Hong Kong | Dona de livraria independente presa por “sedição”

A polícia de Hong Kong deteve Leticia Wong, ex-vereadora e proprietária da livraria independente Hunter, por suspeita de sedição e branqueamento de capitais. As autoridades irromperam na noite de quarta-feira no estabelecimento, situado no bairro operário de Sham Shui Po, e apreenderam livros que alegadamente incitavam ao ódio contra o Governo e a magistratura.

Wong, antiga integrante do Partido Cívico – uma das maiores formações pró-democracia da cidade, já dissolvida –, e outro homem detido enfrentam acusações de sedição e branqueamento de capitais, por receberem transferências de “organizações políticas estrangeiras”.

O espaço estava há meses sob escrutínio das autoridades. Em 2025, após organizar uma feira do livro independente, a imprensa pró-governamental acusou-a de praticar “resistência suave”, termo a que o Executivo recorre cada vez mais para assinalar formas não violentas de dissidência ideológica ou cultural.

Por que razão os uniformes escolares chineses assumiram a forma actual?

Por Hu Xiang

Na China contemporânea, é comum observar, no percurso entre casa e escola, alunos vestidos com uniformes escolares semelhantes entre si, geralmente de estilo desportivo, corte largo e aparência pouco elaborada.

Estes uniformes apresentam, na maioria dos casos, combinações cromáticas simples, como vermelho e branco, azul e branco ou verde e branco. Além disso, o corte é frequentemente unissexo, sendo usado de forma idêntica por rapazes e raparigas. À primeira vista, podem parecer pouco modernos ou esteticamente desinteressantes. Contudo, a forma actual dos uniformes escolares chineses resulta de um processo histórico complexo, no qual se cruzam factores educativos, económicos, sociais e ideológicos.

Para compreender esta realidade, é necessário recuar ao desenvolvimento do sistema educativo moderno na China, sobretudo a partir do século XX. Nesse período, a China começou a adoptar modelos educativos inspirados no Ocidente, o que conduziu à criação de escolas modernas. Estas instituições passaram a distribuir aos alunos uniformes e chapéus padronizados, marcando, de forma aproximada, o início do uso do uniforme escolar moderno no país.

Apesar de existirem orientações relativamente sistemáticas por parte das autoridades educativas, a diversidade dos modelos de ensino e o desenvolvimento desigual da educação contribuíram para a existência de diferenças significativas entre os uniformes escolares de diferentes regiões, escolas e níveis de ensino. Em algumas instituições, sobretudo nas primeiras décadas do século XX, os rapazes usavam o changshan, uma peça tradicionalmente associada à figura do estudioso. Paralelamente, o qipao, que se tornou popular na década de 1930, foi também utilizado como uniforme escolar feminino. No entanto, devido às limitações económicas da época, a maioria das escolas não impunha ainda um código de vestuário uniforme e rigoroso.

Após a fundação da República Popular da China, em 1949, não foi imediatamente estabelecido um novo sistema formal de uniformes escolares. No entanto, consolidou-se progressivamente uma nova concepção de vestuário, fortemente influenciada pelos valores dominantes da época, nomeadamente o espírito de trabalho árduo, a simplicidade, a sobriedade e o colectivismo. O vestuário de inspiração revolucionária tornou-se, assim, uma tendência predominante.

Neste contexto, a Organização das Crianças e Jovens da China, conhecida como Pioneiros da China, desempenhou um papel importante na padronização da imagem dos alunos. O seu uniforme deveria ser harmonioso, simples e adequado ao vigor das crianças e dos jovens, tendo também em consideração a situação económica da maioria das famílias.

Tomando como referência certos modelos de vestuário juvenil da União Soviética, foram definidas regras específicas: entre maio e outubro, rapazes e raparigas deveriam usar camisa branca de estilo ocidental e calças escuras; no verão, era permitido o uso de calções. Mais tarde, as alunas passaram a usar saias escuras até ao joelho, posteriormente substituídas, a partir de 1952, por saias coloridas, cujas tonalidades podiam variar de escola para escola. Este uniforme funcionava também como uniforme escolar, sendo que a principal distinção entre membros e não membros dos Pioneiros residia no uso do lenço vermelho.

Durante a década de 1960, a escassez material era muito significativa, o que se reflectia diretamente no vestuário. A expressão popular “três anos com roupa nova, três anos com roupa velha e mais três anos remendada” revela bem as dificuldades económicas desse período. A roupa remendada era comum e, nesse contexto, a uniformização do vestuário escolar não constituía uma prioridade. Ainda assim, devido à limitação das opções disponíveis, o estilo de vestuário das crianças acabava por ser relativamente homogéneo.

No final da década de 1970, com a abertura económica e o contacto crescente com o exterior, novas ideias sobre beleza, moda e individualidade começaram a entrar na sociedade chinesa, influenciando também o vestuário infantil e juvenil. Mais tarde, a 13 de abril de 1993, a Comissão Nacional de Educação publicou o documento “Opiniões sobre o reforço da gestão do uso de uniformes escolares pelos alunos do ensino básico e secundário nas cidades”. Trata-se do primeiro documento específico, a nível nacional, sobre a gestão dos uniformes escolares.

Segundo este documento, o uniforme escolar deveria ser utilizado diariamente pelos alunos do ensino básico e secundário nas cidades, não sendo concebido como roupa de moda, vestuário cerimonial ou equipamento exclusivamente desportivo, mas como vestuário escolar de uso quotidiano. O documento definia ainda como princípios de design a sobriedade, a elegância, a alegria e a praticidade, procurando refletir as características físicas e psicológicas dos adolescentes. Contudo, não estabelecia regras rígidas quanto ao estilo concreto dos uniformes.

Com o passar do tempo, os uniformes de estilo desportivo, por serem mais económicos, fáceis de produzir e adequados à liberdade de movimentos, tornaram-se o modelo mais difundido. Estes uniformes são, em geral, de cores como azul, verde ou vermelho, com riscas, barras ou blocos brancos nos ombros. O nome da escola surge frequentemente estampado de forma visível no peito ou nas costas. Para se adaptarem às actividades físicas diárias e ao rápido crescimento das crianças, os tamanhos são muitas vezes maiores do que o necessário. Esta opção tem uma dimensão prática evidente, mas levanta também críticas estéticas e funcionais. O corte largo e indiferenciado, comum a rapazes e raparigas, é frequentemente considerado pouco elegante e pode contribuir para uma imagem corporal pouco valorizada.

A discussão pública sobre os chamados “uniformes escolares feios” intensificou-se em março de 2014, quando Michelle Obama, então primeira-dama dos Estados Unidos, visitou uma escola secundária em Pequim. As imagens televisivas dos alunos vestidos com uniformes desportivos largos desencadearam debates nas redes sociais e nos meios de comunicação chineses. Pais, escolas e designers de vestuário começaram então a refletir mais criticamente sobre o estilo dos uniformes escolares. No entanto, tendo em conta a grande desigualdade no desenvolvimento educativo entre diferentes regiões da China, estes uniformes continuam a ser vistos por muitos como uma solução adequada às condições reais do país.

Desde o início do século XXI, algumas escolas primárias e secundárias de grandes cidades começaram a adoptar um modelo misto, combinando o uniforme desportivo com o uniforme formal. Neste sistema, os alunos usam o uniforme desportivo nas actividades lectivas quotidianas e vestem o uniforme formal em ocasiões especiais, como cerimónias de hasteamento da bandeira, cerimónias de formatura ou eventos institucionais.

Contudo, esta prática continua limitada a algumas escolas, sobretudo urbanas e com melhores recursos. Num sistema educativo fortemente centrado nos exames, a coexistência de dois tipos de uniforme é frequentemente considerada, por muitos pais e alunos, uma despesa desnecessária. Ainda assim, com a emergência de uma nova geração de pais, nascidos sobretudo a partir da década de 1980, aumentaram as exigências relativamente à qualidade, ao conforto e à estética dos uniformes escolares.

Após mais de um século de evolução, o uniforme escolar chinês apresenta hoje uma identidade própria. Embora tenha passado por momentos de maior elegância e por outros de maior simplicidade, a sua história revela que o uniforme escolar não pode ser analisado apenas do ponto de vista estético. Trata-se de um objeto social complexo, cuja evolução acompanha as transformações políticas, económicas e educativas da China. Para além da aparência, o uniforme escolar desempenha funções relacionadas com a segurança dos alunos, a identificação institucional, a igualdade social e a construção de uma consciência coletiva.

Assim, os uniformes escolares chineses podem parecer simples e pouco modernos à primeira vista, mas reflectem aspectos importantes da sociedade chinesa. Representam ideias de igualdade, praticidade, disciplina e espírito colectivo. Ao mesmo tempo, as transformações recentes mostram que os jovens chineses e as suas famílias começam a valorizar cada vez mais a diversidade, o conforto e a expressão pessoal.

Os uniformes escolares na China não são apenas peças de vestuário usadas pelos estudantes. Eles contam uma história sobre a educação, a cultura e as transformações sociais do país. Através de algo aparentemente simples como um uniforme escolar, é possível compreender melhor a forma como a sociedade chinesa evoluiu ao longo do tempo e continua a adaptar-se às exigências da modernidade.

G Box | Banda de rock Mango Jump ao vivo no Galaxy no dia 5

O grupo Mango Jump vai actuar no espaço G Box, no hotel e casino Galaxy a 5 de Julho, às 18h, como parte do tour “Heartbeat Defense <3 Rescue Your Heart”. Com um estilo de música rock-indie, o grupo é constituído por Kuo Chih-Ching, Tsai Chien-Hung, Li Chi-Hsien e Huang Sheng-Chih tornou-se conhecido através da internet, principalmente no YouTube, tendo lançado até ao momento dois álbuns: “Shin Formosa Youth”, em 2022, e “Mission Heartbeat Defense”, em 2023. O grupo de Taiwan tem como principais singles “Mayday Mayday” (2022), “Let’s Get Fat” (2023), “99 Nights Chase” (2023), “Wake Up” e “Collapse” (ambos de 2025). Os bilhetes ainda estão disponíveis e encontram-se à venda nas plataformas habituais com preços de 598 patacas ou 758 patacas. Todos os lugares são de pé, mas, por motivos de segurança, a entrada de grávidas está barrada.

Fotografia | Gonçalo Lobo Pinheiro expõe em Hong Kong “O que foi não volta a ser…”

Um total de 30 fotografias dos dois volumes de “O que foi não volta a ser…”, de Gonçalo Lobo Pinheiro, vão estar em exibição no Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong entre 2 e 31 de Julho. As obras expostas convidam à reflexão sobre a inevitabilidade da mudança

 

A partir de 2 de Julho o Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong (FCC) recebe a exposição fotográfica “O que foi não volta a ser…”, da autoria de Gonçalo Lobo Pinheiro. O anúncio foi feito ontem, através de um comunicado, e a exposição vai permanecer em exibição na RAEHK até 31 de Julho.

A inauguração oficial da mostra do fotógrafo português vai acontecer a 7 de Julho, terça-feira, às 18h30, na Van Es Wall do FCC, um espaço dedicado à apresentação de trabalhos de fotógrafos e artistas.

Com curadoria do fotógrafo e professor canadiano Ben Marans, a exposição reúne uma selecção de 30 fotografias escolhidas de um conjunto mais vasto de 80 imagens, publicadas em dois livros em 2022 e 2025. Desde o início, o criador do projecto pretendeu desafiar o público “a reflectir sobre a inevitabilidade da mudança e a certeza de que o que foi não volta a ser”.

Os livros apresentavam assim imagens antigas e recentes, estas últimas captadas pelo fotógrafo, num trabalho que não esteve livre de dificuldades: “Macau mudou muito nos últimos anos. As fotografias antigas atestam isso. E agora, o que fazer com elas? Se, por um lado, ainda é possível recriar alguns cenários, por outro lado, é impossível obter pontos de contactos noutras fotografias, porque simplesmente as coisas já não existem no território. É um trabalho difícil. Tudo mudou. Por isso, na grande maioria dos casos, o que foi não volta a ser…”, explicou.

Cidade de encontros

O trabalho mostra também Macau enquanto ponto de encontro. “O que foi não volta a ser mostra-nos Macau como uma cidade de encontros, de fusões culturais e de convivência entre mundos que se entrelaçam. Aqui, a herança portuguesa coabita com a tradição chinesa e com múltiplas influências asiáticas”, explicou Gonçalo Lobo Pinheiro, no final do ano passado.

O autor do projecto destacou ainda que “o território, por força das suas gentes, e mais do que pela arquitectura, torna-se palco de gestos humanos, moldura de histórias diárias, testemunho silencioso das interacções que definem a cidade” e que espaços como “igrejas, templos ancestrais, arcos de pedra e praças revelam-se como arenas poéticas onde o humano se ilumina na sua dimensão ética e estética”.

Droga | Apanhado no aeroporto com 3kg de heroína

Um homem da Malásia foi detido no Aeroporto Internacional de Macau, quando viajava com praticamente três quilogramas de heroína, escondidos em 49 pacotes de paté de atum. Segundo a Polícia Judiciária (PJ), a detenção ocorreu no sábado, e os estupefacientes foram avaliados em 4,18 milhões de patacas.

Quando foi detido, o indivíduo de 24 anos confessou aos agentes que tinha acordado traficar a droga, e que se conseguisse entrar com os estupefacientes em Macau receberia 6 mil patacas.

No entanto, o detido reconheceu que não era garantido que Macau fosse o destino final, dado que após a entrada na RAEM ia receber novas instruções sobre o destino dos estupefacientes. O caso foi entregue ao Ministério Público e a PJ está a investigar a origem da droga, assim como outros envolvidos.

Casas de Macau | Dificuldades financeiras e demográficas discutidas

Na conferência online “Os últimos 30 anos da Diáspora Macaense: evolução e desafios”, que reuniu na quarta-feira Casas de Macau espalhadas pelo mundo, foram apontados desafios como o financiamento e a importância da preservação da cultura macaense

 

A Fundação Casa de Macau (FCM) celebra 30 anos de existência e, a pensar na efeméride, organizou na quarta-feira um debate online intitulado “Os últimos 30 anos da Diáspora Macaense: evolução e desafios”, que juntou dirigentes da Casa de Macau espalhadas pelo mundo.

Foram apontados problemas comuns nestas instituições, apesar da distância geográfica: comunidade envelhecida, ausência de novos sócios, desafios na preservação da cultura macaense e ainda dificuldades na obtenção de financiamento.

José Cordeiro, presidente da associação Amigu di Macau Arts & Culture, disse que “poderá ser útil promover uma maior articulação entre instituições da diáspora e entidades de Macau, permitindo definir objectivos comuns”. O responsável refere-se ao Conselho das Comunidades Macaenses (CCM), que volta a reunir-se no próximo ano, ou ainda o Instituto Internacional de Macau.

O responsável salientou a importância da “coordenação de iniciativas orientadas para a preservação do património cultural macaense”, sendo que, “de entre as prioridades identificadas, destacam-se a valorização da gastronomia macaense e a preservação do patuá, dois dos elementos mais distintivos da nossa identidade colectiva e que merecem especial atenção nas estratégias futuras”.

José Cordeiro referiu também a necessidade de olhar “a evolução demográfica das associações e a atracção de novas gerações”. Júlia Carion, presidente da Casa de Macau no Rio de Janeiro, sublinhou “a redução gradual do número de descendentes” de macaenses. “Antigamente as pessoas tinham quatro, cinco, seis filhos, e hoje essa realidade mudou” o que “fez com que haja uma diminuição da participação associativa”, afirmou.

No tocante à questão financeira, Júlia Carion destacou que há muitos eventos não pagos, além de que não recebem subsídios, “a não ser o investimento dos próprios associados que pagam uma mensalidade simbólica”. Montante que “não cobre todas as despesas fixas e outras que a casa tenha, então temos limitações financeiras”.

Por esse motivo, a Casa de Macau no Rio de Janeiro “não consegue aumentar o número de eventos”, existindo “essa grande necessidade de reconstrução dos vínculos após a reabertura da Casa”, no contexto pós-pandemia.

No caso de Armando Santos, vice-presidente da Casa de Macau em Vancouver, disse que o objectivo é “manter o espírito macaense vivo, seja através das aulas de português, seja através do patuá, algo que não é fácil continuar”. É também feita uma aposta na gastronomia macaense, nomeadamente com aulas oferecidas aos sócios.

“Cerca de 70 por cento dos nossos sócios têm 50 ou mais anos, e como podem ver, não é fácil atrair membros mais jovens, mas fazemos os possíveis: com eventos ou música, porque precisamos deles para levar a Casa de Macau para a frente”, declarou.

Conselho, as expectativas

José Cordeiro referiu também as expectativas que deposita na realização de um novo encontro do CCM, que representa, para si, “uma das maiores e mais importantes estruturas de ligação entre Macau e a diáspora”.

“Poderá ser oportuno reflectir sobre o seu papel futuro e a possibilidade de reforçar a sua intervenção em áreas estratégicas relacionadas com a preservação cultural, o envolvimento das novas gerações e o fortalecimento das relações entre as instituições da diáspora, e não apenas em encontros.”

Além disso, o dirigente declarou que “a evolução das comunidades macaenses e os desafios actuais justificam uma reflexão abrangente sobre os mecanismos de funcionamento e representatividade do Conselho”. O objectivo seria “assegurar que continua a responder eficazmente às necessidades e expectativas da comunidade macaense global”.

Para o encontro de 2027, José Cordeiro pede o reforço “da presença de elementos que constituem referências da identidade da cultura macaense, nomeadamente a gastronomia e o patuá, frequentemente apontados como patrimónios únicos e distintivos da nossa comunidade”.

Grande prémio do consumo | Gerados negócios de 1,3 mil milhões

A Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) anunciou ontem que o Grande Prémio para o Consumo nas zonas comunitárias gerou, entre 10 de Abril e 18 de Junho, um consumo superior a 1,33 mil milhões de patacas.

Segundo uma nota da DSEDT, trata-se de um aumento de 11 por cento em comparação com a última ronda da iniciativa de apoio ao comércio e restauração do território. Nesta edição foram distribuídos 19,195 milhões de cupões, com um valor total de 345 milhões de patacas. A DSEDT referiu que o valor mostra como os cupões conseguiram estimular e aumentar o consumo.

Tendo em conta que a iniciativa permitiu quatro dias para o uso de cupões, a taxa de utilização foi de 92 por cento, mais 4,4 por cento em comparação com o Grande Prémio do ano passado. O sector de venda a retalho ocupou 60 por cento dos gastos em cupões, seguindo-se os restaurantes com cerca de 30 por cento.

Consumo | Centro de Arbitragem recebeu 49 casos

Desde 2025 até ao final de Maio, o Centro de Mediação e de Arbitragem de Conflitos de Consumo de Macau foi procurado para resolver 49 diferendos.

O número foi divulgado ontem, através de um comunicado do Conselho de Consumidores, na sequência da primeira reunião ordinária do ano do Conselho Directivo do centro. Durante o encontro, a presidente do Conselho Executivo do Centro, U Kam, afirmou que desde 2025 até Maio deste ano foram instaurados 49 processos, dos quais 13 são de mediação e 36 de arbitragem, incluindo dois de mediação ou arbitragem transfronteiriça e cinco de arbitragem necessária sobre serviços públicos essenciais.

Os diferendos que procuraram resolução no centro de Macau envolveram uma quantia de cerca de 840 mil patacas. Durante a reunião, os dirigentes do centro garantiram ainda que os trabalhos nos últimos anos têm visado aprofundar a cooperação com as autoridades do Interior da China e dos Países de Língua Portuguesa.

Renovação Urbana | Associação pede entrada de privados

A Associação Geral do Sector Imobiliário de Macau quer que o Executivo permita a entrada de empresas privadas na Renovação Urbana. O vice-presidente Chris Wong Sai Fat sugere também construção em altura para financiar a reconstrução dos prédios

 

A Associação Geral do Sector Imobiliário de Macau defende que o Governo deve distribuir mais incentivos à renovação urbana, ao agilizar procedimentos e permitir a entrada dos privados neste mercado. A posição foi tomada pelo vice-presidente executivo da associação, Chris Wong Sai Fat, em declarações ao jornal Ou Mun.

Actualmente, as obras de renovação de um prédio podem ser realizadas se tiverem o apoio de 80 por cento dos proprietários. O responsável destacou que o número é positivo, dado que não há muito tempo o apoio necessário era mais elevado. No entanto, Chris Wong entende que há margem para reduzir ainda mais o critério, como se faz nas regiões vizinhas. A alteração é tida como mais importante para prédios com mais de 40 anos, e que vão precisar de ser renovados mais depressa.

Ao mesmo tempo, Wong afirmou que para promover a renovação urbana, o Governo deve permitir uma maior utilização do solo e construções mais altas. O dirigente entende que desta forma é possível construir novas habitações nos prédios reconstruidos. Estas fracções autónomas podem depois ser vendidas para reduzir o investimento feito pelos proprietários do prédio, permitindo que mais gente pague o investimento da obra.

Segundo o modelo actual da renovação urbana, o processo está a cargo da Macau Renovação Urbana, empresa com capitais da RAEM. Chris Wong defende que o Governo deve promover a entrada dos privados neste processo.

Segundo o dirigente, como a Macau Renovação Urbana é uma empresa com capitais públicos, o seu envolvimento é susceptível de levantar várias dúvidas sobre a utilização eficaz do erário público, e reduzir a velocidade do processo. Nesta lógica, a introdução das empresas privadas no mercado é encarada como forma de acelerar os trabalhos.

Rendas a baixar

Nas declarações prestadas ao jornal Ou Mun, o vice-presidente executivo da Associação Geral do Sector Imobiliário de Macau abordou ainda a situação do mercado do arrendamento de lojas. Segundo os dados mais recentes da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), as rendas tiveram uma redução trimestral de 1,2 por cento e anual de 3,4 por cento.

Todavia, o território continua a apresentar uma economia a duas velocidades, dado que em locais como a zona central, o Patane e junto das Ruínas de São Paulo as rendas das lojas apresentaram um crescimento entre 1,9 e 27,2 por cento. No pólo oposto, na zona do San Kio as rendas caíram 19,7 por cento em três anos.

Chris Wong apontou que o valor das rendas de lojas em locais como a Pérola Oriental e no centro da Taipa têm mostrado uma redução mais ligeira, porque são áreas com mais pessoas, logo mais clientes, o que permite sustentar o comércio local.

No entanto, o dirigente explicou que nos bairros antigos, como o San Kio e a Praia do Manduco, as rendas são mais baixas, devido à maior concentração de prédios antigos. Os moradores com mais idade optam assim por procurar casas com melhores condições e com elevadores, e alugam as habitações a trabalhadores não-residentes do Sudeste Asiático. Como estes têm menor capacidade de consumo, as rendas das lojas acabam por ser mais baixas.

Take-away | Leong Pou U defende protecção laboral de condutores

Leong Pou U defendeu ontem uma maior protecção para condutores que trabalham para aplicações de distribuição de comida, dado que “a actual legislação laboral dificilmente consegue proteger de forma eficaz os direitos laborais dos trabalhadores”.

O deputado pede que o Governo faça “uma análise abrangente da situação actual da protecção dos direitos laborais dos trabalhadores de plataformas, reforçando a salvaguarda dos seus direitos e colmatando as lacunas existentes”.

Leong Pou U destacou ainda que estes trabalhadores “não são incluídos no sistema de garantia de segurança ocupacional devido à condição laboral ambígua, enfrentando riscos por causa do trânsito, condições meteorológicas extremas e carga de trabalho pesada”. Assim, pede que sejam “clarificadas as responsabilidades das plataformas”, para que “assumam directamente a responsabilidade de pagamento do seguro por acidentes de trabalho”.

APEC | Delegação dos EUA ausente por “restrições consulares”

A revelação foi feita no dia em que arrancaram os encontros da APEC em Macau. As autoridades norte-americanas consideram que os seus diplomatas não deveriam precisar de vistos para entrar na RAEM em “situações de emergência”

Os Estados Unidos da América (EUA) não vão enviar representantes a uma reunião ministerial que decorre esta semana em Macau, devido a restrições impostas à capacidade de prestar assistência consular de emergência a cidadãos norte-americanos no território.

A 13ª Reunião Ministerial do Turismo da Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC, na sigla em inglês) e a 67ª Reunião do Grupo de Trabalho de Turismo da APEC estão a realizar-se em Macau desde quarta-feira e prolongam-se até domingo.

Em comunicado divulgado na quarta-feira, o Departamento de Estado sublinhou que “a segurança dos norte-americanos é uma prioridade” da Administração Trump e recordou que Washington mantém um aviso de viagem de nível 3 para o território, por “limitações impostas às equipas do Consulado-Geral em Hong Kong e Macau”.

O Governo dos EUA indicou anteriormente ter uma capacidade limitada para prestar serviços de emergência a cidadãos norte-americanos na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) devido às restrições de viagem impostas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China (RPC) ao pessoal diplomático norte-americano.

“Mesmo em situações de emergência, o Ministério exige que todo o pessoal diplomático dos EUA, incluindo os acreditados junto da RAEM, solicite e obtenha vistos antes de entrar no território”, destacaram as autoridades norte-americanas. “A aprovação demora pelo menos cinco a sete dias, limitando de forma significativa a capacidade de oferecer serviços consulares atempados”, acrescentaram.

Amor com amor se paga

Washington afirmou ter pedido repetidamente à China que levantasse os requisitos de visto “arbitrários e direccionados”. Uma solução, proposta quando Pequim decidiu acolher uma reunião da APEC dedicada ao turismo, foi rejeitada, acrescentou o Departamento de Estado norte-americano.

“Como questão de princípio, os Estados Unidos não enviarão participantes de alto nível a uma reunião ministerial que promove o turismo num local onde os diplomatas norte-americanos não podem prestar serviços de emergência a turistas em necessidade”, declarou o Departamento de Estado.

A decisão reflecte o impasse nas relações bilaterais, apesar das tentativas de Washington e Pequim de construir uma relação “de estabilidade estratégica” baseada na reciprocidade, segundo a nota oficial.
Devido a estas limitações em prestar serviços de emergência, Macau possui actualmente um alerta de viagem do mesmo nível que o aplicado ao Interior da China, e mais elevado do que Hong Kong, que detém um alerta de nível 2 imposto pelas autoridades norte-americanas.

A APEC é um bloco económico formado por 21 membros fundada em 1993 com o objectivo de criar uma área de livre-comércio entre seus membros. Tem como membros os Estados Unidos, China, Hong Kong, mas não Macau.
Segundo a organização, mais de 200 dirigentes vão reunir-se em Macau para dialogar sobre as experiências de desenvolvimento sustentável de turismo, bem como, traçar novos caminhos a explorar em cooperações turísticas da Ásia-Pacífico.

Obras | Deputado sugere criação da marca “Construção Macau”

O deputado Leong Hong Sai fez ontem uma intervenção antes da ordem do dia na Assembleia Legislativa (AL) a pedir que empresas locais tenham mais acesso a contratos e projectos de obras de grande envergadura.
Leong Hong Sai defendeu a promoção da marca “Construção Macau”, com o objectivo de “exportar, através das plataformas comerciais, serviços de fiscalização de obras, de renovação urbana e de construção verde para os países de língua oficial portuguesa”.

No que diz respeito à adjudicação de obras a empresas locais, o deputado referiu “os quatro grandes projectos”, nomeadamente a Cidade Universitária de Educação Internacional Macau-Hengqin, a Zona Internacional de Turismo e Cultura de Macau, a expansão do Aeroporto Internacional de Macau e ainda o Parque Industrial de Investigação e Desenvolvimento das Ciências e Tecnologias de Macau.

O deputado recomenda que “as autoridades lancem os projectos por fases”, a fim de proporcionar “mais oportunidades para que empreiteiros e subempreiteiros locais” de pequena e média dimensão “possam participar”.

Leong Hong Sai pede também que seja “aplicada rigorosamente a Lei de Contratação Pública” para que “as obras públicas priorizem a contratação de entidades registadas em Macau”, além de exigir “a contratação preferencial de residentes locais”.

O deputado sugeriu também “a criação de uma base de estágios profissionais para a indústria da construção civil em grandes projectos, como o Metro Ligeiro e transportes de ligação entre Hengqin e Macau”.

Combustível | Leong Sun Iok pede continuação de apoios

O deputado Leong Sun Iok pediu a continuidade dos dois planos de apoio ao preço dos combustíveis lançados em Maio, intitulados “Plano de subsídio aos preços do gasóleo” e “Plano de subsídio aos preços do gás de petróleo liquefeito e da gasolina”.

Na óptica do deputado, “apesar de os preços internacionais do petróleo terem registado recentemente alguma descida, os preços gerais dos combustíveis em Macau mantêm-se elevados”. Leong Sun Iok deu como exemplo “o preço de venda da gasolina sem chumbo para veículos, que atingiu um pico de 17,38 patacas por litro em Abril, recuando apenas ligeiramente para cerca de 16,70 patacas por litro”.

Assim, o deputado entende que o Governo “deve avaliar a situação do mercado e, caso os preços dos combustíveis não regressem a níveis baixos a curto prazo, considere a possibilidade de prorrogar os dois planos de subsídios ao combustível”.

Habitação pública | Governo promete reavaliar lojas e rendas

O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, prometeu uma avaliação às necessidades de comércio nas habitações públicas tendo em conta os novos bairros criados na Zona A dos Novos Aterros, bem como das rendas cobradas.

“Vamos encarregar uma terceira parte para avaliar as rendas e iremos ajustar os valores conforme as necessidades dos bairros em causa”, disse ontem Raymond Tam aos deputados na sessão de votação, na generalidade, da proposta de lei “Regime jurídico de arrendamento e cedência dos espaços comerciais em edifícios de habitação social”.

O diploma, que foi aprovado, visa rever a legislação em vigor desde os anos 90 e que, segundo Raymond Tam, está desactualizada. “Sim, vamos realizar concursos públicos [para a concessão de lojas] de seis em seis meses, e com a apresentação desta proposta de lei teremos mais flexibilidade. Nos casos de dispensa do concurso público, podemos fazer ajustamentos conforme as necessidades do bairro”, disse.

Raymond Tam acrescentou que, até à data, os concursos realizados “não foram satisfatórios”. “Isso tem a ver com a legislação, que não nos permite flexibilidade para atrair comerciantes, e daí termos urgência em alterá-la”, frisou, referindo que serão feitos “estudos preliminares” para o planeamento do comércio na Zona A. “Temos um plano que será executado de forma faseada, e à medida que entrarem residentes vamos realizar concursos públicos”, adiantou.

Imposto de consumo | Alterações aprovadas na generalidade

Os deputados aprovaram ontem na generalidade a proposta de lei que revê o Regulamento do Imposto de Consumo, em vigor desde 1999. Segundo a proposta do Governo, um dos objectivos é criar o regime de pagamento no desalfandegamento, além de alterar o sistema de pagamento de impostos para bebidas alcoólicas e tabaco.

O deputado Chan Lai Kei defendeu que estas alterações “vão beneficiar o sector e simplificar procedimentos, para que a aplicação de capitais possa ser mais flexível”. O deputado falou da necessidade de “melhorar alguns mecanismos para acelerar os procedimentos de desalfandegamento e elevar a eficácia administrativa”.

Bullying | Deputados pedem medidas após agressão a aluna

Dois deputados querem medidas contra o bullying nas escolas depois da divulgação nas redes sociais de um vídeo em que um grupo de jovens agride uma rapariga. Todos os envolvidos são menores. Chan Hao Weng sugeriu penas mais pesadas para este tipo de casos

 

O bullying em contexto escolar e a necessidade de medidas preventivas foi um tema levado ontem por dois deputados à Assembleia Legislativa (AL). No período de intervenções antes da ordem do dia, o deputado Chan Hao Weng declarou que cabe às autoridades “disponibilizar, continuadamente, aos alunos que são vítimas aconselhamento psicológico e apoio emocional”, devendo-se impor aos estudantes que são agressões “educação sobre o Estado de Direito e correcção comportamental, sem tolerância nenhuma”.

O deputado ligado à Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau exige que seja “aperfeiçoada a legislação” com “penas severas para os casos de bullying”. ”

A intervenção do deputado surge depois de a Polícia Judiciária (PJ) ter divulgado, na última semana, um caso de agressão a uma aluna por parte de um grupo de seis jovens, três rapazes e três raparigas, com idades compreendidas entre os 11 e 15 anos. O vídeo, filmado pelos agressores, foi parar às redes sociais.

“Recentemente, sucederam-se, entre estudantes, casos de agressões em grupo, extorsão, bullying verbal e até cyberbullying com gravação de vídeos. A situação tende a agravar-se, o que deixa todos os pais em Macau muito preocupados e inquietos”, disse o deputado.

Chan Hao Weng pede também a implementação de “mecanismos de alerta dentro e fora das escolas” bem como online, fazendo-se uma “cobertura integral” de protecção das vítimas, e assegurar “o bom funcionamento dos canais de denúncia e o aumento da formação de professores e assistentes sociais”.

Protecção 24 horas

Também o deputado Iau Teng Pio levou este assunto para o hemiciclo, alertando para o facto de muitos pais “relatarem que os seus filhos também já sofreram algum tipo de bullying”. “Com a crescente popularidade das redes sociais, o bullying já se estendeu muito além do recinto escolar, atingindo também o espaço digital. A difusão das imagens violentas não só provoca um dano secundário às vítimas, como também deixa uma mancha duradoura na vida dos jovens agressores.”

Iau Teng Pio sugere a criação de canais de denúncia nas escolas com o mote “zero obstáculos e zero riscos”, com a participação de professores e criação de “linhas abertas e formulários de denúncia por escrito ou via internet”.

O deputado defende que sejam criadas, a “nível institucional, garantias de protecção ao denunciante, com procedimentos de acompanhamento iniciados 24 horas após a recepção da denúncia”.

Ormuz | Trump ameaça suspender negociações se forem cobradas portagens

O Presidente norte-americano ameaçou ontem suspender as negociações com o Irão caso a República Islâmica aplique portagens pela navegação no estreito de Ormuz, embora tenha referido que Teerão garantiu que não o fará.

“O Irão informou os Estados Unidos de que, apesar das notícias falsas e problemáticas que afirmam o contrário, não são solicitadas nem cobradas portagens, custos de seguro nem quaisquer outros encargos por parte do Irão aos navios que navegam pelo estreito de Ormuz”, escreveu Donald Trump na sua rede social Truth Social. No entanto, adiantou que “se esta informação for falsa, as negociações serão suspensas de imediato”.

O Irão e Omã anunciaram na terça-feira que iriam analisar os custos que poderiam ser cobrados pelos serviços relacionados com a gestão do estreito. Os dois países vão criar um grupo de trabalho conjunto para chegar a um acordo sobre a “futura gestão da navegação” através do estreito de Ormuz, incluindo discussões com os Estados do Golfo Pérsico e “outras partes relevantes”, antes de insistirem nos seus “direitos soberanos” sobre esta passagem estratégica.

Neste sentido, o primeiro-ministro do Qatar deslocou-se ontem a Omã precisamente para preparar as conversações entre os países do Golfo, o Iraque e o Irão sobre o estreito de Ormuz, segundo um diplomata em condição de anonimato em declarações à agência de notícias France-Presse.

Estas conversações são distintas das negociações entre Washington e Teerão, precisou o diplomata. Referiu ainda que estão previstas discussões separadas na Arábia Saudita com vista a uma reconciliação entre o Irão e os países do Golfo.

O umbral da desordem mundial (I)

(Continuação do artigo publicado na edição de 18 de Junho)

Quando planeiam intervenções terrestres, os decisores de Washington parecem ignorar a geografia acidentada de um território maior do que vários países europeus reunidos, com quase cem milhões de habitantes jovens, dotados de forte identidade e elevada cultura, com destaque para os avanços técnico‑ científicos e para a formação das mulheres.

É compreensível que muitos iranianos estejam cansados de um regime opressivo e corrupto. O que não se compreende é como Trump pode pedir‑ -lhes que derrubem esse governo enquanto os bombardeia indiscriminadamente.

Por que razão, então, esta aventura que desestabiliza o planeta e ameaça comprometer a posição do presidente nas próximas eleições intercalares? Três respostas interligadas; por Israel, Trump e Netanyahu, e Deus. Por Israel, porque nesta disputa mortal os Estados Unidos seguem a linha estratégica do Estado hebraico. O general Udi Dekel, analista do Institute for National Security Studies de Telavive, explica que “Desde 7 de Outubro, Israel caiu na armadilha da ‘segurança absoluta’, uma concepção que conduz à guerra permanente. Se a segurança é definida como eliminação total de qualquer ameaça assim que surge, em vez de a reduzir ou estabilizar, então qualquer resultado que não seja a remoção completa será visto como insuficiente.”

Esta deriva, impulsionada por Netanyahu após o ataque do Hamas, transformou as Forças de Defesa de Israel em forças de ataque contínuo, esgotando-‑ as. O próprio chefe do Estado‑ Maior, Eyal Zamir, alertou: “Ergo dez bandeiras vermelhas antes que as forças colapsem.” Por Trump, hipnotizado por Netanyahu. Trata‑ se de mais uma prova da influência que Israel exerce sobre as elites americanas como fenómeno poderoso e insuficientemente estudado.

Como pode o presidente alinhar tão cegamente com um aliado? Porque, nos círculos políticos, mediáticos, económicos e financeiros dos Estados Unidos, muitos consideram Israel quase um parente próximo. As ligações bipartidárias são antigas. Há episódios históricos que revelam essa assimetria, como o ataque israelita ao navio USS Liberty de 8 de Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, que matou dezenas de marinheiros americanos sem provocar qualquer reacção oficial.

A relação entre os actuais líderes dos dois países constitui o ponto máximo dessa ligação. Entre Trump e Netanyahu há uma espécie de devoção recíproca, com momentos de tensão e reconciliação, mas sempre com dependência mútua. Circulam teorias menos nobres sobre possíveis meios de pressão, mas o essencial é que Netanyahu construiu a sua carreira política nos Estados Unidos e mantém influência profunda no Partido Republicano e em sectores do Estado.

Hoje, a estratégia da guerra permanente serve-‑ lhe também para atrasar um processo judicial por corrupção. Trump, por sua vez, empenha-‑ se em obter para o aliado uma forma de imunidade, irritando-‑ se com a recusa do presidente israelita Isaac Herzog. O último elo da cadeia é religioso. O fio que une os dois países é o chamado sionismo cristão, muito popular entre conservadores americanos e bem recebido em Jerusalém, apesar de alguns dos seus defensores serem antissemitas convictos.

Trata-se de um literalismo bíblico segundo o qual Deus atribui ao povo eleito um território vasto e liga o seu destino ao regresso do Messias. Esta visão mística permite a Netanyahu e Trump afirmar que a guerra terminará apenas com a segunda vinda de Cristo.

Desde o início, esta guerra foi concebida como um exercício de resistência que, nas intenções israelo‑ -americanas, deveria desenrolar‑ -se sobretudo no plano militar. O cálculo era simples; pois tinha como objectivo degradar rapidamente a capacidade iraniana de resposta com mísseis e drones, antes que o arsenal americano se esgotasse. Se essa aposta falhou, foi porque a subestimação do Irão atingiu também o plano económico.

Em cerca de quarenta anos, a República Islâmica estruturou uma “economia de resistência” capaz de suportar guerras, sanções e choques comerciais. O país produz internamente grande parte do que não consegue importar, ainda que com qualidade variável, incluindo medicamentos, componentes automóveis e electrodomésticos. Para isso, dispõe de centenas de indústrias distribuídas pelo território, numa estratégia de descentralização desenvolvida após a guerra com o Iraque, que revelou a vulnerabilidade das cadeias produtivas concentradas. Quando as sanções apertam, Teerão recorre à troca directa de bens por bens (escambo), permutando petróleo por alimentos e maquinaria.

A estratégia de substituição de importações e de criação de rotas alternativas a Hormuz ganhou força durante a primeira administração Trump, cuja política de “pressão máxima” expôs fragilidades internas mas também acelerou a capacidade iraniana de adaptação.

Décadas de embargo, durante as quais Teerão foi impedida de se apoiar plenamente no rendimento energético, produziram, paradoxalmente, uma das economias mais diversificadas e industrializadas da região. O petróleo continua a ter grande peso e, durante este conflito, o Irão manteve as exportações sobretudo para a China a um ritmo de quase três milhões de barris por dia, gerando receitas que fluem em grande parte para os Pasdaran.

No entanto, cerca de dois mil milhões de dólares por mês provêm da exportação de metais, produtos químicos e alimentos. Trata-se de um sistema que, apesar das disfunções evidentes, preservou o impulso modernizador das décadas de 1960 e 1970, colocando a base industrial erguida pela monarquia Pahlavi ao serviço da revolução.

Este modelo enfrenta agora a sua prova mais difícil. Desde 28 de Fevereiro, Israel e Estados Unidos atingiram uma infinidade de alvos em território iraniano, sobretudo infra-‑ estruturas civis com uso industrial.

Assim agravaram uma economia debilitada pelas sanções e por uma inflação de 40%, simultaneamente causa e efeito dos protestos do início de 2026. Apesar disso, a economia de resistência cumpriu o seu papel, pois o custo da guerra para o Irão é imenso, mas as autoridades têm como prioridade absoluta a sobrevivência do Estado, não a prosperidade salvo a sua própria. Ainda existe muita economia civil para ser sacrificada em benefício da máquina bélica.

Coreia do Sul | Soldado norte-coreano detido após atravessar fronteira

Um soldado norte-coreano foi detido pelas autoridades sul-coreanas depois de ter atravessado a fronteira, num aparente caso de deserção, informou ontem a agência de notícias sul-coreana Yonhap.

“Os militares detiveram um soldado norte-coreano na noite de terça-feira na frente central, e as autoridades competentes estão a investigar os detalhes”, afirmou o Estado-Maior Conjunto de Seul, em comunicado de imprensa, citado pela Yonhap.

Dezenas de milhares de norte-coreanos fugiram para a Coreia do Sul desde que a península foi dividida pela guerra, na década de 1950. As deserções directas através da fronteira intercoreana, fortemente vigiada e minada, são raras. A maioria dos refugiados norte-coreanos que chegam à Coreia do Sul viaja pela China e depois por um ou mais países terceiros, como Laos, Tailândia ou Mongólia.

Os norte-coreanos que conseguem fugir para a Coreia do Sul são geralmente detidos pelos serviços de informação de Seul durante várias semanas. Segundo dados do Ministério da Unificação, mais de 34 mil norte-coreanos fugiram para a Coreia do Sul. Em 2024, 236 norte-coreanos chegaram à Coreia do Sul, destes 88 por cento eram mulheres. Pyongyang usa termos pejorativos como “vermes humanos” para descrever os cidadãos que fogem.

Educação | Timor-Leste e Portugal vão reforçar número de professores

Os ministros da Educação de Timor-Leste e de Portugal anunciaram o reforço do número de professores do projecto Centro de Aprendizagem e Formação Escolar. O anúncio foi feito depois do encontro ministerial realizado ao abrigo da visita a Portugal do primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão

 

O Centro de Aprendizagem e Formação Escolar, conhecido como Escolas CAFE, terá o corpo docente reforçado. O anúncio foi feito durante um encontro realizado, na terça-feira, entre o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, e a ministra da Educação timorense, Dulce Soares, que integra a delegação liderada pelo primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, que se encontra a realizar uma visita de trabalho a Portugal até amanhã.

No encontro, a ministra informou que está em curso um “concurso especial destinado ao recrutamento de 200 professores timorenses para aquelas escolas, defendendo o reforço da formação contínua e do acompanhamento pedagógico daquelas profissionais”, pode ler-se na informação do executivo. Fernando Alexandre afirmou que Portugal “pretende reforçar” a cooperação na área da Educação e anunciou que no próximo ano serão 150 professores portugueses a leccionar nas escolas CAFE.

O projecto dos Centro de Aprendizagem e Formação Escolar ou as escolas CAFE, começou em 2014, e já está presente nos 14 municípios timorenses, e prevê-se a extensão daqueles estabelecimentos de ensino para os postos de administrativos do país. As escolas CAFE, onde as aulas são dadas por professores portugueses e timorenses, são, actualmente, frequentadas por mais de 11.100 alunos timorenses.

Aposta na continuidade

O CAFE tem dois grandes pilares, nomeadamente o ensino de qualidade na sala de aula e a formação complementar dos professores timorenses. Naquelas escolas, as aulas são dadas em português, mas os alunos têm também aulas de tétum, a outra língua oficial de Timor-Leste.

A ministra Dulce Soares reiterou também a importância de assegurar a continuidade do projecto e esclareceu que o diploma ministerial actualmente em preparação pelo Ministério da Educação relativo ao CAFE tem como único objectivo regular o funcionamento interno daquelas escolas no contexto do sistema educativo timorense e não visa alterar o protocolo em vigor existente entre os dois países.

Quénia | Grupo chinês contratado para expandir aeroporto de Nairobi

O Quénia assinou um contrato de 154,2 mil milhões de xelins quenianos (1.048 milhões de euros) com uma empresa estatal chinesa para expandir o Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, em Nairobi, visando reforçar a sua posição como centro regional de aviação.

“O projecto de modernização do JKIA é uma iniciativa estratégica destinada a aumentar a capacidade do aeroporto, reforçar a segurança, melhorar os serviços de passageiros e carga e consolidar a posição do Quénia como principal centro de aviação da região”, escreveu na terça-feira à noite, na rede social X, o ministro das Estradas e Transportes queniano, Davis Chirchir.

O projecto, financiado com apoio da Corporação Financeira Africana (AFC) e do Banco de Comércio e Desenvolvimento da África Oriental e Austral (PTA Bank), prevê aumentar a capacidade do aeroporto de 7,5 para 22 milhões de passageiros por ano.

O novo contrato inclui a construção de um novo terminal e infra-estruturas de apoio, a modernização das instalações existentes, a optimização das operações nas zonas aeroportuária e pública e a melhoria da eficiência operacional e da prestação de serviços, segundo Chirchir.

O documento foi assinado pela secretária principal para a Aviação e Desenvolvimento Aeroespacial do Quénia, Teresia Mbaika, e por Yu Xiaodong, director-geral da CRBC, subsidiária do grupo estatal China Communications Construction Company (CCCC), o segundo maior accionista da construtora portuguesa Mota-Engil, com cerca de 32,4 por cento do capital.

Alto responsável da indústria de defesa investigado por corrupção

As autoridades chinesas abriram uma investigação a Ka Zhigang, vice-director do organismo estatal responsável pela ciência, tecnologia e indústria para a defesa nacional, num novo caso envolvendo responsáveis ligados ao estratégico setor da defesa.

Ka, membro do grupo dirigente do Partido Comunista Chinês (PCC) na Administração Estatal de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, é investigado por alegadas “graves violações da disciplina e da lei”, expressão habitualmente utilizada na China para anunciar investigações que frequentemente acabam por expor casos de corrupção.

A Comissão Central de Inspecção e Disciplina do PCC e a Comissão Nacional de Supervisão, os principais órgãos anticorrupção do partido e do Estado, anunciaram ontem que Ka está sujeito a uma revisão disciplinar e a uma investigação de supervisão.

O breve comunicado oficial não forneceu detalhes sobre a natureza das alegadas infracções nem sobre o período em que terão ocorrido. Segundo o jornal The Paper, Ka desenvolveu grande parte da carreira na própria Administração Estatal de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, onde ocupou cargos de direcção em departamentos ligados ao planeamento e desempenhou funções como engenheiro-chefe do organismo.

Em Fevereiro de 2024, foi nomeado vice-director da Administração, entidade responsável pela supervisão de sectores relacionados com a indústria militar e projectos estratégicos de ciência e tecnologia.

A investigação surge num contexto de crescente escrutínio sobre o sector da defesa, no qual as autoridades chinesas anunciaram nos últimos meses investigações e sanções contra altos responsáveis militares, dirigentes de organismos ligados à indústria de defesa e gestores de empresas estatais estratégicas.

Máquina trituradora

Em Fevereiro passado, a Procuradoria chinesa acusou Zhang Jianhua, antigo vice-director da mesma Administração, de suborno, alegando que se aproveitou dos cargos que ocupou e da influência associada às suas funções para receber bens de valor “especialmente elevado”.

Após chegar ao poder, em 2012, o Presidente chinês e secretário-geral do PCC, Xi Jinping, lançou uma vasta campanha anticorrupção que atingiu funcionários de todos os níveis, desde quadros locais a dirigentes provinciais, altos comandos militares e responsáveis de grandes conglomerados estatais.

A campanha tem sido apresentada pelas autoridades como um esforço para reforçar a disciplina interna e combater a corrupção, embora alguns observadores considerem que também pode servir para afastar determinadas figuras da vida política.

Comércio | Li Qiang diz que China não é “assim tão rica” para dar subsídios a empresas

O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, negou que os produtos chineses gozem de vantagens competitivas devido a apoios estatais. As declarações surgem no contexto de disputas comerciais entre a China, a Europa e os Estados Unidos no comércio de veículos eléctricos, baterias e semicondutores

O primeiro-ministro chinês rejeitou as críticas sobre o peso dos apoios públicos na competitividade industrial da China e assegurou que “o Governo chinês não é assim tão rico que possa dar subsídios”. Li Qiang fez estas declarações durante a sessão plenária da 17.ª Reunião Anual dos Novos Campeões, conhecida como o ‘Davos de Verão’, que decorre esta semana na cidade de Dalian, no nordeste da China.

O chefe do Governo chinês referia-se às críticas de que a vantagem competitiva dos produtos chineses resulta sobretudo do apoio estatal, uma questão que tem marcado as recentes fricções comerciais entre Pequim, os Estados Unidos e a União Europeia em sectores como veículos eléctricos, baterias, semicondutores e tecnologias limpas.

“Não é assim”, afirmou Li, atribuindo a competitividade chinesa à “escala do mercado interno”, à “força da indústria transformadora” e à rápida aplicação de novas tecnologias. O primeiro-ministro defendeu que o desenvolvimento de sectores como as novas energias e os veículos inteligentes conectados resulta de avanços em áreas como materiais, baterias e comunicações, e não apenas de políticas públicas de apoio.

As críticas ao proteccionismo e às restrições comerciais, recorrentes no discurso de Pequim nos últimos meses, ocuparam também parte da intervenção, numa altura de aumento de tarifas, controlos tecnológicos e medidas de defesa comercial por parte de várias economias ocidentais.

Li afirmou que as importações chinesas de bens cresceram 20,5 por cento nos primeiros cinco meses do ano, apresentando esse resultado como prova da integração da China na economia mundial. No ano passado, a China registou um excedente comercial histórico de quase 1,2 biliões de dólares. Com a União Europeia o excedente chega actualmente a mil milhões de euros por dia.

Novas oportunidades

O discurso de Li Qiang teve lugar numa edição do fórum dedicada à inovação, comércio, inteligência artificial, emprego e transição energética, sob o lema “Inovar à escala”.

O primeiro-ministro chinês defendeu também que os avanços tecnológicos da China representam uma oportunidade para o mundo e não uma ameaça, rejeitando a ideia de que constituam um novo “choque chinês” para as economias avançadas. Li reconheceu que têm aumentado as preocupações internacionais em torno da inovação tecnológica chinesa, com alguns analistas a utilizarem a expressão “Choque da China 2.0” para descrever o rápido crescimento de sectores como a inteligência artificial, robótica, semicondutores, baterias, painéis solares e veículos eléctricos.

No entanto, o chefe do Governo chinês afirmou que a evolução tecnológica do país deve antes ser encarada como uma “Oportunidade da China 2.0”. “Numa perspectiva de desenvolvimento global, a ‘Oportunidade da China 2.0’ significa um acesso mais amplo a tecnologias avançadas e uma partilha mais alargada dos seus benefícios”, afirmou Li. Segundo o dirigente, as novas tecnologias e produtos chineses “não trazem choques, mas oportunidades”, nem representam ameaças, mas antes instrumentos de capacitação para outros países.

O primeiro-ministro destacou ainda os casos da Huawei e da Unitree Robotics como exemplos da capacidade de inovação chinesa e da rápida expansão de empresas nacionais em mercados globais. O Fórum Económico Mundial enquadrou o encontro num contexto de tensões tarifárias, pressão sobre as cadeias de abastecimento e fragmentação comercial e financeira.

O ‘Davos de Verão’ termina hoje, em Dalian, contando com a participação de mais de 1.700 representantes dos meios político, empresarial, académico e mediático de mais de 90 países e regiões. Entre os participantes contam-se os chefes de Governo do Bangladesh, Guiné-Conacri, Cazaquistão, Coreia do Sul, Mongólia e Montenegro.

A noz de casca dura – Opacidade, sugestão e alteridade nas Oito Elegias Chinesas de Camilo Pessanha

Camilo Pessanha escreveu, retomando a conhecida formulação do sinólogo Herbert A. Giles, que toda a composição poética chinesa era, para o tradutor, “uma noz de casca dura” (Pessanha, 1914). A imagem é feliz pela sua precisão e pela sua rudeza.

A noz guarda um interior oculto, exige força, paciência, atenção ao modo de abrir. Quem a parte com brutalidade desfaz o miolo, mas, contemplada de longe, a noz conserva apenas a casca. A tradução da poesia clássica chinesa existe entre a aproximação e a perda, entre o desejo de compreender e a consciência de que certos sentidos chegam por camadas, por alusões, por vestígios.

Nas Oito Elegias Chinesas, Pessanha aproxima-se de uma tradição poética marcada pela condensação, pela sugestão e pela espessura cultural da imagem. A palavra chinesa clássica raramente se apresenta como unidade fechada.

Traz consigo uma paisagem, uma memória literária, um episódio histórico, uma vibração simbólica. Um rio pode ser geografia e linhagem de poemas anteriores. Um bambu pode ser planta, caráter moral, resistência e lamento.

Uma bruma pode marcar a hora do dia e a suspensão da consciência. François Cheng descreve a poesia chinesa clássica como uma arte de relações entre vazio e plenitude, onde a imagem convoca um campo de ressonâncias em vez de se limitar à representação direta do objeto (Cheng, 2000). A tradução trabalha essa matéria compacta, procurando dar-lhe forma numa língua portuguesa atravessada por expectativas sintáticas, rítmicas e expressivas diferentes.

Camilo Pessanha viveu numa em que a Europa se começava a interessar por um tal de “Oriente”, fenómeno que Edward Said analisou como construção discursiva moldada por relações assimétricas de poder, fantasia e representação (Said, 1978). No caso de Pessanha, essa moldura histórica merece leitura crítica, pois a China das suas traduções conserva uma presença textual resistente. A paisagem chinesa mantém nomes, alusões e modos de sentir que atravessam linguagens.

A sua posição como poeta-tradutor revela-se particularmente fecunda. Pessanha aproxima a poesia chinesa do leitor português mas conserva zonas de distância. A tradução torna-se lugar de negociação entre sistemas poéticos. De um lado, a concisão do chinês clássico, a abertura semântica e a preferência pela justaposição de imagens. Do outro, a

língua portuguesa, com maior necessidade de articulação sintática e uma tradição lírica moldada por cadências próprias. Lawrence Venuti sublinhou que a tradução pode tornar visível a diferença do texto estrangeiro, resistindo à fluência domesticadora que apaga as marcas de alteridade (Venuti, 1995). Nas Oito Elegias Chinesas, essa resistência manifesta- se em opções lexicais, rítmicas e imagéticas que deixam no texto traduzido uma vibração parcialmente estrangeira.

No prefácio às suas traduções, Pessanha identifica alguns dos obstáculos centrais da poesia chinesa. Refere o gosto pela alusão histórica ou literária, capaz de fazer uma passagem conter um sentido direto e outro mais simbólico, erudito e profundo. Sublinha ainda a imprecisão do chinês literário, onde as palavras funcionam como núcleos de sentido instável, dependentes do contexto e da tradição. Esta imprecisão constitui uma qualidade estética. A palavra abre campo em vez de fechar significado.

O poema sugere uma atmosfera, convoca uma emoção, deixa o leitor trabalhar no espaço entre as imagens. O próprio Pessanha reconhece que a frase chinesa pode admitir leituras variadas, mesmo quando o significado isolado de cada termo parece reconhecível, dada a maleabilidade sintática do chinês literário (Pessanha, 1914).

Esta lógica aproxima-se de conceitos fundamentais da estética poética chinesa, como hanxu (含蓄) e yijing (意境). Hanxu aponta para a contenção, para a sugestão, para a

força expressiva do que permanece semioculto. Yijing designa o estado poético criado pela relação entre imagem, emoção e atmosfera. Cheng associa esta dimensão à capacidade da poesia chinesa para criar espaços de ressonância onde a ausência de progressão discursiva linear é compensada pela densidade evocativa das imagens (Cheng, 2000, p. 76). A poesia constrói uma experiência de perceção. O sentimento aparece disseminado na paisagem. A tristeza pode surgir na margem de um rio, numa montanha antiga, numa luz outonal ou num pavilhão abandonado. A emoção manifesta-se por deslocação, correspondência e ressonância.

Esta forma de composição torna-se num grande desafio para a tradução. A poesia chinesa clássica trabalha frequentemente por justaposição. Coloca imagens em contacto e confia na energia do intervalo. A língua portuguesa tende a pedir nexos, sujeitos, articulações, progressões. Traduzir implica decidir o grau de explicitação, a permanência da elipse, a transformação do silêncio em frase. João Barrento, ao propor a ideia de

“holofrase”, entende a tradução poética como orquestração de uma totalidade, onde os pormenores ganham sentido pela relação com a atmosfera, o ritmo e a forma global do poema (Barrento, 2002, p. 49). Esta perspetiva ajuda a compreender a solução de Pessanha: a tradução procura a unidade atmosférica do poema, acolhendo a densidade imagética e a sugestão como princípios de recriação.

Os topónimos revelam bem essa estratégia. Pessanha preserva nomes como “Kiang”, “Tung-ting”, “Tsang-u” ou “Hsiang”. Esses nomes funcionam como marcas de alteridade. Mantêm a geografia ligada à memória cultural que a sustenta. Um rio chamado “Kiang” possui uma espessura diferente de um simples “rio”.
“Tung-ting” transporta uma paisagem histórica e literária que uma tradução plenamente naturalizada tornaria excessivamente familiar. A presença destes nomes obriga o leitor português a aceitar uma margem de desconhecido. A língua de chegada abre espaço à diferença, acolhendo palavras que permanecem parcialmente estrangeiras. Venuti descreve este tipo de procedimento como uma forma de resistência à transparência domesticadora da tradução, pois o texto traduzido conserva sinais da sua proveniência cultural (Venuti, 1995).

A primeira elegia, “Ascensão ao Miradoiro do Kiang”, torna visível essa operação.

O título chinês, 登閱江樓, pode ser vertido literalmente como “Subindo o Pavilhão de

Observação do Rio”. Pessanha escolhe “Ascensão ao Miradoiro do Kiang”. A palavra “ascensão” acrescenta um movimento vertical simbólico onde o sujeito sobe para ver e para ser tomado por uma comoção histórica. “Miradoiro” aproxima a imagem de uma sensibilidade portuguesa. “Kiang” conserva a matéria chinesa do lugar. O título reúne aproximação e resistência: torna a cena legível, preservando uma zona culturalmente marcada. O poema constrói uma paisagem de altura, ruína e memória. O torreão abandonado fora outrora célebre, ali se teriam erguido estandartes imperiais e a montanha conserva uma majestade antiga, as águas do Kiang continuam a correr, e céu e terra confundem as suas vozes outonais. A contemplação do lugar converte-se em experiência histórica. O sujeito olha a paisagem e sente a permanência do mundo natural perante a fragilidade das construções humanas. A montanha e o rio carregam sinais de um tempo que

excede a vida individual. Esta leitura aproxima o poema da tradição chinesa do huaigu (懷

古), isto é, da meditação sobre o passado a partir de ruínas, lugares históricos e vestígios de

grandeza perdida, tão frequente na poesia clássica chinesa.

Esta paisagem possui uma qualidade emocional. Ela pensa, recorda, lamenta. A natureza, na tradição poética chinesa, surge frequentemente como espaço de correspondência entre mundo exterior e estado interior. Stephen Owen observa que a poesia chinesa clássica constrói muitas vezes a emoção através da cena, permitindo que a paisagem desempenhe uma função expressiva sem converter o sentimento em confissão direta (Owen, 1985). Pessanha recolhe essa força e transforma-a numa matéria verbal portuguesa atravessada por melancolia. A voz outonal de céu e terra condensa a fusão entre estação, som, emoção e memória. O outono surge como tempo da perda, da maturação e do declínio. A paisagem inteira participa da consciência elegíaca.

“Queixumes das Esposas do Hsiang” acentua essa dimensão. O título chinês 湘妃怨 pode

ser lido literalmente como “Ressentimentos da consorte do rio Xiang”. Pessanha traduz por “Queixumes das Esposas do Hsiang”. A escolha pluraliza a figura feminina e desloca o poema para um horizonte mítico e coletivo. A referência convoca as esposas lendárias de Shun e a tradição de um lamento inscrito no rio Xiang. A dor ganha corpo cultural, ultrapassa a expressão individual e passa a habitar uma paisagem inteira. A opção de Pessanha transforma o título num limiar mítico, onde a figura feminina se converte em memória partilhada.

Os versos apresentam uma sucessão de imagens naturais e preciosas: orquídeas ceifadas nos ilhéus do norte do Hsiang, madeiras raras talhadas nos plainos do sul do Lai, águas puras com cromatismos de ágata, brisa subtil com vibrações de jade. A natureza aparece filtrada por uma linguagem de delicadeza material, onde plantas, águas, pedras e sons participam de uma mesma ordem sensível.

A beleza surge atravessada por violência. As orquídeas são ceifadas; as essências de preço são talhadas. O poema coloca a perda dentro da própria imagem do esplendor. Este procedimento corresponde a uma forma de contenção elegíaca: a dor manifesta-se através de objetos sensíveis, em vez de se declarar como exposição subjetiva.

A seguir, a névoa sobe entre as sombras do Tsang-u e o sol baixa entre as brumas do Tung- ting. O movimento crepuscular intensifica a tonalidade elegíaca. A luz inclina-se, o mundo

torna-se indecifrável, os contornos perdem nitidez. O entardecer cria uma atmosfera de suspensão, adequada a uma dor que atravessa o tempo. Os versos finais concentram a imagem decisiva: “As penas dos bambus, quem é que as sabe? / Mas bem se lhes vêem os sinais das lágrimas.” O sofrimento aparece inscrito na paisagem vegetal. O bambu torna-se testemunha silenciosa da dor.

A emoção deixa marcas, vestígios, sinais. A elegia vive dessa inscrição oblíqua. Esta imagem dos bambus ajuda a compreender a poética da tradução em Pessanha. A dor surge de modo indireto, mediada pela matéria natural, o poema confia na força do vestígio e o leitor reconhece a emoção através da marca deixada no mundo. Esta lógica encontra afinidade com a reflexão de Cheng sobre a imagem poética chinesa enquanto ponto de contacto entre o visível e o invisível, entre a paisagem exterior e a vibração interior (Cheng, 2000). A tradução de Pessanha procura conservar esse regime alusivo. A elegia ganha, em português, uma superfície onde a opacidade original continua a respirar. O leitor percebe uma tradição anterior, uma camada lendária, uma cultura que exceda a transparência imediata.

A tradução de Pessanha aproxima e preserva. Amplia certas imagens, reorganiza a sintaxe, adapta o ritmo à língua portuguesa, introduz uma música simbolista própria.

Conserva topónimos, atmosferas, hesitações e densidades que mantêm viva a diferença. Esta operação produz uma China mediada pela sensibilidade de um poeta português em Macau. A China das Oito Elegias chega-nos como leitura, recriação e experiência estética situada.

A sua força reside nesse caráter composto. Lydia Liu propõe pensar a tradução e a circulação intercultural como práticas translinguísticas, nas quais os sentidos se formam no contacto entre sistemas culturais, e não numa correspondência neutra entre termos equivalentes (Liu, 1995). As traduções de Pessanha podem ser lidas nesse espaço de contacto, onde a língua portuguesa recebe a pressão de uma tradição chinesa que altera o seu modo de dizer.

Pessanha traduz como poeta. Traduzir como poeta significa procurar a experiência estética do texto, escutar o seu ritmo interior, seguir as suas imagens e reconstituir, na língua de chegada, uma atmosfera possível. A fidelidade passa pela relação com o efeito, com a densidade simbólica e com a capacidade de sugerir. Eugene Nida chamou a atenção para a importância do efeito produzido no leitor da língua de chegada, ao propor a noção de equivalência dinâmica (Nida, 1964). No caso de Pessanha, esta equivalência assume uma

dimensão estética: procura-se transportar uma experiência de atmosfera, melancolia, estranheza e contemplação.

A versão portuguesa das elegias afasta-se, por vezes, da secura concisa do original chinês, ganhando uma amplitude mais próxima do simbolismo europeu. Esse afastamento integra o próprio processo de transposição. Cada língua impõe o seu corpo. Cada tradição pede uma respiração. Antoine Berman descreveu a tradução como experiência do estrangeiro e alertou para as tendências deformadoras que podem reduzir a diferença cultural do texto de partida (Berman, 1984). Nas Oito Elegias Chinesas, Pessanha oscila entre a necessidade de recriar poeticamente e o impulso de conservar sinais dessa diferença.

O valor destas traduções encontra-se na sua imperfeição fértil. Elas revelam a impossibilidade de uma transferência neutra entre chinês clássico e português. Traduzir implica escolher, deslocar, iluminar certos aspetos e deixar outros em sombra. A sombra, neste caso, possui importância própria. A opacidade da poesia chinesa, em Pessanha, permanece como sinal de alteridade. O leitor português entra no poema sem possuir todas as chaves. Essa experiência de leitura corresponde, em grande medida, à própria natureza alusiva dos textos.

A “noz de casca dura” continua a oferecer uma imagem crítica poderosa. A casca representa a resistência do texto, o miolo, a promessa de sentido, o gesto de abrir e assim se dá a prática tradutória. Pessanha aproxima-se da poesia chinesa com o desejo de a tornar audível em português, preservando parte da sua dureza original. Essa dureza tem valor.

Impede a redução do outro a uma forma confortável de familiaridade. Mantém no poema traduzido uma vibração estrangeira, uma espécie de resto luminoso que resiste à assimilação total.

Nas Oito Elegias Chinesas, a tradução surge como travessia entre paisagens poéticas. De um lado, a China clássica dos rios, pavilhões, bambus, brumas e alusões. Do outro, a língua portuguesa de Pessanha, feita de música, melancolia e rarefação simbolista. Entre ambas, abre-se um espaço instável, cheio de perdas e descobertas

Bibliografia

Barrento, João. O Poço de Babel: Para uma poética da tradução literária. Lisboa: Relógio

D’Água, 2002.

Berman, Antoine. L’Épreuve de l’étranger: Culture et traduction dans l’Allemagne

romantique. Paris: Gallimard, 1984.

Cheng, François. Vide et Plein: Le langage pictural chinois. Paris: Seuil, 2000. Liu, Lydia H. Translingual Practice: Literature, National Culture, and Translated Modernity — China, 1900–1937. Stanford: Stanford University Press, 1995.

Nida, Eugene A. Toward a Science of Translating. Leiden: Brill, 1964.

Owen, Stephen. Traditional Chinese Poetry and Poetics: Omen of the World. Madison: University of Wisconsin Press, 1985.

Pessanha, Camilo. “Elegias Chinesas”. O Progresso, Macau, 1914. Said, Edward W. Orientalism. New York: Pantheon Books, 1978.

Venuti, Lawrence. The Translator’s Invisibility: A History of Translation. London/New York: Routledge, 1995.

Venuti, Lawrence. The Scandals of Translation: Towards an Ethics of Difference. London/New York: Routledge, 1998.

Apresentada hoje no IPOR versão portuguesa de “Macau’s Historical Witnesses”

O tédio da pandemia levou-os a vasculhar os segredos da sua cidade e a ter contacto com a sua história e as inúmeras personalidades que tem dentro. O casal Cristopher Chu e Maggie Hoi editaram, em 2022, a obra “Macau’s Historical Witnesses”, que ganha agora versão em português com a edição de “Testemunhas da História de Macau – 22 Histórias desconhecidas e presenciadas pelos marcos históricos da cidade que todos deveriam conhecer”.

A apresentação, enquadrada no cartaz de “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”, acontece hoje na Biblioteca do IPOR – Instituto Português do Oriente a partir das 18h30.

Trata-se, segundo um comunicado enviado pelos autores, de um “livro de contos que narra o passado da cidade sob a perspectiva dos seus edifícios, igrejas e outros monumentos”. A obra não é “um manual escolar nem um panfleto turístico, mas sim algo intermédio” entre esses dois mundos.

Christopher Chu e Maggie Hoi procuraram fazer uma crónica “da história única de [ligações] de quinhentos anos entre as comunidades portuguesa e chinesa”, apostando-se numa escrita de parágrafos curtos e “fácil leitura, contados do ponto de vista dos marcos históricos da cidade”.

Num anterior comunicado divulgado, Cristopher Chu adiantou que o livro “procura desafiar o mantra genérico do ‘encontro entre oriente e ocidente’ muitas vezes usado para descrever Macau e a sua história, ao adoptar as perspectivas de vários pontos de referência da cidade em vez das nossas perpectivas”.

“Assim sendo, perguntámos a edifícios, estátuas e ruas as experiências porque passaram nos últimos 400 anos e como as mudanças alteraram as cidades e aqueles que cá vivem”, acrescentou.

O lugar de Pessanha

Esta era a versão traduzida que faltava, tendo em conta que, além da publicação original em inglês, o público dispõe também de uma versão em chinês. Coube a Ivo de Noronha Vital, macaense e doutorando na Universidade de Macau, a responsabilidade pela tradução para a língua de Camões.

Ivo de Noronha Vital é também vice-presidente da Associação de Tradutores de Português. Na sessão de hoje no IPOR, o tradutor vai também “abordar os desafios do processo de tradução e a arte de conectar ideias além das línguas”.

Uma das personalidades em destaque no livro de Cristopher Chu e Maggie Hoi é Camilo Pessanha, poeta, docente e jurista, que viveu e faleceu em Macau. Segundo contou o co-autor, a ligação do poeta ao território foi tão forte, e geradora de tantas histórias, que acabou por dar origem a um segundo livro escrito pelo casal, “Camilo Pessanha’s Macau Stories”.

“A história de Camilo Pessanha foi acrescentada ao livro como um suplemento, mas a sua vida em Macau foi tão fascinante que decidi escrever um segundo livro dedicado exclusivamente à sua estada em Macau”, indicou Cristopher Chu que, em entrevista concedida ao HM, falou de como Pessanha ajuda também a descobrir a história do território que o acolheu.

“Ele foi isso mesmo, uma testemunha histórica. Viu tantos acontecimentos notáveis desenrolarem-se à sua frente, participou em alguns. É um óptimo instrumento para compreender o que se passou em Macau, perceber como o mundo evoluiu, as muitas mudanças que aconteceram naqueles anos e que continuam a ser palpáveis nos dias de hoje.”

Eric Fok, artista, sobre edifício “Bela Vista”: “Uma joia arquitectónica tão bela”

A Residência Consular vai hoje abrir portas ao público, entre as 14h e as 18h, para apresentar a exposição “Bela Vista por Eric Fok – Descubra as Histórias dentro da Vista”. A entrada é livre com lotação limitada. Eric Fok desvendou ao HM o que está por trás das 12 obras expostas

 

Que perspectivas do edifício “Bela Vista” explorou nestas obras?

Esta exposição apresenta uma mistura de obras minhas, tanto recentes como antigas. Os meus trabalhos anteriores centravam-se, principalmente, em temas como a História, a era dos Descobrimentos e a globalização. No entanto, as novas obras centram-se neste monumento histórico do século XIX, que é uma antiga mansão que, mais tarde, foi transformada num hotel. Em várias ocasiões serviu de escola, campo de refugiados e centro de retiro. Fazendo jus ao nome, “Bela Vista” oferece uma paisagem de tirar o fôlego e, do alto da encosta, é possível contemplar toda a Praia Grande. Ainda me lembro de visitar o terraço deste edifício há onze anos, por ocasião de uma exposição. Não fazia ideia de que Macau abrigava uma joia arquitectónica tão bela, e a vista das janelas despertou a minha imaginação sobre o passado da cidade. Tendo servido tantos propósitos diferentes ao longo dos anos, este monumento ergue-se como testemunha da história local e também dos grandes acontecimentos globais que se desenrolavam na região, naquela época. Além disso, a própria criação da residência consular resultou de transições políticas, e o edifício testemunhou a mudança das diferentes épocas. Para mim, é como um livro de história escrito por pessoas diferentes, cada uma com a sua história única, sobre como chegaram a Macau.

Quais as principais histórias do Bela Vista aqui contadas?

Conto a história do encontro de diferentes culturas no Extremo Oriente, de pessoas de várias nações, como comerciantes, viajantes, soldados e refugiados que fugiam da guerra, e que chegaram a Macau, ficando hospedados no Hotel Bela Vista por uma infinidade de razões. Todos estes imigrantes e viajantes trouxeram consigo as suas próprias culturas e origens distintas. Acredito que é extremamente significativo continuar a expandir o meu trabalho através destas personagens e da própria arquitectura. Para esta exposição em particular, o foco recai principalmente na relação histórica entre este edifício e a cidade.

Esta mostra integra-se nas celebrações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas. Qual a importância, para si e a sua carreira, deste projecto?

Talvez devido aos círculos sociais onde cresci, não sabia muito sobre esta celebração quando era criança. Olhando para trás tenho um pouco pena disso, porque se tivesse sabido mais cedo, certamente que teria alargado os meus horizontes. O poeta Luís de Camões, por exemplo, viveu em Macau e tornou-se uma parte vital do tecido cultural do território. Mas sinto-me incrivelmente afortunado pelo facto de a minha exposição ter, este ano, sido incluída nas celebrações. Para mim é um grande incentivo e uma forma de reconhecimento, além de ser uma forma de o meu trabalho estar ligado, de forma activa, a esta celebração e a esta cultura. Por coincidência estava em Portugal nesse período [durante o 10 de Junho], quando havia celebrações por todo o lado. Tanto a participação no Dia de Portugal, como as exposições de obras de arte, constituem experiências inestimáveis para mim, e um combustível essencial para as minhas futuras criações.