Economia | Macau com mais 275 empresas no ano passado Hoje Macau - 9 Fev 2026 Em 2025 constituíram-se 4.678 sociedades (mais 123, face a 2024), a maioria no ramo de actividade económica do comércio por grosso e a retalho (1.640) e no ramo dos serviços prestados às empresas (1.352). Ao mesmo tempo dissolveram-se 946 sociedades, tendo o crescimento líquido do número de sociedades sido de 3.732 (mais 275). Os números foram revelados na sexta-feira pela Direcção de Serviços de Estatística e Censos (DSEC). O capital social das sociedades constituídas totalizou 545 milhões de patacas. Entre as sociedades constituídas, 3.430 (73,3 por cento do total) pertenciam ao escalão de capital social inferior a 50 mil patacas e o capital social destas sociedades (88 milhões de patacas) correspondeu a 16,2 por cento do total. Constituíram-se ainda 52 sociedades com um escalão de capital social igual ou superior a um milhão de patacas e o capital social destas sociedades (287 milhões de patacas) representou 52,7 por cento do total.
Saúde Mental | Deputados pedem melhor acompanhamento de alunos João Santos Filipe e Nunu Wu - 9 Fev 2026 Com o número de pedidos de ajuda de alunos a subir, os deputados Lam Lon Wai e Loi I Weng querem mais empenho do Governo na melhoria da saúde mental, e pedem que se recorra a inteligência artificial Os deputados Lam Lon Wai e Loi I Weng defendem a utilização de tecnologias mais recentes, principalmente de inteligência artificial, para acompanhar a saúde mental dos jovens em Macau. Foi desta forma que os legisladores reagiram aos dados mais recentes publicados pela Secção de Acompanhamento de Menores da Polícia Judiciária. De acordo com as autoridades, no ano passado foram apresentados 250 pedidos de assistência por parte de menores com sintomas de perturbação emocional ou stress, o que correspondeu a um aumento de 64 por cento em termos anuais. O aumento foi o mais acentuado na RAEM, desde que há registos. Em comunicado, Lam Lon Wai, que também é subdirector da Escola Secundária para Filhos e Irmãos dos Operários, argumentou que para garantir o crescimento saudável dos alunos é necessário estabelecer um mecanismo de cooperação entre família, escola, Governo e sociedade. O deputado afirmou que a família é a primeira linha de defesa, pelo que os pais devem prestar mais atenção à mudança de humor dos filhos, às suas amizades, utilização da internet, particularmente durante as férias longas. O subdirector também indicou que os pais têm de acompanhar de muito perto os filhos para identificarem sinais de risco. Papel das escolas Além disso, Lam Lon Wai apontou que as escolas devem continuar a apostar na educação para a vida, saúde mental e na educação jurídica dos mais jovens, para que os estudantes desenvolvam valores correctos, enquanto membros da sociedade. Na perspectiva de Lam, este papel deve ser complementado pelo Governo e pela sociedade através do reforço dos apoios à saúde mental e desenvolvimento de canais de ajuda. A promoção deve recorrer às redes sociais, para ser mais abrangente. Por seu turno, a deputada e também subdirectora da Escola da Associação Geral das Mulheres, Loi I Weng, defende que o Governo deve utilizar inteligência artificial para monitorizar a saúde mental dos jovens nas escolas, através da recolha de dados e análise, para identificar e intervir nos casos potenciais. A responsável também espera que o Governo dote as escolas de mais recursos para aliviar a carga de trabalho dos auxiliares que estão na linha da frente e para aumentar a qualidade e eficácia destes serviços de acompanhamento. A questão da saúde mental ganhou predominância durante os anos da pandemia e pós-pandemia, com os dados a crescerem de forma sustentada. As autoridades lidaram com este aumento ao tomarem a opção de deixarem de divulgar as estatísticas.
Investigação | Epstein e Bannon discutiram “fragilidades” de Wynn e Adelson João Luz - 9 Fev 20269 Fev 2026 Macau aparece em mais de 200 ficheiros da “Biblioteca Epstein”, na maioria em artigos relativos a receitas de casinos e ambiente de investimento. Porém, surgem conversas com Steve Bannon sobre a falta de respeito de Trump em relação a Steve Wynn e Sheldon Adelson, assim como notas de um predador sexual sobre uma visita a Macau Ainda com milhões de ficheiros por divulgar, e com a última actualização feita na passada sexta-feira, Macau surge em 208 ficheiros da chamada “Biblioteca Epstein” no portal do Departamento de Justiça norte-americano. Ao longo das mais de duas centenas de ficheiros, as referências a Macau dividem-se entre inócuos convites para inauguração de exposições de arte fruto de residências artísticas na RAEM, “briefings” com notícias económicas e sobre os negócios de Sheldon Adelson em Macau, enviados por personagens no mínimo duvidosas, relatórios sobre ambiente de negócios e receitas do jogo e viagens ao território. O HM analisou os ficheiros divulgados até agora, num mergulho entre informações puramente financeiras e alusões sórdidas. Uma das conversas mais interessantes, datada de 1 de Janeiro de 2019, tem como interlocutores o próprio Jeffrey Epstein e operativo político e podcaster Steve Bannon. Entre congeminações políticas, Epstein refere que o partido democrata americano estaria a usar uma lei que obriga ao registo como agente estrangeiro para atacar Steve Wynn. Uma táctica descrita como “potente”. E de seguida refere que “Donald não o respeita nada, nada mesmo”, referindo-se ao fundador da Wynn Resorts. Depois da concordância de Bannon, Epstein prossegue afirmando: “o mesmo em relação ao Adelson”, acrescentando a posição de fragilidade de quem tem “interesses em Macau”. “Bem pior que frágil, enterrado em merda. Eles já atiraram o seu contacto de um prédio de 40 andares”, acrescenta Bannon. O operativo do movimento MAGA e estratega no primeiro mandato de Trump como Presidente dos Estados Unidos não especifica quem foi “atirado” do prédio, mas a conversa entre Bannon e Epstein aconteceu pouco mais de dois meses depois do alegado suicídio de Zheng Xiaosong, director do Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau. Zheng morreu depois de cair do Bloco 2 do Centro Hung On, na Rua de Luís Gonzaga Gomes. Pequim emitiu um curto comunicado a referir que este sofria de depressão, sugerindo tratar-se de um caso de suicídio. Recorde-se que nesta altura Jeffrey Epstein já havia sido condenado por crimes de natureza sexual e Steve Bannon estaria a “ajudar” o magnata a reabilitar a sua imagem pública, em plena campanha para as eleições ganhas por Joe Biden. Macau, uma inspiração Ainda na conversa entre Steve Bannon e Epstein, é indicado que Steve Wynn tem um “enorme problema com Kwok”, que Epstein refere como “o teu rapaz”. De acordo com a investigação do Departamento de Justiça a Steve Wynn, em 2022 durante a Administração Biden, o “rapaz” de Bannon será Miles Kwok, ou Guo Wengui, um empresário dissidente chinês exilado nos Estados Unidos. O fundador da Wynn Resorts terá tentado influenciar a Casa Branca em 2017, durante o primeiro mandato de Donald Trump, a repatriar Miles Kwok para enfrentar acusações de corrupção na China. Apesar do suposto desrespeito de Trump em relação a Wynn e Adelson, os dois empresários do jogo contribuíram com muitos milhões de dólares para as campanhas do actual Presidente dos Estados Unidos. Numa perspectiva muito mais leve, numa escala de fraca moralidade, em Abril de 2014, Jeffrey Epstein recebe um e-mail de sua assistente de longa data Lesleu Groff com um convite para a inauguração da exposição “Classic Artwork from Macau”, na New York Academic of Art. A mostra resultou do convite do Governo da RAEM, através da Direcção dos Serviços de Turismo, a 10 artistas baseados nos Estados Unidos. A ideia seria aproveitar uma residência artística no território para capturar a beleza de Macau. Dos 10 artistas escolhidos, três eram estudantes da New York Academic of Art, instituição que chegou a contar com Epstein na administração. Apesar da perspectiva mais leve deste detalhe nos ficheiros, importa referir que a cúmplice de Epstein, Ghislaine Maxwell recrutou vítimas entre as alunas da academia. Nos ficheiros publicados não é indicado se Epstein terá visitado a exposição de arte inspirada em Macau. Podridão e finanças A larga maioria das menções a Macau nos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça diz respeito a artigos de opinião e notícias financeiras sobre o ambiente de negócios em Macau, receitas do jogo das concessionárias locais e artigos sobre as ligações de Sheldon Adelson ao Partido Republicano. Grande parte dos e-mails contendo este tipo de informações era enviada por um assistente do falecido predador sexual, mas também de outras personagens. Além de receber os relatórios do Deutsche Bank Securities, incluindo sobre o desenvolvimento de infra-estruturas na região (como a Ponte do Delta, a ligação de Zhuhai à linha ferroviária de alta velocidade e o Metro Ligeiro) e o seu impacto esperado na economia de Macau, Epstein recebeu artigos enviados por Terje Rød-Larsen e o sultão Ahmed bin Sulayem com informação sobre a RAEM. O primeiro é um político e diplomata norueguês, que desde que saiu de cargos públicos tem-se dedicado a unir o movimento MAGA norte-americano e partidos de extrema-direita europeus. Rød-Larsen enviou uma colecção de artigos, alguns deles sobre Sheldon Adelson. O segundo é um empresário dos Emirados Árabes Unidos, que partilhava com Epstein detalhes sórdidos sobre as suas aventuras sexuais com mulheres, mas que também enviou artigos sobre a indústria dos casinos de Macau. Alguns e-mails surgem com o emissário rasurado, com um e-mail de Setembro de 2012 em que é indicado que “Macau está a tornar-se super interessante”, numa mensagem sobre o crescimento do PIB do Arquipélago das Comores, na costa sudeste de África. Porém, para lá de informação económica e trica políticas, nos ficheiros em que Macau é referida, surgem mensagens de Jean-Luc Brunel, um predador sexual que actuava como dono de uma agência de modelos, e que terá, alegadamente cometido suicídio na cadeia antes de ser julgado. As semelhanças com a morte de Epstein vão mais longe, com o enforcamento a ser, alegadamente, o método usado por ambos. Em Dezembro de 2013, Brunel refere a Epstein que está de partida para Macau, descrevendo a cidade como “território para caça aos ratos”. Quando chega, o francês refere que “Macau é mais horrível que horrível”. Porém, dois dias depois, Brunel refere “Las Vegas parece cidade pequena e chic”, sem pontuação. Nos ficheiros não surgem mais detalhes sobre a passagem de Jean-Luc Brunel por Macau.
USJ | Livro destaca panorama da filantropia em Macau Andreia Sofia Silva - 9 Fev 2026 Acaba de ser editado pela Universidade de São José o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”. Um dos capítulos versa sobre a filantropia em Macau, o perfil discreto dos filantropos e o trabalho de entidades como a Fundação Rui Cunha, Banco Nacional Ultramarino e Fundação Oriente A Universidade de São José (USJ) acaba de editar o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”, com edição do professor José Manuel Simões. Como o nome indica, a obra pretende traçar o panorama das artes, meios de comunicação social e cultura nos nove países e regiões de língua portuguesa, onde se inclui Macau. A RAEM está representada com um capítulo dedicado à filantropia, da autoria de Carmen Zita Monereo, aluna de pós-doutoramento da USJ, com o nome “The Impact of Corporate Philanthropy on Media, Art, and Technology in Macao / What do we know about Philanthropy in Macao? What is the relationship between Confucianism, Philanthropy, Media, and strategic communication?”. “A Carmen tem desenvolvido um estudo sobre filantropia em Macau, sendo um trabalho um pouco diferente dos restantes”, começou por dizer ao HM José Manuel Simões. “Trata-se de um trabalho que dá o seu contributo na análise daquilo que é o espectro dos filantropos em Macau, traçando depois um estudo sobre a Fundação Rui Cunha, o Banco Nacional Ultramarino, a Fundação Oriente. Ela olha para o que é a filantropia corporativa e os impactos que tem na sociedade através de uma análise dos meios de comunicação social, mas também da arte e da tecnologia em Macau. Ou seja, ela questiona o que sabemos sobre filantropia em Macau e qual a relação existente entre o Confucionismo, a filantropia, os media e a comunicação estratégica.” José Manuel Simões acrescenta que um dos pontos inovadores neste capítulo é o perfil discreto dos filantropos. “Um aspecto curioso é que, ao contrário dos filantropos da Europa e dos Estados Unidos, que gostam imenso de aparecer nos rankings, em Macau há uma maior discrição e perfil discreto destas pessoas ligadas à filantropia, e isso tem a ver com a própria cultura.” Acrescenta o editor da obra que “no campo das ciências da comunicação [em Macau] a filantropia tem vindo a ganhar uma importância muito grande como instrumento de comunicação”, e que o trabalho de Carmen Zita Monereo “identifica os valores de uma cultura organizacional que é capaz de gerar fluxos de comunicação propícios à inovação através dessa actividade filantrópica”. O livro, que está disponível gratuitamente em versão digital, “procura traçar laços de união entre vários vectores, e um deles é as nove culturas de língua portuguesa”, sem esquecer Macau “enquanto plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa”. Segundo José Manuel Simões, trata-se de um livro “cuja investigação foi desenvolvida procurando adoptar uma abordagem multidisciplinar”, tendo “um carácter académico, mas, ao mesmo tempo, pretende ter uma linguagem simples e acessível”. O bom exemplo de Cabo Verde Com edição bilingue, o livro apresenta “um espectro bastante abrangente” de temas, contendo um artigo da autoria de José Manuel Simões sobre São Tomé e Príncipe, intitulado “Digital Media Contribution to Entrepreneurship and Development in São Tomé and Príncipe”. Segue-se um artigo sobre o panorama educativo em Angola e o uso de inteligência artificial (IA), da autoria de Wilson Gomes Caldeira, intitulado “Angola’s higher education system: An analysis of the opportunities and challenges presented by Artificial Intelligence”. No caso de Cabo Verde, Silvino Lopes Évora explora as ideias de comunicação social em conjugação com a IA, em “Artificial Intelligence, newsroom culture, and journalism: From international spectrum to experiences in Cape Verde”. “Cabo Verde é um bom exemplo do desenvolvimento dos media em África e o texto de Silvino Évora trabalha sobre a componente da IA nos media e como ela se está a inserir. [O texto analisa também] quais as possibilidades de uso da IA e como a ética pode vigiar e apoiar a IA e, ao mesmo tempo, o jornalismo”, acrescenta José Manuel Simões. O livro editado pela USJ explora também, no capítulo “The media system as a leverage for democratic development in East Timor”, de Paulo Faustino e Rui Alexandre Novais, as ligações entre o jornalismo e as memórias históricas do processo de independência. O editor do livro explica a “componente mais histórica quanto ao papel de remissão que os jornalistas ainda hoje têm para quase preservar a memória daqueles que morreram em prol da independência do país”. “O jornalismo tem uma importância enorme em Timor, houve gente e jornalistas que morreram. Isso é muito pouco falado e nesse estudo há uma conclusão interessante, de que essas pessoas, ao morrerem em nome da liberdade de expressão, deixaram um lugar muito importante em Timor-Leste que ainda hoje vigora, procurando-se preservar a memória através da vigilância sobre os outros poderes.” Desta forma, “Timor-Leste é quase um exemplo de como o jornalismo deve actuar enquanto vigilante dos outros poderes, o que não acontece nos outros quadrantes”. José Manuel Simões destaca o caso da Guiné-Bissau, “onde os jornalistas são chamados de bocas de aluguer”. “Eles não sabem a diferença entre o que é propaganda, relações públicas, marketing e jornalismo, porque estão condicionados por um salário baixíssimo. Escrevem o que pedem a troco de um envelope com algum dinheiro lá dentro, e isso faz com que a profissão [de jornalista] esteja muito fragilizada na Guiné Bissau”, frisou. Uma língua de união Segundo José Manuel Simões, o livro pretende unir “estes quadrantes das culturas portuguesas”, sendo que a edição em inglês visa chegar às comunidades anglo-saxónicas, “para que saibam da existência destas culturas”. “Há quem não concorde comigo quanto à ideia de que a língua portuguesa é uma língua de união, não só entre os povos de língua portuguesa, mas mesmo dentro de cada país. Temos o caso de Timor-Leste, que só na ilha de Ataúro, que é pequeníssima, com 500 mil habitantes, tem 40 dialectos, um em cada aldeia. Ali, o que é que a língua portuguesa faz? Une estas pessoas, porque apesar de haver a diferença entre os que falam e dos que aprenderam português, em Timor-Leste, hoje, os idosos falam português e os jovens também, mas há a faixa etária que vai dos 25 aos 50, que não fala. Mas, por ser uma língua de aprendizagem, por ser oficial, por ter livros, uma memória, o português une todas essas etnias e dialectos, e tem um valor comum. Este livro deixa transparecer isso, do facto de a língua portuguesa ser a língua-mãe de toda a gente”, esclarece. José Manuel Simões não esquece o trabalho que a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tem feito nesse sentido. “A CPLP tinha uma ideia maravilhosa de nos unir através da língua, mas a CPLP tem feito um trabalho vago, exíguo e pouco visível. Aliás, muito pouca gente tem feito um trabalho digno de criar laços entre as novas culturas de língua portuguesa. Neste sentido, este livro vem preencher uma lacuna e traz novos dados sobre estas novas culturas, com esta dinâmica tecnológica e inovadora”, isto relativamente aos códigos QR para todos os capítulos do livro. Cada código dá acesso a um vídeo que resume o trabalho do autor em cada capítulo. Em termos globais, “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures” quer ser abrangente em áreas como a tecnologia, arte, cultura e comunicação social. Há, porém, “um denominador comum, criando-se, curiosamente, uma certa harmonia, mesmo com focos diferentes, e acaba por abranger, de forma directa e indirecta, o espectro da comunicação social”, remata.
Economia | Aliados históricos dos EUA cedem influência à China Hoje Macau - 6 Fev 2026 Os líderes do Reino Unido e do Canadá “inclinaram-se perante Pequim”, observou ontem o analista Bill Bishop, numa análise aos recentes contactos diplomáticos com a China, que reflectem um distanciamento em relação aos Estados Unidos. “Tivemos dois dos mais firmes aliados históricos dos Estados Unidos, dois membros da NATO […] efectivamente, de certa forma, a inclinarem-se perante Pequim”, comentou o analista no seu boletim diário Sinocism. A visita realizada na semana passada pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, à República Popular da China – a primeira de um chefe de Governo britânico desde 2018 – ocorre num momento em que outros líderes ocidentais, como os da França, Finlândia e Canadá, também procuram reforçar os laços com Pequim, numa tendência de diversificação de alianças face à imprevisibilidade da política externa norte-americana. Apesar de Pequim não ter anunciado concessões de relevo à delegação britânica, Starmer regressou ao Reino Unido com a redução das tarifas sobre o whisky britânico de 10 por cento para 5 por cento e com a promessa de novas parcerias comerciais. Uma delegação empresarial de cerca de 50 empresas, incluindo a AstraZeneca, acompanhou o chefe do Governo, tendo sido anunciado um investimento de 15 mil milhões de dólares na China até 2030. A visita foi precedida pela aprovação, por parte das autoridades britânicas, de um projecto para uma nova embaixada chinesa em Londres, bloqueado durante vários anos, bem como pelo abandono de um processo judicial por espionagem que envolvia cidadãos chineses. Para Bishop, a estratégia de Pequim não visa substituir os Estados Unidos como aliado principal destes países, mas sim “explorar o espaço deixado por fissuras” nas relações tradicionais com Washington. A visita de Starmer, tal como a do primeiro-ministro canadiano, é interpretada como um sinal de abertura para relações mais pragmáticas com dois membros da NATO e da aliança de informação “Cinco Olhos”. “A China continua a ter uma enorme vantagem em cadeias de abastecimento críticas, como as terras raras”, lembrou Bishop, referindo-se ao controlo chinês sobre minerais essenciais para a indústria. Um relatório recente do grupo de reflexão European Council on Foreign Relations (ECFR) apontou num sentido semelhante. O documento concluiu que a política externa unilateral e transacional de Donald Trump está a provocar um realinhamento global, com vários países a considerar a China um actor mais previsível e, em certos casos, mais confiável do que os Estados Unidos. Mapas de influência Segundo o ECFR, apenas 16 por cento dos europeus vêem hoje os EUA como um aliado confiável. Entre os inquiridos em 21 países, apenas 10 por cento acreditam que os EUA terão mais influência no mundo dentro de 10 anos, enquanto 36 por cento apostam na China. O relatório sublinhou ainda que muitos cidadãos, tanto na Europa como no chamado Sul Global, já não vêem o mundo dividido entre dois blocos rivais, mas sim como um espaço multipolar, onde é possível manter boas relações com ambas as potências. Para Bishop, o objectivo da China não é virar aliados ocidentais contra Washington, mas sim aproveitar as divisões que se alargaram. “Não se trata de os virar contra os Estados Unidos, mas sim de expandir o espaço de influência e negociação”, afirmou.
Predominância do poder executivo Paul Chan Wai Chi - 6 Fev 2026 No início de 2026, Xia Baolong, o director do Gabinete de Trabalho de Hong Kong e Macau do Comité Central do Partido Comunista da China e do Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau junto do Conselho de Estado, falou num seminário sobre o tema “persistir e aperfeiçoar a predominância do poder executivo para impulsionar a boa governação das Regiões Administrativas Especiais”. Na audiência encontravam-se os Chefes dos Executivos de Hong Kong e de Macau, bem como membros dos plenários das duas regiões. De acordo com as “Leis Básicas” de ambas as regiões, o Chefe do Executivo responde perante o Governo Popular Central e perante a sua Região Administrativa Especial. No seu discurso, Xia Baolong realçou que “o Chefe do Executivo desempenha um papel crucial e assume responsabilidades significativas. Deve exercer eficazmente os poderes conferidos por lei, assumir por completo a responsabilidade de liderar a Região Administrativa Especial e gerir bem a sua ‘casa’… esforçando-se por construir um governo eficiente e competente”. Quanto mais alto o cargo, maior é a responsabilidade. O Chefe do Executivo tem de assumir a total responsabilidade pela Região Administrativa Especial e precisa de formar um Governo eficiente e bem-preparado; a responsabilidade é significativa e a tarefa árdua. Como tirar o máximo partido das vantagens da predominância do poder executivo será sem dúvida o maior teste dos Chefes dos Executivos de ambas as regiões. O Governo existe para “servir o povo”, e o grau de satisfação e felicidade das pessoas é o critério que avalia se o desempenho corresponde às aspirações. Se os membros do Governo (funcionários públicos) não conseguirem a aprovação do povo, a sua substituição é uma opção razoável. Muitos membros do Governo Central foram exonerados ou detidos por corrupção e negligência do dever, demonstrando que ninguém está acima da lei. Desde o regresso de Hong Kong e de Macau à soberania chinesa, as duas regiões desenvolveram-se e progrediram, mas também existem limitações. A boa governação não assenta em discursos vãos. O que está manifestamente expresso no discurso de Xia é a esperança na melhoria e no reforço da capacidade de governação. Lembremos o terrível incêndio em Tai Po, Hong Kong, ocorrido nos finais do ano passado, que ainda está a ser investigado por um comité independente. Não sabemos quantos membros do Governo serão responsabilizados pelo incidente. Além disso, a recente medida que obriga os passageiros a usar cinto de segurança nos transportes públicos passou por imensos contratempos até ser implementada. Por exemplo, como obrigar uma grávida em fim de tempo a usar cinto de segurança? Como lidar com os idosos que preferem ir de pé para não usarem cinto? Em Macau, com a promulgação e implementação de Lei n.º 5/2025 “Lei da Actividade das Agências de Viagens e da Profissão de Guia Turístico”, as agências de viagem não têm autorização para fornecer serviços de autocarros vaivém aos habitantes dos grandes bairros residenciais, o que torna as deslocações problemáticas, especialmente para as empregadas domésticas e para as crianças. Com mais de 40 milhões de turistas a visitarem Macau em 2025, a capacidade dos transportes públicos foi sistematicamente testada. Embora o Governo da cidade não tenha implementado regulamentos contra a sobrelotação destes veículos, os passageiros continuam a entrar nos autocarros nas paragens designadas apenas como saída. A paciência e a tolerância dos residentes de Macau são extraordinárias, mas confrontadas com a popularidade das compras online e na China continental as lojas estão a ficar vazias por toda a cidade. Mesmo depois de renovadas, quando voltam a abrir, os proprietários não sabem bem por quanto tempo os seus negócios irão durar. A iniciativa do “2026 Carnaval de Consumo na Zona Norte” demonstra que o Governo da RAE de Macau ainda precisa de trabalhar para alcançar uma boa governação. O ano passado, quando o Chefe do Executivo Sam Hou Fai, convidou responsáveis dos órgãos de comunicação social de línguas portuguesa e inglesa para a refeição anual, elogiou-lhes largamente o profissionalismo, a preocupação com o bem-estar social e a supervisão do desempenho do Governo. No mesmo encontro de 2026, o Chefe do Executivo Sam Hou Fai manifestou a esperança de que continuassem a prestar atenção e a apoiar o desempenho do Governo da RAEM nos seus vários aspectos, a reflectir as condições de vida da população e a oferecer as suas válidas sugestões. No contexto da predominância do poder executivo em 2026, a comunicação social não se deve limitar a ser um instrumento de propaganda ou uma plataforma de elogios, mas sim a desempenhar um papel de conselheiro, supervisor e de parceiro para ajudar o Governo da RAEM a atingir uma boa governação.
Ano Novo Chinês | Sessão de papéis votivos na Fundação Rui Cunha Hoje Macau - 6 Fev 2026 A Fundação Rui Cunha (FRC) acolhe hoje a segunda sessão da iniciativa “Fai Chun – Oferta de Papéis Votivos”, a propósito da chegada do Ano Novo Chinês. Assim sendo, os interessados e curiosos podem passar pela galeria para receber os papéis votivos, que são mensagens de boa sorte em caligrafia chinesa, entre as 10h e as 16h. Os papéis são gratuitos, sendo um evento co-organizado pela Associação de Poesia dos Amigos do Jardim da Flora. A FRC recebe 41 mestres da caligrafia e poetas que vão criar frases bem-afortunadas e dísticos de versos alusivos às celebrações do Novo Ano Lunar do Cavalo. Fai Chun é uma decoração tradicional usada durante o Ano Novo Chinês, que marca a chegada da época primaveril. Em português poderá traduzir-se por Onda de Primavera. As pessoas colocam os Fai Chun nas portas para criar uma atmosfera alegre e festiva, já que as frases caligrafadas significam boa sorte e prosperidade. Normalmente, os Fai Chun tradicionais são de cor vermelha, com caracteres pretos ou dourados inscritos a pincel, que visam proteger as casas com votos de bons auspícios para o ano que se segue. Hoje em dia, são mais frequentes as versões impressas e produzidas em larga escala. Podem ser quadrados ou rectangulares e pendurados na vertical ou na horizontal, geralmente aos pares. Não existem apenas na China, mas também na Coreia, Japão e Vietname. 2026 é o Ano do Cavalo de Fogo, que se inicia a 17 de Fevereiro de 2026 (primeiro dia do Novo Ano Chinês) e dura até 5 de Fevereiro de 2027. O Cavalo é o sétimo dos 12 signos do zodíaco chinês.
Armazém do Boi | Três artistas apresentam novas visões sobre Macau Andreia Sofia Silva - 6 Fev 2026 O Armazém do Boi revela, a partir do dia 13 de Fevereiro, os trabalhos de três artistas chineses que realizaram residências artísticas no território e que traçaram, com a sua arte, novas visões sobre o território que habitaram provisoriamente. “O Viajante da Montagem”, “Resíduos: Sopa sem Água” e “Com Quem Estou” são os resultados desta espécie de trabalho de campo Há muito que o Armazém do Boi nos habituou a trazer novas visões do território com o trabalho de artistas locais, mas também do exterior. O novo tríptico de exposições, a ser inaugurado no próximo dia 13 de Fevereiro, volta a revelar ao público novas leituras sobre este espaço comum e partilhado que é Macau. Uma das mostras é do artista Liao Yu-An, intitulando-se “The Drifter of Assemblage – Red and Blue, Color Fields and Monsters” [O Viajante da Montagem – Vermelho e Azul, Campos de Cor e Monstros]. Trata-se do resultado de um mês de vivências em Macau, onde o artista “ganhou consciência da natureza fragmentada e complexa da cidade”. Na nota do Armazém do Boi sobre esta exposição, descreve-se que Liao Yu-An olha Macau como “um lugar onde as escalas oscilam entre a miniatura e o monumental”, e onde “múltiplas facetas coexistem em densa proximidade, assemelhando-se a um guisado ricamente estratificado e intensamente saboroso”. Nesta apresentação, “o artista absorve e reflecte sobre estas impressões sensoriais, traduzindo-as em diversas expressões pictóricas”. Mais concretamente, o que o público poderá ver são três conjuntos de obras onde se examinam “os mecanismos de transformação entre sinais visuais, estruturas de cores urbanas e uma experiência perceptiva subjectiva”. Aqui, a pintura não é mais do que “uma prática de tradução perceptiva e reconstrução experiencial”. “Entre a montagem e a transformação, a pintura deixa de ser apenas um meio de representar a realidade, tornando-se uma acção contínua que gera percepção. Cores, imagens e experiências fragmentadas entrelaçam-se para formar uma trajetória fluida de visualização, guiando o público numa viagem sensorial situada entre a cidade, o corpo e a imaginação”, descreve-se na mesma nota. Outro trabalho que se apresenta a partir do dia 13, é “Resíduos: Sopa sem Água” [Dregs: Soup without Water], de Biyi Zhu, contando com curadoria e trabalho académico de Vivien Chan. Nesta mostra, há significados que se vão buscar a uma espécie de dicionário imaginário, em que resíduos são encarados como “a última gota, grão ou molécula espalhada no fundo da panela”. “Resíduos: Sopa sem Água” remete para aquilo que resta “depois de toda a sopa ter sido comida”, olhando-se para a “consistência macia e húmida” dos restos sem água de uma sopa tradicionalmente confeccionada mediante as regras da cozinha cantonense. Assim, Biyi Zhu questiona: “Quais são as possibilidades do que resta?”, agarrando-se, através da arte, “aos restos do passado”. Este é um regresso a Macau depois de uma temporada de dez anos nos Países Baixos, sendo que, nesta exposição, “Zhu usa os processos e as materialidades da sopa cantonense para explorar modos de viagem no tempo, entre lugares, relações e vidas”. “Depois de beber a sopa, os resíduos tornam-se a prova do que foi absorvido pelo corpo, pela atmosfera. Pegando no que normalmente seria descartado, Zhu transforma os resíduos em formas tangíveis, dissolvendo e reformulando ideias de memória, parentesco, migração e desperdício”, lê-se ainda. Questões pessoais O terceiro espaço expositivo é composto por “Com quem Estou” [Who Am I With], de Li Aixiao, com curadoria de Wendy Wong. Trata-se de uma mostra com um cunho mais pessoal, que começa pelo “eu” do artista, quando este “entra nas vidas, linguagens e objectos dos outros”. Para isso recorre à performance, fotografia e demais interacções artísticas “para questionar persistentemente com quem e como estabelecemos conexões neste lugar”. “As obras desenrolam-se entre a aproximação e o afastamento do corpo e entre a ocorrência e a interrupção da troca, onde algumas conexões se enraízam enquanto outras permanecem no reino do não realizado. À medida que os espectadores navegam e observam, percebem a transformação transitória da identidade e o surgimento ou ausência de intimidade, testemunhando como a linguagem, as imagens e os objectos servem como modos de presença”, é descrito. Desta forma, “estas obras apontam para um estado de coexistência que permanece perpetuamente instável, mas que ocasionalmente desperta ligações raras e autênticas no momento do encontro”. As três exposições podem ser vistas gratuitamente até ao dia 15 de Março.
Comércio de minerais | Pequim rejeita fragmentação após iniciativa dos EUA Hoje Macau - 6 Fev 2026 A China rejeitou ontem a criação de “pequenos círculos” exclusivos no comércio internacional de minerais críticos e defendeu um ambiente comercial “aberto, inclusivo e universalmente benéfico”, em resposta a iniciativas lideradas pelos Estados Unidos. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian afirmou em conferência de imprensa que “manter um ambiente de comércio internacional aberto, inclusivo e universalmente benéfico serve os interesses comuns de todos os países”. Lin sublinhou ainda que “todas as partes têm a responsabilidade de desempenhar um papel construtivo” para salvaguardar a estabilidade e a segurança das cadeias globais de produção e abastecimento de minerais críticos. O porta-voz acrescentou que a China “opõe-se a que qualquer país prejudique a ordem económica e comercial internacional através de regras de ‘pequenos círculos’ exclusivos”, numa referência indirecta aos mecanismos de cooperação promovidos por Washington com parceiros e aliados para reduzir a dependência da China neste sector. As declarações surgem depois de os Estados Unidos anunciarem a criação de uma aliança comercial para minerais críticos e de Washington e a União Europeia terem acordado um primeiro plano de acção conjunto para coordenar políticas de abastecimento destas matérias-primas, consideradas essenciais para indústrias como a dos semicondutores, baterias avançadas e defesa. Pequim reiterou nos últimos dias que a sua posição quanto à estabilidade das cadeias globais de abastecimento “não se alterou” e defendeu o reforço da comunicação e do diálogo entre países, em detrimento de fórmulas que “fragmentam o comércio internacional”.
Relatório | Investimento directo no exterior atinge máximo desde 2018 Hoje Macau - 6 Fev 2026 A China investiu cerca de 124 mil milhões de dólares no estrangeiro em 2025, o valor mais elevado em novos acordos desde 2018, indicou ontem a consultora norte-americana Rhodium Group. Apesar de continuar longe do recorde histórico de 287 mil milhões de dólares registado em 2016, o valor total foi impulsionado por projectos de nova geração nos sectores da mineração, centros de dados e energia, que representaram, em conjunto, cerca de 100 mil milhões de dólares no último ano. O relatório assinala ainda que as operações efectivamente concluídas ascenderam a 73 mil milhões de dólares – o valor mais elevado desde 2019 –, reflectindo o habitual desfasamento entre o anúncio e a concretização dos investimentos, bem como o cancelamento de alguns projectos. Segundo a Rhodium, embora a China continue a investir fortemente em fábricas no exterior, a tendência está em declínio. Ao contrário, as exportações continuam a ser o principal motor da globalização económica chinesa. “As empresas chinesas podem estar a localizar parte da produção através de investimento direto externo, mas a estratégia de globalização da China continua a centrar-se nas exportações”, afirma o relatório, que acrescenta que “a capacidade produtiva doméstica cresceu muito mais rapidamente do que fora da China desde a pandemia”. O norte de África foi a única região do mundo a registar um aumento no investimento chinês em novas unidades fabris durante 2025, o que poderá representar “uma decepção” para países que esperavam revitalizar a indústria com capital proveniente da China. Papel principal A Ásia manteve-se, em 2025, como o principal destino do investimento externo chinês, seguida por mercados como a América Latina, impulsionada por projectos mineiros e de infraestruturas. Em contraste, a fatia de investimentos na América do Norte, Europa e Oceânia caiu de cerca de 70 por cento do total em 2016 para menos de 20 por cento. A quebra foi particularmente acentuada na Europa Central e de Leste, sublinha a consultora, que associa a retração à relutância de Pequim em permitir que tecnologias avançadas chinesas sejam transferidas para o estrangeiro. O sector automóvel representou 13 por cento do investimento, a menor quota desde 2020, devido à desaceleração nas cadeias de produção de veículos eléctricos. Em sentido oposto, aumentaram os investimentos em projectos de exploração de ferro, lítio e ouro, bem como em energia fóssil e renovável. O relatório destaca ainda o crescimento dos serviços digitais, o segundo maior da série histórica, com destaque para o “boom” de centros de dados no Sudeste Asiático, e o sector dos bens de consumo, impulsionado pela aquisição de marcas históricas europeias e redes de retalho. A estimativa da Rhodium Group difere dos dados oficiais divulgados por Pequim, que apontam para 174,4 mil milhões de dólares investidos no estrangeiro em 2025, mais 7,1 por cento do que no ano anterior. A diferença, segundo a consultora, deve-se a empresas chinesas que mantêm receitas em dólares nas suas filiais no exterior, evitando repatriar os lucros e convertê-los em activos denominados em renmimbi.
Poemas de Lu Xun Hoje Macau - 6 Fev 20266 Fev 2026 Poucos conhecidos, marginais à obra do grande escritor da primeira metade do século XX, mas essenciais para nos proporcionarem uma proximidade ao homem e aos interstícios da sua obra. A Via do Meio inicia hoje a apresentação dos poemas de Lu Xun, nunca antes vertidos em língua portuguesa, com tradução e comentários de Sara F. Costa. Longe dos Irmãos 別諸弟 Bié zhū dì (庚子二月) 1 (Gēngzǐ èr yuè) 謀生2 無奈日奔馳, Móu shēng wú nài rì bēn chí, 有弟偏教各別離。 Yǒu dì piān jiào gè bié lí. 最是令人淒絕3處, Zuì shì lìng rén qī jué chù, 孤燈4 長夜雨來時。 Gū dēng cháng yè yǔ lái shí. Longe dos Irmãos (Segundo mês do ano Gengzi) Para ganhar a vida, corro sem escolha, tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles. O que mais faz sofrer até à desolação é a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária. Contextualização e comentário O poema 〈別諸弟〉 (Longe dos Irmãos), datado do segundo mês do ano Gengzi (庚子二月, 1900), integra a produção poética juvenil de Lu Xun, escrita em chinês clássico (文言文) e formalmente inscrita na tradição canónica do jueju (绝句) de cinco caracteres. Embora esta vertente da sua obra seja menos conhecida do que a produção ensaística e ficcional em baihua (白话), o poema revela já um conjunto de tensões éticas, afetivas e existenciais que atravessarão toda a sua escrita posterior. À data da composição, Lu Xun tinha dezanove anos e encontrava-se numa fase marcada por dificuldades económicas e por sucessivas separações familiares. Após a morte do pai, ocorrida três anos antes, recaíram sobre si responsabilidades materiais e morais em relação aos irmãos mais novos, de acordo com a ética familiar tradicional. O afastamento para Nanquim, onde frequentou primeiro a Escola Naval e depois a Escola de Minas e Caminhos-de-Ferro, não resultou de uma vocação idealizada, mas de uma necessidade concreta: assegurar a subsistência da família através do acesso ao ensino gratuito e às bolsas de estudo. A inscrição temporal do poema no calendário tradicional chinês ancora esta experiência individual num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, reforçando o conflito entre dever, sobrevivência e afastamento. O poema apresenta a forma concisa e altamente condensada do jueju, recorrendo a procedimentos sintáticos característicos do verso regulado e a um vocabulário de forte densidade semântica. O primeiro verso — “Para ganhar a vida, corro sem escolha” — introduz o núcleo ético do texto. O sintagma móu shēng (謀生), “ganhar a vida”, surge aqui despojado de qualquer valor vocacional ou edificante, remetendo para a dimensão estritamente material da existência. A opção tradutória pelo verbo correr traduz o valor dinâmico de bēnchí (奔馳), intensificando a ideia de urgência, desgaste e movimento contínuo. A vida não se apresenta como algo que se sustenta passivamente, mas como algo que se persegue num ritmo forçado, sem margem de escolha nem possibilidade de pausa. No segundo verso — “tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles” — a separação é formulada como divergência de trajetórias. A manutenção do plural preserva a referência concreta ao núcleo familiar, enquanto a imagem dos “caminhos distintos” desloca o poema para uma reflexão mais ampla sobre a assimetria dos destinos na entrada na vida adulta. A existência dos irmãos não atenua a separação; pelo contrário, torna-a mais consciente e mais pesada. O afastamento não é apresentado como rutura súbita, mas como consequência inevitável do próprio movimento da vida, inscrito no tempo e nas escolhas impostas pelas circunstâncias. O dístico final concentra o núcleo emocional do poema numa imagem de forte tradição literária: “a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária”. A lâmpada (gū dēng 孤燈) é um símbolo recorrente da vigília, do estudo e do isolamento do letrado, enquanto a chuva noturna remete para a nostalgia e a melancolia de quem se encontra longe de casa. Esta imagem, presente desde a poesia da dinastia Song — nomeadamente em autores como Lu You (1125–1210) — articula espaço exterior e interior, fazendo coincidir a persistência da chuva com a duração da consciência desperta. A dor não se exprime por enunciação direta, mas pela insistência do tempo noturno e pela solidão iluminada. A tradução portuguesa acentua esta dimensão ao optar por uma sintaxe fluida e por imagens que preservam a contenção do original, sem empobrecimento expressivo. O verso “O que mais faz sofrer até à desolação” recupera a fórmula intensificadora zuì shì lìng rén qī jué chù (最是令人淒絕處), recorrente na tradição poética chinesa para condensar o grau máximo da dor num ponto preciso do poema. A escolha lexical privilegia a continuidade emocional e a progressão interna do texto, evitando tanto a literalidade rígida como a amplificação retórica. Este poema juvenil revela já um traço central da escrita de Lu Xun: a preferência por imagens densas e estruturalmente carregadas em detrimento da expressão direta do sentimento. A experiência da separação familiar, da necessidade material e da solidão noturna surge articulada com clareza e economia, sem apelo ao consolo nem à reconciliação. A divergência dos caminhos afirma-se como dado constitutivo da vida adulta, assumido com lucidez e sustentado por uma imagética capaz de concentrar, em poucos versos, uma experiência de perda que não se resolve, mas se aprende a suportar à luz frágil de uma lâmpada. Gengzi (庚子) corresponde ao ano de 1900 segundo o calendário tradicional chinês, baseado no sistema sexagenário que combina os Dez Troncos Celestes (天干) e os Doze Ramos Terrestres (地支). O “segundo mês” refere-se ao segundo mês lunar, e não ao mês civil ocidental, situando o poema aproximadamente entre fevereiro e março de 1900. A utilização desta datação tradicional inscreve o texto num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, em contraste com o calendário gregoriano de uso administrativo. 謀生 (móu shēng), “ganhar a vida”, é um termo forte, quase impróprio para um jovem estudante. No contexto de Lu Xun, designa a necessidade de escolher estudos técnicos e utilitários como único meio de sustento, não como realização pessoal. 淒絕 (qī jué), “tristeza cruel, desolação extrema”. A sequência zuì shì lìng rén… (“o que mais faz sofrer…”) é uma construção poética recorrente para exprimir o grau máximo da dor. 孤燈 (gū dēng), “lâmpada solitária”, pode designar tanto uma lâmpada a óleo como uma vela. Na tradição poética chinesa, associa-se ao estudioso isolado, ao exilado ou ao viajante afastado do lar.
Jogo | Menos empréstimos ilegais em 2025 Hoje Macau - 6 Fev 2026 No ano passado, a Polícia Judiciária iniciou um total de 192 investigações relacionadas com empréstimos ilegais para jogo, o que representou uma quebra de 23,8 por cento face a 2024. Os números foram divulgados ontem durante um simpósio sobe as estatísticas do ano passado. Apesar de haver menos empréstimos, o número de inquéritos instaurados relacionados com o jogo aumentou 62,6 por cento, para um total de 2.314. Este aumento foi justificado com o crime de troca ilegal de dinheiro para o jogo. Esta foi uma prática que as autoridades locais sempre entenderam não ser necessário criminalizar. Contudo, em 2024, depois das críticas vindas do Interior em que a prática em Macau destas trocas de dinheiro foi identificada como uma vulnerabilidade para a segurança do país, o Governo da RAEM acabou por avançar com a criminalização. Nas declarações prestadas, Sit Chong Meng, director da PJ, afirmou que desde que a lei de combate às trocas ilegais de dinheiro para o jogo entrou em vigor até Dezembro de 2025 foram concluídos 567 casos, que levaram à detenção de 867 pessoas. A polícia apreendeu mais de 94 milhões de dólares de Hong Kong, sendo que algumas operações foram conduzidas em cooperação com as autoridades do Interior. De acordo com o jornal Ou Mun, o aumento da criminalidade resultou também de “melhorias estatísticas”, que não foram especificadas. Sit avisou também que “à medida que as iniciativas policiais se intensificam, as actividades dos gangues de câmbio de dinheiro tornaram-se cada vez mais secretas e os padrões criminosos mais sofisticados”. Contudo, o respomsável prometeu que a PJ “vai acompanhar de perto e de forma persistente” as redes criminosas que utilizam os negócios legítimos para esconderem estas trocas ilegais.
Emperor | Vendido ouro do chão por 100 milhões Hoje Macau - 6 Fev 2026 O grupo Emperor, responsável pelo hotel com o mesmo nome em Macau, acordou a venda de várias barras de ouro que estavam colocadas no chão do hotel. O anúncio foi feito ontem à Bolsa de Hong Kong, e a venda do metal ficou acordada por 99,7 milhões de dólares de Hong Kong, no que deverá representar num lucro líquido de 90,2 milhões. Sobre os motivos para a venda do ouro, o grupo explica se enquadra numa nova estratégia para a exploração do hotel, face ao fim da operação do espaço de jogo, que no passado fez com que o Emperor Hotel fosse um casino-satélite. “Após o encerramento das suas operações de jogo, o Grupo tem vindo a planear activamente outras instalações de entretenimento e diversão para melhorar a sua experiência global de hospitalidade e alargar a sua base de receitas”, foi apontado. “Os metais preciosos que originalmente faziam parte do design interior e do equipamento do hotel, já não são relevantes para o tema do hotel no futuro”, foi acrescentado. O Conselho de Administração da empresa explicou também que a venda se realiza numa altura em que o valor do ouro tem atingido números históricos. O comprador é a empresa Heraeus Metals Hong Kong, a representação do grupo alemão Heraeus, fundado em 1660, e que se dedica a actividades como a comercialização de metais preciosos, reciclagem, saúde, produtos electrónicos e semicondutores.
MGM China | Lucros aumentaram 10,7 por cento Hoje Macau - 6 Fev 2026 A concessionária do leão anunciou um crescimento anual das receitas que promete uma entrada auspiciosa no Ano do Cavalo. Em 2025, a MGM China anunciou lucros recorde de 1,2 mil milhões de dólares A operadora de jogo em Macau MGM China anunciou lucros recorde de 1,2 mil milhões de dólares em 2025, um aumento anual de 10,7 por cento. Trata-se do terceiro ano consecutivo com um novo máximo, depois de, em 2023, a MGM China ter registado um recorde histórico de lucros antes de juros, impostos, depreciação, amortização (EBITDA, na sigla em inglês) de cerca de 921 milhões de dólares e, em 2024, de aproximadamente 1,13 milhões de dólares. Estes dados, de acordo com um comunicado enviado à bolsa de valores de Nova Iorque na quarta-feira, foram publicados “de forma inadvertida”, já que a data de publicação estava marcada para dia 11 de Fevereiro. Os resultados, escreveu a empresa, vão ser hoje divulgados “após o encerramento do mercado” Ainda de acordo com o documento, no último trimestre do ano passado, a MGM China alcançou lucros de 332,3 milhões de dólares, uma subida de 30,5 por cento em relação ao mesmo período do ano passado (254,7 milhões de dólares). A empresa terminou o ano ainda com uma subida anual de 10,9 por cento nas receitas, com ganhos de 4,5 mil milhões de dólares em 2025 face aos 4,02 mil milhões de dólares obtidos no ano anterior. Em termos trimestrais, a MGM China alcançou receitas líquidas de 1,24 mil milhões de dólares nos últimos três meses do ano, o que representa um acréscimo de 21,4 por cento em relação ao mesmo período de 2024 (1,02 mil milhões de dólares). Acima do esperado Em reacção aos resultados anunciados, citados pelo portal GGR Asia, a empresa de serviços financeiros Jefferies considerou que ficaram entre 3 por cento e 5 por cento acima das expectativas. No entanto, o dia de ontem ficou marcado por uma suspensão do comércio das acções da MGM China na Bolsa de Hong Kong. A suspensão aconteceu na parte da manhã, depois de a empresa-mãe, a MGM Resorts, ter por anunciado “inadvertidamente” os resultados da MGM China, ainda antes do comunicado desta às autoridades da Bola de Hong Kong. Seis concessionárias do jogo, MGM, Galaxy, Venetian, Melco, Wynn e SJM, operam em Macau, o único local na China onde o jogo em casino é legal. Os casinos da região fecharam o ano de 2024 com receitas de 226,8 mil milhões de patacas, mais 23,9 por cento do que em 2023 (183,1 mil milhões de patacas). As receitas dos casinos de Macau atingiram no ano passado 247,4 mil milhões de patacas, um aumento de 9,1 por cento em comparação com o ano anterior.
Novo Bairro Hengqin | Menos de 40% das casas vendidas João Luz - 6 Fev 2026 Até ao passado mês de Janeiro, tinham sido vendidos 1.610 apartamentos a residentes no Novo Bairro de Macau em Hengqin, segundo dados revelados ao HM. Entre o fim de 2024 e o mês passado, foram vendidas 222 fracções, menos do que os apartamentos vendidos em Macau apenas em Novembro A venda de apartamentos no Novo Bairro de Macau em Hengqin continua a seguir um ritmo muito abaixo do mercado local, mesmo com a crise que o sector do imobiliário atravessa. Segundo dados revelados pela Macau Renovação Urbana ao HM, até Janeiro de 2026 tinham sido vendidos 1.610 apartamentos no Novo Bairro de Macau a residentes da RAEM, o que representa uma proporção de 39,5 por cento do total das fracções disponíveis. No fim de Maio do ano passado, o relatório anual da Macau Renovação Urbana revelava terem sido comprados 1.388 apartamentos no complexo habitacional da Ilha da Montanha desde que foram colocados à venda em Novembro de 2023, o que representava apenas 34 por cento do volume total de fracções (4.070). Feitas as contas, entre o fim de 2024 e o mês passado, foram vendidas 222 fracções no Novo Bairro de Macau em Hengqin, um volume inferior às vendas registadas em Macau apenas no passado mês de Novembro, quando dados da Direcção dos Serviços de Finanças revelam 238 fracções vendidas, apesar da crise que afecta o sector imobiliário na RAEM. Casa dos talentos O anémico registo de vendas no complexo habitacional para residentes de Macau na Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin ganha contornos mais graves tendo em conta o levantamento de restrições que as autoridades de Hengqin têm introduzido desde 2024. Esta semana, foi anunciado que residentes de Macau podem comprar duas fracções no complexo habitacional. Porém, as autoridades de Hengqin foram implementando sucessivas medidas para impulsionar as vendas. Os critérios foram ajustados, incluindo a remoção do limite de idade, permitindo que menores de idade sejam proprietários, a restrição de revenda nos cinco anos após a compra foi removida, assim como o ajustamento do limite à aquisição de unidades residenciais. Além disso, em Setembro de 2025, a Macau Renovação Urbana anunciou o início da venda dos fracções na Torre 11 do complexo habitacional, com preços a descontos especiais para lugares de estacionamento, obras de renovação e na compra de electrodomésticos. A empresa de capitais públicos indicou também ao HM que foram reservados 200 apartamentos arrendados a “entidades que preencham os critérios” para alojar talentos não-residentes. O arrendamento destas fracções no Novo Bairro de Macau foi estabelecido no contrato de transferência do direito de uso do solo assinado a 21 de Abril de 2020 para o projecto. O alojamento destes quadros qualificados ficou reservado nas torres 17 e 18 do complexo habitacional.
Patriotismo | Sam Hou Fai salienta prioridade a interesses nacionais Hoje Macau - 6 Fev 2026 “Colocamos sempre em primeiro lugar a salvaguarda da soberania, da segurança e dos interesses de desenvolvimento nacional, implementando com determinação o princípio de ‘Macau governada por patriotas’”, afirmou o Chefe do Executivo num discurso proferido ontem na recepção da festa de Primavera oferecida pelo Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM. Sam Hou Fai resumiu a acção política do ano passado, com particular destaque para a integração nacional e defesa da segurança do Estado. “No âmbito da salvaguarda da segurança nacional, tomámos medidas decisivas, tratando os casos de acordo com a lei, a fim de prevenir e impedir resolutamente a infiltração e a interferência de forças externas. Isto assegurou a manutenção eficaz da estabilidade e da harmonia em Macau”, indicou o político local. O líder do Executivo mencionou várias vezes as instruções de Xi Jinping, nomeadamente a frase, que tem “sempre presente”, “A prosperidade não deve induzir à complacência, nem a segurança justifica o esquecimento do perigo”. Afirmando que 2026 é um ano crucial para o alinhamento com as estratégias nacionais, Sam Hou Fai reforçou a promessa de manter a estabilidade. “Continuaremos a implementar o princípio ‘um país, dois sistemas’ de forma abrangente, precisa e resoluta, salvaguardando firmemente a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento nacional e defendendo com determinação a linha inultrapassável de que ‘não pode haver caos em Macau’”.
Fronteiras | Mercadorias passam a ter declaração alfandegária única Hoje Macau - 6 Fev 2026 Entrou ontem em funcionamento, a título experimental, um serviço que permite entregar online apenas uma declaração alfandegária para a passagem de mercadorias entre Guangdong e Macau, indicou ontem a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT). Assim sendo, as empresas necessitam de preencher os dados de declaração apenas uma vez e a informação será partilhada entre as autoridades do Interior da China e Macau. A DSEDT afirma que a medida pretende melhorar “o nível de facilitação do comércio transfronteiriço, servindo melhor o desenvolvimento económico e atendendo melhor às necessidades da sociedade”. A direcção de serviços da RAEM acrescenta que a chamada “janela única” para mercadorias de Guangdong e Macau visa prestar serviços facilitados de desalfandegamento de mercadorias por meios digitalizados e informatizados às empresas exportadoras do Interior da China e importadoras de Macau, encurtando o tempo gasto na declaração alfandegária. O Governo indica ainda que o novo serviço ajuda a reduzir custos laborais e tempo, sem necessidade de repetir a introdução de dados, assim como a diminuir erros e aumentar a eficiência.
Presidenciais | Portugueses escolhem Presidente no fim-de-semana João Luz - 6 Fev 2026 Amanhã e domingo, os portugueses que residem em Macau vão poder votar no Consultado-Geral para escolher o próximo Presidente da República portuguesa. As urnas vão estar abertas nos dois dias, das 08h às 19h, depois de três dias de votação antecipada em que participaram 78 eleitores, mais do triplo da primeira volta Os portugueses vão voltar a ser chamados a votar na segunda volta das eleições para eleger o próximo Presidente da República, num sufrágio disputado entre os candidatos do Partido Socialista (António José Seguro) e do Chega (André Ventura). Na RAEM, os portugueses vão poder votar no sábado e domingo, das 08h às 19h, no Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, à semelhança dos eleitores que vão votar no estrangeiro nas várias missões diplomáticas espalhadas pelo mundo. Recorde-se que só poderão votar os cidadãos nacionais que se encontrem recenseados no estrangeiro. Para escolher o próximo Presidente da República, os eleitores devem apresentar cartão de cidadão, bilhete de identidade, ou documento que tenha fotografia actualizada e que seja habitualmente utilizado para identificação (passaporte ou carta de condução). Nos passados dias 27, 28 e 29 de Janeiro, o consulado-geral recebeu os eleitores que votaram antecipadamente. Esta modalidade de sufrágio esteve aberta para eleitores por “inerência do exercício de funções públicas ou privadas, em representação de selecção nacional. Além disso, puderam votar antecipadamente estudantes, investigadores, docentes e bolseiros de investigação em instituição de ensino superior, doentes em tratamento, ou eleitores que acompanhem cidadãos mencionados. Segundo informação revelada pelo Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong ao HM, votaram antecipadamente na segunda volta 78 eleitores, mais do triplo dos votos antecipados na primeira volta, quando foram apurados 25 votos antecipados. Local vs Nacional Na primeira volta, os votos apurados em Macau deram vantagem ao candidato do PSD, Luís Marques Mendes, com 47,19 por cento dos votos, seguido do socialista António José Seguro (20,98 por cento) e André Ventura com 12,4 por cento. A nível nacional, António José Seguro venceu a primeira volta com 1.755.563 votos (31,11 por cento), seguido de André Ventura, com 1.327.021 votos (23,52 por cento) e João Cotrim Figueiredo, com 903.057 votos (16 por cento). Luís Marques Mendes acabou por ficar em quinto lugar, afastado da segunda volta com 637.442 votos (11,3 por cento).
Segurança Nacional | Advogados excluídos sem hipótese de recorrer João Santos Filipe - 6 Fev 2026 Os processos qualificados como de segurança nacional vão abranger casos penais, mas também se podem estender às áreas administrativa e cível. Os advogados serão obrigados a apresentar informações sobre os agregados familiares, como nacionalidade e ligações políticas exteriores Os advogados que forem excluídos dos julgamentos relacionados com segurança nacional pela Comissão de Defesa da Segurança do Estado (CDSE) da RAEM ficam impedidos de apresentar recurso para contestar a decisão. A informação consta da proposta do Governo divulgada ontem no portal da Assembleia Legislativa e que retira aos arguidos a possibilidade de escolherem livremente qualquer advogado inscrito na Associação dos Advogados de Macau. Segundo os procedimentos definidos na proposta de lei, a Comissão de Defesa da Segurança do Estado vai escolher o advogado dos arguidos “no processo judicial de qualquer natureza em que a autoridade competente tiver fundadas razões para crer que existe a necessidade de proteger os interesses da segurança do Estado”. De acordo esta formulação, a exclusão de advogado poderá acontecer em processos criminais, como o que se encontra em curso contra o ex-deputado Au Kam San, mas também em processos administrativos ou até de direito privado, se for considerado que de alguma forma “existe a necessidade de proteger os interesses da segurança do Estado”. No âmbito do processo em curso, ainda antes de ser escolhido como mandatário, o advogado tem de se dirigir ao tribunal e informar o juiz da vontade de ser constituído como representante de uma das partes envolvidas. A partir deste momento começa uma análise ao advogado e ao seu agregado familiar, que podem exigir a obrigação de apresentação de elementos como a nacionalidade do próprio advogado, membros da sua família e ligações com organismos ou indivíduos no exterior entre “outras”. Esta formulação abre assim a porta a que os familiares tenham de declarar a sua filiação com partidos políticos fora de Macau. Todavia, os elementos requeridos não estão especificados na proposta de lei. Se o juiz considerar que os elementos fornecidos pelos advogados no primeiro momento não são suficientes, pode ainda exigir a apresentação de “outras informações que considere indispensáveis para verificação”. O Chefe decide Recolhida a informação, a CDSE decide se considera que o advogado corresponde à vontade do poder político para o caso em concreto, emitindo o parecer em que concede ou recusa a “autorização especial ao mandatário judicial”. Os critérios que vão ser adoptados pelo Chefe do Executivo, os secretários, assessores do Governo Central, que não votam, e outros membros do Governo ligado às polícias e outras entidades não foram revelados. Contudo, a lei afasta a possibilidade de recurso judicial ou contestação dentro da própria comissão. A proposta do Governo adopta assim a política da lei eleitoral dos deputados, com a diferença que o afastamento de um advogado de um caso em concreto não o impede de exercer a profissão, nem de apresentar novos pedidos no futuro, sem ficar “congelado” durante cinco anos. Ao contrário do que acontece com os juízes, o diploma não afasta a participação de advogados portugueses em processos desta natureza. Fora do controlo dos tribunais A lei define também as competências da CDSE, que vai ter poderes para emitir ordens para todas as entidades públicas envolvidas que tenham como objectivos defender a segurança do Estado, assegurar a prosperidade e estabilidade da RAEM e garantir os legítimos direitos e interesses dos residentes da RAEM e de outras pessoas na RAEM. O diploma confirma também a competência da CDSE para emitir pareceres vinculativos em relação às eleições do Chefe do Executivo e para a Assembleia Legislativa. No entanto, a lei traz uma novidade: o princípio de que as decisões das autoridades seguem os pareceres da CDSE, não aceitando impugnação ou acção judicial, a não ser que haja uma norma legal a prever esse recurso. A proposta do Governo de Sam Hou Fai define também que os trabalhos da comissão “são livres de qualquer interferência de outras entidades ou indivíduos da RAEM”, sem disponibilização pública de informação sobre a comissão ou os trabalhos desta. No âmbito do princípio do secretismo, a comissão pode também contratar os trabalhadores que entender necessários, e realizar gastos sem necessidade de divulgação. As contas apenas serão analisadas pelo Chefe do Executivo, que também preside à CDSE. Processo em curso A proposta do Governo para a nova lei da CDSE é justificada nos documentos enviados à Assembleia Legislativa com a necessidade de aperfeiçoar o “sistema jurídico e reforçar a estrutura de topo do sistema de defesa da segurança do Estado”, para “salvaguardar firmemente a soberania, a segurança e os interesses do desenvolvimento do Estado, construir uma barreira sólida para a defesa da segurança do Estado e manter a estabilidade geral da sociedade”. O Executivo indica também que as alterações visam “prevenir e reprimir eficazmente a interferências externa e assegurar que os interesses de segurança do Estado não sejam prejudicados”. A proposta de lei entra no hemiciclo numa altura em que se espera uma conclusão da investigação ao ex-deputado Au Kam San, o único caso tornado público na RAEM relacionado com segurança nacional. Detido em Julho do ano passado, o democrata encontra-se desde então em prisão preventiva. Se a lei for aprovada antes de um eventual julgamento, o processo poderá seguir as estipulações do diploma.
Diocese de Macau/450 anos | Novo Centro Católico terá um hotel Andreia Sofia Silva - 6 Fev 2026 O novo Centro Católico deverá abrir “em meados do segundo trimestre” deste ano e irá ter um hotel, preparado para receber “peregrinos e turistas”, diz a Diocese de Macau. Numa altura em que a instituição celebra 450 anos, a inauguração do Centro Católico tem por base “a visão” de D. Paulo José Tavares, bispo de Macau nas décadas de 60 e 70 Depois de muitos anos de vazio e obras na esquina da Avenida da Praia Grande com a Rua do Campo, o novo Centro Católico prepara-se para abrir portas ainda este ano e é talvez o acontecimento mais importante na celebração do 450º aniversário da Diocese de Macau. O HM colocou questões à Diocese de Macau a propósito da reabertura do edifício, que confirmou que a inauguração oficial está prevista “para o segundo trimestre” deste ano. Este edifício, com um total de 17 pisos, terá as funcionalidades pensadas para fins religiosos, mas também um hotel preparado para receber todo o tipo de pessoas. “O Centro Católico será um centro nevrálgico para a divulgação e partilha da missão da Igreja Católica. Os pisos inferiores contarão com uma capela, um auditório, salas de conferências, áreas de exposição e espaços para actividades.” Enquanto “os pisos superiores funcionarão como um hotel, oferecendo acomodações acolhedoras e confortáveis, imbuídas de um espírito de serviço”. Na resposta escrita da diocese, acrescenta-se que as instalações hoteleiras “foram concebidas para receber tanto peregrinos como turistas, acolhendo católicos e não católicos com hospitalidade e inclusão”. Recorde-se que em Dezembro começaram a ser recrutados funcionários para a unidade hoteleira, em parceria com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL). Numa sessão de emparelhamento de emprego destinada a residentes, realizada a 5 de Dezembro, com a “Companhia de Gestão do Centro Católico”, foram disponibilizadas 23 vagas de emprego para gestor de vendas, assistente gerente de recepção, chefe de cozinha, chefe de segurança, supervisor de serviço de quartos e supervisor de aquisição, lê-se na nota da DSAL difundida em Novembro. A Diocese de Macau não quis avançar ao HM quanto custou reerguer o novo Centro Católico, referindo apenas que as previsões iniciais derraparam graças à pandemia. “O Centro Católico está actualmente em fase de aperfeiçoamento e submissão e aprovação pelo Governo. Após os desafios da pandemia covid-19, os custos de construção aumentaram significativamente. Estamos gratos pela compreensão e apoio dos construtores e empreiteiros, que permitiram que o projecto de reconstrução fosse concluído com sucesso. Ao mesmo tempo, acolhemos calorosamente doações de todos os sectores da sociedade para ajudar a sustentar e levar adiante a missão original do Centro Católico de servir a comunidade de Macau.” Um bispo ainda presente Questionada sobre as principais metas do novo Centro Católico, a Diocese de Macau descreve que o edifício “tem como objectivo dar continuidade à missão espiritual da Igreja Católica e incorporar o espírito de Cristo”, tendo por influência o trabalho do bispo D. Paulo José Tavares, que realizou a sua missão em Macau em meados do século XX. Destaque para o facto de D. Paulo José Tavares, falecido em 1973 e nomeado bispo de Macau em 1961, ter sido importante na manutenção da presença da Igreja Católica em Macau na época do movimento “1,2,3”. Entre Novembro de 1966 e Fevereiro de 1967, a Revolução Cultural manifestou-se no território, agregando muitos estudantes locais, que pretendiam mudar os conteúdos do ensino católico. D. Paulo José Tavares travou um braço de ferro com estes grupos de manifestantes, conseguido manter inalterado o ensino nas escolas católicas e o espírito que a elas estava associado. Desta forma, e tendo como base “a visão” deste bispo, a diocese pretende que o novo Centro Católico “continue a servir como uma ponte vital para a comunidade de Macau, promovendo o diálogo, o intercâmbio e a integração da fé e da cultura”. É ainda intenção “abrir as portas [do Centro] a visitantes de todo o mundo, reforçando não só o seu papel como refúgio espiritual, como também infundir uma nova vitalidade no panorama religioso e cultural de Macau”. António Pedro Costa, autor da biografia do clérigo, intitulada “D. Paulo José Tavares – O bispo diplomata”, descreveu, em entrevista ao HM concedida em 2023, que o bispo “foi uma lufada de ar fresco”, e uma figura acarinhada pela comunidade chinesa da época. “Essas atitudes de valorização da comunidade chinesa levaram a uma aproximação e ao estabelecimento de uma relação de confiança. Só assim conseguiu levar os seus objectivos adiante, pois percebeu que tinha de ter a população do seu lado. Mas isso trouxe-lhe muitos dissabores com o clero europeu, que não concordava com a postura de D. Paulo José Tavares. Fez com que a população tenha visto nele um aliado e não uma pessoa que vem de fora e que impõe as suas ideias”, disse o autor. Um ano de celebrações Foi em 1576, no quarto ano do reinado Wanli, da Dinastia Ming, que se fundou em Macau a Diocese, sendo 23 de Janeiro a data oficial de celebração. Porém, os próximos meses também serão de festa. Num comunicado anteriormente divulgado, a Diocese de Macau assume que tem tido, ao longo destes anos, “a missão de estabelecer pontes entre o Oriente e o Ocidente, promovendo a educação, a caridade e o serviço pastoral”, deixando “uma marca profunda e duradoura no desenvolvimento cultural, educativo e religioso de Macau”. O tema das celebrações é “De Macau para o Mundo: 450 anos de Missão e Misericórdia”. O novo Centro Católico irá acolher duas exposições temáticas, intituladas “Honrar o Passado, Criar o Futuro” e ainda “Testemunha do Património, Missão no Mundo”. Estas mostras pretendem “reflectir o desenvolvimento da Diocese a partir de perspectivas históricas, pessoais e culturais, bem como as suas orientações futuras”, destaca-se na mesma nota. Amanhã decorre na Igreja da Sé um concerto de música sacra com oito agrupamentos corais de Macau, Hong Kong e da Província de Cantão, podendo ouvir-se as sonoridades do novo órgão de tubos da igreja. A partir das 19h30, vão actuar o Coro Diocesano de Macau, o ensemble Cathedral Schola e ainda outros grupos corais de Macau, como o Coro Perosi, o Dolce Voce e o Cantate Chorus, sem esquecer outros conjuntos de Hong Kong e Cantão. A Diocese destaca que a “iniciativa mais simbólica e de grande dimensão do ano comemorativo” será a “grande celebração” agendada para 31 de Outubro deste ano, e que consiste numa recepção e missa. “Através desta celebração solene, a Diocese dará graças a Deus pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meio, e rezará para que Ele continue a orientar o caminho a seguir”, descreve-se no mesmo comunicado. Haverá ainda iniciativas realizadas por “várias instituições diocesanas” nos próximos meses, nomeadamente “espectáculos culturais, concursos escolares, simpósios académicos, actividades de convívio, encontros juvenis, recursos de formação online, iniciativas paroquiais e celebrações litúrgicas”. “Através de uma participação transversal e intergeracional, o ano comemorativo procura aprofundar o conhecimento público sobre o desenvolvimento histórico da Diocese e o seu serviço à comunidade, promovendo o espírito do lema diocesano ‘Scientia et Virtus’ (Ciência e Virtude), que inspira uma prática de serviço assente no equilíbrio entre o saber e o cuidado ético.” Numa altura em que celebra 450 anos de existência, a Diocese diz querer traçar o futuro, “caminhando com os residentes de Macau na reflexão sobre o passado e na continuação da sua missão de fé, serviço e cultura nesta nova etapa”.
China | Detido veterano repórter de investigação Hoje Macau - 5 Fev 2026 Um veterano jornalista de investigação chinês foi detido pelas autoridades da província de Sichuan, no sudoeste da China, após publicar um artigo crítico da actuação de dirigentes locais, informou ontem a imprensa local. A polícia do distrito de Jinjiang, em Chengdu, capital da província, informou na segunda-feira, através das redes sociais, que duas pessoas, identificadas apenas pelos apelidos Liu (50 anos) e Wu (34 anos), foram colocadas sob “medidas coercivas criminais de acordo com a lei”, por suspeitas de “falsas acusações” e “operações comerciais ilegais”. De acordo com o jornal chinês Caixin, os detidos são o jornalista Liu Hu e a assistente, Wu Lingjiao. Liu Hu é conhecido pelo trabalho como repórter de investigação no jornal New Express, sediado em Cantão. Nos últimos anos, tem mantido uma conta nas redes sociais onde publica reportagens independentes, sobretudo sobre conflitos entre empresas privadas e autoridades locais. Na quinta-feira passada, Liu publicou um artigo, que foi, entretanto, apagado, no qual citava uma fonte que acusava Pu Fayou, secretário do Partido Comunista na vila de Pujiang (sob jurisdição de Chengdu), de abuso de poder e repressão a empresários locais. O artigo também referia a alegada ligação de Pu à demolição forçada de duas propriedades do professor universitário Tuo Jiguang, que se suicidou em 2021 após um prolongado litígio com as autoridades. Citado pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post, um funcionário do comité do Partido em Pujiang confirmou que foi criada uma equipa de investigação conjunta entre Chengdu e Pujiang, afirmando que as autoridades “estão a dar grande prioridade” às alegações feitas por Liu. No entanto, recusou fornecer mais detalhes.
Depressão Kristin | Timor-Leste aprova donativo de 4,2 milhões de euros de apoio a Portugal Hoje Macau - 5 Fev 2026 O Governo de Timor-Leste aprovou ontem, em conselho de ministros, um donativo de 4,2 milhões de euros de apoio a Portugal para fazer face à destruição ocorrida na sequência da depressão Kristin. “Este apoio financeiro visa contribuir para os esforços de resposta imediata e recuperação das áreas mais afectadas”, pode ler-se no comunicado do conselho de ministros. Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Protecção Civil contabilizou cinco mortes directamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador. A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados. Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos. O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
Japão | Fortes nevões fazem 35 vítimas mortais Hoje Macau - 5 Fev 2026 Fortes nevões mataram 35 pessoas no Japão nas últimas duas semanas, sobretudo na região de Niigata, centro do arquipélago, anunciaram ontem as autoridades japonesas. Um total de 15 municípios foram afectados, tendo a quantidade de neve acumulada nas áreas mais atingidas sido estimada em dois metros de altura. Em Niigata, uma região produtora de arroz no norte do Japão, foram registadas mortes, incluindo um homem de 50 anos que foi encontrado caído no telhado da sua casa na cidade de Uonuma a 21 de Janeiro. Na cidade de Nagaoka, um homem de 70 anos foi encontrado caído em frente à sua casa e levado de urgência para o hospital, onde foi declarado morto. As autoridades de Niigata acreditam que o idoso caiu do telhado enquanto limpava a neve. Foram relatadas ainda sete mortes relacionadas com a neve na província de Akita e cinco na província de Yamagata. O número de feridos em todo o país atingiu os 393, incluindo 126 com ferimentos graves, 42 deles em Niigata. Catorze casas foram danificadas, três em Niigata e oito na província de Aomori, onde se acumularam até 4,5 metros de neve em zonas isoladas. Uma forte massa de ar frio trouxe fortes nevões nas últimas semanas ao longo da costa do mar do Japão, com algumas áreas a receberem mais do dobro da quantidade habitual de neve. O porta-voz do Governo japonês alertou que, embora as temperaturas estejam a subir, poderiam surgir novos perigos, uma vez que a neve começaria a derreter, resultando em deslizamentos de terra e superfícies escorregadias. “Por favor, prestem muita atenção à vossa segurança, usando capacete ou corda de segurança, especialmente quando trabalham na remoção da neve”, disse Minoru Kihara aos jornalistas. Eleições no caminho O Governo do Japão criou várias forças-tarefa para responder à forte queda de neve em Niigata e regiões próximas desde 20 de Janeiro. Mortes e acidentes relacionados com a neve não são incomuns no Japão, tendo sido registadas 68 mortes durante os seis meses de Inverno anterior, de acordo com a Agência de Gestão de Incêndios e Desastres nipónica. Há previsão de mais neve intensa para o fim de semana, com o país a realizar eleições gerais antecipadas no domingo. A emissora pública japonesa NHK disse que várias agências estão a trabalhar para garantir que as eleições decorrem sem incidentes, e as autoridades pediram aos eleitores que tenham cuidado e verifiquem as condições meteorológicas antes de se deslocarem para votar, incluindo durante o período de votação antecipada. De acordo com as sondagens mais recentes, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi está a caminho de uma vitória esmagadora nas eleições, convocadas pela líder conservadora há apenas duas semanas para aproveitar as elevadas taxas de aprovação e reforçar o mandato popular para o seu novo governo de coligação. Esta será a primeira vez desde a década de 1990 que o Japão realiza eleições antecipadas.
A pequena idade do gelo e as suas implicações sociais Olavo Rasquinho - 5 Fev 2026 A preocupação sobre a sustentabilidade do nosso planeta não é recente. Segundo o Professor José Pinto Peixoto1 (1922-1996), no seu livro “Influência do Homem no Clima e no Ambiente”2, mencionando um extrato do Livro de Isaías3, “A Terra está desolada e murcha; o Céu e a Terra esmorecem. A Terra está profanada pelos seus habitantes, porque transgridem a lei e violam o direito…”. Na realidade, a ação nefasta que a espécie Homo sapiens exerce sobre a natureza intensificou-se desde há cerca de 10 000 anos, altura em que a revolução agrícola sofreu grande incremento, quando o homem deixou, em grande parte, as suas atividades como caçador-recoletor. Com esta citação, o Professor JPP pretendeu ilustrar que na antiguidade já havia quem se preocupasse sobre o que o homem poderia causar ao nosso planeta. Por definição, profeta é o que serve de intermediário entre o divino e o povo, e esse texto pode-se interpretar como sendo um aviso sobre a intensificação das agressões que a nossa espécie viria a praticar, e que levaram à crise ecológica e climática atual. A vida no nosso planeta só é possível devido a uma série de circunstâncias, entre as quais a Terra estar a uma distância do Sol propícia à existência de água no estado líquido, uma atmosfera respirável e um campo magnético que serve de protetor em relação às partículas carregadas eletricamente emitidas pelo Sol (vento solar), o que evita que a superfície seja atingida por parte da radiação que é prejudicial à vida. Desde que se formou a atmosfera terrestre, sempre houve evolução das suas características, relativamente à composição e parâmetros meteorológicos e climáticos. As alterações do clima influenciaram grandemente a história da humanidade, modelando o comportamento do Homo sapiens. Têm sido uma das principais causas das grandes migrações e, consequentemente, do aparecimento de diferentes civilizações. Investigação na área da paleoclimatologia permite-nos concluir que, durante milhões de anos, o clima foi caracterizado por períodos glaciários e interglaciários. Durante a glaciação mais recente, o gelo invadiu grandes áreas da Europa e da Ásia, provocando a migração de populações para latitudes mais baixas. Há cerca de 6 000 anos, a seca prolongada que causou a desertificação da região onde se localiza o Saara, causou a debandada de povos para o vale do rio Nilo, onde floresceu uma civilização cujos testemunhos ainda hoje são motivo de admiração e de estudo. No último milhão de anos houve aproximadamente seis períodos glaciários. Apesar de estarmos atualmente num período interglaciário, têm decorrido períodos mais curtos caracterizados por temperaturas relativamente baixas, como o que se convencionou designar por “pequena idade do gelo”, entre os séculos XIV e XIX. Não há unanimidade sobre o início, e alguns historiadores consideram que começou mais tarde, no século XVI. Há, no entanto, consenso de que este período foi caracterizado por invernos rigorosos e verões curtos. Ainda hoje se discute qual a causa deste arrefecimento, que poderá ter sido consequência de vários fatores naturais, como a diminuição da atividade solar e o aumento da concentração de partículas na atmosfera resultantes de atividade vulcânica e consequente redução da radiação que atinge a superfície. Segundo alguns historiadores, a “pequena idade do gelo” pode ter sido uma das causas de convulsões sociais. Assim, nos Estados Unidos da América, em 1692, ocorreu um fenómeno social que consistiu na histeria coletiva por parte da população de Salem, povoação do Estado de Massachusetts, que teve como consequência uma série de julgamentos, na sua maioria de mulheres acusadas de bruxaria. Uma sucessão de anos com maus resultados agrícolas e consequente escassez de alimentos terão contribuído para a perceção de insegurança nas populações da região de Nova Inglaterra. Perante esta situação, o clima psicológico coletivo terá contribuído para que centenas de mulheres fossem tratadas como bodes expiatórios, algumas das quais foram executadas por enforcamento. Este assunto tem sido estudado por vários historiadores e servido de tema de peças de teatro, obras literárias e filmes. A obra mais emblemática consistiu na peça de teatro de Arthur Miller (“The Crucible” – 1953), em que o autor explorou esse fenómeno social como metáfora do macartismo, período da história dos EUA entre o final da década de 1940 e meados da década de 1950, caracterizado pela perseguição de supostos comunistas, inspirada pelo senador Joseph McCarthy. O próprio autor foi vítima dessa perseguição. Várias foram as obras literárias sobre o mesmo assunto, sendo, talvez, a mais marcante, a obra de não-ficção “The Witches: Salem, 1692” da escritora americana Stacy Schiff. A peça de Arthur Miller foi adaptada pelo próprio para o cinema, em 1996, tendo o filme sido distribuído em Portugal com o título “As bruxas de Salem”. Foi também durante a pequena idade do gelo que ocorreu grande instabilidade social que precedeu o despoletar da revolução francesa. A insatisfação popular causada pela fome generalizada devido a sucessivos desastres naturais, como uma forte seca em 1788 interrompida por intensa precipitação de granizo e saraiva que causaram a perda de grande parte das culturas que haviam resistido. Para agravar a situação, o inverno de 1788/1789 foi extremamente rigoroso. A fusão de espessas camadas de neve e de gelo causaram enxurradas e inundações na primavera seguinte, em grande parte da França, provocando grave destruição de infraestruturas e a quase totalidade das poucas culturas que restavam. Na sequência destes desastres meteorológicos surgiu um surto de peste que dizimou muitos dos animais que se haviam salvado. A fome adveio a estes eventos e o caos instalou-se nos grandes centros urbanos. O verão de 1789 foi extremamente seco, o que contribuiu para o agravamento da situação. Toda esta sequência de acontecimentos, juntamente com a ineficácia do governo de Luis XVI, contribuiu para o mal-estar social, o que poderá ter constituído uma espécie de rastilho para despoletar a revolução francesa, que teve como um dos episódios mais notáveis, a Tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789. Pode-se concluir que fenómenos meteorológicos que, no seu conjunto, caracterizam o clima de uma região, contribuem grandemente para o agravamento de crises sociais. Por exemplo, a tempestade recente que assolou Portugal em 27 de janeiro de 2026 (a depressão Kristin, resultante de ciclogénese explosiva) gerou, por parte da população afetada uma sensação de mal-estar em relação ao poder político. Outro exemplo foi a seca que atingiu o seu auge em 2017, que causou graves prejuízos à agricultura, pecuária, recursos hídricos e forte impacto ambiental no que se refere a incêndios florestais que causaram dezenas de vítimas mortais. Em ambos os casos o poder político foi acusado, por parte da população afetada, de não ter tomado as medidas necessárias para minimizar as graves consequências que advieram desses desastres naturais. Independentemente dos governos, os desastres naturais causam em geral, com ou sem razão, a sensação, por parte da população, de que as suas consequências poderiam ser minimizadas se se tivessem tomado medidas preventivas mais eficientes, como, por exemplo, melhoria do ordenamento florestal, reforço de infraestruturas e avisos meteorológicos precoces mais rigorosos. Meteorologista Referências: José Pinto Peixoto – Académico português. Foi um dos mais ilustres cientistas à escala global nas áreas da Meteorologia e da Climatologia. Era carinhosamente apelidado de JPP pelos seus estudantes e colegas. Publicado, em 1987, pela Secretaria de Estado do Ambiente e dos Recursos Naturais. O Profeta Isaías, um dos redatores do Antigo Testamento, viveu entre os séculos VIII e VII a.C.