Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Executado estudante acusado de espiar para a Mossad e CIA O Irão executou um homem por espionagem para os serviços secretos israelitas e norte-americanos, anunciou ontem a justiça iraniana, na mais recente de uma série de execuções desde o início da guerra desencadeada por Israel e Estados Unidos. Erfan Shakourzadeh “foi enforcado por colaboração com os serviços de informações dos Estados Unidos e a Mossad”, os serviços secretos externos israelitas, escreveu a Mizan, órgão de comunicação do poder judicial de Israel. Segundo as organizações não-governamentais Hengaw e Iran Human Rights (IHR), ambas com sede na Noruega, o homem era estudante na prestigiada Universidade de Ciência e Tecnologia de Teerão. Antes da execução, cuja data não foi avançada, redigiu uma mensagem na qual rejeitou as acusações. “Não deixem que outra vida inocente desapareça em silêncio e sem atenção pública”, escreveu, citado por aquelas organizações. O estudante de mestrado em engenharia aeroespacial foi “submetido a nove meses de severas torturas físicas e psicológicas em isolamento para extorquir confissões forçadas”, pormenorizou a Hengaw. Segundo a Mizan, Shakourzadeh foi acusado de transmitir “deliberadamente” informações classificadas à CIA e à Mossad enquanto trabalhava numa “das organizações científicas do país activas no sector espacial”. A República Islâmica é há muito alvo de acusações por parte dos países ocidentais, que suspeitam que utilize o programa espacial para desenvolver capacidades em matéria de mísseis balísticos. Cada vez pior As detenções e execuções multiplicaram-se no Irão desde o ataque israelo-norte-americano de 28 de Fevereiro, que desencadeou uma guerra regional. A IHR contabilizou cerca de 30 desde essa data: cinco execuções por espionagem, 13 por alegadas ligações aos protestos de Janeiro, uma relacionada com a vaga de contestação de 2022 e outras 10 por pertença a grupos de oposição proibidos. Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, entre as quais a Amnistia Internacional (AI), o Irão é o país que mais recorre à pena de morte depois da China. As autoridades executaram pelo menos 1.639 pessoas em 2025, um recorde desde 1989, indicaram recentemente as IHR e a organização não-governamental Ensemble Contre la Peine de Mort (ECPM – Juntos Contra a Pena de Morte).
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Analistas apontam para maior espaço estratégico de Pequim A guerra no Irão colocou a China numa posição complexa, oferecendo oportunidades diplomáticas e estratégicas, mas também riscos económicos e energéticos, segundo uma análise do instituto Brookings Institution, publicada na terça-feira. Ryan Hass, investigador de política externa na unidade de investigação Centro John L. Thornton China, da Brookings Institution, que tem sede em Washington, afirmou que “os líderes chineses consideram as acções dos EUA no Irão como mais um espasmo violento de um sistema capitalista em declínio, projectando as suas contradições através do imperialismo e da guerra”. “O principal interesse da China é manter aberto o caminho para a sua ascensão, com os EUA a constituir o principal obstáculo”, escreveu Hass no artigo – “A abordagem de Pequim ao conflito no Irão e as suas implicações para a China” -, que assina com outros quatro investigadores do Centro John L. Thornton China. Pequim prefere assim “uma calma tensa com os EUA” e reage à guerra “sem mal-estar nem entusiasmo”, devido ao impacto económico e aos choques energéticos, observou Hass. Yun Sun, investigadora não-residente do grupo de reflexão, observou que a China demonstrou “resiliência energética e das cadeias de abastecimento, graças a décadas de diversificação”, mas os custos são reais, como a queda de 25 por cento nas importações de crude do Golfo em Março de 2026. Sun acrescentou que Pequim “pode desempenhar um papel na reconstrução pós-conflito do Irão, dadas as opções limitadas de parceria de Teerão”.
Hoje Macau China / ÁsiaPCC promete reforçar segurança energética face a conflito no Irão A cúpula do Partido Comunista Chinês apelou ontem ao reforço da segurança energética face ao impacto da subida dos preços do petróleo e do gás, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. O Presidente chinês, Xi Jinping, presidiu a uma reunião do Politburo na qual foi sublinhada “a necessidade de enfrentar de forma sistemática as perturbações e desafios provenientes do exterior”, segundo um comunicado divulgado pela agência noticiosa oficial Xinhua. Perante a conjuntura, a liderança do PCC defendeu a importância de “responder às diversas incertezas com a certeza do desenvolvimento de alta qualidade”, numa referência ao novo modelo económico que Pequim procura consolidar, num contexto de abrandamento do crescimento. Os dirigentes apontaram ainda para uma política fiscal “mais proactiva” e uma política monetária “moderadamente flexível”, com liquidez “ampla” no sistema financeiro, bem como para medidas de estímulo à procura interna, estabilização do emprego e das expectativas dos mercados. Entre as preocupações destacadas, estão também a taxa de câmbio do yuan, o sector imobiliário, a concorrência excessiva em alguns sectores, a dívida oculta de governos locais e a necessidade de avançar na regulação da inteligência artificial. No plano energético, o Politburo apelou ao reforço da planificação e construção de novas redes hídricas e eléctricas, infraestruturas subterrâneas urbanas e sistemas de computação, comunicações e logística. “É necessário (…) promover o arranque de projectos-chave quando as condições forem adequadas”, refere o comunicado. Abastecimento garantido A reunião ocorreu um dia após um responsável da Administração Nacional de Energia ter destacado a resiliência do sector petrolífero chinês face aos riscos decorrentes da guerra com o Irão, classificando como garantido o abastecimento de crude e gás, graças ao aumento da produção interna, diversificação das importações e controlo temporário dos preços. O bloqueio ‘de facto’ do Estreito de Ormuz, por onde transitava cerca de 20 por cento do petróleo e gás mundiais antes do conflito, afetou toda a Ásia. No caso da China, a rota é particularmente sensível, dado que por ali passam cerca de 45 por cento das suas importações energéticas. O conflito levou a uma subida dos preços dos combustíveis no país, obrigando as autoridades a limitar temporariamente os aumentos a cerca de metade do que resultaria do mecanismo habitual, tendo sido registada na semana passada a primeira descida em 2026. A China beneficiou parcialmente do contexto, com um aumento das exportações de tecnologias ‘verdes’, como painéis solares, baterias e veículos eléctricos, impulsionadas pela subida global dos preços do crude. Pequim condenou repetidamente os ataques de Washington e Telavive contra Teerão, mas sublinhou também a necessidade de respeitar a soberania dos países do Golfo, com os quais mantém estreitas relações políticas, comerciais e energéticas.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA diáspora iraniana e o futuro “Exile does not silence a nation; it merely relocates the battlefield of its future.” – Marcellus Dorian A diáspora iraniana constitui um dos espaços políticos mais fragmentados e, simultaneamente, mais influentes na disputa pelo futuro do Irão. A sua heterogeneidade não é apenas sociológica ou geográfica; é sobretudo histórica, emocional e identitária. Cada vaga migratória transportou consigo memórias específicas, expectativas divergentes e narrativas concorrentes sobre a nação, o Estado e a legitimidade política. A oposição em exílio, frequentemente descrita como um arquipélago de sensibilidades, tornou-se um campo de batalha simbólico onde se confrontam leituras antagónicas da história contemporânea iraniana. Neste espaço, a hegemonia discursiva do movimento monárquico pró-Pahlavi, amplificada por redes mediáticas transnacionais, procura impor-se como alternativa credível à República Islâmica, apostando numa articulação estratégica com os Estados Unidos e Israel para promover um cenário de mudança de regime. Contudo, esta hegemonia é contestada por outras correntes que reivindicam diferentes modelos de futuro, desde o republicanismo laico até às formas renovadas de islamismo reformista. Para compreender a complexidade deste universo político disperso, é indispensável regressar ao momento que marca a cisão fundamental entre o Irão e a sua diáspora que foi a Revolução de 1979. Este acontecimento não apenas derrubou a monarquia Pahlavi, como também redefiniu a relação entre Estado, sociedade e modernidade. A revolução produziu uma ruptura profunda que reorganizou as lealdades políticas e desencadeou um processo migratório sem precedentes. Antes de 1979, a presença iraniana no exterior era sobretudo composta por estudantes e profissionais qualificados que procuravam formação ou oportunidades económicas. A industrialização acelerada dos anos 1960 e 1970, promovida pela monarquia, gerou uma procura crescente de quadros técnicos que o sistema universitário interno não conseguia suprir. Assim, dezenas de milhares de jovens procuraram formação no estrangeiro, sobretudo na Europa Ocidental e na América do Norte. Às vésperas da revolução, o número de estudantes iranianos matriculados fora do país era expressivo, revelando uma sociedade em rápida transformação e profundamente integrada em circuitos internacionais de mobilidade académica. A queda do xá e a instauração da República Islâmica alteraram radicalmente este panorama. A primeira vaga de exilados após 1979 foi marcada por uma forte componente política como antigos membros da elite monárquica, empresários ligados ao regime deposto, intelectuais liberais, militantes de organizações de esquerda e minorias religiosas que se sentiram ameaçadas pelo novo poder. Esta geração transportava consigo uma memória traumática da revolução e uma visão nostálgica do período Pahlavi, frequentemente idealizado como uma era de modernização, estabilidade e abertura ao Ocidente. Esta nostalgia, embora selectiva, tornou-se um elemento estruturante da identidade política de parte significativa da diáspora, alimentando a construção de um imaginário restauracionista que continua a influenciar o debate contemporâneo. Nos anos seguintes, novas vagas migratórias ampliaram a diversidade interna da diáspora. A guerra Irão-Iraque, a repressão política, as dificuldades económicas e as restrições sociais impostas pelo regime islâmico levaram muitos iranianos a procurar refúgio no exterior. Ao contrário da primeira geração, marcada por elites políticas e económicas, estas vagas incluíam estudantes, profissionais qualificados, famílias de classe média e jovens em busca de liberdade pessoal. A pluralidade de experiências e expectativas produziu um mosaico identitário complexo, no qual coexistem memórias contraditórias e projectos políticos divergentes. Para alguns, a República Islâmica representa uma usurpação histórica que deve ser revertida; para outros, constitui um sistema reformável que pode evoluir gradualmente; para outros ainda, o futuro do Irão deve ser construído a partir de modelos democráticos que rompam tanto com o autoritarismo monárquico quanto com o teocrático. É neste contexto que a oposição em exílio se tornou um espaço de disputa simbólica. A hegemonia mediática do movimento pró-Pahlavi, reforçada pela figura carismática de Reza Pahlavi, assenta numa narrativa que apresenta a monarquia como a única alternativa capaz de restaurar a unidade nacional e reintegrar o Irão no sistema internacional. Esta narrativa é amplificada por canais televisivos sediados no estrangeiro, plataformas digitais e redes de activistas que procuram mobilizar a diáspora e influenciar a opinião pública interna. A aposta num alinhamento estratégico com os Estados Unidos e Israel revela uma visão geopolítica que interpreta a mudança de regime como um processo dependente de pressões externas, sanções económicas e isolamento diplomático da República Islâmica. Contudo, esta visão não é consensual. Muitos sectores da diáspora rejeitam a instrumentalização geopolítica da causa iraniana e criticam a dependência de potências estrangeiras, argumentando que tal estratégia compromete a soberania nacional e reforça a narrativa do regime, que se apresenta como vítima de ingerências externas. Para estes grupos, a mudança política deve emergir de dinâmicas internas, sustentadas por movimentos sociais, redes de solidariedade e formas de resistência civil. A memória das intervenções estrangeiras no Irão, desde o golpe de 1953 até às pressões contemporâneas, alimenta uma sensibilidade nacionalista que atravessa diferentes correntes políticas e que desconfia de soluções impostas de fora. A diáspora é também um espaço de produção cultural e intelectual que influencia a forma como o Irão é percebido no exterior. Escritores, cineastas, académicos e artistas iranianos no exílio desempenham um papel crucial na construção de narrativas alternativas sobre a sociedade iraniana, desafiando estereótipos orientalistas e denunciando as simplificações que frequentemente dominam o discurso mediático ocidental. Esta produção cultural contribui para uma compreensão mais complexa do Irão contemporâneo, revelando as tensões entre tradição e modernidade, religião e secularismo, identidade nacional e pertença global. Ao mesmo tempo, esta dimensão cultural reforça a consciência política da diáspora, oferecendo ferramentas simbólicas para a crítica do regime e para a imaginação de futuros possíveis. A fragmentação interna da diáspora não deve ser interpretada como sinal de fraqueza, mas como expressão da diversidade histórica e social do Irão. Esta pluralidade pode constituir uma força, desde que seja acompanhada por mecanismos de diálogo e cooperação que permitam articular objectivos comuns. No entanto, a competição entre diferentes correntes políticas, a disputa pela legitimidade representativa e a influência de agendas externas dificultam a construção de uma frente unificada. A ausência de consenso sobre o modelo de Estado, o papel da religião, a relação com o Ocidente e as estratégias de mudança política revela a profundidade das clivagens internas. A República Islâmica, por sua vez, observa atentamente os movimentos da diáspora. O regime reconhece o potencial mobilizador das comunidades no exterior e procura neutralizar a sua influência através de campanhas de desinformação, infiltração de redes e manipulação de narrativas. Ao mesmo tempo, utiliza a fragmentação da oposição como prova da sua incapacidade de oferecer uma alternativa coerente. A relação entre o Estado iraniano e a diáspora é, assim, marcada por uma tensão permanente; por um lado, o regime teme a sua capacidade de mobilização; por outro, explora as suas divisões para reforçar a própria legitimidade. A disputa pelo futuro do Irão desenrola-se, portanto, em múltiplos planos; no interior do país, onde movimentos sociais desafiam periodicamente o regime; no plano internacional, onde potências regionais e globais procuram influenciar o destino iraniano; e no seio da diáspora, onde se confrontam memórias, identidades e projectos políticos. A diáspora não é apenas um observador distante, mas um actor activo que intervém no debate público, mobiliza recursos, produz conhecimento e constrói redes transnacionais de solidariedade. A questão central reside em saber se esta pluralidade pode transformar-se numa força política capaz de influenciar de forma decisiva o futuro do Irão. A resposta depende da capacidade da diáspora de superar rivalidades históricas, construir plataformas inclusivas e articular uma visão de futuro que seja simultaneamente democrática, soberana e sensível às complexidades internas da sociedade iraniana. A hegemonia pró-Pahlavi, embora influente, não representa a totalidade da diáspora; a sua força deriva tanto da nostalgia de uma parte da comunidade como da capacidade de mobilizar recursos mediáticos. No entanto, a diversidade de vozes no exílio revela que o futuro do Irão não pode ser reduzido a uma única narrativa. A diáspora iraniana encontra-se, assim, num momento decisivo. A sua capacidade de influenciar o destino do país dependerá da forma como conseguir transformar a sua heterogeneidade numa plataforma de acção política coerente. A disputa com a República Islâmica não é apenas uma luta pelo poder, mas uma batalha pela definição da identidade nacional, memória histórica e imaginação do futuro. Neste confronto, a diáspora desempenha um papel central, não como substituto da sociedade iraniana, mas como extensão crítica das suas aspirações, contradições e esperanças.
Hoje Macau China / ÁsiaAbbas Araqchi fala com China, Paquistão e Japão antes de possíveis negociações O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, manteve na quarta-feira contactos com homólogos da China e do Japão e com o chefe do Exército do Paquistão, nas vésperas de possíveis novas negociações com Washington. Araqchi falou com o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, que afirmou, numa conversa telefónica, que a actual situação entrou numa “fase crítica de transição da guerra para a paz”, abrindo “uma janela de oportunidade”. Wang indicou que a China apoia a manutenção do cessar-fogo e das negociações, o que “serve o interesse fundamental do povo iraniano e corresponde à expectativa comum dos países da região e da comunidade internacional”, segundo um comunicado da diplomacia chinesa. “A China está disposta a continuar a promover a distensão e a melhoria das relações entre os países da região”, acrescentou, sublinhando que Pequim pode “desempenhar um papel construtivo para alcançar paz e estabilidade duradouras no Médio Oriente”. A China, principal parceiro comercial do Irão, tem condenado a guerra desde a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra Teerão, em 28 de Fevereiro. Araqchi manteve também uma conversa com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, Toshimitsu Motegi, que destacou ser “fundamental” preservar o cessar-fogo e pôr fim ao conflito, incluindo a garantia da segurança da navegação no estreito de Ormuz. Tóquio considerou “muito significativo” manter uma comunicação fluida com o Irão e indicou que o Governo da primeira-ministra, Sanae Takaichi, tem mantido contactos com os países envolvidos e mediadores. Araqchi apelou à comunidade internacional para adoptar uma abordagem responsável que evite o agravamento da situação, referindo-se à “insegurança gerada em Ormuz” como consequência directa da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel. Na mesa O chefe do Exército do Paquistão, Asim Munir, deslocou-se a Teerão para contactos de alto nível sobre a retoma das negociações. A visita surge num contexto de intensificação dos esforços para levar novamente Estados Unidos e Irão à mesa de negociações, após o fracasso do primeiro encontro, que decorreu durante 21 horas na capital paquistanesa. Uma segunda ronda de contactos directos deverá realizar-se no início da próxima semana. Islamabade surge como principal opção para acolher as conversações, embora Genebra se mantenha como alternativa técnica, com o Paquistão a assumir um papel de mediador activo. O esforço diplomático inclui uma digressão regional do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, pelo Golfo e Turquia, visando alcançar um acordo antes do fim da trégua no Estreito de Ormuz, previsto para 22 de Abril.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesAs incompreensões entre “Pérsia” e “Irão” “Misunderstanding is never born from distance, but from the refusal to see the other as history rather than myth.” Adrian Levingston A relação entre o Ocidente e o Irão constitui um dos casos mais persistentes de desencontro cultural na história moderna. Ao longo de séculos, a antiga Pérsia foi simultaneamente admirada e mal compreendida, convertida em símbolo exótico, cenário imaginado ou ameaça difusa, raramente reconhecida como sujeito histórico pleno. A persistência de estereótipos, a leitura superficial da sua cultura e a incapacidade de compreender a continuidade civilizacional iraniana contribuíram para a construção de um “grande outro” que, mais do que descrever o Irão, revela as limitações do olhar ocidental. A história destas incompreensões não é apenas um inventário de equívocos; é também um espelho das fragilidades conceptuais do próprio Ocidente, que frequentemente projectou sobre o Irão fantasias, receios e simplificações que pouco dizem sobre a realidade iraniana. A designação “Pérsia” desempenhou, durante séculos, um papel central nesta construção. Para o imaginário europeu, a Pérsia evocava uma civilização antiga, marcada por esplendor artístico, refinamento cortesão e uma aura de mistério. Esta imagem, embora parcialmente fundada em elementos reais, cristalizou-se como representação estática, desligada das transformações históricas e políticas que moldaram o território. Quando, em 1935, o Estado iraniano solicitou oficialmente que a comunidade internacional adoptasse o nome “Irão”, muitos observadores ocidentais interpretaram a mudança como ruptura, quando na verdade se tratava de afirmação identitária interna, coerente com a longa tradição cultural do país. A dificuldade em aceitar esta continuidade revela a tendência ocidental para fixar a Pérsia num passado idealizado, recusando reconhecer o Irão como actor moderno. A persistência de preconceitos orientalistas reforçou esta visão distorcida. A partir do século XIX, o discurso académico e político europeu passou a enquadrar o Médio Oriente como espaço de atraso, irracionalidade e despotismo. O Irão, apesar da sua história singular, foi frequentemente incluído neste conjunto homogéneo, como se partilhasse características imutáveis atribuídas a toda a região. Esta abordagem reducionista ignorou a complexidade das instituições iranianas, a diversidade étnica e linguística, a vitalidade intelectual e a capacidade de adaptação política demonstrada ao longo dos séculos. A imagem de um país imóvel, impermeável à mudança, serviu mais para confirmar preconceitos ocidentais do que para descrever a realidade. A literatura de viagens desempenhou um papel decisivo na consolidação destes estereótipos. Muitos relatos europeus, escritos entre os séculos XVII e XX, privilegiaram descrições pitorescas, enfatizando elementos considerados exóticos ou chocantes. A selecção de episódios, frequentemente anedótica, contribuiu para a construção de uma narrativa que apresentava a sociedade iraniana como curiosidade antropológica, não como comunidade histórica complexa. A ausência de contextualização e a tendência para generalizar a partir de experiências individuais reforçaram a ideia de que a Pérsia era um espaço distante, quase irreal, cuja função principal era alimentar a imaginação europeia. A modernidade não dissipou estas distorções. Pelo contrário, os acontecimentos políticos do século XX intensificaram a tendência para interpretar o Irão através de categorias simplificadoras. A Revolução de 1979, por exemplo, foi frequentemente apresentada como retorno ao passado, ignorando que resultou de dinâmicas sociais, económicas e ideológicas profundamente modernas. A incapacidade de reconhecer a pluralidade de actores envolvidos e a complexidade das suas motivações contribuiu para reforçar a imagem de um país guiado por impulsos irracionais. Esta leitura, amplificada pelos meios de comunicação, consolidou a percepção de que o Irão era essencialmente incompreensível, reforçando a distância simbólica entre “nós” e “eles”. A questão de Soraya Esfandiary-Bakhtiary constitui um exemplo paradigmático desta incompreensão. A sua figura, amplamente divulgada na imprensa europeia dos anos de 1950, tornou-se símbolo de uma Pérsia romântica, elegante e trágica. A narrativa construída em torno da sua vida privilegiou elementos melodramáticos, transformando-a em personagem de um conto oriental adaptado ao gosto ocidental. A dissolução do seu casamento com o Xá Mohammad Reza Pahlavi foi interpretada como drama sentimental, ignorando as implicações políticas e dinásticas que moldaram a decisão. A forma como Soraya foi representada revela a tendência ocidental para reduzir o Irão a histórias individuais que confirmam expectativas pré-existentes, em vez de procurar compreender o contexto mais amplo. A recepção de obras literárias associadas ao Irão reforça esta tendência. Em muitos contextos académicos ocidentais, estudantes e leitores identificam a literatura iraniana com obras que, embora relevantes, não pertencem à tradição persa. A associação frequente de Reading Lolita in Tehran ou The Kite Runner à literatura árabe ou iraniana demonstra a confusão conceptual que persiste no Ocidente. Esta incapacidade de distinguir tradições culturais distintas revela não apenas desconhecimento, mas também a tendência para agrupar sociedades diversas sob categorias vagas como “Médio Oriente” ou “mundo islâmico”. A ausência de rigor histórico e cultural impede o reconhecimento da especificidade iraniana e perpetua uma visão homogénea da região. A construção do Irão como “grande outro” não resulta apenas de ignorância; é também consequência de dinâmicas políticas. A relação entre o Irão e as potências ocidentais foi marcada por rivalidades estratégicas, intervenções externas e disputas geopolíticas que influenciaram a forma como o país foi representado. A narrativa ocidental, ao enfatizar aspectos negativos ou ameaçadores, serviu frequentemente para justificar políticas de contenção ou pressão diplomática. A imagem de um Irão irracional ou agressivo facilitou a legitimação de intervenções e sanções, contribuindo para reforçar a distância simbólica entre as duas partes. A representação do país como ameaça permanente tornou-se instrumento político, obscurecendo a realidade interna e impedindo uma compreensão equilibrada. A ausência de cultura histórica no Ocidente, frequentemente denunciada por académicos, agrava este problema. A tendência para interpretar acontecimentos contemporâneos sem considerar a longa duração histórica conduz a análises superficiais. O Irão, com uma tradição estatal milenar, não pode ser compreendido sem referência à sua continuidade civilizacional, às dinâmicas internas de poder, às relações entre centro e periferia, e à importância simbólica da identidade persa. Ignorar estes elementos conduz a interpretações erradas e reforça a ideia de que o país é enigmático ou imprevisível. Na verdade, muitas das suas decisões políticas tornam-se inteligíveis quando analisadas à luz da sua história. A incompreensão ocidental manifesta-se também na forma como o Irão é representado nos meios de comunicação. A cobertura mediática privilegia frequentemente episódios de tensão, ignorando aspectos culturais, sociais e científicos que revelam a vitalidade da sociedade iraniana. A ausência de diversidade narrativa contribui para a construção de uma imagem monolítica, que não reflecte a pluralidade de vozes existentes no país. Esta representação parcial reforça a percepção de que o Irão é essencialmente um problema geopolítico, não uma sociedade complexa com trajectórias próprias. A superação destas incompreensões exige um esforço consciente de revisão conceptual. É necessário abandonar categorias simplificadoras e reconhecer a especificidade histórica e cultural do Irão. A compreensão do país implica atenção às suas dinâmicas internas, à diversidade das suas tradições e à continuidade da sua identidade civilizacional. Exige também a capacidade de distinguir entre representações mediáticas e realidade social, evitando generalizações precipitadas. O estudo da história iraniana, literatura, filosofia e instituições políticas permite construir uma visão mais equilibrada, capaz de ultrapassar estereótipos. A relação entre “Pérsia” e “Irão” não deve ser entendida como oposição, mas como continuidade. A Pérsia não é apenas passado; é componente viva da identidade iraniana. O Irão não é ruptura; é expressão moderna de uma civilização antiga. A dificuldade ocidental em reconhecer esta continuidade revela mais sobre o Ocidente do que sobre o Irão. A construção do “grande outro” persa-iraniano é, em grande medida, produto das limitações conceptuais e históricas do olhar ocidental. Superar estas limitações implica não apenas estudar o Irão, mas também questionar os pressupostos que moldam a forma como o Ocidente observa o mundo. A história das incompreensões entre Pérsia e Irão, tal como vista do Ocidente, é portanto história de projecções, equívocos e simplificações. Mas é também oportunidade para repensar a relação entre culturas e para reconhecer que a compreensão mútua exige esforço, rigor e humildade intelectual. O Irão, com a sua profundidade histórica e riqueza cultural, desafia o Ocidente a abandonar visões estereotipadas e a construir um diálogo baseado no conhecimento, não na fantasia. A superação do “grande outro” começa quando o Irão deixa de ser cartolina exótica e passa a ser reconhecido como civilização viva, complexa e plenamente histórica.
Hoje Macau China / ÁsiaAlerta para “graves consequências” face a ataques contra instalações nucleares no Irão A China alertou ontem que acções contra “instalações nucleares pacíficas” podem ter “graves consequências para a paz e estabilidade” regionais, após o Irão ter denunciado ataques dos Estados Unidos próximo da central nuclear de Bushehr. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China Mao Ning afirmou, em conferência de imprensa, que “os ataques armados contra instalações nucleares pacíficas sob salvaguardas e supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica violam os propósitos da Carta das Nações Unidas, o direito internacional e o Estatuto da AIEA”. Mao sustentou que estas operações “minam gravemente a autoridade do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e enfraquecem os esforços para manter o regime internacional de não proliferação nuclear”. “A China defende uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana por via política e diplomática”, acrescentou a porta-voz. A campanha de bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel incluiu, nos últimos dias, três instalações nucleares, duas universidades, o edifício de uma televisão do Catar e zonas residenciais de Teerão, ataques que causaram mais de 70 mortos. Nos últimos dias, Estados Unidos e Israel têm centrado as suas acções nas indústrias do país, no seu programa nuclear e nos seus centros de conhecimento. Degradação contínua Ao final da passada sexta-feira, registou-se um ataque nas proximidades da central nuclear de Bushehr (sul) – o terceiro em dez dias – pelo que a instalação “continua a degradar-se”, segundo a Rússia, que construiu a central e está a retirar parte do seu pessoal. A guerra opõe o Irão aos Estados Unidos e a Israel desde 28 de Fevereiro, quando estes lançaram ataques contra território iraniano, aos quais Teerão respondeu com ofensivas contra Israel, vários países do Golfo e posições associadas a Washington na região. Pequim tem condenado reiteradamente as acções dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, por considerar que “violam a soberania” do país persa, embora também tenha apelado ao respeito pela integridade territorial dos países do Golfo, com os quais mantém laços estreitos.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | AIE pronta para libertar mais reservas após pedido japonês O director da Agência Internacional de Energia (AIE) disse ontem estar pronto para libertar mais reservas de petróleo “se e quando for necessário”, no 26.º dia da guerra do Irão, que fez disparar os preços dos hidrocarbonetos. As declarações de Fatih Birol foram feitas em resposta a um pedido da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, para que se “preparasse para implementar” uma operação coordenada deste tipo, durante um encontro entre os dois em Tóquio. A AIE anunciou no início do mês que os países membros iriam libertar 400 milhões de barris de petróleo das reservas para atenuar o impacto da guerra, na maior operação de sempre realizada pela instituição. No entanto, “ainda há uma quantidade significativa” de petróleo nas reservas”, afirmou Birol. “Oitenta por cento das nossas reservas ainda estão lá. Esses 400 milhões de barris representavam apenas 20 por cento das nossas reservas”, declarou. “Se e quando for necessário, estamos prontos (…) mas espero sinceramente que não seja necessário”, reforçou. Notando que “o mundo enfrenta uma grave ameaça à segurança energética”, o responsável disse que a AIE “está pronta para desempenhar o papel essencial de guardiã da segurança energética mundial”, acrescentou.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Pequim apoia todas as iniciativas que contribuam para reduzir as tensões A China indicou ontem que “é sempre melhor negociar do que intensificar os combates”, apelando à resolução do conflito no Médio Oriente, e afirmou apoiar “todas as iniciativas que contribuam para reduzir tensões”. As declarações, feitas em conferência de imprensa pelo porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian, surgem após fontes governamentais do Paquistão terem assegurado que o país lidera uma iniciativa de mediação com a Turquia e o Egipto para pôr fim à guerra entre o Irão, os Estados Unidos e Israel. Trump afirmou na segunda-feira ter mantido conversações “ótimas e produtivas” com Teerão para alcançar o fim das hostilidades e garantiu que os contactos vão continuar ao longo da semana, embora o Exército do Irão tenha negado ontem a existência de negociações com Washington. Lin afirmou ainda que “a China espera que todas as partes aproveitem qualquer oportunidade e janela para a paz e iniciem, o mais rapidamente possível, um processo de diálogo”. Acrescentou também que a situação está a afectar a segurança energética global, o funcionamento das cadeias de abastecimento e produção, bem como a ordem do comércio internacional, sublinhando que a China “está disposta a reforçar a coordenação e cooperação com a comunidade internacional para enfrentar conjuntamente os desafios em matéria de segurança energética”. Na véspera, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, manteve uma chamada telefónica com o seu homólogo iraniano, na qual apelou ao regresso à via do diálogo para pôr fim à guerra do Irão e iniciar negociações de paz “o mais cedo possível”. Wang insistiu que todas as questões sensíveis devem ser resolvidas através do diálogo e da negociação, e não pelo recurso à força. A guerra no Médio Oriente entra na sua quarta semana, após a escalada iniciada a 28 de Fevereiro com ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel em território iraniano.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Pedida abordagem às “causas profundas” do conflito em reunião com Reino Unido O chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, apelou na segunda-feira para que as partes no conflito no Irão abordem “as causas profundas”, num encontro com o conselheiro de Segurança Nacional britânico, Jonathan Powell, em Pequim. Wang sublinhou que o prolongamento da guerra apenas agravará os danos e as consequências, defendendo o regresso a uma solução política através do diálogo e da negociação, segundo um comunicado da diplomacia chinesa. Também na segunda-feira, o enviado especial chinês para o Médio Oriente, Zhai Jun, alertou para “consequências insuportáveis para todas as partes” caso o encerramento desta rota se prolongue. Wang considerou que a visita do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, à China em Janeiro foi “bem-sucedida” e “histórica”, tendo recebido avaliações positivas de vários sectores e da opinião pública internacional. Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, este facto demonstra que o desenvolvimento de uma parceria estratégica abrangente, estável e de longo prazo entre a China e o Reino Unido é “inevitável” e corresponde à vontade dos povos. Wang acrescentou que, se ambas as partes avançarem na mesma direcção, poderão alcançar benefícios mútuos, devendo implementar consensos, reforçar os intercâmbios e aprofundar a cooperação para promover relações bilaterais estáveis. Powell afirmou que Londres está disponível para trabalhar com Pequim na implementação dos resultados da visita de Starmer, reforçar a comunicação e a cooperação e desenvolver uma parceria estratégica abrangente, estável e duradoura.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Pequim contra a inaceitável eliminação de líderes nacionais A China afirmou ontem que “a eliminação de líderes nacionais e ataques contra alvos civis no Irão são absolutamente inaceitáveis”, após Israel ter morto o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão e ex-presidente do parlamento, Ari Larijani. O porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian afirmou, em conferência de imprensa, que Pequim “se opõe sistematicamente ao uso da força nas relações internacionais”. Lin lamentou que “as chamas da guerra se estejam a expandir pelo Médio Oriente e que as tensões regionais estejam a aumentar”. “Um cessar-fogo imediato e o fim das hostilidades representam a aspiração comum da comunidade internacional”, acrescentou o porta-voz, apelando “a todas as partes envolvidas” para que interrompam “imediatamente as operações militares e evitem que a situação regional se torne incontrolável”. A Guarda Revolucionária iraniana afirmou na quarta-feira ter lançado um ataque com mísseis contra Telavive, em represália pela morte de Larijani, que era conselheiro do antigo líder supremo iraniano, Ali Khamenei, também morto numa operação israelita no início do actual conflito. A China, principal parceiro comercial de Teerão e maior comprador do seu petróleo, tem condenado repetidamente os ataques ao Irão por parte dos Estados Unidos e de Israel, considerando que “violam a soberania” do país.
Jorge Rodrigues Simão Sexanálise VozesA Geopolítica do Ponto de Ignição (Continuação da edição de 5 de Março) Ao mesmo tempo, Israel enfrentava pressões internas e externas para agir. A possibilidade de um Irão nuclear era vista como uma ameaça intolerável, e sectores do establishment de defesa argumentavam que a inacção poderia resultar numa mudança irreversível no equilíbrio de poder regional. Os Estados Unidos, embora relutantes em envolverse num novo conflito no Médio Oriente, estavam vinculados a compromissos de segurança que tornavam difícil permanecerem à margem caso Israel fosse alvo de ataques significativos. Assim, a 28 de Fevereiro, o sistema regional encontravase numa situação de instabilidade crítica. A dissuasão estava fragilizada, os canais diplomáticos encontravamse bloqueados e a margem para erros de cálculo era mínima. A partir deste ponto, qualquer incidente como um ataque de um proxy, erro de interpretação ou movimento militar mal calculado poderia desencadear uma escalada rápida e potencialmente devastadora. Após 28 de Fevereiro, o Médio Oriente entrou numa nova fase de incerteza depois da morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel. Na madrugada desse dia, uma vaga de bombardeamentos aéreos de grande escala atingiu alvos militares e governamentais em Teerão e noutras zonas estratégicas do país. Entre os alvos encontravase o complexo onde Khamenei trabalhava e residia; foi aí que, segundo a confirmação posterior da Casa Branca e de responsáveis israelitas, o líder de 86 anos foi morto, juntamente com altos responsáveis dos Guardas da Revolução e membros próximos da sua família. Durante algumas horas, o silêncio oficial iraniano alimentou rumores e contrainformação. A confirmação formal chegou através dos meios de comunicação estatais iranianos, que anunciaram que o “Líder da Revolução Islâmica” tinha sido “martirizado” no ataque da “América e do regime sionista” na manhã de sábado, 28 de Fevereiro. Foi decretado um luto nacional de 40 dias, acompanhado de vários feriados públicos, enquanto a Constituição iraniana previa que um conselho composto pelo Presidente, o chefe do poder judicial e um membro do Conselho dos Guardiães assumisse provisoriamente as funções de liderança, na ausência de um sucessor designado. A notícia da morte de Khamenei desencadeou reacções profundamente contrastantes dentro e fora do Irão. Em várias cidades iranianas, sobretudo em Teerão, registaramse manifestações de luto, com pessoas vestidas de negro a concentraremse em praças centrais, chorando e entoando slogans religiosos e políticos. Ao mesmo tempo, noutras zonas urbanas, sobretudo em bairros com histórico de contestação ao regime, ouviramse buzinas, música alta e até fogodeartifício, numa celebração espontânea do fim de um líder associado a décadas de repressão. A diáspora iraniana, espalhada por capitais ocidentais, também reagiu de forma intensa. Em Londres, Frankfurt, Toronto e outras cidades, milhares de iranianos e apoiantes juntaramse em manifestações que misturavam alívio, euforia e um sentimento de fim de era. Vídeos partilhados nas redes sociais mostravam multidões a dançar, a gritar slogans contra o regime e a celebrar o que muitos descreviam como a primeira oportunidade em décadas para imaginar um futuro político diferente para o Irão. Em paralelo, o aparelho de Estado iraniano procurou projectar uma imagem de continuidade e resistência. As forças armadas e os Guardas da Revolução lançaram mísseis e drones contra alvos em Israel e contra bases americanas na região, numa resposta que, embora significativa, parecia calibrada para mostrar capacidade de retaliação sem escalar imediatamente para uma guerra total. Israel e os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram operações militares “pesadas e cirúrgicas”, segundo declarações de responsáveis americanos, insistindo que os ataques continuariam enquanto considerassem que a infraestrutura militar iraniana representava uma ameaça. Nos dias seguintes, até ao presente, o debate internacional centrase em duas questões; a primeira, de quem sucederá a Khamenei e a segunda, de como a sua morte reconfigurará o equilíbrio de forças no Médio Oriente. É de recordar o percurso do líder, desde a sua participação na Revolução de 1979, passando pela presidência durante a guerra IrãoIraque, até às décadas em que consolidou um sistema teocrático fortemente securitário, apoiado numa vasta rede de milícias e aliados regionais. Ao mesmo tempo, voltaram a circular excertos de discursos recentes de Khamenei, incluindo uma intervenção de Fevereiro em que descrevia os Estados Unidos como um império em declínio e insistia na necessidade de o Irão manter “armas dissuasoras” capazes de afundar navios de guerra americanos. Nessa mesma intervenção, terá dito que o seu corpo “valia pouco” e que, mesmo que o matassem, a verdadeira perda só ocorreria se os iranianos abandonassem os princípios da revolução. Essas palavras, reinterpretadas à luz da sua morte, foram usadas tanto por apoiantes, que as leram como um testamento político, como por opositores, que as viram como o último eco de uma era que chegou ao fim sob fogo estrangeiro. No plano interno, o regime procurou controlar a narrativa. A censura intensificouse, o acesso à internet foi restringido em várias regiões e as forças de segurança foram mobilizadas para prevenir grandes concentrações não autorizadas. Ainda assim, vídeos de celebrações e de pequenos protestos continuaram a surgir, sinalizando uma sociedade profundamente dividida entre lealdade ideológica, medo do caos e desejo de mudança. Em simultâneo, começaram a surgir rumores sobre possíveis equilíbrios de poder entre facções conservadoras, Guardas da Revolução e clérigos de alto escalão, todos conscientes de que a escolha do próximo líder definirá o rumo do país por décadas. No exterior, governos e organizações internacionais reagiram com uma mistura de prudência e preocupação. Alguns países sublinharam o risco de uma escalada regional, dado o papel central do Irão em conflitos na Síria, Líbano, Iraque e Iémen. Outros viram na morte de Khamenei uma oportunidade para reabrir canais diplomáticos, na esperança de que uma nova liderança pudesse estar mais aberta a compromissos sobre o programa nuclear e sobre a política regional. Ao mesmo tempo, a possibilidade de um vácuo de poder prolongado, com lutas internas entre elites iranianas, foi identificada como um cenário que poderia aumentar a instabilidade, alimentar fluxos de refugiados e criar espaço para actores extremistas. Quanto ao futuro, é provável que os próximos meses sejam marcados por três dinâmicas principais. Em primeiro lugar, uma disputa silenciosa, mas intensa, dentro do sistema iraniano, em torno da sucessão, em que os Guardas da Revolução procurarão garantir que qualquer novo líder preserve os seus interesses e a sua autonomia, enquanto sectores clericais poderão tentar recuperar algum primado religioso sobre o aparelho militar. Em segundo lugar, a sociedade iraniana, especialmente as gerações mais jovens, continuará a testar os limites do regime, alternando entre momentos de mobilização e períodos de retraimento, consoante a repressão e as oportunidades políticas. Em terceiro lugar, a relação com o exterior será marcada por um equilíbrio delicado entre confrontação e negociação, pois o Irão dificilmente abandonará a sua postura de resistência face aos Estados Unidos e a Israel, mas poderá, por necessidade económica e política, explorar vias de desanuviamento parcial com a Europa, com países vizinhos e com potências como a China e a Rússia. É também plausível que, a curto prazo, se mantenha um nível elevado de tensão militar na região. Milícias aliadas ao Irão, como o Hezbollah no Líbano ou grupos xiitas no Iraque, poderão intensificar ataques de baixa intensidade para mostrar que a “rede de resistência” permanece activa, mesmo sem Khamenei. Israel e os Estados Unidos, por seu lado, continuarão vigilantes e dispostos a responder com força a qualquer acção que considerem uma ameaça directa. No entanto, todos os actores sabem que uma guerra aberta e prolongada teria custos incalculáveis, o que pode funcionar como travão a uma escalada descontrolada. No horizonte mais longo, a morte de Ali Khamenei será provavelmente lembrada como um ponto de inflexão e o fim de uma liderança que moldou a identidade política do Irão pósrevolucionário, e a abertura de um período em que nada está garantido nem a continuidade rígida do sistema actual, nem uma transição rápida para um modelo mais plural. Entre o luto oficial, as celebrações nas ruas e o silêncio tenso dos corredores do poder, o país encontrase, nestes primeiros dias de Março de 2026, suspenso entre o passado que se fechou sob bombas e um futuro ainda por escrever. A evolução da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, bem como o impacto dos ataques iranianos sobre vários países árabes, revela um conflito que se tem alargado rapidamente e que provocou perturbações profundas na segurança regional, na aviação e no comércio internacional. Os Estados Unidos e Israel têm concentrado esforços em destruir a capacidade militar iraniana, atingindo centros de comando, infraestruturas dos Guardas da Revolução e projectos ligados a mísseis e operações navais. O Presidente americano admitiu que a operação poderá prolongarse por semanas, justificandoa com a necessidade de eliminar ameaças, travar o apoio iraniano a grupos armados e impedir avanços no programa nuclear. Israel, por seu lado, intensificou ataques a Teerão e a instalações estratégicas, garantindo que continuará a atingir centros de decisão iranianos. Em resposta, o Irão lançou mísseis e drones contra Israel, bases americanas e vários países árabes, afirmando agir em legítima defesa e prometendo punir qualquer agressão ao seu território. A expansão do conflito tornouse evidente quando ataques iranianos atingiram pelo menos oito países árabes como o Bahrain, Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Jordânia, Iraque e Omã provocando danos em aeroportos e infraestruturas civis, especialmente em Dubai, Abu Dhabi, Bahrain e Kuwait, onde terminais foram danificados e voos cancelados. O encerramento do espaço aéreo em vários destes países gerou milhares de cancelamentos e perturbações no tráfego internacional. Paralelamente, o Irão fechou o Estreito de Ormuz, por onde circula uma parte significativa do petróleo mundial, aumentando o risco de uma subida acentuada dos preços do crude e expondo a vulnerabilidade económica global. Estes ataques revelam a intenção iraniana de elevar o custo regional da ofensiva americana e israelita, atingindo não apenas alvos militares, mas também centros económicos estratégicos do Golfo. A comunidade internacional reagiu com preocupação crescente. A União Europeia, a ONU e diversos governos alertaram para o risco de uma guerra prolongada com consequências imprevisíveis para o Médio Oriente e para a economia global. O SecretárioGeral da ONU apelou a um cessarfogo imediato, sublinhando que a escalada ameaça a estabilidade internacional. Os países árabes, embora críticos da agressividade iraniana, receiam ser arrastados para um conflito que não controlam. Alguns, como o Qatar, condenaram abertamente a escalada, enquanto outros reforçam medidas de segurança e procuram vias diplomáticas para evitar um envolvimento directo. Quanto ao futuro, três cenários principais parecem plausíveis. O mais provável, a curto prazo, é o de uma escalada prolongada, com o Irão a manter ataques para preservar credibilidade e dissuasão, enquanto os Estados Unidos e Israel intensificam operações para degradar a capacidade militar iraniana. Neste cenário, os países árabes vizinhos continuarão vulneráveis a ataques indirectos, mesmo sem participarem activamente na guerra. Um segundo cenário, menos explosivo, aponta para um conflito controlado mas sem resolução, marcado por ciclos de ataques e contraataques, em que o Irão poderia optar por respostas calibradas para evitar destruição total, enquanto os Estados Unidos poderiam reduzir operações após declararem objectivos cumpridos, mantendo ainda assim pressão militar e económica. Um terceiro cenário, menos provável a curto prazo, envolve pressão diplomática suficiente para conduzir a um cessarfogo, algo que poderia ocorrer se o impacto económico global sobretudo no mercado petrolífero se tornar insustentável, ou se potências como a China, a Rússia e países europeus intensificarem esforços de mediação, ou ainda se o Irão enfrentar dificuldades internas que limitem a sua capacidade de manter o conflito. Para os países árabes vizinhos, as consequências são evidentes como a instabilidade interna alimentada pelo receio de novos ataques; impacto económico severo nos sectores da aviação, turismo e energia; pressão crescente para escolherem lados num conflito que prefeririam evitar; e o risco de envolvimento militar involuntário caso novos ataques provoquem baixas significativas ou danos críticos. A região encontrase, assim, num equilíbrio frágil, onde cada novo ataque pode alterar o rumo da guerra e ampliar ainda mais o seu alcance.
Hoje Macau China / ÁsiaMédio Oriente | China diz que está a realizar “mediação activa” O Governo chinês afirmou ontem que está a desenvolver uma “mediação activa” no conflito no Médio Oriente e que continuará a manter contactos com as partes envolvidas para promover o regresso às negociações. O porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros Guo Jiakun afirmou em conferência de imprensa que a China está “profundamente preocupada” com as tensões e pediu a todas as partes que cessem as operações militares para evitar uma maior escalada do conflito. Guo lembrou que o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, manteve contactos recentes com vários homólogos da região para “trocar opiniões em profundidade sobre a situação regional”. O porta-voz acrescentou que o enviado especial do Governo chinês para o Médio Oriente, Zhai Jun, se encontra actualmente na região a realizar visitas como parte dos esforços de mediação de Pequim, e indicou que as autoridades chinesas informarão “oportunamente” sobre a sua agenda, sem oferecer mais detalhes sobre os objectivos ou o itinerário da missão. O ministério dos Negócios Estrangeiros chinês informou apenas que Zhai chegou no domingo à Arábia Saudita, onde se reuniu com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Faisal bin Farhan. Segundo Guo, o tratamento da questão iraniana e de outros assuntos relacionados com o Médio Oriente deve basear-se em princípios como “respeitar a soberania nacional”, “abster-se do abuso da força” e “manter a não ingerência nos assuntos internos”. O porta-voz acrescentou que a China continuará a manter a comunicação com as partes envolvidas e a reforçar os esforços de mediação para “promover um esfriamento da situação”. Segurança energética O responsável acrescentou que a China adoptará as “medidas necessárias” para salvaguardar a sua segurança energética e pediu que sejam garantidos suprimentos de energia “estáveis e fluidos”. Guo Jiakun referiu que a segurança energética é “crucial para a economia mundial” e afirmou que todos os países têm a responsabilidade de garantir a estabilidade do abastecimento. As repercussões do conflito no estreito de Ormuz afectam directamente a China, que recebe por essa via cerca de 45 por cento do petróleo que importa do Irão e de vários outros países. Guo acrescentou que Pequim adoptará medidas para proteger a sua segurança energética, embora não tenha especificado as políticas concretas que o país irá implementar. O porta-voz sublinhou ainda que o estreito de Ormuz e as águas circundantes são “canais importantes para o comércio internacional de bens e energia”, acrescentando que manter a segurança e a estabilidade nessa zona “responde ao interesse comum da comunidade internacional”. A China, principal parceiro comercial de Teerão e o seu maior comprador de petróleo, condenou repetidamente os ataques ao Irão por parte dos Estados Unidos e de Israel por “violarem a soberania” do país persa.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA Geopolítica do Ponto de Ignição “Power is never silent; when diplomacy fails, it speaks in the language of escalation.” Robert D. Kaplan A relação triangular entre os Estados Unidos, Israel e a República Islâmica do Irão constitui, desde o final da década de 1970, um dos eixos estruturantes da política internacional no Médio Oriente. A sua evolução ao longo de quase meio século revela um padrão de antagonismo persistente, moldado por factores ideológicos, estratégicos, securitários e civilizacionais que se reforçam mutuamente. A partir de 2020, e com maior intensidade após 2022, este antagonismo adquiriu uma dimensão sistémica, na medida em que passou a intersectar rivalidades globais mais amplas nomeadamente a competição estratégica entre os Estados Unidos, a China e a Rússia e a influenciar directamente a estabilidade dos mercados energéticos, a arquitectura de segurança regional e a própria credibilidade das normas internacionais relativas à proliferação nuclear. A génese deste conflito remonta à Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado central de Washington, e instaurou uma república teocrática baseada numa ideologia revolucionária xiita. A crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerão, que se prolongou por 444 dias, cristalizou uma percepção de hostilidade irreconciliável entre os dois Estados. A crise dos reféns deixou uma marca indelével na percepção mútua, consolidando a imagem dos Estados Unidos como o “Grande Satã” na doutrina revolucionária iraniana. Esta ruptura não foi apenas diplomática, pois representou uma reconfiguração profunda da ordem regional, ao substituir um pilar próocidental por um regime que se via como vanguarda de uma revolução antiimperialista e antisionista. Para Israel, a ascensão da República Islâmica constituiu uma ameaça existencial. Até então, o Irão do Xá funcionava como um contrapeso estratégico ao nacionalismo árabe e às ambições regionais do Iraque. A partir de 1979, Israel passou a enfrentar um Estado que não apenas rejeitava a sua legitimidade, mas que se comprometia ideologicamente com a sua eliminação. O surgimento de uma República Islâmica abertamente antisionista representou uma ameaça existencial, alterando de forma permanente os cálculos de segurança israelitas. Esta percepção tornouse ainda mais aguda com o apoio iraniano a actores não estatais como o Hezbollah no Líbano e, mais tarde, a grupos palestinianos como o Hamas e a Jihad Islâmica. A política externa iraniana, especialmente sob lideranças de linha dura, assenta numa visão ideológica que considera ilegítima a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Esta visão sustenta a construção do chamado “Eixo da Resistência”, uma rede de actores estatais e não estatais que inclui o Hezbollah, milícias xiitas no Iraque, grupos armados na Síria, os Houthis no Iémen e facções palestinianas. O objectivo desta rede é projectar influência, criar profundidade estratégica e aumentar os custos de qualquer acção militar contra o Irão. A lógica subjacente é clara pois ao dispersar o campo de batalha por múltiplos teatros, Teerão procura compensar a sua inferioridade convencional face aos Estados Unidos e a Israel. Do lado israelita, a estratégia de segurança nacional assenta em três pilares com a manutenção de uma vantagem militar qualitativa, a prevenção de que qualquer rival regional adquira armas nucleares e a capacidade de realizar operações preventivas para neutralizar ameaças emergentes. Esta doutrina, desenvolvida desde a década de 1960, foi reforçada após a guerra de 1973 e consolidada com o ataque preventivo ao reactor nuclear iraquiano em Osirak, em 1981. A partir dos anos 2000, com o avanço do programa nuclear iraniano, Israel passou a considerar o Irão como a principal ameaça estratégica, e a possibilidade de Teerão atingir capacidade nuclear latente tornouse a derradeira linha vermelha. Os Estados Unidos, por sua vez, desempenham um papel ambivalente. Enquanto potência global, Washington procura garantir a estabilidade das rotas energéticas, conter a proliferação nuclear e preservar a sua credibilidade como garante de segurança dos seus aliados regionais. Contudo, desde a invasão do Iraque em 2003, a política americana no Médio Oriente tem sido marcada por tensões internas entre tendências intervencionistas e isolacionistas. A retirada do acordo nuclear (JCPOA) em 2018, seguida de anos de sanções económicas e confrontos indirectos, contribuiu para um ambiente de desconfiança profunda entre Washington e Teerão. Entre 2020 e 2025, a região assistiu a uma intensificação da chamada “guerra na zona cinzenta”, caracterizada por ataques cibernéticos, sabotagem industrial, operações clandestinas e confrontos através de proxies. Esta fase pode ser considerada como um período em que o conflito permanece sobretudo na sombra, com ambos os lados a procurarem infligir custos sem ultrapassar o limiar de um confronto directo. Esta dinâmica reflecte uma lógica de dissuasão mútua, pois cada actor procura evitar uma guerra aberta, mas também evitar parecer fraco perante os seus adversários e as suas audiências internas. A partir de 2024, vários factores contribuíram para aumentar o risco de escalada. Em primeiro lugar, o programa nuclear iraniano avançou significativamente, aproximandose de níveis de enriquecimento e de capacidade técnica que, segundo avaliações ocidentais, poderiam permitir um breakout rápido. Em segundo lugar, a crescente assertividade do Hezbollah e das milícias iraquianas aumentou a pressão sobre Israel e sobre as forças americanas na região. A partir de meados de 2025, sinais de deterioração acelerada tornaramse evidentes. Israel intensificou operações clandestinas contra cientistas e instalações iranianas; o Irão respondeu com ataques cibernéticos e com o reforço das capacidades militares do Hezbollah. No Golfo, incidentes envolvendo navios comerciais e drones aumentaram a tensão entre Teerão e Washington. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, apesar de esforços de aproximação diplomática ao Irão, continuaram profundamente preocupados com o expansionismo iraniano e com a possibilidade de uma corrida armamentista regional. Neste contexto, o final de Fevereiro de 2026 surgiu como um ponto de inflexão. A combinação de avanços no programa nuclear iraniano, ataques de proxies contra interesses americanos e receios israelitas de que a janela para uma acção preventiva estivesse a fecharse criou um ambiente em que a dissuasão começou a falhar. A teoria da dissuasão ensina que esta falha ocorre quando a ameaça de punição deixa de superar o benefício percebido da acção agressiva. No caso iraniano, a percepção de que a obtenção de capacidade nuclear latente poderia garantir a sobrevivência do regime tornouse um incentivo poderoso para resistir à pressão ocidental. (Continua)
Hoje Macau China / ÁsiaTeerão | China acusa Estados Unidos e Israel de “incitarem mudança de regime” A China acusou ontem os Estados Unidos e Israel de “incitarem uma mudança de regime” no Irão, após os ataques lançados em 28 de Fevereiro, classificando como “inaceitável” o assassínio do líder da república islâmica, Ali Khamenei. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning reiterou em conferência de imprensa que a ofensiva norte-americana e israelita “viola o direito internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais”. As declarações surgem após conversações telefónicas mantidas na véspera pelo chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, com os seus homólogos do Irão, Omã e França. Mao estruturou a posição chinesa em três eixos: cessar imediato das operações militares, regresso ao diálogo e oposição a acções unilaterais. A responsável sublinhou que Pequim apoia o Irão na defesa da sua soberania, tendo simultaneamente em conta as “legítimas preocupações” de segurança dos países do Golfo. Sobre a questão nuclear, a porta-voz afirmou que a China respeita o “direito legítimo do Irão ao uso pacífico da energia nuclear” e defendeu que o tema deve regressar “à via da resolução política e diplomática”. A China, principal parceiro comercial do Irão e maior importador do seu petróleo, já tinha condenado no domingo a morte de Ali Khamenei durante a ofensiva conduzida por Israel e pelos Estados Unidos. Desde sábado, Israel bombardeia, em coordenação com Washington, diversas posições no Irão, alegando procurar destruir arsenais e capacidades de produção de mísseis balísticos e pôr fim ao regime dos aiatolas. Irão | Pequim apela à preservação da segurança no estreito de Ormuz A China apelou ontem a todas as partes envolvidas na guerra no Médio Oriente para garantirem a segurança da navegação no estreito de Ormuz, advertindo para o risco de impacto na economia mundial. “A China insta todas as partes a cessarem imediatamente as operações militares, a evitarem uma nova escalada das tensões, a manterem a segurança das rotas de navegação no estreito de Ormuz e a impedirem que a situação tenha um impacto mais amplo na economia global”, afirmou a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros Mao Ning, numa conferência de imprensa regular. O estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, é uma das principais artérias energéticas do mundo, por onde transita cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente por via marítima. No início de 2025, a China era o principal destino do petróleo que atravessa aquela via estratégica. Nos últimos anos, o país foi também o maior importador de crude iraniano, num contexto de estreitamento das relações económicas entre Pequim e Teerão. As declarações surgem num momento de forte instabilidade regional, após os ataques lançados em 28 de Fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, que respondeu com mísseis e veículos aéreo não tripulados (‘drones’) contra bases norte-americanas e alvos em países do Golfo. O aumento do risco na região levou várias companhias marítimas a suspender ou desviar rotas no estreito de Ormuz, alimentando receios de perturbações no abastecimento energético e de nova subida dos preços do crude. Pequim tem reiterado a necessidade de cessar-fogo imediato e de regresso ao diálogo, ao mesmo tempo que sublinha a importância de preservar a estabilidade das cadeias de fornecimento globais.
Hoje Macau China / ÁsiaOrganização de Cooperação de Xangai considera “inaceitável” uso da força contra Teerão A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) classificou ontem como “inaceitável” o recurso à força e apelou à resolução do conflito com o Irão através do diálogo e do respeito pelos interesses legítimos de todas as partes. Num comunicado publicado no seu portal oficial, a OCX sublinhou “a necessidade de garantir a soberania nacional, a segurança e a integridade territorial do Irão” e manifestou apoio a que todas as partes “actuem com moderação e ponham termo imediato a acções que possam agravar a situação”. “Os Estados-membros da OCX instam firmemente as Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança a adoptarem medidas imediatas para enfrentar acções que minam a paz e a segurança internacionais”, refere o texto. Os países da organização expressaram ainda “as mais sinceras condolências às famílias das vítimas dos ataques” e estenderam “solidariedade e apoio ao Governo e ao povo iranianos”. No fim de semana, o grupo já tinha apresentado condolências às autoridades iranianas pela morte do líder supremo da república islâmica, Ali Khamenei, num ataque norte-americano e israelita. Meio mundo A Organização de Cooperação de Xangai, que não dispõe de cláusulas de defesa mútua como a NATO, integra China, Rússia, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, reunindo cerca de 40 por cento da população mundial, além de países observadores e parceiros de diálogo, como Egipto, Turquia, Myanmar e Azerbaijão. Segundo o Crescente Vermelho iraniano, mais de 555 pessoas morreram na república islâmica na sequência dos ataques desencadeados desde sábado pelas forças israelitas e norte-americanas, incluindo 180 num bombardeamento contra uma escola na cidade meridional de Minab.
Hoje Macau China / ÁsiaGolfo | MNE chinês espera que países “reforcem a sua independência” Wang Yi condenou os ataques no Médio Oriente numa conversa com o homólogo de Omã em que pediu aos países da região para rejeitarem ingerências do exterior. O responsável chinês reiterou a disponibilidade de Pequim para desempenhar um papel construtivo na restauração da paz O chefe da diplomacia chinesa apelou ontem aos países do Golfo para reforçarem a sua independência e rejeitarem a ingerência externa, numa conversa com o homólogo de Omã após ataques iranianos contra vários Estados da região. Segundo um comunicado divulgado pela diplomacia chinesa, Wang Yi afirmou que “a China aprecia a mediação activa de Omã para promover as negociações entre o Irão e os Estados Unidos, bem como os seus grandes esforços para salvaguardar a paz regional”. O chefe da diplomacia chinesa sustentou que “os Estados Unidos e Israel provocaram deliberadamente uma guerra contra o Irão, o que viola claramente os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas”. Wang declarou que “a tarefa urgente agora é pôr termo imediato às acções militares para evitar uma maior propagação do conflito e impedir um agravamento irreversível”, acrescentando que a China “está igualmente disposta a desempenhar um papel construtivo”. “A China espera que os países do Golfo desenvolvam boas relações de vizinhança e reforcem a solidariedade e coordenação, para que possam controlar plenamente o seu próprio futuro”, afirmou. Sayyid Badr Albusaidi declarou que “as negociações entre o Irão e os Estados Unidos tinham alcançado progressos sem precedentes”, mas que, “infelizmente”, Washington e Telavive “ignoraram os resultados das conversações e iniciaram uma guerra”, segundo o comunicado. Nas últimas semanas, o sultanato de Omã tinha mediado contactos entre os Estados Unidos e o Irão sobre o programa nuclear iraniano. Resposta iraniana O Irão lançou ataques com mísseis e veículos aéreos não tripulados (‘drones’) contra bases norte-americanas e alvos em países do Golfo como o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar e o Bahrein, em resposta à ofensiva iniciada pelos Estados Unidos e por Israel contra o seu território. Teerão sustenta que essas acções fazem parte da sua retaliação contra o que considera uma agressão directa e contra a presença militar norte-americana na região. Wang falou também ontem por telefone com o homólogo iraniano, Abbas Araqchi, a quem assegurou o apoio de Pequim na defesa da soberania, segurança e integridade territorial do Irão, na primeira demonstração firme de respaldo desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel. A China, principal parceiro comercial do Irão e maior importador do seu petróleo, condenou no domingo a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, durante a ofensiva conduzida por Israel e pelos Estados Unidos. Desde sábado, Israel bombardeia, em coordenação com Washington, várias posições no Irão, alegando procurar destruir arsenais e capacidades de produção de mísseis balísticos e pôr fim ao regime dos aiatolas.
João Luz Manchete PolíticaDST | Alerta para evitar viagens para Irão e Israel O Governo de Macau ajustou o nível de alerta para viagens para o Irão e Israel e apela aos residentes para não se deslocarem para os dois países. Aeroporto do Dubai encerrou, depois de ter sofrido danos com ataques iranianos, enquanto foram suspensos voos de e para o aeroporto de Doha A Direcção dos Serviços de Turismo (DST) emitiu um comunicado no sábado à noite a ajustar “o nível de alerta de viagens para o Irão alertando os residentes de Macau para não se deslocarem ao Irão e Israel neste momento”, na sequência dos ataques dos Estados Unidos da América e Israel ao Irão e da resposta de Teerão. Os residentes que se encontram no Irão foram aconselhados a “reforçar as medidas de segurança e evacuarem com a maior brevidade possível”. “Tendo em conta a situação de segurança do Irão, o nível de Alerta de Viagens do Irão foi ajustado para Nível 3 no Sistema de Alerta de Viagens da Região Administrativa Especial de Macau”, foi indicado. O nível 3 representa uma ameaça extrema à segurança pessoal. Nesse nível de alerta os “residentes de Macau que planeiem viajar ou que se encontrem no destino, devem estar cientes da gravidade da situação e da assistência oficial que pode ser prestada. É aconselhado que se evite viajar e, em determinadas situações serão aconselhados a abandonar o destino”. As últimas declarações da DST indicavam que a Linha Aberta para o Turismo não tinha recebido pedidos de informação ou assistência relacionados com o alerta para o Irão e Israel. Pontos de ligação No sábado à noite, a empresa que gere os aeroportos dos Emiratos Árabes Unidos, nomeadamente o Aeroporto Internacional do Dubai e o Aeroporto Internacional de Al Maktoum suspenderam toda a actividade devido ao conflito na região. Um dos terminais do Aeroporto do Dubai, o principal hub de aviação que liga voos entre a Ásia e a Europa, sofreu danos na sequência de um ataque das forças iranianas e foi evacuado. Nas redes sociais e imprensa internacional circularam vídeos da evacuação que mostraram corredores do aeroporto cheios de fumo. O cancelamento de voos estendeu-se a outros aeroportos do Médio Oriente, como o Aeroporto Internacional de Doha, outro dos pontos de conexão de voos entre a Ásia e a Europa. A directora da DST, Helena de Senna Fernandes, referiu ontem que as autoridades estão a acompanhar o desenvolvimento da situação na região para actualizar os alertas de viagem. Também a aposta nos mercados turísticos do Médio Oriente pode sofrer condicionalismos devido a motivos de segurança, incluindo a participação da DST na Arabian Travel Market, que se realiza no Dubai em Maio. Em declarações ao canal chinês da Rádio Macau, Andy Wu revelou que uma excursão com cerca de 80 turistas vindos de Portugal deveria ter chegado a Macau ontem. O presidente da Associação de Indústria Turística de Macau indicou que a viagem acabou por ser cancelada por incluir uma escala no Médio Oriente. O dirigente afirmou ainda esperar que os cancelamentos de excursões vindas da Europa continuem ao longo desta semana.
Hoje Macau Grande Plano MancheteIrão | Guerra rebenta no Médio Oriente com ataques que mataram Khamenei Os Estados Unidos e Israel lançaram uma série de ataques contra o Irão. Uma das vítimas mortais foi o aiatola Ali Khamenei, assim como vários líderes militares iranianos. O herdeiro do Xá, Reza Pahlavi, acredita num futuro risonho, numa altura em que os contra-ataques de Teerão se alastram pelo Médio Oriente Israel e os Estados Unidos das América (EUA) uniram-se numa operação conjunta para derrubar o regime iraniano, numa altura em que, no país, já aconteciam algumas manifestações contra as autoridades. No sábado foi lançada uma série de bombardeamentos contra o Irão, com o objectivo declarado de forçar uma mudança de regime. O país respondeu com ataques sobre Israel e bases militares norte-americanas, tendo também sido confirmada a morte do líder religioso supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, que estava no poder há 36 anos. Segundo a Lusa, o anúncio foi feito pela televisão estatal iraniana às 05h, hora local, com um repórter a chorar devido ao sucedido. Khameinei tinha 86 anos e, para Trump, a sua morte oferece agora à população iraniana uma “maior chance” de “recuperar” o país. O regime iraniano declarou 40 dias de luto pela morte do líder religioso. Além de Khamenei, também foi morto o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, Abdolrahim Mousavi, juntamente com outros generais de alta patente durante os ataques norte-americanos e israelitas contra o país, informou ontem a televisão estatal iraniana. Entretanto, a China manifestou “grande preocupação” pela situação no Médio Oriente e pediu o respeito pela soberania e integridade territorial do Irão. “A soberania, a segurança e a integridade territorial do Irão devem ser respeitadas”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês num comunicado citado pela agência de notícias norte-americana The Associated Press (AP). Pequim pediu “o cessar imediato das acções militares e que não haja uma maior escalada de uma situação tensa”. Apelou também à “retoma do diálogo e da negociação” e dos esforços para “manter a paz e a estabilidade no Médio Oriente”, segundo o comunicado também citado pela agência de notícias espanhola Europa Press (EP). A China recomendou a saída dos seus cidadãos do Irão, aconselhando os seus cidadãos a não viajar para a região, devido ao “aumento acentuado dos riscos de segurança”, dado que o país enfrenta repetidas ameaças de ataques dos EUA. “Os cidadãos chineses que se encontram actualmente no Irão devem reforçar as suas precauções de segurança e sair do país o mais rapidamente possível”, afirmou o Departamento de Assuntos Consulares do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, em comunicado. Uma questão nuclear O Presidente norte-americano, Donald Trump, tem ameaçado atacar o Irão, devido à repressão das autoridades aos protestos contra o regime e alegando que Teerão está a desenvolver armas nucleares, apesar de ter atacado em Junho locais em solo iraniano precisamente com o propósito de travar o alegado programa nuclear. No final da campanha, Trump afirmou que o programa nuclear iraniano teria sido completamente obliterado. Na terça-feira – e apesar das conversações em Genebra sobre um acordo relativo ao programa nuclear do Irão -, Trump voltou a dizer, durante o discurso sobre o estado da Nação no Congresso, que não vai permitir que o Irão tenha armamento nuclear. O Irão assinou, em 2015, um acordo para limitar o seu desenvolvimento nuclear – em troca do alívio das sanções económicas ao país – com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido e também com a Alemanha e a União Europeia. No entanto, o acordo perdeu efeito depois de o próprio Trump ter retirado unilateralmente os Estados Unidos do tratado, em 2018, durante o seu primeiro mandato (2017-2021). As recomendações da China juntam-se às de vários outros países que elevaram os seus alertas de segurança, como a Suécia, a Sérvia, a Alemanha, a Índia, a Coreia do Sul, o Brasil, a Austrália, o Reino Unido ou o Canadá. Tensão no Médio Oriente A morte de Ali Khamenei coloca em dúvida o futuro da República Islâmica e aumenta o risco de instabilidade regional. “Khamenei, uma das pessoas mais malvadas da história, está morto”, escreveu Trump numa publicação nas redes sociais, alertando para a continuação de “bombardeamentos pesados e precisos” ao longo da semana e mesmo depois desse período. O ataque deste sábado abriu um novo capítulo na intervenção dos EUA no Irão, trazendo consigo o potencial para violência retaliatória e uma guerra mais ampla. A verdade é que já se verificam focos de tensão graças à resposta iraniana, com ataques a cerca de dez países, incluindo os Emirados Árabes Unidos. No Dubai ocorreu uma forte explosão numa zona de hotéis de luxo, provocando quatro feridos, enquanto que o Aeroporto Internacional do Dubai também foi alvo de um ataque, levando ao cancelamento de todos os voos. Outro foco de tensão ocorreu em Karachi, Paquistão, resultando na morte de seis pessoas e 20 feridos no âmbito de um protesto junto à zona fortificada do Consulado dos Estados Unidos. De acordo com o porta-voz da polícia local, Rehan Ali, à CNN, “centenas de pessoas apareceram subitamente nas imediações” da missão diplomática, levando a uma rápida mobilização das forças de segurança. Os gritos captados nas gravações sugerem que o protesto terá sido motivado pelos ataques envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o vizinho Irão. Um país sem líder A morte de Khamenei no segundo ataque da Administração Trump ao Irão em oito meses cria um vácuo de liderança, dada a ausência de um sucessor do aiatola conhecido, e também porque o líder supremo de 86 anos teve a palavra final em todas as principais políticas durante décadas no poder. Khamenei liderava o “establishment” clerical do Irão e a sua Guarda Revolucionária paramilitar, os dois principais centros de poder na teocracia governante. Ali Larijani, secretário do Conselho de Segurança Nacional do Irão, disse no sábado que Israel e os Estados Unidos “se arrependerão das suas acções”. “Os bravos soldados e a grande nação do Irão darão uma lição inesquecível aos opressores internacionais infernais”, publicou Larijani na rede social X. A operação conjunta dos Estados Unidos e de Israel, que segundo autoridades foi planeada durante meses, ocorreu este sábado, durante o mês sagrado muçulmano do Ramadão e no início da semana de trabalho iraniana, e seguiu-se a negociações e advertências de Trump, que no ano passado alardeou o sucesso do seu governo na incapacitação do programa nuclear do país. Cerca de 12 horas após o início dos ataques, as forças armadas dos EUA informaram que não houve vítimas norte-americanas e que os danos nas bases dos EUA foram mínimos, apesar das “centenas de ataques com mísseis e drones iranianos”. Segundo as forças norte-americanas, os alvos no Irão incluíram instalações de comando da Guarda Revolucionária, sistemas de defesa aérea, locais de lançamento de mísseis e drones e aeródromos militares. Sobre a morte de Khamenei, Trump declarou que o aiatola “não conseguiu escapar aos sistemas de inteligência e rastreamento altamente sofisticados”. “Trabalhando em estreita colaboração com Israel, não havia nada que ele, ou os outros líderes que foram mortos com ele, pudessem fazer”, afirmou o Presidente norte-americano. “Esta é a maior oportunidade para o povo iraniano recuperar o seu país”, disse. Um diplomata iraniano afirmou no Conselho de Segurança das Nações Unidas que centenas de civis foram mortos e feridos nos ataques. O Irão retaliou disparando mísseis e drones contra Israel e bases militares dos EUA na região, e os combates continuam durante a noite. Os democratas norte-americanos criticaram o facto de Trump ter tomado medidas sem autorização do Congresso, mas a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a Administração informou antecipadamente vários líderes republicanos e democratas no Congresso. O que diz o filho do Xá Numa altura em que a mudança do regime parece estar iminente no Irão, mas sem se perceber bem como irá acontecer, uma das vozes que tem defendido a acção dos EUA e Israel é Reza Pahlavi, filho do antigo Xá. Há décadas radicado nos EUA, desde a revolução iraniana de 1979, Pahlavi vem agora defender que é altura de ir para as ruas. Segundo a Lusa, o herdeiro afirmou, num editorial publicado no jornal The Washington Post, que pretende assumir um papel no processo de transição no Irão. “Muitos iranianos, muitas vezes apesar das balas, pediram-me para liderar esta transição. Estou impressionado com a sua coragem e respondi ao seu apelo”, escreveu. “O nosso caminho a seguir será transparente: uma nova Constituição redigida e ratificada por referendo, seguida de eleições livres sob supervisão internacional. Quando os iranianos votarem, o governo de transição será dissolvido”. Nos últimos 47 anos Pahlavi tem sido uma voz crítica do regime iraniano, estando agora do lado de Trump e Israel. Em termos internos e regionais, Pahlavi é amplamente considerado como um fantoche de Washington e Telavive. No artigo, elogia toda a trajectória que Trump tem feito face ao Irão, dizendo que o “renascimento” do país “marcará o início de uma era de paz e prosperidade”. Pahlavi destacou ainda que “o Irão não é o Iraque”. “Não repetiremos os erros que se seguiram a esse conflito [do Iraque]. Não haverá dissolução das instituições, nem vazio de poder, nem caos”, adiantou, lembrando que desde o ano passado que defende o chamado “Projecto de Prosperidade do Irão”. Trata-se de um plano político e económico nacional para instaurar um Governo provisório de transição após a queda dos aiatolas. O activista iraniano garante que “este roteiro detalhado para a recuperação nacional” inclui um plano para “os primeiros 100 dias após o colapso do regime e a reconstrução e estabilização a longo prazo” do país e “conta com o apoio de numerosos líderes empresariais de todo o mundo”. “Um Irão democrático transformaria o Médio Oriente, convertendo uma das fontes de agitação mais persistentes do mundo num pilar da estabilidade regional”, afirma ainda Pahlavi, que elogia os acordos “históricos” de Abraão, impulsionados por Trump no seu primeiro mandato.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | Líder pede demonstração de força nas ruas contra EUA O líder supremo do Irão apelou ontem aos iranianos para que usem o 47.º aniversário da Revolução Islâmica na quarta-feira para uma demonstração de força contra o inimigo, num contexto de tensões com os Estados Unidos. Desde 1979, “as potências estrangeiras procuraram sempre restabelecer a situação anterior”, declarou Ali Khamenei, numa referência à influência externa durante a dinastia Pahlavi (1925-1979), aliada dos norte-americanos, que foi afastada do poder pela revolução. Liderados pelo então ‘ayatollah’ Ruhollah Khomeini, fundamentalistas xiitas instauraram a República Islâmica na sequência da revolução de 1979, que depôs Mohammad Reza Pahlavi, o último xá do Irão, formalmente denominado Pérsia até 1935. “A potência de uma nação não reside tanto nos seus mísseis e aviões, mas na vontade e na resiliência do seu povo”, disse Khamenei, citado pela agência de notícias France-Presse (AFP). “Mostrem-no novamente e frustrem os planos do inimigo”, afirmou o líder supremo, ao apelar à participação dos iranianos no aniversário da revolução. “A presença do povo na marcha e a expressão de lealdade à República Islâmica farão com que o inimigo recue na ambição contra o Irão e os interesses nacionais”, disse Khamenei, também citado pela agência espanhola EFE. A máxima autoridade política e religiosa do país assegurou que a demonstração de “poder nacional” através da unidade levará ao “desânimo do inimigo”. Khamenei avisou que, enquanto o inimigo não estiver desalentado, “não deixará de causar incómodos” aos iranianos. Referiu ainda que o povo iraniano alcançou em 11 de Fevereiro de 1979 uma “grande vitória ao libertar o país da intervenção estrangeira”. Khamenei não participou no domingo no encontro anual com os comandantes da Força Aérea, o primeiro corpo militar a aderir à revolução de 1979. Sangue nas ruas O discurso surge num dos momentos de maior fragilidade da República Islâmica, após a repressão violenta de protestos contra o regime e perante a ameaça de uma intervenção militar norte-americana caso não se alcance um acordo nuclear. As manifestações, iniciadas em 28 de Dezembro devido à desvalorização da moeda em Teerão, estenderam-se a todo o país e foram esmagadas em 08 e 09 de Janeiro. O Governo iraniano admitiu a morte de 3.117 pessoas, atribuindo a violência aos Estados Unidos e a Israel. A organização não-governamental HRANA, sediada em território norte-americano, contabilizou 6.961 mortos, estando ainda a verificar mais de 11 mil possíveis óbitos e 51 mil detenções. A relatora especial da ONU para o Irão, Mai Sato, disse que relatórios médicos apontam para a possibilidade de terem ocorrido até 20 mil mortes, embora as Nações Unidas sublinhem a dificuldade de corroborar os dados. Após a repressão, as autoridades lançaram uma vaga de detenções de figuras políticas moderadas e ativistas. Simultaneamente, o Irão e os Estados Unidos retomaram na semana passada as negociações para um acordo nuclear, no primeiro encontro após a guerra de 12 dias entre Teerão e Telavive. Os Estados Unidos participaram no conflito com o bombardeamento de instalações nucleares iranianas.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Irão na Tempestade Perfeita “History moves in waves, but regimes fall in moments.” Anne Applebaum A República Islâmica do Irão encontra-se, desde o início da década de 2020, no centro de uma confluência de factores internos e externos que configuram um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. A acumulação de tensões políticas, económicas, sociais e geoestratégicas produziu uma verdadeira “tempestade perfeita”, na qual dinâmicas estruturais de longa duração se articulam com choques recentes, expondo fragilidades profundas do regime teocrático e revelando novas formas de contestação e de reconfiguração regional. O sistema político iraniano assenta num modelo híbrido, onde instituições republicanas coexistem com estruturas teocráticas dotadas de poder de veto. O Líder Supremo, figura central do regime, detém autoridade superior a qualquer órgão eleito, controlando as Forças Armadas, sistema judicial, serviços de segurança e os principais meios de comunicação. O Conselho dos Guardiães, responsável pela filtragem de candidaturas, impede a emergência de competição política genuína, assegurando a continuidade ideológica do regime. Este arranjo institucional, concebido para preservar os princípios da revolução islâmica, evoluiu para uma autocracia consolidada, sustentada por uma elite clerical estreitamente articulada com a Guarda Revolucionária (IRGC). Inicialmente criada para proteger a revolução, a IRGC transformou-se num actor multifacetado com influência transversal. Para além do seu papel militar, controla sectores estratégicos como energia, construção civil, telecomunicações e redes financeiras paralelas, constituindo um complexo militareconómico que limita reformas e reforça a interdependência entre poder religioso e poder coercivo. Esta fusão aproxima o Irão de modelos de “autoritarismo militarizado”, embora com especificidades derivadas da sua natureza teocrática. A morte de Mahsa Amini, em 2022, desencadeou a mobilização social mais significativa desde 1979. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” ultrapassou rapidamente a questão do véu obrigatório, transformando-se numa contestação estrutural ao regime. A amplitude sociológica dos protestos envolvendo mulheres, jovens urbanos, estudantes, trabalhadores e minorias étnicas evidenciou a profundidade do descontentamento acumulado. A resposta estatal, marcada por repressão sistemática, detenções em massa e relatos de tortura e julgamentos sumários, não eliminou a contestação; apenas a deslocou para formas mais difusas, digitais e subterrâneas. Entre 2025 e o início de 2026, o país viveu a fase mais violenta desde 1979, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detenções. Organizações de direitos humanos estimam mais de 3300 mortos e 24000 detidos, números possivelmente superiores devido ao apagão da internet. O próprio regime admitiu “vários milhares” de mortos algo sem precedentes. A classificação de manifestantes como mohareb (“guerra contra Deus”), crime punível com pena de morte, reforçou a percepção de que o Estado opera num regime de “emergência permanente”. A presença reforçada da IRGC e das milícias Basij transformou várias cidades em espaços de controlo militar de facto. O regime não se encontra à beira de colapso imediato, mas entrou numa fase de fragilidade estrutural acelerada. A economia deteriorase mais rapidamente do que a capacidade repressiva consegue compensar, e a legitimidade interna atingiu o ponto mais baixo em décadas. A revolta de Janeiro de 2026 é frequentemente descrita como a mais abrangente e socialmente inclusiva desde 1979, marcando uma ruptura irreversível na relação entre sociedade e Estado. As periferias étnicas como curda, balúchi, árabe e azeri assumem um papel central na contestação. A repressão militarizada reflecte o receio do regime de que reivindicações identitárias evoluam para movimentos separatistas, fenómeno observado noutros Estados multiétnicos sob regimes autoritários. No plano externo, o Irão reforçou a sua política regional assertiva como mecanismo de sobrevivência estratégica. Através de alianças com grupos armados no Líbano, Iraque, Palestina e Iémen, Teerão procura projectar poder, criar zonas de influência e dissuadir adversários. Esta estratégia híbrida simultaneamente ideológica e pragmática permite ao regime compensar o isolamento diplomático e manter relevância geopolítica, mas intensifica tensões com os Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. A retórica entre Washington e Teerão atingiu níveis particularmente elevados após 2025, com declarações americanas classificando um eventual ataque ao Líder Supremo como “guerra total”. Este ambiente contribui para uma volatilidade regional persistente. O programa nuclear iraniano permanece um dos elementos mais sensíveis da política internacional. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA, em 2018, desencadeou uma aceleração do enriquecimento de urânio, aproximando o país de níveis compatíveis com capacidade militar. A opacidade das actividades nucleares alimenta suspeitas e aumenta o risco de confrontos directos ou indirectos. Uma eventual capacidade nuclear militar teria implicações profundas para o equilíbrio de poder no Médio Oriente. A economia iraniana enfrenta uma crise estrutural marcada por sanções internacionais, má gestão interna e corrupção sistémica. A desvalorização da moeda, a inflação persistente e o elevado desemprego juvenil alimentam o descontentamento social. A dependência do petróleo limita a diversificação económica, enquanto o controlo da IRGC sobre sectores lucrativos bloqueia a concorrência e a inovação. O resultado é um ciclo de instabilidade que se autoreforça. Apesar da repressão, o regime recuperou algum controlo operacional no início de 2026, com a reabertura parcial de escolas e universidades e o reforço da vigilância digital. Contudo, esta estabilidade é frágil e assenta em mecanismos coercivos cada vez mais sofisticados. Até 2030, o autoritarismo iraniano tende a evoluir para um modelo híbrido que combina repressão física com controlo algorítmico avançado como reconhecimento facial, monitorização preditiva de redes sociais e restrições personalizadas de acesso à internet. Este “autoritarismo digital” reduz custos de repressão e aumenta a eficiência do controlo social. Paralelamente, a sociedade iraniana continuará a transformar-se. A juventude, conectada ao mundo digital e exposta a valores globais, tende a radicalizar a recusa da legitimidade do regime. A diáspora, em expansão, poderá consolidar-se como pólo de oposição transnacional. A resistência cultural como cinema, literatura, moda, redes feministas clandestinas deverá intensificar-se, aprofundando o fosso entre sociedade e Estado. Até 2030, três cenários principais podem ser considerados sendo o primeiro de autoritarismo tecnológico consolidado como o mais provável, com manutenção do poder através de vigilância digital, controlo económico e alianças externas. O segundo com transição gradual desencadeada por crise económica extrema, disputa sucessória ou pressão internacional coordenada e a terceira de ruptura abrupta provocada por colapso económico, cisões internas na IRGC ou protestos massivos incontroláveis. Assim, o Irão encontra-se num ponto de inflexão histórico. A estabilização aparente do início de 2026 não resolve as contradições profundas entre sociedade e regime, nem elimina os riscos geopolíticos que envolvem o país. Até 2030, o Irão poderá consolidar um autoritarismo digital sofisticado, afirmar-se como pivô geopolítico euroasiático ou entrar num processo de transição. Independentemente do cenário, continuará a desempenhar um papel central no equilíbrio político e securitário do Médio Oriente.
Hoje Macau EntrevistaEmbaixador do Irão em Lisboa condenou “institucionalização do uso indevido da força” O embaixador do Irão em Lisboa, Majid Tafreshi, condenou “institucionalização de uma nova política”, concretizada com o instrumento do “uso indevido da força”, aludindo aos Estados Unidos e a Israel. Numa entrevista à agência Lusa, Tafreshi advertiu que este processo irá “alastrar-se” se os países, sobretudo os ocidentais, “não tomarem medidas sérias” contra os Estados Unidos e Israel, “que têm incitado à agitação pública”. “Não há garantias de que tais práticas não venham a repetir-se, sobretudo quando já se ouvem discussões inquietantes, como as relativas à posse da Gronelândia”, destacou Tafreshi, lembrando a actuação norte-americana na Venezuela, e as insinuações contra a Colômbia e Cuba. A entrevista decorreu antes de o diplomata ser chamado pelo Governo português por causa da repressão violenta de manifestações contra o Governo iraniano, anúncio feito ontem pelo ministério dos Negócios Estrangeiros. O diplomata iraniano lembrou ter já solicitado aos “colegas académicos” e diplomatas a criação em Portugal, de um novo fórum intitulado “Diálogo entre Inimigos”, na procura de uma “paz universal e de um mundo livre de guerra e de tensão”, bem como a criação de novos mecanismos – como uma União da Ásia Oriental – “poderia constituir uma iniciativa com significado”. “Acredito que a política e os políticos deveriam seguir mais de perto a vontade dos seus próprios povos, que, na realidade, não parecem ter grandes conflitos entre si – como se observa claramente no turismo, nos estádios de futebol, nos concertos e em centenas de outras interacções humanas”, argumentou o diplomara iraniano. Sobre os recentes desenvolvimentos no Irão, em que, disse, manifestações pacíficas centradas em desafios económicos, com o passar do tempo, “alguns elementos presentes nessas concentrações escalaram para incidentes violentos”, incluindo acções armadas que, segundo relatos, “envolveram indivíduos com treino prévio”. “Lamentavelmente, estes acontecimentos resultaram em vítimas entre agentes das forças de segurança, forças de ordem pública e cidadãos comuns”, afirmou Tafreshi, depois de o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, ter condenado e exigido o fim da “repressão dos protestos no Irão, que resultaram em mais de 600 mortos desde 28 de Dezembro, segundo uma organização não governamental. O embaixador do Irão em Lisboa referiu os “milhões de cidadãos iranianos” que participaram segunda-feira em manifestações públicas, “reflectindo uma mudança no quadro geral e expressando apoio ao seu país islâmico”, o que, tal como no passado, a notícia tem uma atenção limitada dos meios de comunicação social ocidentais. Incentivos exteriores Questionado sobre o que está a estrangular a economia iraniana, Tafreshi destaca a intervenções de Israel, “em menor grau”, e os Estados Unidos, “que têm incentivado a agitação pública”, bem como os desafios económicos do Irão que são significativamente influenciados por sanções extensas impostas” por Washington. “Estas medidas, que o Irão considera ilegais, têm também sido apoiadas por países europeus que defendem os direitos humanos, apesar de existirem preocupações de que tais políticas tenham afectado negativamente direitos fundamentais da população iraniana, incluindo o acesso a cuidados de saúde”, denunciou. “O respeito pela Carta das Nações Unidas, as amargas lições da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais e as experiências devastadoras e os custos dos acontecimentos no Afeganistão, na Síria, na Palestina, no Líbano, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia e noutros locais deveriam ser suficientes para nos recordar a necessidade urgente de priorizar, mais do que nunca, a coexistência pacífica”, acrescentou. Sobre o elevado número de vítimas mortais, Tafreshi negou que a segurança iraniana esteja a utilizar o uso desproporcional da força, exemplificando, a par do elevado número de mortes entre civis, com o número significativo de mortos e feridos de polícias”. Poder do povo Questionado sobre as palavras de Reza Pahlavi – filho do antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto após a Revolução Islâmica de 1979 – em que afirmou que tenciona regressar em breve ao Irão, Tafreshi considerou que, com o “apoio de alguns meios de comunicação social ocidentais e sionistas”, parece estar a tentar desempenhar o papel de um “Robin dos Bosques”. “No entanto, Robin dos Bosques nunca apelou às pessoas comuns para recorrerem à violência ou violarem normas e princípios internacionais, como o ataque a embaixadas e instalações diplomáticas. Durante o reinado do seu pai, apesar de o Irão contar com o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente, o país perdeu a sua 14.ª província, o Bahrein. Com base na experiência, os Estados Unidos apoiam e exploram qualquer pessoa capaz de prejudicar a independência e a segurança do Irão”, respondeu. Tafreshi negou, por outro lado, que o regime – “o termo “regime é uma expressão ilegítima e enviesada” – esteja em risco, destacando novamente “os milhões” de iranianos que se manifestaram segunda-feira em favor da soberania do Irão. “A República Islâmica pertence ao povo do Irão. O ayatollah [Ali] Khamenei é o líder do Irão e um desses cidadãos”, sublinhou o diplomata, para quem a China e a Rússia mantêm “boas relações” com Teerão, pelo que não é necessário contar com Pequim ou Moscovo para defender o país, que conta com o seu próprio povo para proteger a sua segurança e soberania.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão | China pede que se preserve a estabilidade face a ameaças dos EUA A China apelou ontem a que se “preserve a estabilidade” do Irão e manifestou a sua “oposição a qualquer ingerência externa ou ao recurso à força”, em resposta aos avisos de Washington sobre uma possível escalada contra Teerão. Em conferência de imprensa, a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, afirmou que Pequim “espera e apoia que o Irão mantenha a estabilidade nacional” e reiterou a oposição da China à “interferência nos assuntos internos de outros países” e à “ameaça ou ao uso da força nas relações internacionais”. As declarações surgem depois de órgãos de comunicação norte-americanos terem noticiado que a Casa Branca está a ponderar diferentes opções, incluindo medidas militares, em relação ao Irão, ao mesmo tempo que Washington instou os seus cidadãos a deixarem o país por razões de segurança. Mao declarou que a China “espera que todas as partes façam mais para contribuir para a paz e a estabilidade no Médio Oriente”. Sobre a situação de segurança e os protestos no Irão, a porta-voz garantiu que a China “acompanhará de perto a evolução dos acontecimentos” e que adoptará “todas as medidas necessárias” para proteger os seus cidadãos no país. No plano económico, Mao reiterou a posição já expressa ontem pela embaixada chinesa em Washington face às ameaças tarifárias do Presidente norte-americano, Donald Trump, dirigidas aos países que mantenham relações comerciais com o Irão. A porta-voz sublinhou que “não há vencedores numa guerra tarifária” e frisou que a China “defenderá firmemente os seus direitos e interesses legítimos e legais”. As declarações surgem depois de Trump ter anunciado a imposição de tarifas adicionais aos países que “façam negócios” com o Irão, uma medida que a China tem vindo a classificar como uma sanção unilateral, num contexto de crescente tensão diplomática e de segurança em torno do país persa.
Hoje Macau China / ÁsiaIrão ameaça retaliar contra EUA e Israel em caso de ataque O presidente do parlamento do Irão avisou ontem que os militares norte-americanos e Israel serão “alvos legítimos” em caso de ataque por parte de Washington, tal como ameaçou o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Os comentários de Mohammad Bagher Qalibaf representam a primeira vez que Israel é incluído na lista de possíveis alvos de um ataque iraniano. Qalibaf, um elemento da ‘linha-dura’ iraniana que já concorreu à presidência no passado, fez a ameaça enquanto os deputados invadiam a tribuna do parlamento, gritando: “Morte à América!” Durante a sessão do parlamento, transmitida em directo pela televisão estatal iraniana, Mohammad Qalibaf fez um discurso aplaudindo a polícia e a Guarda Revolucionária paramilitar do Irão, particularmente os seus voluntários Basij, por terem “permanecido firmes” durante os protestos realizados no país contra a teocracia iraniana. “O povo do Irão deve saber que lidaremos com eles da forma mais severa e puniremos aqueles que forem detidos”, disse. Qalibaf prosseguiu ameaçando directamente Israel, referindo-se-lhe como “o território ocupado”, e também as forças armadas dos EUA: “No caso de um ataque ao Irão, tanto o território ocupado como todos os centros militares, bases e navios americanos na região serão nossos alvos legítimos”, afirmou, acrescentando: “Não nos consideramos limitados a reagir após a acção e agiremos com base em quaisquer sinais objectivos de ameaça”. A seriedade das intenções do Irão em relação ao lançamento de um potencial ataque ainda não é clara, especialmente após o país ter ficado com as defesas aéreas destruídas durante a guerra de 12 dias em Junho com Israel. Qualquer decisão de entrar em guerra caberia ao líder supremo do Irão, o ‘Ayatollah’ Ali Khamenei, de 86 anos. Morte na rua As forças armadas dos EUA afirmaram no Médio Oriente que estão “posicionadas com forças que abrangem toda a gama de capacidade de combate para se defenderem, os parceiros e aliados e os interesses dos EUA”. Entretanto, os protestos que desde há duas semanas decorrem no Irão que contestam o regime e que, segundo a Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos (HDRANA, na sigla em inglês), já provocaram pelo menos 192mortos, levaram ontem manifestantes a inundar as ruas da capital e da segunda maior cidade do país. O New York Times e o Wall Street Journal, citando funcionários anónimos dos EUA, disseram no sábado à noite que Trump recebeu opções militares para um ataque ao Irão, mas não tomou uma decisão final.