PJ | Negado envolvimento de Space Oil em caso de detenção

A Polícia Judiciária (PJ) confirmou que a droga envolvida num caso de detenção na quinta-feira não é, afinal, “Space Oil”, sendo que os testes realizados deram falso positivo para a substância de etomidato, a base desta nova droga. A detenção de um homem, descrita inicialmente como a primeira em Macau envolvendo “Space Oil”, ocorreu por suspeita de tráfico, sendo o homem de nacionalidade vietnamita.

Um novo comunicado da PJ, veio agora dizer que o resultado de testes rápidos efectuados a estupefacientes não constituem uma referência para a classificação final do tipo de droga envolvida, sendo que, depois de realizada a prova material por parte do Departamento de Ciências Forenses, ficou concluído, em relatório, que o resultado do primeiro teste rápido deu um falso positivo à presença do etomidato.

A PJ diz estar agora a comunicar com as entidades envolvidas sobre a discrepância de resultados, tendo pedido desculpas publicamente pela falsa informação divulgada e referindo que continua a investigar os casos de forma científica, bem como actuar de forma justa no futuro.

Burla | Polícias de Macau e HK desmantelam rede criminosa

Uma operação conjunta de Macau e Hong Kong desmantelou uma rede criminosa que se dedicava a burlas telefónicas. Foram detidas sete pessoas que alegadamente burlaram, pelo menos, 168 pessoas em mais de 20 milhões de dólares de Hong Kong. Os burlões fingiam pertencer ao apoio do cliente da Alipay

 

As polícias de Macau e Hong Kong detiveram sete pessoas suspeitas de pertencerem a uma rede de burlas telefónicas, que terão alegadamente defraudado, pelo menos, 168 vítimas nos dois territórios em mais de 20 milhões de dólares de Hong Kong.

Numa conferência de imprensa realizada na sexta-feira, a Polícia Judiciária (PJ) de Macau revelou ter detido ao longo da semana três suspeitos, dois homens oriundos da Malásia e uma mulher indonésia.

A operação conjunta foi anunciada menos de um mês depois uma operação, que atravessou sete jurisdições na Ásia, resultando na detenção de 1.858 pessoas ligadas a redes de fraudes e burlas. A operação, que envolveu autoridades de Hong Kong, Macau, Coreia do Sul, Tailândia, Singapura, Malásia e Maldivas, interceptou verbas com origem nos esquemas das redes no valor de 150 milhões de dólares de Hong Kong.

Segundo a PJ, a rede liderada por indivíduos da Malásia fazia chamadas em que se faziam passar por funcionários de uma linha de apoio ao cliente da Alipay. As autoridades adiantaram que os burlões trabalhavam com aparelhos que usam o Sistema Global para Comunicações Móveis para fazer chamadas para telemóveis, ocultando a origem da chamada.

No terreno

Em Macau, as autoridades deram conta da existência de 35 residentes burlados em valores que variaram entre 500 mil e 2.68 milhões de patacas.

Segundo as autoridades, os dois homens instalaram os equipamentos para fazer chamadas telefónicas em dois apartamentos, um na zona norte da península, e outro na zona central no bairro San Kio. Um dos suspeitos trabalhava num posto de abastecimento de gasolina, o outro indivíduo de nacionalidade malaia estava desempregado, enquanto a mulher da Indonésia trabalhava como empregada doméstica.

O papel desta última seria receber em três contas bancárias o dinheiro das vítimas. Entre os dias 13 e 14 de Junho, as contas da suspeita terão recebido cerca de 1 milhão de patacas.

A PJ revelou ter começado a receber queixas de vítimas a partir de meados de Abril. No passado dia 21 de Junho, um dos suspeitos entrou em Macau através do posto fronteiriço das Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e dirigiu-se ao bairro San Kio onde se encontrou com o outro suspeito, a quem terá entregue um saco, que as autoridades suspeitam conter os equipamentos para esconder a origem das chamadas. No dia seguinte, os dois homens foram detidos, um deles no aeroporto quando se preparava para sair do território. A mulher oriunda da Indonésia, foi detida na passada quinta-feira.

Os três detidos foram transferidos para o Ministério Público, por suspeitas da prática dos crimes de burla, lavagem de dinheiro, associação criminosa e utilização de dispositivo informático para simular estação de serviços de telecomunicações móveis.

PME | Pedidas medidas para levar clientes aos bairros

A deputada Wong Kit Cheng pretende que o Governo explique o que vai fazer para que as Pequenas e Médias Empresas (PME) obtenham mais clientes com as diferentes políticas como a transformação de Macau numa cidade gastronómica, do desporto e das artes e espectáculo, de forma a diversificar a economia. A questão faz parte de uma interpelação oral, que vai ser lida numa sessão, a agendar, da Assembleia Legislativa.

De acordo com a deputada, apesar de várias actividades, como concertos, eventos desportivos e festivas de gastronomia, a economia dos bairros residenciais não está a beneficiar dessas iniciativas, o que faz com que as PME se encontrem em dificuldades.

Além disso, avisa a deputada, existe o risco de que as actividades demasiado homogéneas fiquem sem capacidade para mobilizar visitantes, o que vai contribuir para agravar o problema. “Há opiniões na comunidade de que, embora vários bairros organizem periodicamente actividades como espectáculos ou bazares culturais, todas são muito homogéneas, pelo que não aproveitam o património histórico e cultural das comunidades em que se situam”, descreve. “Uma vez terminadas as actividades, o fluxo de pessoas nestes bairros diminui, sem que haja uma ligação efectiva com a comunidade e os comerciantes. Isto mostra que ainda há muito espaço para melhorar a revitalização da economia”, acrescentou.

Face a este cenário, a deputada pretende que o Governo explique que medidas vai implementar para que os bairros continuem a ser atractivos, mesmo depois dos eventos, e o comércio local possa beneficiar das novas políticas.

DSAL | Ella Lei não quer falsos anúncios de empregos

A deputada Ella Lei indica que a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) promove entrevistas de emprego com condições simuladas, que depois não se concretizam, e apenas visam que os empregadores obtenham autorizações para a contratação de não residentes

 

A deputada Ella Lei apelou ao Governo que tome medidas para combater os anúncios de emprego promovidos pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) com condições simuladas que apenas visam obter a autorização para a contratação de trabalhadores não-residentes. O assunto é abordado através de uma interpelação escrita da legisladora ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM).

Na interpelação, a deputada cita a queixa de vários trabalhadores da construção civil que se encontram desempregados devido ao fim das obras em que participavam. De acordo com estes relatos, a DSAL promove as entrevistas de emprego junto dos desempregados, porém, quando estes vão encontrar-se com os potenciais empregadores as condições apresentadas diferem dos anúncios ou apresentam novas exigências consideradas inaceitáveis. “Segundo as queixas dos trabalhadores de construção civil […] a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais arranjou-lhes entrevistas de empregos para novas obras. No entanto, os empregadores apresentaram exigências que não são razoáveis, com o objectivo de levar os entrevistados a desistir do emprego”, relatada Ella Lei.

Outra situação ligada aos empregos promovidos pela DSAL, visa a contratação para posições diferentes das prometidas. De acordo com o documento assinado por Ella Lei, num dos casos um residente foi contratado como carpinteiro. Todavia, no local de trabalho o residente teve de desempenhar as funções de soldador, sem que a empresa lhe tivesse fornecido qualquer formação ou preparação. Como consequência, o homem acabou por ser acusado de não saber desempenhar o trabalho e de ser um executante muito lento.

Serviço de acompanhamento

Face aos casos apresentados, Ella Lei defende que ao Governo não basta prometer que as obras públicas vão dar prioridade ao emprego dos residentes, também é necessário acompanhar a implementação das promessas e garantir que a prioridade é concretizada.

A legisladora quer que o Governo assegure que as condições prometidas não divergem do que tinha sido anunciado e que a contratação não é apenas a tempo parcial, mas a tempo inteiro. “Quando a DSAL organiza a promoção de ofertas de emprego, quais são os mecanismos para supervisionar as condições das ofertas, incluindo o período pós-contratação, assim como as garantias tratamento e o mecanismo para impedir recrutamentos simulados?”, questionou.

Ella Lei recorda ainda a promessa do Governo de definir uma proporção mínima de trabalhadores locais, de forma a assegurar a prioridades dos trabalhadores locais no acesso ao emprego. “No futuro, como é que o Governo vai concretizar a prática de forma a aumentar as oportunidades de emprego dos residentes nas obras e serviços públicos?”, perguntou.

Rádio Táxi | Comissariado de Auditoria aponta falhas na inspecção da DSAT

O Comissariado de Auditoria apontou sérias falhas de fiscalização à DSAT e ao cumprimento das exigências estabelecidas no contrato de concessão da Rádio Táxi. A empresa ficou quase um quarto aquém dos táxis que deveria operar, o sistema de marcações não cumpriu as exigências contratuais e ficaram multas por aplicar

 

O Comissariado de Auditoria (CA) acusou a Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) de permitir que a Companhia de Serviços de Rádio Táxi Macau circulasse com menos veículos do que os definidos no contrato de concessão. Além disso, apesar das falhas terem sido verificadas, a DSAT perdoou duas vezes a aplicação de sanções à concessionária pelo não cumprimento das obrigações contratuais.

Os táxis especiais visam permitir a marcação de um veículo de transporte por telefone, ou através da central de táxis, e também servir pessoas que precisam de cuidados especiais de deslocação. Para satisfazer estas necessidades, o Governo apostou num sistema de concessão, realizado através de dois concursos públicos em que a vencedora foi sempre a Companhia de Serviços de Rádio Táxi Macau, apesar de haver diferentes propostas.

No entanto, o CA veio agora apontar que a DSAT permitiu que a concessionária circulasse com menos veículos do que os exigidos, além de ter ajustado os critérios de avaliação, para evitar multar a concessionária. “O CA constatou que, após o cálculo, a Concessionária não cumpriu o critério definido durante um largo período de tempo, sendo o problema particularmente grave durante os horários de pico diurnos de tráfego”, consta no relatório revelado na sexta-feira.

“No entanto, a DSAT não só não fiscalizou adequadamente a operação dos táxis especiais, como também, ajustou, por sua própria iniciativa em duas ocasiões distintas, o critério do ‘número mínimo de veículos em operação’, com base na explicação da Concessionária de que o envelhecimento dos veículos estava a afectar a operação dos táxis especiais e no facto de ainda existirem vários horários de inelegibilidade em que se encontrava um determinado número de veículos ‘em espera’ a circular […], o que prejudicou a realização do interesse público”, foi acrescentado.

Redução de 24%

Como parte dos dois contratos de concessão entre o Governo e a Companhia de Serviços de Rádio Táxi Macau deveriam ter sido colocados em circulação 100 táxis com cor azul, entre os quais 85 táxis com a capacidade regular, 10 com maior capacidade, e cinco com equipamentos de acesso especiais. Além destes, deveriam ainda circular 200 táxis com cor vermelha, entre os quais 173 com dimensões regulares, 10 com maior capacidade, 10 com equipamento mecânico de acesso e sete com acesso especial.

Todavia, como resultado do critério mais permissivo, o CA indica que, por exemplo, em Janeiro de 2025, em termos dos táxis vermelhos, a oferta foi reduzida em 24 por cento, praticamente um quarto dos veículos do que deveriam ter circulado. Ao mesmo tempo, o relatório indica que o serviço de marcações por telefone não foi concretizado como estipulado no contrato e que também não foi alvo de fiscalização por essa falha.

Na perspectiva do CA, as falhas resultaram “do não cumprimento, por parte da DSAT, das suas atribuições de fiscalização”. “É claramente injusto para os concorrentes e potenciais concorrentes que acreditaram e cumpriram as regras de boa fé, se se permitir que a Concessionária não cumpra as regras depois de passar por um rigoroso processo concursal, uma vez que as dificuldades encaradas durante a operação não devem ser utilizadas como razões subsequentes pela Concessionária para o incumprimento das cláusulas operacionais previamente estabelecidas e acordadas”, foi acrescentado.

A CA questiona também o facto de a empresa Rádio Táxi ter vencido o segundo concurso público de concessão quando algumas das falhas já deveriam ter sido conhecidas pela DSAT.

Raymond Tam anunciou investigação

Após ter sido conhecido o relatório, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam Va Man, revelou que ordenou uma investigação interna às falhas na fiscalização e que vão ser tomadas medidas para corrigir os problemas.

“O Secretário para os Transportes e Obras Públicas, Tam Vai Man, atribui elevada importância às irregularidades identificadas no relatório de auditoria […], sublinhando que a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) assume plena responsabilidade pelo ocorrido e que será instaurado um procedimento de investigação interna”, foi comunicado. “Foram dadas instruções à DSAT para proceder a uma revisão abrangente de todos os procedimentos, regulamentos e regimes actuais relativos à fiscalização do serviço de táxis especiais, assegurando o acompanhamento rigoroso e diligente das observações e recomendações apresentadas no relatório de auditoria. Serão adoptadas medidas práticas e eficazes para reforçar e aperfeiçoar a fiscalização da operação dos táxis especiais, corrigindo as deficiências identificadas e garantindo a salvaguarda do interesse público”, foi acrescentado.

Raymond Tam prometeu ainda que o assunto vai ser tratado “sem qualquer tolerância”. Por sua vez, a DSAT, liderado por Lam Hin San, indicou que foi exigida a correcção das falhas verificadas e que o assunto mereceu a maior atenção.

Fórum Macau | Secretário-geral diz que nunca se discutiu alargamento a países hispânicos

Numa entrevista à agência Lusa, o secretário-geral do Fórum Macau, Ji Xianzheng, garantiu que “nunca discutiu” o alargamento da acção aos países hispânicos, mas que a concretizar a vontade já enunciada pelo Governo de Sam Hou Fai terão de ser as autoridades a decidir um novo rumo à estratégia de cooperação

 

O secretário-geral do Fórum Macau afirmou que a instituição “nunca discutiu” a criação de uma entidade para alargar aos países hispânicos serviços de promoção de cooperação económica semelhantes aos que presta à ligação entre a China e os países de língua portuguesa.

“Dentro do Fórum Macau, nunca discutimos esse tema”, afirmou o secretário-geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Ji Xianzheng.

O responsável reconheceu que, “na sociedade, houve algumas conversas para discutir ou abordar a possibilidade de promover mais contacto e cooperação com os países da língua espanhola, mas, a nível do Fórum, nunca abordámos este tema”.

O Executivo de Macau anunciou, em meados de Abril, a intenção de criar um centro para promover os serviços económicos entre a China e os países de línguas portuguesa e espanhola na vizinha zona económica especial de Hengqin.

A ideia é proporcionar às empresas de países hispânicos serviços no “âmbito linguístico, jurídico, fiscal, de verificação da observância das normas, de formação, de arbitragem e de mediação”, segundo o secretário para a Administração e Justiça, André Cheong.

Dias antes, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, tinha também anunciado a intenção de “promover o intercâmbio e a cooperação”, através de Macau, entre a China e o universo de países de língua espanhola.

Apesar de Macau querer alargar o foco aos países que falam castelhano, “o Fórum continuará a ser o Fórum para a China e os países da lusofonia”, garantiu Ji Xianzheng. O secretário-geral esclareceu que a instituição que dirige “pode aportar contributos para a maior abertura da Macau na cooperação internacional”, como é a intenção anunciada pelo novo Governo da RAEM.

Fórum complementar

Pessoalmente, o secretário-geral garantiu ter “todo o prazer em trabalhar com todas as partes”, mas sublinhou que essa é uma “decisão que cabe aos governos centrais tomar” e que o Fórum nunca foi contactado nesse sentido.

“Sim, trabalhei na América Latina, em Espanha, nove anos em Madrid e em Caracas. Mas isto não é uma decisão de interesse pessoal, cabe aos políticos tomar a decisão”, afirmou, explicando que a ideia será promover a relação entre Macau e o Brasil e daí a outros países da América Latina, assim como, alargar a relação com Portugal à Espanha.

“Não há limite. O Fórum de Macau é complementar. Não restringe nenhuma promoção da cooperação das outras partes”, disse.

De acordo com o gabinete de comunicação do Governo de Macau, Sam Hou Fai admitiu no passado dia 21 de Junho que adiou para o Outono uma deslocação a Portugal, prevista para Julho, e que deverá também passar por Espanha e pela sede da União Europeia, em Bruxelas.

Más interpretações

Na mesma entrevista à Lusa, o secretário-geral do Fórum Macau imputou aos governos nacionais a responsabilidade pela condução das políticas de desenvolvimento e cooperação económica, sublinhando que a instituição “não tem projectos de investimento”.

Ji Xianzheng atribui as críticas ao Fórum Macau a uma interpretação errada relativamente à missão do organismo. “O Fórum é um mecanismo de cooperação entre os governos centrais. Muita gente pensa que é ao secretariado que cabe a execução das políticas, mas temos um número de pessoas limitado”, acrescentou Ji.

“O secretariado não tem projectos de investimento, é um mecanismo de preparação da conferência ministerial, de ligação com os governos, não é uma agência de promoção. Não foi pensado assim, faz ligação com as agências de promoção. Somos quatro pessoas enviadas pela China e um delegado por cada país”, concretizou.

Na última conferência ministerial, em Abril de 2024, o então ministro da Economia português Pedro Reis defendeu que o Fórum e o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa deviam apostar mais nas pequenas e médias empresas (PME).

O fundo de cooperação foi criado em 2013 pelo Banco de Desenvolvimento da China e pelo Fundo de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Macau, com mil milhões de dólares, dos quais cerca de 60 por cento já foram investidos, segundo o secretário-geral.

Planos de acção

Ji Xianzheng admitiu que as PME são “um tema difícil para qualquer Governo” e que “a cooperação internacional para a promoção do desenvolvimento e cooperação das pequenas e médias empresas é ainda mais difícil. É um tema que está a ser debatido diariamente a nível mundial”. Porém, admitiu, “aqui, pouco”.

“Mas está estipulado no plano de acção [2024-2026]. Cabe aos governos centrais e às câmaras de comércio, agentes de promoção, trabalhar conjuntamente para fazer isso. O secretariado assume a responsabilidade conforme autorizado pelos governos centrais, concretamente, no programa de actividades”, reforçou.

Responsáveis políticos de vários países, incluindo Portugal, Angola e Moçambique, têm apelado a uma alteração das regras da candidatura ao fundo. As actuais regras obrigam, por exemplo, que os projectos candidatos tenham um investimento mínimo de cinco milhões de dólares, sendo que o Fundo apenas cobre 20 por cento do investimento total, remetendo o resto para os governos ou empresas.

Ji Xianzheng afirmou que a nova direcção do Fundo “está empenhada em promover um investimento mais amplo, com melhor cobertura para todos os países do Fórum, [relativamente] aos projectos que têm um impacto estratégico ou significativo para o desenvolvimento socioeconómico dos países participantes”.

Segundo o secretário-geral, “os termos de aplicação [das regras de acesso ao Fundo] vão ser mais flexíveis e as formas de aplicação também vão ser mais diversificadas”. “Em vez de ser só investimento directo, eles também estão a estudar formas de aplicar o fundo, em cooperação com outros fundos ou com outras instituições financeiras”, deu como exemplo.

“Este fundo tem uma operação segundo as regras do mercado. Não é um fundo de ajuda humanitária. Por isso, tem que garantir o mínimo retorno de benefício. Mas, em cima disso, eles estão muito abertos para estudar, caso por caso, as condições de cada projecto”, acrescentou Ji Xianzheng, escusando-se, porém, a dar exemplos da “flexibilização das regras”.

Sobre a aproximação do universo China e países da Península Ibérica, já cimentada nos discursos oficiais, a economista Maria Fernanda Ilhéu, presidente da Associação dos Amigos da Nova Rota da Seda, disse ao HM, no início deste mês, que esta intenção é “muito objectiva e pragmática e pode resumir-se ao projecto de diversificação da economia de Macau, para a qual estão a convocadas empresas e investidores não só de Macau, mas também de países de língua portuguesa”.

“Mas o facto é que as empresas e instituições de países de língua portuguesa não estão a ser eficazes na resposta a essa necessidade de Macau. Portanto, alargar às empresas e às instituições de língua espanhola esse convite para cooperação parece-me lógico”, disse a economista.

Inundações | Seis mortos em vila do sul da China

Pelo menos seis pessoas morreram em Rongjiang, na província chinesa de Guizhou (sul), em consequência das graves inundações que assolam a região desde segunda-feira, consideradas as piores em mais de meio século, informaram ontem as autoridades locais.

De acordo com o Centro de Controlo de Inundações local, as chuvas intensas dos últimos dias provocaram o rápido transbordo de vários rios, incluindo o Duliu, o Pingyong e o Zhaihao, com picos de caudal que atingiram os 11.360 metros cúbicos por segundo.

Várias áreas baixas da vila de Rongjiang, uma das mais vulneráveis da região montanhosa de Guizhou, ficaram completamente inundadas. Os danos nas infraestruturas são graves, com interrupções no tráfego, cortes nas comunicações e moradores presos em algumas áreas.

A situação começou a estabilizar-se ontem, após a descida das águas abaixo do nível de alerta, embora persistam os cortes de água e electricidade e os trabalhos de limpeza e reconstrução continuem. As ruas e lojas continuam cobertas de lama, enquanto equipas de resgate de outras províncias trabalham para remover os escombros e procurar possíveis desaparecidos, indicaram as autoridades.

Rongjiang, conhecida nos últimos anos por sediar a popular “Superliga das Aldeias”, viu o emblemático campo de futebol, símbolo do auge desportivo local, ficar submerso em lama e água, e a sua limpeza continua.

As inundações em Guizhou somam-se aos estragos que as fortes chuvas estão a causar em várias províncias do centro e sul da China desde a semana passada, num contexto de alerta pelo aumento de fenómenos meteorológicos extremos associados às alterações climáticas, segundo afirmam vários especialistas locais.

Defesa | China acusa NATO de ser “um produto da Guerra Fria” e de “provocar guerras”

O Ministério da Defesa chinês acusou ontem a NATO de ser um “produto da Guerra Fria” que “provoca guerras em todo o lado”, depois de países da aliança terem criticado as “actividades desestabilizadoras” da China.

“A NATO é um produto da Guerra Fria e a maior aliança militar do mundo”, afirmou o porta-voz do ministério Zhang Xiaogang, em conferência de imprensa. Segundo o porta-voz chinês, a Aliança Transatlântica é “uma verdadeira máquina de guerra que semeia conflitos e provoca guerras em todo o lado”.

Afirmando que a organização “excedeu o âmbito geográfico estipulado no seu próprio tratado”, o porta-voz transmitiu a oposição de Pequim a que a NATO “use a China como desculpa para avançar para leste na Ásia-Pacífico”.

“O desenvolvimento do poder militar [da China] centra-se exclusivamente em proteger a sua soberania nacional, a sua segurança e os seus interesses de desenvolvimento”, acrescentou Zhang, que indicou que a política nacional de defesa de Pequim é de “natureza defensiva”.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros do G7 sublinharam nesta quarta-feira, no âmbito da cimeira da NATO realizada em Haia, a importância de “manter a paz e a estabilidade no estreito de Taiwan”, bem como de aprofundar a cooperação “face às ações desestabilizadoras da China no mar do Sul da China”.

Cimeira | China recebe ministros do Irão e da Rússia

A reunião da Organização de Cooperação de Xangai, em Qingdao, recebeu representantes da da Rússia, Irão, Paquistão, Bielorrússia e outros países

 

A China recebeu ontem os ministros da Defesa do Irão e da Rússia, numa reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), que ocorre após a cimeira da NATO, que ditou o aumento dos gastos militares europeus. Este encontro em Qingdao, cidade costeira no leste da China, acontece após a entrada em vigor, na terça-feira, de um cessar-fogo entre Israel e o Irão – um país membro da OCS.

O evento também ocorre um dia após uma cimeira dos líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) em Haia, onde os membros concordaram em aumentar os seus gastos com defesa, de acordo com as exigências do Presidente norte-americano, Donald Trump.

O ministro da Defesa chinês, Dong Jun, apresentou ontem a reunião em Qingdao, que abriga uma importante base naval chinesa, como um contrapeso num mundo que sofre de crescente “caos e instabilidade”.

“As mudanças mais cruciais no espaço de um século estão a acelerar, o unilateralismo e o proteccionismo estão a aumentar”, disse Dong Jun na quarta-feira, na presença dos ministros da Defesa da Rússia, Irão, Paquistão, Bielorrússia e outros países, de acordo com a agência de notícias oficial Xinhua.

“Os actos hegemónicos, dominadores e intimidadores prejudicam gravemente a ordem internacional», afirmou, apelando aos seus homólogos para “agirem com mais vigor para salvaguardar colectivamente o ambiente propício ao desenvolvimento pacífico”.

Bloco de peso

Pequim procura há muito tempo apresentar a OCS, que conta com dez membros, como um contrapeso aos blocos de poder aliados dos Estados Unidos, incentivando, nomeadamente, a colaboração política, de segurança, comercial e científica.

O ministro da Defesa indiano, Rajnath Singh, também presente em Qingdao, afirmou que os membros da OCS devem “aspirar colectivamente a realizar os desejos e as expectativas” dos povos e “enfrentar os desafios actuais”.

“O mundo em que vivemos está a sofrer uma transformação drástica. A globalização, que outrora nos aproximou, está a perder o seu ímpeto”, afirmou através do seu gabinete na rede social X. À margem de um encontro com o seu homólogo chinês, o ministro da Defesa russo, Andreï Belooussov, saudou as relações com a China, que atingiram um “nível sem precedentes”.

“As relações amigáveis entre os nossos países mantêm uma dinâmica de desenvolvimento ascendente em todas as direcções”, afirmou. A China apresenta-se oficialmente como neutra face à invasão russa da Ucrânia, mas vários governos aliados de Kiev consideram que Pequim presta a Moscovo um apoio económico e diplomático crucial.

Conferências das Comunidades Luso-Asiáticas arranca hoje em Díli

Decorre entre hoje e domingo a quarta Conferência das Comunidades Luso-Asiáticas (APPC) em Díli, Timor-Leste, com Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, como um dos convidados a participar amanhã numa mesa redonda ao lado de Joseph de Santa Maria, representante da comunidade lusodescendente de Malaca e Hugo Cardoso, linguista e docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Antes da mesa redonda, o académico irá falar do tema “A Ásia absorve a língua portuguesa”, tendo em conta a sua experiência como investigador das línguas crioulas do Sul da Ásia.
O programa conta ainda com a participação de outros académicos e figuras sonantes de territórios como Goa, Malaca, Timor ou Sri Lanka, onde os portugueses deixaram várias pegadas no contexto das viagens da Expansão Portuguesa, pegadas essas que se revelam em alguns costumes culturais e crioulos em vias de extinção.

Outro dos docentes convidados, é João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático na área da História Moderna da Universidade Nova de Lisboa, que irá falar da “Mestiçagem e Interculturalidade na Expansão Portuguesa”.

Criar redes

Segundo uma nota oficial sobre o evento, a APCC “tem como principais objectivos o reconhecimento das comunidades luso-asiáticas e do seu legado histórico e cultural”, bem como “a promoção da sua identidade através de acções de visibilidade e valorização”.

O evento tem também como objectivo “a inclusão destas comunidades nos contextos regionais e internacionais, com destaque para o papel de Timor-Leste na CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] e na ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático], e a criação de bases institucionais que assegurem a sustentabilidade da rede”.

Além disso, “pretende-se reforçar a articulação entre investigadores, comunidades e decisores, de modo a consolidar a APCC como uma plataforma de diálogo e cooperação para a preservação e projecção do património imaterial de origem portuguesa na Ásia”.

Em termos de representações institucionais, estarão presentes Xanana Gusmão, primeiro-ministro de Timor-Leste, Carolina Fernandes e Pé, ex-presidente do munícipio de Pangim, em Goa; ou Fernando Nobre, presidente da AMI – Assistência Médica Internacional. Não faltará também um discurso de José Ramos Horta, Presidente da República de Timor Leste.

Ainda com ligação a Macau marcará presença o escritor e investigador Joaquim Magalhães de Castro, que tem escrito sobre a comunidade de Tugu, na Indonésia.

Galaxy Arena | Digressão de Eason Chan passa por Macau e traz documentário

O cantor e actor de Hong Kong anda em digressão e traz vários espectáculos a Macau no mês de Agosto, integrados na “Fear and Dreams World Tour”. Os fãs podem também comprar bilhete para o documentário exibido a 5 de Agosto sobre os bastidores dos espectáculos

 

Eason Chan, conhecido actor e cantor de Hong Kong, vai estar em Macau com a sua digressão mundial, a “Fear and Dreams World Tour”. Os espectáculos acontecem na Galaxy Arena entre os dias 1 e 3 de Agosto e depois entre os dias 8 e 10 do mesmo mês, para que os fãs possam desfrutar ao máximo do cantopop escrito e cantado por esta personalidade de Hong Kong que o tem ajudado a construir uma carreira bem-sucedida nos últimos anos.

Mas a vinda de Eason Chan traz um bombom para os fãs, com a exibição do documentário, no dia 5, sobre a digressão que tem passado por diversos palcos.

A sinopse do projecto fala de como a “vida é uma peça de teatro, em que os cantores interpretam as suas canções”, sendo que “Fear and Dreams: Now is the only reality”, o nome do documentário, pretende mostrar como isso tem acontecido na vida de Eason Chan.

“Desde o conceito inicial do concerto em 2018 até à última paragem da digressão mundial ‘Fear and Dreams’ em 2025, ‘Fear and Dreams: Now is the only reality’ documenta a jornada nos bastidores. Em palco, Eason abre o coração para partilhar o concerto temático com o público, mas fora do palco o filme revela as lutas e experiências menos conhecidas”, lê-se ainda.

Assim, no dia 5, o público poderá perceber o outro lado da carreira do artista, reflectindo sobre ideias como “o medo está sempre presente; os sonhos são uma escolha; o presente é a única realidade”, defendidas pelo artista e passadas neste documentário.

Ainda segundo a mesma sinopse, “mais do que apenas um documentário sobre um concerto, este filme é uma crónica de sete anos da vida de Eason Chan”, pautados por “perturbações causadas pela pandemia global, problemas de saúde, e uma lesão acidental causada por um desmaio”.

Além da exibição, o dia 5 de Agosto inclui também uma “sessão de partilha”, em que “Eason irá partilhar histórias dos bastidores da digressão mundial ‘Fear and Dreams’, existindo a oportunidade de haver interacções ao vivo para que o público possa partilhar histórias pessoais sobre a digressão”.

Não faltarão produtos de merchadising, como uma t-shirt para cada participante “desenhada por Eason Chan” e ainda um cartão de lembrança. Os bilhetes para este evento em específico estão à venda desde quarta-feira.

Eason Chan anda nos palcos com a digressão “Fear and Dream” desde 2022, mas o projecto jea tem o fim anunciado para este ano. Os concertos em Macau prometem trazer os grandes êxitos da sua carreira, os clássicos ou actuais, como “2001: A Space Odissey”, “Flowerless”, “Lies” ou “The Distance Between Hearts”, entre tantos outros. De destacar que os bilhetes para os espectáculos no Galaxy Arena também já estão à venda.

Vida no palco

Desde o álbum de estreia, que ganhou o seu nome e editado em 1996, muita música aconteceu na vida de Eason Chan, que já conta com um punhado de trabalhos discográficos editados não apenas em cantonês, mas também em mandarim. No caso do cantonês, o último trabalho saiu em 2023, com o nome de “Chin Up!”, enquanto em mandarim o mais recente disco é “C’mon In~”, de 2017.

Mas a carreira de Eason Chan também está bastante ligada à grande indústria de cinema de Hong Kong, contando já com mais de 40 filmes no currículo desde a sua estreia, em 2007, um ano depois de ter iniciado a sua carreira na música.

E se o sucesso nos palcos está à vista, nos ecrãs esse sucesso não tem sido inferior, já que recebeu uma nomeação para “Melhor Actor Secundário” nos Hong Kong Film Awards em 2000 pelo seu papel em “Lavender”. Cinco anos depois ganhou nova nomeação nos Golden Bauhinia Awards em Hong Kong pelo trabalho em “Crazy N’ The City”. Seguiu-se uma nomeação em 2008, desta vez nos Taiwan Golden Horse Awards, os maiores prémios da indústria de cinema da região.

Segundo o website do actor e cantor, a revista Time considerou-o “um pioneiro e influenciador na cena Cantopop”, com êxitos como ” “My Happy Times”, “Shall We Talk”, “The king of karaoke”, “Next Year, Today”, entre outros.

Antes de começar a sua carreira artística na região vizinha, Eason Chan esteve em Inglaterra, mas só depois de participar no Concurso de Novos Talentos é que a história de sucesso arrancou.

Na parte musical, Eason Chan ganhou na categoria de “Most Outstanding Pop Male Singer Award” nos prémios “Top Ten Chinese Gold Songs Award Concert” durante 13 anos consecutivos, tendo ganho nove vezes consecutivas o prémio “The Most Favorite Male Singer” em mais uns prémios da música, os “Ultimate Song Chart Awards Presentation”.

O álbum “U87” ganhou fama mundial, sobretudo porque Eason Chan conseguiu um contrato com uma produtora de cariz global, tendo sido considerado pela Time como “um dos cinco álbuns asiáticos que valia a pena comprar em 2005”, além de que ganhou seis prémios no concurso “Ultimate Song Chart Awards Presentation”, descreve a sua biografia oficial.

A delicada arte de traduzir o invisível: entre Confúcio, Heráclito e a poesia das lacunas

Por Fernando Santoro, Caroline Pires Ting, Verônica Filippovna e Jean-Yves Beziau*

Existe uma diferença invisível entre o que vemos e o que dizemos. Entre o que está inscrito na matéria e o que escorrega em palavras. Quem se debruça sobre a filosofia da linguagem – ou quem já se aventurou a traduzir um poema chinês de dois milênios atrás – percebe bem disso. Muitas vezes, a tarefa do intérprete é encontrar essa diferença invisível e mostrá-la com novas palavras. Muitas vezes, a tarefa é deixar o invisível e o inaudível preservado nas lacunas.

O caso da escrita clássica chinesa (文言文, wényánwén) é emblemático. Mais do que um código de comunicação, trata-se de um modo de pensar visualmente. Uma lógica de composição de sentidos que se dá pela disposição espacial, pela densidade gráfica e por uma economia de linguagem que desafia os hábitos frasais das línguas ocidentais. Traduzir versos de sabedoria escritos em wényánwén é como tentar decantar o silêncio de uma pintura caligráfica para dentro de uma sentença de sintaxe definida. É um sonho que sempre ultrapassa a realidade; mas ainda cabe ao intérprete sonhar que são reais os sonhos do sábio e poeta.

Tomemos a inscrição ritual da dinastia Shang, gravada em bronze, na banheira do imperador Tang, que proclama:

「苟日新,日日新,又日新」

Em leitura aproximada: “Se renovar num dia, renovar-se todos os dias, e novamente renovar-se.”

Note-se a ausência de sujeito, de artigos, de tempos verbais definidos. Tudo é sugerido por contexto e ritmo interno. O contexto é o que serve aos olhos e ouvidos do intérprete – seja a banheira do imperador, seja o campo de semear do lavrador, seja o papel em branco do poeta. O ritmo interno do poema inspira-lhe o ritmo da sua respiração, até que o tempo das palavras se torne o tempo da sua vida junto à vida ao redor.

No original, a inscrição se apresenta de forma vertical, como segue (reconstituída em arranjo tipográfico para ilustração):

Três blocos verticais. Três gestos de escrita que ecoam no espaço como um mantra ético-visual. Não há sujeito, não há tempo verbal definido. Apenas um convite à renovação, repetido como quem inscreve o tempo na matéria. Um tempo ternário: inspira, retém, expira. Movimento do exterior para o interior. Ponto de inflexão. Movimento do interior para o exterior.

A semântica dos ideogramas insere-se no movimento: 日 sol/dia 新 novo/renovar/inovar. Movimento da manhã, quando nasce o sol novo – o sol levanta o novo dia (acima). Movimento do amanhã, quando de novo nasce o dia – o dia, sol de novo. No ponto de inflexão, renova-se o dia, dia após dia, de sol a sol.

Do bronze à vanguarda: Pound e Augusto de Campos como tradutores de lacunas

A primeira operação de tradução para o Ocidente moderno veio com Ezra Pound, que, inspirado pelas anotações de Ernest Fenollosa, traduziu o aforismo confuciano para o inglês com ecos de entusiasmo modernista:

“As the sun makes it new / Day by day make it new / Yet again make it new.”

Pound não apenas traduziu: transmutou. Fez do conselho ético uma bandeira estética: Make it new, lema da poética modernista do século XX. Lema de inspiração ao mesmo tempo tradicional e inovadora, à medida que Pound compunha sua própria poesia a partir de traduções livres de poemas clássicos – intraduções. Inspira-se a tradição. Reflete-se sobre o fulcro expressivo e vital do poema. Expira-se um poema novo e inovador.

Décadas depois, Augusto de Campos, movido pela poética concretista brasileira, ao traduzir a tradução de Ezra Pound com experimentos gráficos de letraset, recriou o aforismo em português:

“RENOVAR DIA SOL A SOL DIA RENOVAR.”

A geometria sonora e rítmica, aqui, reencena o jogo de repetição e cadência que a inscrição de bronze já sugeria. Na intradução de Campos, ressoa o lema do paideuma poundiano e retorna a sintaxe da diagramação dos caracteres visíveis no verso de Confúcio. A equivocidade semântica do ideograma 日 retorna no cruzamento da lavra poética: dia a dia, sol a sol.

Ambos os poetas compreenderam que traduzir o chinês clássico não é apenas tarefa lexical. É um ato estético, quase ritual, de reencenar o gesto original por outros meios. Recuperar a forma e o movimento que perfazem os contornos do que precisa ser captado pelo leitor, pelo intérprete, daquilo que deve por sua vez instigá-lo a mover-se à medida que é tocado pelo efeito do sentido.

O desafio filosófico: como traduzir o que resiste à tradução?

A questão vai além da poética. Traduzir o chinês clássico é um problema filosófico que requisita um pensamento hermenêutico sensível e uma ousadia para construir a ideia em outra forma. Porque a ideia, para uma tradução entre culturas tão diversas, não pode ter uma forma definida, mas é o que permite transitar entre as formas dos signos e das palavras de uma língua às formas que podem ser assumidas em outra. Estamos diante de um desafio de transposição estrutural: a passagem de uma lógica de relações espaciais dos ideogramas para uma lógica de conexões lineares entre sujeitos e predicados; de uma sintaxe diagramática visual para uma linearidade ditada pela sequência fonética; de uma composição escrita sem norma sintática para uma gramática de palavras com funções sintáticas definidas. Um desafio de traduzir em diversos níveis de encontros e desencontros intraduzíveis.

Como bem aponta o conceito chinês de 本末 (běnmò), há sempre uma raiz (本) e suas ramificações (末). Na tradução, não buscamos repetir o original como cópia, mas enraizar em outro solo e fazer florescer os ramos de sentido brotados da raiz anterior.

E não se trata apenas de dilemas orientais. O mesmo impasse aparece na tradução de conceitos gregos clássicos como aretê (ἀρετή). Virtude? Excelência? Potência? O termo, como mostra Kinnucan (2014) ao comentar o Dicionário dos Intraduzíveis, recusa-se a ser fixado em um único significado. Traduzir aretê ou wényánwén é sempre um ato de decisão hermenêutica, de escolha de mundos: aquele mundo em que acreditamos que o autor viveu, este mundo em que vivemos, o outro mundo em que desejamos nos encontrar.

Traduzir é criar: entre fidelidade e invenção

Contemporâneo de Confúcio, mas vivendo no extremo ocidental do continente asiático, Heráclito expressou, com versos semelhantes, uma ideia sobre a natureza do sol e sobre o primeiro grande enigma astronômico: por que o sol sempre nasce do lado oposto ao lado do céu em que se põe?

καὶ ὁ ἥλιος οὐ μόνον e o sol não somente

νέος ἐφ᾿ ἡμέρῃ ἐστίν, é novo a cada dia

ἀλλ᾿ ἀεὶ νέος mas sempre novo

(Fragmento B6, Diels & Kranz, Aristóteles, Meteorológica II, 2, 355a 14)

Heráclito e Confúcio, cada um a seu modo, fizeram da concisão uma arte filosófica. Ambos escreveram para sugerir mais do que explicar. Para apontar caminhos ao leitor, sem entregar o mapa. O sol da natureza e o dia de lavrar a própria vida reúnem, no arco de uma distensão espaço-temporal, a física de Heráclito e a ética de Confúcio. Neste arco de várias pontas couberam os poetas do século XX, Ezra e Augusto, para inspirar uma nova estética e, quem sabe, ainda cabemos nós para aprender com todos eles. Tensionados neste arco do sol, os raios nos alcançam, nos ferem e iluminam.

Talvez, no fundo, a tarefa do tradutor seja essa: não decifrar o enigma, mas recriar um novo, que vai nos devorar e regurgitar em palavras. Preservar o mistério, enquanto se nos transforma.

Na delicada passagem da sintaxe espacial do sol que nasce e se eleva, para a linearidade sonora da voz que inspira e expira, aprendemos algo essencial: toda tradução é também uma forma de visão e de escuta. Uma visão do que se oculta em tudo que se mostra e uma escuta atenta ao ritmo, ao silêncio que distingue os sons. A tradução se faz possível à medida que preserva a poética das lacunas.

Via do Meio seria, afinal, o nome apropriado para esse exercício? Entre o dito e o não-dito. Entre a raiz e os ramos. Entre Confúcio, Heráclito, Pound, Campos… e nós.

Referências Bibliográficas

Campos, Augusto de. Poesia da Recusa. São Paulo: Perspectiva, 1993.
(Coletânea que inclui a tradução de Confúcio e reflexões sobre a tradução como criação.)

Cassin, Barbara (Org.); SANTORO, Fernando; BUARQUE, Luisa (Comp.). Dicionário dos intraduzíveis – Vol. 1 (Línguas): Um vocabulário das filosofias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.

Kinnucan, Michael. 2014. “Review of Dictionary of Untranslatables: A Philosophical Lexicon, edited by B. Cassin.” Asymptote Journal, julho. Acesso em junho de 2025. https://www.asymptotejournal.com/criticism/barbara-cassin-dictionary-of-untranslatables-a-philosophical-lexicon/

Pound, Ezra. The Confucian Odes. London: Faber and Faber, 1954.
(Edição em que Pound sintetiza seu trabalho de recriação poética a partir do chinês, incluindo o célebre lema Make it new.)

*Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

PJ | Primeira detenção por uso de “space oil”

A Polícia Judiciária anunciou ontem a primeira detenção por tráfico de etomidato, a droga vulgarmente conhecida como “space oil”. O suspeito detido é um cidadão vietnamita, que foi apanhado com 635 gramas, cujo valor no mercado negro é de cerca de 37.000 patacas

 

A Polícia Judiciária (PJ) fez a primeira detenção por suspeitas de tráfico de etomidato, a droga conhecida como “space oil” desde a revisão da legislação que passou a incluir a substância na lista de estupefacientes cuja venda e consumo constitui crime.

Em conferência de imprensa, as autoridades revelaram que o detido é um homem vietnamita e que durante a operação policial, que ocorreu na quarta-feira, foram apreendidas várias garrafas contendo etomidato e líquido para cigarros electrónicos, com um peso total superior a 635 gramas. A PJ estima que as substâncias apreendidas tenham um valor de 37 mil patacas no mercado negro.

Segundo o relato das autoridades divulgado pelo canal chinês da Rádio Macau, a investigação ao suspeito começou com uma denúncia. Uma equipa de agentes da PJ dirigiu-se ao domicílio do suspeito, na zona central da península, onde encontrou parafernália necessária para fazer os cigarros electrónicos com a droga. O material estava escondido no quarto do suspeito, nas escadas do prédio e até na caixa de correio. Após a realização de um teste rápido, a polícia identificou a substância como sendo “space oil”.

As autoridades indicaram ainda, apesar da falta de cooperação do suspeito na investigação, que os clientes do homem detido eram conterrâneos do Vietname, que compravam cada cigarro electrónico com “space oil” por 1.000 patacas.

Teste do ácido

O director da PJ, Sit Chong Meng, revelou ontem que as autoridades da RAEM compraram nas regiões vizinhas testes rápidos que detectam em cerca de três minutos se uma pessoa consumiu “space oil”.

O responsável indicou que a PJ tem estado atenta ao possível consumo da droga em campus universitários, mas também na comunidade, e que tem organizado programas de sensibilização para os perigos do consumo.

O etomidato, um anestésico de curta acção, administrado por via intravenosa, utilizado principalmente em serviços de urgência, unidades de anestesia, salas de cirurgia e unidades de cuidados intensivos. A substância entrou no radar das forças policiais da região depois da morte de, pelo menos três pessoas em Hong Kong, situação que levou a região vizinha a aumentar as penas para quem produz e trafica “space oil”.

Em Macau, antes da entrada do etomidato na lista de substâncias proibidas, foram encontrados cinco casos de consumo, um deles envolvendo dois adolescentes com 16 e 18 anos.

DSAMA | Afastado perigo da água do rio Liujiang

As autoridades chinesas detectaram uma elevada concentração de antimónio na água do rio Liujiang da província de Guangxi, mas segundo uma nota ontem divulgada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Marítimos e da Água (DSAMA) não há perigos para Macau.

Isto porque “após comunicação com os serviços de recursos hídricos e as entidades abastecedoras de água do Interior da China, verificou-se que a distância entre o canal de Modaomen, a principal captação de água de Macau, e o rio Liujiang é de cerca de 700 quilómetros”.

Além disso, descreve a mesma nota, “o volume de água do rio Xijiang é suficiente, podendo desempenhar eficazmente o papel purificador em relação aos poluentes de antimónio”.

Foi feita uma avaliação preliminar ao caso, concluindo que “não há impacto no abastecimento de água de Macau”, além de que “os reservatórios de Zhuhai Zhuyin e Zhuxiandong, que abastecem actualmente a Macau, possuem capacidade de armazenamento suficiente, garantindo a segurança no abastecimento de água a Macau nos próximos tempos”.

Imobiliário | Pedidas políticas para atrair investidores

Os presidentes de duas associações ligadas ao sector imobiliário pedem ao Executivo de Sam Hou Fai que siga os exemplos de Hong Kong e do Interior, para trazer capitais de fora que invistam nas compras e arrendamentos de habitações

 

Face à contracção do mercado imobiliário, alguns dirigentes de associações locais defendem que o Governo deve lançar medidas para atrair investidores de fora. As ideias foram defendidas por Ip Kin Wan, presidente da Associação Geral do Sector Imobiliário de Macau, e Lok Wai Tak, presidente da Associação Comercial de Fomento Predial de Macau, em declarações ao jornal Ou Mun.

Na perspectiva de Ip Kin Wan, Macau atravessa uma grave crise ao nível do sector imobiliário, pelo que deve seguir os exemplos do Interior e de Hong Kong, na forma como lidaram com as dificuldades neste sector e nos mercados bolsistas, através de medidas de estímulo.

Ip realçou que as notícias mais recentes são negativas para o imobiliário, uma referência implícita ao encerramento dos casinos-satélite, pelo que considera que o Governo deve pensar em outras formas de promover a procura neste mercado. Uma das sugestões do dirigente da associação passa pela adopção de medidas para atrair quadros qualificados com uma forte capacidade financeira, assim como investidores de fora. “Actualmente, as cidades de primeira e segunda categorias do Interior e Hong Kong estão a atrair activamente quadros qualificados e fundos mundiais”, referiu o dirigente. “Só através da atracção destes quadros qualificados e investidores é possível impulsionar o consumo, gerar mais vendas de habitação, contratos de arrendamento e outras necessidades de alojamento. Se o sector imobiliário estiver mais activo, também os sectores bancário, jurídico, construção, engenharia de decoração, entre outros vão ser beneficiados, o que vai estimular toda a economia”, acrescentou.

Copo meio vazio

Por sua vez, Lok Wai Tak, presidente da Associação Comercial de Fomento Predial de Macau, lamentou a situação actual, ao destacar que até ao final do ano os preços dos imóveis vão cair mais 30 por cento.

Lok admitiu que a suposta recuperação do mercado do imobiliário “é mais lenta do que era esperado” e que “a oferta de imóveis supera a procura”. Ao mesmo tempo, o presidente da Associação Comercial de Fomento Predial de Macau reconheceu que nesta fase não existem razões no mercado para que se evitem maiores quebras dos preços porque a procura não existe como no passado.

Neste sentido, Lok reconheceu que a expectativa é para que os preços continuem em quebra nos próximos meses. Como forma de destacar a fragilidade do mercado, Lok Wai Tak também indicou que um dos sinais mais evidentes é o facto de o número de transacções não estar aumentar, apesar dos preços continuarem a cair.

Turismo | Registada quebra nas excursões da China

Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) mostram que nos cinco primeiros meses deste ano Macau recebeu 855 mil turistas em excursões, o que representa um aumento muito ligeiro de 0,7 por cento em termos anuais.

Já os excursionistas do Interior da China, foram 732 mil, menos 2,2 por cento em termos anuais. Porém, no que diz respeito a visitantes internacionais, contabilizaram-se 99 mil, mais 12,4 por cento, com destaque para os turistas oriundos da Coreia do Sul, um total de 46 mil, o que representa uma subida de 24,2 por cento.

Se olharmos apenas para o mês de Maio, o número de turistas em excursões foi de 128 mil pessoas, menos 21 por cento em termos anuais, “devido principalmente ao número de entradas de visitantes em excursões do Interior da China (101.000) ter diminuído 27,9 por cento”, explica a DSEC.

Porém, “o número de entradas de visitantes internacionais em excursões (22.000) cresceu 22,8 por cento face a Maio de 2024, destacando-se que os visitantes em excursões da República da Coreia (8.000) ascenderam 20,5 por cento”, lê-se na nota oficial.

DSEDJ | Escolas “encorajadas” a ver cerimónias da guerra contra o Japão

O Governo quer fortalecer o patriotismo dos jovens através dos exemplos dos chineses de Macau que participaram no esforço de guerra contra a invasão japonesa. Os eventos para homenagear as vítimas arrancam em Agosto, e incluem intercâmbios, exposições temáticas e até uma cerimónia de homenagem às vítimas do massacre de Nanjing

 

As escolas do território vão ser “encorajadas” pela Direcção de Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) a organizar sessões para os alunos e professores assistirem em directo às cerimónias do “80.º aniversário da vitória do povo chinês na guerra contra o Japão e da vitória mundial contra o fascismo”. As comemorações estão agendadas para 3 de Setembro, em Pequim, e a DSEDJ quer organizar vários eventos em Macau, para promover o espírito nacionalista.

Numa conferência de imprensa conduzida pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultural, O Lam, o director da DSEDJ, Kong Chi Meng, explicou que é esperado que todas as escolas do território disponibilizem nos pavilhões desportivos meios para que os alunos assistam às cerimónias em directo de Pequim.

Além disso, antes de 3 de Setembro, a partir dos finais de Agosto, os professores e os alunos das escolas primárias e secundárias vão ser levados a participar em exposições temáticas para ficarem a conhecer “os eventos históricos relevantes” sobre a guerra. É ainda esperado que nestes dias o conteúdo das aulas verse sobre estes acontecimentos.

O responsável pela DSEDJ indicou igualmente que foram desenvolvidos materiais didácticos para ensinar aos alunos os eventos históricos, que visam a ligação entre os chineses de Macau e a sua contribuição para os esforços da guerra.

Tendo em conta as celebrações, a DSEDJ revelou também que os eventos anuais de intercâmbio realizados com o Interior vão sofrer alterações, para que os professores e os alunos tenham paragens obrigatórias em diferentes monumentos de celebração da vitória na guerra.

Massacre de Nanjing

Na apresentação dos vários eventos, O Lam destacou que o objectivo do Governo passa por “promover o grande espírito da Guerra de Resistência” e “inspirar o fervor patriótico”. Todas as actividades vão estar subordinadas ao tema: “Recordar a História, Acarinhar a Memória dos Mártires, Acarinhar a Paz e Criar o Futuro”.

Em termos das comemorações e eventos para assinalar os eventos históricos, a 13 de Dezembro vai também ser organizada uma homenagem às vítimas do massacre de Nanjing e a todos os chineses mortos durante a guerra. Os moldes da homenagem foram apresentados de forma genérica, mas espera-se que incluam intercâmbios entre escolas e acções de promoção sobre o passado.

O massacre de Nanjing aconteceu em 1937, tendo decorrido durante algumas semanas após a conquista pelos tropas japonesas daquela que era a capital da República da China. Após a conquista, as tropas japonesas massacraram a população, incluindo crianças, mulheres e não combatentes. No pós- Segunda Guerra Mundial, o Julgamento de Tóquio, que levou à justiça os responsáveis japoneses, foi estimado que o número de vítimas tinha variado entre 100 mil e 200 mil.

A invasão da China pelo Japão começou em 1931 com a ocupação da Manchuria, num primeiro momento. Em 1937, o Japão expandiu o escopo da guerra, procurando a ocupação total da China. O que começou como um conflito localizado na Ásia acabaria por integrar-se na 2.ª Guerra Mundial, a partir de Dezembro de 1941, com os ataques de Pearl Harbour. Ao longo de vários anos, as estimativas apontam para que no lado chinês entre 3,8 milhões e 10,6 milhões de pessoas tenham morrido. A paz foi alcançada a 2 de Dezembro, depois dos Estados Unidos terem atacado o Japão com a segunda bomba atómica, em Nagasaki.

Eleições | Zheng Anting e Lo Choi In saem da lista de Jiangmen

Os deputados eleitos pela União Macau-Guangdong em 2021 ficam fora da lista encabeçada pelo economista Joey Lao, anterior deputado nomeado preterido em 2021 por Ho Iat Seng. Na apresentação da lista, o mandatário Chan Sio Cheng prometeu uma nova dinâmica, enquanto Joey Lao diz que a lista quer uma “Macau mais feliz”

 

Os deputados Zheng Anting e Lo Choi In foram afastados da lista União Macau-Guangdong, de acordo com os nomes revelados ontem, o último dia para entregar os nomes dos candidatos e os programas políticos das listas candidatas às eleições legislativas. No pólo oposto, a lista passa a acolher o economista Joey Lao Chi Ngai, ex-deputado nomeado entre 2017 e 2021, que foi afastado do parlamento pelo então Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, após um mandato.

No segundo lugar surge agora Lee Koi Ian, empresário local, que apresentou como principais credenciais da candidatura o conhecimento da realidade da economia local e das pequenas e médias empresas. Em terceiro lugar da lista com 14 candidatos surge Ng Nga Fan.

Na apresentação dos nomes da lista, Chan Sio Cheng prometeu que os candidatos vão apresentar uma nova dinâmica com base em três aspectos: nova equipa, novas acções e uma nova perspectiva.

Por sua vez, Joey Lao, o candidato principal, destacou que a lista vai trabalhar para concretizar o conceito “Macau mais feliz” e que a felicidade é o objectivo que os residentes procuram, assim como a visão política do Governo e a missão original da equipa para esta eleição.

No caminho para a felicidade, Joey Lao garante que é fundamental “impulsionar a economia de Macau através de uma nova dinâmica”, e estudar a indexação da pensão para idosos ao índice mínimo de subsistência.

Exportar idosos

Na perspectiva de Joey Lao, a felicidade de Macau passa ainda por criar condições para que os idosos reformados que vivem na Grande Baía tenham acesso a consultas médicas em qualquer das onze cidades, recebem pensão para idosos e o subsídio.

O cabeça-de-lista destacou também que vai dar prioridade ao desenvolvimento económico, bem-estar da população, cooperação entre Guangdong e Macau, políticas sociais e desenvolvimento da juventude.

Por seu turno, Lee Koi Ian defendeu que como empresário no activo percebe bem as dificuldades e problemas do actual ambiente de negócios em Macau, pelo que deixou a esperança que o Governo lance mais medidas de revitalização económica e apoie a transformação das pequenas e médias empresas.

Lee Koi Ian indicou ainda esperar que o Governo embeleze os bairros antigos e leve mais turistas a consumir nestas zonas. Ao mesmo tempo, o empresário prometeu pressionar o Governo para lançar medidas para criar mais emprego.

Além disso, apontou que pretende aprofundar a cooperação entre Guangdong e Macau, para que as grandes empresas na Grande Baía apoiem à entrada das PME de Macau no Interior e criem espaço no outro lado da fronteira para os jovens de Macau.

Investimentos | Residentes apostam na Ásia e América

Na hora de investir as suas poupanças, os residentes de Macau procuraram sobretudo fundos e entidades sediados na Ásia, em primeiro lugar, e depois nos Estados Unidos ou Canadá.

É o que revelam as mais recentes estatísticas da Autoridade Monetária e Cambial de Macau (AMCM) sobre a Carteira de Investimentos relativas ao fim do ano passado.

Assim, e em termos de distribuição geográfica, “a região asiática deteve a maior fatia da carteira de investimentos externos de residentes de Macau, com 44 por cento do total, sendo a restante aplicada principalmente na América do Norte”, com 22,9 por cento. A Europa surge em terceiro lugar com 17,6 por cento dos investimentos feitos, seguindo-se o Atlântico Norte e Caraíbas e a Oceânia.

Estes investimentos dizem respeito a pessoas, Governo e entidades colectivas, excluindo-se as reservas cambiais. Segundo os cálculos feitos a preços de mercado de 31 de Dezembro de 2024, os investimentos tiveram um valor global de 1.204,3 mil milhões de patacas, mais 2,7 por cento em relação a Junho de 2024, e mais 14,3 por cento face a finais de 2023.

A AMCM descreve que o “investimento em títulos emitidos por entidades no Interior da China continuou a ser predominante, representando 28,4 por cento do total da carteira de investimentos externos aplicados pelos residentes de Macau”.

Além disso, o investimento dos residentes em títulos emitidos por entidades americanas foi de 250,6 mil milhões de patacas, uma subida de 33,6 por cento face ao final de 2023, tendo o respectivo peso na carteira de investimentos no exterior crescido de 17,8 para 20,8 por cento.

Isabel Rio Novo, autora da biografia de Luís de Camões: “Tempo em Macau foi de tranquilidade”

Será lançada amanhã, no Consulado-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, a biografia de Luís de Camões, da autoria de Isabel Rio Novo. Em entrevista ao HM, a autora desvenda alguns segredos sobre a vida do poeta em Macau, um período de relativa calma no meio de uma vida quase sempre turbulenta

 

Porque decidiu embrenhar-se na escrita de mais uma biografia sobre Camões?

É verdade que Luís Vaz de Camões foi biografado muitíssimas vezes ao longo de 500 anos. No entanto, há 50 anos que não havia uma biografia sobre ele. Do meu ponto de vista e do editor, Camões merecia uma biografia mais actual que revisitasse de uma forma desprovida todo tipo de preconceitos, buscando fontes conhecidas, a pesquisa de informação ainda não descoberta e onde se fizesse a releitura de todas as obras anteriores. Esta biografia não é apenas uma súmula, mas também a reinterpretação daquilo que já se sabia, mas que raramente tinha sido relacionado. O livro traz também alguns dados novos com alguma documentação que foi descoberta.

Como nasceu a sua relação com a escrita de Camões?

Apaixonei-me e fui daquelas jovens leitoras que não ficou atormentada com Camões. Pelo contrário, gostei logo e deixei-me seduzir pelo Camões lírico. Sou das áreas de Literatura Comparada e da História, e nesse sentido sempre compreendi a dimensão e importância da obra de Camões.

E quais são?

É uma obra e um autor muito do seu tempo e da sua época, que foi extraordinária, com o Renascimento, o Humanismo e as viagens da navegação. Mas, ao mesmo tempo, é uma obra que é produto de um génio literário fora de série, daqueles que podemos contar um punhado na história da literatura universal.

Que Camões encontramos nesta biografia?

Tentei ir ao fundo, retirar camadas do sentido que estes 500 anos foram acrescentando a Camões, no sentido em que cada época leu o seu Camões e produziu a sua interpretação. Quis descobrir o substracto, o homem de carne e osso que viveu e escreveu há 500 anos.

Foi um homem sofrido, com muitas dificuldades financeiras.

Foi um homem com uma relação complexa e difícil com a realidade, não só do seu tempo, mas também com a realidade [em si]. O tema da época, do desconcerto do mundo, de como a sociedade parece funcionar ao invés daquilo que deveria funcionar, tratando-se de um tópico literário do Renascimento, foi algo que Camões sentiu de forma pessoal e genuína.

De que forma?

Ele viveu uma série de dissabores, de experiências extremas. Basta dizer que esteve preso várias vezes e por razões diversas. Fez grandes viagens numa altura em que estas eram empreendimentos absolutamente arriscados, morosos e complicados. Camões esteve envolvido em expedições militares, e quase toda a sua vida foi soldado. Mas esse conjunto de experiências permitiu-lhe ser quase tudo aquilo que alguém podia ser na época em que viveu.

Foi um dos autores mais viajados da época, tendo estado no Brasil, Goa…

Sim. Mesmo a ligação a Macau, que é contestada por alguns estudiosos, mas não por mim… sou persuadida, face à documentação existente e testemunhos indirectos, que Camões passou pela China com o cargo de provedor dos defuntos e ausentes. Quando isso aconteceu já existia, ainda que de forma muito incipiente, o estabelecimento português na China, que já era Macau. Não se sabe se Camões exerceu esse cargo que lhe foi atribuído pelo vice-rei D. Francisco Coutinho, se ele estava exactamente designado para ser provedor durante a viagem, ou provedor no estabelecimento de Macau. Mas o que ele conheceu da China foi, seguramente, esse pequeno entreposto que Portugal tinha conseguido, a muito custo, com muita dificuldade e depois de muitas tentativas, obter na China.

O que fazia um provedor dos defuntos?

Sempre que um português morria no Oriente, um soldado ou mercador, era preciso assegurar os direitos dos herdeiros, das famílias que normalmente estavam em Portugal. O provedor tinha de identificar o falecido, a sua naturalidade, origem e fazer com que os herdeiros fossem conhecidos. Tinha ainda de guardar os bens do falecido antes que fossem roubados, levá-los a leilão, guardar as moedas que daí resultassem e depois levar tudo isso para Lisboa. Era um processo que, se corresse bem, demorava muitos meses, pois era preciso enviar esse dinheiro para as autoridades de Goa que depois o enviavam na carreira da Índia para Lisboa.

Podemos falar de um período de estabilidade na vida de Camões em Macau?

Sim. Até essa nomeação como provedor dos defuntos, tudo o que Camões conhecia do Oriente tinha sido como soldado. Mal chega a Goa [1553], embarca semanas depois numa primeira expedição militar. Sabemos porquê: não porque tivesse alguma apetência bélica, mas porque só participando em expedições ganhava o seu soldo. Embora toda a gente dissesse que os soldados viviam muito pobremente, o soldo era o que Camões tinha para sobreviver. O tempo vivido em Macau, em que esteve liberto das obrigações de soldado, foi um tempo de tranquilidade em relação à subsistência, que estava assegurada. Dispunha de algum tempo e calma para prosseguir o trabalho com “Os Lusíadas”. Mais do que isso, tanto quanto as fontes permitem deduzir, Camões conheceu em Macau uma fase de equilíbrio em termos de vida pessoal e amorosa, na medida em que, na viagem de regresso, trazia consigo, segundo o testemunho de Diogo do Couto, uma rapariga chinesa.

Dinamene.

Esse foi o termo usado pelo cronista. Não sabemos se seria uma rapariga chinesa ou asiática. Essa rapariga com quem Camões vivia maritalmente era alguém de quem gostava muito, segundo o testemunho de Diogo do Couto. Mas Dinamene não seria, certamente, o nome dela, por ser um nome mitológico que, aliás, já Camões usava na sua lírica, mesmo antes de ter embarcado para o Oriente. As raparigas chinesas com quem os soldados e mercadores em Macau viviam amancebadas eram baptizadas e recebiam um nome cristão. Portanto, Dinamene até teria um nome cristão e português. Mas como não sabemos o nome dela, e se for com consciência de que usamos uma espécie de metáfora, podemos chamar-lhe Dinamene.

Ela morre depois numa viagem e deixa Camões muito abalado.

Na viagem de regresso de Macau a Goa, provavelmente no fim do seu mandato como provedor, Camões sofre o célebre naufrágio, no qual perde os bens pessoais que tinha amealhado, incluindo os bens dos defuntos de que era guardião, e isso vai trazer-lhe complicações. Sofre também a perda de Dinamene. O naufrágio foi junto a alguns nos mares da China, provavelmente junto à foz do rio Mekong.

Considera improvável que tenha perdido aí parte de “Os Lusíadas”.

Os primeiros biógrafos dizem que Camões se salvou desse naufrágio com uma tábua. Não é descabido que tenha conseguido salvar, nessa tábua, o manuscrito dos Lusíadas. Mas também não é de excluir que Camões soubesse de cor o seu poema. A memória das pessoas no século XVI era diferente. Estavam muito habituadas a guardar as coisas de memória. E nós sabemos, porque a prova obtém-se na obra de Camões, que este tinha uma memória extraordinária. Tenho forma de o provar, claro, que Camões seja um dos raros autores que conhecia de cor o seu poema.

Considera que Camões teve uma vida inferior ao seu verdadeiro talento?

Sem dúvida. Segundo um conjunto demasiado extenso de testemunhos concordantes, ele morre pobre, mesmo em condições miseráveis, e segundo uma testemunha ocular, sem ter um cobertor com que se cobrir. Por outro lado, Camões ficou conhecido a seguir à publicação dos Lusíadas, que foram comentados e lidos [no tempo de vida do poeta]. Temos o testemunho de Faria de Sousa, um dos primeiros biógrafos de Camões, que diz que quando este passava nas ruas as pessoas paravam e apontavam. Camões tinha também uma figura que se destacava, com o olho vazado e a usar uma pala. Nessa altura, já estaria bastante doente, a usar muletas. Mas há um conjunto de poetas, que é muito pouco crível que não conhecessem Camões, que nunca se lhe referem. Há, por outro lado, outros humanistas, como Pedro Magalhães Gândavo, que desde logo o elogia como o príncipe dos poetas portugueses.

Mas o rei dá-lhe uma tença por feitos prestados e pela publicação de “Os Lusíadas”.

Essa famosa tença, que não devia ser grande coisa, porque todos os biógrafos antigos dizem que era irrisória, é-lhe atribuída como uma espécie de reforma militar, por causa dos 17 anos de serviço no Oriente, e não propriamente como recompensa pela publicação de “Os Lusíadas”. A carta de mercê de D. Sebastião, que lhe atribui o título de Cavaleiro Fidalgo, não tinha, na prática, nenhuma repercussão, mas dava-lhe 15 mil reais. [A publicação de “Os Lusíadas”] terá sido um argumento adicional [para a carta] e não o argumento principal. Isso leva-nos a crer que D. Sebastião nem sequer terá lido ou ouvido ler “Os Lusíadas”, terá recebido uma informação indirecta, favorável sobre o poema.

Como se deu o processo de edição de “Os Lusíadas”?

Foi um acontecimento, porque tanto a imprensa como os livros que se publicavam por ano eram uma quantidade muito pequena. No ano em que “Os Lusíadas” são publicados foram a única obra de cariz não religioso [a ser editada]. Para custear a edição é mais que provável que Camões tenha tido o apoio de um mecenas, provavelmente D. Manuel de Portugal, da família dos Condes do Vimioso. Conseguir que a obra fosse imprensa era um processo moroso e complicado, pois tinha ainda de passar pelo Exame Prévio das autoridades civis, da autoridade régia e da censura da Inquisição. O revedor do Santo Ofício acaba por não só deixar passar o livro, como tecer uma quantidade de elogios quase inédita no alvará que autoriza a publicação da obra. Se formos pegar nos pareceres emitidos pelo mesmo revedor, não há nenhuma outra obra sobre a qual ele seja tão elogioso como foi com a epopeia de Camões.

Na Indonésia, fez amizade com um escravo da Ilha de Java.

Camões esteve, pelo menos uma vez, na ilha de Ternate, na Indonésia, no arquipélago das Molucas, numa altura em que houve conflitos motivados por um capitão português extremamente cruel para com o rei ou sultão de Ternate, e que originaram uma espécie de guerra entre os portugueses e os locais. Camões tem uma canção que descreve a ilha de Ternate. Não sabemos se foi nessa altura, ou em outra passagem pelo Extremo Oriente, que Camões se ligou a um jaú, ou javanês, mas que podia não ser exactamente do Extremo Oriente, mas um escravo liberto que se tivesse ligado por amizade a Camões. E isto porque numa das primeiras biografias de Camões lê-se que jaú, com o nome cristão António, pedia esmola à noite. Essa liberdade de movimentos de um escravo indicia que, provavelmente, seria um escravo liberto. Pedia esmola para Camões, para ele próprio e para a mãe de Camões, com quem Camões terá vivido nos últimos anos de vida.

“929 Challenge” cria prémio para ‘startups’ de PALOP e Timor-Leste

A quinta edição da competição “929 Challenge” em Macau vai incluir um prémio para a melhor ‘startup’ dos Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP) e de Timor-Leste, anunciou ontem a organização.

Marco Duarte Rizzolio, co-fundador da 929 Challenge, disse à Lusa que o prémio ‘Future Builders’ (Criadores do Futuro) foi criado para encorajar os participantes dos países lusófonos menos desenvolvidos. “Temos uma língua em comum, mas o patamar de desenvolvimento económico de cada um dos países é completamente diferente”, explicou Rizzolio, à margem de uma conferência de imprensa.

A última edição da competição para ’startups’ chinesas e dos países de língua portuguesa registou um novo máximo, com mais de 1.600 participantes em mais de 320 equipas.

No entanto, em 2024, a 929 Challenge não recebeu quaisquer projectos de Timor-Leste ou de São Tomé e Príncipe. Com o novo prémio, Rizzolio disse esperar que na edição deste ano haja ‘startups’ de todos os nove países lusófonos. “O objectivo é isso, incentivar, mas também é ajudar (…). Se eles conseguem ganhar aquele prémio, já é algo de motivador para eles, para poderem desenvolver o projecto”, explicou.

A ‘startup’ portuguesa Iplexmed, que desenvolve dispositivos de diagnóstico genético rápido, venceu a edição do ano passado, enquanto a também portuguesa NS2, que fornece soluções inteligentes para monitorizar a qualidade da água para uma aquicultura sustentável, ficou em terceiro.

A primeira vez

A única vez que uma equipa dos PALOP e de Timor-Leste chegou aos finalistas foi logo na primeira edição, lançada em 2021, então apenas direccionada a estudantes universitários.

Um projecto da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau para instalar painéis solares na região de Gabu, no leste do país, ficou em segundo lugar. “No final, quem ganha muitas vezes são equipas que têm já produtos maduros, serviços maduros”, explicou Rizzolio.

As inscrições estão abertas até 30 de Setembro, tanto para empresas como para equipas de alunos universitários. Rizzolio, também professor da Universidade Cidade de Macau, recordou que a competição tem novos parceiros, incluindo a StartupPorto, a Cabo Verde Digital e a Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique.

Os melhores 16 planos – oito de empresas e oito de universitários – terão 10 minutos para convencer o júri da 929 Challenge e potenciais investidores na final, em Novembro. O outro cofundador da competição, José Alves, sublinhou que a competição “ainda não é um sucesso” porque até agora não conseguiu atrair projectos para abrir portas em Macau.

“Precisamos de identificar as melhores ‘startups’, investir nelas e trazê-las para o mercado da China continental, ou levá-las da China para os países lusófonos”, explicou o docente. O concurso é coorganizado pelo Fórum Macau e por várias instituições da região, incluindo todas as universidades.

O secretário-geral adjunto do Fórum de Macau, Danilo Afonso Henriques, reiterou na conferência de imprensa que “estabelecer ‘startups’ em Macau requer apoio continuado”. “Sem esforços colectivos e sustentados, esta visão corre o risco de permanecer por realizar, tornando redundante os esforços e trabalho árduo de tantos”, alertou o timorense.

Irão | Aprovada suspensão da cooperação com a AIEA

O Parlamento iraniano votou ontem a suspensão da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica na sequência de 12 dias de guerra marcados por ataques israelitas e norte-americanos contra instalações nucleares do Irão.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) recusou-se a condenar o ataque contra as instalações nucleares iranianas, comprometendo a credibilidade internacional do organismo das Nações Unidas.

As declarações de Ghalibaf ocorreram após os deputados terem votado a favor da suspensão da cooperação com AIEA. “A Organização Iraniana de Energia Atómica vai suspender a cooperação com a AIEA enquanto a segurança das instalações nucleares não for garantida”, acrescentou o Presidente do Parlamento de Teerão.

No dia 13 de Junho, Israel, com o apoio dos Estados Unidos, atacou instalações militares e nucleares iranianas. O Irão retaliou disparando mísseis e lançando aparelhos aéreos não tripulados contra Israel. O cessar-fogo foi acordado na terça-feira, após intervenção da Administração norte-americana.

Coutinho quer voos directos entre Macau e Portugal

O deputado José Pereira Coutinho defendeu ontem voos directos para Portugal e avisou que as restrições à ajuda financeira anual dada aos residentes da região chinesa vai afectar reformados em Portugal.

“Temos de transformar o Aeroporto Internacional de Macau, de facto com rotas aéreas directas para a Europa, nomeadamente para Portugal”, disse Coutinho, após a apresentação do programa político da lista Nova Esperança ao parlamento local.

O jurista disse que os maiores aviões de longo curso do mundo já conseguem aterrar em Macau, mas que falta no aeroporto espaço para estacionar as aeronaves, um problema que disse esperar ser resolvido com a ampliação da infraestrutura.

A expansão do aeroporto, lançada em Novembro, envolve a construção de um aterro com mais de 129 hectares e deverá estar terminada em 2030, aumentando a capacidade de 9,6 milhões para 13 milhões de passageiros por ano.

“Esperamos que no futuro não seja necessário deslocarmo-nos a Hong Kong para apanhar um voo internacional para a Europa ou para a América e possamos começar a viagem em Macau que é aqui que é a nossa casa”, disse Coutinho. O aeroporto de Macau tem actualmente voos regulares de passageiros operados por 27 companhias aéreas para 41 destinos na China continental, Taiwan, Sudeste Asiático, Japão e Coreia do Sul.

Cortes criticados

Por outro lado, Coutinho criticou a decisão do Governo local de restringir as ajudas financeiras dadas anualmente às pessoas com estatuto de residente, àqueles que em 2024 tenham residido na região, pelo menos, 183 dias.

A medida prevê excepções, incluindo para os que vivem nas nove cidades da China continental integradas no projecto da Grande Baía Guandong-Hong Kong-Macau e para os que estejam a estudar em universidades no exterior. Mas Coutinho alertou que as excepções não eliminaram todas as injustiças, nomeadamente casos de reformados que vivem em Portugal.

O deputado deu o exemplo de um antigo soldado português, “com quase 90 anos”, que trabalhou durante 40 anos como polícia em Macau, mas que não tem direito à ajuda financeira por ter ido viver com a filha em Portugal, após ter ficado viúvo. “Acha justo?” perguntou Coutinho aos jornalistas.

O programa político da Nova Esperança defende ainda “uma concretização mais aprofundada” do papel de Macau como plataforma de cooperação com os países de língua portuguesa, “com a maior participação da população e dos empresários”.

A Nova Esperança foi uma das oito candidaturas validadas pela Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL). Há quatro anos, houve 19 listas de candidatos à Assembleia Legislativa, embora cinco listas e 21 candidatos – 15 dos quais pró-democracia -, tenham depois sido excluídos por “não defenderem a Lei Básica” e não serem “fiéis à RAEM”.

A porta das estrelas (II)

(Continuação da edição de 19 de Junho)

Obviamente, não é certo que Trump tenha sucesso nesta complicada tarefa de dividir para reinar. Entretanto, é perfeitamente possível que um desses actores desenvolva modelos de IA ou outras invenções tão poderosas que não possam ser ignoradas, obrigando o presidente a cooptá-lo em detrimento de outra pessoa, com todas as consequências que isso acarreta.

Um exemplo poderia ser a Microsoft, que em 2024 anunciou uma parceria com a Blackrock para fazer exactamente o que a Stargate deveria fazer, ou seja, lançar uma infra-estrutura física de IA. Já foram investidos trinta mil milhões e, este ano, serão adicionados outros oitenta mil milhões de dólares. Total são cento e dez mil milhões de dólares, dez a mais do que o portal das estrelas. Mas isso, para Trump, é um problema até certo ponto. Se as empresas competem para ganhar os seus favores e permanecem fiéis aos interesses americanos, tanto melhor. Os grandes nomes da tecnologia devem competir ferozmente entre si, produzindo inovação. Basta que não pensem que são mais importantes do que o presidente mesmo que talvez o sejam realmente.

Na sua monumental “Sociologia”, Georg Simmel distinguia entre competição existencial em que está em jogo a vida dos contendores e competição orientada para o resultado em que importa é a consecução do objectivo. Enquanto este tipo de concorrência prevalecer entre os magnatas da tecnologia americana, o Manual Cencelli ou como partilhar o poder criado por Trump funcionará. Mas se alguém se sentir existencialmente ameaçado por outra pessoa, a situação poderá explodir.

Estamos evidentemente em plena zona Elon Musk, campeão dos riscos existenciais. O fundador da SpaceX levou apenas algumas horas para reagir ao anúncio da Stargate. E, obviamente, fez no X, comentando secamente a publicação com a qual a OpenAi anunciava o nascimento do projecto afirmando que «Eles não têm dinheiro. A SoftBank tem menos de dez mil milhões de dólares, segundo fontes fidedignas». Ora, mesmo sem saber quais são as fontes fidedignas de Elon, os seus cálculos estão correctos. Se subtrairmos dos vinte e cinco mil milhões de dólares de liquidez que o fundo de Masa declarou no balanço de Setembro de 2024, os dezanove mil milhões de dólares que investirá na Stargate, restam cerca de seis mil milhões de dólares nas contas da SoftBank.

Mas, como vimos, o problema não é esse. E certamente não é essa a dificuldade de Elon. O fundador da SpaceX ficou de facto surpreendido com a jogada de Trump, que depois de o ter usado durante toda a campanha eleitoral como imagem pública, o fez desaparecer das cenas que importam com excepção da polémica que se seguiu à sua suposta saudação romana. Acima de tudo, porém, o ex-chefe da Doge (deixou o governo Trump e o seu cargo no Doge, o órgão encarregado de reduzir os gastos do governo dos Estados Unidos e reduzir empregos) não tolera que o projecto Stargate seja construído em torno da OpenAi, empresa que Musk fundou em 2015 sem fins lucrativos e que lhe foi roubada por Altman, acusado por Elon de querer ganhar dinheiro desenvolvendo uma Inteligência Artificial Geral (AGI) capaz de destruir a humanidade.

Em síntese clara de Musk, «A OpenAi é o mal». A situação é paradoxal. Trump, com quem Musk basicamente conviveu nos últimos três meses, despreza a IA de Elon e atribui a liderança operacional do maior projecto relacionado à IA da história americana àquele que, segundo o fundador da Tesla, não é simplesmente um concorrente, mas uma ameaça existencial à sobrevivência da humanidade. Consequência, um ex-representante do governo, como Musk, afirma publicamente que a Stargate é um projecto irrealista, incapaz de se financiar e liderado por pessoas malvadas prontas a «evocar o demónio da IA» para ganhar dinheiro.

Nessa loucura, o presidente teve que se apressar em declarar que Elon está apenas um pouco agitado porque no projecto «há uma pessoa que ele odeia» e que, de qualquer forma, não há nada com que se preocupar porque «eu também odeio algumas pessoas». A resposta de Altman a Musk, também publicada no X, foi quase imediata «O que é bom para o país nem sempre é bom para as suas empresas.

Mas espero que, no seu novo cargo, coloque sempre os Estados Unidos em primeiro lugar». O chefe da OpenAi demonstra conhecer Elon muito bem, porque acerta exactamente no ponto em que a América de Trump e o império de Musk podem tomar caminhos diferentes.

Para o presidente, o governo deve apostar no desenvolvimento da IA sem qualquer tipo de preocupação ética, filosófica ou ambiental, porque o objectivo é tornar a América grande novamente ou, pelo menos, garantir que continue maior do que a China.