Radicalizados em casa

[dropcap style=’circle’]O[/dropcap]terrorismo torna-se global. Depois do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) ter atacado em França a 13 de Novembro, um casal provocou a morte a 14 pessoas na Califórnia, na semana passada. Em Londres, um outro cidadão foi detido numa estação de metropolitano por ter apunhalado passageiros em trânsito. Enquanto perpetrava o ataque ia gritando “isto é pela Síria”. Já o governo da Tailândia, no dia do aniversário do monarca, anunciou que 10 alegados activistas da organização que controla parte do território do Iraque e da Síria teriam entrado no país, com a intenção presumida de proceder a atentados. Os alegados alvos, fez-nos saber a inteligência tailandesa, seriam os milhares de turistas russos que, pelo período do Natal e do ano novo, desembocam nas praias do país, fugindo ao Inverno.
Ainda que os contornos do que se passou em San Bernardino, na costa oeste dos Estados Unidos da América (EUA), sejam tudo menos claros – com analistas a expressarem dúvidas sobre a narrativa que está a ser construída –, o que é facto é que 14 pessoas foram mortas em plena festa de Natal e que, acto contínuo, um casal foi perseguido pela polícia e abatido dentro da sua viatura. Segundo o que nos é dito por quem controla a investigação, o casal professava a religião muçulmana (foi a primeira mensagem que se escutou) e havia prometido apoio ao ISIL no Facebook. Pelo menos terá sido isso o que fez a mulher há poucas semanas – Tashfeen Malik, uma paquistanesa que viveu vários anos na Arábia Saudita.
A validação desta visão do acontecimento foi feita pelo próprio Presidente Obama, que, no seu discurso semanal à nação, pela rádio, no sábado, fez saber que era “inteiramente possível” que o casal se tivesse radicalizado. O FBI estava a tratar o evento como um caso de terrorismo. Tanto mais que o ISIL logo revelou pelos seus meios habituais, online, que se tratava de um casal de apoiantes da causa.
Independentemente das narrativas que estão a ser construídas, quer nos Estados Unidos, contra os muçulmanos – basta para tal ouvir a campanha dos candidatos republicanos à Casa Branca –, quer na Europa contra os candidatos a refugiados e imigrantes, o número de atentados terroristas está a aumentar. Desde os ataques da Al Qaeda, em 11 de Setembro de 2001, o terrorismo aumentou exponencialmente. Segundo a Global Terrorism Database da Universidade de Maryland, houve 1882 atentados em 2001 contra os 16.818 registados no ano passado.
As intervenções internacionais no Iraque, mas também na Líbia e na Síria, terão contribuído para este fenómeno. São já os próprios norte-americanos quem o reconhece. Michael Flynn, antigo chefe da Agência de Inteligência Militar dos EUA, veio dizer recentemente ao jornal alemão Der Spiegel que a guerra no Iraque e a eliminação de Saddam Hussein foram erros históricos, um “falhanço estratégico”, que contribuíram para a criação do ISIL. O mesmo se aplica a Muammar Khadafi e à Líbia, que “é agora um Estado falhado”.
O número de atentados perpetrados por pessoas que se auto-radicalizaram está igualmente em crescendo. Os lobos solitários que, a partir de casa, através da internet, foram descobrindo o mundo do extremismo, deixaram-se “fascinar” pelas ideias redentoras do ataque suicida e transformaram-se em máquinas de guerra da chamada jihad.
Segundo um estudo recente da Universidade de Georgetown (EUA), o número de ataques, no chamado mundo ocidental, perpetrados por indivíduos não directamente afiliados com organizações terroristas, mas que passaram por um processo de radicalização, cresceu de 30, na década de 1970, para 73, na primeira década do Século XXI. europa
Embora não identifiquem um modus operandi único na forma como um potencial candidato se deixa seduzir pela ideia de radicalização, estudiosos do terrorismo afirmam que, por trás deste processo de auto-radicalização há sempre uma crise pessoal na sua génese, como a perda de um familiar, de um amor, um despedimento. O filme francês “La Désintégration” (2012), de Phillipe Faucon, que o Programa Académico da União Europeia para Macau vai mostrar hoje, pelas 18h30, na Universidade de Macau, explica bem esse processo pessoal. A par disso, há uma máquina de propaganda disponível online que inclui recrutadores à distância, disponíveis a contribuir para a metamorfose.
A falência do modelo multicultural explica como é fácil fazer de um jovem adulto desenquadrado um potencial terrorista. Um pouco por toda a Europa é patente a incapacidade de integração nas sociedades da segunda e terceira gerações de imigrantes, nascidos já em território europeu. Embora sejam formalmente franceses ou belgas, por viverem em verdadeiros guetos sócio-culturais nos subúrbios das grandes cidades, sem qualquer esperança de subirem a escada social, não se identificam com os valores dominantes. São “presas” fáceis para o recrutador online em busca de seguidores. É evidente que uma imensa maioria que estabelece contacto com estes extremistas, acaba por se afastar da doutrina que professam, pois, para muitos, a excitação de ter passado por lá e de ter gritado alguns slogans contra o ocidente lhes chega. Mas outros não.
Como se tem visto, a estratégia que está a ser seguida para aniquilar o Estado Islâmico, focada no ataque à liderança da organização, demora a produzir efeitos. E a semente do terror está já plantada em muitos bairros, cidades e países onde o potencial de recrutamento é grande. Vai ser preciso tempo. Vamos ter de nos habituar a controlos de segurança mais apertados – a União Europeia, confirmou, por exemplo, esta semana, a entrada em vigor, já em Janeiro, da partilha das listas de passageiros no espaço europeu – e a uma fragilidade inequívoca, que é a de nenhum Estado poder afirmar com toda a certeza de que está imune ao terrorismo.

7 Dez 2015

Voto Decisivo em Hong Kong

[dropcap=’circle’]O[/dropcap] processo eleitoral para o Conselho Distrital de Hong Kong chegou ao fim. No dia seguinte consegui comprar num quiosque de Macau o jornal “Wen Wei Po”, de Hong Kong, que é sempre difícil de encontrar. Em destaque, na primeira página, podia ler-se: “Corrente Pró-Governamental Vence Eleições”. De acordo com esta análise, a coligação formada pela Aliança Democrática Para o Melhoramento e Progresso de Hong Kong, a Federação de Associações de Comércio de Hong Kong, o Novo Partido do Povo e diversas associações orientadas pela doutrina “Amar a China e Amar Hong Kong”, tinha acabado de conquistar 300, dos 431 assentos do Conselho Distrital. Este número representa 70% dos lugares do Conselho, permitindo às forças pró-governamentais manter o controlo em 18 Distritos.
Mas, segundo a leitura do jornal “Apple Daily”, as forças pró-governamentais apenas tinham conquistado 298 assentos, mantendo a maioria, mas com menos 13 lugares que nas eleições anteriores. Os resultados da primeira eleição local, directa, após a Revolução dos Chapéus de Chuva, mostrou claramente que a nova geração de pró-democratas foi a grande vencedora. Os pró-democratas conseguiram passar o testemunho à nova geração através do voto sagrado do povo de Hong Kong. Albert Ho Chun-Yan e Frederick Fung Kin-kee não foram reeleitos, pondo assim um ponto final a essa era. O que ficou desse período virá a ser demonstrado pela forma como a nova geração do Conselho Distrital trabalhar os seus objectivos.
A eleição para o Conselho Distrital gerou uma luta entre as forças pró-democráticas e as forças pró-governamentais. Para as eleições do próximo ano, para o Conselho Legislativo, a questão que agora se coloca é saber se os pró-democratas irão, ou não, manter o terço de lugares, que possuem de momento. A eleição para o Conselho Distrital serviu apenas para medir forças entre os dois campos políticos. Os resultados mostraram que a geração mais velha dos pró-democratas deve aceitar ser substituída pela geração mais jovem, que conseguiu tirar proveito dos efeitos a longo prazo da Revolução dos Chapéus de Chuva e, que conquistou, com sucesso, o seu lugar na cena política. O destaque que o jornal “Wen Wei Po” deu à vitória das forças pró-governamentais, também parece ser uma forma de sossegar o Governo Central.

MARY POPPINS, Julie Andrews, 1964
MARY POPPINS, Julie Andrews, 1964

De forma grosseira, podemos considerar que, para estas eleições, existiram quarto tipos de voto: 1 – As forças pró-governamentais beneficiaram da sua relação de proximidade com o governo. Usaram os recursos a longo-prazo, que tinham disponíveis, para conquistar o apoio dos eleitores, possibilitando mobilizar os seus apoiantes, sem qualquer monitorização interna. 2) o voto das pessoas mais velhas, que beneficiaram de transporte organizado até às secções de voto. Por este motivo, as forças pró-governamentais obtêm muitos apoiantes entre a população mais idosa e conquistam a esmagadora maioria dos seus votos. Os preparativos e a mobilização de eleitores, descritos nestes dois pontos, são muito semelhantes ao que se passa em Macau. As diferenças encontram-se na terceira categoria: desde que Hong Kong foi reintegrado na China, muitos imigrantes, residentes em Hong Kong, passaram a poder votar, desde que vivessem na cidade há mais de sete anos. A sua decisão de voto é muitas vezes influenciada pelos seus conterrâneos e, é frequente votarem segundo as orientações que recebem. Nestas eleições para o Conselho Distrital, estes novos eleitores alteraram efectivamente os resultados esperados. Quanto aos jovens, que se recensearam a seguir à Revolução dos Chapéus de Chuva, sentem o desejo de reformar a sociedade através de uma participação activa nos movimentos sociais. Neste caso, votar faz parte do seu comprometimento cívico. No que diz respeito aos novos eleitores, as forças pró-governamentais e as pró-democráticas, registaram um empate. O quarto tipo de voto é o dos eleitores conscientes, e é crucial para determinar quem ganha a eleição para o Conselho Distrital. Muitos destes eleitores, que estavam recenseados, mas que nunca tinham votado, votaram agora nestas eleições. Quiseram usar o seu voto para eleger pessoas integras e capazes e. recusaram-se a continuar passivos. Quanto aos eleitores que votam sempre, o seu voto expressou-se no sentido da mudança, das reformas, ajudando a ingressar no Conselho Distrital aqueles que verdadeiramente desejam servir a comunidade. Fico muito satisfeito por verificar o despertar da consciência cívica em Hong Kong, que trará oportunidades de desenvolvimento e vitalidade ao futuro de Hong Kong.
E em Macau, haverá hipótese de mudança? A partir da atitude que se observa no governo da RAEM e, analisando os conteúdos dos debates, que decorrem na Assembleia Legislativa, sobre o desenvolvimento do sistema político, não parece provável que vão ocorrer quaisquer mudanças. Mas para tornar realidade o conceito de “Macau governado pelas suas gentes”, o empenho tem de partir da população. Se não quiserem saber e, não lutarem para que haja mudanças, vão acabar a chorarem o seu fado!

4 Dez 2015

Aturdimento e vazio

[dropcap style=’circle’]P[/dropcap]assado o tempo de choque causado pelos ataques a Paris, eis que a cidade das luzes é palco da Cimeira do Clima, neste mês de Dezembro.
Por aqui também faria jeito uma cimeira sobre cidades e cidadania, sobretudo quando Charles Landry está prestes a chegar a Macau. Não se deveria deixar passar a oportunidade da visita deste especialista em cidades criativas.
Este último mês do ano surge agora também ameaçador para quem tinha passes mensais de parques de estacionamento, agora descobertos como ilegais pelas entidades competentes. O efeito foi de total aturdimento. Os ouvidos a zunir e, em redor, o caos junto à incredulidade.
Cidadãos foram despejados de um parque de estacionamento que emitiu passes mensais posteriormente a 2009, o que para mim constitui uma estupefacção, porquanto não entendo nem consegui encontrar a razão da discriminação de datas e parques de estacionamento, a razão de o terem feito, porque só agora foram descobertos. Há um ditado que diz “ou há moralidade…”.
Há nisto tudo uma impreparação clamorosa, um improviso total, porquanto em 2009 já devia ter soado o alarme quanto ao número de veículos em Macau.
Foram precisos mais oito anos para que se tomasse a iniciativa de desalojar os portadores dos ditos passes sem que se conheçam quaisquer medidas para estancar o dilúvio de automóveis que continua a inundar a R.A.E.M., além da extrema poluição, consequência mais do que natural.
Parece que a tudo isto preside uma lógica que, ou é a da batata ou a do inhame, conforme gostos e paladares, porquanto, para além de retirar benefícios aos cidadãos em nome de uma eventual “moralidade” que apenas existe na cabeça de algumas sumidades científicas propensas a sorteios e afins, redundou no aumento do custo do estacionamento para MOP6.00 por hora, o que significa que o trabalhador normal pagará dez horas por dia, aproximadamente, qualquer coisa como MOP60.00 diárias. Como resultado, pude constatar que em plenas 15:00 horas, um dos parques apresentava 115 vagas para automóveis e 130 para motociclos. O panorama é radicalmente diferente, com enormes espaços desocupados por quem não pode, ou não aceita, pagar somas tão avultadas.
Perguntar-se-á a quem, verdadeiramente, beneficia esta medida. Seguramente não é aos cidadãos, únicas vítimas de tais luminosas ideias. Ora, não beneficiando o cidadão, alguém tirará lucro, se os automobilistas estiverem pelos ajustes ou forem obrigados a pagar por hora MOP6.00. Afinal, estamos num mercado libérrimo, onde até a asneira é livre.
Entretanto, e porque depois de Kyoto, a cimeira de Paris ainda não decidiu sobre o futuro dos combustíveis fósseis, o nosso mercado livre vai deixando engrossar a fileira de automóveis e motociclos, e o nível do caos que é o trânsito, e o veneno que é a poluição do dióxido de carbono, que mata que se farta, mas andam todos distraídos com outros malefícios.
Tudo isto me traz à mente o conceito budista do Vazio. “Uma taça só tem utilidade quando está vazia”. Transpondo para a realidade que este escrito aborda, creio que o princípio, ainda que não budista, é o mesmo: esvaziar para encher.
Seguramente estamos no plano do aturdimento e do vazio.

3 Dez 2015

Carta a Lili (Não tenhas medo)

[dropcap style=’circle’]C[/dropcap]ara Lili,

Pode ser que esta minha missiva te apanhe de surpresa, mas não é nem nunca foi minha intenção invadir a tua zona de conforto, e espero também não te apanhar de mau humor, como dizes ser do teu timbre. Em primeiro lugar gostava de esclarecer que aquilo que tenho para te dizer não é necessariamente dirigido a ti, mas a quem queira tirar das minhas humildes palavras as ilações que considere oportunas, e mesmo que daqui se possa aproveitar alguma ideia, lembra-te que tens um bem precioso com que todos nascemos mas infelizmente nem todos se podem orgulhar de fazer dele o uso: o livre-arbítrio. Este nosso dom de poder escolher o nosso caminho, depois de termos sido inicialmente levados pela mão dos nossos pais, e dotados do saber transmitido pelos nossos mestres, provém de um outro igualmente inato, mas de mais difícil gestão: a liberdade. Este valor da liberdade assenta numa base menos sólida, mas onde ao mesmo tempo cabem as liberdades de toda a gente – “a nossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros”, não é apenas uma frase feita. O mais difícil mesmo é aceitar o que cada um entende por liberdade, e a medida da mesma que considera a melhor para si.
Se mais nada sabes de mim, Lili, sabes pelo menos que as distâncias nos separam; tu aí, no coração de Portugal, e eu aqui na Ásia Oriental, em Macau. O que nos une, quer queiramos quer não, é aquele grande abraço que um dia esse lugar que agora chegou a vez de ser teu deu ao mundo, e da ponta de uma das mãos abertas estás tu, e na outra estou eu, e em comum temos aquele sentimento que por vezes nos faz ficar mais próximos, que é a “Portugalidade”, aquele sentimento do ser lusitano que os nossos emigrantes tão bem exteriorizam e que nos faz encher o peito de orgulho. Pode ser que a forma como entendes este conceito seja diferente da minha, mas nenhum de nós está errado, e muito menos estará completamente certo. Ultimamente gostava de poder dizer que estou errado, e que não é esta a noção do ser Português que se recomenda, pois está muito longe da ideal e que passa em primeiro lugar por amar Portugal, o nosso país herdado dos nossos ancestrais. Mas se por um lado uma herança é parte do património individual ou dos bens de uma dada família, Portugal é a herança de todos, inalienável, indivisa, e tal como a própria liberdade, frágil e sujeita a que a diminuamos, deixando-nos com mais do que uma perda irreparável: um grande vazio no tal peito, outrora inflado de orgulho.
Mas vê se consegues perceber onde eu quero chegar, Lili. Somos aquilo que fomos, que fizemos, que ousamos um dia ser, e que em tempos foi muito mais do que somos hoje. Fomos uma das nações que de mundos ao mundo, e se daí se podem tirar coisas más e coisas boas, uma das boas foi o mundo ter ficado a conhecer-nos, e posso-te garantir daqui, do outro lado desse mundo, que nos olham mais como uma das suas partse integrantes, do que como um “invasor”, e quer gostemos ou não da palavra, é aquilo que um dia fomos. Curiosamente aqui os chineses referem-se a nós como “os piratas”, mas se para eles isso pode ser entendido de outra forma, para nós um “pirata” é um aventureiro, um destemido navegante dos sete mares, enfrentando desafios, vencendo batalhas, perdendo outras, e no ponto da História em que nos encontramos e ajudamos a escrever, deixa-nos onde estamos agora, eu aqui, tu aí, separados pela distância, e na soma de tudo o que somos, unidos pela Portugalidade.
Não sei nada de ti, Lili, nem tu de mim, mas és capaz de reconhecer em algumas das valências que nos aproximam aquele que foi o relato por excelência desse nosso passado que ainda faz eco no presente, e a que o poeta que ainda hoje todos comemoramos deu o nome de “Os Lusíadas” – que somos nós, e se temos consciência desse facto, talvez nem sempre o tenhamos presente em todos os momentos. Se alguma coisa retemos da epopeia narrada por Camões nessa obra que tantos de nós tratou injustamente por nos ser imposta enquanto jovens, tempo em que nos queriamos impor, foi a persistência e a coragem das nossas gentes. Se te pedir para me dizeres três personagens d’”Os Lusíadas” se calhar respondias o mesmo que eu: Baco, o velho do Restelo e o Adamastor. É engraçado quando o personagem principal somos nós mesmos, e as referências que nos vêm à memória são as das nossas adversidades. Mas isso não tem que ser necessariamente mau, ou uma expressão do nosso incontornável fatalismo, a que tão irremediavelmente entregues ficámos, que fizemos dele a nossa canção, e lhe demos o nome de fado.
E por falar em fado, também esse começou por ser invariavelmente triste, mas mais uma vez demos a volta por cima, e ora gingando ora cantando ao desafio, fizemos orelhas moucas das palavras do velho do Restelo, e fomos enfrentar o Adamastor, e imunes às ciladas de Baco fechamos os braços à volta do mundo, com a ilha dos Amores de portas escancaradas para nos receber, e onde somos sempre bem vindos. É por isso que me entristece que não nos encontremos num destes imensos pontos que temos em comum, e mais uma vez gostava de estar rotundamente errado. É nos momentos mais extremos que nos damos a conhecer, e da ponta da mão que abraça o mundo, olho para essa mão e vejo-a recusar segurar a mão de quem dela mais precisa, e por motivos que, seja eles qual forem, nada têm a ver com o impulso que nos fez meter nas Caravelas e enfrentar o Adamastor, que é o medo. Todos temos medo, uma vez ou outra, mas nunca devemos ficar unidos pelo medo, pois mesmo que nunca cheguemos a enfrentá-lo, o Adamastor ganha sempre.
Tanto eu como tu Lili, temos filhos, e os teus ainda mais pequenos que o meu rapaz, que é o único herdeiro que tenho, e queremos para eles o melhor, naturalmente. E queremos ainda que possam usufruír do melhor em plena liberdade, e dotados de um espírito crítico, advertendo-os dos perigos que são os Bacos e os Adamastores desta vida. É por isso e só por isso, Lili, que portas fechadas, ou neste caso as fronteiras que um dia estendemos até este ponto longínquo onde me encontro, e acreditar numa mentira por ser parte de um todo que achamos o mais válido, não se coadunam com essa liberdade, e serão com toda a certeza o ferro que fere de morte o espírito crítico que os impedirá de não comer do que não gostam. Um abraço do tamanho do mundo, Lili. Até à próxima, e sem medo.

3 Dez 2015

Macau, esse filme…

[dropcap style=’circle’]S[/dropcap]endo os filmes uma representação da realidade, porque não então comparar o seu processo de produção com coisas prosaicas como a gestão de uma cidade? Podia ser uma cidade ao calhas mas compare-se com Macau. Parece-me até especialmente apropriado neste momento solene em que se discutem as Linhas de Adormecimento Geral ou LAG, ou lá como se chamam. Tomemo-las como o guião do nosso filme.

Fazer um filme parece um processo relativamente fácil: escrevem-se uns diálogos, arranjam-se uns actores, um realizador, uns tipos para filmar mais umas roupitas, luzes e já está! Gerir uma cidade também. Arranjam-se uns secretários, um chefe, escrevem-se umas leis, uns polícias para as fazer cumprir, uma tropa para arranjar as ruas… enfim, vocês sabem. A diferença é que a grande maioria dos filmes é lixo e só algumas cidades dão mesmo vontade de lá viver, ou de lá voltar.

Todos os filmes começam por um guião. Quanto melhor for, quanto mais inteligentes e marcantes os diálogos, quanto mais elaborada e pensada a história, maiores as possibilidades de termos um filme de sucesso. Um mau guião dificilmente dará um bom filme a menos que a equipa de produção se exceda e consiga improvisar uma história melhor ou então estamos a filmar um porno. Mas, mesmo neste caso, ajuda que os grandes planos tenham algum contexto erótico subjacente. Um filme precisa, portanto, de uma ideia sólida, de um final entusiasmante, de um enredo que nos compila a viver naquele hiato de ficção, a vê-lo mais do que uma vez e até a recomendá-lo aos amigos. Neste contexto, os diálogos assumem um papel crucial ao revelarem personagens maiores do que a vida, ao desvelarem inconscientes, ao catapultarem a acção e a imprimirem na nossa memória lições de vida, formas de estar ou apenas grandes tiradas que marcam tempos gerações, modas, eternidades. Um bom filme não tem personagens que soam todas ao mesmo, nem as palavras são ditas apenas porque sim. Por exemplo, não podemos ter os personagens todos do filme a gritarem repetidamente “diversificação económica” ou “indústrias criativas” sem saberem muito bem o que isso quer dizer, a menos que estejamos a escrever uma comédia onde a repetição e o nonsense podem ser utilizados como ferramentas dramáticas. Mas gerir uma cidade não pode ser uma comédia. Um bom filme não se coaduna com uma personagem que é, por exemplo, médico e não sabe o que é uma amigdalite, como não podemos ter um dirigente de uma cidade ignorante do valor pago pelo governo dessa cidade em rendas. Especialmente quando a dita sofre horrores a esse nível. A menos, de novo, que estejamos a produzir uma comédia. Às vezes acontece não conseguirmos puxar mais por uma personagem. Foi mal desenhada, está desajustada da história, qualquer coisa. Quando assim é, é melhor riscá-la do guião. Mas lá está, quanto mais sólida for a ideia da história mais fácil se torna criar os personagens certos para a interpretarem. Naturalmente, um guião começa com uma ideia forte, uma premissa, uma questão que pretendemos ver satisfeita, uma sensação que pretendemos criar, seja lá o que for. Mas não basta uma boa ideia. Não basta dizer que vamos fazer um filme sobre dois gajos perdidos na lua, temos de construí-la, de criar drama, conteúdo, tensão, envolvimento de elaborá-la de tal forma que ela quase se materializa por si própria, ou o filme tem apenas uma cena de 10 minutos e acaba. Tal como não chega dizermos que pretendemos que uma cidade seja um Destino Mundial de Lazer – precisamos de saber o que isso quer dizer, o que isso implica, de tudo o que está à volta dessa ideia e traçar planos concretos que se coadunem com a visão do que isso realmente é. Por muito que se pense, o guião de um filme não é escrito de impulso, durante uma semana, ou duas, a fio. É um trabalho de sapa, de planeamento, de investigação, de reflexão, e depois um processo contínuo de decisões pois quando mergulhamos num assunto abrem-se mil e uma hipóteses, e isso implica sangue frio para separar o importante do prescindível, discernimento, qualidade. Temos de saber escolher: o personagem morre? A acção acontece onde? Qual o tempo? Enfim, chega uma altura em que é preciso decidir um caminho, cortar o supérfluo, avançar e ter coragem para eliminar cenas que achávamos fantásticas mas que em nada contribuíam para o enredo, por muito gozo que nos desse vê-las filmadas, caso contrário nunca teremos guião e, por consequência, nunca teremos filme. Comparando com a nossa cidade a tal cena que adorávamos mas que tivemos de cortar: será, por exemplo, que vale mais a pena construir uma passagem aérea faiscante numa rotunda, ou aplicar a mesma verba no apoio ao pequeno comércio local que, esse sim, caracteriza mais uma cidade do que 10 rotundas iguais à aquela? É apenas uma reflexão como muitas outras que vão sucedendo no processo de criação.

Chega de guião. Partamos do princípio que está lá tudo, que até é uma boa peça literária, com o necessário para dar um bom filme e passemos para a equipa. Se um mau guião dificilmente dará um bom filme, nada nos garante que um bom guião o consiga fazer. Uma escolha criteriosa do elenco para dar vida às personagens, do realizador para consubstanciar a visão, da equipa de filmagem, de iluminação, de guarda-roupa e por aí fora, é um processo absolutamente crucial para que o tal do guião consiga brilhar no ecrã. No caso da cidade, a equipa somos todos nós, governantes e governados, empregados e patrões, desempregados e poetas, artistas e cirurgiões. Naturalmente, como nos filmes, uns mandam mais que outros, mas todos são necessários para que a coisa corra bem. Ao produtor cabe-lhe a responsabilidade de se assegurar que reúne as condições financeiras e logísticas necessárias para conseguir fazer o guião brilhar, o realizador é responsável por ter e comunicar uma visão à equipa, explorar o seu potencial e assegurar-se que os diálogos são executados de forma convincente. Ambos são ainda, ou devem ser, responsáveis por que a equipa se sinta motivada e perfeitamente elucidada da visão subjacente, desde o mais simples assistente de produção ao director de fotografia todos devem estar no mesmo filme e com vontade de dar o seu melhor. Nestas circunstâncias, até um guião menor pode vir a tornar-se num grande filme pois todos contribuem para o fazer melhor – o realizador produz situações incríveis, os actores proporcionam desempenhos memoráveis, o guarda roupa sai-se com indumentárias inesquecíveis, o director de fotografia com imagens de rara beleza, e por aí fora. Mas é preciso uma visão clara, comum a todos para que isso aconteça. E, acredite-se ou não, nem tudo é dinheiro e muito tem a ver com a capacidade de se entusiasmar uma equipa, pois apenas assim obras foras de série são possíveis. Uma produção onde a equipa anda de trombas e desnorteada dificilmente fará um filme decente. No caso da nossa cidade, sabemos bem que o guião é defeituoso, ou inexistente mas, pior do que isso, é sentirmos também que a equipa está desmotivada e tem óbvia incapacidade para consubstanciar essa visão débil, quasi desconhecida. Vivemos de improviso em improviso e esperamos ter sucesso na bilheteira, ou no caso da nossa cidade, dar corpo ao tal Destino Mundial de Lazer.

Não basta colocar o ónus do desenvolvimento nos operadores turísticos que se regem por regras de concorrência e não de desenvolvimento urbano e civilizacional. Mesmo eles acabam por sofrer quando as suas equipas não estão suficientemente motivadas. Caso os produtores deste filme macaíno tenham dúvidas, perguntem à maioria dos estrangeiros que por cá trabalham o que os mantém cá. É preciso dizer “salário”? Mas a vida não é só trabalho e quando se está numa cidade entupida pelo trânsito, com proibições para isto e para aquilo, com uma assistência médica defeituosa alguém pensa em por cá ficar muito tempo? Mesmo aqueles que por cá nasceram ou que por cá andam há muito tempo, quantos não sonham em encher o pé-de-meia e porem-se a andar daqui para fora? Há estatísticas disso, ou não vale a pena fazer a pergunta? Que prazer dá viver numa cidade onde nem sequer existem esplanadas para se cavaquear com os amigos e esquecer as agruras do dia de trabalho? Que prazer dá visitar uma cidade que cada vez mais é uma colecção de lojas de marca e menos uma revelação dos sentimentos locais? Que gozo dá viver numa cidade onde as festividades são contínuos exercícios de boçalidade como os concertos de Ano Novo ou as decorações de Natal do Leal Senado para citar um exemplo recente? Que prazer dá viver numa cidade que tanto fala de criatividade mas não a estimula? Que prazer dá viver, ou visitar, uma cidade onde respirar começa a ser uma actividade de risco? Que prazer dá viver numa cidade onde os pequenos negócios não arranjam pessoal para trabalhar, nem argumentos para pagar os custos de localização? Qual viajante menos sensível às mesas de jogo terá vontade de cá voltar enquanto não esquecer os problemas que teve em deslocar-se, as contas surdas que pagou ou a cidade centenária que não descobriu?

Se um produtor quiser mesmo assegurar-se que tem hipóteses de fazer um bom filme deve pensar primeiro em ter um guião com o mínimo de qualidade, uma visão clara do caminho que pretende seguir, coragem para decidir e capacidade para o maximizar com equipas motivadas, capazes e felizes. Sim, felizes, fazer um filme é duro mas pode ser um processo feliz. Não basta depois ao realizador dizer “acção” e esperar que tudo se encaixe como por magia, como não basta ao governo falar de “linhas de acção” se os discursos forem apenas composições de frases sem conteúdo, se as ideias surgirem dispersas, e até desconexas, se os secretários não souberem que gastam 600 milhões por ano em rendas e não forem capazes, sequer, de imaginar, o que poderiam fazer com esses 600 milhões para consubstanciarem a visão. Porque não têm um guião, porque não conseguem perceber o filme em que estão e nem sequer demonstram capacidade para o realizar. Quando se gere assim um filme, o resultado é normalmente um fracasso de bilheteira, equipas alienadas, investidores tramados e mais umas bobines para a poeira do esquecimento. Quando se gere assim uma cidade, o resultado só pode ser exactamente o mesmo, ou então estamos a ensaiar um remake da “Fuga de Alcatraz”.

MÚSICA DA SEMANA
“The Final Cut” – Pink Floyd
Through the fish eyed lens of tear stained eyes
I can barely define the shape of this moment in time
and far from flying high in clear blue skies
I’m spiraling down to the hole in the ground where I hide (…)

2 Dez 2015

Má sorte ser jornalista

[dropcap style=’circle’]O[/dropcap]diário i e o semanário Sol vão fechar em Portugal. Alegadamente darão lugar a um novo projecto mediático.
Isto é uma péssima notícia. É dramático, naturalmente, para os 120 profissionais que vão ser despedidos. E para as suas famílias. Entre aqueles que vão agora para o desemprego estão sobretudo jornalistas. Desde o início da crise financeira de 2008, já terão sido despedidos em Portugal 1200 profissionais do sector da comunicação social. Um olhar mais distanciado destas duas redacções e menos próximo dos 120 dramas por que estas pessoas estão por estes dias a passar, o que esta notícia revela é que a liberdade de expressão fica mais pobre, o pluralismo mitigado e a capacidade de todos nós conseguirmos interpretar o mundo diminuída.
É evidente que este não é um problema específico do sector da comunicação social. Infelizmente. É transversal ao sector empresarial português. A crise – convém sempre recordar – começou por ter natureza financeira. Mas depois de ter afectado profundamente a economia portuguesa, continua ainda hoje, acima de tudo, a ser marcadamente social. Isto explica, por exemplo, que, nos quatro últimos anos, tenham saído de Portugal, para procurar trabalho no estrangeiro, temporária ou permanentemente, mais de 485 mil pessoas. O que os dados do Prodata nos dizem também é que, desde 2008, encerraram sempre mais empresas do que aquelas que abriram, com a excepção do ano de 2013 (os números do ano passado ainda não estão disponíveis).
Sem dados tão sistematizados acessíveis online, no sector da comunicação social podemos apenas pintar o quadro das últimas décadas. Nos anos da pujança económica e da inundação de Portugal com fundos comunitários, centenas de jornalistas foram formados. Foi um fenómeno, que coincidiu com a explosão das rádios piratas e a subsequente legalização do sector. Não foram apenas os cursos universitários, quais cogumelos, que se reproduziram um pouco por todo o país. Também os cursos técnico-profissionais levaram a que fossem chegando ao mercado profissionais qualificados, que foram entrando nas redacções, rejuvenescendo-as, e trazendo um pouco mais de conhecimentos teóricos aos seus profissionais. Os jornalistas da “velha guarda” – da tarimba –, formados no dia-a-dia das redacções, foram paulatinamente cedendo os seus lugares aos jovens vindos das universidades.
Com a crise económica, as receitas da publicidade caíram e as empresas de comunicação social foram ao longo dos anos procedendo a reestruturações que conduziram inevitavelmente a despedimentos. Em parte, isto tem muito que ver com os avanços tecnológicos e com as diversas tarefas – outras – que os jornalistas passaram a desempenhar.
Os tempos são completamente diferentes hoje nas redacções do que eram há apenas duas décadas. O advento da internet, primeiro, e do social media, depois, modificou totalmente o papel desempenhado pelo jornalista. Não foi assim há tanto tempo que as equipas de reportagem eram constituídas por quatro pessoas: o motorista, o repórter de imagem, o jornalista e o paquete que carregava o material. Eram tempos extraordinários. Quando se saía da redacção para se fazer a cobertura de um incêndio e o motorista não estava imediatamente disponível, corria-se o risco de que quando lá chegados, o incêndio já tinha sido controlado ou mesmo debelado. Isto era um drama para as televisões (ou melhor, televisão, que só havia uma), pois não haveria imagens para mostrar das labaredas. Agora, passe a imagem, o jornalista vai sozinho em reportagem, mais o seu bloco de notas, câmara de filmar e gravador.
A primeira grande alteração foi a introdução dos telemóveis. Subitamente, os jornalistas deixavam de estar obrigados, quando estavam em reportagem no interior do país, a descobrir um estabelecimento comercial que os deixasse usar o telefone para ditar a notícia para a redacção ou a gravar pela linha telefónica. Era ainda preciso parar o carro – é um facto –, levantar a antena do “tijolo” do telefone móvel, escolher uma localização em que o sinal da operadora fosse suficientemente forte para a voz ser escutada e gravar a peça.
Com a internet, o jornalista deixou de escrever apenas uma estória, para o dia seguinte. Passou a ter de actualizar regularmente o website de publicação. Se numa primeira fase os jornais ainda estabeleceram secções para o online, recorrendo às centenas de licenciados que estavam a sair dos cursos universitários, há muito que o jornalista é agora uma espécie de três-em-um. Faz a peça para o online, para a TV e para o jornal do dia seguinte. Põe som e imagem no website e ainda escreve uns parágrafos, as mais das vezes, do sítio onde está em reportagem. São tempos totalmente diferentes. Com a digitalização da rádio, o técnico de som saiu de cena – é agora o jornalista que produz e grava a peça sozinho.
Com estas inovações tecnológicas, a par com os cortes salariais, as reduções de quadros e a crise no sector, o jornalista médio deve hoje produzir três vezes mais do que acontecia há 20 anos e aufere, em média, consideravelmente menos do que se ganhava então.
O resultado de tudo isto, para o consumidor final, é o triunfo do jornalismo mainstream, suportado financeiramente por meia dúzia de empresas transnacionais, com interesses em áreas de negócio estratégicas. E leva a que o jornalista sobrevivente, aquele que ganha menos agora do que quando chegou a chefe há 15 anos, se interrogue sempre, e cada vez mais, se tem “tempo” para escrever sobre esta ou aquela estória. Talvez não haja. Sistematicamente.
Uma das grandes consequências disto tudo é o desinvestimento no jornalismo de investigação. Com algumas honrosas excepções, como a RTP – viva o serviço público! – e o seu programa de investigação emitido às sextas-feiras, pouco se investiga em Portugal. E o aumento de popularidade de blogues independentes, que fazem um esforço para tentar enquadrar a actualidade. De resto, de uma maneira geral, estamos todos a deixar de nos interrogar como é que tão rapidamente nos foi dito que havia um passaporte sírio ao lado de um dos alegados terroristas que se fizeram explodir em Paris, ou como havia uma câmara de televisão a filmar o avião de combate russo a ser abatido pela Força Aérea Turca, em terra de ninguém, um dia depois de uma cimeira Rússia-Irão.

(Em memória do Francisco, que, há 23 anos, me desafiou a ser jornalista.)

2 Dez 2015

Da China II

[dropcap style=’circle’]C[/dropcap]hama-se a Revolução Sexual Chinesa e nasceu das especificidades da revolução cultural, da política do filho único, da aberta do país ao mundo e da internet.

Durante a revolução cultural, Mao foi o impulsionador de uma ideologia em que homens e mulheres seriam acima de tudo camaradas, vestidos de igual, com o mesmo corte de cabelo, com as mesmas atitudes e contribuições ao regime. Sexo era uma prática feudal depravada que deveria ser suprimida. Assim foi: mas já não o é. Pelo menos para quem acaba de chegar à China e tenta perceber em que moldes a sexualidade se forma, cedo percebe que não é no total conservadorismo que se vive. Pequim neste momento tem mais sex-shops do que Nova Iorque, homens e mulheres igualmente, tentam adornar-se e embelezar-se com os milhares de tratamentos disponíveis, há espaços para saídas nocturnas de loucura e já se começam a ver gestos de afecto em praça pública. Tudo isto, muito provavelmente, faria Mao corar de vergonha, ou arder de raiva.

Como não seria de surpreender, a política do filho único teve consequências para a sexualidade chinesa. Ter-se-ia pensado que o sexo seria visto como um objecto de controlo do governo e, por isso, estivesse mais reprimido ou fosse ignorado mas, pelo contrário, as mulheres rapidamente perceberam que não eram, única e exclusivamente, máquinas parideiras. Assim o sexo redescobriu a sua potencialidade recreativa, que fez com que muitas vozes se expressassem na sua curiosidade por uma sexualidade ainda divertida. Foram as mulheres em especial que começaram esta revolução, que com a ajuda dos meios de comunicação que já conhecemos, puseram dúvidas, contaram as suas histórias e procuraram uma nova identidade sexual. A mais conhecida de todas é uma de pseudónimo Mu Zimei (木子美) que começou um blog onde partilhava as suas aventuras sexuais, com detalhes tórridos das suas posições favoritas e avaliações quantitativas da performance do parceiro.

[quote_box_left]Como alguém dizia, são tempos extremamente divertidos na China. (…) Em 2009 tentaram criar um parque temático sobre o sexo em Chongqing mas foi ordenada a sua demolição antes de sequer abrir. A ‘Love Land’. Já se passaram seis anos, porque não tentar a sua abertura outra vez?[/quote_box_left]

Mas se a política do filho único trouxe vantagens ao sexo em si, trouxe o que já sabemos sobre a actual morfologia da população chinesa. A preferência por um filho homem criou uma grande impossibilidade da totalidade da presente geração de homens encontrar uma parceira e constituir família. E porque a concorrência é muita, os homens vêem-se agora obrigados a preencher requisitos financeiros como, por exemplo, possuir o ninho para viver o amor pós-conjugal, i.e. ter casa própria (normalmente comprada pelos pais do noivo). Percebe-se agora que ter uma filha até nem é mau de todo. Isto empoderou muitíssimo as mulheres da forma como se vêem no mercado do trabalho e em outras áreas das suas vidas, e que agora lutam pelas suas carreiras, pela sua liberdade e pela sua sexualidade. As que fazem uso deste empoderamento são muitas vezes referidas de ‘Sheng Nv’ (剩女), ‘as mulheres deixadas de lado’. Normalmente são mulheres com mais de vinte e sete anos e que ainda não se casaram e que são erroneamente referidas como ‘as rejeitadas’. Quando, na verdade, trata-se de pessoas com uma educação superior, inteligência, ambição e grande potencialidade para o progresso a que a China deveria aspirar. Como se havia de esperar, os homens deixados para trás não possuem tão óbvia alcunha, nem ninguém os chateia muito com isso. Tal “escassez de mulheres” que têm sido a desculpa para a ‘legitimidade’ do desenvolvimento da indústria sexual, mais especificamente, na proliferação de bordéis e de consultórios de massagens com ‘final feliz’. Lugares ilegais e operados em grande secretismo que têm contribuído para a contaminação crescente de jovens mulheres e homens com o HIV. A China tem tido pouco cuidado com isso.

A revolução sexual chinesa foi e é inevitável. Há forças de muitos lados que puxam para um explodir da sexualidade que se viu reprimida. A abertura, apesar de imperfeita, tem sido incrível, mas falta-lhe muito na divulgação e na informação bem cuidada em prol da saúde de toda a população, mental, física e sexual. No entanto, têm havido passos nessa direcção, com a criação de uma associação de sexologia chinesa ou na organização de exposições sobre sexo ( a que já assisti pessoalmente, com barraquinhas com os mais variados produtos sexuais, com desfiles de roupa kinky e com muitas palestras sobre os mais variados temas).

Como alguém dizia, são tempos extremamente divertidos na China, é uma redescoberta sexual, claro, com restrições políticas, mas que parecem ter alguma flexibilidade na forma como são vividas. Em 2009 tentaram criar um parque temático sobre o sexo em Chongqing mas foi ordenada a sua demolição antes de sequer abrir. A ‘Love Land’. Já se passaram seis anos, porque não tentar a sua abertura outra vez?

1 Dez 2015

Insensibilidade a bordo

[dropcap style=’circle’]N[/dropcap]o passado dia 24, a estação televisiva TVB, de Hong Kong, transmitiu uma notícia onde se relatava o caso vivido pelo Sr. Zhang, passageiro de um avião da China Southern Airline.
Zhang é jornalista. No dia 9 de Novembro, seguiu no voo (CZ6101) de Shenyang para Pequim, China. Cinco minutos, após o avião ter levantado voo, Zhang começou a sentir dores de estômago. As dores eram tão intensas que acabou por não se conseguir mexer e teve de pedir ajuda aos assistentes de bordo. Os assistentes informaram o comandante e foi pedida uma ambulância, que deveria estar no aeroporto, mal o avião aterrasse.
Mas foi aqui que começaram os problemas. A seguir à aterragem, os passageiros tiveram de esperar 50 minutos com a porta do avião aberta. Primeiro, entraram dois socorristas, mas não traziam maca. Também não transportaram Zhang para a ambulância. Em vez disso, travaram-se de razões com os assistentes de bordo – a questão seria, determinar quem é que devia levar Zhang para a ambulância!
O website “news.mydrivers.com” relatou a situação. Um dos socorristas era médico e, terá dito aos assistentes de bordo:
“Têm de levar o paciente para a ambulância.”
Ao que estes responderam:
“Porque é que nós pedimos a vossa ajuda? Se vocês não transportam o doente, quem é que o vai transportar?”
O médico retorquiu:
“As escadas são muito escorregadias, no caso de cairmos, quem é que se responsabiliza pelas consequências?”
Os assistentes responderam:
“O que é que podemos fazer? Se pedirmos uma escada rolante, vamos ter de esperar meia hora. Os senhores são muito irresponsáveis”
O médico voltou à carga:
“Porque é que nos está a chamar irresponsáveis? Este assunto não é connosco.” (Querendo com isto dizer que, como o paciente estava no avião, a responsabilidade de o transportar até à ambulância seria dos assistentes de bordo).
A discussão estava acesa e imparável. Por fim, Zhang já não conseguiu aguentar mais. Acabou por declarar, aos gritos:
“Eu desço pelo meu pé!”
Depois desta declaração de Zhang, fez-se silêncio e a discussão acabou. Zhang só conseguiu ouvir alguns passageiros, que lhe iam dizendo:
“Tenha cuidado.”
“Consegue andar?”
“As escadas estão tão escorregadias.”
Acreditam que estes comentários encorajaram Zhang?
Mas continuava a não haver quem transportasse Zhang para a ambulância.
Zhang efectivamente não conseguia andar. Arrastou-se pelas escadas abaixo até à ambulância. Quando finalmente lá chegou, o primeiro socorrista ter-lhe-á dito:
“Consegue entrar sozinho? A maca é tão pesada” (quer isto dizer que, se Zhang conseguisse entrar sem ajuda na ambulância, então melhor seria para os socorristas.)
Os nossos leitores conseguem facilmente adivinhar que Zhang acabou por entrar sozinho.
Já na ambulância, o primeiro socorrista levou uma boa meia hora a desancar os assistentes de bordo. Segue-se a transcrição da troca de palavras entre ele e Zhang.
“Os assistentes de bordo eram irresponsáveis. Viajava sozinho?”
“Sim.”
“Quer que alguém da China Southern Airlines o acompanhe ao hospital?”
“É melhor, porque não consigo andar sozinho.”
A ambulância parou imediatamente e, começou mais uma interessante troca de palavras,
“O paciente requer, peremptoriamente, que alguém da China Southern Airlines o acompanhe ao hospital. Está insatisfeito com a actuação da companhia.”
“Porque é que a ambulância parou?”

“Temos de esperar que chegue alguém da companhia. Se não o fizermos, eles não mandam ninguém.”
“O que é preciso é salvarem-me a vida, já. Se a companhia quiser mandar alguém para me acompanhar, óptimo. Se não, esqueçam.”
“Certo, fazemos como quiser.”
Passados 10 minutos, o primeiro socorrista informou Zhang que a companhia se recusava a enviar um funcionário para o acompanhar.
Finalmente Zhang chegou ao hospital e o médico diagnosticou-lhe uma apendicite. Após a operação, Zhang recuperou.
Alguns dias depois, a China Southern Airlines anunciou que tinha apresentado um pedido de desculpas a Zhang e que tinham sido enviados funcionários para o visitar. Este acontecimento foi alvo de uma investigação interna. Inicialmente apurou-se que, à data do incidente, o trem de travagem de um outro avião se tinha avariado. O avião teve de esperar que chegassem veículos para o deslocar. A companhia devia aprender, com este tipo de acontecimentos, a melhorar o seu serviço de apoio aos passageiros.
Como já foi referido, um dos socorristas era médico. O que transcrevemos foi o relato do website, não fazemos ideia se é ou não verdade. Em caso afirmativo, temos de colocar a seguinte questão: Qual deve ser a conduta profissional dum médico?
O primeiro dever de um médico é salvar vidas. Essa deve ser sempre a sua prioridade. Se um médico insiste para que outra pessoa transporte um paciente, só porque quer evitar os riscos envolvidos, será que está a ter uma conduta profissional correcta?
Mas, gostaríamos de saber o que pensa o administrador de uma companhia aérea, no caso de alguns dos seus funcionários se terem recusado a ajudar um passageiro que sofria de doença grave, e que efectivamente precisava de ajuda.
Uma pessoa encontra na rua alguém que aparenta sofrer de doença grave e que não se pode mover. Se o leitor fosse essa pessoa, teria ajudado o doente a chegar à ambulância? Será que os nossos códigos morais não nos obrigam a ajudar quem precisa?
Imaginem que Zhang tinha morrido durante a discussão entre os socorristas e os assistentes de bordo, estaríamos perante um caso de homicídio? Quem teria sido o homicida? Quando estavam a discutir, será que não pensaram nisso?

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau

30 Nov 2015

O Secretário e a realidade

[dropcap style=’circle’]D[/dropcap]iz Lionel Leong: as pessoas que, eventualmente, venham a Macau participar de uma convenção poderão “gostar e considerar Macau como um sítio de bom ambiente”. A esperança do Secretário é que tal os faça voltar para outras actividades, vulgo turísticas.
O que eu me pergunto é há quanto tempo Lionel Leong não tenta fazer vida de turista em Macau. Deve ser há muito. Na cinzenta realidade, esta cidade não proporciona um bom ambiente, muito menos a turistas: os transportes são… o que se sabe; os táxis – para além da sua já lendária desonestidade – não conhecem o nome de nada, a não ser em cantonense; nas lojas, ser recebido por um empregado eficiente e simpático é uma agradável excepção; as carantonhas enfadadas dos croupiers só levam a aproximar das mesas quem tem muita vontade de jogar. E isto só para começar… e não falar, por exemplo, da qualidade do serviço em restaurantes, bares e cafés (brada aos céus).
O Secretário para a Economia e Finanças, para além de ter ficado “chocado” quando soube o elevado montante que a administração paga em rendas, como se fosse um estrangeiro à economia de Macau, parece também ser distante das reais condições que a cidade oferece aos turistas. Na verdade, não são famosas e ouvimos muito que poucos terão realmente vontade de voltar, quando aqui ao lado e também na China continental se encontra um ambiente mais agradável e acolhedor.
Um dos atractivos de Macau era a complacência, mesmo o seu lado um pouco sleazy, o estar-se à vontade, uma sensação hospitaleira de liberdade. Agora é ao contrário: liofilizaram a cidade, empurraram para debaixo do tapete e para as salas VIP o que era visível, chegando ao ponto risível de qualificar de “pornográficos” uns meros folhetos de massagens. Vivemos numa cidade vigiada. Um burgo fiscalizado, seja pelo tabaco ou pelo trato. Os sinais de “proibido”, isto e aquilo, proliferaram como cogumelos venenosos da alegria de estar e de viver.
Pensem nisto devagar, compreendam a identidade da cidade. Dá-se hoje por um vazio. Muitos não sabem quem são e de onde vêm. Para além de uma História, Macau tem uma tradição, uma maneira de fazer, um pressuposto de ser. A alternativa será algo muito diferente, sem alma nem emoções, a saber a gesso: ao mesmo gesso com que os casinos tentam fazer-nos acreditar que são reais.

30 Nov 2015

Cada macaco no seu galho

[dropcap style=’circle’]N[/dropcap]o primeiro ano da faculdade tive uma cadeira chamada Teoria Geral da Organização do Espaço, nome derivado de uma obra escrita do mestre Fernando Távora, um dos pais da denominada Escola do Porto.
Nessa cadeira, basicamente, o aluno era introduzido à disciplina da Arquitectura, sendo que nos anos subsequentes do curso outras cadeiras teóricas com nomes igualmente encantadores – Métodos e Linguagem da Arquitectura Contemporânea; Espaço Habitável e Formas de Residência; entre outros – orientavam o percurso do aluno ao longo de 6 anos.
Pois que a Arquitectura ensina-se e do arquitecto que seja competente espera-se uma visão e capacidade crítica com base numa cultura arquitectónica sólida adquirida tanto ao longo dos anos da sua formação, como da sua própria experiência de vida.
No entanto, o arquitecto muitas vezes não é respeitado.
Nos poucos anos que trabalhei como projectista em Portugal, tive a honra de aturar um cliente – um developer, conforme se diz nestas bandas, ou pato-bravo, conforme se diz em Portugal – que era particularmente obtuso nesse aspecto. Quando falava comigo era “sô arquitecto” isto e aquilo, mas transmitia no seu discurso tudo menos respeito pela minha formação e profissão.
Tratava-se de um conjunto habitacional com uma série de moradias geminadas e o homem não andava nada satisfeito com a volumetria e os alçados que eu tinha projectado. Queria uma coisa “mais festiva, mais alegre…” e eu, na minha juventude profissional e acabado de sair de uma escola que adoptava uma corrente minimalista, fiz-me de burro e fui resistindo, fazendo de conta que não alcançava o que ele pretendia.
Até que um dia o homem, no limite da sua paciência, aparece no atelier com uns desenhos feitos por ele próprio e simplesmente aterrorizadores. Tinha uns triângulos, umas coisas inclinadas e outras tantas igualmente estapafúrdias. “Atão sô arquitecto, tá a ver? É isso que eu quero! Quero uma coisa bonita, assim, e o filho da p*** que passar pela estrada e vir essas casas vai dizer ah cum carago!”
Não sei como acabou esse projecto porque entretanto vieram as eleições autárquicas, o PS perde uma série de câmaras, Guterres despede-se, entra Durão com o célebre discurso de “Portugal de tanga” e eu concluo que aquilo tudo não é para mim. Despedi-me, fiz as malas e regressei.
Regressei para um Macau onde adjacente à igreja onde fui baptizado se permitiu uma intervenção urbana pseudo-religiosa; onde na vila da Taipa, no sítio onde quando miúdo andava de bicicleta e comprava tai choi kou, se permitiu construir um dragão em pedra e num outro local uma arcada pseudo-paladiana; e onde, em Coloane, se permitiu enfeitar uma praceta de acordo com essa mesma linguagem.
Fiquei algo surpreendido com essas obras.
E terei pensado: “ah cum carago, o autor dessas coisas devia era estar em Portugal a projectar moradias para aquele tal pato-bravo que eu aturei…”
Caríssimo leitor, tudo isso se prende com uma pequena polémica aqui instaurada há umas semanas atrás que mereceu a primeira página deste jornal, e para o qual até fui convidado a prestar declarações: o projecto do Quartel de São Francisco, da autoria do nosso Carlos Marreiros.
Em primeiro lugar, esclareço desde já que o ilustre arquitecto, de seu nome Francisco Vizeu Pinheiro, que no jornal deu tiros no ar e alertou para o eventual perigo dessa intervenção arquitectónica, não é nem mais, nem menos, que o autor das três obras – em Macau, Taipa e Coloane – acima referidas.
Portanto, não se podia esperar desse meu colega outra posição que não fosse a manifestada, já que aparentemente é dono de um universo arquitectónico muito diferente do meu. A forma como aborda a Arquitectura será, digamos, distinta dos “best practices” das actuais correntes arquitectónicas.
Em segundo lugar, caríssimo leitor, quando se intervém num edifício antigo e se constrói no construído, a solução arquitectónica mais bacoca é precisamente aquela que procura uma reprodução mimética do existente. A tentativa de uma coerência formal através da cópia exacta do antigo é um grande disparate que não faz sentido absolutamente nenhum. Algo que abomino.
Não significa isso que não se possa ir buscar referências ao existente, reinterpretando elementos mais representativos à luz de um desenho actualizado e contemporâneo, em harmonia com as actuais tecnologias construtivas. Essa tentativa de diálogo entre o novo e o antigo é sempre possível e muitas vezes é aqui que está a piada da coisa toda. O Centro de Saúde do Tap Seac parece-me ser um bom exemplo: edifício contemporâneo que sempre apreciei por considerar bem integrado naquela envolvente e que, por coincidência, é da autoria do Carlos Marreiros.
Não existe uma fórmula resolvente universal e cada caso é um caso. Dito isto, não quero aqui deixar de mencionar uma outra obra que merece a minha admiração profunda: a Pousada de Santa Marinha em Guimarães, da autoria de Fernando Távora. Repare-se que se trata de um mosteiro antigo e a nova intervenção não tem nem arcos nem nada que se pareça.
(Chega de exemplos, mas por favor não se mencione aqui as pirâmides do Louvre do arquitecto I.M. Pei que considero, com o devido respeito, arquitectura para revista de cabeleireiro).
Face a tudo o que foi dito até aqui, a minha posição relativamente ao projecto do Quartel de São Francisco não podia ser outra: até agora não vi nada que me arrepiasse.
Todavia, através das redes sociais consegui perceber que são poucos os que partilham da minha opinião. E não consigo bem perceber porquê. Volumetricamente, o que há de assustador? É a pedra que incomoda? Será que a malta prefere arcos e paredes cor-de-rosa, imitando o que lá está?..
A verdade é que, por alguma razão que me escapa, o comum mortal que não é formado em Arquitectura julga sempre que dessa área compreende e está habilitado a debater e discutir, mesmo quando o seu interlocutor é arquitecto e teve uma formação específica.
E não se venha ora dizer que se trata de uma questão de “gosto” e que “gosto não se discute”. Quando se discute Arquitectura com pessoas que não são da área, existe sempre a tendência para se escorregar para esse discurso.
Não, a Arquitectura não é uma coisa superficial, não se reduz ao desenho de umas coisas bonitas adoptando este estilo ou aquele estilo. E, na verdade, quando se possui uma considerável cultura arquitectónica, o gosto até se discute.
O que não se pode nem se deve fazer é mandar postas de pescada quando do campo específico em discussão pouco ou nada se sabe. De resto, trata-se de um princípio aplicável a todas as disciplinas – penso eu de que.
Para simplificar, coloquemos antes as coisas da seguinte forma: quando vai ao médico, passa-lhe pela cabeça fazer o mesmo? “Sô dotôr, não quero pace maker, quero uma coisa mais alegre, um coração de porco a imitar o meu coração existente, ah cum carago, e por que não? Pá, é uma questão de gosto e, sô dotôr, o coração de porco é mais bonito e fica melhor, não acha?”.
Cada macaco no seu galho, certo?

Sorrindo Sempre

Diz o ditado que “em equipa vencedora não se mexe”. No entanto, mão de macaco, por alguma razão o Grande Prémio (GP) vai passar para o Instituto do Desporto (ID).
Nada contra o ID. Mas fica aqui registado que se fechou um ciclo de muitos anos em que o GP cresceu, amadureceu e tornou-se num produto bastante sofisticado.
E começa agora um novo ciclo.
Esperemos que as coisas corram bem ao ID porque o GP merece. E, entre outros, esperemos que o evento se limite a atracções relacionadas com o desporto motorizado.
Porque o que queremos ver é competição automóvel ao mais alto nível, velocidade, pneus a chiarem nas curvas e borracha queimada.
E o que não queremos ver é palhaçadas com artistas que fazem poses absurdas e infantis em descapotáveis que circulam a passo de tartaruga no circuito da Guia, ou ilustres que vão ao pódio receber taças sabe se lá por terem vencido o quê.
Pois para nós, fãs do GP, custa-nos que as voltas de uma corrida sejam reduzidas para evitar atrasos e cumprir o programa, para depois afinal ter de dar lugar a essas manifestações baratas do showbiz.
Uma ideia para juntar o útil ao agradável: há sempre quem se queixe dos distúrbios que o GP provoca, sugerindo que o evento seja transferido para Coloane ou Henqin.
Proponho então que se faça mesmo isso e que nessa decorrência se mude para Coloane o programa dos artistas e das suas macacadas. A cerimónia de entrega das taças poderá até ser feita junto dos pandas.
A outra parte do programa que diz respeito às corridas poderá permanecer em Macau, no genuíno Circuito da Guia. Não nos importamos.
(Quem se importar poderá sempre juntar-se aos pandas e aos macacos em Coloane).
Sorrindo sempre.

29 Nov 2015

Duas pedras em cada mão

[dropcap style=’circle’]H[/dropcap]oje vou precisar de ser sucinto, pois isto que tenho para dizer requer detalhe e minúcia, não vá eu juntar duas palavras que entram depois num contexto diferente do original, e nem vindo desmentir mais tarde a mais peluda e marreca das deturpações alguém acredita na minha versão – a única, no fundo. Mas indo directo ao assunto, vi no outro dia um vídeo que tem circulado pelas redes sociais onde um serviço noticioso ja à primeira vista de idoneidade suspeita dá conta de um caso de violência extrema, onde alegadamente um grupo de crianças “muçulmanas” teria apedrejava fiéis cristãos à saída da missa numa igreja do sul de França, e logo num dia de feriado religioso. Só esta descrição já seria o suficiente para que milhares de utilizadores da rede partilhassem este travesti (“notícia” daria azo a “interpretações extensivas”), com outros que entretanto faziam o mesmo, entre igualmente milhares de “likes”, e comentários que variavam entre o fatalismo resignado (“olha, quéqueu diçe, quiamos todes morrer”), o juízo final (“até que enfim, Deus, este mundo vai acabar!”), e a máquina de matar (“bombas já neles todos””).

Mas então e o vídeo, era autêntico? Era, um autêntico balde de fezes ralas. Via-se uma igreja cristã, certo, que podia ser no sul de França ou na Capadócia, mas o locutor, um canadiano se não estou em erro, dizia “France”, e nós “oui oui”. E via-se crianças a atirar pedras, de facto, e pareciam “muçulmanas”, não porque atiravam pedras, mas sim porque o faziam no sítio onde é comum deparar com esse cenário: nos territórios ocupados da Palestina – e estas eram imagens “vintage” desse “cromo” da nossa (falta de) civilização. No fim, e após tecer oportuníssimas considerações a respeito das tais crianças, que “nascem a pedir para morrer como mártires”, o locutor chega-se próximo da câmara, faz uma cara de maníaco e conclui berrando uma tirada fulminante de analise política: “É a religião da paz, minha gente!”. Como é que eu sei se o vídeo é falso? Essa pergunta preocupa-me por uma série de razões que nada têm a ver com o conteúdo da falsa notícia – e digo falsa porque é a única (des)informação que tenho. Fico preocupado porque basta ter dois olhos, estar acordado e mais ou menos sóbrio para perceber que o vídeo é falso, mas isto não deteve milhares de pessoas de o partilhar e comentar sem uma única referência a esse detalhe, que é tudo o que importa, no fundo. Pior ainda são os que não vêem o clip, porque “não têm coragem”, mas não se inibem de comentar: “não vi porque não aguento ver estas coisas, mas esses demónios deviam estar todos mortos” – neste timbre, ou pior.

São tempos difíceis, estes que atravessamos, e nada pior do que o éter das religiões para inebriar as massas, que devem já estar fartas de paz. Pelo menos é que eu entendo pelos apelos à guerra, aos festejos quando se dá conta de bombordeamentos, e sobretudo à relativização que se faz da vida humana em nome da religião, ou neste caso contra uma delas. Sei que as pessoas de bem preferem não entrar discussões fúteis, ou tentar chamar a atenção para o facto de se estar a usar um discurso extremista para se combater o outro “extremismo”, com o pretexto de o afastar da sua zona de conforto, e tudo com o terrorismo a servir inicialmente de mote, mas entretanto relegado para segundo plano. Era bom no entanto que quem de direito pudesse colocar alguma água na fervura, nem que fosse pelo autêntico deboche que tem sido a falsificação de factos, números e como já referi em cima, imagens. Também já me foi dito que isto é uma “fase”, e que esta tamanha bizarria explica-se pelo súbito aparecimento de um estrato menos educado da população a comentar nos fórums e nas redes sociais, e que apesar de escrever mal e estar dotada de um raciocínio simplista, partilha com os restantes um sentimento que a desinibe: o medo. Por esse mesmo motivo se explica também a radicalização de outros comentadores, outrora mais moderados, mas que justificam esta mudança em nome do combate ao “radicalismo”.

O medo, seja ele ou não justificado, pode explicar muita coisa, mas não explica tudo. Leio entre os muitos comentários na rede, e até alguns artigos de opinião na imprensa, gente que vem falar de uns tais “valores europeus”, ou “europeístas”; não sei bem do que se trata, mas concerteza que não tem nada a ver com a União Europeia, que desde que me recordo só oiço dizer horrores e manifestações de indiferença e desprezo. Também não entendo como é que alguns portugueses pularam com tanta facilidade para dentro da carroça do ódio, e aqui talvez seja uma boa oportunidade para recordar aquilo que me mantém numa posição de neutralidade. Não nasci nem cresci com os tais “valores europeus”, e o que me ensinaram, e se calhar foi por acaso, é que a nossa natureza humanista e globalizada dotou-nos de tolerância e respeito pela diferença, que foi, e espero ainda ser aquilo que nos distingue dos povos que à força impuseram o seu jugo à custa da repressão, segregacionismo e exclusão – um pouco como na “lei do mais forte”, no contexto da selecção das espécies. Aceitei estas valências como justas e irrevogáveis, e suficientemente sólidas para não se deixarem derrubar por uma provocação vinda de quem não se identifica com elas. E em retrospectiva, dá-me vontade de questionar os tais valores que desconheço, pois se na sua defesa a primeira opção é o conflito e a agressão, não deverão ser tão válidos assim, que os justifique preservar.

26 Nov 2015

Macau – Manual da sobrevivência

Está em Macau há pouco tempo? Não está mas pensa vir? Não vem cá há muito tempo ou tem curiosidade sobre o lugar? Então aqui fica um manual incompleto de sobrevivência, de A a Z, completamente parcial e sem a mínima preocupação de ser politicamente correcto. Alguns termos são contraditórios. Mas é assim mesmo

A

Advogados – Espécie muito populosa; Todos têm pelo menos um amigo que é.
Ácido – Arma dos pobres.
Activistas – Indivíduos que não entram em Macau.
AL – Câmara dos horrores.
Alcatraz – Desde há uns anos sinónimo de Macau para algumas pessoas.
Ambiente – Departamento do governo.
Andaimes – Eram de bambu e funcionavam na perfeição. São cada vez menos quiçá por força de algum lobby do metal, quiçá por alguém achar pouco moderno.
Ar Condicionado – Sistema de suporte de vida, sempre a menos de 18º.
Arriscar – Sentimento completamente riscado da praxis local. Normalmente associado à exclamação: “Nem pensar!”
ASAE – Nem nada que se pareça.
Associações –Algumas têm utilidade pública de facto mas a grande maioria são grupos de uma pessoa desenhadas para acesso a dinheiros públicos. “Sem tostão? Queres promoção? Monta uma associação” é o lema. Todas têm estatutos mas poucas os cumprem.
Associação Comercial de Macau – Governo sombra.
Austeridade – Moda Europeia importada para dar um ar internacional à cidade.
Autocarros – Públicos: transporte barato que chega a todo o lado injustamente desvalorizados; Privados: praga.
Automóvel – Objecto de estimação (convém ter mais do que um por agregado); Objectos responsáveis pelo aquecimento global da cidade; Algo que é mais importante do que uma pessoa.

B

Barriga – O que serve para empurrar (hábito local muito popular).
Biblioteca Central – Elefante branco em formação; Como gastar 900 milhões numa obra inútil.
Bicicleta – Objecto inútil.
BNU – Tubo de oxigénio da CGD.
Bo Zai Fan – Arroz em pote de barro com salsicha chinesa, pedaços de porco ou vaca ou o que o cozinheiro lhe der na mona. Comida de Cantão mas especialmente bem feita por aqui. Há um sitio onde é melhor do que em todos os outros. Não, não digo onde, tem poucas mesas.
Bolinha – Jogo aproximado ao futebol conde o campo e as balizas são mais pequenas mas a bola é do mesmo tamanho, por incrível que pareça
Buffet – Mania local (ver também D – Desperdício)
Buzinas Automóveis – Fenómeno recente. (ver C – Carro e T- Trânsito)

C

Camões – “Ninho dos Pombos Brancos” em Chinês.
Cantão – A grande fábrica aqui do lado.
Cantopop – Versões intermináveis de um mesmo tema composto nos anos 80 do século passado
Cantonês – A língua da terra por mais que nos queiram mandarinizar.
Cantopop – Versões intermináveis de uma mesma música inventada no século passado.
Carro – Objecto de estimação; Convém ter mais do que um por agregado para se estar “in”; Objectos responsáveis pelo aquecimento global da cidade.
Casinos – Orçamento.
CCAC – Forma de ameaça (Ex.: “Olha que vou ao CCAC!”).
Chefe do Executivo – O máximo chefe visível.
Choi – Há muitos mas há que perceber as diferenças.
Chu Chai Pao – Quer uma carcaça? É esta, só “pao” e sai um pão qualquer. Algumas são horríveis, outras muito boas. É como em Portugal.
Chu Pá – Costeleta de porco; também serve para designar uma mulher feia; (Experimente chamar isso às suas amigas chinesas e vai ver o que lhe acontece)
Coloane – Lá longe.
Comida – Desporto popular.
Consulta Pública – Pró-forma.
Corpos – Estrutura orgânica de base de carbono que aparecem com frequência a boiar aqui ou acolá.
Corrupção – Mito urbano.
COTAI Strip – Região Casinística Especial de Macau ou Centro Económico de Macau; Nevadasismo.
Cretinos – Espécie muito populosa. Encontram-se um pouco por todo o lado com uma particular incidência em lugares de tomada de decisão.
Criatividade – Canecas estampadas.
Construção civil – Uma das três actividades de Macau, as outras duas são Jogo e Comércio de Retalho
Cuidados de Saúde – Forma composta da expressão “Cuidado!”
Cultura – Dinheiro; Conceito vago e abstracto

D

D2 – “Fazer o quê?”; Lugar onde se consomem apenas bebidas de lata, senão… (ver letra C “Cuidados de Saúde”); Prostíbulo dançante.
DD – Ressaca fortíssima.
Decidir – Actividade de risco.
Democracia – Conceito vago em que ninguém acredita. Pronto, meia dúzia.
Dengue – Há mas podia ser pior.
Deputados – Pessoa normalmente de baixo nível que não compreende grande coisa sobre coisa nenhuma; Desconhecido
Desperdício – Resultado prático dos milhares de buffets servidos diariamente na cidade.
Diu! – Palavra muito popular que tem vindo a ocupar progressivamente o espaço da expressão mo man tai (ver letra M). Muito usada, tal como em português utilizamos o “foda-se” porque quer dizer exactamente a mesma coisa.
Diversificação Económica – Mito urbano.
Docas – Saudosismo de lisboetas; Lugar onde se ouve péssima música.
Dome – Versão local de um elefante branco.

E

“É Assim” – Expressão normalmente antecedida da palavra “Macau” e utilizada para explicar o inexplicável.
Ego – Um animal de estimação alheio comum que se deve alimentar selectivamente para subir na vida;
Eleições – Comédia popular realizada a cada quatro anos.
Elites – E o resto é conversa.
Ensino – Eufemismo. Actividade realizada no estrangeiro (ver também P – “Prego”).
Erre – Forma infalível de fazer um chinês babar–se. Literalmente.
Escolas – Forma popular de fazer dinheiro à custa do erário público.
Escola Portuguesa de Macau = Molho de brócolos.
Esplanada – Nem pensar nissoEstrangeiros – Bem vindos desde que fiquem mais de dois dias e menos de uma semana;
Estrangeiros – Bem vindos desde que fiquem mais de dois dias e menos de uma semana.
Estrelas de Hong Kong – Mercadoria promocional.
Exótico – Uma questão de perspectiva. Ideia que nos apercebemos depois de vivermos aqui um tempo (Ex.: O que é mais exótico? Uma igreja ou um templo?).
Extremo Oriente – Mito colonialista. Igual a dizer que Portugal fica no extremo ocidente.

F

Fachada – Património; Forma de estar.
Fai Chi – Essencial para ingerir comida chinesa. Nem sabe ao mesmo de outra forma. Mesmo! Por falta de imaginação, que nem 400 anos de presença portuguesa resolveram, nós chamamos-lhe “pauzinhos”.
Fai Chi Kei – Por muito que pareça não é nenhum paraíso dos “fai chi” mas sim um bairro onde se torturam cães.
Fama – Essencial.
Fala-barato – Alcunha dada pela malta local a Alexis Tam, Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Vá–se lá saber porquê…
Fat Siu Lau – A versão local do “deitar-se à sombra da fama e descansar.”
Fei Jai – Forma carinhosa de chamar gordo a um homem ou rapaz.
Fei Lo – Gordo e velho; Forma menos carinhosa de chamar gordo a um homem; Chefe do Executivo.
Feira Internacional de Macau – Mercado de rua armado em fino.
Festival da Gastronomia – Arraial saloio de má catadura.
Ferreira do Amaral – Palavrão em chinês.
Festa da Lusofonia – Uma forma hábil de deixar os selvagens entreterem-se uns com os outros; Exótico (ver letra E). Bodo aos pobres.
Festival de Artes – O que costumava ser bom; Cultura institucionalizada para assistir sentado, sem fumar e sem mexer.
Filipino – Pessoa apenas com direito a trabalhar. Burro de carga.
Filipina – Pau para toda a obra; Ódio de estimação das mulheres portuguesas.
Fiscal do Tabaco – Cães de fila; Paladinos (para o Governo).
Fôdásse – Forma exótica de dizer “Diu”.
Fogo de Artificio – Por tudo e por nada; Final seguro para filmes institucionais. Substituto do ópio.
Fong Sói – Primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Fórum de Macau – Sopa dos pobres.
Fumadores – Bandidos perigosos.
Fumar – Crime hediondo.
Funcionário público – “Yes person” (ver letra P – “Pregos”).
Fundação Macau – A versão local da lenda irlandesa do pote de ouro no final do arco íris. Acessível a viajantes experimentados.
Fundação Oriente – Antigo pote de ouro, agora vazio.
Futebol – Actividade desportiva local vagamente semelhante à original.

G

Gnnnnnnnh! – Contrição diária gerada pela interacção com cretinos (ver letra C).
Guangdong – O verdadeiro nome da província que insistimos em chamar de Cantão.

H

Harmonia – Eufemismo; Jargão de político.
– Fixe. Tudo bem.
– Hós há muitos, seu palerma! Saber distinguir é preciso.
Hó Lan Yun – Rua dos Holandeses. A prova que eles andaram mesmo cá apesar de nós tentarmos disfarçar com o poético nome de Rua do Campo.
Ho Lan Tak – Forma fixe de dizer “fixe” na forma grosseira
Ho Tak – Forma fixe de dizer “fixe”.
Hong Kong – Ódio de estimação; Atracção fatal.
Hospital Público – A melhor campanha de marketing para as clínicas particulares. Também conhecido por “o único”.
Hospital da Taipa – Sinónimo de miragem.

I

I Má Lô – Mini Tailândia.
I Min – Quer esparguete? É este.
Ideias – Artigo cobiçado e alvo de roubos frequentes
Igrejas – Em tempos rivalizaram com o número de casinos per capita mas há muito perderam a guerra; Cenários preferidos para fotos de casamento.
Imbróglio – Marcar uma consulta em tempo de vida no hospital público.
Imobiliárias – Agiotas encartados.
Improvável – Nem por isso.
Incompetência – Forma local de competência.
Incrível – Notícias que surgem em ritmo quase diário na imprensa.
Indonésio – Filipino mais barato.
Instituto Cultural – Cultura institucionalizada.
Inveja – Prato do Dia.
Irreverente – Inconveniente.

J

Jai Alai – Jai era. Antigo fornecedor de namoradas tailandesas.
Jardim – Nome de prédio. Forma poética de baptizar os prédios que substituíram os jardins; “É como se fosse”.
Japoneses – Amados ou odiados, depende da fase; Restaurantes de sucesso.
Javalis – Turistas campónios do continente.
Justiça – Conceito vago e elitista.

K

Kon Chau Ngao Hó – Massa com carne. Imprescindível.
Kruatech – Comida tailandesa; Noites longas dos tempos áureos do Jai Alai.

L

La – Forma de enfatizar uma ideia. Porque sim.
Labrego – Palavra constituinte do slogan não oficial de Macau (”Macau, liberte o labrego que há em si”).
Lat Jiu Iao – Molho picante oleoso. Em lado nenhum se faz como em Macau. Tudo o resto são imitações de baixo quilate.
Lecas – Paus; Mocas; Biscas.
Lei Hon Kei – Lugar onde se serve a melhor comida cantonesa da cidade e com um sorriso. E estou-me nas tintas para quem discordar.
Leng Chai – Homem jeitoso; Conversa de comerciante.
Leng Loi – Mulher jeitosa; Idem.
Liberdade de Imprensa – Privilégio dos órgãos em português porque ninguém os entende.
Limitações – Muitas mas nenhuma relacionada com orçamento.
Locais – Espécie desprezada pelos locais; Animal de circo; Curiosidade turística.
Lótus – Aroma que se costumava sentir em Macau. Actualmente substituído por derivados do petróleo e sprays sintéticos nos hotéis e casinos.

M

– Más há muitos seu palerma, mas há que perceber as diferenças; Cavalo.
Macaense – Malta.
Macau – A razão pela qual aqui andamos todos. Não tem lugar igual no mundo, nem parecido.
Macaio – Forma simples de ofender a malta.
MacDonald’s – Nome de ponte.
Man Fá – Dinheiro.
Metro de Superfície – Versão local das obras de Santa Engrácia; Sistema de Transporte desenhado para turistas.
Minchi – Bitoque macaense; Utilizado em jeito de desafio: “o meu minchi é muito melhor que o teu”.
Ministério Público – Departamento do Governo; Comissariado político
Mo Man Tai – Não há problema; Alívio.
Mundo – Algo externo, distante e incompreensível; O que falta.

N

NAPE – Docas.
Nariz – Parte do corpo onde se situa o eu.
Natércia – Pessoa arrogante, incompetente e com a mania que sabe, incapaz de distinguir Pato à Milanesa de pato ali na mesa. “Não te armes em Natércia”, assim.
Noite – Esqueça.

O

OK La – Sofrível.
Otókfu – Escritório do Chefe visível.
Olho do Cú – Nome de uma rotunda.
Orçamento – o critério mais importante na adjudicação de serviços do Governo. Muito perto dos 50%; Os outros 50% servem apenas para justificar a razão pelas quais o negócio vai sempre parar aos mesmos.

P

Pacha – Exemplo manifesto da influência da cultura local numa marca internacional; Aplicação perfeita do slogan não oficial de Macau (ver letra L); Pagar muito por pouco.
Panda – Animal com direitos.
Pataca – Ficha de casino em forma de papel.
Patuá – Dialecto da malta.
Pé, A – Vai tu.
Período – Ciclo menstrual feminino que pode atiçar os cães.
Planeamento Urbano – Forma local de piada.
Plataforma – Sistema complexo de angariação de fundos para países de língua portuguesa.
Polícia – Pessoas fardadas de azul vistas normalmente à frente e atrás de carros pretos e em operações de auto–stop; Pessoa com actividade incerta.
Poluição – Mito urbano.
Português – Bebedor de café; Pessoa relaxada pouco amiga de trabalhar desenfreadamente; Nome de pastel que nós conhecemos por Nata.
Prego – Palavra essencial num ditado local: “Em tábua com pregos, o saliente é para ser martelado” (sistema de ensino).
Prostituição – Património Cultural não classificado; Indústria mais ou menos ilegal.
Protocolo – Tudo o que interessa.
Provisório – Definitivo.

Q

Q – Xis.

R

Rabo de porco – Macaense de origens humildes; Não presta.
Rendas – Versão local do Inferno de Dante.
Reorganização Administrativa – Chavão; Cosmética
Ruínas de São Paulo – Meca dos javalis; Símbolo da cidade por ser apenas uma fachada; Cenário para Fotografias.

S

Saúde – Privilégio.
Sauna – Eufemismo para actividade sexual.
Sifu – Mestre; Pessoa que sabe fazer alguma coisa de jeito; Especialista.
Sing Chao Chau Mein – “Massa frita à moda de Singapura” que não se vê em Singapura mas que em Macau se faz como deve ser. Imperdível.
Sky 21 – Desperdício ostensivo de um espaço nobre.
Sufrágio Universal – Palavrão na versão chinesa.

T

Tai Chi – Cena de cotas que não conseguem dormir.
Tailândia – Versão exótica da Caparica mas sem ondas nem caracóis; Tema para fazer conversa entre portugueses.
Táxi – Carros coloridos que gravitam à volta dos casinos mas extremamente raros no resto da cidade.
TDM – Tudo o que parece uma estação de televisão mas não é.
Templo de A Ma – Máquina de fazer dinheiro.
Trânsito – Forma idiota de modernismo; Problema insolúvel.
Transplantes – Actividade exercida no estrangeiro.
Tufão – Tolerância de ponto.
Turistas – Praga; Benesse; Javalis; Aqueles com quem o Governo local se preocupa.

U

Uber – Eles vêm aí. Finca pé.
Universidade de Macau – Aquilo lá ao longe; Ensino armado em superior.
Urbanidade – Mistério.

V

Venetian – Grande, dourado e com florões; Atractor de javalis; Kitsch.
VIP – Doença local incurável cuja variante mais maligna dá pelo nome de VVIP.
Visão – Conceito abstracto; O que se desconhece.

W

Wah! – O segredo.
Won Ton – Os raviolis originais e que nos tornam a vida melhor. Não há como em Macau. Nem pensem.
Wong Chiu – Nape.

X

XO – Um molho do caraças se souber onde o adquirir. Os seus grelhados nunca mais serão os mesmos. Uma variante do Lat Jiu Iao com marisco e peixe secos à mistura.
Xi – Neo Mao.

Y

Yat Yuen – Torturadores de cães.

Z

Zape – Nape sem docas.

25 Nov 2015

DAESH, o reino do terror

“ISIS has made its name on the marketing of savagery, evolving its message to sell a strange but potent new blend of utopianism and appalling carnage to a worldwide audience, documenting a carefully manipulated version of its military campaigns, including its bloody 2014 rampage across much of Iraq and Syria. ISIS is using beheadings as a form of marketing, manipulation, and recruitment, determined to bring the public display of savagery into our lives, trying to instill in us a state of terror.”
“ISIS: The State of Terror”, Jessica Stern and J. M. Berger

[dropcap style=’circle’]A[/dropcap]mais importante questão que é colocada pelo mundo perante os horrendo atentados de Paris, é de saber, como é possível que os principais serviços secretos do planeta são incapazes de antecipar a estratégia do autoproclamado “Estado Islâmico (EI) ” que Estado não é, e de Islâmico nada têm, e que é tão diferente de outros grupos de jihadistas? O ano passado, quando o Papa Francisco falou de incidentes de uma III Guerra Mundial que tinha começado, tendo os principais líderes mundiais, permanecido num diplomático e respeitoso silêncio, pois pensaram que melhor seria não ridicularizar o Vaticano.

O Papa Francisco descartou uma guerra religiosa no século XXI, como defendiam alguns teóricos das ciências políticas, tendo afirmado que se tratava de um fundamentalismo. O presidente americano que tentava retirar-se totalmente do Médio Oriente, sustentava que se tratava de outro grupo de rebeldes sírios, como tantos outros que combatem o presidente sírio. Após as degolações públicas de vários reféns, incluindo americanos, e com a pressão da opinião pública, em Setembro do ano passado e de forma relutante, concordou em formar uma milícia árabe para combater tais fanáticos, concedendo dinheiro, armas e munições.

O esquema não funcionou, assim como algumas acções aéreas dos aliados ocidentais. Surgia perante tão graves falhas, o momento do presidente russo, que encarna a humilhação que sofrem os russos, ao ver que são considerados como um Estado pária, uma potência que foi, mas que não tem qualquer importância, e começaram os bombardeamentos russos à Síria, com a particularidade, de mais do que atacar o EI, fê-lo contra outros grupos que se opõem ao seu aliado, o presidente sírio, criando mais tensões nas relações com os Estados Unidos e a União Europeia, até que um avião civil russo, cheio de turistas, explodiu após deixar um aeroporto egípcio.

A bomba colocada no compartimento destinado à carga teria sido a causa. Quase de imediato deram-se vários atentados de menores dimensões, como o massacre no Líbano, num bairro dominado pelo “Hamas”, outro grupo combatente rival do EI e finalmente a carnificina de Paris. O EI pretende ter o potencial para praticar atentados em qualquer parte do mundo. Ao princípio, parecia que a sua diferença com a “Al Qaeda” de onde provinha, era a intenção de construir um califado sobre um vasto território no Iraque e na Síria e exercer poder territorial antes de praticar atentados no estrangeiro. Que aconteceu para mudarem de estratégia?

Talvez a resposta é de se encontrarem sujeitos a forte pressão no território ocupado, tendo perdido na última quinzena o controlo de uma base área síria que conseguiram ocupar. Foram desalojados da cidade de Singar no Iraque, onde a população local, os “iazidis”, uma comunidade étnico-religiosa curda, foram previamente massacrados. Então decidiram golpear um lugar modelar, Paris, cidade da cultura, diversão, alegria, representativa de tudo o que odeia este fanatismo e com células locais, incluindo cidadãos belgas ou franceses de origem árabe, não se tratando de sírios refugiados, como pretende a líder da ultra direita Marina Le Pen. É algo muito mais complexo.

O tema do crescimento económico global do G-20 na Turquia, passou para segundo plano. É o terrorismo que concentrou a atenção dos Chefes de Estado. Assim, o demonstrou a reunião privada e não agendada entre os presidentes americano e russo, e igualmente o revela a intenção de vários líderes europeus de fazer algumas concessões à Rússia, para que coordene os seus esforços com os aliados. Tudo se passou enquanto os aviões franceses davam a prometida resposta do presidente francês, bombardeando Raqqa, a pretensa capital do novo califado.

O exército islâmico apareceu em 2013, como uma separação da Al Qaeda. A partir desse momento começou um processo de contínua expansão territorial no Iraque e na Síria sem que os exércitos de ambos os países os pudessem deter. Criaram um califado, governo de um novo Estado e ganharam reputação de ferocidade e crueldade com actos que divulgavam nas redes sociais. O seu desejo hegemónico, levou à confrontação com outras organizações armadas árabes, até no final surgir o rompimento original com a “Al Qaeda”, de onde tinham surgido.

O presidente francês afirmou perante o Parlamento que a França está em guerra, e pediu medidas para lutar contra o terrorismo. Algumas horas antes dos horríveis massacres no centro de Paris, altos postos do exército americano, celebravam a eliminação física de Mohammed Emwazi, aliás Jihadista John”, o carrasco e degolador de estrangeiros na Síria. O londrino Emwazi, era licenciado pela Universidade de Westminster e convertido em braço armado da propaganda do EI, e tinha sido atingido por um míssil, quando descia do carro nas ruas de Raqqa.

As famílias das suas vítimas declaram sentir algum alívio momentâneo, mas que logo deu lugar à frustração de não o poder ver numa sala de tribunal e fazer-lhe sentir todo o peso do Estado de Direito. É uma vitória pírrica, porque existem sérias dúvidas de que o assassinato selectivo de Emwazi, assim como as campanhas de bombardeamentos do último ano, tenham afectado de alguma forma a estrutura do EI.

A sucessão de eventos das últimas semanas, em que se inclui o atentado contra o avião russo no Egipto e as bombas de Beirute e Ancara, devem levar a mudanças radicais na postura da comunidade internacional contra o EI, e que necessita primeiro de vontade política. Se realmente existe essa vontade duvidosa, tem de ser uma resposta ampla que deseje acabar com as condições da sua existência a longo prazo, quer na região, como no âmbito global. Neste processo temos de desconfiar dos que definem o EI como o mal absoluto e o comparam com o que viveram os antepassados de muitos face ao nazismo.

O autointitulado Califa Abu Bakr al-Baghdadi Al Baghdadi não é Hitler e não estamos às portas da III Guerra Mundial, porque o EI é um proto-Estado, que é largamente rejeitado por quase 100 por cento da população mundial. O que acontece é que quando as bombas explodem nas capitais do Ocidente, acciona-se inconscientemente um uso selectivo da memória, efeito directo do terror, e esquecem-se os mais de cento e noventa mortos na Estação de Atocha, em Madrid, em 2004, os ataques em Londres, em 2005, ou a quantidade infinita de ataques terroristas de 1970 e 1980. Atentados que fora do continente europeu, redundam em muitos lugares-comuns, ainda que não prendam a atenção. Fazer passatempos pela definição do EI como o mal absoluto e apressarmo-nos a considerar, unicamente, a solução militar, apenas serve os interesses de quem quer mais guerra e extremismo.

O último mal absoluto, a “Al Qaeda”, não foi derrubado por uma declarada política de guerra ao terror que existe há 15 anos. A “Al Qaeda” está debilitada, porque simplesmente foi substituída por algo mais atractivo e violento, o EI, que de facto era um ramo da “Al Qaeda” no Iraque. A resposta tem de observar as causas do terror e resolver a relação entre autoritarismo e extremismo, acabando com o apoio aos governos autoritários na região. Assumir uma posição de afastamento face à Arábia Saudita, verdadeira promotora internacional da ideologia do EI, e às monarquias do golfo, que continuam a financiar directa ou indirectamente a instabilidade e a violência na região.

As mesmas medidas devem ser tomadas contra o Egipto. Qual é a mensagem que envia a população egípcia ao mundo quando o protagonista do “Golpe de Estado”, general Sisi é recebido com todas as honras pelo governo britânico, esquecendo os mais de oitocentos mortos de Rabaa e as centenas de activistas que se encontram detidos? Também, existe a necessidade de procurar uma solução sustentável para a Síria, onde sejam julgados os que se mancharam de crimes contra a humanidade, assim como apresentar uma solução justa e definitiva para o conflito na Palestina.

Existe uma dupla moral de cumplicidade histórica das grandes potências mundiais como os governos autoritários da região e as suas práticas nefastas, que constituem uma das principais causas de frustração, impotência e recrutamento de jovens muçulmanos em grupos jihadistas. Infelizmente, é difícil ser optimista e pensar que os países envolvidos abandonem os seus interesses estratégicos, e apresentem desculpa pelos erros que cometeram em alimentar esta máquina de terror.

Tal, como relata um recente relatório da “Transparency International”, os que mais facilitaram a corrupção e a instabilidade na região através do negócio indiscriminado de armas, têm sido as principais potências mundiais, como os Estados Unidos, Rússia, Alemanha, Reino Unido, França e Canadá. É inútil por todas as razões serem surpreendidos face aos ataques de Paris. O problema é também, evidentemente, das sociedades ocidentais, se uma pequena minoria de cidadãos se une ao EI, tal como mostram as primeiras investigações sobre os autores dos atentados de Paris.

O outro problema das sociedades Ocidentais é simbolizado pela solidariedade selectiva que expressam pelas suas vítimas e o parco interesse até serem as primeiras vítimas das barbaridades do inimigo comum, sejam libaneses, árabes, muçulmanos, xiitas, sunitas, iazidis, cristãos, curdos, sírios ou iraquianos. O ataque de Paris, no dia seguinte às idênticas atrocidades perpetradas em Beirute, de que resultaram trinta e sete mortos e duzentos feridos, criaram um debate necessário sobre esta solidariedade selectiva de que estão empapadas as sociedades Ocidentais, sintoma de um sentimento de superioridade e da existência de vítimas de primeira e segunda classe.

O debate tem de alcançar níveis mais profundos para que leve a uma reflexão mais profunda sobre posições proto-coloniais que só provocam indignação, frustração e divisão. O “The New York Times” há poucas semanas perguntava aos seus leitores, através de uma sondagem no “Twitter”, se tivessem a possibilidade, teriam morto Hitler enquanto criança? Poderíamos, no presente propor a mesma pergunta, substituindo Hitler pelo “Jihadista John”, ou com o auto-intitulado “Califa Al Baghdadi”. Mas, talvez não teria tanto sucesso e seria mais útil perguntar porque continuam a existir as condições para o aparecimento de monstros como o EI, e onde falharam as sociedades ocidentais, se continuam a criar nas suas entranhas vários “Jihadistas John” que desprezam todo o tipo de vida humana?

25 Nov 2015

A Europa em estado de sítio

[dropcap style=’circle’]1[/dropcap]. Uma semana transcorrida sobre os atentados de Paris que vitimaram uma centena e meia de pessoas, outra cidade europeia Bruxelas mantém o seu sistema de alerta de iminente atentado terrorista no nível 4, o mais elevado do seu sistema de segurança. O governo belga decretou no passado fim-de-semana o encerramento do metro, o fecho das escolas e das universidades. Também o Conselho Europeu reduziu a sua actividade, ao mínimo. Segundo relatos da imprensa no centro de Bruxelas tiveram lugar várias operações de intercepção conduzindo à detenção de 18 indivíduos. Foi encontrado um importante arsenal de explosivos e armas de guerra. Relatam os serviços de informações que vários dos homens que participaram nos comandos que perpetraram os atentados de Paris fugiram para a Bélgica e estão a ser procurados pela polícia. Entre eles conta-se Salah Abdeslam, o eventual cérebro das operações em Paris.
O momento é de incredulidade. Como é que acontecem tantos ataques terroristas em tão curto espaço de tempo? Como é que não são detectados movimentos dos operacionais que estão identificados como indivíduos perigosos pelos serviços de inteligência europeus? Porque se está a instalar um sentimento de fatalidade perante este séquito de acontecimentos? Sendo fácil culpar outros, a responsabilidade reside nos europeus.
Estes tempos de excepção colocam desafios relevantes, muitos deles novos. Desde logo a capacidade dos governos europeus concertarem uma estratégia conjunta e realista que ‘contenha’ esta ameaça à segurança colectiva. Depois a fiabilidade do sistema de Schengen, de livre circulação de pessoas e bens sem fronteiras internas, numa Europa em verdadeiro estado de sítio. Também a falta de colaboração dos serviços de informação europeus ainda presos a uma postura de protecção dos segredos de Estado a qualquer o preço. Finalmente, o problema de projecção do poder militar da UE, sobre o chamado Estado Islâmico do Levante. Comecemos pelo princípio.
2. Não é de hoje a ameaça à segurança europeia. O ataque ao jornal Charlie Hebdo, em 7 de Janeiro, que vitimou doze pessoas pôs a nu a fragilidade do sistema de segurança francês bem como a incapacidade de uma coordenação a nível europeu de meios de ‘inteligência’, controlo de fronteiras e capacidade de vigilância. Nove meses depois, pode-se dizer que estamos exactamente na mesma. Segundo o Ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, em declarações à imprensa, apenas no dia 13 um serviço de informações identificou a presença de Abdelhamid Abaaoud na Grécia. Nenhuma informação relativa às movimentações deste operacional proveio de qualquer dos países europeus acrescentou Cazeneuve. O tom azedo do governante francês revela o diálogo de surdos que esta questão tem encontrado nas capitais europeias com cada país a olhar para o lado, acreditando que o problema não lhe diz respeito. O que diz muito quanto à falta da chamada repetida até à exaustão pelos tratados e nos discursos da elite europeia.
De certa maneira torna-se claro aos olhos das pessoas mais atentas que os atentados foram tomados como um acto fortuito, episódico, que suscita um conjunto de respostas pontuais que ficaria mal não serem tomadas. Não correspondem a uma mudança de posição, nem de atitude. A França bem apresentou aos seus parceiros no Conselho Europeu uma série de propostas, como a operacionalização do PNR (Passage Name Record), um ficheiro de dados pessoais dos passageiros dos voos que entram no espaço Schengen, que possibilitaria integrar num mesmo ficheiro a identificação do passageiros e outros dados como o pagamento em espécie do bilhete de avião, o transporte de malas com grande peso nos trajectos curtos ou viagens de ida-e-volta para países assinalados como do terrorismo como a Síria, o Iraque e o Iémen. Não houve qualquer resposta. Alfonso Cuarón, Children of men
A braços com uma situação de emergência nacional (prolongada por três meses), a França chegará provavelmente à conclusão que deverá agir sozinha, com os seus próprios meios para prevenir novos atentados. O que é improvável já que a capacidade de improviso das redes terroristas é grande e não se compadece com visões nacionais.
3. Quer-se queira quer não o problema dos atentados terroristas está intimamente ligado ao afluxo, nos últimos meses, de 800 000 refugiados às fronteiras do Sul da Europa. A esquerda não gosta que se associem os dois factos mas eles estão absolutamente correlacionados. Vários ‘kamikazes’ do ISIS foram identificados entre milhares de pessoas que acorreram aos portos da Grécia ou às suas fronteiras, vindos da Turquia. O sistema de registo e identificação provisória dos fluxos de migrantes é um verdadeiro ‘passador’. Indivíduos que chegam sem passaporte ou documento de identificação, alegando que o perderam numa travessia ou fuga apressada compõem uma história e um que facilmente os legitima como indivíduos não perigosos.
Seria mais acertado ser-se realista e reconhecer como o afirmou o Primeiro-Ministro francês, em entrevista a um canal francês, que ‘se a Europa não assumir as suas responsabilidades é todo o sistema de Schengen que estará em causa’. Vários países instituíram, de uma forma ou de outra, controles de identidade à entrada nos seus portos e aeroportos. Contam-se entre eles a França, a Alemanha, os Países-Baixos, a Áustria, a Hungria, a República Checa, a Eslovénia, a Eslováquia, a Suécia e a Bélgica. Outros os seguirão.
Naturalmente deveria ir-se mais longe suspendendo-se a aplicação do artigo 67.o do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia que prescreve que “a União assegura a ausência de controlos de pessoas nas fronteiras internas e desenvolve uma política comum em matéria de asilo, de imigração e de controlo das fronteiras externas que se baseia na solidariedade entre Estados-Membros e que é equitativa em relação aos nacionais de países terceiros. Para efeitos do presente título, os apátridas são equiparados aos nacionais de países terceiros”. Criado em 2008 para responder a uma situação optimista de uma Europa o seu sentido injuntivo contraria as exigências actuais de uma Europa sitiada por um inimigo externo com importantes cúmplices internos.
Daí que haja quem pondere propor a criação de uma formada pelo Benelux, a Áustria e a Alemanha. A chanceler alemã, Ângela Merkel, nunca desmentiu esta eventualidade. A sua mera possibilidade é portanto um aviso sério de que se os 28 estados-membros não alcançarem uma solução conjunta aplicável a todo o espaço da União, os países mais integrados da UE poderão encontrar uma solução de recurso. Resta saber o que farão neste caso a França, a Itália ou a Espanha, países que estão na primeira linha dos ataques dos terroristas islâmicos.
4. Será no mínimo irresponsável pensar que a ameaça terrorista se esfuma no ar pelo arrependimento dos jihadistas do ISIS pelas vítimas sacrificadas ou perante o horror da opinião pública, como acreditar que os avisos de Barack Obama possam ter algum efeito útil. É bom que os europeus se convençam que com esta administração em Washington estão entregues ao seu próprio destino. Só uma intervenção militar terrestre em conjugação com raids aéreos pode desalojar os terroristas dos seus enclaves em territórios sírio e iraquiano. Uma intervenção em coligação que estivesse disposta em fazer quando se encontrar no terreno. É tempo de se ter uma abordagem realista e reconhecer que Bashar al-Assad não é o adversário principal do Ocidente, neste momento. Quer a Rússia quer o Irão podem desempenhar, igualmente, um papel proactivo na pacificação daquela zona do Médio Oriente. Porque não incorporar o Irão e a Rússia numa coligação que derrote militarmente o ISIS e ajude a criar um poder administrativo na zona oriental da Síria e na zona ocidental do Iraque no período imediatamente a seguir?
A verdadeira profusão de grupos jihadistas, pró e anti-Bashar, revela que a estratégia de Obama de apoiar uns e combater outros deixou de fazer qualquer sentido dadas as ligações desses gangues a países árabes. Fazer a paz com Damasco e manter uma atitude utilitarista com Bagdad e Teerão pode constituir a única saída realista para a reposição da ordem no território controlado pelo ISIS.

25 Nov 2015

Refugiado me confesso

[dropcap style=’circle’]O[/dropcap]sentimento antimuçulmano está a crescer na Europa. Essa é uma das consequências imediatas dos atentados de 13 de Novembro, em Paris. Outra é a de que os refugiados não são mais bem-vindos na Europa. Esta tornou-se bem visível algumas horas depois dos acontecimentos que ceifaram a vida a 130 pessoas na capital francesa, quando o novo governo polaco anunciou que iria suspender de imediato a sua quota-parte de acolhimento de refugiados.
A narrativa que está a ser construída é a de que pelo menos um dos autores dos atentados de Paris terá passado pela Grécia integrado no fluxo de refugiados que estão em marcha desde a Síria até à Europa. É difícil fugir à tentação de escrever que a narrativa procura criar as condições para que o silogismo ponha termo à entrada de mais refugiados no continente europeu: todos os refugiados são terroristas, logo não mais refugiados na Europa.
A vida é injusta. Todos o sabemos. Mas esta generalização, como tantas outras generalizações, tem em si um mal enorme. As percepções têm um poder imenso. Formamo-las ao longo dos anos em relação a todos os outros que fogem à norma. Uma norma à qual nos fomos habituando e transmitindo aos nossos filhos, que nos marca de uma forma indelével, e que está por detrás de todos os comentários que fazemos e que determina o que somos e como vimos os outros. Mesmo que nos esforcemos por ignorar as percepções, elas estão sempre presentes no nosso dia-a-dia.
O candidato a refugiado não é uma pessoa que está em condições de escolher o quer que seja. O refugiado é alguém que perdeu todas as possibilidades de ser. Esgotaram-se-lhe as hipóteses. Deixou de ter opções. É alguém que está confrontado com apenas uma saída: morrer ou fugir. Quando o caminho se afunila desta maneira ninguém pode ser acusado de estar a tomar más decisões. Para muitos, para uma imensa maioria, esta é a sua verdade. A sua história.
É evidente que os custos que acarreta a longa viagem da Síria ou do Afeganistão até à Europa não podem ser suportados por todas as famílias. São famílias remediadas as que se metem à aventura até ao continente europeu e que conseguem pagar todos os subornos e as tarifas de transporte, de barco, de comboio, de carros, aos contrabandistas de gente. Os que se aproveitam da miséria humana hão-de subsistir sempre, tanto mais que o negócio é rentável e sem qualquer tipo de onerosidade associada a prémios de seguro nem a reclamações em caso de má prestação do serviço. Até porque nos casos das viagens pelo Mediterrâneo, não poucas vezes o que tem acontecido é a “mercadoria” acabar no fundo do mar, sem possibilidade de ser intentada qualquer tipo de acção judicial.
O silogismo é perigoso porque nos faz esquecer o que efectivamente sofrem estas pessoas. É claro que haverá radicais islâmicos entre os refugiados que chegam à Europa. A probabilidade é grande que, entre as mais de 800 mil pessoas que já se meteram a caminho do continente europeu desde o início deste ano, haja vários potenciais terroristas à espera de um sinal para atacarem. Mas a argumentação de que se deve ter muito medo pois os candidatos a refugiados que chegam à Europa são acima de tudo homens jovens já não colhe. Na verdade, segundo os números mais recentes daqueles que já foram registados – os outros não poderão, naturalmente, ser contabilizados –, 73 por cento dos refugiados e migrantes são do sexo masculino e 81 por cento têm menos do que 35 anos.
Os seus países de origem têm uma pirâmide etária bastante jovem. E culturalmente não há abertura para que as mulheres de vinte e poucos anos saiam de casa dos pais nem tão pouco para que as mais novas viajem sozinhas. Essa é uma dimensão da igualdade de género que está por alcançar. Em muitos casos, as mulheres ficam para trás. O homem vai à frente, desbravando caminho, na esperança de um dia poder construir as condições para que o resto da família se lhe junte, em segurança. É por isso que são sobretudo homens aqueles que chegam à Europa originários, na sua grande maioria, de países de fé muçulmana.
A realidade é demasiadas vezes muito difícil de retratar. E de ser credível. Quando as estórias que ouvimos nos são tão distantes, custa-nos muito acreditar nelas. Como se escutássemos um conto fantástico.
A União Europeia tomou a decisão no final da semana passada de reforçar os controlos das fronteiras externas da Europa, obrigando os europeus ao mesmo tipo de escrutínio a que têm estado sujeitos os cidadãos de países terceiros. Até ao final do ano vai ser estabelecida uma lista de passageiros de viagens aéreas no interior da Europa à qual terão acesso todos os Estados-membros, de forma a que se possa controlar com mais eficácia os movimentos de eventuais suspeitos de redes terroristas. Ainda bem. É preciso que continuemos a estar ao lado da política de abertura aos refugiados por todos os que, justificadamente, merecem ser acolhidos na Europa, no final da mais longa viagem da sua vida, fugindo de uma morte certa.

24 Nov 2015

Tao-Confúcio

[dropcap style=’circle’]R[/dropcap]ecentemente tenho ciberneticamente explorado sobre a sexologia taoísta que levou a uma pertinente preocupação das influências para o sexo que se faz na China. Se no mundo ocidental temos a igreja e as revistas cor-de-rosa a insistir em certos entendimentos sexuais, muitos deles que se caracterizam pela sua castração e repressão; da China histórica, encontramos muito provavelmente as influências do Taoismo e do Confucionismo (e por enquando ficar-me-ei por estas duas correntes, mas mais reflexões sobre a sexualidade oriental/chinesa estará por vir).

Taoismo: Além das referências ao yin e o yang (阴阳), a importancia do qi (气) e ainda do jing (精), o taoísmo sexual, não surpreendentemente, foi descrito muito centrado na perspectiva masculina. Sexo em si era uma prática de potencial espiritual onde ‘se une a energia’ (合气) com vantagens grandiosíssimas para o homem, que se acreditava desenvolver muito boa saúde pela prática e, com muita dedicação, atingir a imortalidade. Acreditava-se que o sexo estabelecia o tão desejado equilíbrio que se procurava na natureza e que o yin e o yang ilustrava, sugerindo uma possível abordagem naturalista que nunca se popularizou.

A verdade é que acreditava-se que o sémen continha altos teores de jing (精) e que a sua perda teria consequências para a sua saúde. Por isso: sexo sim, mas sem ejaculação. As práticas desenvolvidas trouxeram, por isso, dicas úteis para não perder o seu sémen e jing (精) em sexo que era necessário, mas não o pacote total.
As mulheres eram vistas como um receptáculo sexual, um ‘caldeirão’ necessário para o desenvolvimento fetal e por isso até certo ponto eram respeitadas e deveriam ser estimuladas e agradadas porque só assim é que a energia gerada seria benéfica para o homem e para o seu desejo de imortalidade. Contudo, apesar de se sentir como uma obrigação médica agradar o yin (o lado feminino) para a sua energia ser terapeuticamente aproveitada, as mulheres continuavam a ser usadas como objectos.

Confucionismo: Provavelmente a corrente filosófica mais influente na China, pouco ou nada disse sobre sexo. Confúcio não se debruçou por aí além pelo tema e tudo indicava que usaria pessoalmente a actividade sexual heterossexual de forma muito prática, desde que, contudo, não interferisse na sua vida social.

O pior veio depois, quando Neo-Confucionistas, a partir da dinastia Sung, trouxeram uma reinterpretação dos ensinamentos do sábio e sugeriram uma teoria repressiva do sexo, que teóricos acreditam ser a base para o entendimento sexual na China dos últimos 1000 anos. Antes da intervenção dos neo-confucionistas, historiadores acreditam que as relações sexuais eram vistas com maior liberalismo e naturalidade porque as descrições de vidas amorosas, casamentos, divórcios, e tipos de relacionamentos heterossexuais e homossexuais não mostravam desaprovação nem condenação.

Se esta visão continuou na base da vida privada chinesa, temos pouca certeza, porque os discursos pós-Sung mostram uma contínua repressão que poderiam ter mais forma em certas classes sociais e/ou nos documentos históricos a que temos acesso hoje. O que vale são as descrições literárias, as representações artísticas que ainda mostravam alguma criatividade sexual e que nos fica no imaginário de tantas taradices que julgamos chinesas.

As descrições da antiga sexualidade chinesa, especialmente a Taoista, têm sido alvo de bastante análise pelos grupos que desejam elevar a sua sexualidade a uma experiência espiritual (tal como era descrita, na união das energias) e por isso tem aumentado de popularidade em círculos ocidentais interessados em Tantra. A filosofia sexual chinesa tem sido por isso reinterpretada à luz de uma maior igualdade de géneros e na possibilidade de estender a actividade sexual ao máximo, com tantos exercícios de controlo ejaculatório que existem.

Consigo imaginar que não é da mesma forma que se influencia a sexualidade chinesa actual. Certas crenças ainda se perpetuam sobre como não é saudável desperdiçar o suco sexual, insistida pela medicina tradicional chinesa. Afectando, por exemplo, a forma como a masturbação é vivida na China. Se é herança dos neo-confucionistas ou não, também se denota a ditadura do silêncio sobre as coisas do sexo e alguma relutância em retirá-las da privacidade do quarto. Como em muitos outros contextos é simplesmente pouco falada. Mas e a globalização, o socialismo de características chinesas ou a agora política do filho ‘duplo’?

NOTAS
1. Usei caracteres simplificados para ilustrar variados conceitos porque foi assim que aprendi, teria escolhido os tradicionais pela minha ligação a Macau, mas não seria fiel ao meu conhecimento da língua chinesa. 2. Muitas das informações aqui apresentadas basearam-se em Ng, M. L. & Lau, M. P. (1990) Sexual Attitudes in the Chinese. Archives of Sexual Behavior, 19 (4), 373-388 que oferece uma maior reflexão das práticas e das suas influências e que será do interesse de quem deseja aprofundar o tema.

24 Nov 2015

Amanhã logo se vê

[dropcap style=’circle’]1.[/dropcap] Eu não cresci no tempo dos meus pais. Não era suposto encontrar um mundo igual. Bem vistas as coisas, quer-me parecer que aquilo que estava reservado para a minha infância foi bem melhor do que as circunstâncias em que os meus pais cresceram. Os meus primeiros anos de vida foram-se somando numa altura de paz, naquele pequeno universo em que nos movimentávamos. Foram anos suaves por aquelas bandas, muito ocidentais e a quererem ser europeias.
Assim como não era suposto crescer no mundo dos meus pais, também não seria de esperar que as minhas filhas nascessem no enquadramento que eu encontrei. Mas não, não estava à espera que o mundo – o mundo de onde venho e que nunca deixou de ser o meu, por mais longe que esteja – regredisse deste modo. Não, não é este o mundo que quero para as minhas filhas. Um mundo que não consigo compreender, por mais que leia e veja e pense.
Os atentados de Paris, que nos dizem mais do que os atentados de outros sítios porque conhecemos Paris e porque temos amigos em Paris e porque temos família em Paris, fizeram muito mais do que mortos. Mas nem vale a pena ir por aí, pelo medo, pela sensação de insegurança que se quer criar e que se consegue efectivamente incutir. Também não valem mais do que meia dúzia de linhas os meninos que decidiram que queriam fazer um Estado Islâmico, essa gente enviesada que anda a brincar às guerras sem regras, sem pudor, que anda a espalhar o terror e a conquistar outros meninos enviesados para uma causa sem causa alguma.
O que aconteceu em Paris deixa-me preocupada com a Europa que temos – desunida e fraca, sem capacidade de afirmação, nem de uma resposta conjunta a momentos de crise. Não teriam sido necessários os atentados de Paris para chegarmos a esta conclusão: a sangria no Bataclan e os dias que se seguiram só vieram confirmar o que já tínhamos aprendido com os anos da crise nos países mais pobres e, mais recentemente, com a ausência de uma solução para o drama dos refugiados.
A aparente impotência europeia não é apenas um problema europeu porque, bem vistas as coisas, a Europa conta e está no centro de quase tudo. E, por contar, de repente dava jeito – a quem é europeu e aos outros também – que a Europa se entendesse e que a Europa percebesse que o mundo está a mudar muito mais rapidamente do que estaríamos à espera quando começámos a somar anos.
No meio de tudo isto, seria bom termos uma ideia de que mundo estamos nós a construir para os nossos filhos. Urge que se encontrem soluções, sendo que serão sempre difíceis.

2.

Nós por cá tudo bem, obrigada. Na noite em que ainda assistia, incrédula, às imagens que foram chegando de Paris, a Torre de Macau e o céu em redor iluminavam-se com um estonteante fogo-de-artifício, talvez em jeito de comemoração de mais uma feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, feito que não lembra ao diabo mas que, por aqui, é a demonstração do quão criativo é o nosso empresariado político.
Em semana de feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, temos Linhas de Acção Governativa e Grande Prémio, cada um deles à sua velocidade, num contraste que confirma que esta terra é só paradoxos. Do plano anual do Executivo não se poderia esperar muito – eu, pelo menos, nunca espero – até porque Março foi quase ontem e só aí começámos a perceber efectivamente de que material se faz esta equipa governativa.
No espaço de nove meses foram apresentados dois pacotes de medidas e estas últimas mais não poderiam ser do que uma repetição das primeiras que, por acaso, têm tudo que ver com as não-sei-quantas-outras que as antecederam.
Já nos habituámos à ausência de discurso político por aqui. Que venha o trabalho, que os projectos se concretizem, que bem precisamos deles. É bonito ouvir falar de qualidade de vida, mas a Macau falta quase tudo para que se possa falar nela.
Mas nós por cá tudo bem. Haja feiras-da-gastronomia-em-cima-de-rotundas, que o povo gosta. E cheques, claro está, que a austeridade chegou, mas em fórmula vencedora não se mexe. É mais ou menos como o Grande Prémio. Mas mais devagar nas curvas.

20 Nov 2015

Questões pessoais e interesse geral

[dropcap style=’circle’]N[/dropcap]a quarta-feira, 17 de Novembro, o Chefe do Executivo, Chui Sai On, apresentou o Relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o ano financeiro de 2016, na Assembleia Legislativa. O projecto anual de repartição de riqueza e os aumentos salariais, foram as duas questões eleitas para apresentação. O governo da RAEM só poderá lidar com estas questões investindo financeiramente. O debate da acção governativa, que se seguiu à apresentação do Relatório e à sessão de Perguntas e Respostas, foi apenas um pró-forma político. Os cidadãos de Macau não irão retirar qualquer benefício, se a colaboração entre o Governo da Região e a Assembleia Legislativa se mantiver nestes moldes.
Desde a integração de Macau, os sucessivos governos da RAEM têm-se revelado incapazes de resolver os problemas de forma eficaz. O fracasso na reestruturação económica tem sido compensado pela desmonopolização da indústria do jogo. A política de vistos individuais da China e a afluência de investimento estrangeiro, à procura de lucros rápidos, são os factores que têm tornado próspera a economia de Macau, especialmente a indústria imobiliária.
Mas quando o Presidente Xi Jinping subiu ao poder e implementou a sua política anti-corrupção, as receitas do jogo na RAEM decresceram durante 17 meses consecutivos. O encerramento de salas de jogo VIP continuou, ao passo que, recentemente, a actual situação económica deu azo ao aparecimento de vários incidentes, por trás dos quais, se escondem questões relacionadas com dinheiro.
Os mais graves foram, sem dúvida, o do Grupo Dore e a morte súbita de Lai Man Wa, directora-geral dos Serviços de Alfândega de Macau, que provocaram graves constrangimentos ao Governo, quer ao nível da sociedade civil, quer ao nível do Governo Central.
O Gabinete do Chefe do Executivo entregou uma mensagem de homenagem à Directora-geral Lai Man Wa, através do Chefe do Executivo, Chui Sai On, onde lhe prestava largos elogios e a considerava “uma distinta personalidade da RAEM, íntegra e cumpridora leal dos seus deveres, sempre desempenhou as suas funções com dedicação e seriedade, demonstrando qualidade e eficácia na sua actuação profissional e excelente capacidade de liderança”.
É muito difícil de aceitar que, uma pessoa tão respeitada, se tenha suicidado, deixando para trás a família, as suas responsabilidades profissionais e o lugar que sempre amou.
As questões pessoais e o interesse geral estão estritamente ligados. Funcionária chave, designada pelo Governo Central como responsável pelos Serviços de Alfândega de Macau, a directora-geral Lai Man Wa morreu, sem que existissem quaisquer sinais prévios que apontassem para um possível suicídio. É necessário proceder a uma investigação profunda deste caso, deslindar o caso de uma ponta à outra, descobrir a verdadeira causa da sua morte e, fazer chegar essa informação ao Governo Central e à comunidade local. Só desta forma poderá a directora-geral descansar em paz e poderão os vivos ficar tranquilos.
A nossa vida é frágil e não há forma de compensar a sua perda. Quando vivemos num lugar como Macau, devemos preocuparmo-nos com o interesse geral a longo prazo, em vez que nos concentrarmos nos interesses pessoais. Mas quando os problemas de fundo não podem ser resolvidos, tudo o que é superficial deixa de fazer sentido.
O Grande Prémio anual atrai toda a gente, quer turistas, quer macaenses, por ser uma corrida competitiva. Mas quantos cidadãos estarão interessados em passar algum tempo a assistir ao debate anual do Relatório das Linhas de Acção Governativa, que tem lugar na Assembleia Legislativa? Afinal de contas, será que a política é uma questão pessoal, ou será um assunto que interessa a todos? Os macaenses não podem, pura e simplesmente, ficar a assistir e absterem-se de agir!

20 Nov 2015

Lastimável mundo chupá-ôvo

[dropcap style=’circle’]A[/dropcap]notícia mais importante do momento devia ser a dos atentados da última sexta-feira em Paris, que custou a vida a centena e meia de pessoas, vítimas do terrorismo islâmico. Digo que devia, porque seria sinal de que aquele momento de terror onde o medo é mais sentido tinha ficado por ali, e que restava apenas reconfortar os familiares sobrevivos das vítimas e outras pessoas íntimas, que no fim acabaram por ser as únicas para quem o dia seguinte não foi mais um dia igual a tantos, nem muitos outros depois desse, e eventualmente há quem sinta aquela falta até ao dia em que também ele adormecerá pela última vez, e quer essa ou qualquer outra dor deixarão também de o ser, perante o cândido abraço da morte.
A semelhança entre este atentado terrorista, um acto que nos deixa sempre revoltados, e outros em que se lamenta a perda de vidas humanas é o sentimento de frustração por sentir que a morte não teve causas naturais, nem foi produto do acaso, de um acidente, algo completamente casual, tudo o que possa ser abstracto, invisível e imprevisível, sempre mais leve para carregar no peito. Aqui entrou a mão do Homem, de outra criatura da nossa espécie que teve a ousadia de extrapolar os limites do seu ser, que ao ambicionar alargar por razões que só a ele lhe dizem respeito, apropriou-se do ser alheio, de um outro ser como ele, à revelia da vontade deste, assim reduzido à condição de mero instrumento.
Não é por maldade ou tacanhez, antes próprio do nosso instinto, comum a outras espécies do nosso reino, o animal: não aceitamos que desvalorizem o nosso bem mais precioso, a vida, ou gostamos de vê-la negociada, quem sabe se até exposta, e no fim disposta – é o insulto supremo. Sentimo-nos igualmente legítimos representantes de quem perdeu dessa forma a sua vida, e não teve nem tem neste particular uma palavra a dizer, a não ser por nós – e é claro que ele nunca autorizaria que alguém determinasse por ele que era hora de deixar de viver. É apenas senso comum.
O terrorismo, seja ele de que natureza for, tem como personagem principal a morte, além de um outro com quase tanto protagonismo: a desumanização. Inicialmente temos dois seres humanos, que por acção do terrorismo de um deles, deixa-nos com nenhum ser humano, ou seja, a vítima aqui perdeu a sua vida natural, e o terrorista, mesmo que sobreviva, terá perdido irremediavelmente a sua condição de ser humano, pois após o acto para o qual achou necessário dispôr de outro, acabou desumanizado.
A vida, toda a vida que existe no alargado âmbito da natureza é nada mais que uma das muitas fases do processo de contínua transformação da matéria, mas exposta ao sopro da humanização, dota-nos da humanidade, uma espécie de “package” contendo uma série de aplicações que nos distinguem dos restantes seres vivos, sendo o mais importante e especial de todos a inteligência, que nos deixa tentar racionalizar o porquê de entrarmos nessa roda viva da matéria, se foi mesmo por acaso, e dá-nos a faculdade de interferir nesse processo, e até eventualmente poder transformá-lo, adaptando-o a nós, quando no início éramos nós que nos adaptávamos ao meio, e nada mais do que para sobreviver, apenas, sem pensar em porquê, ou para quê.
Eu tenho uma concepção de luto, pesar, nojo, o que quiserem, que provavelmente deveria ser revista, uma vez que não parece estar actualizada para fazer face aos novos desafios do mundo que agora temos, em que o importante é ficarmos unidos, prosseguindo no caminho que cada um acha melhor. Esta contradição em termos leva-nos a lugar nenhum, mas nem por isso nos inibimos de tentar levar o maior número de seguidores, ou aderir a um grupo que achamos que mais se identifica com a nossa natureza, ou aquela que julgamos ser a nossa natureza, e à qual adicionamos os nossos valores. E é aqui que tudo se complica: os valores, que não são todos adaptáveis ao conceito de “um mundo melhor” que julgamos ser o ideal para todos.
Foi aqui que se deu esta nova mutação do vírus do terrorismo, que pode ter adquirido novas características, mais letais e mais imprevisíveis que nunca. Uma família em luto, figura que curiosamente tem ficado de fora deste autêntico espectáculo de variedades que se seguiu ao primeiro atentado, e a que eu chamo “segundo atentado”, não quer ouvir falar de “guerra” quando perdeu alguém que ama e que não lutava em qualquer guerra. Quem está a carpir a dor de perder alguém próximo não quer ouvir as mil e uma versões, algumas delas delirantes, de como esse alguém serviu de sacrifício, ou de como seria “se”, ou de como “já se sabia”, ou ainda “eu já tinha dito que isto ia acontecer”. Essas palavras conjugadas e ditas por dizer, ou por vaidade, são como punhais no coração de quem as ouve e fica com vontade de perguntar: “então porque não fizeste nada?”.
Estes atentados, o que custou a vida a centena e meia de pessoas em Paris naquela sexta-feira 13, e o outro que se encontra em curso neste momento, estão quase que umbilicamente ligados um ao outro. O tal “package” de aplicações de que falei mais atrás contém dois programas distintos, mas que não funcionam um sem o outro; o primeiro faz-nos distinguir o justo do injusto, conforme a nossa interpretação dessas valências, enquanto o outro nos permite determinar quem é culpado, ou não existindo culpa, quem permanece na sua forma original e pura de inocente. Quando somos vítimas do que achamos injusto, e respondemos com a mesma moeda, perde-se não só o que tinhamos por justo, mas também a capacidade de distinguir os culpados dos inocentes, alterando assim as prioridades: todos suspeitos até prova em contrário. É lastimável, com o próprio mundo, que dá vontade de mandar “chupá ôvo”.

19 Nov 2015

Da incapacidade

[dropcap styyle=’circle’]C[/dropcap]omo todos sabemos, mais de 100 pessoas morreram em Paris esta semana. Como menos sabemos, cerca de 40 morreram no mesmo dia em Beirute. Como menos ainda sabemos, desde 2006 até 2014, de acordo com o sítio “statista”, morreram perto de 162.000 pessoas devidos a actos terroristas, notando-se um aumento radical do número de vitimas de ataques terroristas em 2014 (32,827 vitimas) contra as 18,066 de 2013, num sinal claro que o combate contra o terrorismo está longe de ser ganho. E, claro, a maioria das mortes não ocorreu na Europa. Os números são impressionantes mas podem ser relativizados quando sabemos pela OMS que 7.4 milhões morrem todos os anos vítimas de doenças cardíacas ou o espantoso número de 4.3 milhões pessoas que morrem por ano vítimas de… poluição atmosférica no domicilio! Naturalmente, apesar destas disparidades não há relativização que chegue para compensar o horror do assassínio deliberado de inocentes, pelo medievalismo tácito e pelas as implicações indirectas desde os impactos económicos ao incremento de ódios, segregação e racismo, ao surgimento de cada vez mais movimentos políticos extremistas e, naturalmente, o reforço das medidas de segurança e vigilância que gradualmente nos tolhem cada vez mais os movimentos e perturbam o dia a dia. Todavia, nada parece estar a ser feito para combater de facto o flagelo, ao ponto de quase me surgir a inclinado a acreditar numa qualquer teoria da conspiração que explique a imbecilidade dos governos como propositada para assim poderem aumentar os meios de repressão e vigilância sobre as populações, legitimados pelo medo que o terrorismo causa. Porque, na realidade, existem n coisas que não se entendem como, por exemplo, o financiamento de grupos como o Ísis que, segundo dados saídos na imprensa internacional, facturam cerca de 3 milhões de dólares por dia (!) só em petróleo dos poços que controlam nas zonas ocupadas, fora o que obtêm através de tráfico humano e da venda de antiguidades roubadas no Iraque. Quem compra tudo isto? Alguém seguramente. Que se tem feito para evitar o tráfico? Praticamente nada. Muitos discursos e tomadas de posições mas resultados zero. Mas há mais coisas que não fazem sentido: no caso francês, tal como nos atentados de Janeiro, pelo menos um dos atacantes identificados já estava fichado pela polícia como extremista. Porque ainda assim conseguiu participar num ataque terrorista? Mistério. Ou talvez não… Talvez o problema resida no facto da Europa não ter encarado, até agora pelo menos, a ameaça terrorista como aquilo que de facto é: um estado de guerra, como o primeiro ministro francês finalmente reconheceu falando já de extirpação de nacionalidade e expulsão de radicais. De facto, casos excepcionais requerem medidas excepcionais, mas Manuel Valls não explica é para onde os vai expulsar. Para Santa Helena?
Mais: segundo consta, alguns dos atacantes terão entrado, como se previa, junto com a vaga de refugiados. Porque é que Europa não conseguiu, nem consegue, lidar com os refugiados? Mistério. A sensação que fica portanto, é a de sermos governados por um punhado de idiotas pomposos sempre rápidos no discurso, teatrais e dramáticos para o povo ver, mas com uma incapacidade enorme de agir, de criar soluções práticas para os problemas. Será também possível perceber o gáudio com que foi anunciada a morte de Jihadi John? Ou a de Bin Laden? Onde vai levar esta sede de sangue? Em que medida é que isto nos distancia dos terroristas? Não teria sido preferível capturar tanto um como outro e julgá-los? Não seria melhor para todos? Não seria isso um afirmação de superioridade civilizacional? Sabendo ainda que grande parte dos terroristas que atacam na Europa são criados em casa, cidadãos desses próprios países, que tipo de programas têm vindo a ser implementados para os perceber, para os enquadrar, para evitar que a atracção pelas organizações terroristas surja?… No fundo tratam-se na sua grande maioria de jovens, influenciáveis como a maioria dos jovens que vêem na jihad, muito provavelmente, uma forma de inclusão que não sentem nas sociedades que os viram nascer.
A realidade é que o Ocidente não tem um plano para acabar com o terrorismo nem para eliminar grupos odiosos como a Ísis limitando-se a reagir a quente e a trancar portas depois da casa roubada.
Mas se alguma coisa de positivo surge nesta história é a revelação de quão urgente precisamos de novas formas de pensar, de novas formas de governar. No caso da crise de refugiados, quão difícil teria sido/será arregimentar uns quantos paquetes de turismo e uns porta-aviões para recolher os refugiados do Mediterrâneo? Qual a dificuldade? Quantas vidas se poupariam? Quantas dificuldades para todos se evitavam? Davam-se condições de vida às pessoas, fazia-se um recenseamento detalhado dos refugiados e depois distribuíam-se as pessoas de forma organizada pelos países de acolhimento. Estou a ser ingénuo? Existe aqui alguma dificuldade de que eu não me consigo aperceber?
Felizmente começam a surgir novas formas de pensar como Jeremy Corbyn no Reino Unido e até o novo papa tem demonstrado que é possível pensar e agir de formas inovadoras, mas ainda é pouco, muito pouco porque o resto são tomadas inócuas de posição, discursos de intenções e políticas medievais como as da Polónia e da Hungria e uma incapacidade gritante para resolver problemas. Nem terrorismo, nem refugiados, nem desenvolvimento social, nem aquecimento global, nem fome, nem gente a morrer em casa por ter de fazer fogos para sobreviver. Nada se resolve. Somos uns incapazes.

MÚSICA DA SEMANA
John Legend – “If You’re Out There”

If you hear this message
Wherever you stand
I’m calling every woman
Calling ever man

We’re the generation
We can’t afford to wait
The future started yesterday
And we’re already late
(…)
No more broken promises
No more call to war
Unless it’s Love and Peace that
We’re really fighting for

18 Nov 2015

O que fomos

POR AURELIO PORFIRI

[dropcap styyle=’circle’]N[/dropcap]este momento, aqui em Roma, onde vivo, não me é possível deixar de pensar no que aconteceu em Paris. Estamos todos em perigo e a nossa civilização também está. Tudo aquilo por que os nossos antepassados lutaram, está a ser atacado em muitas frentes. É evidente que o choque civilizacional é cada vez mais violento e, como o Papa Francisco afirmou ontem, estamos perante a Terceira Guerra Mundial, mas em tranches. Estou seriamente convencido que um dos principais problemas terá sido confundir a nossa identidade greco-romana e, judaico-cristã, com o poder de sermos detentores da verdade. Já não vivemos orientados pelos valores que antes partilhávamos, não podemos disfrutar dos nossos símbolos, com a plena consciência de que eles são e, permanecerão, símbolos. Perdemos a capacidade de sentir o poder renovador do perdão, porque, onde tudo é permitido, não é necessário pedir desculpa, faça-se o que se fizer. Deixámos de ser o que éramos.
Um dos muitos alicerces da nossa civilização é a arte, a música, que contribuíram para a nossa grandeza. Durante o período que vivi em Macau, tentei partilhar este tesouro, que herdei dos meus ilustres antepassados. Nunca me tentei impor aos meus alunos, fui movido apenas pelo desejo de partilhar e, pela amizade que sentia por eles. Com isto tentei enriquecer os seus horizontes culturais, sem, no entanto, afirmar “este património é vosso”. Tratava-se do “meu património” e dos meus antepassados. Pelo meu lado, sempre desejei que alguém me desse igual oportunidade de conhecimento da cultura chinesa e da sua sabedoria ancestral. Não que esse conhecimento me tornasse igual a eles, mas iria, certamente, enriquecer a minha visão do mundo. No entanto isto nunca se verificou, ou, apenas, muito raramente. Como já referi noutras ocasiões, lidamos constantemente com pessoas que só desejam o que não lhes pertence, e não desenvolvem nem aprofundam o que é verdadeiramente seu, a sua cultura. Costumo alertar as pessoas para os benefícios do desenvolvimento, mas, também, alertá-las sobre os perigos de nos sobrepormos à nossa herança cultural.
Certo dia, em conversa com um músico macaense, pelo qual nutro respeito, falámos sobre o baixo nível da vivência musical na cidade. O meu interlocutor queixava-se da falta de bons professores. É evidente que é aqui que reside o problema e toda a gente sabe disso. Quem está no poder, acredita que basta desperdiçar uns dinheiros em eventos culturais, que acabam por se revelar inúteis, para fazer subir a fasquia. Mas estão enganados, porque existe um conceito errado de base em Macau, e que nunca é combatido: que os “locais” são culturalmente auto-suficientes e capazes de organizar programas culturais capazes de elevar o nível de, por exemplo, coros e ensembles musicais. Quando compreenderem que não faz sentido investir nos “locais”, só porque são locais, e for implementada uma política pedagógica séria, capaz de atrair professores estrangeiros, que sabem o que estão a fazer, penso que Macau também poderá vir a ser um dia competitivo nesta área. Mas depois de sete anos em Macau e de contacto próximo com o meio musical local, duvido muito que isto algum dia venha a acontecer. Devemos estar preparados para ouvir vezes sem conta: você sabe, estamos em Macau….

18 Nov 2015

Sexo, Perspectivas e Coca-cola

[dropcap style=’circle’]O[/dropcap]sexo gera vida, cria pessoas, adiciona números à contagem populacional. Não há ninguém neste planeta que tenha aparecido sem uma prévia noite de paixão pelos seus progenitores. Nós existimos porque há sexo e porque é praticado. Sim, tudo o que escrevo não consegue ultrapassar as franjas do óbvio, mas tento enaltecer o facto do sexo ser a raiz de tudo.

Se sexo é a raiz de tudo, é por isso a raiz de todo o bem e de todo o mal que existe no planeta. Sexo permite o surgimento de pessoas que se desenvolvem das mais variadas formas. Não sei se nós humanos somos inerentemente bons ou maus e parece-me que tem sido extremamente difícil esclarecer essa dúvida, apesar de muitos filósofos, sociólogos, antropólogos e psicólogos se terem debruçado sobre o caso. Nascemos com alguma predisposição genética para certas tendências cognitivas e comportamentais, informação genética essa oferecida pelos gâmetas do pai e da mãe. E depois… a vida molda-nos da forma que nos é oferecida. Recebemos, reproduzimos e reconstruímos visões do mundo que dada a diversidade que existe neste planeta, a diversidade é felizmente mantida. Na diversidade cabe tudo, as diferenças físicas e culturais que por vezes são partilhadas por grupos, e as diferenças individuais, porque ninguém é igual a ninguém (e olhem que a maioria dos estudos para entender o desenvolvimento humano usa gémeos verdadeiros como objecto de estudo, ou seja, duas pessoas com exactamente a mesma carga genética, e facilmente se percebe que a diferença continua a existir).

Há tantas pessoas diferentes que as práticas sexuais, que na sua essência partilham alguma universalidade (excitação, orgão sexual, orgasmo), podem ser diferentes. As diferentes ideologias e consequentemente as diferentes práticas podem-se complementar ou entrar em conflito. Primeiro começa com a conversa que os nossos pais têm connosco sobre como se fazem bebés. E aí somos introduzidos ao sexo. Depois é a puberdade que traz um mar de inseguranças acompanhada de alterações drásticas no corpo (alterações que nos preparam fisicamente para procriar) e o bombardeamento de informação vinda de todos os lados sobre o sexo, quando ainda é desconhecido, e depois da primeira vez, que apesar de mais familiar ainda permanecerá envolto em muito mistério e tabu.

As redes de informação que contribuem para a ideologia sexual colectiva e individual são de uma complexidade assustadora. São namorados, namoradas, amigos, pais, médicos, religião, pornografia, internet, livros, televisão, jornais, opiniões, discórdias, e tantas outras coisas mais que nos ajudam a perceber o que é que achamos do sexo e de que forma o queremos vivê-lo. Ora dada a complexidade, a primeira dificuldade que reconheço é saber separar o trigo do joio. Porque se há pessoas que conseguem sair desta confusão com uma sexualidade saudável e prazerosa para todos, há outras que se metem em concepções menos amigáveis ao nosso bem-estar. Os mitos e os rumores são uma coisa gira de se observar: ‘A coca-cola é um poderoso espermicida’. Houve quem de facto acreditasse que um banho pós-coito com a famosa bebida americana constituísse um eficaz contraceptivo. Por isso cientistas fizeram questão de falsificar a teoria através de estudos. Resultado é que Coca-cola Light (em comparação com as outras Coca-colas) tem alguma influência na mobilidade dos pequenos espermatozóides, tornando-os menos energéticos e mais lentos a chegar ao destino. Se isso constitui um método contraceptivo, muito dificilmente. Parece-me a mim que só se tornaria mais numa barreira que o esperma teria que enfrentar (isso e a selvajaria que o interior vaginal é) mas não incapacitador de trazer vida ao mundo.

O que quero dizer é que a nossa sexualidade encontra-se num constante processo de manutenção e desenvolvimento pelo o que somos neste momento e pelo que nos é sugerido e apresentado no mundo. Se nos dizem que a Coca-cola é um espermicida, porque não confirmar com outras fontes ou outras opiniões? Senão teremos todo o mundo a tomar banho em Coca-cola enquanto lhes saltam bebés incessantemente. Porque de bem verdade que a Coca-cola é muito mais barata do que qualquer outro método contraceptivo.

Por isso haja bom senso. Bom senso para perceber que há histórias e estórias, zonas cinzentas e outras explicações. A vida faz-se destas complexas narrativas individuais e colectivas onde cada um de nós se vê na complicada situação de dar sentido às coisas, mesmo que as coisas não façam sentido nenhum.

17 Nov 2015

Uma Europa que treme

[dropcap style=’circle’]O[/dropcap]s atentados de sexta-feira, 13, em Paris, são um ataque aos valores que têm marcado a União Europeia. São um tiro brutal aos direitos humanos, à liberdade de movimentos, à democracia, à tolerância. Os ataques, alegadamente perpetrados por comandos do Estados Islâmico, poderiam ter como intenção punir os governantes franceses pelas intervenções militares na Síria e no Mali. Poderiam. Pelo menos essa foi a argumentação usada no comunicado dito oficial. Mas o pior dos efeitos vai sentir-se no interior da própria União Europeia. A reacção imediata dos novos governantes polacos, algumas horas depois dos atentados da noite de sexta-feira, afirmando que já não iriam aceitar as quotas europeias de refugiados, é apenas um sinal do que aí vem.

Receia-se o pior. O terror vai passar a fazer parte do dia-a-dia dos europeus. Isso é cada vez mais evidente. Aquela sensação única de liberdade, de segurança, de tolerância, a que nos habituamos nas últimas décadas, vai sofrer um revés profundo. O discurso pró-securitário, contro “o outro”, o “anormal”, vai ganhar terreno. Combater essa mensagem, fácil, de que “os outros” são os culpados de todos os males da nossa vida, requer persistência, requer visão de longo prazo. Os tempos de hoje, marcados pelo discurso de consumo imediato, tendente a reforçar pequenas vantagens competitivas que nos garantam um posto, uma eleição, não são os mais apropriados para uma cultura de esperança. Essa verve contra “o outro” já estava bem presente no discurso mediático desde que a Europa se tornou numa espécie de última tábua de salvação para quem foge da guerra no Médio Oriente, das perseguições étnicas ou da pobreza extrema em África.

A tentação é fácil. E vai dar os seus frutos. A extrema-direita – com a honrosa excepção portuguesa – tem estado a ganhar terreno nas últimas eleições no interior da Europa. Foi assim na Grécia e na Áustria. Nas recentes eleições legislativas na Polónia, por exemplo, a esquerda nem ao Parlamento chegou. Com a Frente Nacional em alta, liderada pela mais “domesticada” Marine Le Pen, as eleições regionais do próximo mês poderão significar, uma vez mais, o crescimento da intolerância. Contra “o outro”, o “estranho”, o “desconhecido”.

O mundo está mais perigoso. Segundo os dados estatísticos da Universidade do Maryland, o número de atentados terroristas desde o 11 de Setembro de 2001 aumentou exponencialmente. Nove vezes! A Global Terrorism Database revela que em 2001 houve 1882 atentados, quando em 2014 esse número chegou aos 16,818. Esta contabilidade ainda não inclui, naturalmente, os atentados contra o Charlie Hebdo ou os de sexta-feira passada. As intervenções no Iraque, na Líbia ou Síria terão seguramente contribuído para este fenómeno.

Embora em muitos casos, a Europa tenha apenas apoiado os Estados Unidos da América nesta senda de resolver os problemas lá fora, para que eles não nos cheguem cá dentro, o que é facto é que, depois de 14 anos de guerra contra o terrorismo, o terror está cada vez mais perto de nós, no centro da Europa.

As soluções não estão na ponta de uma qualquer varinha mágica. Aliás, a cada dia que passa, a cada nova tentativa de acolher o outro, de propiciar uma integração mais efectiva, sem guetos nem favores, vão se esgotando fórmulas. Neste mundo global, as comparações são fáceis. Essas, sim, estão na ponta de um qualquer clique de rato. E a internet está disponível em todo o mundo. A ideia que há um exército imenso de possíveis mártires dispostos a imolar-se por uma qualquer causa – jovens desempregados, sem perspectivas de futuro, sem educação formal, sem possibilidade de serem – torna o planeamento da luta contra os terrorismos uma tarefa quase impossível. A imprevisibilidade do próximo ataque, quando é de dentro da “fortaleza” europeia que vêm algumas das principais ameaças, vai levar ao reforço inexorável da componente securitária dos Estados europeus. E isso é uma fatalidade.

O medo não é bom conselheiro. Mas os próximos tempos, de impotência, contra o Estado Islâmico, de intolerância, contra “o outro”, poderão ditar o fim de uma certa era. Desde a sua criação, a Europa tem sido um espaço de tolerância, de estabilidade, de desenvolvimento. Os 70 anos de paz na Europa estão ameaçados como nunca estiveram. Se a Europa não for capaz de se unir – os líderes europeus têm-no mostrado nos últimos meses que de facto essa é uma tarefa muito complexa – a União, tal como a conhecemos, poderá ter os dias contados.

16 Nov 2015

Plagiomas

[dropcap style=’circle’]N[/dropcap]o passado dia 11, o website “ejinsight.com”, de Hong Kong, publicou um artigo onde se anunciava que o Vice-Presidente, e Administrador, da Universidade Lingnan, de Hong Kong, o Sr. Herdip Singh, está sob suspeita de plágio. A sua tese de doutoramento, em gestão de empresas, é muitíssimo semelhante a uma tese de mestrado, apresentada pelo estudante chinês Wu Chunshui, na Universidade Sueca de Lund, em 2010.
Singh fez o doutoramento em 2013, na Universidade Tarlac State. Sediada nas Filipinas, a Tarlac State, tem interesses financeiros no “Lifelong College” de Hong Kong. A tese de Singh tem o seguinte título: “Implicações da Gestão Comercial, uma análise dos modelos de gestão de empresas, em Hong Kong e na China Continental”. A tese é composta por 102 páginas. Um repórter do jornal de Hong Kong, “Apple Daily”, colocou os conteúdos da tese de Singh na pesquisa do Googgle. E o que é que apareceu? A tese de Wu.
Posteriormente a apresentação de Singh foi entregue ao Sr. Matts Karreman, que tinha sido orientador da tese de Wu, e que confirmou que este tinha sido seu aluno em 2010. O sr. Matts Karreman utilizou o software para detecção de plágio, da Universidade de Lund, para verificar a tese de Singh. Descobriu que as duas apresentações eram iguais em 96%. Seguidamente, afirmou: “A semelhança é perturbadora”.
Singh recusou-se a prestar declarações ao jornalista do Apple Daily.
A Universidade Lingnan reagiu de imediato a esta situação. Anunciou a criação de um comité para investigar o assunto. No entanto, quinta-feira passada, a Associação de Estudantes, declarou que o comité não é suficientemente independente, porque Singh será investigado pelos seus colegas. A Associação de Estudantes já tinha solicitado a suspensão de funções de Singh e a instauração de um processo de investigação.

Alguns estudantes da Lingnan sentem que esta situação esconde uma farsa, já que o plágio é absolutamente proibido na Universidade.
O caso de Singh é complexo. Na última quarta-feira, dia 11, o website www.post852.com, fez saber que o director do Lifelong College, o sr. Alex Lee Yee Lik, é também um dos directores do Conselho Administrativo da Universidade Lingnan. O Lifelong College está, actualmente, sob suspeita de cometer fraude para atrair mais alunos. Trata-se de falsificar a data de inscrição, antecipando-a largamente, desta forma, o tempo de formação necessário é consideravelmente reduzido.
Só para dar um exemplo, suponhamos que um estudante obteve a sua graduação em Dezembro de 2013 e, que o tempo de formação que aparece no certificado, é de três anos e meio. No entanto, falsificando a data de admissão, o tempo efectivo em que esteve a estudar, pode ter sido apenas, de um ou dois meses. Usando esta técnica, o estudante forma-se num ápice.
Depois da descoberta do caso de Singh, os diplomados da Universidade Tarlac State vão estar sob suspeita. Na quinta-feira, dia 12, o website de Hong Kong “apple.nextmedia.com”, anunciava ter descoberto que Sisley Choi See Pui, 1ª Dama do concurso Miss Hong Kong 2013, se tinha inscrito em Outubro de 2013 na Universidade Bulacan State, nas Filipinas, e que se tinha graduado em… Dezembro de 2013. Como já tinha sido referido, existem interesses económicos entre esta Universidade e o Lifelong College, de Hong Kong. Quando o jornalista foi a casa de Sisley para a entrevistar, a mãe da jovem bateu-lhe com a porta na cara.
O website “apple.nextmedia.com” apurou ainda que, pelo menos, cinco dos professores efectivos da Universidade de Hong Kong, Shue Yan, se terão formado na Bulacan State. Os estudantes experimentam um sentimento de desconfiança.

Obter um doutoramento implica um grande esforço. Requer muito estudo. Mesmo que o tema não seja particularmente complexo, escrever uma tese é sempre difícil. Os critérios objectivos, que permitem ser bem-sucedido, são, muitas vezes, difíceis de identificar. Se o orientador nos diz que a tese não está bem e que, assim vamos chumbar, podemos, simplesmente, não saber como resolver a situação; e talvez tenhamos de reescrever tudo de início, ou mesmo, de desistir. É por este motivo que muita gente considera o doutoramento uma tarefa muito difícil e, como tal, não está disposta a fazê-lo.
Por causa de toda esta dificuldade, muitas pessoas são levadas a cometer plágio. Plagiar é copiar, fazer crer que conteúdos escritos por terceiros, são da nossa autoria. É academicamente desonesto. Plagiar é estritamente proibido, quer seja professor, ou estudante, é uma atitude desonesta e é uma barreira ao desenvolvimento do conhecimento.
A reputação é um factor importante para todos os académicos. Mas, se algum deles se vir envolvido num caso de plágio, certamente que deixará de ter qualquer futuro na Academia. É o tipo de mancha que o dinheiro não consegue lavar.
Neste contexto, a certificação académica, a nota dos exames e, outros documentos relevantes, não parecem reflectir o percurso académico correcto, quer a nível da duração, quer a nível dos resultados. A veracidade destes documentos torna-se duvidosa. É necessário que os envolvidos avancem com uma explicação.
Em Hong Kong, se se provar que o conteúdo de um certificado não é verdadeiro, os envolvidos podem ser acusados de falsificação de documentos. A pena máxima vai até 14 anos de prisão.
É preciso não esquecer, se tiver produzido 99 textos académicos, e apenas um for plagiado, então, todos serão considerados plágios.
É expectável que se venha a saber que muitas outras personalidades de destaque se formaram, quer na Universidade Tarlac State, quer na Bulacan State. Esta caso ainda não está encerrado. Fiquemos atentos aos seus desenvolvimentos.

Consultor Jurídico da Associação Para a Promoção do Jazz em Macau
Blog: https://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog
Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk

16 Nov 2015