Paris: Gallimard, 1965. Sobre Alexander Calder Calder, Alexander. An Autobiography with Pictures. New York: Pantheon Books, 1966. Krauss, Rosalind E. Passages in Modern Sculpture. Cambridge, MA: MIT Press, 1977. Sweeney, James Johnson. Alexander Calder. New York: The Museum of Modern Art, 1951. O’Doherty, Brian. Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space. Berkeley: University of California Press, 1999. Referências Teóricas e Contextuais Arendt, Hannah. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. Cassin, Barbara (org.). Vocabulaire européen des philosophies: dictionnaire des intraduisibles. Paris: Seuil / Le Robert, 2004. Didi-Huberman, Georges. Diante do Tempo. Trad. Vera Ribeiro. Belo Horizonte: UFMG, 2015. Merleau-Ponty, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Agamben, Giorgio. O Que é o Contemporâneo? Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009. Catálogos e Fontes Museológicas Fondation Giacometti. Alberto Giacometti: Le Sculpteur. Paris, 2018. Centre Pompidou. Joan Miró: L’échelle de l’évasion. Paris, 2019. Calder Foundation. Calder: Hypermobility. New York, 2021. Carolina Ting escreve em Português do Brasil.
Cinemateca Paixão | “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” em exibição este mês Andreia Sofia Silva - 6 Jan 2026 A Cinemateca Paixão apresenta, a 13 de Janeiro, a versão restaurada de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, obra protagonizada pela actriz Audrey Tautou. Estreado em 2001, o filme conta a história de uma mulher sonhadora que decide transformar a vida dos outros com pequenos gestos Está a chegar à sala da Cinemateca Paixão um filme de 2001 que já pode ser considerado um clássico do cinema. Apesar de ser de 2001, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, do realizador francês Jean-Pierre Jeunet fez tanto sucesso que ganhou recentemente direito a ter uma cópia restaurada. Há quatro sessões disponíveis para ver na Cinemateca Paixão, sendo que a primeira está marcada para o dia 13, a partir das 19h30. Amélie Poulain é uma mulher que sonha como uma menina, e que vive no bairro parisiense de Montmartre. O dia-a-dia é passado a observar os pequenos prazeres da vida e a viver um quotidiano algo solitário, ocupando os dias com diálogos com os vizinhos ou no café onde trabalha. Porém, um dia, decide começar uma missão secreta, tentando transformar as vidas das pessoas que a rodeiam através de pequenos gestos que podem trazer felicidade a quem está infeliz. Nesse percurso, Amélie acaba por se cruzar com diversos personagens e por se apaixonar. É então que decide dar-se a conhecer ao rapaz de uma forma diferente, criando uma espécie de jogo com diversas pistas que ele tem de seguir. Além de ter Audrey Tautou como protagonista, o elenco do filme compõe-se de nomes como Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamel Debbouze e Clotilde Mollet. Aquando da estreia, o filme foi nomeado para cinco Óscares, tendo ganho o prémio César na categoria de Melhor Realização, distinção atribuída pela Academia Francesa de Cinema. Música inesquecível O filme ficou também na memória de muitos devido à sua banda sonora, com assinatura de Yann Tiersen. A música do compositor, muito centrada em instrumentos como o acordeão e piano, acabou por assentar que nem uma luva numa história cheia de sonhos, amor e fantasia. Porém, numa entrevista ao jornal The Independent em 2019, Yann Tiersen acabaria por confessar que o trabalho em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” foi negativo para a carreira. “Teve um impacto mais negativo do que positivo. A primeira vez que vi o filme foi no cinema – não quis ir à estreia – e lembro-me de ter sentido algo muito pessoal e estranho. Se me pedissem para fazê-lo novamente, diria não”. Audrey Tautou, que ficaria mundialmente conhecida com este filme, disse que teve muitas dificuldades em lidar com a fama e o reconhecimento do público. “Não encontro felicidade no facto de ser reconhecida”, disse à revista Paris Match em Junho de 2025. “Estava constantemente numa espécie de vigilância para evitar o olhar das pessoas. Usava estratagemas para sair de férias sem ser seguida, andava com a cabeça baixa, sentava-me sempre de costas no restaurante. Outros encontram felicidade no facto de serem reconhecidos, mas eu não. Prefiro olhar do que ser olhada.” O filme faz parte da secção da Cinemateca “Excelência Clássica”, mas em “Encantos de Janeiro” há ainda espaço para exibir “The History of Sound”, filme de Oliver Hermanus. A primeira sessão acontece amanhã, a partir das 19h30, com repetições nos dias 11, 15 e 17 deste mês. Trata-se de um drama romântico histórico baseado no conto homónimo de Ben Shattuck. A história centra-se nas vidas dos jovens Lionel e David, que se encontram em 2016 e, novamente, no Verão de 2019, viajando juntos para gravar canções populares da região rural norte-americana da Nova Inglaterra.
Ruínas de São Paulo | Ano arranca com obras de restauro Hoje Macau - 6 Jan 2026 Ontem foram instalados andaimes na fachada das Ruínas de São Paulo para a segunda fase dos trabalhos de restauro. De acordo com informação veiculado pelo canal chinês da Rádio Macau, as obras deverão prolongar-se até 9 de Fevereiro. Como resultado, desde o passado domingo, a zona arqueológica atrás da fachada das Ruínas de São Paulo, assim como o Museu de Arte Sacra e a Cripta estão encerrados ao público. O encerramento vai ser mantido até amanhã. Os encerramentos nas Ruínas regressam em Fevereiro, altura em que a Exposição de Realidade Virtual vai estar encerrada entre 4 e 6. Também no próximo mês, a zona arqueológica atrás da fachada das Ruínas de São Paulo, o Museu de Arte Sacra e a Cripta voltam a estar encerrados ao público, igualmente entre os dias 4 e 6 de Fevereiro.
Zona Norte | Elevado fluxo de turistas sem impacto nos negócios João Santos Filipe - 6 Jan 2026 Apesar do elevado número de turistas que visitou Macau nos últimos dias, os efeitos na económica comunitária continuam a ser reduzidos. Alguns comerciantes queixam-se de um Natal pouco movimentado Apesar do elevado número de turistas que entrou no território nos feriados do Natal e Ano Novo, comerciantes da zona norte da península revelam que a actividade económica não apresentou melhorias. O relato foi traçado pelo jornal Ou Mun, na edição de ontem, e contrasta com as enchentes nas principais atracções turísticas. De acordo com o cenário traçado no Bairro do Iao Hon, alguns restaurantes que são actualmente mais populares nas redes sociais conseguiram mais clientes. No entanto, esta movimentação não contribuiu para melhorar a actividade económica naquela zona da cidade. Ao jornal Ou Mun, Chan, uma trabalhadora de uma loja de venda de roupa afirmou que as ruas continuaram desertas e que o Bairro do Iao Hon nunca foi um lugar popular para turistas. Chan indicou que a realização de eventos pelo Governo com base em desenhos animados e descontos de consumo tiveram um impacto reduzido, mas que mesmo assim não é sustentável. Assim que as iniciativas terminam, o número de turistas que vai àquela zona baixa imediatamente. A funcionária da loja de vestuário explicou ainda que é cada vez mais difícil para os negócios físicos competirem com a concorrência dos preços praticados no Interior da China ou das compras online. Chan revelou que a competição levou ao encerramento de várias lojas encerrassem, produzindo um efeito dominó, que contribuiu para a “desertificação” comercial do bairro. A mulher deixou assim o desejo que o Governo organize novas iniciativas no Iao Hon durante o novo ano e que continue a embelezar as ruas, para tornar o local mais atractivo. Efeitos limitados Também uma residente de apelido Leong, responsável por um restaurante no Iao Hon, reconheceu que o impacto dos visitantes é limitado. Em relação ao seu negócio, a residente afirmou que tem beneficiado do turismo. No início servia mais os clientes locais, mas as redes sociais vieram tornar o seu espaço muito popular entre visitantes do Interior da China, o que leva a que cada vez mais turistas visitem o restaurante para comer e tirar fotografias. Apesar do sucesso, Leong observou que o impacto dos turistas é limitado, porque as deslocações àquela zona são orientadas para restaurantes. Assim que acabam as refeições e tiram as fotografias, os turistas deixam a zona norte, sem se aventurarem pelo bairro ou visitarem outras lojas. A empresária reconheceu também que a maioria dos restaurantes na zona enfrenta dificuldades e que o volume de negócios durante o período do Natal foi extremamente reduzido. Sobre o futuro, Leong destacou a importância das medidas adoptadas pelo Governo para apoiar as pequenas e médias e empresas (PME). Contudo, reconheceu que as medidas são temporárias e que os comerciantes têm de lidar sozinhos com a queda do volume de negócios, dado que o cenário presente não deverá sofrer alterações.
DSPA | Plano de substituição de veículos chega à terceira fase Hoje Macau - 6 Jan 2026 A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) aceita, desde ontem, candidaturas para a terceira fase do “Plano de apoio financeiro ao abate de veículos antigos movidos a gasóleo”, que decorre até ao dia 4 de Janeiro de 2028. A medida é dirigida a “proprietários de veículos antigos movidos a gasóleo matriculados e registados até 31 de Dezembro de 2019, estando excluídos os proprietários de veículos antigos movidos a gasóleo cuja matrícula tenha sido cancelada em 15 de Dezembro de 2025 ou em data posterior, e que sejam novamente matriculados após os referidos cancelamentos”. No primeiro ano o prazo de candidaturas vai até 4 de Janeiro de 2027, sendo dado um apoio entre 25 mil e 155 mil patacas. No segundo ano, cujas candidaturas vão de 5 de Janeiro de 2027 a 4 de Janeiro de 2028, os apoios variam entre 15 mil e 93 mil patacas.
Habitação para troca | Prometido alargamento de políticas Andreia Sofia Silva - 6 Jan 2026 Raymond Tam revelou ontem que o Executivo está a estudar o alargamento da aplicação da habitação para troca e da habitação para alojamento temporário”, nos empreendimentos já construídos. Na primeira reunião do ano do Conselho para a Renovação Urbana, foi ainda prometida a reconstrução de mais edifícios antigos Na primeira reunião plenária de 2026 do Conselho para a Renovação Urbana (CRU), que decorreu ontem, o Governo prometeu alargar a aplicação das políticas de habitação para troca e alojamento temporário. Citado por um comunicado do CRU, Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, declarou que “será aprofundado o estudo sobre o alargamento do âmbito de aplicação da habitação para troca e da habitação para alojamento temporário, já concluídas”. O objectivo desta medida é “assegurar a utilização racional dos recursos existentes e a ponderar, com prudência, novas formas de promover a renovação urbana”, mas o governante não adiantou mais detalhes. Recorde-se que o primeiro projecto de habitação para troca foi concluído em Março do ano passado, tendo surgido no âmbito do processo do empreendimento Pearl Horizon. Tratou-se de uma concessão cujo prazo chegou ao fim sem que as obras tenham sido concluídas. No que diz respeito à renovação de prédios antigos no bairro do Iao Hon, o governante deixou a promessa de continuar a realizar a reconstrução dos chamados “Sete Conjuntos de Prédios do Bairro Iao Hon” antigos. Além disso, o secretário prometeu que em 2026 “será igualmente reforçada a reconstrução de edifícios individuais”, além de se promover o aumento “de instalações públicas nos bairros antigos”. Raymond Tam declarou também na reunião do CRU que “a renovação urbana constitui uma prioridade para o Governo, estando os trabalhos a ser desenvolvidos de forma estável”. Discutir e dinamizar A reunião desta segunda-feira serviu também para ouvir os três grupos especializados ligados a este organismo, que fizeram “o ponto da situação sobre o andamento dos seus trabalhos”. A reunião serviu ainda para discutir “o mecanismo de longo prazo referente à habitação para troca e à habitação para alojamento temporário”. Os membros do CRU discutiram a necessidade de “promoção pragmática da renovação urbana através da optimização administrativa”, bem como da importância da “dinamização dos bairros comunitários através do seu embelezamento, com vista à melhoria da qualidade de vida dos residentes”.
DSAL | Criado plano de reintegração profissional para mulheres Hoje Macau - 6 Jan 20266 Jan 2026 Arrancam hoje as inscrições para o “Plano de reintegração profissional para mulheres”, criado pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) em parceria com a operadora de jogo Sands China. O objectivo, segundo uma nota da DSAL, é “dar apoio às mulheres que deixaram o mercado de trabalho por motivos familiares ou pessoais”, para que possam “reconstruir gradualmente a sua capacidade profissional e confiança e reintegrarem-se com sucesso no mundo profissional”. O plano abrange “medidas como apoio em grupo, formação profissional, prática de trabalho e horários de trabalho flexíveis”, sendo que as inscrições decorrem até ao dia 16 de Janeiro. Há 29 vagas de emprego disponíveis, distribuídas por 16 postos de trabalho, em categorias profissionais como “Administração”, “Serviço de cliente e vendas” ou “Operação de resorts integrados”. O plano dura seis meses, sendo que a Sands China se compromete a “fornecer apoio em várias áreas, tais como o auxílio na construção de uma rede de contactos sociais”, atribuindo ainda “pessoal específico para acompanhar regularmente a situação após a integração [das candidatas] no cargo”. Disponibilizam-se “opções de horário flexível, com um mínimo de 20 horas de trabalho por semana, e isenção de turnos nocturnos”. As candidatas com um “bom desempenho poderão ser transferidas para cargos a tempo inteiro”, podendo também manter horário flexível. Haverá seminários informativos nos dias 22 e 23 de Janeiro, sendo que depois dessas datas serão realizadas as entrevistas.
IAS | Criado apoio de creches gratuitas para famílias vulneráveis Andreia Sofia Silva - 6 Jan 20266 Jan 2026 O Instituto de Acção Social (IAS) acaba de criar o “Regime de Creche Gratuita para Crianças de Famílias em Situação Vulnerável”, em parceria com 30 creches, e cujas inscrições começam a 12 de Janeiro. Segundo um comunicado divulgado pelo IAS, o regime pretende “prestar serviços de creches subsidiadas, de forma gratuita, para crianças de famílias com dificuldades económicas e privadas de condições de serem cuidadas pela sua família”. As crianças devem ser residentes da RAEM e ter menos de três anos, além de estarem em famílias monoparentais, com membros deficientes, doentes crónicos, ou compostas apenas por avós e netos. Estão ainda incluídas famílias que sejam beneficiárias do subsídio regular do IAS. Para concorrerem ao apoio, as famílias compostas por duas pessoas não devem ter um rendimento mensal superior a 19.975 patacas, enquanto que no caso de uma família com oito ou mais pessoas, o rendimento por mês não deve ir além das 50.675 patacas. O prazo de candidaturas termina dia 23 de Janeiro.
Justiça | Ho Wai Neng tomou posse como juiz do TUI Hoje Macau - 6 Jan 2026 Ho Wai Neng prestou ontem o juramento para tomar posse como novo juiz do Tribunal de Última Instância. O juramento foi realizado diante a juíza Song Man Lei, presidente do TUI, e contou com a assistência de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo e anterior presidente do TUI. O dia ficou marcado por vários juramentos e o mesmo aconteceu com o novo presidente do Tribunal de Segunda Instância, Choi Mou Pan, e os novos juízes do Tribunal de Segunda Instância, Lou Ieng Ha e Jerónimo Alberto Gonçalves Santos. Também Io Weng San e Rong Qi prestam o juramento de posse como juízes-Presidentes do Tribunal Colectivo dos Tribunais de Primeira Instância. As alterações no quadro de juízes tinham sido anunciadas no final de Dezembro, em diferentes despachos do Chefe do Executivo.
Educação | Loi I Weng pede medidas devido a redução de alunos João Santos Filipe - 6 Jan 2026 Face à redução do número de alunos nas turmas dos jardins-de-infância, a deputada Loi I Weng considera que o Governo deve promover o modelo “dois professores e um assistente”. A posição foi tomada ontem, com a legisladora ligada à Associação das Mulheres a partilhar um comunicado a antever o período de inscrições no pré-escolar, que arranca hoje. De acordo com os dados apresentados, para o ano lectivo de 2026/2027 espera-se uma nova redução de 500 novos alunos face ao ano escolar em curso, o que deverá fazer o número de inscrições cair para 3.400 crianças. Face à redução, Loi I Weng apela ao Governo que tome medidas para evitar nas instituições de ensino o impacto da redução da procura. Como parte das propostas, a deputada sugere que cada turma tenha dois professores e um assistente de educação infantil. Além disso, a deputada pede “ajustes flexíveis no tamanho das turmas”, para que as turmas funcionem com 20 alunos, quando actualmente o número é 25. A deputada considera que estas medidas vão proporcionar um “apoio imediato às escolas através da alocação de recursos”. Loi I Weng defendeu ainda o “apoio activo às instituições de ensino na coordenação de planos futuros de matrículas e na integração de recursos para ajudar o sistema educativo a adaptar-se suavemente aos impactos decorrentes das mudanças demográficas”. A Associação das Mulheres é responsável pela exploração de algumas instituições de ensino locais, como creches e escolas.
Hengqin | Deputado alerta para problemas de mobilidade e pede apoios João Santos Filipe - 6 Jan 2026 Apesar da fronteira de Hengqin estar aberta 24 horas por dia, Leong Sun Iok alerta para a falta de transportes, principalmente durante a madrugada. O deputado pede também apoios públicos para os residentes que moram em Hengqin A circulação entre Macau e a Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin é encarada por Leong Sun Iok com preocupação. O assunto faz parte de uma interpelação escrita divulgada ontem pelo deputado ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau. Na perspectiva do legislador, o facto de terem passado dois anos desde que os primeiros residentes de Macau passaram a habitar na Zona de Cooperação devia ter servido para melhorar vários aspectos de circulação de pessoas e bens. No entanto, tal não aconteceu: “Estou muito preocupado com as questões práticas enfrentadas pelos residentes de Macau que vivem em Hengqin no que diz respeito às viagens transfronteiriças, à eficiência dos procedimentos aduaneiros e à convergência dos serviços públicos”, apontou. A primeira preocupação de Leong Sun Iok prende-se com a falta de transportes para a fronteira, um problema que afecta principalmente quem trabalha por turnos. “Com o primeiro autocarro a partir às 06h30 e o último às 23h15, não é possível cobrir as necessidades daqueles que trabalham em turnos nocturnos ou que terminam o trabalho de madrugada”, afirmou. “Deve ser considerada a criação de percursos adicionais de autocarros nocturnos entre as áreas urbanas de Macau e a fronteira de Hengqin”, acrescentou. A nível dos autocarros, o deputado pede também ligações directas entre a fronteira e as principais áreas da Península de Macau, Taipa e Coloane, para “reduzir o tempo de deslocação dos residentes”. O deputado defende também que se estude a “viabilidade de prolongar ou ajustar os horários da primeira e última viagem de Metro Ligeiro” para a fronteira. Leong Sun Iok salienta também a existência de “congestionamentos e longas filas durante as horas de ponta” que afectam principalmente os “veículos com matrícula única”. O legislador propõe assim “a criação de canais específicos de passagem para residentes de Macau”. Mais dinheiro Além de sugerir melhorias de circulação, o membro da FAOM considera que é necessário aumentar os apoios financeiros para quem vivem na Ilha da Montanha e sugere o subsídio dos cuidados de saúde prestados aos residentes no outro lado da fronteira. “Para aliviar o custo de vida dos residentes no Novo Bairro de Macau, as autoridades irão estudar e avaliar activamente a extensão da cobertura das políticas de bem-estar existentes para os residentes de Macau, tais como subsídios para serviços públicos?”, questiona. Na visão do deputado, se Macau pagar os serviços prestados em Hengqin aos residentes da RAEM está a proporcionar “um apoio e incentivo para os residentes de Macau viverem na Zona de Cooperação entre Guangdong e Macau” e a promover “o desenvolvimento integrado de Hengqin e Macau”. O deputado pede ainda às autoridades que adiantem o calendário para a implementação de cuidados de saúde prestados por instituições de Macau no Novo Bairro de Macau em Hengqin. Segundo Leong Sun Iok, até Setembro do ano passado havia cerca de 30 mil residentes de Macau a viver na Zona de Cooperação.
AMCM | Melhorado sistema de compra de fundos em RMB Hoje Macau - 6 Jan 2026 A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) lançou ontem o “Mecanismo de facilitação de fundos em RMB” [renminbi], com “um prazo relativamente longo”. O mecanismo surge no âmbito das medidas de recompra de obrigações na moeda chinesa, implementadas em 2023. O objectivo, segundo uma nota da AMCM, é “apoiar o desenvolvimento do mercado monetário e do mercado de obrigações locais”. Neste contexto, “os bancos locais podem utilizar obrigações qualificadas ao abrigo do mecanismo de ligação directa entre a ‘Central de Depósito de Valores Mobiliários de Macau’ (CSD) e a ‘Central Moneymarkets Unit’ (CMU) de Hong Kong para realizar operações de recompra”. A ideia é “potenciar ainda mais os efeitos de sinergia e desenvolvimento da colaboração entre as duas regiões”, lê-se na mesma nota. Foi também introduzido “um projecto especializado de swap cambial em RMB” face ao dólar de Hong Kong e americano, tendo por objectivo “melhorar a liquidez em RMB ‘offshore’ no mercado local” e “apoiar o desenvolvimento estável das actividades denominadas em RMB no mercado financeiro local”. Este projecto de swap cambial visa ainda “diversificar os canais de obtenção de fundos em RMB pelos bancos locais”. A AMCM promete “continuar a realizar operações no mercado monetário através de diversos instrumentos financeiros, mantendo a estabilidade do sistema monetário e financeiro de Macau e promovendo o desenvolvimento da indústria financeira moderna de qualidade”.
Economia | Estudo nega que crise pandémica tenha gerado diversificação João Santos Filipe - 6 Jan 2026 A pandemia reduziu temporariamente a supremacia do jogo na economia de Macau, mas não produziu alterações estruturais. Assim que as restrições fronteiriças foram levantadas, a indústria dos casinos voltou à posição dominante em termos económicos A crise motivada pela pandemia da covid-19 não foi uma oportunidade aproveitada para reduzir da importância do jogo no tecido económico de Macau. A conclusão faz parte do estudo com o título “Resiliência ou Miragem? Desconstrução da Recuperação Económica e o Atraso Estrutural do Mercado de Trabalho no Sector do Turismo de Macau” (Resilience or Mirage? Deconstructing de Economy Recovery and Labor Market Structural Lag in Macao’s Tourismo Sector) publicado por seis académicos da Universidade Politécnica de Macau, na revista Turismo e Hospitalidade (Tourism and Hospitality). Segundo os autores, apesar da redução do peso económico do jogo durante a pandemia, principalmente quando vigoravam medidas de restrição da circulação de turistas, a importância do principal sector da economia local acabou por se acentuar no pós-covid-19. A análise dos académicos tem por base a avaliação do Índice Herfindahl–Hirschman (HHI) que permite medir o peso de cada sector na totalidade da actividade económica. “Esta conclusão desafia a narrativa tradicional da avaliação da resiliência, que encara ‘a crise como uma oportunidade para a transformação estrutural’, revelando um padrão específico de resposta à crise — a ‘diversificação passiva’”, foi explicado. “Este fenómeno não resultou do crescimento endógeno de elementos não relacionados com o jogo, mas sim da paralisia estrutural das funções centrais do sistema causada pela estagnação do motor do turismo. Por outras palavras, o aumento da quota dos sectores não relacionados com o jogo foi apenas um resultado matemático passivo, e não um reflexo de competitividade substancial”, foi acrescentado. Os académicos apontam também que a ideia da redução da importância relativa do peso do jogo se deveu ao “efeito denominador”, ou seja, foi motivado apenas pela contracção do sector do jogo, que impulsionou o aparente peso de outros sectores no panorama global. Contudo, o crescimento de outros sectores não foi estrutural, e assim que o jogo recuperou, a importância das outras actividades económicas voltou a ser marginal. Efeitos divergentes No trabalho publicado a 2 de Janeiro, os académicos Cai Jingwen, Wang Chunning, Hu Haoqian, Ho Wai In, Chan Ka Ip e Yin Yifen observam igualmente o comportamento do mercado laboral relacionado com o turismo durante a pandemia. A análise resulta na identificação de duas tendências contrárias. Em relação às profissões mais específicas da indústria do jogo, como croupiers ou outros trabalhadores envolvidos nos sectores de luxo, houve uma retenção da força laboral, com 98 por cento dos trabalhadores a manterem o regime de trabalho a tempo inteiro. O fenómeno é considerado normal durante “choques temporários” na indústria, mas os autores apontam que prejudica os esforços de diversificação da economia e do plano 1+4, em que o jogo vai impulsionar o desenvolvimento de sectores como finanças, saúde, eventos desportivos e medicina tradicional chinesa. Em relação à mão-de-obra menos especializada, como trabalhadores da restauração, os investigadores identificaram um padrão de despedimentos e layoffs. Neste tipo de empregos, os académicos verificaram que o número de empregados a tempo inteiro diminuiu cinco por cento, com os salários também a decrescerem.
Um foi despedido por chegar cedo e outro por sair a horas David Chan - 5 Jan 2026 Funcionária de uma empresa de logística, uma jovem espanhola de 22 anos, deveria entrar no trabalho às 7:30. Nos últimos dois anos, chegava entre as 6.45 e as 7.00. A empresa avisou-a repetidas vezes para não chegar mais cedo, mas ela não acatou a ordem. Acabou por ser despedida por “má conduta agravada.” A funcionária entrou com uma acção judicial no Tribunal Social de Alicante alegando ter sido despedida sem justa causa. A empresa argumentou que chegar mais cedo ao trabalho não implicava maior produtividade e que era somente um sinal de “insubordinação.” A jovem repetiu este comportamento 19 vezes após ter recebido diversos avisos verbais e escritos, chegando mesmo a registar a entrada ao serviço através da aplicação da empresa antes de entrar no escritório. Além disso, foi acusada de vender a bateria de um carro de serviço abusando da confiança da entidade patronal. O tribunal acabou por decidir a favor da empresa, afirmando que as constantes entradas ao serviço antes da hora, apesar dos múltiplos avisos em contrário, constituíam insubordinação deliberada. Ao abrigo do Artigo 54 da Lei Laboral espanhola, isto constitui uma grave violação do dever. A secção 9 da Portaria do Emprego, Capítulo 57, da Lei de Hong Kong e o Artigo 11, N.º 1(4) da Lei das Relações de Trabalho de Macau contêm disposições semelhantes que exigem que os trabalhadores cumpram as instruções razoáveis da empresa. Na generalidade dos contratos laborais, a impossibilidade de o funcionário chegar ao trabalho antes da hora é uma instrução razoável, não um pedido irrazoável. Desobedecer a tais instruções viola a legislação laboral, levando ao despedimento. No entanto, esta regra pode afectar o entusiasmo e o sentido de pertença do trabalhador, aumentando a dificuldade da gestão da empresa. Embora a notícia não adiantasse qualquer informação sobre a decisão do tribunal em relação ao roubo da bateria, não sabemos se esta questão não influenciou a decisão do juiz. Só podemos dizer que, desde que a empresa não tenha decidido em contrário, as baterias usadas pertencem-lhe e o trabalhador não tem direito a dispor delas. Curiosamente, deparei-me com outra notícia mais antiga que aborda um tema semelhante. Um internauta que trabalhava num escritório foi despedido após uma semana, alegadamente porque saía do trabalho a horas todos os dias, o que desagradou ao patrão. Este internauta afirmou: “A empresa alega que saio do trabalho muito cedo. Os novos funcionários devem esforçar-se mais para aprender e devem fazê-lo rápido. Se houver uma data limite, posso fazer horas extraordinárias, mas não tenho de o fazer todos os dias.” Os empregados que chegam mais cedo são despedidos, e os que saem a horas também. O que é que se deve fazer? As empresas pagam salários para que as pessoas trabalhem para elas; a obediência às suas instruções é fundamental. Chegar mais cedo significa que o trabalhador não se quer atrasar, o que demonstra um entusiasmo positivo e uma atitude responsável. No entanto, se perturbar os horários da empresa, cria-se uma situação do tipo “de boas intenções está o inferno cheio,” o que deve ser evitado. Por outro lado, as empresas não devem avaliar o desempenho dos funcionários apenas baseadas no critério de saírem do trabalho à hora certa. Devem considerar indicadores mais importantes como, se completa as tarefas a tempo, se as prioriza, se cumpre as suas responsabilidades e se faz um bom trabalho. O caso de Alicante conduziu a um litígio judicial. Este litígio desencadeou a especulação do público, as pessoas queriam saber porque é que chegar mais cedo era motivo de despedimento. Os trabalhadores em geral também se interrogavam. Chegar mais cedo é considerado um comportamento positivo e um sinal de pertença à empresa. Quando isto acontece e o funcionário é na mesma despedido, sentem-se confusos e não sabem como manter uma atitude positiva no trabalho. Para reduzir a confusão do público e dos trabalhadores, a empresa deve explicar claramente que a funcionária foi despedida por insubordinação e porque é que não podia chegar mais cedo. O departamento de relações públicas da empresa deve explicar que a funcionária perturbou repetidamente os horários de trabalho depois de várias tentativas para a persuadir em contrário terem falhado. Perante a insubordinação, a empresa não teve outra escolha senão despedi-la. O objectivo desta explicação é reconstruir uma imagem pública positiva e prevenir mal-entendidos. O departamento de Recursos Humanos também deve indicar claramente aos empregados os horários de trabalho, os procedimentos e os padrões de avaliação de desempenho. O objectivo é clarificar os motivos que não lhes permitem chegar mais cedo e evitar mal-entendidos. Mas acima de tudo, trata-se de informar o funcionário de que a empresa é gerida com valores positivos e de onde reside o equilíbrio entre esses valores e os desafios das suas funções. Para evitar que esta situação se repita, as empresas devem reforçar estas declarações para que os trabalhadores as compreendam bem e, mais importante ainda, incluir esses requisitos no manual do funcionário para não deixar qualquer dúvida. As empresas também podem melhorar os seus procedimentos neste aspecto estudando o exemplo de outras. Algumas organizações de grandes dimensões pedem aos funcionários que cheguem 15 minutos mais cedo; estes 15 minutos destinam-se a preparação, não a trabalho efectivo. Por exemplo, a empresa estipula que os trabalhadores devem chegar entre as 8.30 e as 8.45, e que se preparem para o trabalho entre as 8.45 e as 8.59, mas neste período não atendem o público. Às 9.00 em ponto, começam a trabalhar. Devido às suas próprias necessidades, a empresa só abre as portas às 8.30 para que os trabalhadores possam entrar. Este método permite que os trabalhadores cheguem mais cedo sem perturbar os horários da empresa e garante que os funcionários estão adequadamente preparados para atender o público—uma situação em que todos ficam a ganhar. A empresa e os trabalhadores devem colaborar entre si. A empresa tem de deixar claro os seus requisitos e os trabalhadores devem respeitar as instruções. Só um bom ambiente de trabalho pode reter o maior bem intangível de uma empresa—os seus colaboradores—e ambas as partes podem beneficiar.
Venezuela | China pede a “libertação imediata” de Maduro Hoje Macau - 5 Jan 2026 A China pediu ontem aos Estados Unidos a libertação imediata do Presidente da Venezuela que foi detido em Nova Iorque, depois de ter sido capturado numa operação militar norte-americana levada a cabo no sábado. “A China pede aos Estados Unidos que garantam a segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, que os libertem imediatamente e que cessem os seus esforços para derrubar o Governo venezuelano”, afirmou a diplomacia de Pequim. Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China classificou a operação como uma “flagrante violação do direito internacional”. Os Estados Unidos lançaram no sábado “um ataque em grande escala contra a Venezuela”, que capturou o Presidente venezuelano e a mulher, Cilia Flores, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder. O anúncio foi feito pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, horas depois do ataque contra Caracas. O líder venezuelano já tinha sido formalmente acusado em 2020 pelo Ministério Público para o Distrito Sul de Nova Iorque, que no sábado apresentou novas acusações junto do mesmo tribunal. Maduro está acusado de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os Estados Unidos e crimes relacionados com armas automáticas. Choque e condenação No sábado, ainda antes da confirmação da captura do Presidente da Venezuela, a diplomacia chinesa já tinha condenado os ataques militares lançados pelas forças norte-americanas contra Caracas. A China declarou-se “profundamente chocada” com a operação militar norte-americana e condenou o que descreveu como o “uso descarado da força” contra um país soberano. No entendimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, estas acções violam gravemente o direito internacional, infringem a soberania da Venezuela e ameaçam a paz e a segurança na América Latina e no Caribe. A China, que mantinha uma relação diplomática e económica próxima com a Venezuela, reiterou a oposição a intervenções militares e defendeu os princípios da soberania estatal e da não ingerência nos assuntos internos de outros países. Apupos e aplausos A comunidade internacional tem-se dividido entre a condenação aos Estados Unidos e saudações pela queda do líder da Venezuela, reeleito em Julho, numa votação contestada pela oposição. O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou “profunda preocupação” com a recente “escalada de tensão na Venezuela”, alertando que a acção militar dos EUA poderá ter “implicações preocupantes” para a região. Já o Governo da Índia, expressou ontem “profunda preocupação” com a situação na Venezuela, na sequência da execução da operação militar norte-americana “Absolute Resolve”. Em Nova Deli, num comunicado oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em que não faz qualquer menção explícita ao Presidente venezuelano deposto, Nicolás Maduro, o Governo não se pronunciou sobre a legitimidade da acção e optou por centrar-se num apelo à paz e a que se evite uma escalada da violência. “A Índia reafirma o seu apoio ao bem-estar e à segurança dos venezuelanos, instando todos os actores envolvidos a resolver as diferenças através de um diálogo pacífico”, refere o texto diplomático, omitindo referências directas ao presidente detido ou ao seu estatuto político. Em Tóquio, também num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão afirmou ontem estar a acompanhar “de perto” a situação na Venezuela, acrescentando que irá trabalhar para “restaurar a democracia” naquele país. “O Governo do Japão está a acompanhar de perto a situação e a dar prioridade absoluta à segurança dos cidadãos japoneses” residentes na Venezuela, refere o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A diplomacia japonesa sublinhou a importância de respeitar o direito internacional e, ao mesmo tempo, reiterou que o Governo do arquipélago tem defendido “a importância de restabelecer a democracia na Venezuela o mais rapidamente possível”. Haja respeito Também a União Africana (UA) pediu respeito pelo direito internacional e, embora não tenha condenado directamente o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, afirmou que os problemas internos do país sul-americano devem ser resolvidos internamente. Num comunicado divulgado na noite de sábado, a organização pan-africana defendeu um “diálogo político inclusivo” entre a população venezuelana, com vários países africanos a manifestaram a rejeição às acções de Washington e alguns a mostrarem solidariedade a Caracas, como Angola. “A União Africana reafirma o firme compromisso com os princípios fundamentais do direito internacional, em particular o respeito pela soberania dos Estados, a sua integridade territorial e o direito dos povos à autodeterminação, tal como consagrados na Carta das Nações Unidas”, indicou a UA no comunicado. O Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela decidiu que a vice-presidente executiva Delcy Rodríguez deverá assumir a presidência interina, “de forma a garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação”. O tribunal não especificou quando Rodríguez deverá tomar posse.