Lisboa | Lançado quarto volume de “Figuras de Jade” de António Aresta Andreia Sofia Silva - 8 Abr 2026 Foi lançada ontem, em Lisboa, “Figuras de Jade IV – Os Portugueses no Extremo Oriente”, obra de António Aresta, ex-professor de Filosofia em Macau, que tem escrito sobre a cultura do território. O autor descreve aqui diversas personalidades que ajudaram a contar Macau ao mundo, confessando que já está a trabalhar nos quinto e sexto volumes da mesma obra Decorreu ontem, em Lisboa, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), o lançamento da obra “Figuras de Jade IV – Os Portugueses no Extremo Oriente”, da autoria de António Aresta, que deu aulas de Filosofia em Macau entre os anos de 1987 e 1998 e que, desde então, se tem dedicado a escrever sobre a cultura do território. “Figuras de Jade IV” é uma edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), feita em 2025, que teve agora o seu lançamento em Lisboa. Em declarações ao HM, António Aresta disse que este volume do livro “mostra que o projecto continua pujante”, tendo estudado já centenas de personalidades portuguesas que ajudaram a mostrar Macau nas suas diversas valências. Porém, o autor destaca uma: Manuel da Silva Mendes, considerando-a “a figura portuguesa mais relevante”. Tudo graças “à sua dimensão intelectual, o seu comprometimento cívico, a sua requintada faceta de coleccionador de obras de arte”, sem esquecer o facto de ter sido “professor e reitor do Liceu, vereador do Leal Senado e advogado”. Na visão de António Aresta, Manuel da Silva Mendes “construiu, coisa rara entre os portugueses expatriados, um vistoso palacete, de ‘tai pan’, na colina da Guia”, tendo “infelizmente falecido prematuramente, vítima de uma doença incapacitante”. Nesta sessão na SHIP foram apresentados os quatro volumes já editados de “Figuras de Jade” o que constituiu, na visão do autor, “uma oportunidade para se voltar a recolocar Macau no centro da informação cultural portuguesa”. Para António Aresta, “a opacidade e invisibilidade de Macau e da cultura chinesa em Portugal é um mistério oriental”. “O orientalismo, os estudos de Macau e a sinologia não são notícia ou interesse para o jornalismo português, o que é pena. Porque a nossa história é tão antiga, muito interessante e valiosa. Macau é um milagre do entendimento entre portugueses e chineses”, destacou. Mais a caminho Ainda segundo António Aresta, o nome “Figuras de Jade” remete para o facto de esta ser “uma pedra preciosa tão apreciada pelos chineses” e “símbolo magno da arte de ser português em Macau e no Extremo Oriente”. Assim, “os portugueses são o jade de Macau, sem eles nada disto existiria ou faria sentido”, pois “inventaram Macau, com a amizade, o trabalho e a cumplicidade dos chineses”, considerou. António Aresta diz estar a trabalhar em mais volumes de “Figuras de Jade”, sendo que o quinto “está no prelo”, prevendo-se “que seja apresentado ainda neste ano em curso”. O autor diz também estar a trabalhar no sexto volume, considerando o trabalho em torno de “Figuras de Jade” como “infinito” e “dependente de três coisas: saúde, o acolhimento do Jornal Tribuna de Macau e o inestimável apoio do IIM”. Longo contexto António Aresta já conta com muitos textos sobre Macau, tendo já escrito obras como “O Neoconfuncionismo na Educação Portuguesa”, editado em 1996, ou ainda “A Educação Portuguesa no Extremo Oriente”, com edição em 1999. O autor tem também editado um livro sobre Manuel da Silva Mendes, que saiu em 2017. Todas essas edições e referida pesquisa permitiu a António Aresta adquirir “uma visão panorâmica e pluridimensional da cultura em Macau, que é muito rica e problemática”. Os quatro volumes já publicados de “Figuras de Jade” demonstram, no entender do autor, “que Macau nunca foi indiferente para os portugueses que estudaram e se interessaram pelas mais variadas coisas”. “Outra coisa muito curiosa, é a vertente benemérita e filantrópica. Muitos dos portugueses que estiveram em Macau ofereceram aquilo que amorosamente juntaram e compraram, como bibliotecas, obras de arte, espólios documentais, mobiliário, fotografias, a arquivos, museus e bibliotecas em Portugal. É uma coisa discreta e esquecida”, rematou.
Da comédia à arte: vêm aí mais festivais e novos eventos Hoje Macau - 8 Abr 2026 Macau vai acolher, nas próximas semanas, uma série de actividades culturais organizadas pelo Instituto Cultural (IC) onde não falta, por exemplo, a nova edição de um festival de comédia. Um dos eventos que junta as áreas do desporto e cultura acontece já este fim-de-semana, sábado e domingo, dias 11 e 12. A “Festa Cultural e Desportiva” tem por objectivo “aprofundar a interligação entre as duas áreas” e acontece no Centro Náutico da Praia Grande, o recinto principal, e ainda em diversos locais históricos como as Ruínas de S. Paulo, Casa de Lou Kau, Praceta de Venceslau de Morais, Bairro da Ilha Verde e Edifício Lok Kuan de Seac Pai Van. Aqui vão acontecer “demonstrações e experiências de projectos culturais e desportivos”, além de estarem colocadas bancas subordinadas ao tema “Cultura e Desporto Reúnem-se em Macau”. No rol de experiências incluem-se temáticas como os Barcos-Dragão, Ópera Cantonense, Dança Folclórica Portuguesa, Artes Marciais de Wing Chun ou escalada. Outro dos destaques do IC, é o Festival Internacional de Comédia, que já vai na sua terceira edição e que acontece entre esta quinta-feira e domingo, de 9 a 12 de Abril. Organizado pela Mahua FunAge e Damai, este festival estende-se até Hengqin e promete apresentar “uma gama diversificada de espectáculos de artes performativas”. Destaca-se o espectáculo “Parque da Alegria”, no Anim’Arte NAM VAN, inspirado em figuras históricas de Macau, enquanto em Hengqin decorrerá a selecção de “novos talentos para o curso de formação prática de comédia de Macau”. O cartaz de eventos inclui ainda a realização, a partir do dia 23 de Abril, da Feira de Artesanato do Tap Seac de Primavera, que decorre durante duas semanas consecutivas, sempre de quinta-feira a domingo. Reúnem-se “stands que comercializam produtos culturais e criativos originais de Macau e do exterior”. Mais leitura precisa-se Ainda na área cultural, o IC vai lançar a iniciativa “Macau Lê – Semana Nacional da Leitura 2026”, que acontece entre os dias 20 e 26 de Abril. No dia 23 deste mês decorre a cerimónia do início desta actividade e o evento “10 Minutos de Leitura”, enquanto o Centro Cultural de Macau (CCM) acolhe depois, entre os dias 25 e 26, “várias actividades de promoção da leitura, incluindo a Troca de Livros, Venda de Revistas, Actividades de Leitura Conjunta em Família, Stands de Jogos e Actuações Artísticas”. Em Julho, haverá lugar a novas exposições, como “Duetos da Natureza: Pinturas de Paisagem das Dinastias Ming e Qing do Museu Nacional da China”. A mostra estará patente no Museu de Artes de Macau (MAM) entre os dias 25 de Abril e 26 de Julho, onde se apresentam “obras da colecção do Museu Nacional da China, nomeadamente pinturas de paisagem das dinastias Ming e Qing e os sentimentos dos pintores”. Destaque ainda para a exposição “Grandioso Espírito de Dinastia Han – Exposição de Tesouros da Dinastia Han de Xuzhou”, a ter lugar entre 18 de Abril e 14 de Junho no Museu de Macau. Aqui apresentam-se “obras da colecção do Museu de Xuzhou, demostrando-se uma visão multidimensional da história do Reino de Chu durante a dinastia Han”.
Obras ilegais | Em 72 processos só dois deram origem a multa Hoje Macau - 8 Abr 2026 A Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSCCU) diz ter inspeccionado, desde a entrada em vigor do novo Regime jurídico da construção urbana, em 2022, 90 edifícios relativamente à existência de construções ilegais. Deste número, foram instaurados 72 processos, em que apenas dois deram origem a multa, dizendo ambos respeito “ao encerramento de varandas”. Estes números, que vão de 2022 até Março do corrente ano, mostram também que, em 23 processos, os proprietários acabaram por colaborar com as autoridades, demolindo voluntariamente as obras ilegais. Dos 90 edifícios fiscalizados, verificou-se a existência de obras ilegais em 21 desses prédios, o que resultou na instauração dos 72 processos. De frisar que “cerca de um terço dos proprietários envolvidos já requereu a demolição voluntária”. Autocarros | Carreira n.º 15 arranca esta semana A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) anunciou que a nova carreira n.º 15 de autocarro começa a funcionar esta semana, nomeadamente a partir de sábado. Esta carreira inclui, segundo um comunicado, as actuais carreiras n.os 15, 15S e 15S1, passando a funcionar no percurso entre os Jardins do Oceano e a Povoação de Ká-Hó, com frequências reforçadas para 22 a 26 minutos. Além disso, a DSAT acrescentou o percurso entre a Estrada do Altinho de Ká-Hó e o Terminal de Combustíveis do Porto de Ká-Hó. Outra carreira de autocarro que sofreu alterações, foi a do n.º 52, sendo que “os passageiros provenientes das zonas do Oceano com direcção ao Parque Industrial da Concórdia podem chegar aos respectivos destinos através da carreira n.º 52 ajustada”, explica a DSAT.
Incêndio | Foco na Rua do Cunha terá mão criminosa Hoje Macau - 8 Abr 2026 A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar um incêndio que deflagrou numa banca de vendas na Rua do Cunha, por suspeitas de fogo posto, no dia 4 de Abril. A informação foi divulgada pela PJ e citada pelo jornal Ou Mun. O incêndio foi detectado por um transeunte que se apercebeu de alguns objectos em chamas na banca de vendas. O transeunte chamou a polícia para pedir ajuda, e o incêndio foi extinto pelos bombeiros. Não foram registados feridos, mas o caso foi classificado como suspeita de fogo posto e foi entregue à Polícia Judiciária para investigação complementar. Acidente | Detido após bater em barreiras metálicas Um residente local foi detido, depois do veículo que conduzia ter embatido contra barreiras metálicas, na Avenida da Amizade, por volta das 21h30. De acordo com os contornos apresentados pelas autoridades, o acidente aconteceu a 1 de Abril, e, num primeiro momento, o homem fugiu do local. Contudo, o embate foi visto por testemunhas, que ligaram de imediato à polícia. As autoridades identificaram o homem de 40 anos, que foi detido e acusou uma taxa de álcool de 1,11 gramas por litro de sangue. Após a detenção, o homem confessou ter estado a beber ao jantar e indicou que quando se despistou conduzia para regressar a casa. O caso foi entregue ao Ministério Público.
Jogo | Receitas anuais podem crescer até 8,3 por cento Hoje Macau - 8 Abr 2026 Com o avançar do ano, os analistas começam a corrigir as estimativas iniciais de crescimento para a principal indústria de Macau. Após a subida de 14,3 por cento das receitas no primeiro trimestre, as previsões tornam-se ainda mais optimistas A empresa de avaliação de acções CBRE estima que o mercado do jogo vai crescer 8,3 por cento ao longo deste ano, o que indica ser uma estimativa que supera em dois pontos percentuais o consenso entre os analistas. O relatório mais recente da CBRE foi citado pelo portal GGRAsia, depois de ser divulgado na segunda-feira. A estimativa dos analistas John DeCree e Max Marsh tem em conta a subida anual de 14,3 por cento das receitas no primeiro trimestre do ano, para 65,87 mil milhões de patacas. O consenso dos analistas aponta para um crescimento anual de 6,0 por cento. No entanto, DeCree e Marsh explicam que este valor implica uma desaceleração das receitas, dado o crescimento do primeiro trimestre, o que não é expectável: “após o primeiro trimestre, o [crescimento] das receitas teria de desacelerar para 3,5 por cento durante o resto do ano… Consideramos improvável [tal] desaceleração”, é justificado. Os analistas afirmam ainda que “esperam que as receitas brutas do jogo de Macau cresçam mais rapidamente” do que o Produto Interno Bruto subjacente do Interior. No Interior, espera-se um crescimento do PIB entre 4,5 por cento e 5 por cento, o valor mais baixo da última década, excluindo o período da pandemia. Abril mais moderado Em Março, as receitas apresentaram um crescimento anual de 15 por cento, para 22,61 mi milhões de patacas, muito perto de Janeiro, quando as receitas cresceram 24 por cento, em termos anuais, para 22,63 mil milhões de patacas. No entanto, em Abril espera-se um crescimento mais moderado, com as estimativas a variarem entre 10 por cento e 12 por cento. Segundo as previsões do banco de investimento Seaport Research Partners, Abril deverá apresentar um crescimento anual de 12 por cento. Contudo, a partir da segunda metade do ano, o analista Vitaly Umansky espera um crescimento mais moderado, dado que os valores atingidos no período homólogo são mais elevados. Quanto à JP Morgan, os analistas Daniel Politzer, Samuel Nielsen e Michael Hirsh são mais moderados, com previsões de crescimento das receitas de 10 por cento em Abril.
One Oasis | Condomínio abdica de serviços da Transmac Hoje Macau - 8 Abr 2026 A administração do condomínio One Oasis abdicou do fornecimento dos serviços shuttle da empresa Transmac. A informação foi divulgada pelo Canal Macau, que indica que a nova opção passou por adquirir todos os autocarros que anteriormente eram utilizados pela agência de viagem que fornecia o serviço. Desde o início do ano, com a entrada em vigor da nova lei da actividade das agências de viagens e da profissão de guia turístico, que o Governo apertou a fiscalização ao fornecimento de serviços shuttle pelas agências de viagem. A lei foi aprovada pelos deputados e proposta pelo Governo. Antes da nova lei, a disponibilização de serviço shuttle por agências de viagens a empreendimentos habitacionais era uma prática ilegal, mas comum.
Viajantes do Interior escolhem Macau como destino de eleição Hoje Macau - 8 Abr 2026 A plataforma chinesa de viagens online do grupo Alibaba registou um aumento significativo nas reservas para o Festival de Qingming, com Macau a continuar a ser um dos destinos mais populares para os turistas chineses. “Macau é actualmente um dos destinos com crescimento mais rápido para os feriados de Qingming. As reservas de hotéis e voos estão em alta, enquanto as reservas de produtos de viagem e lazer, incluindo pacotes turísticos, serviços de motorista particular e ingressos para atracções, mais que dobraram em relação ao ano anterior”, indicou a plataforma Fliggy à Lusa. O Festival Qingming, em que os chineses limpam os túmulos dos antepassados, decorreu entre 4 a 6 de Abril. Segundo informações enviadas pela empresa, o turismo doméstico chinês liderou as tendências de viagem, com reservas de hotéis a crescerem 40 por cento em termos homólogos e a venda de bilhetes para locais turísticos a subir mais de 70 por cento. Macau e outras regiões de viagens mais longas no país, como Hainão, Xinjiang, Yunnan e Tibete, registaram crescimentos superiores a 100 por cento e consolidaram-se como destinos de eleição para viagens durante este feriado. Grandes centros urbanos como Pequim, Cantão e Chengdu lideraram as reservas, mas destinos menos conhecidos também se expandiram. As compras de pacotes de férias na plataforma aumentaram 72 por cento em Março, enquanto as pesquisas por “observação de flores” e “passeios de Primavera” dispararam quase 380 por cento face ao mês anterior. Cidades como Xangai, Hangzhou e Wuhan organizaram festivais temáticos de flores para atrair visitantes. Para fora As viagens ao estrangeiro estiveram igualmente em alta, com os gastos em actividades de lazer – desde passeios de barco a excursões de helicóptero – a aumentarem 120 por cento em termos homólogos. Destinos de curta distância, a menos de quatro horas de voo, como Coreia do Sul, Tailândia e Singapura, mantêm-se populares. A plataforma registou também um crescimento muto rápido, com forte procura por países como o Sri Lanka, Nova Zelândia, Islândia e Grécia. Nos primeiros dois meses, Macau recebeu 7,82 milhões de visitantes, um aumento de 15,1 por cento face ao mesmo período de 2025. O território atingiu a marca de 10 milhões de visitantes em 21 de Março, alcançando este número 12 dias mais cedo do que em 2025. As autoridades locais prevêem que o ano termine com 41 milhões de visitantes.
Banca | Lucros sobem 14,3 por cento em dois meses Hoje Macau - 8 Abr 2026 Apesar de a AMCM ter aprovado três descidas da taxa de juro de referência em 2025, os bancos estão a conseguir gerar mais dinheiro, com os lucros nos primeiros dois meses do ano a atingirem 2,71 mil milhões de patacas Os bancos de Macau obtiveram um lucro de 2,71 mil milhões de patacas nos primeiros dois meses do ano, mais 14,3 por cento do que no mesmo período do ano passado. De acordo com dados oficiais da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), divulgados na quinta-feira, a principal razão para a subida dos lucros foi um aumento de 24,4 por cento, para 3,09 mil milhões de patacas, na margem de juros, a diferença entre as receitas dos empréstimos e as despesas com depósitos. Isto apesar de a AMCM ter aprovado três descidas da principal taxa de juro de referência em 2025, a última das quais um corte de 0,25 pontos percentuais, introduzida em 11 de Dezembro, seguindo a Reserva Federal norte-americana. Os empréstimos, a principal fonte de receitas da banca a nível mundial, subiram 0,3 por cento em comparação com Fevereiro de 2025, fixando-se em 1,05 biliões de patacas. Mas os depósitos junto dos bancos de Macau aumentaram ainda mais, 7,4 por cento, para 1,42 biliões de patacas no final de Fevereiro passado, disse a AMCM. Os bancos de Macau obtiveram um lucro de 7,34 mil milhões de patacas em 2025, quase o dobro do registado no ano anterior (mais 92,7 por cento). O ano mais lucrativo de sempre para a banca da região administrativa especial chinesa foi 2020, quando os lucros ficaram perto de 17 mil milhões de patacas. Macau tem dois bancos emissores de moeda: a sucursal local do banco estatal chinês Banco da China e o Banco Nacional Ultramarino (BNU), que pertence ao Grupo Caixa Geral de Depósitos. O BNU anunciou no início de Fevereiro lucros líquidos de 431,2 milhões de patacas, menos 153,9 milhões de patacas do que em 2024, algo que o banco atribuiu à queda das taxas de juro. Malparado em quebra O crédito malparado caiu pelo terceiro mês consecutivo, para 48,8 mil milhões de patacas, depois de ter encolhido 11,6 por cento em 2025, a primeira queda anual desde 2013. Os empréstimos vencidos representavam 4,7 por cento dos empréstimos dos bancos de Macau, menos 0,8 pontos percentuais do que em Fevereiro de 2025. Uma percentagem que sobe para 5,1 por cento no caso do crédito a instituições ou indivíduos fora da região chinesa. A Autoridade Bancária Europeia, a agência reguladora da UE, por exemplo, considera que os bancos com pelo menos 5 por cento dos empréstimos malparados têm “elevada exposição” ao risco e devem estabelecer uma estratégia para resolver o problema.
UCCLA Assembleia marcada por solidariedade face a catástrofes natural Hoje Macau - 8 Abr 2026 A solidariedade com as populações afectadas pelas chuvas em Moçambique, Cabo Verde e Portugal vai marcar a XLIII assembleia-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), que reúne as cidades e empresas membros da organização no próximo dia 13 em Macau. Além da discussão e aprovação de três moções relativas às chuvas intensas em Moçambique no final de Dezembro de 2025 e durante Janeiro deste ano, em Cabo Verde em Agosto de 2025, e no início de 2026 em Portugal, eventos todos eles marcados pela ocorrência de vítimas mortais e prejuízos avultados, a agenda de trabalhos da assembleia tem ainda inscrito um voto de pesar e de reconhecimento ao escritor António Lobo Antunes, que morreu no passado dia 5 de Março. A reunião magna da UCCLA, que este ano decorre em Macau, no Complexo da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), irá ainda apreciar as candidaturas à organização da cidade de Viseu, assim como da província angolana de Ícolo e Bengo, a sul de Luanda, que abarca sete municípios, e ainda uma associação luso-brasileira. À margem da assembleia-geral, no dia seguinte, está prevista a realização de um fórum empresarial subordinado ao tema “Infra-estruturas e Cidades Inteligentes”, que visa reforçar “a dinâmica económico-comercial da instituição”, de acordo com um comunicado da UCCLA. Promover o investimento O evento permitirá à cidade anfitriã desenvolver como subtema o “ambiente de investimento em Macau, as vantagens da plataforma sino-lusófona, e o desenvolvimento conjunto de Macau e da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin e as oportunidades de negócios trazidas pela Grande Baía aos países de língua portuguesa, do ponto de vista dos investidores externos e de eventuais empresas lusófonas parceiras”, ainda segundo o comunicado. Concluído o fórum, o Governo de Macau oferece aos participantes uma visita guiada a Hengqin, uma zona económica especial sob um regime especial de cooperação entre a cidade de Zhuhai e Macau, onde pretende dar a conhecer a possibilidades de intercâmbio com os serviços e empresas do interior da China. A UCCLA é uma organização intermunicipal, sem fins lucrativos, que se dedica ao fomento do intercâmbio e da cooperação entre os seus membros em vários domínios. Constituída em 28 de junho de 1985, a UCCLA tem entre as cidades fundadoras Bissau, Lisboa, Luanda, Macau, Maputo, Praia, Rio de Janeiro e São Tomé/Água Grande. Actualmente, congrega 106 membros, entre os quais 24 efectivos, 44 associados, 28 apoiantes e 10 observadores.
Optoelectrónica | UN vai abrir em Macau laboratório sino-português Hoje Macau - 8 Abr 2026 A inauguração do novo espaço, criado em conjunto pela Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, com foco no estudo e aplicação de aparelhos electrónicos que fornecem, detectam e controlam luz, acontece amanhã A Universidade Nova de Lisboa (UNL) vai inaugurar esta quinta-feira, em Macau, um laboratório sino-português para estudar “energia sustentável, ecrãs de última geração e dispositivos inteligentes”, disse a cientista Elvira Fortunato à Lusa. A nova instituição vai juntar o Instituto de Nano-estruturas, Nano-modelação e Nano-fabricação (i3N) da UNL e o Instituto de Ciências e Engenharia de Materiais da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla em inglês). O Laboratório Conjunto Sino-Português de Optoelectrónica irá reunir “conhecimentos especializados em optoelectrónica, nano-tecnologia e materiais avançados de ambos os lados”, explicou Fortunato. A optoelectrónica é o estudo e aplicação de aparelhos electrónicos que fornecem, detectam e controlam luz, incluindo os computadores do futuro, que poderão funcionar com luz e não só com transições electrónicas. O objectivo é ser “um espaço onde investigadores de Portugal, China e outros países podem trabalhar (…) em desafios comuns, como energia sustentável, ecrãs de última geração e dispositivos inteligentes”, acrescentou Fortunato. “Macau, com a sua história singular como ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, é um local natural para este tipo de colaboração”, sublinhou a antiga ministra portuguesa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2022-2024). Fortunato sublinhou que o laboratório conjunto “representa o culminar de uma longa e profícua parceria” entre as duas universidades, que no final de 2025 assinaram um novo acordo de cooperação. Apoio da RAEM O acordo teve o apoio do Governo de Macau e o novo laboratório conta já com financiamento do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia. Isto “envia um sinal claro de que o Governo de Macau está empenhado em desenvolver uma capacidade de investigação de classe mundial e em transformar as descobertas científicas em impacto no mundo real”, acrescentou. Elvira Fortunato e o marido, Rodrigo Martins, que lidera a Academia Europeia de Ciências desde 2018, são conhecidos por terem inventado, em 2008, com colegas, o chamado “papel electrónico”, o primeiro transístor feito de papel. Martins, coordenador do i3N-NOVA, sublinhou que o instituto está também a desenvolver um outro projecto de investigação em parceria com a MUST sobre “os chamados materiais funcionais avançados” para a energia. Em paralelo com a inauguração do laboratório, a MUST irá acolher um fórum de três dias sobre materiais optoelectrónicos, em colaboração com a Universidade de Suzhou, no leste da China. Numa nota enviada à Lusa, a MUST sublinhou que “este laboratório é o primeiro do seu género em Macau e o primeiro laboratório de investigação conjunta China-Portugal (…) dedicado à optoelectrónica”.
Identidade de Género | Alterações só com “estudo prudente” Hoje Macau - 8 Abr 20268 Abr 2026 As autoridades de Macau declararam à Lusa a necessidade de ser feito um “estudo prudente sobre as questões jurídicas envolvidas” no reconhecimento da identidade de género, descartando qualquer revisão legislativa. “Na situação em que não existe um consenso geral na sociedade, o Governo da RAEM necessita ainda de proceder ao estudo prudente sobre as questões jurídicas envolvidas”, respondeu por email a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça (DSAJ). A Lusa tinha questionado este departamento sobre se planeava criar legislação para o reconhecimento da identidade de género em Macau, único local na China onde não existem leis que permitam aos residentes mudar o marcador de género no documento de identidade ou realizar cirurgias de redesignação sexual. “O reconhecimento da identidade de género envolve questões, nomeadamente relacionadas com o valor nuclear da sociedade de Macau, as disposições do direito civil e as relações matrimoniais e familiares”, indicou ainda a DSAJ. Esta direcção referiu que, “até ao presente momento, não se encontra um planeamento para a revisão do respectivo regime jurídico”. Quatro pessoas trans em Macau narraram à Lusa, por ocasião do Dia Internacional da Visibilidade Transgénero, assinalado em 31 de Março, um trajecto de exclusão, com barreiras no acesso a cuidados médicos, emprego e ensino.
Energia | Pedido maior controlo sobre fornecedores João Santos Filipe - 8 Abr 2026 O deputado ligado aos Moradores, Leong Hong Sai, está preocupado com a “instabilidade persistente na região do Médio Oriente” e as consequências da inflação para a população e para as pequenas e médias empresas O deputado Leong Hong Sai defende que o Governo deve aumentar o controlo sobre os fornecedores de energia. A posição foi tomada através de uma interpelação escrita do legislador ligado à Associação dos Moradores, numa altura em que a economia mundial continua a lidar com as consequências do encerramento do estreito de Ormuz. “A instabilidade persistente na região do Médio Oriente provocou fortes perturbações nos mercados energéticos mundiais, com uma subida acentuada dos preços internacionais da energia, afectando de forma profunda o abastecimento de energia, o funcionamento das indústrias e o bem-estar da população de todas as economias do mundo”, escreve o deputado. “O abastecimento energético está directamente ligado à estabilidade social e à qualidade de vida da população em geral, sendo que o aumento dos preços internacionais da energia exerce igualmente pressões e desafios latentes sobre Macau”, avisa o Executivo. “A estabilidade dos preços é do interesse de todos os residentes, especialmente no que diz respeito à protecção do modo de vida dos grupos mais vulneráveis, enquanto que o processo ‘gasolina para electricidade’ constitui um passo fundamental para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e alcançar o desenvolvimento sustentável”, acrescenta. Neste sentido, Leong Hong Sai quer saber como “é que o Governo vai regular os fornecedores de energia” em áreas como o gás natural, o gás butano, a gasolina e a electricidade. O legislador pretende ainda saber se o Executivo vai divulgar “mais dados sobre os preços” e fiscalizar “de perto as variações dos preços”. Apoios à vista? Face à possibilidade de os combustíveis aumentarem os preços praticados pelas pequenas e médias empresas (PME), reduzindo ainda mais a competitividade, principalmente face ao Interior, Leong Hong Sai quer que o Governo explique se há abertura para apoiar a economia local. “O aumento do custo da energia vai, com certeza, afectar o ambiente comercial das pequenas e médias empresas e o nível de vida da população, assim sendo, como é que o Governo vai definir, de acordo com a situação real, medidas especiais de apoio às pequenas e médias empresas e às famílias em situação vulnerável, com vista a assegurar a estabilidade da vida da população?”, questionou. Finalmente, o deputado encara o choque energético como uma oportunidade para diversificar as fontes de energia e apostar em alternativas. Em concreto, o deputado defende que se devem abandonar os veículos a combustão, e apostar nos veículos eléctricos, mercado em que o Interior é o principal produtor, e ainda “explorar energia fotovoltaica”.
Branqueamento de Capitais | Macau mantém-se um “nó fundamental para lavagem de dinheiro” Hoje Macau - 8 Abr 20268 Abr 2026 O cenário foi traçado por especialistas em branqueamento de capitais à Agência Lusa, que destacam que o negócio assume novas formas, depois das campanhas contra as empresas junket. Os novos modelos passam pelas casas de câmbio, de penhores e a utilização de cartões de crédito Especialistas em crime organizado indicaram à Lusa que Macau continua a ser um “nó fundamental para a lavagem de dinheiro” por organizações criminosas, apesar do desmantelamento do anterior sistema de jogo VIP no território Segundo Martin Pubrick, antigo membro da Polícia Real de Hong Kong e especialista em corrupção e crime organizado, embora Pequim tenha desmantelado o sistema de angariadores de jogo VIP, conhecidos como ‘junkets’, que outrora dominava o sector dos casinos da cidade, Macau continua a ser uma porta de entrada crucial para a lavagem de dinheiro na região. “Embora grandes sindicatos criminosos chineses tenham deslocado operações pelo Sudeste Asiático em resposta a medidas repressivas, Macau continua a ser um ponto operacional e de encontro para estas redes profundamente enraizadas”, disse à Lusa. O sistema de ‘junkets’ permitia “enormes fluxos de capitais provenientes da China Continental” e enriquecia grupos ligados às tríades, um “processo que terminou nos anos anteriores à pandemia de covid-19, quando o Governo central expandiu a campanha anticorrupção, reforçou os controlos de capitais e processou vários ‘junkets’ de Macau para enviar uma mensagem clara”, explicou o analista. Alvin Chau Cheok Wa, ex-chefe do maior grupo de ‘junkets’ da cidade, a Suncity Group, foi preso em 2021 e depois condenado a 18 anos de prisão por associação criminosa e exploração de jogo ilícito. Num processo paralelo, Levo Chan, líder do Tak Chun Group, o segundo maior ‘junket’ de Macau, foi condenado a 13 anos de prisão por acusações semelhantes. Modelos afastados John Wojcik, investigador sénior da Infoblox Threat Intelligence e ex-analista do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, faz a mesma análise. Apesar de a mensagem das autoridades locais ser clara de que “as velhas formas de negócio acabaram”, Macau mantém uma importância estratégica nesta indústria paralela, afirmou à Lusa. O modelo de negócio dos “junkets” de Macau e dos grupos criminosos associados era, até 2019, centrado nos casinos. Hoje, porém, a actividade deslocou-se para apostas e jogos ilegais online, com pagamentos em criptomoedas e uma expansão significativa para esquemas de fraude digital em larga escala, sublinhou Pubrick. “Casas de câmbio, lojas de penhores e movimentos através de cartões de crédito absorveram essa procura, o que pode significar que a lavagem de dinheiro em Macau é hoje menos centralizada e menos visível”, observou o analista. Mas “Macau continua a ser um nó fundamental para a lavagem de dinheiro”, reiterou. Estes grupos criminosos, descreveu Pubrick, adaptaram-se, deslocando operações para jurisdições com regulamentação mais frágil, como o Camboja, Filipinas, que acolhia várias companhias de jogo online offshore, assim como zonas fronteiriças de Myanmar (antiga Birmânia). Muitos migraram para “apostas ilegais online, fraude digital e transacções em criptomoedas”, criando um negócio “geograficamente distribuído”, com vítimas que se expandem hoje à Europa e Américas. “Macau já não é o centro da lavagem de dinheiro, mas é uma porta regulada que continua a ser explorada por grupos criminosos da China Continental, Hong Kong e Taiwan”, reforçou Pubrick. Casos mais recentes Dois casos recentes ilustram esta realidade. Em Março, as autoridades de Taiwan prenderam 20 pessoas envolvidas num esquema de lavagem de dinheiro estimado em 33 mil milhões de dólares taiwaneses. De entre as duas dezenas de detidos, 10 foram, entretanto, acusados pelo Ministério Público de Taiwan por, nomeadamente, usarem casinos de Macau para branquear o dinheiro, proveniente de jogo ilegal na Internet. “Mulas de dinheiro” inflacionavam limites de crédito, compravam grandes quantidades de fichas e trocavam-nas por moeda local, disfarçando os fundos. Dois alegados cabecilhas do esquema permaneçam em fuga. Num segundo caso, Lin Ping-wen, um fugitivo taiwanês ligado a um dos maiores escândalos de jogo ilegal na Ilha Formosa e procurado por jogo ilegal e branqueamento de capitais, foi morto a tiro no Camboja, em Sihanoukville, cidade costeira no sudeste do país conhecida pelos seus casinos. Com antecedentes no crime organizado em Taipé, Lin esteve também ligado a um escândalo de manipulação de jogos de beisebol em 2007 e, mais tarde, integrou o sector de promoção de jogo VIP em Macau, com ligações ao Suncity Group. Dados oficias mostram redução anual no número de transacções suspeitas No ano passado, o número de transacções suspeitas registadas pelo Gabinete de Informação Financeira (GIF) apresentou uma redução anual de 6,1 por cento, para 4.925 relatos. No entanto, este foi o segundo valor mais elevado dois últimos 10 anos e que representa uma média de 13 transacções suspeitas diárias. A maior parte das denúncias não são tidas como transacções suspeitas, e no ano passado apenas 118 operações foram encaminhadas para o Ministério Público. O recorde de transacções relatadas pelos diferentes sectores da economia ao GIF atingiu o pico em 2024, quando foram registadas 5.245 operações financeiras que geraram suspeitas, uma média de 14 transacções suspeitas por dia, com 142 a serem apresentadas ao Ministério Público. No ano anterior, em 2023, o número tinha sido de 4.614 transacções. Entre 2020 e 2022, durante os anos da pandemia e das fortes restrições de circulação para o território, devido à adopção da política de zero casos de covid, os números atingiram valores mais baixos, que variaram entre 2.224 e 2.199, sempre inferior às 2.500 transacções. Antes da pandemia e até 2016, o valor mais elevado tinha sido registado em 2018, quando foram denunciadas 3.716 transacções, um valor que apenas foi ultrapassado em 2023, a primeira vez em que o registo ultrapassou a barreira das 4.000 transacções, o que representa uma média de 11 casos por dia. Jogo mais alerta As principais denúncias recebidas pelo GIF partem do sector do jogo, que no ano passado foi responsável por 73,1 por cento dos 4.925 relatos de transacções suspeitas, o que significou 3.603 relatos. No entanto, o sector do jogo apresentou menos denúncias ao GIF em termos anuais, dado que em 2024 foram reportadas 3.837 transacções suspeitas. Ainda no que diz respeito a 2025, o segundo sector a apresentar mais denúncias foi o das instituições financeiras e companhias de seguros com 1.008 movimentos suspeitos. Finalmente, todas as outras instituições da economia apresentaram 314 relatos, o que representou 6,4 por cento do total.
Venezuela | China critica licenças mineiras dos EUA Hoje Macau - 2 Abr 2026 A China acusou ontem os Estados Unidos de interferirem na sua cooperação com a Venezuela, após a emissão de uma licença que permite investimentos no sector mineiro do país sul-americano, mas exclui empresas chinesas. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning afirmou em conferência de imprensa que Pequim “se opõe firmemente” ao uso, por parte de Washington, de “alegadas licenças gerais para interferir na cooperação entre a China e a Venezuela”, sublinhando que os “direitos e interesses legítimos” do país asiático devem ser protegidos. Mao acrescentou que os Estados Unidos deveriam “levantar imediatamente as suas sanções unilaterais ilegais contra a Venezuela”, em vez de utilizarem estas licenças para “encobrir acções que prejudicam os direitos e interesses legítimos da Venezuela e de outras partes”. As declarações surgem depois de o Departamento do Tesouro norte-americano ter emitido nos últimos dias uma licença que autoriza empresas dos Estados Unidos a negociar, assinar contratos e investir no sector mineiro venezuelano, incluindo a exploração e comercialização de minerais como o ouro, até agora sujeitos a sanções.
Comércio | Eurodeputados analisam em Pequim concorrência comercial Hoje Macau - 2 Abr 2026 Uma delegação da comissão do Mercado Interno do Parlamento Europeu reuniu-se ontem em Pequim com empresas europeias para analisar a concorrência com a China, incluindo desequilíbrios comerciais, comércio electrónico e inteligência artificial. Segundo a comissão, o encontro com a Câmara de Comércio da União Europeia na China centrou-se no “desequilíbrio comercial”, no impacto da inteligência artificial no emprego e produção, na evolução do comércio electrónico e nas oportunidades de mercado, durante a primeira visita de eurodeputados ao país em oito anos. A missão é liderada pela eurodeputada alemã Anna Cavazzini e começou na terça-feira com reuniões com o embaixador da União Europeia na China, Jorge Toledo, e outros representantes europeus em Pequim. Os eurodeputados reuniram-se também com altos responsáveis chineses, a quem transmitiram preocupações sobre a entrada na União Europeia de produtos “perigosos” provenientes da China. A delegação tem previsto reunir-se ainda com representantes das plataformas Shein e Alibaba, antes de seguir para Xangai, onde deverá encontrar-se com a Temu e visitar o aeroporto internacional de Pudong. Durante a visita, os eurodeputados vão também acompanhar, com autoridades aduaneiras chinesas e empresas de logística, o funcionamento dos controlos de exportação e importação. A deslocação ocorre num contexto de crescente atenção de Bruxelas à entrada massiva de pequenos pacotes provenientes de plataformas fora da União Europeia, sobretudo chinesas. Segundo o Parlamento Europeu, em 2024 entraram no mercado europeu 4.600 milhões de pequenos pacotes, 91 por cento dos quais com origem na China. A instituição considera ainda que a relação económica com Pequim continua assimétrica, devido à desigual abertura dos mercados, num contexto de défice comercial europeu de 359,8 mil milhões de euros com a China em 2025.
Centaline | Mercado residencial recupera após medidas de estímulo Hoje Macau - 2 Abr 2026 O mercado imobiliário residencial de Macau registou uma recuperação acentuada no primeiro trimestre de 2026, impulsionado pela entrada em vigor de medidas de estímulo do Governo, indicou a agência imobiliária Centaline. Num relatório publicado ontem, a imobiliária destacou que entre Janeiro e Março foram transaccionadas 1.328 unidades residenciais na cidade, um aumento de 95 por cento face ao mesmo período do ano passado. Segundo a companhia, a recuperação foi impulsionada por medidas introduzidas em 01 de Janeiro pelas autoridades de Macau, que isentam de imposto de selo as primeiras 600 mil patacas na compra de um imóvel e aumentam para 80 por cento o rácio máximo entre o valor do empréstimo e o valor do imóvel. Os preços médios das transações no mercado residencial subiram ligeiramente, 1,5 por cento em termos homólogos, para cerca de 75 mil patacas por metro quadrado de área útil, criando um “aumento simultâneo do volume de vendas e do preço”, afirmou Steve Ng, director sénior de vendas regionais da Centaline Macau, citado no relatório. A recuperação ganhou força após o Ano Novo Lunar no final de fevereiro, com o mês a registar 494 transações, o valor mensal mais elevado desde 2021. O segmento de luxo, no entanto, ficou aquém da recuperação geral, com as transacções de imóveis avaliados acima de 15 milhões de patacas a cair para metade em termos homólogos, para apenas seis no trimestre. O mercado de arrendamento residencial de Macau manteve a trajectória ascendente, com as rendas médias a subirem 2 por cento no ano passado, para 139 patacas por metro quadrado, de acordo com as estatísticas oficiais. As unidades entre 100 e 150 metros quadrados registaram o maior aumento das rendas, de 5 por cento. A Centaline espera que o mercado residencial de Macau mantenha o seu dinamismo no segundo trimestre, com o volume de transacções a manter-se previsivelmente acima das 1.000 unidades. Stanley Poon, director-geral da Centaline Macau e Zhuhai Hengqin, afirmou que a recuperação do mercado residencial reflecte uma “correcção saudável” após anos de descidas de preços. Mas alertou que os imóveis comerciais continuam sob pressão e apelou a mais apoio político para melhorar o ambiente de negócios. “Num ambiente geopolítico instável, os investidores são cada vez mais atraídos para jurisdições com estabilidade política e elevada segurança nacional”, afirmou Poon, também citado no texto. Sentido contrário Enquanto a actividade residencial aumentou, o sector comercial de Macau manteve-se em baixa, com a Centaline a prever terem sido registadas 79 transacções de lojas no primeiro trimestre, uma queda de cerca de 30 por cento face ao trimestre anterior. Nos distritos turísticos, no entanto, continuaram a verificar-se transacções de lojas de gama alta, com duas transacções de lojas acima de 50 milhões de patacas concretizadas durante o trimestre. Do outro lado da fronteira em Hengqin, as transacções imobiliárias abrandaram acentuadamente no primeiro trimestre, com as escrituras a caírem 58 por cento em termos trimestrais, para 610 unidades, afirmou a Centaline. No entanto, os preços mantiveram-se firmes, subindo 17 por cento em termos trimestrais, para uma média de 22.770 yuans chineses por metro quadrado. Os compradores oriundos de fora da província de Guangdong representaram 41 por cento das transações em Hengqin, seguidos pelos compradores locais de Zhuhai, com 24 por cento, e pelos residentes de Macau, com 18 por cento. Os preços das habitações novas na China caíram pelo 33.º mês consecutivo em Fevereiro, no contexto da prolongada crise imobiliária no país, embora tenham moderado o ritmo de descida face ao mês anterior. Em Macau, o sector imobiliário tem registado descidas nos valores por metro quadrado há oito anos consecutivos.
A paleoclimatologia e o estudo da evolução do clima Olavo Rasquinho - 2 Abr 2026 Muitos de nós já nos interrogámos como é que os cientistas colhem informações sobre o clima de há milhares de anos. Por outro lado, é também alvo da curiosidade como se caracteriza o clima atual e como se antevê a sua evolução nas próximas décadas ou centenas de anos. Para que possamos prever o melhor possível quais as transformações a que estará sujeito o clima, é necessário conhecer o seu passado e o estado atual. Podemos caracterizar o clima de uma região como o estado médio das condições meteorológicas durante um determinado período, de preferência não inferior a trinta anos. Para esse efeito os serviços meteorológicos nacionais calculam os valores médios das principais variáveis meteorológicas ocorridos em períodos de trinta anos. As tabelas resultantes desses cálculos designam-se por “normais climatológicas” ou simplesmente “normais”. Assim, os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais (SMHN) publicam regularmente tabelas deste tipo, referentes a várias estações meteorológicas instaladas em locais escolhidos para esse efeito, as quais são atualizadas todos os dez anos. Estas estações constam de abrigos expostos à radiação solar e ventilação, onde são instalados instrumentos (termómetros, psicrómetros, barómetros, etc.) em locais representativos da região circundante, longe de obstáculos e de fontes artificiais de calor, em chão coberto de relva. Fora dos abrigos, no parque de instrumentos envolvente, são também instalados anemómetros, pluviómetros, heliógrafos, piranómetros, sensores UV, evaporímetros, etc. Note-se que, quando se refere a temperatura do ar, subentende-se que esta é medida à sombra, dentro do abrigo. As estações meteorológicas selecionadas para monitorização do clima são designadas por estações climatológicas. Estas diferem das primeiras no uso dos dados e na frequência das observações. As estações meteorológicas (também designadas por estações sinóticas) têm como objetivo a medição dos parâmetros meteorológicos para fins de monitorização das condições atmosféricas e para previsão do tempo a curto prazo, enquanto as climatológicas têm como finalidade o estudo do comportamento da atmosfera a longo prazo. Todos os SMHN constroem as respetivas normais referentes a várias estações climatológicas, abrangendo os mesmos períodos, o que permite a harmonização das estatísticas entre as diferentes instituições à escala global. Assim, as últimas quatro normais referem-se aos períodos 1961-1990, 1971-2000, 1981-2010, 1991-2020. As próximas tabelas abrangerão o período 2001-2030. Além dos valores médios, as tabelas incluem também outros dados estatísticos, como valores máximos e mínimos, número de horas de insolação, quantidade de precipitação, direção e velocidade do vento, número de dias de nevoeiro e de trovoada, etc. A Direção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau é a entidade responsável pelas normais climatológicas de RAEM1. Da sua análise, conclui-se que em Macau há uma tendência de aumento do número de dias quentes (com temperatura máxima superior ou igual a 33 ºC) e de noites quentes (temperatura mínima igual ou superior a 28 ºC), o que se reflete no aumento consistente da temperatura média. Estas conclusões estão em consonância com o que se passa à escala global. No que se refere à precipitação, a tendência é também para aumentar. Para se ter conhecimento sobre a evolução do clima desde há milhares de anos, recorre-se, entre outras ciências, à paleoclimatologia, que consiste no estudo das variações a que o clima da Terra tem estado a ser sujeito desde há milhares de anos até à utilização de instrumentos meteorológicos. A paleoclimatologia recorre a outras ciências, como a dendrocronologia, que consiste no estudo dos anéis de crescimento das árvores, as quais produzem geralmente um anel por ano, o que permite a contagem da sua idade. Maior ou menor espessura dos anéis corresponde a anos mais ou menos chuvosos, respetivamente, o que permite aos paleoclimatologistas tirarem conclusões sobre ciclos de seca e de anos chuvosos. Para que o estudo do clima do passado seja o mais completo possível recorre-se também a outras ciências, nomeadamente a palinologia (estudo de pólen e esporos), glaciologia, oceanografia e geologia. Com recurso à palinologia estuda-se o pólen preservado em fósseis, o qual corresponde a um determinado tipo de vegetação. Mudanças do pólen com o passar do tempo refletem alterações da cobertura vegetal como consequência de mudanças no clima. A glaciologia estuda as propriedades físicas e químicas das formações de gelo na natureza, a sua origem e evolução, tendo como foco principal as calotas polares e os glaciares. Com recurso ao gelo obtido através de perfurações nas calotas polares os glaciologistas recolhem testemunhos sobre o clima de há milhares de anos. As bolhas de ar aprisionadas nas amostras de gelo permitem calcular a composição do ar, em especial a concentração dos principais gases de efeito de estufa (GEE), o dióxido de carbono e o metano. Estas amostras encerram uma espécie de arquivo da história climática da Terra. O recuo e o avanço dos glaciares constituem também um bom testemunho sobre as mudanças climáticas no passado. Para calcular a idade do ar encerrado nas bolhas de ar, recorre-se à lei do decaimento radioativo aplicada a um elemento que se encontre nessa amostra, por exemplo, o crípton 81, isótopo radioativo raro que é produzido na atmosfera por ação dos raios cósmicos sobre o crípton. Uma vez conhecida a meia-vida do crípton 81 (cerca de 229 000 anos) pode-se calcular a idade desse ar. Assim, o conhecimento das concentrações do dióxido de carbono e do metano permitem detetar quais os períodos a que corresponderam maior ou menor aquecimento, atendendo as características desses gases. No que se refere ao estudo do clima atual e do passado recente, a melhor maneira de o fazer consiste na análise das normais climatológicas obtidas com recurso a dados de estações climatológicas estrategicamente instaladas. Relativamente ao estudo do clima do futuro, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC) recorre a modelos climáticos que permitem elaborar projeções baseadas em diferentes cenários de emissões de gases de efeito de estufa: cenário de baixas emissões, cenários intermédios e cenário de altas emissões. Estes modelos consistem em simulações matemáticas complexas que tentam reproduzir o comportamento da atmosfera, entrando em consideração com as leis da física e as interações entre as diferentes componentes do clima (atmosfera, hidrosfera, litosfera, criosfera e biosfera). Independentemente dos cenários de emissões de GEE a partir dos quais se fazem correr os modelos, o IPCC considera que haverá consequências, entre as quais as seguintes: o gelo do Ártico poderá desaparecer durante o verão nas próximas três dezenas de anos; o nível médio do mar continuará a subir; a precipitação extrema diária pode aumentar cerca de 7% por cada grau Celsius de aquecimento global; furacões de categorias 4 e 5 e tufões intensos poderão aumentar de frequência. A evolução do clima nas próximas décadas ou séculos é uma das maiores preocupações de quem se preocupa com a sustentabilidade do nosso planeta e, dada a atual situação internacional e aquela que se prevê num futuro mais ou menos próximo, face ao avanço das forças retrógradas, é urgente que as recomendações das organizações que se preocupam com esta sustentabilidade sejam devidamente postas em prática, de forma a evitar que as projeções resultantes dos modelos climáticos, com base em qualquer dos cenários referidos, se tornem uma realidade. Meteorologista As normais de Macau são publicadas pela DSMG e podem ser consultadas em https://www.smg.gov.mo/pt/subpage/348/page/252
A Dinâmica das Guerras Globais Jorge Rodrigues Simão - 2 Abr 2026 “Great wars seldom begin with intention; they arise from the slow accumulation of pressures that nations fail to resolve before it is too late.” Reinhold Niebuhr A história das relações internacionais demonstra que as grandes guerras raramente emergem de um plano deliberado ou de uma decisão isolada. Pelo contrário, resultam de processos cumulativos, de tensões prolongadas e de transformações estruturais que, ao longo do tempo, convergem para um ponto de ruptura. A afirmação de que “as guerras mundiais não se planeiam” traduz precisamente a lógica de que os conflitos de escala planetária não nascem de um único acto de vontade, mas de uma sucessão de escolhas políticas, rivalidades estratégicas e percepções de ameaça que se intensificam até se tornarem incontroláveis. Este fenómeno, longe de ser um acidente histórico, constitui uma manifestação extrema da competição pela hegemonia global e da incapacidade dos sistemas internacionais de absorver choques sem colapsar. A compreensão deste processo exige uma análise que vá além da descrição factual dos acontecimentos. É necessário examinar os mecanismos que transformam rivalidades regionais em confrontos sistémicos, bem como os factores psicológicos, económicos e geopolíticos que alimentam a escalada. A partir desta perspectiva, torna-se evidente que as guerras globais são, antes de mais, o produto de uma acumulação de tensões que se tornam irreversíveis quando os actores envolvidos percebem que a sua sobrevivência política, económica ou civilizacional está em causa. A convicção de que “está tudo em jogo” cria um ambiente em que a retirada é vista como sinónimo de derrota existencial, e em que a guerra deixa de ser um instrumento para se tornar um fim em si mesma. A competição pela hegemonia mundial constitui um dos elementos centrais na génese das guerras de grande escala. Quando uma potência dominante começa a perder capacidade de projecção, confiança interna ou legitimidade externa, abre-se espaço para que actores emergentes desafiem a ordem estabelecida. Este fenómeno, amplamente observado em diferentes períodos históricos, não se limita à dimensão militar pois envolve também a disputa por recursos, mercados, influência cultural e controlo das instituições internacionais. A perda de “sangue e ânimo”, não se refere apenas ao declínio material, mas também ao desgaste moral e psicológico que afecta as sociedades hegemónicas. Quando uma potência dominante revela hesitação, divisão interna ou incapacidade de impor regras, os rivais interpretam esses sinais como oportunidades estratégicas. A percepção de fraqueza, mesmo que não corresponda inteiramente à realidade, tem um efeito multiplicador pois encoraja alianças alternativas, legitima discursos revisionistas e acelera a erosão da ordem vigente. A história demonstra que este tipo de transição raramente ocorre de forma pacífica. A potência estabelecida tende a resistir ao declínio, enquanto os desafiantes procuram acelerar a mudança. O resultado é um ambiente de desconfiança mútua, em que cada gesto é interpretado como ameaça e cada concessão como sinal de vulnerabilidade. A escalada torna-se, assim, quase inevitável. Um dos aspectos mais inquietantes das guerras globais é a forma como os actores envolvidos se convencem de que não podem recuar. Esta percepção não surge de imediato; é construída gradualmente, através de crises sucessivas que reforçam a ideia de que a sobrevivência depende da firmeza. Quando os Estados se encontram “de costas contra a parede”, a margem de manobra política desaparece. A diplomacia é substituída pela lógica da força, e a guerra transforma-se numa realidade autoalimentada. Este processo é agravado pela natureza das alianças internacionais. Uma vez comprometidos com determinados parceiros, os Estados enfrentam custos reputacionais e estratégicos caso decidam recuar. A credibilidade, elemento fundamental nas relações internacionais, torna-se um fardo em que qualquer sinal de hesitação pode desencadear desconfiança entre aliados e agressividade entre adversários. Assim, mesmo quando a guerra parece irracional, os actores envolvidos sentem-se compelidos a continuar. A irreversibilidade também se manifesta na opinião pública. Em contextos de polarização extrema, os governos receiam ser acusados de fraqueza ou traição caso optem por soluções negociadas. A retórica nacionalista, frequentemente utilizada para mobilizar apoio interno, acaba por limitar as opções políticas. A guerra deixa de ser apenas um confronto entre Estados e passa a ser um elemento identitário, um símbolo de resistência e de afirmação colectiva. Quando a escalada atinge o seu auge, a guerra perde o seu carácter instrumental. Não se trata de alcançar objectivos políticos específicos, mas de evitar a derrota a qualquer custo. Esta transformação é particularmente evidente nos conflitos que assumem uma dimensão total, em que a distinção entre civis e militares se esbate e em que todos os recursos da sociedade são mobilizados para o esforço de guerra. A expressão “guerra pela guerra” traduz esta realidade. O conflito torna-se um mecanismo autónomo, alimentado por dinâmicas internas que escapam ao controlo dos decisores. A lógica de soma zero em que o ganho de um é necessariamente a perda do outro impede qualquer compromisso. A vitória absoluta torna-se a única solução concebível, mesmo quando tal objectivo é materialmente impossível. Este fenómeno não é exclusivo das guerras mundiais clássicas. Pode manifestar-se também em conflitos regionais que, embora limitados geograficamente, envolvem actores globais e têm implicações sistémicas. A terceira guerra do Golfo, por exemplo, apesar da sua intensidade e impacto geopolítico, não atingiu a escala de uma guerra mundial. Contudo, ilustra como a percepção de ameaça existencial pode levar a decisões que ultrapassam a racionalidade estratégica. (continua)
Irão | China e Paquistão reforçam coordenação e apelam a cessar-fogo Hoje Macau - 2 Abr 2026 A China anunciou que vai reforçar a “coordenação estratégica” com o Paquistão sobre a crise no Irão, defendendo diálogo e um cessar-fogo, durante uma visita do chefe da diplomacia paquistanesa a Pequim. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, reuniu-se com o homólogo paquistanês, Ishaq Dar, na terça-feira, para discutir formas de reduzir as tensões regionais e lançar uma iniciativa conjunta de cinco pontos destinada a restaurar a estabilidade no Golfo Pérsico e no Médio Oriente. O plano inclui um apelo a um cessar-fogo imediato, à suspensão de ataques contra civis e infraestruturas críticas – como instalações energéticas e de dessalinização – e à reabertura do Estreito de Ormuz, uma via marítima crucial para o comércio global de energia. A via marítima tem sido afectada por um bloqueio de facto por parte de Teerão, em resposta a ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel iniciados a 28 de Fevereiro, que perturbaram cadeias de abastecimento e os mercados petrolíferos. Segundo o ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi sublinhou que um cessar-fogo é essencial para evitar a propagação do conflito, reduzir vítimas e garantir a segurança das cadeias globais de energia. “A China está disposta a trabalhar com o Paquistão para ultrapassar dificuldades, eliminar interferências, travar o conflito o mais rapidamente possível e abrir uma janela para negociações de paz”, afirmou. Do outro lado Ishaq Dar agradeceu o apoio chinês aos esforços de mediação de Islamabade, salientando que o conflito está a afectar de forma particular os países em desenvolvimento. “Alcançar a paz é uma causa justa e uma prioridade urgente”, declarou, reafirmando a disponibilidade do Paquistão para aprofundar a cooperação com Pequim e promover o diálogo entre as partes. A visita de Dar, a segunda à China em três meses, ocorre após contactos diplomáticos com países como Arábia Saudita, Turquia e Egipto, e num momento em que Islamabade se posiciona como mediador entre Washington e Teerão. A porta-voz da diplomacia chinesa Mao Ning afirmou que Pequim e Islamabade vão “reforçar a comunicação e coordenação estratégicas” e “promover o diálogo, pôr fim ao conflito e salvaguardar a estabilidade regional”. Analistas citados pela imprensa chinesa consideram que a cooperação bilateral vai além da crise iraniana, abrangendo também projectos económicos e questões regionais mais amplas, incluindo o corredor económico China – Paquistão. Ainda assim, especialistas sublinham que o apoio de Pequim deverá ser sobretudo político e diplomático, afastando a hipótese de garantias de segurança formais ao Irão, em linha com a política chinesa de não-alinhamento.
Paquistão e talibãs afegãos retomam negociações para cessar-fogo Hoje Macau - 2 Abr 20262 Abr 2026 O Paquistão e o Governo talibã do Afeganistão retomaram negociações na China, que está a mediar entre as duas partes para alcançar um cessar-fogo duradouro após mais de um mês de combates, disseram ontem dois responsáveis paquistaneses. Uma terceira fonte com conhecimento do processo indicou que as conversações visam pôr termo aos confrontos em curso, segundo a agência Associated Press. Representantes de ambos os países estão reunidos em Urumqi, no noroeste da China, segundo os responsáveis, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a prestar declarações à comunicação social. A China não comentou oficialmente o processo, enquanto o ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão não confirmou nem desmentiu o desenvolvimento. As fontes referiram que as conversações, vistas como um possível alívio para milhões de pessoas no Paquistão e no vizinho Afeganistão, já tiveram início. Islamabade acusa Cabul de dar abrigo a militantes responsáveis por ataques em território paquistanês, em particular ao grupo Talibã paquistanês, aliado dos talibãs afegãos, que tomaram o poder em 2021 após a retirada das tropas lideradas pelos Estados Unidos. O Afeganistão rejeita as acusações. Ataques mútuos As tensões agravaram-se no mês passado, quando Cabul denunciou que um ataque aéreo paquistanês atingiu um hospital de tratamento de toxicodependência na capital afegã, provocando mais de 400 mortos, número que as Nações Unidas dizem ainda estar por verificar. O Paquistão negou ter visado civis, afirmando ter atingido um depósito de munições. O ministro da Informação paquistanês, Attaullah Tarar, afirmou recentemente que o país “apenas visou infraestruturas terroristas” e não qualquer hospital. Embora as duas partes tenham acordado um cessar-fogo temporário durante a festividade muçulmana do Eid al-Fitr, os combates foram retomados posteriormente, ainda que com menor intensidade face aos confrontos registados em Fevereiro e Março. O conflito tem sido particularmente violento nos últimos anos. Em Fevereiro, o Paquistão declarou estar em “guerra aberta” com o Afeganistão, aumentando a preocupação da comunidade internacional, sobretudo devido à presença de grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico na região. Segundo as fontes citadas pela AP, a actual ronda de negociações iniciou-se após ambas as partes aceitarem a proposta de mediação da China. As tensões persistem há meses e os recentes combates fragilizaram um cessar-fogo mediado pelo Qatar em Outubro, que tinha interrompido confrontos anteriores que fizeram dezenas de mortos. Conversações de paz realizadas em Novembro em Istambul não conseguiram produzir um acordo duradouro.
Japão | Pequim afirma que novos mísseis vão “além da autodefesa” Hoje Macau - 2 Abr 2026 A China acusou ontem o Japão de ultrapassar o âmbito da autodefesa com o destacamento de novos mísseis de longo e manifestou preocupação com o que considera uma mudança na política de segurança japonesa. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning afirmou em conferência de imprensa que Tóquio está a instalar “armas ofensivas que vão muito além do alcance da autodefesa e do princípio de uma política exclusivamente defensiva”. Segundo Mao, estas medidas reflectem que “forças de direita no Japão estão a impulsionar a política de segurança numa direcção ofensiva e expansionista”, advertindo que tal orientação “ameaça a paz regional” e apelando à comunidade internacional para manter “elevada vigilância”. A responsável instou ainda o Japão a “reflectir profundamente sobre a sua história de agressão militarista”, a respeitar os compromissos em matéria de segurança e a agir com prudência. O Japão destacou na terça-feira os seus primeiros mísseis de longo alcance de fabrico nacional em bases nas prefeituras de Kumamoto, no sul do arquipélago, e Shizuoka, no centro, com um alcance de cerca de 1.000 quilómetros, o que lhe confere capacidade de contra-ataque. O ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, afirmou que estes sistemas visam reforçar a capacidade de dissuasão do país, classificando-os como uma “iniciativa crucial para fortalecer as capacidades de dissuasão e resposta”, num contexto de segurança que descreveu como “o mais complexo e severo desde o final da Segunda Guerra Mundial”. Esta semana, as autoridades japonesas anunciaram que o contratorpedeiro Chokai passou a ter capacidade para lançar mísseis norte-americanos Tomahawk, após modificações realizadas nos Estados Unidos.
O Abissal Ana Cristina Alves - 2 Abr 2026 Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau Quantos foram os que tentaram domar as águas, interiores e exteriores? E os que venceram dilúvios? Numa cultura tão antiga como a chinesa, há um grande imperador mitológico, gerado apenas por ventre paterno, tal como a deusa Atena, que havia de nascer da cabeça de Zeus. O Grande Yu (大禹), filho de Gun (鯀), nasceu do pai na forma de dragão e tinha poderes superiores aos do progenitor. Este procurava controlar as cheias com a terra reprodutora, aquele fê-lo com a mesma terra reprodutora milagrosa, mas com o auxílio suplementar de dois animais sagrados, o Dragão Ying (应龙) e a Tartaruga Xuan (玄龜). Apesar da oposição do Deus da Água, venceu-o e passou à história chinesa como o “Imperador que dominou o dilúvio”(大禹治水 Dà Yǔ Zhì Shuǐ) e, além disso, para impedir o avanço das águas construiu canais e dragou rios. As cheias, obra de deuses maldispostos ou de demónios perversos, foram controladas pela força do trabalho de um governante com poderes sobrenaturais, que se sacrificou a si e à sua família a bem da terra chinesa. Por isso se diz que ele casou com Nujiao (女娇), uma donzela da tribo Tushan (涂山氏) e “quatro dias depois do casamento, saiu de casa para retomar os seus afazeres. Esperavam-no trabalhos sem fim. Durante treze anos, passou três vezes pela sua casa, mas nunca entrou.” (Wang, Alves, 2009, 86). À sua imensa virtude e força de trabalho se ficou a dever a salvação da China e, como esta era à época o centro do mundo, da própria terra. Será ainda em luta e desafio às águas que outros heróis, divinos e humanos, vão exercitar as suas virtudes e, através delas, salvar a humanidade. Também na Grécia houve uma grande inundação provocada pela fúria de Zeus, contra uma humanidade cada vez mais impiedosa, violenta e corrupta. Conta-se que o deus supremo do Olimpo primeiro ainda pensou em desferir o seu raio contra os homens, deixando a terra toda em chamas, mas como o fogo poderia chegar aos céus, resolveu que o castigo seria perpetrado através das águas. Prometeu, que era vidente e muito amigo da humanidade, resolveu avisar o seu filho Deucalião, que morava em Ftia com a esposa Pirra, sendo esta filha de Pandora e Epimeteu. Ora como eles eram modelos de virtude foram os únicos a escapar ao dilúvio grego. “O casal tinha uma vida exemplar: eram muito trabalhadores, cumpriam as leis e eram piedosos. Por esse motivo, bem como pela afeição paternal, Prometeu quis garantiu que Deucalião e Pirra sobreviviam ao Dilúvio, que ele sabia que Zeus ia enviar um dia, e tinha dito ao filho para se preparar.” (Johnston, 2025, 83). Quando os céus escureceram, Deucalião percebeu que era tempo de se proteger, bem como à mulher. Preparou uma arca de madeira, isolou-a, encaixando as juntas e calafetando-as com alcatrão, depois equipou-a com alimentos necessários para se manter vivo com a sua mulher durante algum tempo. Passados nove dias e nove noites, a arca do casal encalhou no monte Parnaso. Perceberam que estavam sozinhos no mundo e para o repovoar procederam de acordo com os conselhos avisados de Témis, avó de Deucalião e mãe dos titãs Prometeu e Epimeteu, deusa que organiza o cosmos, conselheira e consorte temporária de Zeus. Não foi com o barro de Nϋwa (女娲), mas quase, foi com pedras, ossos maternos de Gaia, que repovoaram a terra: das mãos de Deucalião rolavam pedras que se transformavam em homens e das de Pirra eram atirados seixos que em contacto com o solo amoleciam e se metamorfoseavam em mulheres. Assim foi salva a humanidade por um casal, meio divino, meio humano, totalmente exemplar. Eram de facto os únicos que se aproveitavam naqueles tempos antigos e, através deles, as gentes tiveram a sua segunda oportunidade. Episódio semelhante sucedeu na tradição judaico-cristã. Depois de ter sido atingido o auge da corrupção “Javé viu que a maldade do homem crescia na Terra e que todo o projecto do coração humano era sempre Mau” (Gen, 6, 5-7) . Só havia um justo, de nome Noé, e esse preservou a vida, bem como a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos. Para tal, e porque o castigo do dilúvio se aproximava, também ele construiu uma arca, com as dimensões exatas ditadas por Deus, cento e cinquenta metros de comprimento, vinte e cinco de largura e quinze de altura. Era ampla para que nela coubesse um casal de cada ser vivo. Tinha à época este justo Noé 600 anos. Ao cabo de um ano de aventuras, já atingira os 601 anos, pôde sair com toda a família e companheiros da barca para se multiplicar e encher a terra, sob a proteção de Deus, que assim falou: “Estabeleço a minha aliança convosco; de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra.” (Gen, 9, 11). Bastou um justo para salvar toda a sua família, os outros seres vivos e recomeçar a história da humanidade e do mundo. Mas o dilúvio, o banho purificador, também na tradição judaico-cristã, foi essencial, sem ele a terra continuaria poluída e corrupta. O que nos diz a tradição filosófica chinesa sobre a Água? Para obter uma resposta há que remontar ao Clássico das Mutações (易经), no qual se encontram entrelaçadas a poesia e a filosofia. Este é composto por oito trigramas (八卦 bāguà) básicos, sendo um deles a Água (坎 kǎn). Os oito trigramas combinam-se de modo a constituírem os 64 hexagramas. Quando o trigrama da Água de base se encontra com o trigrama da Água do topo, está-se rodeado de água e este hexagrama, o 29º (坎卦第二十九 kǎn guà dí èr shí jiǔ), denomina-se, numa tradução possível pelo seu atributo, o Abissal. O perigo é enorme e repetido, de nada serve ao/à filósofo/a tentar escapar, porque está no meio de um dilúvio, que quando não é exterior, é interior, ou até simultâneo. No entanto, caso se observe a disposição das linhas, há esperança, já que o trigrama da Água é formado por duas linhas descontínuas yin, sombrias e aquáticas, mas ao centro contém uma linha contínua yang, solar, onde reside a alma. Quer dizer, ao todo, o hexagrama do abismo, ou numa interpretação ousada, do dilúvio, é constituído por quatro linhas sombrias e duas solares. Há então saída para o grande mergulho nas águas, mas essa deve ser encontrada no interior, o que liga a mente ao espírito, aquele capaz de se elevar, ainda que por vezes só em pensamento, para escapar ao perigo abissal. O/a sábio/a deverá cultivar uma determinada atitude, prática e muito concreta, se quiser ter a mesma sorte de Da Yu, Noé ou Deucalião, apontada pelo juízo do hexagrama, que resume e condensa a leitura atenta das seis linhas. No 29º hexagrama está-se perante: “O Abismal repetido, mas com sinceridade e confiança no coração, ser-se-á bem-sucedido em tudo o que se fizer.” (習坎,有孚,維心亨。行有尚) (Zhang, 1995,127). Será decisiva a sinceridade ,que nos tempos antigos também se dizia “pensar com o coração” (維心 wéi xīn). Assim, na leitura da primeira linha, aquela em que se dá a repetição das águas (o dilúvio), devem ser evitadas as armadilhas, porque caso se caía numa, dada a adversidade das condições circundantes, não há saída possível. Na segunda linha, yang contínua, surge a compreensão da situação e a tentativa de avançar aos poucos, com pequenas ações. Na terceira linha, yin descontínua regressa a atmosfera de água sobre água, pelo que a não-ação é a melhor resposta. Na quarta linha, também ela yin descontínua, experimenta-se um certo bem-estar usufruído nos pequenos prazeres da vida, como uma jarra de vinho ou uma vasilha gui2 de arroz, passados pela janela, a ser recebidos sem culpas. (六四;樽酒,簋貮、用缶,納約自牖,終無咎) (Zhang, 1995,129). A sinceridade do sentir e a comunhão desta com as ações é essencial para preparar a entrada na quinta linha yang contínua, solar e apta à compreensão e ao exercício da via do meio, seguida sem excessos de ambição que provoque uma cheia incontrolável. O/a sábio/a é então confrontado com a necessidade de se autocontrolar, sendo de ultrapassar o abismo interior. As águas do dilúvio são desafiadas e controladas por dentro, e quando se construiu a barca interna, está-se preparado para enfrentar a adversidade, mas caso não tenha havido essa preparação, segue-se uma sexta linha yin aquática, na qual todos os que não se cultivaram, ou melhor, não exercitaram a sua sinceridade, vão padecer por um período, segundo a linha de topo do hexagrama, “conhecendo a desgraça por três anos” (三歲不得,兇) (Zhang, 1995,130). Na filosofia chinesa mais antiga, a pessoa de saber é igualmente confrontada com o dilúvio, só que o perigo abismal, ainda que possa ser provocado por condições externas, só será vencido, caso seja adotada a atitude correta, que implica ultrapassar os obstáculos como boa preparação e sinceridade. A arca transportamo-la nós. Bibliografia Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus. Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Tradução de Luís Filipe Pontes. Odivelas: Alma dos Livros. Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Lisboa: Caminho. Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group. 張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚. Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. Gui (簋) é uma vasilha, de grande antiguidade, usada, por exemplo, no Paleolítico chinês para efeitos rituais, de culto ás divindades nos templos e nas casas dos grandes senhores do país.
José Drummond, artista, estreia novo trabalho em Lisboa: “A ideia foi criar um espaço de meditação” Andreia Sofia Silva - 2 Abr 2026 “O néon é um material que me interessa muito”. Quem o diz é o artista plástico José Drummond, ex-residente de Macau actualmente a viver em Portugal, e que acaba de ver inaugurada no recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, em Lisboa, uma nova peça. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, inspirada no I Ching – Livro das Mutações, é um convite à reflexão sobre a vida e os caminhos que se podem percorrer Como surgiu a oportunidade de ter um trabalho teu no MACAM [Museu de Arte Contemporânea Armando Martins] e de que forma ele se enquadra nas restantes obras? Antes de mais quero falar sobre o valioso trabalho do coleccionador Armando Martins na promoção da Arte Contemporânea em Portugal. É um trabalho notável e incontornável. Quero também referir o interesse e visão sobre o meu trabalho e todo o apoio de modo a tornar possível um projecto tão complicado de chegar a uma fase final. O convite foi feito no final de 2020, pela directora do Museu, Adelaide Ginga, e pela curadora Carolina Quintela, que me lançaram o desafio de criar uma obra “site-specific” para o espaço do túnel que liga a garagem ao Museu. Quando começámos a trabalhar, o que sabíamos é que seria um espaço de passagem, que nos interessava manter o aspecto do túnel com as paredes em cimento e que seria uma peça com luz. O trabalho resultante prossegue a minha investigação do espaço intermédio entre culturas – chinesa e ocidental – prolonga as questões de transiência presentes no taoismo e budismo, e continua a explorar os aspectos de, praticamente, todos os meus trabalhos serem sempre uma transferência seja conceptual, cultural ou física. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, nome da obra, é de 2025. Como foi o processo criativo? A sua colocação num corredor obedece a alguma mensagem específica, ou pretende transmitir algumas ideias em concreto. Este foi um trabalho que teve várias fases e que implicou uma larga cooperação com os engenheiros da obra de recuperação do edifício. A nível de projecto foi complicado chegar a este formato final e cumprir a minha visão. Houve a necessidade de se criar uma estrutura eléctrica de propósito para a peça, de se fazer um tecto falso que mantivesse a expressão das paredes originais e por aí em diante. Mesmo depois de finalizar o projecto no papel, tivemos de esperar que as obras de recuperação do edifício ficassem prontas para que fosse possível avançar, pois o túnel era usado como passagem para todos os materiais usados dentro do Museu. Quando, em conjunto com a Adelaide e a Carolina, cheguei a uma versão conceptual final sobre o que apresentar, levantaram-se outros problemas técnicos de manufactura dos néons e de montagem. Foi um processo muito desgastante para todos porque, infelizmente, tanto o custo dos materiais como a falta de rigor da mão de obra em Portugal – para trabalhar com néon a este nível de alta exigência para uma obra com a dimensão que tem – é deficiente. Basicamente a empresa responsável pela manufactura e montagem teve um comportamento absolutamente grosseiro, de falta de profissionalismo, tendo falhado em praticamente tudo o que foi pedido. Foi necessário desmontar tudo e voltar a montar com a montagem final a ser feita por mim e pelo meu assistente, Rafael Lopes, sem o qual não teria sido possível. Quanto ao processo criativo, apesar de parecer complicado, acabou por ser mais simples. Quis fazer uma obra com inspiração no I Ching [Livro das Mutações], e a partir daí tudo apareceu. Que ideias concretas trouxe para o projecto? A minha ideia foi criar um espaço de meditação, de contemplação, uma pausa, um portal que permita uma reflexão sobre a humanidade, sobre cada um de nós, um caminho ou uma passagem que junte a sabedoria milenar ao tempo contemporâneo; e que seja capaz de estabelecer um diálogo intercultural que não se esgote numa só ideia de cultura. Ao combinar elementos como o I Ching, talvez o primeiro registo de cultura em livro do mundo, com uma escolha de materiais como luzes néon, componentes arduíno, sequências por algoritmo de computador e com uma componente de som, o trabalho promove uma fusão entre tradição e tecnologia, entre passado e presente. O gesto de incorporar sequências completamente aleatórias, decididas pela programação e sem que permita ao humano saber o que vai acontecer de seguida, levanta as questões da tecnologia que se começa a automatizar por si própria. A programação irá criar sequências virtualmente infinitas. Este gesto de não se saber se o néon que vai acender de seguida é o hexagrama x ou y, prolonga a ideia do I Ching. De que forma? Traz uma dimensão de imprevisibilidade e indeterminação que pode ser interpretado como uma metáfora sobre a complexidade e incerteza da vida contemporânea. As sequências aleatórias são em si um registo de transitoriedade e impermanência, que também podem sugerir a ideia de que cada experiência é singular e cada momento em si, único. A presença de luzes néon e som cria uma atmosfera imersiva e sensorial, convidando os visitantes a uma experiência contemplativa, estimulando estados emocionais e mentais, e incentivando a introspeção. O trabalho poderá parecer inicialmente místico e enigmático, mas os elementos visuais e a sua coreografia – com cadências e mudanças suaves, e a composição de sons – subtis e envolventes, direccionam o sentir e o estar para o momento presente, podendo criar uma sensação de tranquilidade e calma, favorecendo um espaço mental propício à meditação. Oferece ainda um espaço fora do ritmo acelerado da vida contemporânea, onde cada um possa estar com as suas emoções, com os seus pensamentos, naquele momento, ali. Existem duas cores, azul para o céu e vermelho para a terra, ou também noite e dia, ou positivo e negativo – o Céu com seis linhas contínuas e a Terra com seis linhas interrompidas são hexagramas fundamentais que vão de encontro ao processo dos opostos, yin e yang. Tive a felicidade de trabalhar com o programador João Cabral para toda a programação e montagem do sistema arduíno que comanda a peça, e do músico David Maranha que entendeu na perfeição o que eu queria. Uma experiência enriquecedora para todos. Há muito que trabalha em torno dos neóns. De que forma este trabalho se relaciona com outras coisas que tenha feito, se é que se relaciona de alguma forma… Ao nível expressivo o néon é um material que me interessa muito. Na montagem final desta peça há resquícios expressivos das memórias que tenho dos néons no antigo Hotel Lisboa e no Hotel Fortuna, que tristemente já foram substituídos por LEDs, ou dos primeiros néons que vi nas minhas viagens na China. Por outro lado, continua o meu trabalho sobre o espaço cultural intermédio, onde as culturas se misturam e se mantêm em suspenso, sobre o deslocamento da pertença de onde somos e para onde vamos. Que outros novos projectos tem em mãos? Voltei a pintar. Se conceptualmente é mais do mesmo, o processo está a ser gratificante. Estou a trabalhar num grupo de pinturas luminosas e mais não posso revelar.
Autismo | Pedido apoios a partir das escolas Hoje Macau - 2 Abr 2026 A secretária-geral da Associação de Reabilitação Fu Hong de Macau, Chau Wai I, defende que é necessário elaborar planos de apoios de emprego para as pessoas com autismo, desde a altura em que ainda estão a estudar. Segundo uma opinião escrita pela responsável no jornal Ou Mun, a assistência deve começar na idade escolar, para que através de apoios e aconselhamentos, as pessoas com autismo possam conhecer as suas vantagens e limites no mundo laboral, de forma a conseguirem encontrar um emprego onde possam desenvolver as suas competências sociais e profissionais e adaptar-se. Bem-estar | Governo aumenta número de “estações de saúde” O Governo aumentou o número de “estações de saúde e bem-estar” de 8 para 12, sendo que desde ontem estes espaços têm um horário alargado de funcionamento à tarde, das 16h30 às 19h. Estas estações funcionam mediante organização do Instituto Cultural, Instituto do Desporto e Serviços de Saúde, entrando agora na segunda fase. Os postos servem para a realização de testes de glicémia, medir a força muscular e análise de outros parâmetros de saúde. Segundo uma nota oficial, estas estações e demais actividades de promoção do bem-estar ajudaram a detectar 235 casos de hipertensão, “com uma taxa de detecção de novos casos de cerca de 4 por cento”. As estações contam também com o apoio da União Geral das Associações dos Moradores de Macau e Associação dos Médicos de Macau, entre outras, funcionando no Jardim da Flora, Praceta de Venceslau de Morais, Alameda da Harmonia e Jardim do Mercado de Iao Hon.