Fernando Eloy VozesSalário mínimo criativo [dropcap style=’circle’]C[/dropcap]omo o Jacinto não dá notícias faz duas semanas, volto à realidade macaína, inspirado pelo último Festival de Investimento em Cinema e pela anunciada mega obra do Antigo Tribunal – novecentos milhões custará, diz Ung Vai Meng. Em relação ao Festival parabéns ao IC pela sua participação e aos governos de Cantão e de Hong Kong. Os cineastas precisam disto. De lá saiu uma conclusão: procura-se ‘filet mignon’ mas ninguém está disposto a alimentar os vitelos. Ou seja, se se perguntasse a um dos investidores presentes ao que vinha a resposta era, invariavelmente, “um filme que faça dinheiro.” Não vou entrar no que isto representa para o cinema, fica para outro dia. Mas vou entrar na importância que é a existência de planos de apoio ao desenvolvimento de projectos para que possamos chegar a estes mercados em melhores condições, com produtos mais elaborados e melhor construídos. Para darem dinheiro, ou apenas para ficarem bem feitos, os filmes precisam de projectos bem montados. Em primeiro lugar um bom guião, que demora meses a desenvolver, depois o elenco certo e a equipa de filmagem indicada. Preparar e desenvolver este tipo de projectos custa tempo e tempo, como se sabe, é dinheiro. Ou seja, para voltar à alegoria bovina, querem-se projectos de primeira mas ninguém dá o passo para criar um programa de apoio ao desenvolvimento de projectos. Aqui fica uma ideia para associar ao festival. No cinema, como noutras artes, o desenvolvimento do projecto é sempre o mais complicado, especialmente quando se está na presença de iniciados como é o caso dos produtores e da grande maioria dos criadores de Macau. Mas eu proponho mais ainda: a criação de um salário mínimo criativo. O palavreado pode ser novo mas a lógica não. Está, inclusivamente em prática em Macau e em muitos outros lados. Chama-se “apoio a atletas de alta competição”. A RAEM tem e muitos outros países têm. Mas alguém dá “apoios a criadores de alta competição”? Não que alguma vez me tenha chegado ao conhecimento. Mas não faz sentido que exista? Faz, todo. Antes de qualquer outro tipo de argumentação, não tenho nada contra o apoio aos atletas de alta competição. Nem aqui, nem em lado nenhum. Antes pelo contrário, mais exista, mais seja empregue. Nós precisamos dos atletas. Porque nos entretêm, mas especialmente por nos revelarem histórias de superação, por nos inspirarem, por poderem constituir excelentes exemplos de vida e trazer vida à vida. Faz todo o sentido dar-lhes apoios de alta competição para que não tenham de ir vergar para um escritório, ou sítio pior, e poderem dedicar-se à sua modalidade. Os artistas passam exactamente pelo mesmo processo. Precisam de se dedicar a tempo inteiro sem estarem sempre a viverem a angústia para pagar a renda da casa, do estúdio ou de ambos, quando ambos não são o mesmo. Para não terem de agarrar empregos que lhes limitam o tempo e roubam a criatividade. Não me vou dedicar a critérios de selecção, por entender existirem bases legais de trabalho suficientes, nomeadamente o regulamento para atletas de alta competição, e suficiente bom senso para se chegar a uma solução viável. Acho, todavia, que o processo deveria mover-se em duas fases: primeiro para residentes permanentes, numa segunda fase para outros residentes até porque o mundo criativo precisa de renovação. Não se pode dizer que uma cidade está virada para as indústrias criativas sem serem criados mecanismo de subsistência, numa primeira fase e de apoio ao desenvolvimento numa segunda fase. Os artistas normalmente deslocam-se para zonas mais deprimidas, fora dos centros urbanos, para poderem dedicar-se á sua arte sem o peso ameaçador das rendas e/ou para zonas que inspirem e onde se encontrem pessoas que laborem na mesma área. Assim surgiu o espaço 798, assim se desenvolveram muitos outros centros criativos. A comunicação, a troca de ideias e de experiências, é fundamentai no sector criativo. Macau é caro e aos poucos vai perdendo a poesia (espaços de tranquilidade) como a escritora Lolita Hu bem assinalou quando aqui esteve no último Festival de Letras. Macau, quer, no entanto, ser uma cidade dedicada às indústrias criativas, daí que um apoio financeiro aos criativos, tal como se entrega aos atletas de alta competição faz todo o sentido. Eles trazem medalhas, orgulho social e exemplos de vida. Os artistas trazem tudo isso também e andam têm a potencialidade de gerar riqueza. Quando se apregoam novecentos milhões para uma biblioteca que não faz falta, percebe-se facilmente que o problema não será orçamento. Duzentos que fossem os artistas a receberem um subsídio de, especulemos, 20 mil patacas por mês, e o valor anual para o orçamento seria de 48 milhões de patacas. Em relação à futura biblioteca central, já antes o disse e volto a dizer: disparate. Para quê mudar o que está bem? Não duvido que se ganhe alguma coisa com a centralização das bibliotecas e mais não o sei o que resolvam lá colocar, mas não valeria mais (e seria menos oneroso) conservar o imóvel e deixá-lo estar como está, um espaço fabuloso para todo o tipo de acções culturais que não se coadunam com o Centro Cultural ou outros espaços? Vale mais um mono cultural ou acção cultural efectiva? Um salário para criativos locais seria a forma de Macau conseguir, de facto, transformar-se numa cidade criativa e gerar a tão necessária massa crítica necessária para que isso aconteça. Música da Semana “Moonage Daydream” (David Bowie, 1972 ) I’m an alligator, I’m a mama-papa coming for you I’m the space invader, I’ll be a rock ‘n’ rollin’ bitch for you Keep your mouth shut, you’re squawking like a pink monkey bird And I’m busting up my brains for the words
Fa Seong A Canhota VozesOlímpicos. E Macau? [dropcap style=’circle’]O[/dropcap]grande tema de destaque deste mês são os Jogos Olímpicos, que se realizaram no Rio de Janeiro, e não podia deixar de abordar este tema. Até o nosso Secretário Alexis Tam foi aos Jogos, mesmo que nenhum atleta de Macau tenha participado na competição. É difícil não criticar o facto de se estar a desperdiçar dinheiros públicos para organizar a visita de uma delegação de “amigos” ao Rio de Janeiro, incluindo os subordinados José Tavares, Alex Vong e o deputado Chan Chak Mo. Foi dito que estão ligados ao desporto olímpico e que a sua participação visa “fortalecer as relações com outros países de raiz portuguesa e ganhar experiência para promover a actividade desportiva em Macau”. Senhor Secretário, considera que a sua participação em jogos tão importantes pode fazer com que os atletas de Macau participem nos Jogos Olímpicos da próxima vez, mesmo que Macau não faça parte do Comité Olímpico Internacional? Ou a participação serve apenas como visita pessoal? Não me parece que as pessoas de Macau vejam muito os Jogos Olímpicos, os quais quase não têm uma relação directa com o território. Quem vê gosta de admirar os atletas estrangeiros ou está interessado nas modalidades. Uma outra parte talvez aplauda os atletas de nacionalidade chinesa quando ganham prémios e se levanta a bandeira nacional. Apesar de tudo, sinto que usamos uma identidade e o papel de quem está “de fora” a ver os Jogos, porque não fazemos parte e não podemos apoiar a “nossa equipa”. Talvez haja quem considera que este pequeno território, com apenas 30 quilómetros quadrados, possa ter atletas com nível internacional, nem que seja possível termos o bilhete de acesso aos Jogos Olímpicos. A culpa não pode ser só da falta de apoio ou de estímulo ao desporto pelo Governo, mas sim a estrutura da sociedade e economia. Há imensos jovens de Macau que gostam de praticar desporto. No entanto, desporto significa para muitas pessoas um interesse ou um hábito para preencher os tempos livres. Raramente o desporto é considerado uma profissão, ou não se vêem muitas perspectivas nesse sentido. Os pensamentos dos nossos pais – ter um trabalho fixo e ganhar mais dinheiro – ainda passam de geração em geração, pelo que é difícil a uma pessoa de Macau tornar-se um atleta profissional, como a famosa atleta de triatlo, portadora de deficiência auditiva, Lorna Hoi (Hoi Long). Esta já venceu vários prémios em competições internacionais e nunca está ausente das competições locais. Numa entrevista assumiu, contudo, que não encara o desporto como uma profissão, nem nunca esperou ganhar dinheiro ao participar em competições. Actualmente, Lorna Hoi (Hoi Long) é funcionária pública. Outro factor triste é que em Macau há falta de espaços para treino de atletas. Para além dos campos de futebol ou de piscinas, nunca ouvi falar da existência de, pelo menos, um local para o treino de ciclistas, já para não falar de outras modalidades. “Macau mantém a ambição de fazer parte do Comité Olímpico Internacional”, disse o chefe de gabinete de Alexis Tam. É bom ter ambição e esse é um desejo para muitas pessoas em Macau, mas não há uma data para que isso possa acontecer.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesA “evasão” dos bombeiros [dropcap style≠’circle’]N[/dropcap]o passado dia 13 o “Yahoo” publicou uma notícia sobre a evasão de 12 estudantes da Academia dos Serviços de Ambulâncias e Incêndios (uma escola sob a alçada do Departamento dos Serviços de Incêndios de Hong Kong, organismo dependente do Governo da RAEHK, responsável pela formação de bombeiros). A surtida deu-se durante a cerimónia de formatura e, aparentemente, aconteceu porque os estudantes quiseram sair para entregar convites aos familiares. Inicialmente a Academia apenas entregava três bilhetes a cada estudante. Mas no dia 11, por volta das 16:30, decidiu entregar mais dois a cada um deles. Os estudantes estavam divididos em dois grupos para a cerimónia de formatura, que se realizou no dia 12. Na véspera, um dos grupos ficou na Academia até às 22:30 e o outro passou lá a noite. O problema aconteceu com este último grupo. Cerca de 50 estudantes evadiram-se e passaram ingressos para a cerimónia a familiares. Por volta das 20:30, os responsáveis da Academia convocaram de surpresa todos os estudantes, para verificar as presenças. O artigo referia que apenas 20 se apresentaram de imediato. Cerca de 18 estudantes pediram a outros colegas que se apresentassem na vez deles e 11, ou 12, não compareceram à chamada. Existem rumores de que estes últimos serão expulsos após processo disciplinar. Mas há quem diga que serão eles a apresentar a demissão, para não “manchar” o seu cadastro escolar e não virem a prejudicar uma carreira ao serviço do Governo de Hong Kong. E porque é que os estudantes se “evadiram”? O artigo do “Yahoo” explicava que antigamente não existia limite de bilhetes para as cerimónias de formatura, os estudantes podiam convidar quantas pessoas quisessem. Mas este ano a Academia anunciou inicialmente que cada estudante só tinha direito a três convites. Posteriormente esse número foi alargado para cinco. O “Yahoo” também ventilava que no momento em que os estudantes receberam os convites lhes terá sido dito para os entregarem como melhor entendessem. A partir destas declarações os estudantes assumiram que tinham consentimento da administração para se ausentarem. Foi talvez este facto que determinou a sua saída. O desaparecimento dos jovens foi reportado por um dos funcionários, cujo filho também frequenta a Academia. Por ter acesso privilegiado às camaratas este funcionário costumava visitar o filho, o que desagradava aos outros estudantes pois sentiam que ele tinha um tratamento diferenciado. Até ao momento, não existe mais informação sobre o assunto. Esta história serve de lição para todos os estudantes que se preparem para servir as forças da ordem. É evidente que não se pode justificar uma evasão com o desejo de entregar convites a familiares. Alguns bombeiros seniores defenderam este ponto de vista, explicando a necessidade de os estudantes compreenderem que não se pode abandonar o posto sem autorização, sob risco de poder colocar as populações em perigo em caso de emergência. Mas temos de tentar perceber o lado dos estudantes. Num outro site de Hong Kong, o “orientaldaily.on.cc”, escrevia-se que esta cerimónia era a última oportunidade de a Academia poder contar com a presença do Comissário dos Serviços de Incêndios, o Sr. Lai Man Hin. Para não perturbar a ocasião, os alunos que se tinham evadido deveriam estar presentes. Os estudantes não concordaram com este procedimento. No entanto, devemos interpretar o caso de duas maneiras. Os preparativos de uma cerimónia deste género podem necessitar de ser melhorados. O alargamento dos convites à última hora, de três para cinco, pode ter sido inapropriado. Não é tanto a questão de se dar mais dois convites a cada estudante, mais sim, do tempo que precisaram para os passar aos convidados, e da disponibilidade destes para estarem presentes. A maior parte das pessoas não dá atenção a estes pormenores. Devem também ser consideradas as declarações da administração da Academia. A ser verdade que foi dito aos estudantes que “entregassem os convites como melhor entendessem”, o facto de terem muito pouco tempo para os passarem à família poderá ter criado um mal-entendido. Se estes estudantes forem sujeitos a uma acção disciplinar, estas declarações e a própria organização da cerimónia de formatura devem ser debatidas. De outra forma, será injusto para os estudantes. Independentemente do que se vier a decidir sobre o destino destes 12 jovens, do ponto de vista social, Hong Kong sai sempre a perder. Para formar um bombeiro, o Governo de Hong Kong tem de investir 400.000 HK dólares. Se forem expulsos 12 estudantes, desperdiçaram-se cerca de 5 milhões de HK dólares. Será que vale a pena? Quem tiver de lidar com este caso deve ter em consideração os interesses dos alunos evadidos, a deficiente organização da cerimónia de formatura, a veracidade da declaração que provocou o mal-entendido e, finalmente, o interesse público. Não vai ser tarefa fácil.
Sérgio de Almeida Correia VozesA machadada que faltava “There’s no regret more painful than the regret of things that never were.” (Fernando Pessoa, Portuguese poet translated by Richard Zenith, Lisbon 2006) [dropcap style=’circle’]O[/dropcap]matutino Ponto Final destacou, no passado dia 16 de Agosto (cfr. pág.ª 5), uma sugestão apresentada ao Executivo de Macau pelos membros da Assembleia Legislativa (AL) que integram a Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Terras e Concessões Públicas, no sentido de haver uma maior utilização da língua inglesa e de ser ponderada a “atribuição de um estatuto legal a esta língua”. Desconfiado do sentido da notícia, porque um tipo não se deve fiar em tudo o que lê, tomei a iniciativa de ler o relatório da referida Comissão para confirmar a sua veracidade. E, de facto, lá estava, preto no branco, a sugestão, na página 12, formulada nos seguintes termos: “8. incentivo a uma maior utilização da língua inglesa, ponderando a atribuição de um estatuto legal a esta língua”. Em resposta a esta sugestão, “os representantes do Governo concordaram que o inglês deve ter uma maior preponderância em Macau”. O relatório está assinado por Ho Ion Sang, que é também o presidente da Comissão, e pelos deputados Melinda Chan, Kwan Tsui Hang, Kou Hoi In, Leonel Alves, Tsui Wai Kwan, Au Kam San, Chan Iek Lap, Ma Chi Seng e Song Pek Kei. No dia seguinte, o jornal Hoje Macau publicou uma reportagem pela qual dava a conhecer mais alguns contornos da proposta. A deputada Melinda Chan, que assinou o relatório pelo qual se sugeria ponderar a atribuição de estatuto legal à língua inglesa, veio esclarecer que afinal “não seria sequer bom para Macau considerar oficialmente a língua inglesa”. Não percebi o que a levou a assinar o relatório, nem porque a senhora acrescentou que encorajava os jovens ao estudo do português, mas logo compreendi haver um vasto consenso sobre a matéria quando li que também o “nosso” deputado Pereira Coutinho, ex-candidato à Assembleia da República, comendador da Nação por graça e obra de um sujeito de Boliqueime e conselheiro das Comunidades Portuguesas desde 2003, se mostrou a favor de uma maior utilização da língua inglesa nos serviços públicos e na sinalização das ruas de Macau. Não vou aqui comentar as posições proteiformes de alguns, sempre prontos a mostrarem trabalho aos descendentes dos novos senhores feudais de Macau, mas seria bom que todos tivéssemos a noção de que a realidade não é a cores, o português tem vindo a perder o estatuto de língua oficial e só a muito custo sobrevive nestas paragens. De facto, bem podem os responsáveis do IPOR e alguns falantes acomodados do português dizerem que nunca houve em Macau tantos alunos do idioma de Camões, quando o facto é que a sugestão que partiu dos senhores deputados da AL, e que pelos vistos foi bem recebida pelo representantes do Governo, só veio confirmar aquilo que de há muito se sabia. O estatuto de língua oficial que o português ainda detém é fruto de um compromisso internacional entre a China e o Estado português, acolhido como muitas outras coisas de que ninguém quer saber na Lei Básica da RAEM, e cujo estatuto está consagrado no Decreto-Lei n.º 101/99/M, de 13 de Dezembro, estranhamente ainda em vigor. E digo estranhamente porque na prática o inglês já é língua “oficial” da RAEM e só não é ainda no papel por duas razões: porque ainda há quem se preocupe com o cumprimento das leis vigentes e, por outro lado, porque tem havido uma grande hipocrisia e falta de coragem política para afirmá-lo. Como afinal em quase tudo e sempre que não se trata de perseguir os jovens residentes permanentes que exprimem uma opinião desalinhada, porque aí e para lixar o mexilhão coragem é coisa que não lhes falta. Não é, aliás, a primeira vez que se fazem propostas destas para depois se dar o dito por não dito. Como que a ver se a coisa passa não havendo ondas. Ainda recentemente, numa polémica que está em banho-maria, deputados da mesma AL que aprovaram as alterações de 2013 à Lei de Terras vieram sacudir a água do capote dizendo que tinham sido enganados. Não se sabendo ainda quem anda a enganar quem, também não será de estranhar que amanhã todos os que assinaram o relatório da Comissão da AL que sugeriu a ponderação da atribuição do estatuto de língua oficial ao inglês se venham a demarcar da sugestão que unanimemente fizeram e do papel que assinaram. Porém, antes que o façam, convém dizer, como é evidente, e ao contrário do que meia dúzia de burocratas pensam, que não é o facto de haver muitos chineses a aprenderem português nas universidades ou a frequentarem os cursos promovidos pelo IPOR ou por qualquer outra instituição que vai alterar o estatuto de insignificância, desprezo e menorização a que na prática a língua portuguesa está actualmente votada em Macau. Não vale a pena disfarçar. Ainda há meses me dirigi aos balcões de vários serviços públicos, em português, sendo-me de imediato solicitado pelos funcionários que me atenderam que eu falasse em inglês. A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) enviou há semanas um questionário em chinês e inglês para ser respondido por escrito pelos advogados de Macau, documento que mereceu vivo repúdio por parte de alguns causídicos. Não tivesse havido esta reacção e não se teria enviado novo questionário em chinês e português. Nos estabelecimentos comerciais da Região, nos hotéis, nos restaurantes, nos avisos afixados em edifícios onde residem estrangeiros, nas comunicações recebidas de muitas entidades bancárias, na bilheteira do CCM quando se vai comprar um bilhete para um espectáculo, falando com os polícias, nas concessionárias públicas ou nas casas de massagens, seja em que circunstâncias for, é em inglês que em regra os não falantes de chinês se entendem, e tal acontece mesmo quando quem se dirige se expressa na segunda língua oficial de Macau. Noutra ocasião, um residente que só se expressa em português, na sequência de uma queixa por si apresentada junto do Ministério Público (MP), num processo de índole laboral, onde foi representado pelo MP, e que teve seguimento sendo proferida decisão final, foi notificado em Portugal, onde actualmente se encontra por razões de saúde, do sentido da decisão proferida, que até lhe era favorável, exclusivamente em língua chinesa. Nada disto é inocente. E tem merecido acolhimento inclusivamente por parte de responsáveis pelo poder judicial, no que pessoalmente considero – posição que tive oportunidade de transmitir a quem de direito pela vias próprias mas que há mais de um ano aguarda resposta – uma afronta à Declaração Conjunta entre Portugal e a China de Abril de 1987 e à própria Lei Básica de Macau. Refiro-me, para quem não sabe, é claro, ao permanente desrespeito pelo artigo 6.º do decreto-lei acima referido que consagrou o estatuto de igualdade das línguas portuguesa e chinesa. O facto de hoje em dia os mandatários portugueses em processos judiciais, não obstante a sua solicitação expressa para serem notificados em língua portuguesa, receberem notificações, despachos e sentenças em língua chinesa, língua que não dominam, constitui um grave atropelo aos direitos das partes e uma forma de se cercear o exercício de direitos de defesa. Repare-se que, ao contrário do que tem sido entendido (aliás mal) por alguns, não está em causa o direito indiscutível de quem profere as decisões a fazê-lo em língua oficial chinesa, mas apenas o direito dos destinatários dessas decisões serem notificados do seu conteúdo na língua que dominam, a qual tem (ainda) estatuto de língua oficial e é expressamente reconhecida em vários outros diplomas como o Código do Procedimento Administrativo. Perante este estado de coisas, eu pergunto se tem algum sentido que o português seja língua oficial da RAEM. Provavelmente, para os senhores deputados que sugeriram ao Governo da RAEM que ponderasse a atribuição de um estatuto legal à língua inglesa, isto bate tudo certo. Se há duas línguas oficiais, até pode haver três ou quatro. Ou nenhuma, bastando o cantonense falado e romanizado. Para o Governo da RAEM também deverá fazer sentido, pois que, de outro modo, os seus representantes junto da Comissão que fez a sugestão não se atreveriam a manifestar de viva voz a sua concordância com a sugestão. Assim sendo, rendo-me às evidências. E quero, por isso mesmo, deixar aqui um repto, uma vez que isso também poderá facilitar a vida a muita gente e deverá ser rápida e definitivamente consumado, que passa pela consagração desse objectivo de elevação do inglês a língua oficial da RAEM, com a consequente confirmação da atribuição à língua portuguesa do estatuto de indecência de que oficialmente já goza. Estou certo que a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça anseia por enviar recomendações aos notários para a celebração de escrituras e a prática dos actos notariais em inglês, a Associação dos Advogados está ansiosa por mandar traduzir para inglês os seus estatutos e o respectivo Código Deontológico (para permitir a alguns uma melhor compreensão do seu conteúdo), e os julgamentos e actos processuais judiciais poderão, finalmente, ser conduzidos em inglês, citando-se nas alegações Shakespeare e T. S. Eliot no original, e dispensando-se a sempre arreliadora tradução. O ideal seria mesmo que a proposta de lei fosse já apresentada em chinês e também em inglês, língua que não é estranha ao jornal oficial da RAEM. Com a unanimidade vigente na AL, onde pelas posições manifestadas até será possível colher os votos favoráveis dos deputados Leonel Alves e Pereira Coutinho, e com o sempre ajuizado, cómodo, economicamente compensador e subserviente silêncio das autoridades portuguesas sobre esta matéria, penso que será possível a apresentação, logo no inicio da próxima sessão legislativa, de uma proposta de lei que de uma vez por todas revogue o estatuto de igualdade entre o português e o chinês e confira o estatuto de língua oficial ao inglês. Com tantas assinaturas no relatório e o apoio do Governo deve ser fácil encontrar a coragem política que tem faltado para se avançar. Com tal proposta poder-se-ia dar consistência à máxima confuciana, constante da doutrina da rectificação (chêng ming), no sentido da administração do Estado reflectir a verdade das coisas, única forma da governação poder ter sucesso, o que pelo número de inquéritos judiciais, qualidade dos detidos, obras e imbróglios em curso se sabe que não tem acontecido. Oxalá que os senhores deputados sejam expeditos. E que o Chefe do Executivo lhes dê o indispensável ámen, antes mesmo de se deslocar a Portugal, para poderem avançar já com a iniciativa legislativa, aproveitando-se os dois meses estivais de paragem da AL. Uma proposta dessa natureza faria o pleno, beneficiaria do apoio unânime das concessionárias do jogo, das “subconcessionárias” reconhecidas e das putativas, dos junkets e até de muita da maltosa que gravita na esfera dos casinos e seus negócios e que só se entende em inglês ou em dialectos de Nápoles e do interior da Sicília quando negoceia com as autoridades dos Estados onde contribui para o PIB. Além de que, dar-se-ia a oportunidade a esse valorosos portugueses que beneficiam de subvenções vitalícias milionárias pelos “extraordinários” serviços que prestaram a Portugal, designadamente em defesa da língua portuguesa, para aproveitarem as suas reformas na aprendizagem de um inglês decente (patuá não tiveram tempo de aprender enquanto por aqui “governaram”), de maneira a que da próxima vez que voltarem a Macau possam explicar a toda a gente, a começar pelos “casineiros” e taxistas, o que andaram a fazer num idioma que os deputados entendam, lhes seja acessível e dispense tradução.
Isabel Castro VozesMorde aqui a ver se eu deixo [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]coisa acontece assim: eu, residente de Macau, perfeita conhecedora dos níveis de tolerância da polícia local, entro ali num prédio abandonado e decido pendurar uma faixa com um insulto a uma figura pública da terra. Como sei que há vários sentidos que não abundam na cidade – incluindo o de humor, se de uma piada se tratasse –, tenho a certeza de que responderei, pelo menos, por um crime. Ou por dois ou três. A polícia não brinca em serviço e alimenta as gordas dos jornais, pelo que amanhã estarei, sem dúvida alguma, na capa deste matutino. E nas dos outros, ora pois, que as notícias não abundam. Com sorte, entro no próximo relatório sobre a falta de liberdade de expressão em Macau. Mas eu, que até dei a entender ter estado na origem do acontecimento, não assumo o que fiz, porque há o segredo de justiça e coisa e tal. E, já agora, quem me conhece como jornalista que escreva a notícia sem fazer referência à profissão pela qual meia dúzia de gatos-pingados me identifica: chamem-me outra coisa qualquer que eu às vezes sou isto, outras vezes sou aquilo. O acontecimento Scott Chiang versus Alexis Tam, com o Hotel Estoril como pano de fundo, tem entrada directa no anedotário político local. Por várias razões, a começar pelo formato e a acabar na intenção. O rapaz da Associação Novo Macau – que, neste episódio, não quer ser conotado com a Novo Macau, embora a Novo Macau aplauda o sucedido – não se ensaia nas palavras e nos actos, diz não ter medo de nada, nem de ninguém, mas não assume a autoria da intervenção activista da semana. No plano das intenções, Scott Chiang está apreensivo com o património da terra, preocupação que só lhe fica bem e que é partilhada pelas gentes que amam a cidade. Recusa ser protagonista de manobras eleitoralistas, fez a coisa que afinal-não-diz-que-fez por amor à camisola, neste caso o edifício do antigo Hotel Estoril, acusa o secretário de falta de debate público, de homicídio dos bens valiosos da urbe. Como membro de uma associação que, independentemente de gostos e preferências, até há bem pouco tempo era levada a sério por pessoas com diferentes posturas na vida, o activista não debate, não organiza mesas redondas, não chama dois ou três especialistas para uma troca de ideias, não sugere uma alternativa. O activista age. Age mais ou menos – não sabemos se foi ele que agiu, que o protagonista alega o silêncio que a justiça impõe. Em suma: andam todos a trabalhar para os jornais. Os novos da Novo Macau e a polícia de enraizados costumes. A malta da comunicação social agradece, é assunto para uns dias valentes e daqui a uns tempos volta a ser notícia, quando se for ver o que aconteceu ao processo. Além de estarem a trabalhar para os jornais, uns e outros contribuem para que o debate não aconteça, porque nestas linhas que escrevo o património fica de fora, se ainda houvesse alguma coisa para discutir em torno do Estoril. Assunto mais debatido – para a esquerda e para a direita, por dentro e por fora – não há. Certo é que estes episódios de provinciana política vêm aumentar a estranha fogueira em que se quer colocar Alexis Tam – e é aqui que Scott Chiang e os parceiros poderão estar a desempenhar um papel mais ou menos consciente e mais ou menos perigoso. Percebeu-se desde o início que o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura não ia ter a vida facilitada. A gestão pública de um ou outro processo não ajudou à missa: o caso Estoril não foi particularmente bem dirigido e esta condução atribulada tem resultados à vista. Goste-se ou não do estilo, simpatize-se ou não com Alexis Tam: num exercício de distanciamento, é visível, a olho nu, que existe interesse (ou vários interesses) em colocar pedras num caminho já cheio de buracos, por via da inacção do passado e da sobrecarga de tarefas do presente. Goste-se ou não do secretário, basta ler os títulos dos jornais para se perceber que não há movimento respiratório que Alexis Tam faça que não seja alvo de críticas. Se foi é porque não devia ter ido, se consultou não devia ter ouvido, se não ouviu devia ter falado. Se vai fazer é porque vai gastar dinheiro, se deixar tudo como está é porque não se interessa, não faz, é igual aos outros. Se agrada a uns é porque é mais isto, se satisfaz outros é porque é mais aquilo. Em suma: não há pachorra. Não haveria pachorra se tudo isto não fosse sério, talvez mais sério do que aparenta ser. Pensar que Scott Chiang é um menino nas artes políticas não é um erro total, mas pode corresponder a uma análise pouco aprofundada. Atribuir às eleições do próximo ano a culpa pelos dedos em riste é uma explicação plausível, mas só em parte. Em Macau, há sempre mais qualquer coisa, qualquer coisa mais opaca do que aquilo que nos é mostrado. Andamos todos entretidos com o burburinho activista e, às tantas, o que importa passa serenamente ao lado, entre os pingos da chuva que abunda e é forte. Um dia destes ainda vamos todos perceber o que efectivamente se está a passar, que interesses maiores se erguem por aí. Ou talvez não, talvez não nos contem e a gente nem dê pela ausência de explicação, entusiasmados que estamos, de pipoca na mão, a achar que é com episódios emocionantes como o do Hotel Estoril que o mundo pula e avança.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA morte do sonho presidencial de Donald Trump “A President commands respect and requires people to look up to them in awe, but Trump has been the butt of jokes around the world for a while now. From his hideous hair to his attitude on the television show he hosts to the “infrastructure” his company builds – everything he does is a subject of roasts across the world. Do we really need a guy who is the center of jokes to be the most powerful person in, and the face of, our nation? This man will push back America’s cultural progress by about four to five decades, if not more! He is also one of the stupidest people to run for this position!” Donald Trump: The Top Reasons He Must NOT Win The 2016 Presidential Election Joseph Stewart [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]candidata presidencial democrata fez um longo, cerrado, atiçado e bem fundamentado discurso em Columbus, Ohio, a 21 de Junho de 2016, criticando magnificamente o plano económico do magnata e candidato republicano, que enviaria directamente todos os americanos para uma recessão, caso fosse eleito presidente, e que ficaria conhecida como a “Recessão Trump”. Os mais prestigiados economistas de todos os quadrantes políticos dão a entender que as ideias do candidato republicano seriam economicamente desastrosas. Efectivamente Donald Trump escreveu muitos livros sobre negócios, mas todos parecem terminar no capítulo onze, numa irónica referência feita por Hillary Clinton ao “Código de Falências dos Estados Unidos”, em que o criticado afirmou que tudo faria para encontrar uma solução para o reembolso integral dos títulos da dívida soberana americana. A candidata democrata que à data se encontrava praticamente nomeada candidata presidencial pelo Partido Democrata, afirmaria que a confiança que o mundo tem nos Estados Unidos e o crédito que lhe é dado, não dá lugar a jogos de qualquer natureza, e que poderiam causar uma catástrofe económica. A verdade é que mesmo que os Estados Unidos vendessem todos os aviões, a “Estátua da Liberdade”, ou se permitissem algum multimilionário converter o “Parque Nacional de Yosemite”, em um clube de campo privado, não conseguiria aproximar-se do valor da dívida. A dívida dos Estados Unidos é de tal grandeza, que é de crer que ambos os candidatos não têm uma ideia correcta, o que explica que a ignorância do candidato republicano seja superior a essa dimensão, permitindo-lhe brincar com a dívida. É de lembrar a persistente negação do candidato republicano de publicar a sua situação fiscal, uma tradição nas campanhas presidenciais, e que o magnata afirma ser impossível de o fazer, porque está a ser objecto de uma auditoria pelo “Internal Revenue Service (IRS) ”, que é um serviço da receita do Governo Federal dos Estados Unidos e que faz parte do Departamento do Tesouro. O que receia? Talvez queira que os americanos desconheçam que não pagou os impostos correspondentes às suas descomunais receitas, ou porque talvez não seja tão rico como diz, ou que não tenha contribuído tanto para obras de caridade como alardeia. Todavia, os americanos devem conhecer a sua situação fiscal, antes de 8 de Novembro de 2016, data da realização da 58.ª eleição presidencial dos Estados Unidos. A candidata democrata destruiu, assim, ponto por ponto, o plano económico do seu oponente nesse mordaz discurso que considera Donald Trump, como demasiado perigoso para gerir a economia dos Estados Unidos. A ex-secretária de Estado, Hillary Clinton foi nomeada oficialmente candidata presidencial pelo Partido Democrata, na “Convenção Nacional do Partido Democrático”, a 26 de Julho de 2016, obtendo os votos de mais de dois mil e trezentos e oitenta e dois delegados na “ Wells Fargo Center” de Filadélfia, tornando-se a primeira mulher a representar um dos principais partidos políticos dos Estados Unidos, cabendo-lhe a árdua tarefa de unir o partido atrás da sua candidatura. Terminou o tempo dos risos, piadas e palhaçadas, não apenas para o lado Republicano, mas também para o lado dos seus adversários. O caricaturado pretendente republicano converteu-se primeiro que Hillary Clinton, em oficial candidato presidencial pelo Partido Republicano, com uma liderança conservadora que perdeu o contacto com a realidade. A “Convenção Nacional do Partido Republicano”, realizou-se na “Quicken Loans Arena” em Cleveland, Ohio, de 18 a 21 de Julho de 2016, escolhendo os candidatos a Presidente e Vice-presidente dos Estados Unidos às eleições presidenciais. Existia a possibilidade de uma manobra para o fazer renunciar ao cargo durante a convenção do partido, mas que o iria fragmentar ainda mais nas várias facções existentes e quiçá nunca recuperasse. Assim lançados os dados, serão todas as oportunidades de Hillary Clinton? Terá de enfrentar o tagarela de Donald Trump, que deixará detalhadamente registado tudo o que pensa sobre as mulheres, em geral, e sobre a sua oponente, em particular. Donald Trump parece que não terá a possibilidade de ganhar as eleições presidenciais, como punição pela tumultuosa, insidiosa e insultante campanha que realizou até ao momento, repleta de escândalos e conseguindo como nenhum outro candidato arrecadar ódio e dividir os americanos, principalmente os do seu partido, num juízo racional, mas será que na realidade, não terá mesmo a possibilidade de ganhar as eleições presidenciais? O mesmo se dizia da sua potencial candidatura e tudo indica que a ordem política perdeu o contacto com o seu eleitorado. O aparecimento e aumento quase irresistível de popularidade de Donald Trump, explica-se pela ligação de três décadas contínuas de recuo e declínio das classes médias americanas e da estagnação do crescimento na produtividade que o país experimentou durante um século e meio. Existe muita raiva que é traduzida de alguma forma, no favorecimento de candidatos muito afastados do modelo presidencial tradicional. O destino dos Estados Unidos, naturalmente preocupa os americanos, mas também o resto do mundo. Daí que muitos se interroguem que se por mero acaso, Donald Trump viesse a ganhar as eleições presidenciais, que faria em matéria de política externa? Ao longo da sua virulenta campanha deu pistas e sinais claros do que seriam as suas acções, desde logo sobressaindo a ideia de que as alianças pagam-se, ou seja, quem queira ser protegido pelos Estados Unidos deve pagar por essa protecção. O candidato presidencial republicano, defende que a Europa deve suportar na totalidade as despesas que os Estados Unidos gastam com a sua presença na NATO. Todavia esquece-se que a defesa do Atlântico Norte é uma questão primordial para segurança do país, e é uma região estratégica de eleição, impensável de ser posta em causa e sequer discutida. Tal pensamento tem Donald Trump afirmado e propagado sem meias tintas, pois afirma que milhões de dólares são gastos em aviões, mísseis, barcos e toda a logística envolvida que tais acções não podem ser gratuitas. Os Aliados devem reintegrar o total ou grande parte dessas despesas, o mesmo sucedendo na Ásia, com o Japão e outros países protegidos pela frota do Pacífico, o que iria em sentido oposto ao que está a fazer o actual presidente americano. O candidato presidencial republicano, ainda que as suas ideias não tenham em conta o sentido da história, razoabilidade e o equilíbrio dos interesses em presença, esclarece que não pediria a esses países que aumentem a sua despesa militar e não reclamaria que paguem as despesas de grande parte das bases americanas no exterior, mas exigiria que os países sob protecção americana, suportassem uma parte significativa do orçamento da defesa dos Estados Unidos, para continuarem a usufruir da permanência das forças armadas americanas nessas regiões. O montante poderia ser de várias centenas de milhões de dólares anualmente, mas como nenhum país estaria disposto a pagar tal contribuição, o candidato presidencial republicano em total irresponsabilidade e falta de senso, remata que não restaria outro remédio que o de acabar com os actuais compromissos. Donald Trump não acredita que os Estados Unidos tenham interesses estratégicos nos continentes Europeu e Asiático, interpretando muito bem, o sentimento de muitos americanos que pedem uma retirada da América, e um retorno ao isolacionismo dos princípios do passado século. O próximo presidente da União, quem quer que seja, sofrerá uma enorme pressão popular, contra o envolvimento dos Estados em todos os problemas e regiões do planeta. Talvez não se tenha entendido bem, que se deu uma mudança fundamental nas visões políticas dominantes nos Estados Unidos, pois vastos conjuntos de eleitores, classes médias e baixas, brancas, negras e latinas culpam a globalização, a cobiça desmedida das empresas, por todos os sofrimentos que tem passado, em especial, a falta de esperança em uma vida melhor para os seus filhos e netos. Se Hillary Clinton vier a ganhar as eleições presidenciais americanas, como prevêem as sondagens de 5 de Agosto de 2016, que lhe dão 47, 4 por cento das intenções de votos, contra 40,6 por cento atribuídas a Donald Trump, a sua política será de desenvolvimento na continuidade da seguida por Barack Obama, tanto mais que a economia americana continuará a crescer 3,7 por cento no terceiro trimestre de 2016. O candidato presidencial republicano está a atrair cada vez mais críticas, quer no seio do seu partido, como no partido rival, acerca dos comentários sobre os pais de Humayun Khan, capitão do exército americano, muçulmano-americano, falecido em combate, e cujo pai deu um inflamado discurso na “Convenção Nacional Democrata”. O presidente Barack Obama afirmou que Donald Trump não estava preparado para assumir a presidência dos Estados Unidos, e vários nomes sonantes do Partido Republicano, têm afirmado que irão votar na candidata democrata. A continuar este percurso, Donald Trump talvez se auto-destrua antes das eleições presidenciais, levando consigo a reboque o Partido Republicano, morrendo o seu sonho de ser presidente dos Estados Unidos.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesStriptease e outras inconveniências no Tribunal [dropcap style=’circle’]E[/dropcap]ste fim de semana o “Yahoo” deu destaque a um caso ocorrido no Tribunal de Recurso de Hong Kong. Uma mulher da China continental tinha apresentado um recurso alegando que a Administração do Tribunal de 2ª Instância não tinha dado seguimento ao seu caso. Antes da queixosa dar entrada na sala do Tribunal, dois seguranças pretenderam revistá-la, situação que muito a revoltou. De repente, tirou as calças, começou aos gritos e, em seguida, viu-se livre de toda a roupa interior, voltando a gritar, “procurem, procurem.” Os seguranças interromperam de imediato a inspecção e pediram a ajuda da polícia. Os agentes recolheram os dados da queixosa e foram-se embora. Três juízes do Tribunal de Recurso presenciaram este caso e apresentarão posteriormente o seu parecer por escrito. A administração do Tribunal não explicou porque é que tinha destacado dois seguranças para revistar a mulher. No entanto, da última vez que se tinha apresentado em audiência, esta mulher tinha atirado dois ovos a um juiz por ter ficado insatisfeita com a decisão do Tribunal. Por causa desta acção, foi acusada de agressão simples (que não envolve o uso de armas, nem implica ofensas corporais) e acabou por ser presa durante quatro semanas. Esta interposição de recurso, foi o primeiro caso legal em que esteve envolvida depois de sair da prisão. A notícia não é grande novidade, no entanto os seus efeitos são significativos. Despir-se em Tribunal e desatar aos gritos à entrada de uma sala de audiências é um comportamento incorrecto. Não fica bem a gente civilizada. O Tribunal é um local que se destina a resolver questões legais. Não é local para gritarias e desacatos. Estes comportamentos criam pressão sobre o juiz. Alguém pode pensar que a decisão de um juiz nestas circunstâncias será justa e imparcial? É preciso não esquecer que num Tribunal se efectuam muitas e diferentes audiências. Os desacatos perturbam também outras salas. Não é aceitável que juízes tomem decisões quando não conseguem ouvir claramente todos os intervenientes. Este comportamento pode afectar de forma indirecta outros julgamentos. Atirar ovos a um juiz é outra forma completamente inaceitável de agir. Se todas as pessoas que ficam descontentes com as decisões do Tribunal, decidissem agredir os juízes, como é que estes se sentiriam à vontade para entrar numa sala de audiências e proferir um julgamento? A agressão só levaria a que os magistrados não comparecessem em Tribunal, não levaria à resolução na contenda. E se ninguém quisesse ser juiz, o que acontecia à nossa sociedade? Só podemos concluir que este tipo de comportamento prejudica gravemente o Estado de Direito. Se estes desacatos imperassem, íamos todos sofrer com isso. A confiança no sistema legal seria completamente destruída. É compreensível, e até expectável, que uma pessoa que fica insatisfeita com uma decisão do Tribunal se manifeste. Mas essa insatisfação não pode ser levada à sala de audiências e exercer pressão sobre o juiz. Este comportamento afecta as decisões dos magistrados e acaba por ser nocivo para todos. Como já referi, este tipo de desacatos não são novidade em Hong Kong. Já vimos muitas pessoas descontentes com decisões do tribunal a protestar e a gritar junto à sala de audiências. É um sinal das mudanças na nossa sociedade. Antigamente, quando uma sentença era proferida, toda a gente a acatava. Quer se concordasse, quer se discordasse, o caso terminava aí. Esta era, não só uma forma de mostrar respeito pelo Tribunal, mas também de manter o Estado de Direito. Mas actualmente, quem perde o caso põe-se aos gritos, protesta ou usa a força, para demonstrar a sua insatisfação. Este fenómeno demonstra que existem conflitos sérios na sociedade de Hong Kong. O julgamento pode resolver a contenda, não pode solucionar os problemas que lhe são subjacentes. Em termos sociais, é inaceitável qualquer caso de agressão a um juiz. A curto prazo, a manutenção do Estado de Direito será possivelmente uma das prioridades do Governo de Hong Kong. *Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Isabel Castro VozesDo vazio [dropcap style=’circle’]P[/dropcap]ara nos interessarmos pelas coisas temos de acreditar nelas. Há muito que a política de Macau me causa um profundo desinteresse, por descrédito absoluto. Não me refiro às políticas, que essas mexem no quotidiano de todos, mas sim à política, esse conceito que, por aqui, é quase um palavrão mas que, noutros pontos do planeta, tem o seu interesse, por motivos diversos que não faz sentido aqui especificar. Macau. A política de Macau. Uma lei eleitoral que quer acabar com a corrupção, os almoços e os jantares à borla que, sendo à borla, não são grátis. Uma lei eleitoral que se propõe tolher os movimentos das associações, das que não têm dinheiro para a oferta de massas instantâneas e das que servem barbatana de tubarão na sopa. Uma lei eleitoral que pensa na influência do sector do jogo na política, os junkets na política, os homens e mulheres dos casinos na Assembleia, os políticos mais votados, os que não temem restrições a nada nem vindas de onde quer que seja, os políticos mais bem-sucedidos do burgo. Os políticos mais admirados, a acreditarmos na pureza dos votos. Os votos imaculados que se quer ir buscar a um eleitorado com muitas manchas, sem ter culpa de as ter, ou não, com a culpa toda da ganância pequenina, a ganância da massa instantânea e da barbatana de tubarão no caldo. Nem que seja a cada quatro anos, para se ficar de palito na boca e barriga regalada por uma noite. A política de Macau. A política que, de tão fraca que é, nem sequer retórica apresenta. A política que se escuda no abrandamento económico para não ser política, não ser nada, não ser debate, e nem por aí vem o interesse. A política talvez como mero exercício legislativo. Um entediante exercício quando desacompanhado de ideias. A política daqui. Os políticos daqui. Uma Assembleia Legislativa pouco respeitada, um Governo em descrédito parcial desde o início, desde que assumiu funções. Um Governo que talvez, no plano das políticas, das coisas técnicas, possa contribuir para limar uma ou outra aresta das muitas que nos picam quando nos movimentamos na cidade. Mas a quem falta política. A política que tem que ver com a educação para a política, para a coisa pública, a educação para o outro. A educação. Ou é da paciência que, com o passar do tempo e com o aumento das exigências do meu quotidiano, começa a ficar mais pequena, ou então não é de mim, é mesmo da degradação de um certo modo de estar que não encontrei quando aqui cheguei e que me chateia cada vez mais. É nas pequenas coisas que a falta de educação se sente, se vê, está lá. No modo como os serviços são prestados, os simples serviços. Os taxistas que, naquele primeiro contacto com Macau quando aqui se chega de barco, não se mexem para abrir uma porta, para abrir a bagageira. Fazem-no de dentro do carro e não mexem um dedo, quanto mais uma mão, para ajudar a meter uma mala, um carrinho de bebé, o bafo à chegada que é sempre mais intenso do que o outro, aquele que vem depois, o bafo misturado com o duvidoso cigarro chinês que é fumado na interminável fila de malas que se arrastam pelo chão sujo. O fiscal que está ali não se percebe exactamente com que funções, se tem muitas malas espere aí mais um bocadinho, as crianças aguentam, deixem lá passar quem se despacha mais rápido. Tudo ao contrário, o suor quente e o suor frio a escorrer pelas costas, a educação que falta, a falta de educação. As políticas que, afinal, não funcionam, porque as boas intenções têm de ser acompanhadas de pessoas bem-intencionadas. E educadas. A irritação do quotidiano nos pequenos serviços prestados fora das horas acordadas, a irritação do quotidiano porque já passaram três autocarros vazios entre as oito e as oito e dez da manhã e vão os três para o mesmo sítio, têm os três o mesmo número, vão vazios e nem param por manifesta falta de interessados, e o autocarro que queremos que não chega. A falta de educação de quem quer entrar no autocarro mais cedo, mais depressa, apanhar o primeiro banco, o mais vazio, não interessa a canelada que se deu. A educação que falta e que, lá no fundo, se contenta com a massa instantânea e se delicia com a barbatana de tubarão mergulhada na água, porque isto está tudo ligado, as coisas estão sempre todas ligadas. A educação que faz com que só se saia à rua quando em causa está o dinheiro, mesmo que o dinheiro seja coisa que não falte, mas é o dinheiro que está em jogo, não é o ar puro que está em questão, nem o direito a condições laborais mais dignas, ou menos indecentes, é mesmo só o dinheiro. A educação do dinheiro, o dinheiro que não educa e que não compra o que não está à venda. O descrédito. Ou então o desencanto, primos próximos, demasiado unidos. Somos muitos mais do que éramos há dez anos mas não somos melhores, nós, os que andamos por aqui. Não é o descrédito total. Macau continua a interessar-me, ainda acredito nela, ainda acredito na cidade embora a veja pouco, de pouco acessível que se tornou. Uma cidade que se estica para cima e para os lados e que se enche de pessoas, mas que não pára para pensar no que andamos todos aqui a fazer. É a política, pá. A política que não há, mas que faz falta.
Fernando Eloy VozesSubtropical (episódio III) (continuação da edição passada: “Acredita quando mais ninguém for capaz, mesmo quando tudo parecer indicar o pior.” Assim era de facto e a tempestade que normalmente achamos trazer apenas desgraças tinha sido o seu bilhete para a salvação.”) [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]ssim foi. A tempestade tinha liberto Jacinto e, com esforço e algum jeito, lá conseguiu trepar os metros que o separavam da salvação. Mas a chuvada estava a perder o “sex appeal” muito rapidamente; ao ponto de já não ter piada nenhuma, ao ponto de o enregelar e fazê-lo desejar, com toda a sua intenção, por um raio de sol que o aquecesse. A chuva caiu forte por mais uns bons minutos mas acabou por amainar. Estilo subtropical. Jacinto verificou a mochila que ainda tinha aos ombros. Deu graças pelo dinheiro extra que tinha pago, e que tanto lhe tinha custado a dar, por uma versão impermeável e revolveu os seus poucos haveres. Não encontrava nada. Já febril e de respiração suspensa, revolveu mais ainda até que se lembrou do compartimento secreto. Ali estavam. Ainda lhe restavam três. Respirou de alívio. Mas agora chegava a fome. Daquelas fomes impiedosas que não nos deixam pensar. Os mantimentos existiam mas não eram muitos. Jacinto sabia que não iriam durar muito mais mas aquela lazeira animalesca tinha de ser apaziguada. Era o mínimo depois de tudo por que tinha passado naqueles últimos momentos. Resolveu-se por uma porção mais avantajada do que a necessária austeridade obrigava mas, pensou Jacinto, “se tiver de ir, ao menos que vá de barriga cheia. Hei-de arranjar mais”, concluiu com um optimismo quase inesperado. Lembrou-se dos vietnamitas do sul, que levavam uma vida leve por saberem terem três colheitas por ano; Jacinto também tinha três mas não se podia comparar às colheitas vietnamitas. Eram três, todavia, o número que alguém um dia lhe disse ser sagrado. Mas Jacinto estava sozinho, era apenas um, e também sabia que poucos aguentavam a penúria naquele território aparentemente acolhedor mas profundamente hostil. Podia ser que alguém o ajudasse, mas também poderia ser que o seu destino fosse definhar até morrer sem alguma vez chegar ao destino sonhado. Jacinto engoliu duas latas de feijoada, um bolo seco e pegou numa das duas mini garrafas de champanhe que tinha decidido trazer, não fosse a ocasião justificá-lo. Olhou para a garrafa com um ar divertido. O chão era agora um autêntico pântano e Jacinto estava encharcado até aos ossos, pés ensopados mas, em vez de se sentir miserável, abriu a garrafa e emborcou o borbulhante goela abaixo, daquela garrafa que um dia teria visto o sol de uma quinta francesa e escutado o trinar primaveril dos pássaros. A chuva continuava. Mais leve. Estilo subtropical. Ao longe, Jacinto viu um relâmpago rasgar o céu cinzento chumbo, mas também reparou que o subsequente trovão demorou algum tempo até ser escutado. “O pior já passou”, pensou, pelo menos no que à tempestade dizia respeito. Aos poucos, o céu começou a clarear e não um mas três raios de sol rompiam agora o tecto cinzento. “Magia”, pensou Jacinto divertido, lembrando-se dos três que lhe restavam e pensando estar, talvez, ali um bom augúrio de alguma espécie. Os três raios deram lugar a uma aberta considerável e Jacinto sabia que pelo menos ia conseguir secar. Confirmou de novo que ainda tinha três de sobra. “Podia ser melhor, mas também podia ser muito pior”, pensou. Pelo menos davam-lhe algum aconchego e tempo para descobrir alguma forma de passar para o outro lado do desfiladeiro. Não muito, mas algum. Talvez mesmo à justa, talvez não desse, sequer, para chegar a meio caminho. Encolheu os ombros. As nuvens negras moviam-se agora na direcção do destino que Jacinto acreditava estar para lá daquela garganta inclemente que o barrava. Mas, agora, nem os contornos adivinhava tanto era o negrume para aquelas bandas. A imagem fê-lo reflectir sobre se a sua teimosia não o estaria a levar para uma tempestade ainda maior no sentido mais lato do termo, mas acabou por afastara a ideia e decidir não pensar mais nisso. A realidade é que ele não fazia a mínima ideia, nem sequer isso interessava agora. Não tinha feito aquele caminho todo para agora começar com filosofias baratas. O melhor era começar a andar. Talvez existisse uma passagem mais estreita. Talvez mesmo outra ponte, de preferência mais consistente do que a anterior. Talvez aguentasse mais um mês a andar, talvez mais, até aguentaria três se fosse poupadinho e soubesse preservar as energias. “Para trás mija a burra” dizia-lhe a mãe tantas vezes quando ele era criança. Sorriu com a lembrança e teve a certeza que ainda não era altura para desistir. Para além disso, o Outono estava para chegar e previam-se dias bons para caminhar. (continua) Música da Semana “Silly Boy Blue” (David Bowie, 1969) You wish and wish, and wish again You’ve tried so hard to fly You’ll never leave your body now You’ve got to wait to die La la la la la la la la la la [x2] La la la la la [x2] Silly boy blue, silly boy blue Child of the Tibet, you’re a gift from the sun Reincarnation of one better man The homeward road is long You’ve left your prayers and song Silly boy blue, silly boy blue Silly boy blue, silly boy blue
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesAo trabalho… nem tudo o vento levou [dropcap style=’circle’]H[/dropcap]á alguns dias o tufão Nida passou por Macau. O Nida recebeu sinal 8 em Hong Kong, e sinal 3 em Macau. Felizmente em Macau não provocou danos dignos de monta. Mas a “visita” do tufão levantou uma questão que passamos a analisar. Prende-se com questões laborais e leva-nos a reflectir sobre os horários de trabalho. É evidente que este assunto não é novidade para ninguém. O tufão Nida era potencialmente muito devastador. Inicialmente em Hong Kong temeu-se que pudesse chegar ao grau 10. Em Macau foram tomadas medidas para preparar a sua vinda. Como acabou por se perceber que aqui a tempestade não passaria do grau 3, os horários de trabalho acabaram por não ser alterados. No entanto a questão mantém-se. Que horário laboral deve ser considerado durante um alerta de tufão de grau 8 ou superior? Sobre este assunto a Lei de Trabalho não se pronuncia. A nossa lei laboral não faz qualquer referência a procedimentos em caso de tufões fortes. No site da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais menciona-se que, em situação de tufão de sinal 8 ou superior, a entidade patronal e os trabalhadores devem chegar a um acordo. Na medida em que a lei não regula sobre esta matéria é importante que os contratos de trabalho feitos em Macau a tenham em consideração. É preciso não esquecer que aqui muita gente trabalha na área de serviços e, parece praticamente impossível, dispensar todos estes trabalhadores se passar um tufão muito forte. Poderia haver consequências muito negativas em termos sociais. Mas a ausência de qualquer legislação sobre este assunto também não é justa para os trabalhadores. Em situações deste género é perigoso sair de casa, as pessoas sujeitam-se a ter acidentes. O site da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais adianta ainda que numa situação de tufão de sinal 8 ou superior, a empresa que solicite os serviços dos funcionários é obrigada a fazer um seguro de trabalho. O estipulado pela lei 40/95/M não deixa dúvidas. No caso de uma pessoa se deslocar para o trabalho durante a ocorrência de um tufão de sinal 8 ou superior, qualquer acidente que sofra nas três horas que antecedem a sua chegada ao serviço, ou nas três horas após a sua saída, será tratado como um acidente de trabalho. Caso o acidente se verifique, a empresa deverá comunicá-lo ao Departamento Laboral de Macau, no período máximo de 24 horas, e o empregado pode receber uma compensação por cada duas semanas que fique impossibilitado de trabalhar. O seguro de trabalho garante protecção para os períodos de deslocação entre a casa e o trabalho. Se este seguro não tiver sido feito, então será a empresa a responsável pelas indemnizações e ainda será penalizada. Terá de pagar uma multa de 5.000 patacas por empregado. Este enunciado parece ser bastante claro, mas na prática não o é. Imaginemos que o empregador ignora estas instruções. Que posição deve tomar o empregado? É evidente que o empregador deve assumir a responsabilidade caso haja um acidente de trabalho. Como atrás referimos, a entidade patronal será punida se o seguro não cobrir acidentes de trabalho. Para além disso, não parece existir mais nenhuma medida que proteja efectivamente o funcionário. Pedir aos empregados que negoceiem com os patrões em casos desta natureza não tem qualquer efeito, já que, se houver um acidente, este será coberto pelo seguro que terá obrigatoriamente de incluir acidentes de trabalho. Desta forma, o patrão tem legitimidade para continuar a exigir que o empregado trabalhe mesmo que haja um tufão muito forte. Para além disso, as pessoas precisam do emprego mais do que os patrões precisam delas. O poder negocial dos empregados é inferior ao dos patrões. Na verdade, é não seguro ir trabalhar em presença de um forte tufão. Caso se dê algum acidente, mesmo que o seguro garanta uma compensação monetária, a pessoa continua a sofrer os danos físicos causados. Se perdermos dinheiro, podemos trabalhar mais afincadamente, e voltar a ganhá-lo. Mas se sofrermos danos físicos, por exemplo, se perdermos uma perna num acidente de trabalho, não a podemos recuperar mesmo que nos paguem um milhão de dólares. É o tipo de perda que não pode ser compensada por dinheiro nenhum deste mundo. Tendo tudo isto em consideração, concluímos que é melhor para todos pensar-se num método que estabeleça um equilíbrio entre os interesses dos patrões e dos empregados em situações de catástrofe iminente. Já que é dever do empregador accionar um seguro que cubra acidentes de trabalho, o melhor a fazer é informar o empregado sobre todos os pormenores do contrato com a seguradora. Por exemplo, o funcionário deve ficar a conhecer todas as circunstâncias que não são cobertas pelo seguro. O empregado também deve ter conhecimento se houver alteração de seguradora. Se algumas pessoas forem obrigadas a trabalhar mesmo sob condições atmosféricas muito adversas, é aconselhável que a nossa lei de trabalho estipule que o contrato laboral deve incluir todas estas condições. Devem ser mencionadas obrigatoriamente, à semelhança do nome do trabalhador e do salário que vai auferir. Porque que não usar a mesma lógica para regular as condições laborais em caso de tufão forte? Para além disso deveria ser dado às pessoas o direito de não sair de casa, ou do local de trabalho, se as condições atmosféricas forem particularmente violentas, isto se entidade patronal não tiver um seguro que cubra acidentes de trabalho. O direito de nos recusarmos a trabalhar é mais importante do que as compensações monetárias. Ninguém em seu perfeito juízo troca a integridade física por dinheiro. * Consultor Jurídico da Associação Para a Promoção do Jazz em Macau
Paul Chan Wai Chi Um Grito no Deserto VozesJá não há estórias de encantar [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]s três Feiras do Livro anuais que se realizam em Macau não têm um décimo da dimensão da Feira do Livro de Hong Kong. Há quem ache que hoje em dia as Feiras do Livro se limitam a ser locais de grande aparato para venda de livros em série, mas esse é apenas um dos aspectos da questão. As Feiras do Livro de Macau destinam-se apenas a vender livros e não possuem todo o envolvimento comercial que caracteriza a Feira de Hong Kong, na qual os visitantes podem, inclusivamente, actualizar-se sobre os mais recentes acontecimentos sociais. Não se vai à Feira do Livro de Hong Kong só para comprar livros. Este ano, a Feira de Hong Kong não apresentou a selecção dos “autores do ano” porque, antes do mais, os “autores do ano” nomeados se recusaram a comparecer, e depois porque não havia autores nomeados, à altura. Estas duas razões não parecem ter relação entre si, mas na verdade existe uma relação causa-efeito entre ambas. Numa sociedade orientada para o negócio, como a de Hong Kong, é muito difícil fazer carreira como escritor e por isso existem poucos escritores famosos e intelectualmente competentes. Por outro lado, como os editores e livreiros procuram sobretudo obter lucro, expõem nas montras os livros mais recentes durante três meses consecutivos. É evidente que desta forma os livros são promovidos e vendem mais. Mas os jovens escritores desconhecidos têm muita dificuldade em divulgar o seu trabalho. Com a fraca promoção que recebem é complicado virem algum dia a fazer carreira. No pólo oposto temos os escritores sensacionalistas que dominam os meandros da promoção e publicidade, e são estes que acabam por ter sucesso. Com dados tão viciados será que ainda é possível encontrar verdadeiros escritores? Quando os editores e livreiros olham para a cultura com um negócio, é quase impossível ver surgir novos escritores e menos ainda escritores com um pensamento independente. Salientemos de novo que, este ano não houve nomeações para “autores do ano” na Feira do Livro de Hong Kong, embora o tema escolhido tivesse sido a literatura “Wuxia”, romances de artes marciais, um género bastante popular entre os leitores nostálgicos de aventuras dos bons velhos tempos. E isto porque os laços genuínos de amizade e lealdade que se encontram nos romances “wuxia” já não são reconhecíveis pela sociedade actual. A feira deste ano, mais comercial do que nunca, também evidenciou algumas dissensões sociais, que se manifestaram através de diferentes chavões formados por uma combinação de um número reduzido de palavras chinesas (caracteres). Cada palavra chinesa (caractere) tem a sua própria pronunciação, que faz parte da sua estrutura, e que é construída pela forma e pronunciação. Quando duas ou mais palavras (caracteres) são associadas para formar uma nova expressão (chavão) mantendo-se a pronunciação de cada uma das palavras simples (caractere), estamos perante uma invenção que não faz muito sentido em termos práticos. Estes chavões apenas revelam o actual estado das coisas em Hong Kong. Os livros e artigos repletos de chavões, proporcionam ao leitor uma emoção primária. Aqui vão alguns exemplos: Paz-Racional-Não-violência-Não-profanação, esquerdista, confrontações violentas, etc. O uso de chavões na escrita, juntamente com a venda de livros sobre a Revolução dos Guarda-Chuva, confrontações violentas e desobediência civil, demonstram os problemas com que se debate Hong Kong actualmente. Estes problemas não terminaram quando o Movimento Occupy Central foi neutralizado. Antes pelo contrário, foi-se afirmando uma gradual intensificação das contradições sociais. As eleições para o Conselho Legislativo de Hong Kong, agendadas para Setembro próximo, vão ser palco de confrontações políticas entre pessoas com diferentes pontos de vista. Existe uma série de problemas que só poderão ser resolvidos depois das eleições para a chefia do Executivo, a ter lugar em 2017. A partir do momento em que as feiras do livro se comercializam, os estudantes passam a ter ao seu dispor uma grande quantidade de materiais de apoio escolar. Os jovens de Hong Kong recebem uma formação orientada para as “notas”, por isso pergunto-me qual vai ser o seu posicionamento em relação às questões sociais. Houve pessoas que se insurgiram contra os jovens que atiraram tijolos durante o levantamento nas ruas de Mongkok, no segundo dia do Ano Novo Chinês, mas poucos se interrogam sobre os motivos que os levaram ao motim. Embora não tenha encontrado respostas a estas questões durante a minha visita à Feira do Livro de Hong Kong, ganhei apesar de tudo mais algumas perspectivas. Ao contrário, as Feiras do Livro de Macau são muito monótonas, parece que não servem para nada. Serão estas feiras uma síntese da sociedade macaense?
Isabel Castro VozesSopra-lhe com força [dropcap style=’circle’]H[/dropcap]á uma coisa estranha em Macau: nunca nada é importante, sendo tudo de extrema importância. Passo a explicar. O acontecimento da semana? Um tufão. Ou, para ser rigorosa, a polémica em torno da classificação de um tufão. Uma tempestade tropical é uma coisa séria, como todos sabemos. Aqui à volta, bem perto de nós, há gente a morrer por causa da passagem de tufões, há gente a ficar sem terras e colheitas e o ganha-pão por causa de tufões, há aldeias e vilas e cidades que se destroem em minutos para serem jamais reconstruídas. Por cá, os tufões são coisas que sopram devagar, mesmo quando são fortes. Nos quase 15 anos que levo de Macau, nunca vi nada de muito grave acontecer. Árvores e tabuletas no chão, uns carros maltratados, lixo pelo ar e, em duas ou três tempestades, pessoas que ficaram sem o negócio por causa das medidas que não se tomaram, anos a fio, para evitar inundações no Porto Interior. Ainda assim. Um tufão é uma coisa séria, que exige cuidados mais do que mínimos. Por ser uma coisa séria, não se pode transformar numa anedota. Pode, se formos nós, sociedade civil, a puxarmos do sentido de humor e a fazermos umas piadas sobre o que se passou esta semana; mas não pode ser transformado em anedota por quem tem responsabilidades e a obrigação de garantir o interesse público. Por questões científicas que não interessam ao Menino Jesus, os Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau decidiram não avançar com o sinal 8 na noite de segunda para terça-feira. A possibilidade chegou a ser colocada e a hipótese foi anunciada, foi sendo protelada, e depois arquivada. A decisão de manutenção do sinal 3 foi tomada durante a noite, soprava forte o vento nas minhas janelas. Um vento que afinal não tinha força suficiente para que o sinal 8 fosse içado. Mas a avaliação da força da intensidade dos ventos é coisa que me passa ao lado – preocupo-me com outras coisas mais relevantes e sei que estou longe de ser a única. A confusão em torno da qualificação do Nida deve ser analisada de vários ângulos, a começar pela questão da segurança – afinal, a mais importante. Mesmo não sendo tufão 8, recomenda-se à população em geral e à mais frágil em particular que se mantenha resguardada, não vá o diabo tecê-las. O diabo teceu-as do seguinte modo, de acordo com as contas dos Bombeiros: entre outras ocorrências, 26 árvores foram ao chão e caíram 32 objectos. Como Macau é terra de jogos de fortuna e azar, não houve galhos nem tabuletas a fazerem feridos, apesar das pessoas que andaram nas ruas empurradas pelo inconsistente vento. É que, apesar das recomendações oficiais, sucede que, sem sinal 8, o patronato – ou a grande maioria – não manda os trabalhadores para casa, para que possam tomar um banho quente e vestir roupa seca. Está chuva e vento e é difícil a malta mexer-se, mas há que ter paciência e uns chinelos de plástico na mala. É a vida. Uma vida na qual não se pensa quando o único critério para a tomada de decisões é a força dos ventos. Depois, temos a questão da organização de toda uma sociedade que tem relações de interdependência: com uma decisão a ser adiada pela noite dentro, mais não resta a quem cá vive do que ficar acordado – ou ir acordando com regularidade – para perceber o que fazer no dia seguinte. Com Hong Kong em sinal 8 há várias horas, com Zhuhai em alerta amarelo e Shenzhen em alerta vermelho, não havia razões para acreditar que os Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau iam mandar o povo todo trabalhar à chuva e ao vento na terça-feira, com uma bela tempestade na rua. E aqui não se trata das mais ou menos horas que a malta pode ficar a dormir numa manhã por norma de trabalho; trata-se, isso sim, de saber onde e como se deixam os filhos, se há transportes para ir trabalhar, a que horas se vai trabalhar, se o supermercado ou a farmácia vão estar abertos, se a reunião marcada para de manhã no escritório vai mesmo acontecer ou se é preciso marcar nova data. Numa perspectiva económica – a área do saber que, mais até do que a ciência, é a favorita do léxico oficial local –, as pessoas estarem à espera de um tufão forte e sair-lhes na sorte um que não deitou ao chão sequer 30 árvores não é uma coisa boa. Pode ser um grande azar. A encomenda que não se entregou de acordo com o que estava acordado, porque estava a chover, mas não estava tufão 8. A reunião que se adiou e não se devia ter adiado, mas às 5 da manhã era tarde para andar a fazer contactos e marcar novas agendas. Depois do caricato episódio Nida – que me podia levar a escrever também sobre os preços praticados por táxis, acerca das motas aos esses, sobre o mecanismo de protecção civil que só funciona quando o vento sopra com mais força ou ainda sobre o túnel que só abre se houver razões científicas para tal –, vieram as críticas dos mais diversos quadrantes, as justificações científicas e, mais recentemente, o avisado pedido de desculpas do secretário para os Transportes e Obras Públicas. O Nida, sendo um episódio que, para a semana, se tornou apenas caricato, dá que pensar. No modo como tudo isto está organizado, na forma como se encara a vida dos outros. Que o Nida não se repita. E os tufões sejam inequívocos, para facilitar a vida à malta que decide a que horas e em que condições térmicas vamos nós trabalhar. Para a próxima, que sopre mais forte. Ou mais devagarinho, muito devagarinho, que dispenso mau tempo na cidade.
Fernando Eloy VozesSubtropical (episódio II) (continuação da semana passada: “Jacinto sabia que as forças estavam no limite. Apenas a vontade o mantinha ali, quiçá a imagem do sonho. porque já não era o corpo físico que o sustinha. “A imaginação dá asas”, pensava, tentando manter-se animado e imaginando-se uma criatura alada. A chuva começou a cair”) [dropcap style=’circle’]P[/dropcap]or mais que se imagine e enquanto as leis da física não sofrerem uma alteração profunda, ou a nossa espécie, as asas não crescem assim, sem mais nem menos. Não a curto prazo, pelo menos. Não quando estamos pendurados numa corda velha, escorregadia, e olhamos para baixo sem conseguir imaginar o fundo. Não quando já deixámos de fantasiar com a ideia de nos deixarmos atrair pelo abismo. Não quando chove como se o mar estivesse em cima e não em baixo. Assim estava Jacinto. Talvez a atracção fatal se tenha desvanecido ao lembrar-se de uma passagem de “Ishmael”, a história de um gorila que explicava ao homem o sentido da vida – Dizia o animal tornado mestre que, quando os homens procuravam descobrir a forma de voar, criaram aquelas passarolas que tudo indicava serem apropriadas ao objectivo. Tinham asas que batiam e assim dos precipícios se atiravam. Por momentos julgavam estarem mesmo a voar mas, na realidade, estavam a cair a uma velocidade vertiginosa em direcção ao chão onde se iriam esmagar – Se bem que a ideia do voo para o vazio tivesse sido tão aconchegante há bem pouco, Jacinto não queria esmagar-se. Antes pelo contrário, a força do sonho tão desejado mantinha-o ali, agarrado, com o resto das forças que ainda conseguia invocar. É bem verdade que a necessidade transforma-nos em sobre-humanos, em algo que se conseguíssemos aplicar diariamente envergonharia até os heróis da Marvel. Teria sido o poder do sonho que o fez agarrar-se à vida, ali bem representada por aquela corda escorregadia? Talvez mais ainda que o medo do esmagamento contra o solo invisível. Jacinto pensou mais depressa. O dia, antes alvo e solarengo, tinha dado lugar a uma quase escuridão que um relâmpago agora rompia. Breve que foi, chegou para que Jacinto visse o sangue a esvair-se das mãos cerradas na corda. Talvez fosse isso também a aumentar-lhe a determinação, a fazê-lo querer sair daquela situação insustentável. “A imaginação não me vai dar asas”, pensou Jacinto, agarrando-se à vontade, o único tesouro que ainda lhe restava. A intensidade da chuva tinha amolecido a parede do precipício, o suficiente para que finalmente surgisse uma possibilidade. Apercebendo-se disso, Jacinto pontapeou a parede com quanta força a posição lhe permitia até que, por fim, conseguiu apoiar primeiro um, e depois os dois pés. Apenas as pontas mas o suficiente para a situação ter passado de desesperada a difícil. “Evolução”, rejubilou Jacinto. Já conseguia respirar. Já conseguia avaliar a situação sob uma perspectiva mais favorável, o suficiente para fazer planos, o suficiente para descobrir uma forma de subir a escarpa, o suficiente para recordar-se das palavras de um sábio com quem um dia se tinha cruzado no caminho: “há sempre uma reserva dentro de nós”, tinha ele dito, “…de energia e de vontade. Se tiveres amor suficiente e compaixão. Se acreditares e fores capaz de olhar para dentro de ti próprio. Mesmo que esteja lá mesmo no fundo. Procura e descobrirás. Acredita quando mais ninguém for capaz, mesmo quando tudo parecer indicar o pior.” Assim era de facto e a tempestade que normalmente achamos trazer apenas desgraças tinha sido o seu bilhete para a salvação. MÚSICA DA SEMANA “”When I Live My Dream” (David Bowie – 1967) When I live my dream When I live my dream, I’ll forgive the things you’ve told me And the empty man you left behind It’s a broken heart that dreams, it’s a broken heart you left me Only love can live in my dream I’ll wish, and the thunder clouds will vanish Wish, and the storm will fade away Wish again, and you will stand before me while the sky will paint an ouverture And trees will play the rhythm of my dream
Tânia dos Santos Sexanálise VozesAgosto é Praia [dropcap style=’circle’]O[/dropcap]nosso querido mês de Agosto começa com umas palavras de ânimo. A todos aqueles que se encontram no hemisfério norte a curtir o calor na praia, espera-se o mês do corpo de Verão. Um corpo que curte o Verão e está presente na mais fantástica das estações. Fizéssemos nós uma tarefa de associação livre ao conceito de ‘corpo de Verão’ e provavelmente uma definição tão simplista não apareceria, muito provavelmente teríamos resultados como: esbelto; sem celulite; sem gordura extra; tonificado ou jeitoso. Mas sobre imagem corporal já estamos nós fartos de ouvir e ler. Estamos todos cansados de saber que é um problema real e a ter em atenção entre mulheres e homens de igual forma. A cada primavera começa-se a falar das mil e uma dietas milagrosas, e pelo Verão descobrem-se formas de exaltar os atributos ou esconder o que se considera fisicamente indesejável. Mas Agosto deixa aqui as sete dicas para o corpo de Verão (de praia) que sempre sonhámos. 1º Atrevam-se a escolher os calções de banho, biquini ou fato-de-banho que nunca pensaram usar, saiam da vossa zona de conforto e testem os vossos limites. Não deixem que as imagens distorcidas que a nossa mente maliciosa cria à frente do espelho se apodere das vossas decisões. A nossa mente às vezes prega partidas e tem que ser fortemente ignorada (pela nossa saúde mental). Experimentem o biquini mais bonito que alguma vez viram – e não se preocupem com mais nada. 2º Ignorem o fascismo anti-pêlo. Esta não é fácil de respeitar no mundo ocidental, quando a guerra à pelosidade é feroz e trata processos naturais corpóreos como aberrações da natureza. Experimentem a deixar um ou outro pêlo nos sovacos e exibem-nos com orgulho. Já que o vintage está na moda… não vejo forma mais fiel à tendência. 3º Comam quando tiverem fome e comam o que vos der prazer. Este que é o mês de férias de tanta gente… querem mesmo reduzir a experiência do palato por conta da superficialidade estética? Comam boooooooooolas de Berlim com ou sem creme na praia directamente, ou deliciem-se com outros petiscos. Comam croquetes e façam-se croquetes! A rebolar na areia. Comam na praia, fora da praia – deixem o vosso estômago contente. 4º Imaginem que a praia é um palco, uma passarela para desfilarem com orgulho. Mostrem as curvas, os corpos de tantos tamanhos diversos, abanem as gorduras gelatinosas com corridas, saltos e mergulhos. Exponham a textura de corpos porque só torna a vida colorida! E muito pouco aborrecida. 5º Protejam-se do sol com um bom protector solar porque há que cuidar da nossa bela pele e dos nossos belos sinais. Podem expor toda a pele que quiserem (em locais adequados – nunca sugeria um topless no Dubai, por exemplo) com o maior decoro e respeito pelos outros. Dispam-se de preconceito e vergonha do corpo e deixem que o sol vos beije interminavelmente, em áreas nunca expostas. 6º Usem e abusem do vosso tacto e sintam a areia e o mar pelo maior órgão do corpo: a pele. Foi-nos ensinado que o mar só traz coisas boas (saudáveis) e por isso, aproveitem para estender os exercícios tácteis ao namoriscar na água, para uma experiência kinky e fiel ao mote marítimo. Inspirem-se de romantismo que o Agosto vos oferece para a maior história de amor das vossas vidas! Romances de Verão são pura inspiração. 7º Façam o vosso tão fantástico corpo um manifesto contra a cultura da aparência, das regras estéticas pré-definidas por grupos e gentes que nos são alheios. Já que o corpo é tão alvo de conversa e crítica, porque não usá-lo como manifestação político-social? Aproveitem as férias, a praia e o calor. Tragam felicidade ao vosso corpo de Verão.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesO preço da longevidade [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]26 de Julho o website “yahoo” de Hong Kong fez saber que a longevidade dos habitantes desta cidade acabou de ultrapassar a dos japoneses, tendo-se tornado a maior do mundo inteiro. A esperança média de vida dos homens de Hong Kong é actualmente de 81,24 anos, e a das mulheres de 87,32, enquanto no Japão os homens esperam viver 80,79 anos e as mulheres 87,05. Tradicionalmente a China defende o conceito de longevidade. Os chineses acreditam que uma vida longa é um bem para o próprio e para a sua família. O homem mais velho de uma família chinesa é considerado o seu líder, e a sua experiência de vida é altamente reconhecida pela sociedade em geral. Um provérbio chinês demonstra bem o que acabou de ser dito: “A família guarda os seus anciãos como guardaria um tesouro”. Neste caso o tesouro equivale à experiência de vida. Em chinês, “longevidade” diz-se “Chang Ming”. Antigamente usavam-se diversos métodos para prolongar a vida. Entre os quais se salientava a nutrição. Sobre este assunto, a “Wikipedia” diz o seguinte, “A base da Chang Ming é a alimentação natural, consumir alimentos orgânicos e sazonais, cultivados sem recurso a fertilizantes ou pesticidas, que não contenham aditivos químicos e que provenham de explorações locais. Devem ser evitados alimentos refinados e processados e o tempo de cozedura deverá ser o mínimo possível, para que mantenham todas as propriedades nutritivas.” Podemos entender que o conceito de “longevidade” é há muito acarinhado na China. É sem dúvida benéfico individualmente, mas pode ser prejudicial em termos sociais. E porquê? Por uma razão simples. Passo a explicar, alguém que viva bastante vai sem dúvida chegar à idade da reforma, ou seja, 65 anos. Tem a opção de deixar de trabalhar, ou passar a trabalhar apenas em part-time. De qualquer forma, nesse período, o mais importante será desfrutar da vida familiar. É sabido que a maioria dos países garante aos idosos um fundo de reforma. De uma forma geral, o único requisito para beneficiar desse fundo é a idade. Se a maioria dos idosos se candidatar a esse fundo de reforma, o peso financeiro será enorme. Implicará também que os contribuintes terão encargos financeiros muito maiores. Se a maior fatia do orçamento do Governo for gasta nos fundos de reforma, como é que vai ter capacidade para fazer frente a todas as outras responsabilidades? As consequências podem vir a ser muito graves. É por este motivo que a longevidade pode ser um bem em termos individuais, mas prejudicial em termos colectivos. Passa-se um pouco o mesmo com as poupanças. Se puser o dinheiro no banco, poupa-o. É bom para si. Mas o seu consumo vai diminuir, logo o desenvolvimento económico abranda, donde ser prejudicial para a sociedade como um todo. Hong Kong sofre actualmente de um grave problema populacional. O comunicado de imprensa “Projecções Demográficas para Hong Kong de 2015 a 2064” emitido a 25 de Setembro de 2015, pelo Comissário dos Censos e Estatísticas, o Sr. Leslie Tang, dizia o seguinte, “De uma forma geral, a taxa de fertilidade em Hong Kong tem vindo a decrescer ao longo das duas últimas décadas. A taxa de nascimentos em Hong Kong – o número de crianças nascidas vivas, que cada 1.000 mulheres dão à luz ao longo da sua vida – tem estado sistematicamente abaixo do nível de reposição da população, número esse que deveria ser de 2.001 crianças. Baixou de 1.355 nascimentos por 1.000 mulheres em 1994, para o histórico número de 901 nascimentos em cada 1.000 mulheres, em 2003. Nos últimos anos estes valores recuperaram, tendo chegado em 2014 a 1.234 nascimentos em cada 1.000 mulheres. Nas projecções sobre fertilidade há vários factores a ter em conta, como a percentagem de mulheres casadas, níveis de fertilidade do casal e ainda as crianças nascidas em Hong Kong, filhas de mulheres do continente. Projecta-se que a taxa de fertilidade vá baixando gradualmente, passando do valor registado em 2014 de 1.234 nascimentos por 1.000 mulheres para 1.182 em 2064.” “Entre 1994 e 2014, Hong Kong tem registado um constante declínio na taxa de mortalidade, que se traduz num aumento da esperança de vida. Em 2014, a esperança média de vida para os homens era de 81,2 anos e para as mulheres de 86,9. Em comparação com outras zonas, Hong Kong regista uma taxa de mortalidade bastante baixa. Em 2064, acredita-se que a esperança média de vida aumente para os 87 anos, no caso dos homens, e para os 92,5 para as mulheres. Projecta-se que o número de mortes anuais aumente das actuais 45.400, para 97.600 em 2064. O aumento das mortes irá dever-se principalmente ao crescimento da percentagem de idosos que se registará nessa altura.” Verificámos através destas declarações, que a taxa de fertilidade baixou para níveis históricos em 2003. Um dos principais motivos deste fenómeno foi a propagação do vírus responsável pelo Síndrome Respiratório Agudo Grave. Nesse período as mulheres tinham medo de engravidar. No entanto o número de idosos cresce de ano para ano. Estes números mostram claramente que é urgente que o Governo tenha um plano financeiro muito bem organizado para dar resposta à questão do aumento da população idosa. O sistema de segurança social e o fundo de reformas são essenciais nesta situação. No entanto é necessário capitalizá-los. Dado que o orçamento do Governo de Hong Kong é muito limitado, é necessário criar soluções a longo prazo para dar resposta adequada ao problema. A população de Macau é muito menor do que a de Hong Kong e, nos últimos anos, os lucros provenientes da indústria do jogo foram altos. Estes dois aspectos contribuíram para a construção de um bom sistema de segurança social. Neste sentido, Hong Kong deve aprender com a experiência de Macau, é necessário que haja avanços. *Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Hoje Macau A Canhota VozesPorque é que Chui Sai On não vai limpar a praia? *por Fa Seong 花想 [dropcap style=’circle’]N[/dropcap]os últimos tempos os temas quentes de Macau estão mais focados nos terrenos: a Fábrica de Panchões Iec Long, o La Scala, o Canídromo… tudo um pouco afastado de um tema que também nos interessa, um outro recurso também importante da nossa vida: a água. Contrariamente, a cidade vizinha de Hong Kong tem-se focado na poluição marinha, face a alguma polémica. O problema tem sido tema, principalmente após a iniciativa do Chefe do Executivo da RAEHK, C.Y. Leung, que liderou um grupo de governantes para irem juntos limpar uma praia de Hong Kong, há várias semanas. Com uma temperatura de mais de 34 graus, este líder do Governo teve vontade de limpar a praia porque disse ter ficado “comovido” pelos grupos de voluntários que, quando é preciso, limpam as praias de Hong Kong e enfrentam as “ondas” de lixo trazidas pelas inundações do interior da China. O objectivo é que os cidadãos participem mais nestas actividades amigas do ambiente. Mesmo que haja notícias na imprensa desta região a apontar que viram trabalhadores da limpeza a tratar do lixo na praia com antecedência, para que os governantes as pudessem limpar mais facilmente – levantando a suspeita que os dirigentes fizeram apenas um show – e mesmo que outros considerem que o acto do Governo em nada contribuiu para salvar o ambiente, eu aplaudo a iniciativa. Até porque isso não aconteceu em Macau e penso que deve acontecer. Sem o Chefe do Executivo, sem os governantes, as praias de Macau estão apenas a ser limpas por uns mini-grupos locais, com a participação de muito poucos cidadãos. O mais recente exemplo é a actividade de limpeza da praia em Coloane, ocorrida no domingo passado e realizada pelo grupo Greenfriends Macau – um grupo criado no Facebook que reúne pessoas que gostam de caminhadas, praias e espaços rurais. Esta actividade reuniu apenas dez participantes mas recolheu 72 quilos de lixo, sendo a maioria garrafas e recipientes plásticos. No entanto, além desse lixo, há imenso esferovite destruído e espalhado em toda a praia, que é quase impossível de ser limpo. Ainda este ano, uma outra actividade que reuniu mais forças aconteceu no Dia Internacional do Ambiente, em Junho, quando a União Macau Green Student, a Universidade de São José e o Instituto Politécnico de Macau reuniram 150 voluntários e limparam 290 quilos de lixo em três praias de Macau. Mas tanto as praias de Macau, como as de Hong Kong vão continuar a enfrentar o problema da poluição, não só por causa das inundações mas também por causa das obras contínuas da Ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai. É triste: já não podemos ver golfinhos – só conseguimos ver cadáveres de golfinhos encalhados – no mar entre as duas regiões. Só podemos pisar lixo quando passeamos na nossa praia, onde também não é possível nadar. Chui Sai On, por vontade própria ou imitando a iniciativa de Hong Kong, deve também ir limpar as praias de Macau, sentindo o nível da poluição e dando o exemplo de forma pioneira, para educar outros governantes e cidadãos a reforçar a consciência e a necessidade de diminuir o volume de lixo, bem como de manter o ambiente limpo. Depois, poderíamos referir a experiência da Coreia do Sul: oferecer subsídios aos pescadores e incentivá-los a ajudar a limpar o lixo no mar. Acredito que isso pode ser outro plano de apoio para os pescadores de Macau durante o período de defeso da pesca, além do plano anual de formação.
Leocardo VozesUm sonho oriental [dropcap style=’circle’]C[/dropcap]onsideremos dois personagens: Manel e Maria, um feliz casal da Bobadela dos meados dos anos 90 do século XX. Manel era um simpático talhante da Brandoa, enquanto Maria trabalhava a dias na Reboleira. Com dois filhos pequenos, lá iam sobrevivendo e trabalhando duro para pagar as contas no fim do mês, até ao belo dia em que Manel decidiu aproveitar um dinheirinho extra de umas casas que o avô lhe deixou para tirar um curso de qualquer coisa à noite. Não era fácil estudar e acordar às seis da manhã para ir descarregar os lombos, os leitões, os coelhos e as codornizes, mas Manel lá se ia aguentando à bronca. Um dia soube por um primo no ministério/amigo na Câmara/cunhado nas Finanças que “precisavam de gente em Macau”, e chega excitadíssimo a casa para dar a notícia à Maria. Feitas as contas, a pataca era vinte e tal paus na altura, vinte e tal mil patacas eram quase quinhentos contos, portanto a única opção era partir. Os miúdos vieram também, fizeram logo amigos entre os filhos da nata da sociedade que também estudavam no Liceu. Manel era um caso de sucesso: indispensável na sua companhia, via o contrato renovado ano após ano, e era o “Sr. Dr. Manel”. Maria já nem precisava de trabalhar: ficava a tomar conta da casa, saía para a amena cavaqueira com as mulheres de outros manéis, era um regalo. Os filhos compravam tudo o que queriam e que nunca imaginariam ter se tivessem ficado na Bobadela; iam às lojas de Hong Kong com os amigos, e aos fins-de-semana gastavam mil patacas por noite. Quando iam de férias a Portugal no Verão, eram os putos mais ricos da Bobadela e arredores. Como era diferente a vida em Macau. Na Bobadela jantavam fora nos aniversários e domingos santos, sempre no Zé da Rolha, em Alfornelos. Em Macau comiam fora todos os dias, e às vezes em hotéis de luxo. O mais longe que tinham ido quando viviam na Bobadela foi ao Alentejo, aquando da lua-de-mel, e ficaram numa pousada. Agora conhecem “toda a Ásia”, e não se inibem de falar com naturalidade de Tóquio ou Singapura aos vizinhos, amigos e primos, que nunca foram a lado nenhum e ficam a escutar a bazófia, ostentando um sorriso amarelo. No Natal vão à Tailândia fazer praia, coisa tão banal que já enjoa, enquanto que nos tempos idos da Bobadela iam acampar na Costa da Caparica, Verão sim, Verão não. Em Macau a empregada “deixa o jantar feito”, na Bobadela o jantar era às vezes o resto do cozido de Domingo, ou uma pizza congelada. No Verão vão de férias a Portugal, atenção, Por-tu-gal. Manel e Maria deixaram a Bobadela e agora têm uma vivenda em Loures, e são “gente bem”. Os anos passam e Maria já faz parte do “jet-set” macaense. A antiga sopeira que não acertava num puzzle da Roda da Sorte ou num prémio bom do “1,2,3” começa a frequentar eventos sociais, concertos que a aborreciam imenso e exposições ridículas. Não falta ao lançamento de um livro de um autor local, e leva sempre uma cópia autografada. Diz que “consome cultura” e pertence praticamente a todas as associações lusófonas. Grande homem e apreciador de uma boa farra, Manel começou a sair com os amigos, primeiro em fartas jantaradas, uma ocasional bisca, e uma visita à sauna ou clube nocturno onde saltam as margaridas frescas. Manel, que já não sabia o que era uma anca estreitinha desde os anos 80 do século passado, fica louco com as russas, as mongóis (ou “mongolóides” como ele as chama), as tailandesas e as indonésias. Tudo fruta dos trópicos ou das estepes, e Manel deixa sempre uma ou duas notinhas de mil pelo menos uma vez por semana. Seria um escândalo lá na Bobadela, com a Maria a atirar os pratos ao Manel enquanto gritava “eu mato-te, desgraçado”, mas aqui é tudo muito mais suave – bem como quente e húmido. O Manel não é “má pessoa” ou sequer um “adúltero”, é simplesmente um daqueles simplórios (lá no fundo), que gosta de se divertir de vez em quando, e pronto, o conceito de diversão é pessoal e variável. Além disso as russas, mongóis, romenas, etc. têm a “escola toda”, e fazem “coisas” que a Maria “nem sabe que existem”. Parece que existe uma relação íntima entre o facto de ter dinheiro e poder e querer fornicar tudo o que apareça pela frente. E um homem não deve morrer estúpido, além tudo o que o Manel sabia do sexo oposto antes de vir para Macau, aprendeu com a Maria. Maria sabe, ou pelo menos desconfia das escapadelas de Manel. Para ela tudo bem, desde que o homem não dê muito nas vistas, e principalmente que “não deixe as amigas saber”. Maria sabe que pedir o divórcio a Manel por este andar metido com meninas da pouca vergonha adianta de pouco, e ainda os amigos advogados do Manel lhe faziam a caminha, e lá voltava ela para a santa terrinha com o rabo entre as pernas – salvo seja. Manel pouco se rala se Maria sabe ou não sabe, portanto duas ou três vezes por semana lá há reunião no escritório “até tarde”, e “não vai ser preciso esperar para jantar”, e acima de tudo “o telemóvel está em meeting”. Entretanto os filhos estão na universidade, ou já casados, e fizeram vida lá em Portugal, onde estão remetidos à vulgaridade da Bobadela ou da Brandoa. E lá vão Manel e Maria vivendo até ao limite o sonho oriental. Pelo menos enquanto vai dando…
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO sonho ditatorial de Erdogan “As an authoritarian leader, Erdogan maintains absolute control over the country. This is why he wants to exterminate the Hizmet Movement, the biggest obstacle on the way to build his own regime. If Turkish people choose to go with Erdogan, will that trigger chaos in Turkey? Well, systems are built into the fabric of nature. That is, while things seem to tend toward chaos, what really happens is that one system evolves into the next. In that case, we can predict that it wouldn’t be a democracy.” Hungry for Power: Erdogan’s Witch Hunt and Abuse of State Power Aydogan Vatandas [dropcap style=’circle’]O[/dropcap]s militares na Turquia desempenham um papel fundamental desde a proclamação oficial da República da Turquia a 29 de Outubro de 1923, como sendo oficialmente a sucessora do Império Otomano, extinto a 1 de Novembro de 1922. O pai da nova nação foi Mustafa Kemal Ataturk, um militar que sempre foi visto como o garante dos valores fundamentais do país, como os conceitos de nação, democracia, laicismo e ordem. A Turquia, infelizmente, é um país acostumado a golpes militares. A jovem nação turca, viveu três golpes de Estado, em menos de um século de existência. O duvidoso pronunciamento militar eleva esse número para um total de cinco sublevações. O primeiro deu-se em 1960, quando o general Cemal Gürsel, revoltou-se contra o governo de direita que foi acusado dos males que o país padecia e da sua submissão aos Estados Unidos e crise de pobreza da população. Os líderes do golpe, que poderiam ser considerados seguidores de Kemal na sua vertente mais moderna, derrubaram o governo e formaram uma assembleia para redigir uma nova Constituição, a de 1961, considerada a mais progressiva da história da Turquia. Após o golpe, retiraram-se e transferiram de novo o poder para as forças políticas. Todavia, julgaram e executaram os antigos governantes. O segundo golpe, considerado suave, deu-se em 1971. Os militares naquela época, não optaram pela força, mas pelo envio de cartas aos membros do governo advertindo-os da situação, tendo a 12 de Março de 1971, o Chefe do Estado Maior, feito ao então primeiro-ministro, um verdadeiro ultimato e de novo, a petição de rasgado cariz kemalista, exigia em particular, a formação no quadro dos princípios democráticos, de um governo forte e credível, para neutralizar a situação anárquica que se vivia e que inspirado nas ideias de Ataturk, implementasse as leis reformistas previstas pela Constituição. Se as exigências não fossem atendidas, o exército deveria exercer o seu dever constitucional. O golpe foi pacífico e a advertência derrubou de novo o governo, tendo sido empossado rapidamente um novo governo que concordou em cumprir, as reformas exigidas pelos militares. O terceiro golpe de Estado foi em 1980, seguindo a triste tradição de uma rebelião militar em cada década. O golpe foi liderado pelo general Kenan Evren, e as suas consequências foram muito piores para o povo turco, uma vez que compreendeu a instauração de um breve, mas repressivo regime militar por três anos. A grave crise e a proliferação de grupos fanáticos religiosos, e de extrema-direita e esquerda, que tinham causado numerosos mortos nas ruas foram os responsáveis, tendo os militares de intervir de novo. O golpe deu-se a 12 de Setembro de 1980, e foi o mais sangrento da história do país, dado que cento e cinquenta mil pessoas foram detidas, praticaram-se assassinatos e muitas pessoas desapareceram, sem nunca ter havido um esclarecimento. Existe um véu negro e silenciado que cobre a realidade desses acontecimentos. Além da dura repressão, o golpe produziu a Constituição de 1982. Apenas há cinco anos, os turcos puderam avaliar os graves acontecimentos do golpe, e em 2010 foi eliminada a lei que protegia os golpistas, incluindo o general Evren, que foram julgados e condenados a prisão, em 2014. A 30 de Junho de 1997, houve uma intervenção política sem golpe. O presidente Erdogan, após ter sido eleito, nas eleições realizadas a 10 de Agosto de 2014, com 54,7 por centos dos votos e tomado posse a 28 de Agosto de 2014, mudou-se para um palácio, com mais de mil quartos, em Ancara. Tal gesto de ostentação está em conformidade com a vaidade do líder turco de se tornar uma espécie de novo sultão. Durante os anos que exerceu o cargo de chefe de governo, impulsionou uma perigosa islamização do país e aprovou todo o tipo de legislação, para transformar a saudável democracia secular, num regime cada vez mais conservador, e oposto aos valores e tradições ocidentais, afastando a Turquia de uma possível adesão à União Europeia (UE) e que os líderes europeu não têm sabido ou querido ver. O presidente Erdogan pretendia ir ainda mais longe nas suas desvairadas ideias, e tentou emendar a Constituição, de forma a adoptar um regime presidencial, que lhe permitisse deter plenos poderes executivos. Todavia, apesar dos esforços, o sonho de Erdogan para emular os monarcas Otomanos desapareceu, após o resultado das eleições legislativas de 7 de Junho de 2015. Ainda que a sua formação política e o governante ‘Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, sigla na língua turca) ”, tenham ganho as eleições com 40,9 por cento dos votos, a perda da maioria absoluta, depois de treze anos de governo, constituiu um recuo, que o impediu de realizar as desejadas reformas, como a da Constituição. Tratou-se de uma votação punitiva por parte das amplas camadas sociais, preocupadas com os desvios autoritários de Erdogan. As manifestações massivas de indignação no emblemático Parque Gezi, em Istambul, em 2013, tinham mostrado anteriormente como franjas da sociedade, sobretudo de jovens, minorias étnicas e classe média instruída das grandes cidades, estavam dispostas a enfrentar o regime. A grande parte desse descontentamento foi capitalizada nas eleições legislativas pelo partido pro-curdo, “Partido Democrático do Povo (HDP, na sigla em língua turca) ”, que pela primeira vez teve assento no Parlamento. Apesar da desvantagem que previa a necessidade de atingir o limiar de 10 por cento dos votos para conseguir representação, e o facto do problema curdo ser desde há décadas um dos temas mais espinhosos do país, o HDP conseguiu 13 por cento dos votos, em grande parte, devido ao facto de ter polido o seu carácter nacionalista curdo, para converter-se numa força de esquerda muito sensível aos problemas das minorias. Os votos no HDP foram decisivos para fazer descer do cavalo da maioria absoluta, o partido de Erdogan. O cenário dessas eleições mostrou a necessidade de uma coligação governamental, ou um governo de minoria, condenado a fazer acordos contínuos, algo que seria muito saudável, para conter o autoritário AKP. O mesmo fenómeno de reislamização estende-se por toda a região e a revolta das pernas inundou as redes sociais da Argélia e Tunísia, numa campanha em que milhares de mulheres mostraram as suas pernas, como apoio a uma estudante argelina que não pode licenciar-se em Direito, porque um guarda impediu o seu acesso ao exame, alegando que usava uma saia muito curta. A instrumentalização política da religião é extremamente preocupante, como a existente na Turquia, polarizando a população que durante décadas tem convivido com parâmetros seculares muito saudáveis. Tendo-se revelado infrutíferas, todas as tentativas para se conseguir um acordo político que permitisse um governo estável, o presidente Erdogan marcou novas eleições legislativas para 1 de Novembro de 2015, tendo o seu partido, o AKP, conquistado a maioria com 49 por cento dos votos, obtendo a maioria no Parlamento, com trezentos e dezasseis assentos da totalidade dos quinhentos e cinquenta assentos, tendo o HDP recuado, passando de 13,1 por cento em 7 de Junho de 2015, para 10,7 por cento das intenções de voto. A 15 de Julho de 2016, uma parte do exército turco parece ter tentado um golpe contra o governo do Presidente Erdogan, que exercitou tomar o controlo do país. As fontes presidenciais negaram a perda de controlo da situação e afirmaram que não tolerariam as tentativas de minar a democracia. O exército decretou o toque de recolher obrigatório em todo o país e a imposição da lei marcial. Os militares revoltosos num comunicado, reprovado pelo governo, argumentaram que agiam para manter a ordem democrática, os direitos humanos e o Estado de Direito. Os militares revoltosos afirmaram ainda, que um Estado de Direito Democrático e secular, estava a ser corroído pelo Presidente Erdogan, que apelidam de traidor. Defenderam a criação de um “Conselho de Paz” para garantir a liberdade dos cidadãos, independentemente da religião, raça ou língua. As forças militares revoltosas ocuparam pontos estratégicos, como o edifício do Parlamento, que foi cercado por tanques e tomaram algumas instalações governamentais, a sede do partido de Erdogan, a televisão pública e os aeroportos. Os tanques controlaram o acesso ao Aeroporto de Ataturk, em Istambul, onde todos os voos foram suspensos. Os tanques tomaram também, posições nos arredores do Parlamento. Após a meia-noite, os tanques dispararam e os helicópteros atacaram a sede dos serviços secretos na capital do país, tendo um avião de caça derrubado um helicóptero utilizado pelos insurgentes. O Presidente Erdogan exortou o povo a resistir à tentativa de golpe de Estado, devendo ocupar as praças do país para dar ao exército a resposta necessário, pois o golpe não teria sucesso e seria frustrado cedo ou tarde. O Presidente Erdogan de férias regressou a Istambul, cabendo ao primeiro-ministro controlar a situação que não poderia prejudicar a democracia, apelando à calma e advertindo que os responsáveis pagariam um alto preço, chamando o povo a combater a sublevação, caso a situação se agravasse. Após horas de confusão e agitação, com as duas facções das forças armadas digladiando-se, os seguidores do Presidente Erdogan escutaram o chamado do seu líder, e as praças e ruas das principais cidades do país, começaram a encher-se de multidões contrárias ao golpe. Os militares revoltosos começaram a sentir-se sem apoio e duvidaram do sucesso do golpe. Os seus presságios confirmaram-se e a maioria dos revoltosos desiste do seu intento e começou a entregar as armas. O avião do Presidente Erdogan aterrou em Istambul e foi recebido por milhares de seguidores, afirmando aos meios de comunicação social que os implicados no golpe pagariam pelas suas acções, anunciando uma purga nas forças armadas para acabar com aqueles que não suportam uma Turquia unida. Após horas de incerteza, as forças armadas leais ao Presidente Erdogan dominaram a intentona, e iniciou-se uma monumental purga contra todos os responsáveis e apoiantes da tentativa de golpe. O saldo do golpe, que foi unanimemente condenado pela comunidade internacional, foi de duzentos e sessenta e cinco mortos, sendo cento e quatro mortos membros das forças armadas que se revoltaram e mil quatrocentos e quarenta feridos. O governo turco no seguimento da tentativa de golpe de Estado iniciou uma perseguição, tendo sido presos e suspensos de funções sessenta mil pessoas. O governo prendeu treze mil militares, cerca de mil e seiscentos polícias e mais de dois mil e cem magistrados. As contas revistas e tendo a Turquia um poderoso exército, sendo a segunda potência militar no quadro da NATO, com um exército, força área e marinha eficaz, não se vislumbra a possibilidade de qualquer tentativa de golpe de Estado com um reduzido número de revoltosos, sem apoio da maioria do exército, marinha e força área, e apenas usando quatro helicópteros, que facilmente seriam todos abatidos por um só avião de combate. A realidade do acontecido não permite avaliar a situação com clareza, dado o pouco que transpareceu e se conhece, leva acreditar que tudo não passou de um monumental cenário bem orquestrado pelo Presidente Erdogan, pois foi o único beneficiado com a situação, instaurando a lei marcial, prendendo, afastando e suspendendo de funções todos os seus opositores, sem julgamento e processos disciplinares, dando-lhe finalmente o poder absoluto para alterar a seu bel-prazer a Constituição, formalizar o seu apetite devorador de poder, suspendendo as negociações de adesão com a UE, suspendendo a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, e tentando restaurar a pena de morte, tornando-se no novo ditador dos Balcãs. Face a este sinistro quadro, deve a UE suspender formalmente e de imediato todas as negociações com a Turquia e a NATO convidar a sair da organização, por violação grave dos princípios da democracia, das liberdades individuais e do respeito pelo direito, subjacentes ao Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington, a 4 de Abril de 1949.
Fernando Eloy VozesSubtropical (episódio I) [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]pós anos numa longa e dura jornada onde Jacinto, chamemos-lhe assim, teve de ultrapassar várias dificuldades, ei-lo a poucas milhas do destino um dia por ele escolhido. “Tarde demais para decisões dessas”, disseram-lhe vezes sem conta. As forças tinham sido testadas ao limite e a ideia de desistir não lhe foi estranha. Mas insistiu, dissipou dúvidas e medos, os próprios e os que lhe foram emprestando pelo caminho, ignorou os espectros dos pesadelos e não voltou atrás. Um dia, quase convencido de perseguir uma quimera, como um D. Quixote da era moderna, e próximo de dar razão às vozes chamadas da razão, fosse lá isso o diabo que fosse, aí estava! As formas adivinhavam-se através da bruma que aquela manhã trouxe. O destino sonhado parecia finalmente ali. Ou melhor, quase ali. Avistou-o ao chegar a um profundo abismo. “A última prova”, pensou? Uma prova brutal, uma garganta rasgada a perder de vista e um fundo que, se existisse, ocultava-se da sua vista. Mas o destino estava do outro lado, ou assim Jacinto pensava, a menos que fosse um truque da mente depauperada, uma manifestação da sua vontade cega mas ele quase o podia cheirar, tocar, sentir… O abismo. Esse sim era real, assustador e intransponível. Dias e noites andou em ambas as direcções, mas o rasgo na crosta parecia não ter fim nem forma de ultrapassar. Um dia, já parco de esperança descobriu uma ponte, ou algo parecido com isso. Um trabalho de alguém que um dia terá sofrido penitência igual, feito sabe-se lá como. “Existirão mais dificuldades do outro lado”, pensou Jacinto porque o destino sonhado não estava propriamente ali, logo na iminência da outra margem, mas milhas mais para diante. Porém, Jacinto sentiu as energias do seu corpo gasto renovarem-se e um brilho na sua mente quase apagada. Dificuldades passadas e futuras pareciam-lhe irrelevantes, pois esta não era a primeira vez que uma solução lhe surgia do nada quando tudo parecia perdido. Regenerado, atreveu-se a sorrir, revisitando essa emoção quase esquecida. Reuniu forças, avaliou a ponte, os cabos, os madeiros suspeitos que lhe davam um vago ar de caminho e nela entrou. Alguns passos dados e tudo começou a estalar, a abanar perigosamente. Estacou, mãos crispadas no vão corrimão de corda. Ponderava as hipóteses quando a trave onde assentava um pé cedeu quase o levando com ela. De coração aos saltos, crispou-se ainda mais e reflectiu. Ao longe, continuava a vislumbrar a silhueta do seu destino. “Não pode ser miragem”, pensou, “Não pode!”. Avançou mais uns passos. Devagar, como felino em modo de caça, como se pretendesse que a ponte não desse por ele. Olhou para baixo e arrependeu-se. Olhou para cima, como demandando clarividência, apoio, ou apenas para esquecer o abismo. Viu nuvens, escuras, negras. O sol tinha desaparecido há pouco, mas Jacinto não tinha dado por isso. A tempestade iminente era óbvia. Subtropical e brutal. Jacinto focou-se na outra margem. “Tarde demais para voltar”, pensou obstinado. Uma rajada de vento. Mãos crispadas, dentes cerrados. Aquele ranger insuportável. Mais um passo e sentiu-se no ar “como um Tarzan”, ainda lhe ocorreu estupidamente. A ponte tinha quebrado mas ele continuava agarrado à corda e voava ligeiro em rota de colisão contra a escarpa da margem de onde vinha onde embateu violentamente. “Ainda estou vivo”, pensou naquele instante, talvez para esquecer as dores e o terror. A ironia quase o fez rir e a atracção do abismo, porque ela existe, começou a insinuar-se, mansamente, até o envolver como uma bênção, um derradeiro conforto. “Seria como voar”, pensou, julgando não ser uma morte assim tão funesta. O primeiro trovão ribomba. Talvez tivesse sido o estrépito a acordá-lo do torpor suicida com que aquecia a alma e Jacinto voltou a agarrar-se à vida, ou à corda, com mais força do que nunca. A mente, em alta rotação, procurava soluções furiosamente. Mas ele sabia que as forças estavam no limite. Apenas a vontade o mantinha ali, quiçá a imagem do sonho. porque já não era o corpo físico que o sustinha. “A imaginação dá asas”, pensava, tentando manter-se animado e imaginando-se uma criatura alada. A chuva começou a cair. (continua) MÚSICA DA SEMANA “There Is A Happy Land” (David Bowie, 1967) There is a happy land where only children live They don’t have the time to learn the ways Of you sir, Mr. Grownup There’s a special place in the rhubarb fields underneath the leaves It’s a secret place and adults aren’t allowed there Mr. Grownup,
Tânia dos Santos Sexanálise VozesPiropos [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]arte do piropo é extensa, normativa em certos contextos culturais e bastante praticada nas ruas de muitas cidades. Os nossos passeios citadinos são muitas vezes acompanhados de umas bocas aqui e ali. De quem? De quem não conhecemos. O piropo acompanha-se de uma apropriação de um extenso espaço físico e mental que interfere com o das outras pessoas. Sempre me perguntei sobre a utilidade do piropo aleatório e das tentativas de atenção masculina. Há quem acredite que é uma forma genuína de elogiar o outro ou que faz parte do jogo de sedução… Mas se alguém conseguiu um encontro romântico a quem gritou ‘Ó estrela, queres cometa?’, por favor que me diga, porque terá activado processos psicossociais que, para mim, seriam impossíveis de concretizar. Quando foi formalizada a criminalização do ‘piropo’ (até três anos de prisão), em Portugal, em Dezembro do ano passado as opiniões dividiram-se. Falou-se de um muito citado ‘histerismo feminista’ e de uma falta de prioridades da agenda socio-política do país. Vale a pena frisar que a discussão sobre o piropo foi provavelmente uma grande vantagem de toda a polémica que causou. O que é que é criminalizado, afinal? O que é um piropo ofensivo? A preocupação está nos tão desagradáveis piropos de teor explicitamente sexual como ‘comia-te toda’, que de pouco ou nada têm de inocentes. Palavras, leva-as o vento, mas não tanto. Em Portugal, especialmente, a partir do momento que se começa a mostrar um corpo de mulher, adolescente, enquanto ganha forma, somos introduzidas ao grande mundo dos comentários desagradáveis por gerações e gerações de homens. Porque ‘piropar’ não é actividade de poucos, mas de muitos. Diria até, é um reconhecido hobby para tantos que se sentam num jardim para observar a ocasional pessoa e mandar boquinhas totalmente desnecessárias – e ofensivas. A ofensa tenta ser diminuída atribuindo alguma responsabilidade a quem recebe o piropo. Há a expectativa de uma reacção, quando a maior parte das vezes tenta-se mostrar indiferença e tenta-se fugir daquela situação. Isso não quer dizer que uma pessoa não se sente invadida e ofendida. Mas agora que há reconhecimento legal, talvez comecem a surgir mais reacções e mais denúncias. Porque se há uma cultura onde comentários sexualmente intrusivos fazem parte do dia-a-dia, até que ponto a verbalização se torna acto? Esta não é de todo uma lei desnecessária, mas também não resolve todos os problemas de desigualdade de género que primam a legitimidade pela violência verbal e física contra as mulheres. O piropo pode ser uma forma de assédio, e é isso que se tenta criminalizar. É claro que uma tentativa de mexer com o status quo e de desafiar certas ideias pré-concebidas (i.e. mandar um piropo é OK e é elogioso) reacende conflitos ideológicos (porque ser feminista, aparentemente, é de um radicalismo extremo). Mas o que me faz impressão é que narrativas onde são expostas histórias de alto desconforto são totalmente descartadas sem qualquer conhecimento de causa. Ora uma boa experiência social: vestir homens de mulheres, pô-los de mini-saias a andar por aí sujeitos a assédio, só porque sim. Afinal, que raio ainda é preciso para criar empatia e perceber que isto é um problema? Isto são coisas que prendem e estrangulam a forma como nos sentimos em relação a nós próprios e ao que podemos fazer. Não somos coitadinhas porque ouvimos coisas desagradáveis, nem heroínas se oferecemos pancada de volta. Isto nem sequer deveria ser um problema. Simples. Há lugares piores que outros, isso vos garanto. Usar uma saia acima do joelho no Brasil foi das experiências mais piropo-assustadoras que alguma vez já tive – que jurei nunca mais repetir. Senti-me objectificada, desconfortável e com medo. Se nos direccionam comentários hiper-sexualizados como perceber que não passam só disso?
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesDesistir da independência [dropcap style=’circle’]E[/dropcap]sta semana as atenções dos media têm-se focado na nova medida a que ficarão sujeitos os futuros candidatos ao Conselho Legislativo de Hong Kong A partir de agora, quem se quiser candidatar a este Conselho terá de assinar previamente um documento onde são mencionados diversos artigos da Lei Básica de Hong Kong, em especial, o que consagra Hong Kong como parte inalienável da China. O objectivo desta nova disposição é bastante claro. Pode vir a ser utilizado para barrar as candidaturas de quem estiver a favor da independência de Hong Kong. Será esta medida legítima? O Presidente do Conselho Legislativo, Jasper Tsang Yok-sing, afirmou a semana passada em declarações ao South China Morning, “Os candidatos ao Conselho já estavam legalmente vinculados à Lei Básica, mesmo antes de estarem sujeitos à assinatura deste documento adicional. Com esta medida o que o Governo pretende é apenas salientar alguns artigos da Lei Básica a que os candidatos terão de prestar especial atenção, antecipando a possibilidade de alguns deles se poderem bater por valores que não sejam compatíveis com o que está disposto na Lei.” Questionado sobre o que virá a acontecer em caso de recusa por parte dos candidatos, Tsang esclarece, “Após a reunificação, o Conselho Legislativo passou a ser o representante da Região Administrativa Especial de Hong Kong, da República Popular da China. Não podemos encarar como inimigos os que não partilham das nossas opiniões políticas. Mas, penso que quem não quiser reconhecer que Hong Kong faz parte da China, não tem condições para se candidatar. Os potenciais candidatos que não reconheçam esta realidade devem reconsiderar a sua candidatura.” As declarações de Tsang não deixam margem para dúvidas. É dever de todos os cidadãos defender e obedecer à Lei Básica de Hong Kong. Todos temos de concordar que Hong Kong é parte inalienável da China. No entanto é pertinente perguntar porque é que o Governo não levanta um processo de acusação contra quem defende a independência de Hong Kong? De acordo com o actual sistema jurídico vigente em Hong Kong, só os Tribunais têm poder de condenar o réu e não o Governo. Depois de ser considerado culpado será eventualmente preso. Por tradição, em Hong Kong existe liberdade de expressão. Por este motivo, se o Governo de Hong Kong mover um processo a quem apenas defende a independência do território, pode vir a ser severamente criticado e o acto interpretado como um atentado à liberdade de expressão. Citando Tsang, “em Hong Kong, não podemos encarar como inimigos os que não partilham das nossas opiniões políticas”. O outro motivo que impede o Governo de Hong Kong de mover um processo aos defensores da independência prende-se com a definição jurídica de delito criminal. Em Hong Kong, cada delito criminal é composto por dois elementos, a saber, intenção criminosa e acto criminoso. Perante o que foi dito, é fácil provar a intenção criminosa de quem defende publicamente a independência do território. Contudo, quanto ao acto criminoso já o caso muda de figura. Neste caso o crime necessita do acto. Por exemplo, numa situação de roubo é necessário reunir provas que demonstrem que alguém subtraiu os bens de outrem, ficando com eles em sua posse. Ou seja, que o acto foi efectivado. Perante estes dados, percebemos que o facto de defender a independência, só por si, não a efectiva, logo o acto criminoso não pode ser provado. Recapitulemos: os hipotéticos candidatos ao Conselho Legislativo terão de assinar um documento onde reiteram a sua concordância com alguns dos artigos da Lei Básica de Hong Kong, considerados mais basilares. Se houver incompatibilidade entre os seus ideais e procedimentos e alguma dessas disposições, deixam de estar qualificados para se candidatarem ao Conselho. Nathan Law Kwun-chung, candidato e Presidente da recém-formada força política, Demosisto, afirmou, “Não vou assinar a declaração, porque não permito que a comissão dos assuntos eleitorais imponha condições ilegalmente. Se a comissão interditar algum candidato por não assinar o documento, estou a considerar interpor um pedido de revisão judicial.” Estas declarações são sinal do que pode estar para vir. Se a revisão judicial for em frente o Governo de Hong Kong ver-se-á envolvido numa batalha nos Tribunais. O valor de Hong Kong advém da sua situação económica e não da sua situação política. Defender a independência de Hong Kong significaria alterar o seu posicionamento político, e as consequências seriam muito negativas. Esta posição é defendida por muito poucos. Não representa de forma alguma a maioria do povo. É prioritário que a maioria se demarque desta minoria. Se a maioria não puder impedir as manifestações do desejo de independência da minoria, ao menos que demonstre o seu desacordo. Será uma das melhores formas de contribuir para o bem da China e de Hong Kong. * Consultor Jurídico da Associação Para a Promoção do Jazz em Macau
Paul Chan Wai Chi Um Grito no Deserto VozesCorrupção, política e o caso da Fábrica de Panchões [dropcap style=’circle’]O[/dropap]Comissariado contra a Corrupção (CCAC) apresentou recentemente o “Relatório de investigação sobre o caso da permuta do terreno da Fábrica de Panchões Iec Long”. No relatório o Comissariado declarou que o acordo relativo à troca de terrenos entre o Governo e os proprietários da fábrica é inválido e que o “termo de compromisso” é uma violação da lei. O relatório provocou grande celeuma junto da população e o Secretário para os Transportes e Obras Públicas ordenou que a DSSOPT fizesse de imediato análise e seguimento detalhados da situação. De momento aguarda-se com grande expectativa a decisão do Chefe do Executivo sobre o assunto. Houve, no entanto, uma associação que já apelou ao Ministério Público para que as pessoas envolvidas no caso fossem investigadas. O caso reporta-se a 2000 e a DSSOPT (Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes) teve conhecimento do “termo de compromisso” relativo à permuta de terrenos, em Janeiro de 2001. Em Março de 2002, o Governo da RAEM aprovou a divisão de terrenos. Em 2006, o então Secretário para os Transportes e Obras Públicas autorizou a DSSOPT a assinar um acordo suplementar. Este processo envolveu ao longo dos anos funcionários do Governo altamente colocados, estando ainda em causa verbas que ascendem aos milhões de patacas. Do processo também constam grandes empresas e figuras de destaque com ligações ao Governo. Se estas figuras, funcionários e entidades vierem a ser investigados, este caso vai ser mais bombástico que o do célebre Ao Man Long! Segundo a Lei de Murphy, “qualquer coisa que possa correr mal, vai correr mal”. Prestemos agora atenção ao cenário político no momento em que o relatório da CCAC foi emitido: o Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM passa por um processo de reestruturação, na China continental o combate à corrupção está na ordem do dia e, em Macau, é preciso não esquecer a iminência das eleições para a Assembleia Legislativa, marcadas para o próximo ano. Perante todos estes factores, o desenvolvimento do caso da permuta de terrenos é muito difícil de antever. É evidente, que o que se vier a apurar pode ter grande impacto em algumas das figuras que tencionam candidatar-se às próximas eleições. De acordo com as declarações do deputado em funções, Fong Chi Keong, proferidas na sequência do seu discurso na Assembleia, o salário mensal dos deputados ronda as 70.000 patacas. Se compararmos esta verba com o investimento que alguns tiveram de fazer para se candidatarem à Assembleia em 2013, percebe-se que gastaram mais do que ganharam, o que nos leva a perguntar porque é que alguns querem ser deputados, mesmo perdendo dinheiro? Claro que quando alguns empresários, empreendedores, ou pessoas de grandes recursos em geral, se tornam deputados, o salário da Assembleia não tem qualquer importância. Mas porque que gastariam o seu preciosíssimo tempo nas sessões da Assembleia Legislativa, a não ser pelo seu elevado sentido de patriotismo e amor por Macau? O relatório da CCAC demonstrou que nenhum dos actuais deputados se encontra na lista dos dignatários envolvidos no processo Iec Long. Mas, alguns dos representantes legislativos em funções tiveram o apoio financeiro de pessoas envolvidas. Por este motivo, assim que o relatório da CCAC se tornou público, alguns deputados começaram imediatamente a demarcar-se dos envolvidos no processo. Pelo contrário, outros deputados têm-se feito ouvir a favor da investigação, numa tentativa de erradicar da Assembleia quem só procura poder e ganhos pessoais. Dito de outra forma, a corrida eleitoral para as Legislativas de 2017 começou no momento em que a CCAC deu a conhecer o relatório sobre o processo Iec Long. É possível que o caso caia no esquecimento dentro de um ano, é possível que sofra novos desenvolvimentos após a investidura do novo Director do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM. Para já, é também insondável de que forma irá o Chefe do Executivo de Macau lidar com os resultados do relatório. Estamos, portanto, perante muitas variáveis imprevisíveis no quadro das eleições de 2017 para a Assembleia Legislativa.
Leocardo VozesO mundo sério (a sério) [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]vida deve ser levada a brincar. Eu próprio sou muito brincalhão, gosto de rir, gosto de andar bem disposto – tristezas não pagam dívidas, e eu nem tenho tantas quanto isso (dívidas, entenda-se). Não aceito que se viva a trabalhar “a vida toda” para depois “usufruir” dos anos mais miseráveis da nossa vida, os da velhice, o “Inverno da Vida”, que soa a algo de frio, insonso e mole, “sem graça nenhuma” – lá está, o que não tem graça nenhuma é normalmente qualquer coisa muito pouco recomendável. Irrita-me aquela gente que se diz muito “séria”. Aliás “sério” é uma palavra que devia ser simplesmente eliminada do dicionário, juntamente com a sua mãezinha, a “seriedade”. Ou deviam ser guardadas apenas para descrever desgraças, como “acidente revestido de seriedade, 40 mortos”, ou “a história séria de uma viúva e os seus três órfãos menores”. Qualquer coisa de funesto, trágico, horrível. Quando se diz que alguém “é um gajo sério”, normalmente isto aplica-se a um fdp qualquer sempre mal disposto, com cara de caso, pálido, fato preto e orelhas grandes, ordinário com as mulheres e rude com os empregados, cruel com a mulher e filhos. “Vamos levar isto a sério” é uma expressão normalmente usada para “acabar com a brincadeira” (no mundo da gente séria brincar é considerado uma coisa má), que é capaz de arrancar o sorriso a qualquer semblante. Quando alguém lança um “vamos levar isto a sério” cai uma penumbra de silêncio que torna uma tarefa potencialmente divertida numa “obrigação” – outra palavra que só devia ser usada no léxico bancário. Quando se diz que qualquer coisa “é um caso sério” quer dizer que ou alguém está às portas da morte, ou existe uma situação impossível de resolver, e como sabe o leitor cristão, “tudo é possível com Deus” (esta foi fraquinha mas serve como comentário social). Quando se condena alguém por “não ser uma pessoa séria”, é como condená-la às galés; ser sério é ser “funcional”, quem “não é sério” está destinado a ir limpar latrinas: “o mundo é dos sérios”. O reverso da medalha é que o veneno da seriedade também serve como antídoto. Se fulano que desbaratou dinheiros públicos, saqueou instituições ou cometeu fraude a cobro da posição de poder que ocupa, basta ir à TV e dizer que “é sério”. Funcionou durante uns tempos com Vale e Azevedo, por exemplo (é preciso não esquecer que do outro lado estavam benfiquistas, mas tudo bem). O mais curioso é que os tais fdp acima referidos fazem uma piada e dizem que têm “sentido de humor”, apesar de tudo (o que não é pouco). Se outros ousam fazer humor, o “gajo sério” chama-os de “engraçadinhos” (uma coisa má) ou “palhaços”. A palavra “palhaço”, que sempre associei com crianças, balões e alegria, é o pior insulto que se pode chamar entre “gente séria”. Talvez porque o palhaço está associado ao “circo”, que é um estado de coisas inaceitável para os sérios. Quando uma situação “é um circo” é porque não há mesmo nada a fazer – eis o circo máximo das coisas sérias. Quando se diz que certa notícia “não deve ser levada a sério”, é aí que mais se aguça a minha curiosidade: se não é “sério”, então só pode ser uma coisa “engraçada”, o que é bom, e interessa-me saber, por isso contem-me já. Se se diz de alguém que “está sempre a brincar”, isso é meio caminho andado para “não ser levado a sério”. As mulheres ditas “sérias” (que las hay, hay) respondem com um impulso diferente, e dizem que certo fulano que vive a vida descontraidamente “é imaturo”, ou pior, “infantil”. Que mal tem ser infantil? Eu é que não quero ser gimbra com uma barriga de bagaço, careca, enrugado e asqueroso. Tragam-me já a minha infância de volta, façam de mim um Peter Pan (Mas sem aquelas orelhas. E as ceroulas). E vive la comedie!
Fernando Eloy VozesExcepção sem regras [dropcap style=’circle’]P[/dropcap]oucas são as coisas sobre as quais tenho certezas. Os dedos de uma mão chegam, e sobram, para as contar mas, de entre essas poucas, a consciência de que tudo muda em permanência é uma delas. Estando em Macau, então, essa noção da mudança é ainda mais notória. Muito tem mudado e uma das transformações mais evidentes é o facto de os portugueses já não serem bem vindos a Macau por muito que o Governo tente dizer o contrário. Mas está no seu direito e, contra isso, nada! Macau continua a ser terra china mas já não sob administração portuguesa – como dizia o estatuto orgânico do território – pois assim era e não colónia como alguns erroneamente pensam ou querem fazer pensar. Ainda esta semana, dizia à Rádio Macau a presidente da Casa de Portugal, Amélia António, que “há menos portugueses a pedirem residência em Macau porque quem procura trabalhadores desiste de esperar meses pela aprovação dos processos” explicando ainda que “a Casa de Portugal, tem tido dificuldade em contratar formadores portugueses” e que muitos portugueses “não estão para vir para o outro lado do mundo para uma situação muito periclitante”. A isto chama-se “lida àpapelada”, uma forma sub-reptícia de lidar com as questões, uma fuga para o lado, uma cernelha burocrática para ver se os bichos se cansam e, pelos vistos, bem sucedida. Mas não é apenas assim que os poderes locais afastam os portugueses de Macau. “Àpapelada” afastam os que tentam vir, os que já cá estão são afastados com a mudança brusca do modo de vida. Leia-se proibições em barda, interpretações estritas das leis, intolerância administrativa, eliminação de tudo o que é lazer – como a ideia peregrina de tratar as piscinas de recreio como instalações desportivas – poluição descontrolada, destruição do património mediterrânico, enfim, um ataque frontal ao Macau descontraído, ao famoso “laid-back”, característica tão marcante da cidade até pouco depois de 99. A tonalidade que tantos atraiu pela sua forma única de viver, por ser um enclave mediterrânico na Ásia, motivo de romances, telas, imaginários e vidas está praticamente extinta. A realidade é que enquanto os portugueses conseguiram, ao longo de séculos, permitir a vida chinesa e a manutenção intacta das suas tradições e formas de estar, a administração chinesa, em meia dúzia de anos, conseguiu arruinar a nossa. Mas, como disse, são opções e quem não está bem muda-se, precisamente o que vai acontecendo. Todavia, grande parte da culpa é nossa. Pelas melhores razões, mas é nossa. Como português orgulho-me da decisão que levou à entrega da cidadania nacional aos residentes de Macau que assim a pretenderam aquando da passagem para a China. Ficou-nos bem, mais ninguém o fez. Mas, como português, tenho de reconhecer agora que, como as coisas mudam, esse estatuto de nacionalidade-de- mão-beijada, para quem não fala e lê português ou tem qualquer contacto evidente com a nossa cultura, já não faz sentido e tem de ser revisto. Continuar a produzir cidadãos sem qualquer ligação à nossa cultura, conforme a lei portuguesa obriga, é uma aberração e um tiro no pé. O estatuto de excepção deve de ser revisto e com urgência. Para o bem de todos e, no limite, para o bem de Macau e da própria China. Explicando. A imprensa portuguesa de Macau está em crise. O mercado publicitário é diminuto e isso deve-se à falta de leitores e à pouca capacidade de penetração que tem na população de Macau. Mas a imprensa portuguesa de Macau faz falta ao território porque, como o seu estatuto lhe impõe, actua servindo de tabelião das liberdades e garantias, verificando factos, denunciando injustiças, dando voz a quem dela precisa e segue rigorosos códigos deontológicos e de conduta como cabe a uma imprensa livre, saudável e responsável. Do outro lado, todos sabemos que a imprensa chinesa de Macau não só não faz nada disso como se rege por padrões de conduta muito mais difusos. Sem esquecer o sistema legal, que não se compadece com alunos que apenas decoram artigos mas precisa que os mesmos percebam a cultura que origina a jurisprudência. Pelas mesmas razões, a venda de livros em português também não é famosa na cidade e assim perde Macau a possibilidade ter uma população com sentido crítico, de mente aberta e universalista que, de facto, faz a ponte com os países de língua portuguesa e um sistema jurídico humanista; Portugal perde a possibilidade de ter em Macau um ponto cultural avançado de contacto com a China e o resto do Oriente e a China perde a ideia da plataforma de contacto com o mundo lusófono pois, num futuro próximo, esta transformar-se-á numa quimera, num pastiche. Segundo a lei da nacionalidade portuguesa (n.º 37/81) no seu artigo 1º (nacionalidade originária), “os indivíduos nascidos no estrangeiro com, pelo menos, um ascendente de nacionalidade portuguesa do 2.º grau na linha recta (…) se declararem que querem ser portugueses e possuírem laços de efectiva ligação à comunidade nacional (…) podem inscrever o nascimento no registo civil português”. “Laços de efectiva ligação à comunidade nacional”? Sem se falar ou entender o idioma, como é feita a ligação? Via Cristiano Ronaldo?… No ponto três do mesmo artigo lê-se ainda que “a verificação da existência de laços de efectiva ligação à comunidade nacional (…) implica o reconhecimento, pelo Governo, da relevância de tais laços, nomeadamente pelo conhecimento suficiente da língua portuguesa e pela existência de contactos regulares com o território português”. Admito que alguns tenham contactos com o território nacional mas não o conhecimento suficiente da língua. Isso tem de acabar, não apenas pelas razões expostas mas também para não alimentar a ideia de portugueses de primeira e de segunda que todos sabemos existir, e com alguma razão. A revisão urgente deste estatuto de excepção, parece-me, por isso, crucial pois em nada beneficia Portugal, nem Macau, nem a China, nem os portugueses e outros lusófonos que aqui vivem, nem as empresas e associações que aqui montam. Por isso, sugiro que num futuro próximo e em prazos justos a definir, a renovação dos documentos de identificação portugueses pressuponha o “conhecimento suficiente da língua”, dando cumprimento à lei portuguesa. Naturalmente, terão de ser salvaguardadas excepções como, por exemplo, para pessoas acima de uma certa idade, ou com incapacidade manifesta de aprendizagem. Obrigará a um esforço do IPOR e de várias outras entidades mas não há impossíveis e tem de ser feito, para o bem de Portugal, de Macau e da própria China se, de facto, pretende que Macau sirva como ligação ao mundo lusófono. Não podemos é continuar a distribuir passaportes como quem atira confetti numa festa de carnaval, pois aos países, tal como às pessoas, aplica-se a velha máxima de que “quem muito se baixa, muito o cu se lhe vê”. MÚSICA DA SEMANA “After All” (David Bowie, 1970) “We’re painting our faces and dressing in thoughts from the skies, From paradise But they think that we’re holding a secretive ball. Won’t someone invite them They’re just taller children, that’s all, after all”