Um Presente ao Futuro: Macau – Diálogos sobre Arquitetura e Sociedade

Por Bernardo Amaral, Arquitecto, Investigador

 

No final do ano passado a editora Circo de Ideias lança “Macau – Diálogos sobre Arquitetura e Sociedade” – uma publicação que propõe fazer um ponto de situação do pensamento crítico sobre as transformações urbanas e sociais que a cidade viveu nos últimos 20 anos. Editado por Tiago Saldanha Quadros e Margarida Saraiva, o livro é composto por nove entrevistas a arquitetos, urbanistas e investigadores e por um ensaio visual da autoria de Nuno Cera. A iniciativa dos editores surge da necessidade de “dar corpo, reunir, arquivar, partilhar uma espécie de estado da arte no que ao urbanismo de Macau diz respeito, permitindo o alargamento do debate sobre o futuro da cidade e sua relação com as regiões vizinhas”, como afirma Margarida Saraiva no prefácio. O livro foi inicialmente publicado em 2015, em inglês, pela organização cultural BABEL, fundada em Macau, no ano de 2013, com o objetivo de gerar oportunidades de investigação e aprendizagem nas áreas da arte contemporânea, arquitetura e ambiente numa abordagem interdisciplinar. Em 2019, o livro é publicado em português pela Circo de Ideias, dando a conhecer aos leitores portugueses o conjunto de entrevistas conduzidas por Tiago Saldanha Quadros entre 2013 e 2014. Para Quadros, “a relevância deste livro passa por analisar o tempo da nossa condição contemporânea, lançando a partir de Macau olhares reflexivos acerca dos desafios que a vida urbana moderna em Macau supõe.”

De facto, Macau é hoje mais uma cidade numa aldeia global, testemunho da maior revolução urbana de sempre, nomeadamente o atual processo de urbanização do território chinês. Fundada por mercadores portugueses no séc XVI, Macau é definida, a par de Hong Kong, como uma Região Administrativa Especial desde 1982. Enquanto tal, beneficiando de autonomia política e administrativa, estas duas cidades vão servir de tubo de ensaio para o “socialismo de mercado” planeado por Deng Xiaoping; processo também conhecido pelo mote “um país, dois sistemas”. Em 1999, a soberania administrativa de Macau é transferida para a China e desde então são implementadas uma série de medidas estratégicas no sentido de transformar a cidade numa atração turística e na capital mundial do jogo. O centro histórico de Macau, protegido pela UNESCO desde 2005, compete hoje com a monumentalidade dos edifícios dos casinos, cada vez em maior número (cerca de 38). É sobre este período que se centra o livro, sobre a rápida transformação da pacata cidade portuária, que nos últimos 20 anos ganhou 10 quilómetros quadrados de terreno ao mar e aumentou a sua população em mais 200 mil habitantes.

Ao selecionar 9 pensadores com diferentes experiências vividas de Macau e de nacionalidades diversas, Tiago Quadros reúne distintas perspetivas sobre o tema, oferecendo ao leitor um retrato multifacetado da condição contemporânea da cidade. Nas entrevistas são abordados temas como a arquitetura, a representação, a história e a memória, questões inevitáveis perante a velocidade a que a paisagem urbana muda, mas também perante regimes de representação que manipulam despudoradamente os signos da história da arquitetura.

Um dos entrevistados é o arquiteto Jorge Figueira, que visita Macau desde 2006, no quadro da sua investigação sobre a pós-modernidade na arquitetura portuguesa. Figueira demonstra particular interesse na vida e obra do arquiteto português Manuel Vicente, mas será igualmente fascinado pela condição contemporânea da cidade, como a alta densidade urbana e a sua constante transformação. Manuel Vicente, falecido em 2013, irá projetar e construir em Macau desde os anos 60. Marcado pela sua experiência profissional nos Estados Unidos com Louis Kahn e influenciado pela obra de Robert Venturi, Vicente desenvolve uma obra original, que seduz muitos arquitetos portugueses a descobrirem a exótica cidade, como é o caso de Manuel Graça Dias ou Diogo Burnay, este último também entrevistado por Tiago Quadros. Tendo lá vivido de 1992 -97, Diogo Burnay oferece um testemunho fascinante de como era trabalhar com Manuel Vicente e viver em Macau antes da transição para a administração chinesa. Também Wang Wejien, arquiteto formado em Taiwan e Berkeley e professor em Hong Kong, conhece a cidade desde essa altura, recordando o valor da arquitetura vernacular chinesa e do tecido urbano caracterizado pelos largos e pátios, que ainda hoje se encontram preservados. Por outro lado, Werner Breitung, geógrafo e urbanista alemão, professor em Hong Kong, que assistiu à transformação da cidade desde os anos 90, demonstra mais interesse no conceito de fronteira como lugar de contacto e gerador de urbanidade e de identidade coletiva ao longo dos últimos anos. Jianfei Zhu, historiador da arquitetura chinesa do século XX e formado na Universidade de Tianjin, faz uma leitura das transformações urbanas de Macau à luz da cultura urbana chinesa e enquadrada no processo de urbanização de todo o território continental. Outros pensadores e investigadores entrevistados por Tiago Quadros como Thomas Daniell, Mário Duque, Hendrick Tieben e Pedro Campos Costa, revelam, a par das suas reflexões pessoais sobre outros temas, preocupações com o impacto do turismo e do jogo na urbanização cidade, questionando a qualidade do espaço público, do acesso à habitação, e alertando para o perigo da transformação de Macau num “Parque Temático”. Alertas pertinentes, que espelham a condição contemporânea de uma sociedade de lazer e consumo, que Tiago Quadros irá aprofundar no texto do posfácio.

O ensaio visual de Nuno Cera surge no início do livro como um preâmbulo, ilustrando as contradições de uma cidade em “permanente mutação”. Ao longo das 47 imagens realizadas em 2018, o leitor deambula por um território denso e tropical, estranhamente familiar e simultaneamente irreal. Como num palimpsesto, sobrepõem-se edifícios de diferentes tempos e lugares, caracterizando fielmente a condição urbana da cidade peninsular. Para além dos massivos prédios de habitação e suas características “gaiolas”, Nuno Cera capta também a arquitetura festiva dos casinos, que apesar da sua excentricidade surge integrada no quotidiano da cidade. Um ensaio visual que é também um diálogo entre o autor e a cidade, convidando o leitor a percorrer os seus passos.

Na entrevista a Diogo Burnay e como resposta à questão sobre a importância da memória como mecanismo de “progresso”, Burnay responde citando Manuel Vicente: “O Manel costumava dizer-nos que o presente é um presente ao futuro e o passado é um presente ao presente.” Eu diria que esta frase atravessa todo o livro e que caracteriza exemplarmente o espírito deste bem sucedido projeto editorial. Um livro para conhecer Macau, enquanto espelho do mundo onde vivemos.

24 Mai 2021

Projecto de atelier holandês escolhido para a Biblioteca Central

O atelier holandês Mecanoo será responsável pelo projecto da Biblioteca Central, que vai nascer no que resta do Hotel Estoril, na Praça do Tap Siac. Mok Ian Ian espera que a futura biblioteca “ultrapasse a imaginação do público” e se transforme num dos edifícios mais icónicos da cidade

 

Os conceitos nucleares do projecto da nova Biblioteca Central, na Praça do Tap Siac, assentam na imagem de um livro, de estantes e lombadas e de uma página que se abre no centro da cidade. “A futura Biblioteca Central irá ultrapassar a imaginação do público em relação às bibliotecas tradicionais, atender às necessidades multifuncionais de biblioteca do século XXI e construir espaços complexos para todas as idades, diversidade e vida”, referiu Mok Ian Ian, presidente do Instituto Cultural (IC), sobre o projecto escolhido, de autoria do atelier holandês Mecanoo.

Ainda sem conseguir precisar data de abertura e orçamento global do projecto, Mok Ian Ian afirmou ontem estar esperançada no cumprimento da estimativa inicial para a conclusão do projecto, entre o final de 2024 e 2025.

Quanto ao custo da obra, apesar de apontar para o cálculo inicial (500 milhões de patacas), o Governo quer rigor no uso do erário público e controlo e contenção para respeitar o limite de 500 milhões de patacas.

Com a meta de construir um edifício icónico no centro da cidade, o projecto do atelier holandês tem uma fachada com design modernista, inspirada no Hotel Estoril, com uma “grelha” que filtra a luminosidade exterior. O resultado é “um jogo intrigante de luz e sombras, projectando no chão e paredes da biblioteca os padrões da fachada, como extensão das estantes e livros, do exterior para o interior do edifício”, retrata o vídeo de apresentação do projecto. De frente, a entrada principal aparenta a forma de livro aberto para a Praça do Tap Siac.

Espaços dentro do espaço

Além do design do projecto, a Mecanoo foi escolhida depois de analisados “custo global, dificuldade de construção, manutenção e preservação energética, a disposição funcional e custos de design, entre outros”, revelou ontem Mok Ian Ian.

O atelier holandês conta no portfolio com projectos como a Biblioteca de Birmingham, a renovação da Biblioteca Central Pública de Nova Iorque e a Biblioteca Dr. Martin Luther King Jr, em Washington.

De acordo com Karen Latimer, uma das especialistas escolhidas pelo IC para encontrar o projecto vencedor, a proposta da Mecanoo, além de corresponder em termos de eficiência, tem “aquele pequeno detalhe mágico que transforma um edifício em arquitectura”.

A nova Biblioteca Central de Macau terá uma zona de leitura infantil, biblioteca familiar, espaço com brinquedos e sala de convívio familiar, zona de criação, zona de intercâmbio, zona de exibição, equipamentos inteligentes, espaços de tecnologia de informática e multimédia, zona de exposição, sala de aula, auditório multifuncional e salas de reunião.

“Este edifício icónico irá integrar a cultura na vida de todos e proporcionar a Macau um lugar onde todos possam realizar planos de desenvolvimento pessoal”, afirmou ainda a presidente do IC.

9 Mar 2021

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020

Entre parêntesis

Gostar de arquitecturas. De organização, equilíbrio, circulação, rigor. O espaço como composição. De luz e sombra, também. Mas haver um fascínio específico por espaços devolutos. Estranhas arquitecturas a sobrar de uma morte da função no espaço e intervalos entre passado e futuro. São assim esses espaços. À espera. E que às vezes encontram por fim um código de marcas, que os fazem reviver para lá das anódinas formas iniciais, inexpressivas ou feias. São despojos de vida. Mas talvez uma decadência que ganha o tom sublime da linguagem. Da textura. Esses espaços sem vida a mais que não a sua de grandes animais arquitectónicos, reformados do trabalho e abandonados. Calados e ensimesmados mas repletos de ecos surdos que é preciso ouvir para então os entender melodiosos. A beleza abstracta e imprevista de manchas produzidas pela presença de reacções e matérias e humidades, ou pela ausência de outras, ou por fractura ou por justaposição ou degradação. E a generosidade dos alçados em que cabem pessoas bem grandes sem encolher ombros e cabeças de olhar no chão. Muito chão. E, às vezes, por cima o céu. A arquitectura é música congelada e é resistente ao tempo. A longo prazo a erosão, mas a curto prazo uma organização do silêncio em cheios e vazios. A que somente a luz muda o tom. Prédios, casas, armazéns, memórias da indústria e outras funções esquecidas. Lojas. Desligados, como um instante descontinuo entre parêntesis, do antes e do desconhecido vindouro.

Sim, gostar daqueles espaços. Devolutos, mas tão vivos que, às vezes, ali voam pássaros. Quase a céu aberto e em completa liberdade. Como se devolvidos a uma certa natureza escondida na cidade. Mas uma natureza urbana. A dos materiais de construção humana. Lugares quase irreais sem uso e sem funcionalidade. Serão estes, lugares de poesia. Abstraídos. Livres de marcadores, estereótipos, trabalhos, hábitos e funções. De habitantes presos como numa roda dentada. Passam a ser – libertos de desígnios – por um tempo, lugares de sempre e nunca, da eternidade e da ilusão. Do puro pensamento e do puro sonho.

Ela percorria lentamente e sem tempo lugares de devaneio. Esses espaços sem tempo colocados então na agenda da cidade, presos a uma data de encontro. E entendia aí, nesse tempo, que o lugar era circunscrito.

De nunca e de sempre. Ali. Um pedaço de eternidade. Não de pés descalços como se o lugar fosse de um chão aplainado ternamente, mas na constatação simples de que todos os momentos de aspereza, todos os cortes possíveis, todos os golpes de pregos invisíveis de lascas inocentes mas sólidas, e de outras matérias secretas de forma, tal como a violência nelas contida, se poderiam avizinhar sem aviso. E magoar. Pés nus.

Mas, ainda assim, deve arriscar a emoção sedosa também possível. Por entre lascas de madeiras secas e de metais retorcidos. Restos intactos de uma suavidade antiga. A ter existido. E pensa se cada um de nós é um espaço também. Visto em perspectiva. Mas também um lugar de estar com a profundidade de um momento e só. No momento, como aquele. Em sintonia com as rugas deste, a plasticidade de matérias que reagem ao passar de tudo. E se fosse assim o habitar puro e simples sem recuperação ou reabilitação. Se fossemos cidades com os seus lugares parados ou revivificados. Que deixam de ser espaços de ausência mas afirmações construídas em novas texturas e formas sem arquétipo. Quando Schopenhauer diz: ”sentimos a dor mas não a sua ausência”, faz pensar que ali não há um olhar indolor. Mas se se pode neles não sentir vida, também não se sente a ausência de vida. Há uma transformação para lá dela.

Na rua cintura do porto de L. e o rio de contentores e gruas do outro lado. Barcos abandonados e rotos mais longe e com restos de tintas coloridas. E barcaças largas de arrastar contentores e mudanças pelo mar, com os nomes de verão. Um olhar terno de dívida. Um dia os móveis de gavetas cheias de vida passaram a ser embalagens caneladas com a forma de móveis as cadeiras com a forma de cadeiras e as mesas com a forma de mesas. Os quadros com a forma de quadros de portas ou de espelhos, os mais misteriosos. E a casa veio pelo mar fora plantar-se em outra terra. Daí o olhar. Terno. Com que visita pela noite, terminais com eles alinhados e sobrepostos a tentar adivinhar casas. De novo a questão do contentor. Invólucro cheio e de mistério. E o contrário, espaços esvaziados onde não sobra a ausência. Mas sons. Texturas da passagem pelo tempo.

Mudou de lugar. A importância de ao longo dos dias mudar de lugar. Rua cintura. Um golpe rins da cidade atira-a sempre para a margem do rio. Aqueles armazéns. Um, por empréstimo. Era ali que escolhia dançar.

Essa respiração com música sem olhar nem espelho nem espectáculo. Pura explosão dos pulmões em expansão e dos membros sem móveis a chocar com eles. Só esse olhar terno e envelhecido de espaço esquecido. Uma narrativa sem fim a esquecer as cãibras nos pés. O oposto de palco. O oposto de tudo e o oposto de tempo. Uma coisa sem testemunho e sem objecto. Quase fora da vida no seu ridículo. E, ridículo, diria quem soubesse. E que coxeava, nos dias comuns. Uma perna mais curta num esticão de crescimento.

Por isso as pessoas têm destas coisas secretas. E um tempo qualquer que não foi registado na agenda. Um intervalo entre coisas normais.

31 Ago 2020

Finalistas de arquitectura da USJ com olhos postos na Ilha Verde

Com o objectivo de melhorar o design urbano e desenvolver novas visões para a Ilha Verde, os finalistas do curso de arquitectura da Universidade de São José (USJ) vão expor uma selecção de projectos até à próxima quarta-feira, sob o tema Green Link. A informação foi divulgada ontem pela USJ em comunicado.

Patente na Galeria Kent Wong, no Campus da Ilha Verde da USJ, a exposição nasceu a partir de um trabalho de grupo que serviu para os alunos identificarem “os problemas e oportunidades do bairro de Ilha Verde” e redesenharem “o seu tecido urbano”, propondo um novo plano urbano e conceitos arquitectónicos inovadores que explorem “um estilo de vida mais verde”.

Com o objectivo de promover a igualdade social e a qualidade do meio ambiente, segundo o comunicado da USJ, os projectos incluem propostas variadas como conjuntos habitacionais, centros comunitários, hotéis, bibliotecas, museus e centros desportivos, procurando sempre expandir o espaço público através de práticas de design sustentável e a inclusão de uma “elevada percentagem de espaço verde em cada um dos edifícios propostos”.

De acordo com Nuno Soares, coordenador interino do Departamento de Arquitectura da USJ e professor do projecto final de curso, citado no comunicado, o objectivo unificador dos projectos passou por “explorar criativamente a interacção com a natureza de forma a gerar conceitos arquitectónicos inovadores, capazes de dar uma contribuição significativa para melhorar o contexto envolvente”.

Trocar ideias

Além da exposição Green Link estar patente até ao próximo dia 15 de Julho, o Departamento de Arquitectura da USJ revela ainda que haverá a hipótese de participar numa sessão de debate sobre o tema no sábado, dia 11 de Julho, entre as 16h e as 18h. O objectivo é possibilitar que os alunos partilhem conceitos e processos subjacentes aos seus projectos com a comunidade, ao mesmo tempo, que recebem feedback do público.

A exposição inclui projectos de Frederick Tupaz Cabio, Isaac Ho, Ian Leong, Mamadú Seck, Phillia Hao Hsin Chiang, Travis Lai, Joana Wong Tsz Yin, Natalie Ho I Fu, Ida Lei e Vanda Chan.

9 Jul 2020

Covid-19 | Pequenos ateliers de arquitectura sofrem impacto da crise

A crise gerada pela pandemia da covid-19 trouxe um profundo impacto ao sector da construção civil, dificuldades que contagiaram os ateliers de arquitectura de pequena dimensão. Sem novos concursos públicos e com encomendas privadas reduzidas a zero, tenta-se contornar a crise motivando equipas e apostando todas as energias nos projectos em curso. Ainda assim, muitos escritórios deixaram de contratar e estão praticamente parados

 

Com o sector da construção civil a trabalhar a meio gás, os ateliers de arquitectura de pequena dimensão de Macau estão a deparar-se com dificuldades. Alguns concentram-se em projectos em curso, tentando motivar equipas e inovar além do habitual esquema de trabalho, enquanto outros correm o risco de pararem por completo.

Nuno Soares, arquitecto principal do atelier Urban Pratice, situado no edifício Ponte 9, no Porto Interior, e que faz parte da direcção da Associação dos Arquitectos de Macau (AAM), reconhece as dificuldades actuais. “Não acho que o nosso atelier seja sintomático de todos os outros”, começa por dizer.

“Vários colegas disseram-me que têm dificuldades e que viram os trabalhos diminuir, e nós verificámos a mesma coisa. Acho que alguns ateliers pequenos vão encerrar ou pelo menos suspender a actividade durante alguns meses.”

No caso do Urban Pratice, tentou-se fazer o inverso, mas as novas contratações estão suspensas. “Um dos problemas que temos é que não conseguimos contratar. Tínhamos pessoas contratadas a partir de Portugal para vir para o atelier e como isto aconteceu não vêm. Isto causa muitas dificuldades no mercado interno de Macau, mas também no recrutamento e no desenvolvimento da equipa. É uma fase difícil”, frisou Nuno Soares.

Maria José de Freitas, proprietária do atelier AETEC-Mo, destaca o facto de os concursos públicos escassearem por estes dias, enquanto que as encomendas privadas pararam.

“Os trabalhos que temos em mãos já têm alguns meses, e quando estiverem concluídos vamos ter algum problema de angariação, porque não se está a fazer muita coisa a nível de projectos por parte de promotores individuais”, disse ao HM.

A arquitecta destaca também o facto de Macau estar a atravessar um novo momento político com Ho Iat Seng como Chefe do Executivo. “Mudámos de Chefe do Executivo e isso também se traduz em alguma dupla aferição do que estava em curso [ao nível de concursos públicos]. Isso, em conjunto com a crise do coronavírus, vai provocar um refreamento de toda a encomenda pública.”

“A encomenda pública está a rarear ou é praticamente inexistente, enquanto que a encomenda privada é inexistente. Seguramente, vamos ter problemas, e quanto mais tempo esta situação se prolongar, pior”, acrescentou Maria José de Freitas.

Consequências financeiras

Christine Choi, presidente da Associação dos Arquitectos de Macau (AAM), defendeu ao HM que as causas para o possível encerramento de ateliers de pequena dimensão são semelhantes às dos outros negócios. “Tudo depende do seu modelo de negócio e dos projectos que têm em mãos.”

Na óptica da responsável, as restrições à entrada de trabalhadores não residentes também têm efeito negativo nos pequenos ateliers. “Para um atelier de pequena dimensão, a redução de um ou dois membros da equipa tem um enorme impacto comparando com empresas maiores. Muitas vezes não é possível financeiramente providenciar alojamento para estas pessoas. Além disso, com o problema da falta de recursos humanos, também há limitações na procura de profissionais fora de Macau”, adiantou.

Muitas obras estão paradas devido à falta de materiais de construção, resultado de encomendas atrasadas ou que nem sairam das fábricas, situadas na China. Algumas unidades fabris fecharam mesmo as portas devido à pandemia.

Christine Choi alerta para o facto de muitos escritórios enfrentarem problemas de liquidez com a falta de novos projectos. “Isto tem colocado muita pressão em termos de liquidez financeira nos pequenos ateliers desde o Ano Novo Chinês, altura em que foram pagos bónus salariais. Isso fez com que o primeiro trimestre tenha sido menos produtivo que o habitual”, concluiu.

Projecto em Wuhan parado

No caso do atelier AETEC-Mo, de Maria José de Freitas, um dos projectos suspensos tinha como foco a preservação e recuperação de uma cidade muralhada em Wuhan, cidade que foi o epicentro da pandemia da covid-19.

“Os ateliers pequenos, como o meu, têm-se organizado dentro de determinados nichos que não são preenchidos. Tenho a sorte de trabalhar em renovação arquitectónica, também ensino cadeiras ligadas à conservação do património na Universidade de São José.”

Maria José de Freitas está confiante no regresso ao projecto de Wuhan, iniciado em 2018. “Espero que, quando a situação se resolver por lá, [o projecto] possa ter outros prolongamentos. Há expectativas em relação ao futuro, não é assim tão sombrio.”

No caso do Urban Practice, a equipa continuou a trabalhar nos projectos já encomendados e a pensar no futuro pós-crise. Nuno Soares não despediu nem reduziu salários.

“Criámos boas condições para a nossa equipa, reajustámos o espaço de trabalho para haver espaço individual para todas as pessoas e decidimos investir. Num momento de dificuldade ou nos retraímos ou temos alguma confiança e investimos no futuro, e foi o que fizemos.”

Neste momento, o Urban Practice aposta em “concluir os trabalhos em curso para que, quando a crise passar, estes possam ser implementados com maior rapidez”. Nuno Soares evoca a crise económica na Europa aquando da II Guerra Mundial como um dos momentos em que alguns arquitectos “escreveram e desenvolveram novos protótipos”. Numa escala diferente, a pandemia da covid-19 pode trazer um efeito semelhante.

“Este é um momento que temos de aproveitar para inovar. Chamámos as equipas de engenheiros com quem trabalhamos e decidimos o que fazer com isto. Também estamos a desenvolver novas linhas de negócio no campo da arquitectura porque vemos que é necessário, não podemos ficar dependentes do panorama envolvente como ele está neste momento.”

O Urban Pratice também tem projectos a nível internacional que estão igualmente parados, mas que lhe confere diversidade de clientes. “Queríamos apostar mais nos mercados internacionais, mas, neste momento, estamos a desenvolver capacidade e projectos, não abrandámos.”

Concursos são importantes

Num território onde há muito o planeamento urbanístico constitui uma das maiores dores de cabeça do Governo, a crise da covid-19 pode significar uma oportunidade para atrair, precisamente, os pequenos ateliers. Nuno Soares defende que esta é a altura ideal para o Executivo agir e abrir mais concursos.

“Nesta crise, o Governo tem tido um papel fundamental. De momento, com as fronteiras fechadas, é mesmo importante olharmos para dentro de Macau e lançarmos concursos de ideias para os projectos governamentais que são necessários para o desenvolvimento da cidade, porque este é um momento em que a economia vai precisar desse investimento e há muita disponibilidade dos vários ateliers de arquitectura para participar nesse tipo de concursos.”

Outro ponto positivo destacado por Maria José de Freitas passa pela maior qualidade dos projectos no Cotai. “As coisas que estão a ser feitas relativamente aos empreendimentos na zona do Cotai estão a ser feitas com maior grau de qualidade. [Isto acontece porque] Os promotores têm outro tipo de exigências, e não é fácil encontrar em Macau equipas que façam esse tipo de trabalho com qualidade. Então estão a recorrer muito a técnicos portugueses para esse tipo de observação no local, observando critérios de qualidade que são muito exigentes. Isso é bom para a construção e cria uma habituação que é positiva”, concluiu a arquitecta.

9 Abr 2020

International Property Awards | Atelier de Maria José de Freitas distinguido

Dois trabalhos desenvolvidos pelo atelier AETEC, da arquitecta Maria José de Freitas, foram distinguidos nos International Property Awards no Reino Unido. Um dos projectos é um edifício residencial situado junto ao Mercado Vermelho, de nome Chon Kit Gardens, enquanto que o outro é o balcão da Direcção dos Serviços de Turismo (DST) localizado no edifício dos serviços transfronteiriços da ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai.

Ao HM, Maria José de Freitas declarou que a equipa está satisfeita com a distinção obtida. “Queremos continuar com qualidade e o facto de essa qualidade ser reconhecida a nível internacional é, para nós, muito gratificante.” No que diz respeito aos projectos em questão, “são de áreas diferentes”, tendo implicado “um grande esforço e muito consenso”.

“Procurámos introduzir mais valias e outras visualizações para Macau”, adiantou a arquitecta que, no caso do projecto do edifício residencial, foi buscar inspiração às cores do Mercado Vermelho. Quanto ao balcão da DST, “houve maior liberdade de concepção” dada a maior disponibilidade de espaço para trabalhar.

7 Abr 2020

Arquitectura e Urbanismo | Novo livro sobre Macau apresentado em Portugal 

“Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade” é o resultado de uma união de estudos dispersos e entrevistas sobre várias questões que habitam o mundo do urbanismo e da arquitectura da Macau contemporânea. O livro, editado pela Circo de Ideias, do Porto, foi coordenado pelos fundadores da BABEL, Tiago Quadros e Margarida Saraiva

 

Foi apresentado esta segunda-feira, na cidade do Porto, em Portugal, o livro “Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade”, editado pela Circo das Ideias e coordenado pelos fundadores da plataforma cultural BABEL, o arquitecto Tiago Quadros e a curadora Margarida Saraiva.

A obra reúne entrevistas realizadas a Nuno Cera, que realizou uma residência artística na Casa Garden com o apoio da Fundação Oriente, e outros nomes fortemente ligados à realidade urbana do território, como é o caso de Hendrik Tieben, Thomas Daniell, Mário Duque, Wang Weijen, Diogo Burnay, Jianfei Zhu, Jorge Figueira, Werner Breitung e Pedro Campos Costa.

Ao HM, Tiago Quadros contou mais detalhes de um projecto que começou a ser pensado em 2013. “Havia a noção de que muito do conhecimento produzido sobre Macau, ao nível da arquitectura e estudos urbanos, estavam extremamente disseminados nos países de origem dos autores. Quisemos com isto reunir os autores desses estudos e tentar fixar esse conhecimento no mesmo livro.”

A obra faz-se não apenas do contributo de arquitectos mas também de urbanistas e académicos. O contributo do artista Nuno Cera acabou por surgir de forma espontânea depois da sua presença em Macau, recorda Tiago Quadros.

“A dada altura as coisas começaram a acontecer de modo natural e pensámos que seria interessante que parte do trabalho do Nuno fosse incluído quase como um ensaio natural mas existindo como um corpo próprio, e não apenas como ilustração das entrevistas.”

Na apresentação do livro estiveram presentes o fotógrafo José Maçãs de Carvalho, que tem vindo a desenvolver inúmeros projectos em Macau e Hong Kong, e o arquitecto Bernardo Amaral, que viveu no território.

As problemáticas

Em “Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade” é contada a história do desenvolvimento urbano do território nos últimos anos. “O livro procura ter uma abordagem retrospectiva das últimas décadas, e consegue fazer isso com as intervenções do Diogo Burnay, que fala muito dos anos 60 e 70. Mas depois procura também ter uma abordagem prospectiva em relação aquilo que vai acontecer no futuro próximo e quais serão as expectativas.”

Neste campo, entram problemáticas como o espaço público e “a importância que tem e deveria ter numa cidade como Macau, onde a cultura local está muito orientada para o usufruto da população desse mesmo espaço publico, que é muito desqualificado”, apontou Tiago Quadros.
Jorge Figueira apresenta ainda uma “abordagem mais contemporânea sobre a produção teórica que fez sobre Macau nos últimos anos, cruzando várias questões como a arquitectura e filosofia, muito sobre a produção caleidoscópica produzida pelos casinos em Macau.”

O livro aborda ainda a problemática da habitação, como aponta Tiago Quadros, que dá como exemplo o desenvolvimento na zona do COTAI. “O plano do COTAI incluía a criação de áreas de habitação pública, que depois foi colocada em zonas mais periféricas como Seac Pai Van. Tem havido uma pressão muito grande por parte da população e o Governo assume que quer fazer, mas na verdade muito poucas soluções têm sido avançadas.”

São também abordadas questões como a preservação do património e a arquitectura dos casinos, que “têm um efeito natural na vida do seu público”.

Tiago Quadros assume que esta é uma obra que dá respostas a quem não faz parte desta área. “Macau está muito bem representada neste livro. Há um conjunto de pessoas entrevistadas que tem um trabalho muito relevante na área da arquitectura e estudos urbanistas e que ganham voz nesta publicação. Qualquer pessoa que procure ou queira fazer um trabalho de investigação sobre Macau nestas áreas tem neste livro muitas fontes e pistas e um suporte importante para desenvolver esse trabalho.”

Acima de tudo, a obra contém “visões e abordagens muito distintas sobre temas diferentes”, sendo uma das qualidades do livro, defende Tiago Quadros.

3 Out 2019

Arquitectura e Urbanismo | Novo livro sobre Macau apresentado em Portugal 

“Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade” é o resultado de uma união de estudos dispersos e entrevistas sobre várias questões que habitam o mundo do urbanismo e da arquitectura da Macau contemporânea. O livro, editado pela Circo de Ideias, do Porto, foi coordenado pelos fundadores da BABEL, Tiago Quadros e Margarida Saraiva

 
Foi apresentado esta segunda-feira, na cidade do Porto, em Portugal, o livro “Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade”, editado pela Circo das Ideias e coordenado pelos fundadores da plataforma cultural BABEL, o arquitecto Tiago Quadros e a curadora Margarida Saraiva.
A obra reúne entrevistas realizadas a Nuno Cera, que realizou uma residência artística na Casa Garden com o apoio da Fundação Oriente, e outros nomes fortemente ligados à realidade urbana do território, como é o caso de Hendrik Tieben, Thomas Daniell, Mário Duque, Wang Weijen, Diogo Burnay, Jianfei Zhu, Jorge Figueira, Werner Breitung e Pedro Campos Costa.
Ao HM, Tiago Quadros contou mais detalhes de um projecto que começou a ser pensado em 2013. “Havia a noção de que muito do conhecimento produzido sobre Macau, ao nível da arquitectura e estudos urbanos, estavam extremamente disseminados nos países de origem dos autores. Quisemos com isto reunir os autores desses estudos e tentar fixar esse conhecimento no mesmo livro.”
A obra faz-se não apenas do contributo de arquitectos mas também de urbanistas e académicos. O contributo do artista Nuno Cera acabou por surgir de forma espontânea depois da sua presença em Macau, recorda Tiago Quadros.
“A dada altura as coisas começaram a acontecer de modo natural e pensámos que seria interessante que parte do trabalho do Nuno fosse incluído quase como um ensaio natural mas existindo como um corpo próprio, e não apenas como ilustração das entrevistas.”
Na apresentação do livro estiveram presentes o fotógrafo José Maçãs de Carvalho, que tem vindo a desenvolver inúmeros projectos em Macau e Hong Kong, e o arquitecto Bernardo Amaral, que viveu no território.

As problemáticas

Em “Macau: Diálogos sobre Arquitectura e Sociedade” é contada a história do desenvolvimento urbano do território nos últimos anos. “O livro procura ter uma abordagem retrospectiva das últimas décadas, e consegue fazer isso com as intervenções do Diogo Burnay, que fala muito dos anos 60 e 70. Mas depois procura também ter uma abordagem prospectiva em relação aquilo que vai acontecer no futuro próximo e quais serão as expectativas.”
Neste campo, entram problemáticas como o espaço público e “a importância que tem e deveria ter numa cidade como Macau, onde a cultura local está muito orientada para o usufruto da população desse mesmo espaço publico, que é muito desqualificado”, apontou Tiago Quadros.
Jorge Figueira apresenta ainda uma “abordagem mais contemporânea sobre a produção teórica que fez sobre Macau nos últimos anos, cruzando várias questões como a arquitectura e filosofia, muito sobre a produção caleidoscópica produzida pelos casinos em Macau.”
O livro aborda ainda a problemática da habitação, como aponta Tiago Quadros, que dá como exemplo o desenvolvimento na zona do COTAI. “O plano do COTAI incluía a criação de áreas de habitação pública, que depois foi colocada em zonas mais periféricas como Seac Pai Van. Tem havido uma pressão muito grande por parte da população e o Governo assume que quer fazer, mas na verdade muito poucas soluções têm sido avançadas.”
São também abordadas questões como a preservação do património e a arquitectura dos casinos, que “têm um efeito natural na vida do seu público”.
Tiago Quadros assume que esta é uma obra que dá respostas a quem não faz parte desta área. “Macau está muito bem representada neste livro. Há um conjunto de pessoas entrevistadas que tem um trabalho muito relevante na área da arquitectura e estudos urbanistas e que ganham voz nesta publicação. Qualquer pessoa que procure ou queira fazer um trabalho de investigação sobre Macau nestas áreas tem neste livro muitas fontes e pistas e um suporte importante para desenvolver esse trabalho.”
Acima de tudo, a obra contém “visões e abordagens muito distintas sobre temas diferentes”, sendo uma das qualidades do livro, defende Tiago Quadros.

3 Out 2019

Projecto do atelier de Rui Leão na mostra “100 Arquitectos do Ano” em Seul

Um projecto do atelier de Macau LBA Arquitectura e Planeamento, do português Rui Leão, foi seleccionado para a mostra “100 arquitectos do ano”, organizada pela União Internacional de Arquitectos (UIA) e a decorrer este mês, em Seul.

Contactado pela agência Lusa, o arquitecto sublinhou “a importância deste tipo de reconhecimento” para Macau, “uma cidade de turismo e de património”, que para defender “esta narrativa” deve também erguer-se como “uma cidade de arquitectura”.

Sobre o projecto, uma subestação desenhada para a Companhia de Electricidade de Macau (CEM), Rui Leão defende “que contesta a mensagem de que este tipo de infraestruturas são importantes no desenho da cidade”, mesmo que a interacção humana seja “baixa ou nula”.

“Normalmente estes edifícios de infraestrutura, por uma razão ou outra, são menos tidos como boa arquitectura. Há um bocado a noção, o conceito de que o lugar da arquitectura é nos equipamentos públicos, museus, assembleias”, apontou.

“O público não usa o edifício, mas não é razão, nunca deveria ser, para não ser desenhado com nobreza”, acrescentou o também presidente do Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP).

O projecto “PSS4” garante a Rui Leão e Carlotta Bruni, co-fundadores da LBA, a segunda presença na mostra anual organizada pelo UIA e o Instituto Coreano de Arquitectos (KIA), que este ano decorre entre 20 e 26 de Setembro em Seul.

Em 2017, o atelier ganhou destaque na capital sul-coreana com um projecto de habitação social na zona do Fai Chi Kei, encomendado pelo Gabinete para o Desenvolvimento de Infraestruturas de Macau.

Este novo reconhecimento é, assim, um “encorajamento ao esforço de não fazer um projecto só para responder a um programa, mas que tenha preocupações de responder ao contexto urbano”, salientou o arquitecto.

Para Macau se erguer como uma cidade de arquitectura, “é preciso construir o património do futuro”, disse.

9 Set 2019

Projecto do atelier de Rui Leão na mostra "100 Arquitectos do Ano" em Seul

Um projecto do atelier de Macau LBA Arquitectura e Planeamento, do português Rui Leão, foi seleccionado para a mostra “100 arquitectos do ano”, organizada pela União Internacional de Arquitectos (UIA) e a decorrer este mês, em Seul.
Contactado pela agência Lusa, o arquitecto sublinhou “a importância deste tipo de reconhecimento” para Macau, “uma cidade de turismo e de património”, que para defender “esta narrativa” deve também erguer-se como “uma cidade de arquitectura”.
Sobre o projecto, uma subestação desenhada para a Companhia de Electricidade de Macau (CEM), Rui Leão defende “que contesta a mensagem de que este tipo de infraestruturas são importantes no desenho da cidade”, mesmo que a interacção humana seja “baixa ou nula”.
“Normalmente estes edifícios de infraestrutura, por uma razão ou outra, são menos tidos como boa arquitectura. Há um bocado a noção, o conceito de que o lugar da arquitectura é nos equipamentos públicos, museus, assembleias”, apontou.
“O público não usa o edifício, mas não é razão, nunca deveria ser, para não ser desenhado com nobreza”, acrescentou o também presidente do Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP).
O projecto “PSS4” garante a Rui Leão e Carlotta Bruni, co-fundadores da LBA, a segunda presença na mostra anual organizada pelo UIA e o Instituto Coreano de Arquitectos (KIA), que este ano decorre entre 20 e 26 de Setembro em Seul.
Em 2017, o atelier ganhou destaque na capital sul-coreana com um projecto de habitação social na zona do Fai Chi Kei, encomendado pelo Gabinete para o Desenvolvimento de Infraestruturas de Macau.
Este novo reconhecimento é, assim, um “encorajamento ao esforço de não fazer um projecto só para responder a um programa, mas que tenha preocupações de responder ao contexto urbano”, salientou o arquitecto.
Para Macau se erguer como uma cidade de arquitectura, “é preciso construir o património do futuro”, disse.

9 Set 2019

Arquitectura | Governo aceita propostas para bienal de urbanismo em Shenzen

O Instituto Cultural (IC), em colaboração com a Associação dos Arquitectos de Macau e o Instituto de Planeamento Urbano de Macau, está a aceitar projectos a fim de serem seleccionados para a presença no Pavilhão de Macau na “8.ª Bienal Bi-citadina de Urbanismo/ Arquitectura de Shenzhen e Hong Kong (Shenzhen) 2019”.

De acordo com um comunicado oficial, as propostas podem ser entregues até ao dia 6 de Setembro, podendo ser apresentadas de forma individual ou em grupo. O objectivo, de acordo com o IC, é “reforçar a cooperação entre Macau e Shenzhen, promover o intercâmbio cultural entre Macau e o mundo exterior e dar a conhecer melhor aos residentes de Macau as tendências culturais no âmbito do urbanismo e da arquitectura, a nível nacional e internacional”.

Dedicada ao tema “Interacções Urbanas”, a bienal deste ano terá lugar em Dezembro de 2019 na Estação Ferroviária de Alta Velocidade de Futian (Shenzhen) e em demais locais de exposição nas proximidades. A ideia é partilhar com um público mais abrangente o crescente processo de interligação global e integração regional, incluindo os fenómenos de ligação e integração na Região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.

A bienal é organizada em Shenzen, desde 2005, e é a única a nível mundial dedicada exclusivamente à temática da cidade, contando já com sete edições, no âmbito das quais foram expostas mais de 1.155 obras provenientes de todo o mundo e organizados mais de 900 eventos e fóruns, atraindo assim mais de 1,65 milhões de visitantes.

9 Ago 2019

Plano director

O arquitecto veio a correr escada acima, atropelando a porta, a rugir que a obra estava toda malfeita. Que não era nada daquilo que vinha nas plantas que me tinha dado ou nos modelos tridimensionais que tínhamos passado a pente fino no seu computador e aprovados pelo município. Eu achei impossível e disse que ia com ele. Ainda a semana passada a vistoria tinha sido feita pela sua equipa, eu passo lá todos os dias ao fim da tarde e não me pareceu ver nada fora do lugar, aliás, não havia tempo para realizar uma transformação assim tão profunda e radical que levasse àquela algazarra. Por isso, achei que ele estava a ser demasiado meticuloso e que um desvio de alguns decímetros que fosse não seria caso para tanto chinfrim.

Tentei acalmá-lo, mas não me deu ouvidos. Passámos por cima da porta, ele pediu-me desculpa pelo sucedido e lá fomos. Estava exaltado como nunca o tinha visto, parecia até outra pessoa, completamente esbaforido, com outro tom de pele, que desalinhava toda a sua figura. Ele que primava pelo recato. A cara então parecia estar a entrar em estado de combustão. “Isto não pode ser!”, dizia. “Não é possível! Como permitiu?”

O edifício ficava numa zona de relevo irregular, traçado sobre a encosta de uma colina escarpada, aligeirando as diferenças entre as curvas de nível como uma volumetria de luva. Tinha uns andares mais em baixo e outros a um nível superior, como qualquer edifício, que acompanhavam as linhas da encosta, mas nos quais não se podia determinar qual era o piso térreo. Nos pontos altos deslocámos algum do terreno e fizemos aplanações. Transladámos o verde autóctone. Fizemos interligações à superfície e perfurámos alguns túneis que acolhiam escadarias várias, a escoltar toda a rede eléctrica, as canalizações e fibras ópticas e todo o mundo paralelo da malha de esgotos, das caixas para a circulação de ar e do aquecimento central. Por cima, um sem-fim de telhas solares e zonas ajardinadas no topo da construção e nas paredes laterais. O uso de materiais ecológicos e a toxicidade de toda a estrutura tinham sido definidos há muito e eram o pré-requisito principal no caderno de encargos. O plano era uma construção limpa e orgânica, que se imiscuísse na natureza sem ferir tanto o ambiente como a paisagem.

Era um edifício e peras. O traçado era enraivecido e singular, inovador em muitos aspectos e auto-sustentável na eficiência energética. A sua abertura iria mudar por completo o figurino da nossa pequena urbe, em termos visuais, de habitação e nos elementos que iria acrescentar ao quotidiano da população. Estava tudo a correr como planeado, com os prazos cumpridos à risca. A satisfação era plena. Mas quando lá chegámos e me deparei com a situação, quase que ia tendo um ataque. Deitei a primeira porta que vi abaixo e desatei por ali aos gritos. Não faltava muito para explodir e entrar em combustão. A minha figura toda desalinhada.

Tentei tranquilizar-me. Olhei para o arquitecto, para o mestre da obra, para os pedreiros e carpinteiros que se encontravam no local. Para o operador da buldózer estacionada no topo da colina que, quase a chegar à hora de almoço, abria a sua marmita, preparada em casa por uma companheira inquieta, tentando concentrar-se noutra coisa que não a realidade que tinha à sua frente. Todos de igual modo estarrecidos com a situação, nenhum deles tinha um esclarecimento e nem se atreviam a alvitrar o que quer que fosse. Gritaram, ao princípio, como os demais, mas depois, dada a complexidade do acontecimento, deixaram que o silêncio lhes tomasse conta do goto. Não havia outra forma de encarar aquilo, senão com a mudez e o benefício da meditação pura.

Visualmente, era impossível de descrever. À primeira vista, poderia supor-se que o edifício tinha sido acometido por uma doença ou um fungo gigantesco, encontrando-se por isso metastizado. O próprio empreiteiro não sabia como continuar com a obra, nem que ordens dar aos seus empregados. De mãos na cabeça revirava os olhos e olhava para as plantas de pormenor, tentando encontrar aquela distopia desenhada no traçado original. Como se por baixo existisse um plano mestre desenhado a lápis que tinha sido sobreposto à rectidão das linhas técnicas. Escondido nas cofragens, nas caixas de electricidade ou nas anotações para o reboco. Não dava conta de si e exasperava-se, ao mesmo tempo que procurava dissimular a sua exaltação. Um homem é de ferro, pensava, enquanto engolia mais uma baforada de ar.

Decidimos reunir na tarde seguinte, para que pudéssemos encontrar uma solução ou tão-pouco uma pequena desculpa para aquele curto-circuito. Acolhidas as coisas, assim à primeira vista, e de modo intuitivo, o facto que decorria desse olhar ignaro era de que o edifício tinha ganho uma vida própria. À roda de uma mesa, cada um divagou por teorias inventivas, repuxando a sua criatividade ao extremo, para que se encontrasse algum pequeno fio perdido no canto da sala, que levasse a uma equação mínima de bom senso por onde pudéssemos prosseguir. Sim, a edificação era agora uma criatura. Ninguém usou o termo monstro, por um lado porque o dicionário se tornara curto; por outro, porque a beleza – também não seria bem esse o termo a empregar – permanecia na essência da composição resultante. De resto, falámos e ouvimos, mas continuámos na escuridão. A casa estava viva.

Como se por baixo existisse um plano mestre desenhado a lápis que tinha sido sobreposto à rectidão das linhas técnicas. Escondido nas cofragens, nas caixas de electricidade ou nas anotações para o reboco.

Era complexa a vida, olhávamos para o céu e procurávamos na luz, um motivo que nos indicasse a razão de estarmos ainda ali. Vivos e a respirar. De um momento para o outro, até o simples trolha, que dias antes salivava por uma estagiária que passava perto dos seus andaimes, se tornara um filósofo. Fazia contas à vida, remastigava a sua existência. Tentava encontrar uma abertura de evasão para outra realidade, que não aquela de gritar para uma mulher bonita, como um regedor troglodita, se “aquilo” era tudo dela. Não se podia induzir apenas pela hipnose que tinha entre as pernas, não era um animal, e o seu cérebro não podia estar castigado na ponta dos braços. Era preciso agir de outra forma. Essa era a única conclusão a que todos tínhamos chegado. Nenhuma outra era mais clara.

Para tornar o processo de avaliação rigoroso era necessário analisar o problema com profundidade. Como tal, instalámos uma série de câmaras de vigilância, entre outros instrumentos de telemetria, para reunir dados precisos para a investigação. Queríamos chegar à origem daquele tumulto, à espoleta da granada. O que nos era sugerido, algo também ventilado na reunião anterior, era o conceito de que ao tentarmos organizar aquela construção em sintonia com a natureza a tínhamos plantado. Ao abrirmos as fundações, a escavadoras estavam a acamar a semente; ao elaborarmos a malha de ferro e vertermos o betão nos moldes, estávamos a iniciar um processo de irrigação que ignorávamos por completo. Como uma árvore, os alicerces desprenderam-se da sua massa corpórea e lançaram sinais para os outros seres em proliferação por baixo do solo. O edifício pejado de verde autóctone e de fibra óptica enraizava-se no subsolo e nutria-se, ganhando viço. Crescendo numa biossíntese de betão armado e vidro e provido de metabolismo próprio.

As imagens recolhidas não nos deram sequer uma vereda por onde entrelaçar os sentidos. O ADN arquitectónico saltou para os escaparates e era agora uma ciência discutida por todo o mundo. O evento tinha sido elevado aos antípodas e depressa se tentou replicar noutros lugares, ainda sem sucesso, a ocorrência na nossa terra, sendo o motivo de inúmeras teses e capas de revista. Sim, aquela obra mudara por completo o figurino da nossa pequena urbe. A todo o momento, sujeito à imprevisibilidade do tempo, surgia uma nova janela, um adelgaçar dos tectos, um andar dissimulado. Não pudemos inaugurá-lo, nem dar-lhe a vida interior que organizáramos nos fundamentos do plano, mas em termos visuais era uma peça única, que nos enchia de orgulho. Era mais do que uma num milhão, era o supra-sumo da arquitectura e da engenharia. Da ordenação e da estética. Do acto divino da criação. Onde se encontrara o Santo Graal que ordenava o Homem no espaço e na sua natureza, em composta melodia celular. Mais, era impossível de ambicionar.

No fundo, estava tudo a correr como planeado.

20 Jun 2019

Jun Jiang, urbanista: “Em Pequim vive-se entre a Terra e o Céu”

Jun Jiang esteve em Macau como orador na palestra “On Home”, promovida pela Docomomo Macau, para debater o papel da curadoria aplicada à arquitectura. Ao HM, o urbanista falou dos desafios da arquitectura moderna na China e do seu desenvolvimento nos últimos anos. Jun Jiang foi ainda o fundador da primeira revista de análise do desenvolvimento urbanístico no continente, a Urban China

 

Como vê a evolução da arquitectura na China?

Há uma espécie de confusão ou mesmo contradição na arquitectura moderna chinesa que oscila entre conceitos mais actuais e outros mais antigos. No entanto penso que se começa a chegar a um modelo capaz de unir as divergências, tendo em conta não apenas a concepção de arquitectura enquanto forma de arte, mas numa perspectiva que vai além da própria forma, em direcção ao chamado imaginário. Digamos que existe uma divergência entre as tendências que vêem o espaço e o tempo como conceitos absolutos e as que colocam estes conceitos em termos de relatividade. Originalmente, as características chinesas arquitectónicas como as que existem nas fachadas ou nos telhados eram facilmente identificáveis pela forma. Mas, descobriu-se que quando estas formas eram combinadas com o betão moderno, resultavam numa mistura desastrosa. No entanto, foi possível olhar para as características chinesas de outra forma, abrindo possibilidades. Tudo começou com a ida de um historiador japonês à China em 1905 dando origem a um livro publicado nos anos 30 sobre a história da arquitectura chinesa. Este historiador foi à cidade proibida em Pequim e descobriu que o maior buda que ali existia era mais pequeno do que aquele que ele conhecia no Japão. Contudo, a sensação que teve e que escreveu foi outra: O buda da cidade proibida, apesar de menor, era mais forte e com maior grandeza. A questão estava em saber porquê. Aquele buda fazia parte de uma construção maior em que estavam presentes outros que variavam de dimensão, de maiores a mais pequenos. Estando englobado num cluster, este buda parecia maior do que o que era. Quando falamos de  cluster queremos dizer que todas as coisas se juntam dentro de um campo. E este campo é relativo, não é absoluto, o que significa que temos comparações e relatividade entre os seus elementos. Na arquitectura moderna, um arranha céus pode ser pensado enquanto um cluster, como se fosse, por exemplo, uma montanha. O cluster permite ter a qualidade da mudança contínua dentro de uma constante, de um mesmo lugar. Tendo em conta esta possibilidade, eu posso estar sempre numa posição de curiosidade sobre o que vou ver a seguir. Esta é também a ideia dos jardins chineses, em que um determinado espaço esconde sempre um segredo que faz com que as pessoas se sintam curiosas e que pode ser materializado em fontes, altos e baixos ou pequenas montanhas. Ao passar esse “segredo” aparece outro e quando se olha para trás, olha-se para um outro tempo, anterior, e isso apresenta-se como um novo espaço relativo. Toda esta ideia está por detrás da construção. É o chamado padrão da sequencia diferencial, ou seja um padrão que varia sempre dentro de uma sequência que se mantém constante. Isto vai além da forma e é tipicamente chinês.

Esta noção é transportada para a arquitectura moderna?

Não toda, mas depois de 100 anos de exploração os arquitectos chineses descobriram que esta concepção seria a saída do impasse na conjugação de elementos. Não podemos chamar esta concepção de tradicional mas sim de pré-moderna e os seus fundamentos têm ainda agora o seu valor universal. Podemos ter isto aplicado a novos materiais e a novas construções.

Podemos dizer então que a arquitectura chinesa actual ainda tem bases fortes na tradicional?

Acho que esta é uma característica que pode pertencer ao mundo. Quando olhamos para a arquitectura tradicional chinesa temos a madeira e a estrutura, a moldura, que a suporta. Se tirarmos a madeira podemos substitui-la por outros materiais, como o aço ou o betão e ainda assim funciona. Mas o uso da madeira também significa que uma casa pode ser construída apenas por uma pessoa usando as suas mãos. Já com cimento isso não é possível. Mas talvez seja possível faze-lo com aço. E isto é o que está a começar a acontecer nos EUA ou na Europa em que cada vez mais pessoas constroem a sua própria casa. E de alguma forma esta metodologia vem da forma chinesa de construção. Mas o sistema arquitectónico chinês tem diferentes dimensões.

E quais são elas?

São quatro. A primeira tem que ver com a  relação entre o ser humano e a natureza, também conhecido por Fengshui e diz respeito à escolha do local de construção e como coordenar a arquitectura do edifício com a natureza circundante, incluindo a luz, o vento, a água e a orientação. O segunda dimensão diz respeito à construção, que acabámos de falar e que engloba os materiais, a estrutura e a própria forma de edificar. A terceira é o plano que tem em conta o padrão da sequência diferencial em que a construção é planeada em cluster. Aqui a ideia é ter diferentes espaços, uns cheios e outros vazios. O espaço cheio, na física quântica significa o objecto e o vazio, o campo, ou então, num lugar está a partícula e no outro está a onda, um é massa e outro é energia. Quando estas duas entidades ficam frente a frente, o espaço entre elas é distorcido pelo magnetismo e é quando alguma coisa acontece. Finalmente há a dimensão de jardim, em que se combina o plano com a relação entre a natureza e o ser humano numa utopia, numa natureza artificial em que as pessoas vivem. No jardim as pessoas podem criar um tempo ilimitado num espaço limitado. A arquitectura moderna utiliza este sistema de quatro dimensões. Arquitectos como o conhecido Wang Zhu estão a usar este sistema em que a arquitectura e a construção têm por base o trabalho manual enquanto o jardim se apoia no trabalho intelectual.

Falou do Fengshui. Qual a sua aplicação em termos urbanos?

Pequim é planeado de acordo com o Fengshui . É uma cidade situada muito perto da chamada “coluna do dragão” da China que separa o país em duas partes, a rica e a pobre. Por exemplo se alguém viver em Hangzhou está demasiado longe da parte mais pobre. O que é que isto significa? As pessoas ali, mais ricas, são muito egoístas, mais acomodadas e sem vontade de explorar, vivem já na “utopia”. Por outro lado, as pessoas das zonas mais pobres tendem a ser mais exploradoras a ir para outros lados. Podemos dizer que em Pequim se vive entre a Terra e o Céu.

Actualmente, como é o desenvolvimento da arquitectura no país?

O padrão da cidade é grandemente influenciado pelo padrão económico. Depois de 2005, o ano da reforma monetária na China, entrou muito dinheiro no país. Abrir as portas à moeda estrangeira era um dos requisitos da entrada da China na Word Trade Organization. Esta moeda fazia parte da reserva financeira de moeda estrangeira, era trocada em renminbi e ia para o mercado. Para absorver este dinheiro novo, a China começou usar o investimento imobiliário, com a construção e uso de terra. Havia várias hipóteses de direccionar este dinheiro: podia ser para  mercado da bolsa, para os bens de consumo diário e para a área da habitação e terra. O Governo decidiu que a maior parte iria para esta última. Os preços do imobiliário aumentaram muito. Por causa desta opção, o continente vive uma situação semelhante ao mercado liberal de Macau e de Hong Kong, em que o planeamento é muito influenciado pela demanda económica, pelo desejo, em que qualquer pedaço de terra tem que render dinheiro. Mas depois de 2017, a China lançou uma nova zona económica, Xiongan muito próxima de Pequim. É um projecto muito pequeno, tem uma população estimada em dois milhões de pessoas e é baseado num novo modelo financeiro: o industrial.

E como é que este modelo influencia a arquitectura?

Depois de Xiongan, o investimento imobiliário terminou. Não se pode comprar uma segunda casa, não se consegue empréstimos, se se for estrangeiro não se consegue fazer o registo para compra de casa, etc. Como tal, todo o sistema financeiro associado às terras e imobiliário está quase congelado. Mas o dinheiro que foi para este mercado, não sai. Não colapsou, não houve descidas de preço, mas não mexe, nem para cima nem para baixo. Isto significa que o dinheiro, depois de tantos anos a entrar, neste mercado da terra, está parado. Não se pode ir buscar. Por outro lado, parte deste dinheiro acabou por reverter para os Governos locais porque 20 a 40 por cento do valor da terra vai para o Estado. Fizeram dinheiro com a terra e transferiram esse dinheiro para a construção de infra-estruturas: Auto-estradas, comboios de alta velocidade, aeroportos, electricidade e agora o desenvolvimento da tecnologia 5G. A arquitectura não está ligadas às infra-estruturas mas é grandemente beneficiada. Por exemplo, na China em 2006 a 2013 houve um movimento chamado as novas aldeias socialistas em que estas infra estruturas foram alargadas a áreas rurais. Por outro lado, foram criados projectos rurais em que o investimento financiava as domésticas o que fez com que os locais tivessem mais poder de compra. Com isso os arquitectos começaram a ter mais trabalho também. A renovação destas áreas inclui ainda a construção e hotéis por exemplo, e de edifícios tradicionais, ou seja, mais oportunidades para a arquitectura.

Como vê o desenvolvimento urbanístico de Macau?

Macau tem um problema semelhante a Hong Kong. São territórios monopolizados pelo mercado à volta dos terrenos e do imobiliário. Mas Macau tem ainda os casinos. Toda a gente trabalha nalguma coisa associada ao jogo. O Governo já gastou muito dinheiro para diversificar a industrias aqui mas não parece a estar a resultar. Para mim o jogo não traz valor ao território. Trata-se de uma política especial que Macau tem e da qual não pode depender para sempre. O jogo está também ligado a várias indústrias ilegais como o tráfico de drogas e a prostituição. Um país como a China não vai tolerar isto para sempre. Penso que o jogo não terá um futuro eterno aqui. Mas esta é a minha opinião pessoal. Por outro lado, Macau deveria ter um turismo multidimensional, uma cultura virada para o desenvolvimento do turismo a longo termo, mais do que aquele que é virado para o visitante do jogo.

Tendo em conta o forte papel do jogo actualmente e ao qual é inevitável fugir, o que poderia ser feito para usar a indústria de modo a desenvolver o planeamento da cidade e sua arquitectura?

Isso seria possível. Poderia ser mesmo uma revelação, saber como estas empresas ligadas ao jogo fiquem menos orientadas apenas para as apostas. Por exemplo, 40 por cento das receitas da indústria vai para o Governo, mas talvez esta proporção deva mudar e ser maior até porque acredito que destas receitas só uma pequena parte é usada para beneficio público, e talvez 30 por cento delas vão para lado nenhum. No futuro deveria existir uma supervisão desta aplicação do dinheiro. Com esta aplicação de montantes maiores vindos das indústrias ligadas a actividades menos lícitas pode acabar por conseguir financiar, talvez, outras actividades, com mais benefícios para o território, e fazer com que se desenvolvam.

Como encara o projecto da Grande Baía?

Já existem várias zonas como esta no continente, pelo menos três. A de Xangai tem uma orientação para o Pacífico, para as Coreias e mesmo para o Japão. Está virada para o mundo de frente e por trás tem toda a China. Mas  a Grande Baía está virada para a sudeste asiático, o que pode ser uma porta no mar do sul da China. Isto pode ser uma oportunidade tendo em conta a produção de muitos bens de consumo naquela área. Depende de como for usada. Mas também tem vantagens. É uma área que implica regiões politicas diferentes contando com as regiões autónomas especiais. A par destas regiões políticas temos as regiões económicas. No entanto, são regiões que não se ouvem entre si. A cidade mais bem sucedida da Grande baía é claro, Shengzhen que vai ser a cidade dominante da região. Hong Kong é uma cidade preguiçosa. É rica porque aproveitou o meio século em que foi o único porto da China proibida sendo a porta entre o mundo e o continente. Shengzhen beneficiou de varias regiões da China. Tem o factor intelectual com a chegada de muitos intelectuais na altura de Mao, e tem o desenvolvimento tecnológico. Também é uma cidade dominada pela cultura do norte da China. Todas as outras regiões da Grande baía, são dominadas pela cultura do sul que é menos aberta. Talvez porque no norte se está mais próximo de Pequim, uma capital que viu as mudanças de imperadores e dinastias. As pessoas de Pequim têm uma mente mais política e também mais aberta mais dirigida à mudança, e as pessoas de Zhengzhen tem mais este tipo de mindset.

Macau tem alguma oportunidade?

Macau é muito pequeno. É verdadeiramente pequeno, o que traz muitos problemas. Penso que Macau pode ter um papel na forma de ligar os países de língua portuguesa.

21 Mai 2019

Arquitectura | I. M. Pei desapareceu aos 102 anos sem esquecer a pátria-mãe

I. M. Pei deixou a sua marca no mundo e depois voltou à China para fazer o círculo completo. Após um século de vida e de arquitectura, a sua impressão digital ficou no lugar dos seus afectos: o Museu de Suzhou

 

O desaparecimento do arquitecto de referência mundial Ieoh Ming Pei, no passado dia 17 de Maio, aos 102 anos, não é só uma perda para a classe, mas para a humanidade, fazendo justiça ao conjunto de obras que ergueu e à importância do seu legado, de rupturas harmónicas entre o passado tradicional e a urbanidade moderna, desde os Estados Unidos da América ao Extremo Oriente, passando pela Europa e pelo Médio Oriente.

As obras mais emblemáticas são as bem conhecidas pirâmides de vidro (1989) e a reconstrução da nova ala (1993) do Museu do Louvre em Paris, o edifício leste da National Gallery of Art (1978) em Washington, D.C., as torres Gateway (1991) de Singapura ou, aqui muito perto, o Banco da China (1989) em Hong Kong. Este foi o arranha-céus mais alto do mundo, entre 1989 e 1992, e o desenho da sua estrutura, em diagonais, consegue fintar a força dos ventos e das monções.

A qualidade do trabalho de Pei é extensa e impressionante, laureada com diversas honras e prémios ao mais alto nível, tais como o ‘Pritzker’ de arquitectura em 1983.

Para o arquitecto Rui Leão, I. M. Pei “era um homem inteligentíssimo, que teve sempre um papel bastante interveniente nos projectos que desenvolveu e na relação com os lugares em volta.

Como já disse outras vezes, na arquitectura era um homem capaz de tocar todos os instrumentos, fazendo sempre coisas diferentes e muito bem feitas”. Algumas das suas preferências são a extensão do Louvre em Paris, a National Gallery de Washington, mas também os mais antigos The Luce Chapel em Taiwan, ou o Mesa Lab do Colorado.

A carreira profissional de Pei tem um valor especial nesta região do mundo, onde o arquitecto sino-americano viria a deixar a sua assinatura, a última das quais no Centro de Ciência de Macau, um projecto de arquitectura em co-autoria com o atelier dos seus filhos.

I. M. Pei, como era conhecido, nasceu na cidade de Cantão em Abril de 1917, numa família de Suzhou, na província de Jiangsu, a cidade conhecida como a “Veneza Oriental”, pelos seus canais, pontes e jardins. Chegou aos Estados Unidos da América em 1935, para estudar engenharia arquitectónica na Universidade de Pensilvânia, Filadélfia e, mais tarde, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Formou-se em 1939, mas não voltaria a regressar à China, com o eclodir da 2ª Grande Guerra.

Ao continente chinês retornou, como arquitecto de reputação mundial, com o projecto do Fragrant Hill Hotel (1982), em Pequim, inaugurando no mesmo ano o Sunning Plaza (1982), em Hong Kong, que viria a ser demolido em 2013 para dar lugar a novas construções em Causeway Bay. Depois do Banco da China, em Hong Kong, Pei desenvolveria também o projecto da sede do Banco da China (2001) em Pequim.

Suzhou e os canais

Mas é na província de Jiangsu, a uma centena de quilómetros de Xangai, que I. M. Pei viria a imprimir o seu cunho mais pessoal e afectivo, já no século XXI. “Eu gostava de falar do Museu de Suzhou. Não é o primeiro edifício que ele faz na China, mas para mim tem uma história que representa de facto o seu regresso à China”, comentou o arquitecto Rui Leão, “por ser uma obra muito particular, que tem a ver com o revisitar da arquitectura chinesa e é uma coisa extremamente bem feita”.

A história do Museu de Suzhou, inaugurado em 2006, começou assim. “A municipalidade de Suzhou convidou I. M. Pei para [re]desenhar o museu de arte antiga [fundado em 1960], já ele tinha conquistado o estatuto de “star architect”, e construído o projecto do Fragrant Hills Hotel de 1982, em Pequim. Mas Suzhou é um lugar muito importante na China, porque era uma cidade aristocrática, onde estavam os ‘literati’, pessoas que vinham da carreira militar ou da corte, que eram os intelectuais chineses. É a cidade que tem a maior concentração de jardins privados e os mais bonitos. E este projecto tinha a importância de ser um sítio de reunião de todas as vertentes da arte chinesa – a pintura, a porcelana, etc”.

Só que Pei, embora ligado à cidade pelo afecto, não avançou de imediato. “Ele visitou Sizhou e encontrou a cidade bastante desorganizada. Disse então ao presidente da câmara que aceitaria fazer o museu se, e quando, a cidade resolvesse a questão dos esgotos – a rede de esgoto estava muito mal tratada e misturava-se com os canais [com mais 2500 anos] –, aquilo estava imundo e cheio de lixo”, contou o arquitecto de Macau.

Assim veio a acontecer. Anos depois, ao regressar a Suzhou, encontrou já uma cidade limpa e o esgoto arranjado. Pei concebeu o complexo museológico, “que é um projecto lindíssimo, porque revisita a arquitectura chinesa, mas com um sentido de grande liberdade a nível da escala dos espaços, da geometria e da tecnologia, ou seja, não é uma cópia, não é uma simulação de nada.

Tudo aquilo tem a ver com a percepção de como se pensam os espaços, como é que se traz a luz para dentro, como é que há espaços dentro de espaços, etc. São reflexões que ele fez sobre a arquitectura chinesa”, trazendo o seu ‘know how’ e criatividade para aquela obra especial.

O homem que procurou redefinir a arquitectura de uma China moderna, e várias vezes o conseguiu, em Suzhou viria a fazer o trajecto inverso, erguendo uma obra moderna e geométrica, com pontos de aproximação ao tradicional centro histórico, com estruturas das dinastias Ming e Qing. Integrar as linhas arquitectónicas foi o grande teste, sem comprometer o património classificado.

Para Rui Leão, também relevante “é ele não ter só desenhado o edifício, mas o facto de ele e a mulher terem sido os curadores da própria exposição e das peças do museu. Isso, na altura, foi muito importante: haver curadores que fossem independentes, de maneira que não houvesse uma percepção de que o conteúdo do museu pudesse estar relacionado com uma certa propaganda de Estado. Ele conseguiu dar à cidade de Suzhou, de uma forma extremamente integrada, inteligente e sábia, uma grande instituição, naquela cidade histórica feita de pequenas casinhas e de belíssimos jardins”.

O website site do Museu de Suzhou colocou, também por estes dias, uma imagem de tributo a I. M. Pei, com uma frase em que confessa: “Eu tenho carinho por este museu, porque lhe dediquei muito do meu amor e da minha energia”.

20 Mai 2019

Arquitectura | Manuel Graça Dias morreu aos 66 anos

Após luta contra um cancro no pâncreas, o arquitecto Manuel Graça Dias faleceu ontem no Hospital da Cuf, em Lisboa. Macau foi a cidade que o viu nascer para a arquitectura, enquanto colaborador de Manuel Vicente. Parte uma figura incontornável na forma como se pensam as cidades, um homem do seu tempo e um comunicador nato

Com agência Lusa

 

No dia em que fazia 66 anos, Manuel Graça Dias faleceu depois de uma luta inglória contra o cancro. O arquitecto que começou a carreira em Macau, ao lado de Manuel Vicente, deixou no território uma marca indelével, não só profissionalmente, mas também como pessoa.

“Era uma figura muito interessante por ser tão profundamente pós-moderno e representar uma contemporaneidade na maneira de perceber e de estar na vida e isso reflectia-se muito na sua arquitectura”, recorda o colega de profissão Rui Leão.

A ideia de um homem que marcou gerações é partilhada pelo também arquitecto Carlos Marreiros. “O Manuel Graça Dias era um arquitecto muito completo. A par do gosto pelo projecto, desenho e obra, ele teorizava muito, levantava questões, experimentava e dava uma dimensão muito criativa”, comenta.

Manuel Graça Dias nasceu em Lisboa, e licenciou-se em arquitectura em 1977 pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, iniciando-se, profissionalmente, no ano seguinte, como colaborador do arquitecto Manuel Vicente, em Macau.

Foi assistente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (1985-1996) e professor auxiliar da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (1997-2015), onde se doutorou com a tese “Depois da cidade viária” (2009). Era actualmente professor associado da mesma faculdade e professor catedrático convidado do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa, desde 1998, que também dirigiu, entre 2000 e 2004.

Grande comunicador

Criou, em 1990, em Lisboa, onde vivia e trabalhava, o ateliê Contemporânea, com Egas José Vieira. Manuel Graça Dias e Egas José Vieira propuseram uma abordagem aberta ao edifício do Teatro Luís de Camões, inaugurado em 1880 e que a Câmara de Lisboa reabriu, renovado, no dia 1 de Junho do ano passado, com a designação de LU.CA, especialmente direccionado para a programação infanto-juvenil.

A casa que recuperou em 1979, no bairro lisboeta da Graça, com António Marques Miguel, recebeu a Menção Honrosa Valmor/1983.

Obteve, ainda, o 1.º lugar no concurso para o Pavilhão de Portugal na Expo’92 em Sevilha, no sul de Espanha, bem como o 1.º lugar no concurso para a construção da nova sede da Ordem dos Arquitectos, nos antigos Banhos de S. Paulo, ambos com Egas José Vieira.

Foi também autor de artigos de crítica e divulgação de arquitectura em jornais e revistas da especialidade e, segundo a Universidade do Porto, era “solicitado para um vasto número de conferências, quer em Portugal quer no estrangeiro”. Graça Dias foi ainda autor do programa quinzenal “Ver Artes/Arquitectura” na RTP2 entre 1992 e 1996 e colaborador da rádio TSF e do semanário Expresso na área da crítica de arquitectura (2001/2006).

Esta valência de comunicador é destacada por Carlos Marreiros, que entende que o legado de Manuel Graça Dias ultrapassa o lado profissional. “Além da formação de muitos arquitectos portugueses enquanto professor universitário, tinha uma dimensão de educador. Escrevia para o grande público e partilhava ideias com uma audiência mais vasta”, elucida.

Obra por cá

Enquanto colaborador de Manuel Vicente, Manuel Graça Dias participou em projectos residenciais locais marcantes como as Torres da Barra e o Edifício 1980. Além de projectos arquitectónicos, assinou com Helena Rezende e Manuel Vicente o livro “Macau Glória – A Glória do Vulgar / The Glory of Trivia”, editado pelo Instituto Cultural em 1991. “É um grande contributo a nível de documentação e do desenho, é um trabalho muito importante que ele deixa para Macau”, comenta Rui Leão.

Na sua bibliografia consta ainda “Vida Moderna” (1992), “Ao volante pela cidade: 10 entrevistas de arquitectura” (1999), “O homem que gostava de cidades” (2001), “Arte, arquitectura e Cidade: A propósito de ‘Lisboa Monumental’ de Fialho de Almeida” (2011), e “Aldeia da Estrela: Sociologia e arquitectura ao serviço de uma população”, com Rodrigo Rosa e Egas José Vieira, (2015), entre outros.

Manuel Graça Dias foi também director do Jornal Arquitectos entre 2009 e 2012, assumiu a direcção da Ordem dos Arquitectos de 2000 a 2004 e, entre outras funções, foi comissário da representação portuguesa à VIII Bienal de Arquitectura de São Paulo (2009); com Ana Vaz Milheiro, da exposição “Sul África/Brasil”, para a Trienal de Lisboa/2010, tendo sido ainda Presidente da Secção Portuguesa da Association Internacional des Critiques d’Art, SP/AICA (2008-2012).

Enquanto pessoa, tinha “grande presença de espírito, um sentido de humor incrível que conseguia criar alegria no colectivo, era muito provocador e comunicativo”, revela Rui Leão acrescentando que Graça Dias era uma figura dotada de um entusiasmo contagiante.

Manuel Graça Dias tem trabalhos construídos em Almada, Braga, Chaves, Guimarães, Lisboa, Porto, Vila Real, Madrid, Sevilha e Frankfurt, e foi co-autor do “Estudo de Reconversão Urbana do Estaleiro da Lisnave”, em Cacilhas, no concelho de Almada.

O Teatro Municipal de Almada (Teatro Azul, 1998-2005), que projectou com Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias, foi nomeado para o Prémio Secil/2007, para o Prémio Mies van der Rohe/2007 e para o Prémio Aga Khan, 2008/2010. Manuel Graça Dias e Egas José Vieira ganharam o Prémio AICA/Ministério da Cultura de Arquitectura, de 1999, pelo conjunto da sua obra construída.

Em 2006, foi agraciado, pelo então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante D. Henrique (grau comendador).

26 Mar 2019

Arquitectura | Morpheus distinguido como edifício do ano pela Archdaily

Oedifício Morpheus da autoria de Zaha Addid foi galardoado com a distinção de edifício do ano na categoria de hotéis pela publicação online especializada em arquitectura Archdaily.

A competição anual promovida pela publicação internacional distingue os melhores projectos de arquitectura de acordo com 15 categorias que vão da arquitectura de edifícios hoteleiros, instituições de saúde, arquitectura de interiores, industrial de escritórios, edifícios públicos e comerciais, instituições culturais, escolas até a projectos de pequena escala.

Nesta edição, que assinala o 10.º aniversário dos prémios da Archdaily, coube ao Morpheus ser reconhecido como o melhor hotel.

Estiveram em competição mais de 4000 projectos que acabaram por ser reduzidos a 75 finalistas. A competição recebeu 80 000 votos.

Expressão contemporânea

O edifício Morpheus é assinado pela arquitecta Zaha Hadid, falecida a 31 de Março de 2016 e foi inaugurado no dia 15 de Junho de 2018. O hotel, quase sem colunas e suportado por um exoesqueleto que envolve o edifício, custou cerca de mil milhões de euros e está situado no Cotai. “Zaha Hadid e eu iniciámos conversações sobre o Morpheus em 2009 e partilhámos a mesma visão: criar uma nova maneira de expressar a vida contemporânea”, disse o director executivo da Melco, Lawrence Ho, filho do magnata do jogo de Macau Stanley Ho, quando foi anunciada, em Maio, a data da abertura do Morpheus.

O hotel desenhado pela britânica de origem iraquiana tem 772 quatros, incluindo suites e vilas e é destacado pela piscina no 40º andar, a 130 metros de altura. As vigas de metal e cimento curvilíneas, assinatura de Hadid, conhecida como a ‘Rainha das Curvas’, cobrem a estrutura de vidro, criando um efeito de rede. No centro do paralelepípedo há três buracos, aquilo a que os arquitectos chamam a zona “free form”, que não obedece a nenhuma forma geométrica. “Inspirado em objectos de jade, a sua forma complexa desafia a física de uma forma sem precedentes”, de acordo com um comunicado do grupo emitido na altura de inauguração do hotel.

A Capela da Imaculada e Cheia de Graça , em Portugal levou o galardão para melhor edifício religioso e na China forma premiados, na categoria de melhor instalação de saúde, o Weihai Hospital of Traditional Chinese Medicine, e na categoria de construção ao ar livre, o UCCA Dune Art Museum.

 

14 Mar 2019

Livro | A história, a arquitectura e a funcionalidade do edifício-sede dos Correios

O aniversário da abertura do edifício-sede dos CTT há 88 anos foi escolhido para tema central das comemorações dos 135 anos dos Correios. A história, o traço arquitectónico e a funcionalidade do emblemático prédio, localizado no coração da cidade, foram vertidas para um livro lançado na sexta-feira, intitulado “Edifício-Sede dos CTT – História, Arquitectura, Funcionalidade”

Corria o ano de 1931 quando o edifício-sede dos Correios, Telégrafos e Telecomunicações (CTT) abriu finalmente ao público. Projectada no tempo da Primeira República Portuguesa, foi uma das obras mais debatidas no século XX em Macau, levando quase duas décadas a ganhar forma, devido a uma panóplia de vicissitudes políticas e técnicas. Oitenta e oito anos depois da abertura, o imponente edifício, classificado como Património Mundial pela UNESCO, deu o mote para um livro, uma exposição fotográfica e uma emissão filatélica.

“Tendo o número 88 um significado auspicioso na cultura chinesa, escolhemos o edifício-sede como tema central das actividades comemorativas dos 135 anos dos Correios”, realçou a directora dos CTT, na cerimónia do triplo lançamento, que decorreu na sexta-feira. O livro, intitulado “Edifício-Sede dos CTT – História, Arquitectura, Funcionalidade”, reúne um largo conjunto de fotografias, muitas delas inéditas e constitui “um documento de referência”, complementou Derby Lau.

Foi, aliás, a partir da “significativa colecção de fotografias, muitas inéditas, datadas dos anos 40 e 50 do século XX” que nasceu a ideia de dar à estampa um livro dedicado ao edifício-sede dos CTT que, apesar de integrar o conjunto do Centro Histórico de Macau, “até hoje não tinha merecido qualquer estudo de relevo”, explicou Helena Vale da Conceição, coautora do livro, a par com o arquitecto Nuno Rocha. “Porque os CTT se orgulham de ter por sede um edifício Património da Humanidade, considerámos ser nosso dever fazer justiça a estas instalações que, paralelamente ao seu valor arquitectónico, ao longo de mais de oito décadas, têm sido espaço de importantes e determinantes serviços para o desenvolvimento económico, social e cultural de Macau”, realçou, em declarações ao HM.

O livro divide-se em três partes – história, arquitectura e funcionalidade – propondo um “olhar mais atento” sobre um edifício que tem sido relegado para “um lugar secundário na história da arquitectura de Macau”, mas que emerge “como a última grande obra do ecletismo macaense”, diz a obra. O edifício-sede dos CTT, concebido de raiz para o efeito, figura também como um “testemunho histórico”, sinaliza o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, no prefácio, recordando que foi construído numa época de “grandes mudanças”, desde o rasgar da Avenida Almeida Ribeiro ao fecho da Baía da Praia Grande e início da construção dos Novos Aterros do Porto Exterior (NAPE).

 

A autoria

Se a data de abertura do edifício-sede dos CTT, resultado de um “longo e complexo” processo de decisão política e concepção técnica, não podia ser mais clara, desde logo pela inscrição em numeração romana que exibe a fachada, o mesmo não se pode dizer da autoria do projecto. Ao longo dos anos, “diferentes investigadores optaram, por atribuições contraditórias dividindo-se entre dois autores: o arquitecto Carlos Rebelo de Andrade e o desenhador das Obras Públicas José Chan Kwan Pui”. Ora, após análise das fontes documentais disponíveis, a conclusão a que chegam os autores do livro é que o edifício-sede dos CTT deve ser antes atribuído a quatro figuras. A saber: ao arquitecto Carlos Rebelo de Andrade, responsável pelo projecto entre 1919 e 1921, por lhe ser atribuído “o desenho que define a linguagem arquitectónica neoclássica original dos alçados”; ao engenheiro civil Eugénio Sanches da Gama, “que dirige o projecto, reformulando-o, entre 1925 e 1927, e define uma nova implantação”; ao desenhador das Obras Públicas José Chan Kwan Pui, “a quem cabe desenvolver o projecto de Sanches da Gama, entre 1927 e 1931, ampliando-o profundamente para albergar o novo programa funcional definido pelo director dos Correios, Lino Moreira Pinto”; e ao condutor de Obras Públicas Rafael Gastão Bordalo Borges, “responsável, entre 1931 e 1932, pelo desenho de acabamentos e interiores do edifício e pelo acompanhamento da última fase da construção”.

 

Um exemplo

Na cerimónia de lançamento do livro “Edifício-Sede dos CTT – História, Arquitectura, Funcionalidade”, e da exposição fotográfica homónima, esteve presente a neta de José Chan Kwan Pui, discípulo do arquitecto português José Francisco da Silva e que dedicou 30 anos de carreira às Obras Públicas. “Estou muito feliz pela publicação do livro, que documenta a história e a funcionalidade do edifício”, afirmou Choi Tin Tin, também ela arquitecta. “É muito encorajador, porque a arquitectura não é apenas o ‘design’. O edifício conta-nos muitas histórias da sociedade e da cidade. Não se trata apenas do edifício em si, mas também da cultura que encerra, porque resulta de um excelente trabalho de colaboração entre portugueses e chineses”, sublinhou.

Já de todas as figuras políticas avulta como principal responsável pela construção do edifício Arthur Tamagnini de Sousa Barbosa (1880-1940), governador de Macau que acompanha o projecto desde a fase inicial, durante o seu primeiro mandato, entre 1918 e 1919, e regressa muitos anos depois, em Dezembro de 1926, para um segundo, determinado em concretizá-lo. A conclusão é descrita em “Edifício-Sede dos CTT – História, Arquitectura, Funcionalidade”, que destaca ainda as figuras de proa no plano técnico, como o director dos Correios entre 1912 e 1927, Artur Barata da Cruz, que foi o principal responsável pelo lançamento dos primeiros projectos e pela escolha do local.

Já do ponto de vista da funcionalidade não há dúvidas de que o edifício cumpriu “inteiramente” as funções para as quais foi concebido. Com efeito, “durante a sua longa vida útil, os espaços interiores sofreram diversas modificações para adaptação a novos requisitos funcionais” e “se as intervenções realizadas entre a década de 30 e a de 80 foram pontuais, e delas já poucas evidências existem, entre 1982 e 1995 o edifício foi ampliado e profundamente transformado nos seus espaços interiores”. Modificações determinadas por necessidades funcionais, mas que “prejudicaram a leitura da qualidade arquitectónica original do edifício, que é hoje praticamente imperceptível no seu interior”. “A importância histórica e arquitectónica do edifício justifica a sua valorização com uma futura intervenção de restauro que lhe devolva a qualidade dos espaços interiores, de forma coerente com a imponência dos alçados, assumindo por inteiro a sua dignidade institucional, representativa e cultural, enquanto edifício-sede dos Correios de Macau”, concluem os autores.

Ao livro, à venda por 450 patacas, foi ainda emprestado um valor filatélico, dado que foi nele incluído o bloco da emissão filatélica ilustrando o edifício-sede, em cuja impressão foi adoptada pela primeira vez a técnica ‘talhe-doce’, a fim de destacar as linhas do desenho arquitectónico e a imponência do edifício.

De modo a enquadrar o lançamento da publicação, e par com a emissão filatélica, os CTT inauguram uma pequena exposição fotográfica, com o objectivo de dar a conhecer a um público mais vasto como era a estação central no passado e a evolução que os serviços sofreram. A mostra vai estar patente até ao próximo dia 31.

 

 

4 Mar 2019

Arquitectura | Miles Glendinning na FRC para discutir habitação em massa

O arquitecto e professor da Universidade de Edimburgo, Miles Glendinning, vai estar na Fundação Rui Cunha na segunda-feira para apresentar uma palestra sobre a história e a actualidade da habitação em massa. Entretanto, ao HM Sérgio Spencer, membro da associação Docomomo, que promove o evento, salienta a importância do conceito em cidades como Macau

O Centro Docomomo Macau apresenta, na próxima segunda-feira, a palestra “Habitação em Massa: Arquitectura Moderna e o Poder do Estado, uma história Global” proferida por Miles Glendinning, arquitecto e professor na Universidade de Edimburgo. O evento tem lugar na Fundação Rui Cunha pelas 18h30.

Miles Glendinning tem desenvolvido essencialmente trabalho de investigação na área de novos paradigmas da construção de habitação em massa, muito presentes “nas zonas dos novos territórios das cidades chinesas”, bem como em Macau e Hong Kong, explica Sérgio Spencer, arquitecto e membro da Docomomo.

A questão da construção de habitação em massa não é recente, aliás “teve início no séc. XX, altura em que havia grandes necessidades, principalmente nos períodos a seguir às grandes guerras”, esclarece Sérgio Spencer. A razão prendia-se com a necessidade “de produzir de forma prática e eficaz, grandes quantidades de habitações”.

O arquitecto admite ainda que este tipo de edificação pode ser encontrado em períodos anteriores, “dentro dos chamados processos de industrialização da sociedade onde também, através de grandes empresas, não através do Estado, se desenvolviam planos de urbanização em grande escala”. O objectivo sempre foi colmatar “as necessidades emergentes determinadas por acontecimentos que vão marcando os tempos e que se vão repetindo”.

Desafio de qualidade

Actualmente, o arquitecto considera que a necessidade de desenvolver habitação em massa está muito associada a movimentos migratórios. “Há uns anos que se tem registado esta migração massiva dos meios rurais para as cidades e a densificação do tecido urbano pelo que existe esta necessidade de, em territórios que são densos, continuar a introduzir qualidade e vida”, afirma.

Por outro lado, o membro da Docomomo entende que existem várias escalas de intervenção quando se fala de habitação em massa, que não dizem apenas respeito à construção de casas com áreas reduzidas para dar resposta “à necessidade do indivíduo em ter um espaço qualificado para habitar”. “Se no mesmo espaço construirmos 50 moradias, provavelmente é capaz de densificar a ocupação do terreno de tal maneira que não sobram espaços verdes”, conta. Como tal, a estratégia do movimento moderno passa por evitar esta situação através da “chamada construção vertical em que há uma densificação em torre o que permite libertar o espaço do solo para providenciar espaços verdes”, esclarece.

De acordo com o arquitecto, importa desmistificar a ideia feita de que a construção em altura seja negativa para a gestão do território. Isto porque, desta forma é possível “libertar espaço de solo para outro tipo de actividades, nomeadamente para espaços verdes”.

Preservação local

No que diz respeito a Macau, “um dos territórios mais densos do mundo”, o arquitecto sublinha que não vê com aversão a preferência pela construção vertical, “mas há que ter atenção à relação com o tecido urbano envolvente”. Nomeadamente, os desafios nascidos das características dos terrenos, como por exemplos as colinas, que têm sido o mote para uma discussão “latente”, assim como as questões dos espaços verdes”.

No fundo, o essencial é que Macau não perca a sua identidade que, considera, tem conseguido manter. “Acho que a alma de Macau é muito visível mesmo com a transformação que tem sofrido. Vai sempre mantendo subliminarmente aquilo que são os seus pontos, as suas âncoras culturais, de cultura própria, de uma individualidade própria que distingue o território de outras cidades circundantes, tanto na China como Hong Kong.”, remata.

21 Fev 2019

Arquitectos expressam apoio a hotéis em edifícios classificados

Carlos Marreiros e Francisco Vizeu Pinheiro defendem que Macau sairia a ganhar com a conversão de mais edifícios classificados em hotéis. Uma “prática corrente” em todo o mundo que, para os dois arquitectos, permitiria dar “nova vida” ao património

 

Apossibilidade de edifícios classificados como património acolherem hotéis já existia, como atesta, por exemplo, a Pousada de S. Tiago, mas ganhou novo fôlego com a apresentação da proposta de lei da actividade dos estabelecimentos hoteleiros que, entre os pontos principais, destacou o facto de o diploma o permitir, desde que reunidos requisitos, como o parecer vinculativo do Instituto Cultural (IC).

Em declarações ao HM, Carlos Marreiros e Francisco Vizeu Pinheiro não têm dúvidas de que Macau sairia a ganhar, como prova a experiência um pouco por todo o mundo. “É uma prática mundial e foi, de resto, fortemente recomendada pela PATA [Associação de Turismo da Ásia-Pacífico]”, apontou Carlos Marreiros.

“Quem me dera que edifícios classificados fossem reabilitados tendo em vista a integrar hotéis de qualidade, respeitando naturalmente a pré-existência patrimonial, bem como a legislação sobre o património”, complementou. “Teria muito gosto em fazer” um projecto, afirmou.

“Esta é uma possibilidade feita em muitos outros países. Pode ser até uma oportunidade para revitalizar [esses edifícios], dar-lhes vida”, subscreveu Francisco Vizeu Pinheiro, dando o exemplo da Blue Mansion, em Penang, na Malásia, antiga casa de um mandarim transformada num hotel boutique. “Há, de facto, em Macau, edifícios classificados que podem abarcar esse tipo de instalações”, salientou.

Dado que “a tendência em Macau é fazer hotéis de grande envergadura, o que “torna mais complicado integrá-los em edifícios classificados”, Carlos Marreiros propõe, por exemplo, “a utilização de edifícios patrimoniais para as zonas sociais do hotel, como recepção, restaurantes, biblioteca ou zonas de estar” e “a construção de um edifício integrado, sempre respeitando o espírito e a letra da lei [sobre o património]”. “Que bom seria se assim fosse”, afirmou.

“Se for monumento não se podem alterar os interiores, mas os edifícios de interesse patrimonial e, mesmo nos classificados, pode preservar-se integralmente a peça patrimonial e desenvolver nas suas adjacências”, observou Carlos Marreiros.

Sem receios

A possibilidade de haver uma vaga de projectos para o efeito, dado que os terrenos escasseiam não preocupa Carlos Marreiros: “Ficaria cheio de alegria se o património fosse bem utilizado para instalações hoteleiras. Não só não receio, como apoio e até exalto”. Para o arquitecto, seria uma oportunidade não só para vitalizar o património e torná-lo vistoso, como podia ser uma “alternativa interessante” para os turistas. “Quem não vem para os hotéis de luxo e vai para [unidades] economicamente aceitáveis, portanto, mais modestas, fica sempre muito desiludido porque a oferta é de péssima qualidade” e deixa “más recordações”, apontou. “Não faz sentido que Macau tenha edifícios patrimoniais de cinco estrelas. Podem albergar hotéis com qualidade apenas ligeiramente inferior”, concretizou Carlos Marreiros.

A possibilidade de existirem mais edifícios classificados a acolherem hotéis também não traz preocupações de maior relativamente à preservação, dado que, para ambos os arquitectos, o princípio ‘número um’ assenta no respeito pelo património. No entanto, como sustentou Francisco Vizeu Pinheiro, “cada caso é um caso e depende do tipo de projecto”. “O projecto tem de respeitar o máximo possível o ‘layout’, a planta, a forma e função do edifício”, complementou.

Ideias à solta

Dado que os imóveis classificados que acolhem ou acolheram hotéis (como a Pousada de S. Tiago e o Bela Vista) têm traça portuguesa, Carlos Marreiros não esconde que “ficaria muito feliz em ver uma unidade hoteleira integrada numa arquitectura patrimonial de traça estritamente chinesa”, avançando mesmo com ideias. “Um sítio que dava um hotel de grande qualidade era o Templo de Kun Iam Tong – onde estão a construir coisas ilegais – preservando todo o arvoredo, porque há terrenos ali”, exemplificou o arquitecto que, no passado, a par com Francisco Figueira, chegou a imaginar um hotel pousada na Fortaleza do Monte.

O próprio Governo aventou, em 2007, a possibilidade de construir um hotel-boutique nas imediações da Casa do Mandarim, à semelhança de outro projecto do género (Pousada de Mong-Há), mas o plano nunca avançou. “Essa era uma hipótese que teria melhor correspondência com a versão original do edifício e que, por outro lado, permitia manter vivas zonas com funções anteriores, como salas de jantar ou quartos”, realçou.

Para o arquitecto, uma hipótese interessante seria, por exemplo, a casa amarela no Largo do Lilau que figura como “uma das poucas de arquitectura higienista”: “É um edifício com características únicas em Macau, que tem as zonas da cozinha e serventes separadas da casa principal por ponte e que podia ser utilizado como hotel”. Francisco Vizeu Pinheiro referiu ainda duas mansões, do princípio do século XX, localizadas perto do Albergue, que estão a ser utilizadas para escritórios do IC, e até o próprio edifício do Conservatório de Música, igualmente no bairro de S. Lázaro, entre outros bens imóveis, nem todos classificados como património.

Aliás, para o arquitecto, quartéis como o de S. Francisco podiam também ser adaptados, a par com outros edifícios que acolhem serviços governamentais, para fins culturais e turísticos. “Macau ganhava bastante em abrir mais edifícios ao público. Não necessariamente para hotéis, mas para várias funções, porque são edifícios grandes, com capacidade para o efeito”, argumentou.

15 Fev 2019

Presidente da República portuguesa vai condecorar Carrilho da Graça e Souto de Moura

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou ontem que vai condecorar, numa cerimónia no Palácio de Belém, os arquitectos João Luís Carrilho da Graça e Eduardo Souto de Moura com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.

Marcelo Rebelo de Sousa discursou ontem no lançamento do livro “Guia de arquitectura Carrilho da Graça – projectos construídos Portugal”, cerimónia que decorreu no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

“O Presidente da República limita-se a dar voz a esse clamor unânime e a simbolizá-lo 20 anos e uma centena de projectos depois do galardão atribuído pelo Presidente Jorge Sampaio, comunicando que o irá condecorar com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, tal como o fez já com Álvaro Siza Vieira, e o fará também com Eduardo Souto de Moura”, anunciou no final do seu discurso.

Na opinião do Presidente da República trata-se de um “verdadeiro magistério de excelência”, adiantando que a cerimónia de condecoração acontecerá no Palácio de Belém, em Lisboa.

“Porque mesmo os mais heterodoxos dos heterodoxos no estilo nunca devem deixar de ter presente o mínimo sentido de Estado que o reconhecimento nacional envolve, porque é de reconhecimento nacional que falamos ao celebrar os nossos melhores em nome de Portugal”, elogiou.

Na opinião do Presidente da República, “tinha de chegar um dia em que somados quase todos os prémios possíveis, chegasse o guia da obra e a justíssima homenagem ao seu criador”.

“É hoje. Hoje aqui se encontram pares na caminhada, discípulos na sabedoria, colaboradores no engenho, admiradores do homem e do seu sonho, expectantes das surpresas do futuro por viver”, enumerou.

14 Fev 2019

Biblioteca Central | Instituto Cultural vai “avaliar” o projecto vencedor do arquitecto Carlos Marreiros

Após as dúvidas sobre o plágio, a resposta. O arquitecto enviou ontem uma carta a pedido do IC a explicar o seu projecto e a negar ter copiado o Auditório da Cidade de León

O Instituto Cultural (IC) pediu explicações ao arquitecto Carlos Marreiros sobre o projecto da Biblioteca Central no Antigo Tribunal, devido às questões levantadas nas redes sociais de que poderia ter havido plágio do Auditório da Cidade de León. A situação foi revelada, ontem, pela presidente do Instituto Cultural Mok Ian Ian, que defendeu igualmente o resultado do concurso público.

“Estamos a estudar este caso e contactámos de imediato a empresa que ganhou o concurso público. Mas no Instituto Cultural fizemos sempre uma apreciação de forma justa, imparcial e transparente”, afirmou Mok.

A responsável pelo IC explicou também que ficou a conhecer o caso pelas redes sociais, na manhã de ontem: “Como sabem as redes sociais divulgam as informações de uma forma muita rápida. Tivemos conhecimento por esse meio e logo que ficámos a saber deste caso contactámos com a empresa adjudicada”, acrescentou.

Este foi um pedido a que o atelier de arquitectura Marreiros Arquitectos e Associados respondeu ainda ontem, como explicou Carlos Marreiros. O arquitectou marcou igualmente uma conferência de imprensa para voltar a negar as acusações, como tinha feito em declarações ao HM.

“O IC não me disse nada porque ainda é cedo [para estudarem a nossa resposta]. Mas está tudo em condições para se prosseguir com os trabalhos, e termos a adjudicação para fazer o projecto, no prazo dos 268 dias”, afirmou Marreiros.

Durante uma hora o arquitecto esteve em conversa com os jornalistas a explicar todo o seu projecto e a justificar algumas das escolhas durante a concepção.

“Sou uma pessoa que gosta de agarrar o boi de frente”, começou por justificar na sessão de clarificações. “Como se trata do concurso público da Biblioteca Central, apressei-me a esclarecer a opinião pública. Se fosse uma coisa privada não estava muito preocupado, mas tratando-se de uma obra com a importância que tem e de estar a ser paga com o Erário Público, as pessoas merecem ser informadas rapidamente”, sublinhou.

O atelier de Carlos Marreiros foi um dos nove que apresentaram propostas para o projecto da Biblioteca Central e o trabalho acabou adjudicado por um valor de 18,68 milhões de patacas, que serão pagos pelo Governo.

Línguas semelhantes

Ainda ao longo da explicação técnica, Carlos Marreiros afirmou que as linhas das janelas do seu projecto recorrem à arquitectura militar, um estilo que já havia utilizado anteriormente no Quartel de São Francisco, e que a separação entre as janelas não é feita de forma recta, como na obra dos arquitectos espanhóis Emilio Tuñón Álvarez e Luís Moreno Mansilla.

O macaense mostrou depois imagens do interior Capela de Notre Dame du Haut em Ronchamp (França), do arquitecto Le Corbusier, onde foi buscar inspiração para o projecto que foi a concurso.

“É uma peça muito bonita e é das coisas que nós arquitectos temos sempre em mente. E eu, particularmente, porque o Corbusier, além de ser arquitecto, engenheiro e urbanista, era pintor, poeta, escritor. Ele tinha uma mundividência que eu admiro muito”, revelou.

Foi também através da literatura que Carlos Marreiros explicou eventuais semelhanças entre o seu projecto com o dos arquitectos espanhóis: “A linguagem vocabular da arquitectura como uma forma de expressão é como uma língua, tem as suas regras, as suas construções frásicas, o seu vocabulário próprio […] E se há algumas construções frásicas que possam ter alguma sugestão de similitude, é um caso que às vezes acontece em todo o mundo, no movimento moderno e na arquitectura contemporânea”, apontou.

O arquitecto defendeu igualmente que os dois projectos não podem ser comparados só através da fachada principal: “Não se pode concluir que há cópia, plágio, simplesmente porque uma parte do discurso arquitectónico, do edifício, é relevado para se comparar com outra parte de outro edifício. É preciso, em arquitectura, ter uma análise global de todos os aspectos”, frisou.

Desconhecimento do auditório

Por outro lado, o arquitecto confessou que desconhecia o projecto do Auditório da Cidade de León, tal como os arquitectos. Marreiros explicou que só foi alertado para o trabalho em causa, após ter sido contactado, na quarta-feira à noite, pelo HM.

“Não conhecia os dois arquitectos em causa e a obra deles, de que até gostei. E muito menos conhecia este auditório de León. Por isso, nunca poderia ser uma inspiração e muito menos uma cópia ou plágio. Nem sequer conhecia o edifício”, revelou.

Ainda por último, Marreiros questionou o que tinha a ganhar em plagiar num concurso com um grande escrutínio, uma vez que está para ser construído desde 2007. “Não faz sentido pensar-se que ia plagiar num concurso público com tanta exposição, mais a mais a Biblioteca Central, que há 10 se arrasta como um pesado fardo…”, frisou. “Comecei a projectar e a construir, quando ainda estava a estudar em Lisboa. O que é que eu ganhava se começasse a plagiar aos 61 anos?”, perguntou.

Inspirações semelhantes

Após ter sido revelado o caso, o arquitecto Jonathan Wong comentou a título pessoal os dois projectos. Apesar de ser presidente da Associação dos Arquitectos, Wong fez questão de sublinhar que só comentava o caso a nível pessoal.

“Penso que ambos os projectos, do arquitecto Marreiros e dos arquitectos de León, tiveram como inspiração o mesmo autor, o arquitecto Le Corbusier e a Capela de Notre Dame du Haut em Ronchamp”, começou por dizer, ao HM. “Também penso que nestes casos não existe uma forma padrão para avaliar se um edifício é uma cópia ou uma inspiração directa de outro projecto”, acrescentou.

Wong admite igualmente que há semelhanças: “Talvez possa existir a percepção, quando se olha para o projecto da Biblioteca Central, que já tinha sido visto em algum lado. Até porque quando olhamos para um edifício falamos na cor e na forma. Aqui a cor é a mesma, o branco, e a forma também é semelhante, basicamente é um rectângulo horizontal”, considerou.

Em relação ao procedimentos que o IC pode adoptar, no caso de considerar que poderá haver um cópia, Jonathan Wong defende que há pouca margem de manobra. “A única forma que pode alterar os resultados do concurso é a existência de um problema técnico, que não esteja contemplado. Mas à partida parece que não há problemas neste sentido”, indicou.

Proposta autêntica

O presidente da Associação dos Arquitectos revelou ainda que não recebeu qualquer queixa por parte dos diferentes associados, face às denúncias online.

O HM ouviu ainda a opinião do arquitecto Rui Leão, um dos interessados no concurso, que não quis responder se estava a equacionar impugnar o concurso ou apresentar qualquer tipo de queixas junto do IC. Porém, apontou que o projecto que apresentou era “autêntico”.

“A única coisa que posso dizer é que fizemos uma proposta que tem um desenho autêntico, não é copiado de lado nenhum. Dá muito trabalho ter ideias de raiz, e o nosso projecto, do meu ponto de vista, é muito mais interessante e bonito do que o vencedor. É a única coisa que tenho a dizer”, disse Rui Leão, ao HM.

A proposta que Rui Leão apresentou, com o nome LBA, Arquitecto e Planeamento, tinha um valor de 16,13 milhões de patacas e um prazo de execução de 250 dias. A proposta de Carlos Marreiros tem um valor de 18,68 milhões de patacas e um prazo de 268 dias.

23 Nov 2018

Carlos Marreiros nega ter copiado edifício no projecto da futura biblioteca

O arquitecto Carlos Marreiros nega ter copiado o Auditório da Cidade de León na elaboração do projecto da futura biblioteca de Macau, que vai ser construída no edifício do Antigo Tribunal. Ontem surgiram várias publicações em diferentes grupos de conversa nas redes sociais, nas línguas chinesa e portuguesa, a comparar os dois projectos e houve mesmo alguns utilizadores a avançar a possibilidade de plágio.

Em declarações ao HM, o arquitecto negou haver qualquer cópia e admitiu não ter conhecimento do edifício que fica situado em Espanha. “Não sei que edifício é este. Eu posso ir investigar e mais tarde falar […] Uma coisa posso dizer para já: estou de consciência tranquila. Não imitámos edifício nenhum quando fizemos o projecto”, disse Carlos Marreiros. “Quem me conhece sabe que sou uma pessoa extremamente afirmativa, independente, criativa e original para não fazer uma coisa destas. Por amor de Deus!”, acrescentou.

Em termos geométricos, na “composição do bloco de cima” da nova biblioteca, Carlos Marreiros foi buscar inspiração à Capela de Notre Dame du Haut em Ronchamp (França), do arquitecto Le Corbusier. Uma obra que, explicou, se destaca por ter “uma parede muito espessa, com muitas janelas, com muitos buracos e os vãos com aquelas inclinações”.

O Auditório da Cidade de León foi inaugurado em 2002 e teve como arquitectos os espanhóis Luís Moreno Mansilla, já falecido, e Emilio Tuñon Álvarez. Em 2003 foi galardoado com o Prémio de Arquitectura Espanhola e foi finalista do Prémio Mies van der Rohe de Arquitectura Contemporânea da União Europeia. Este último foi um prémio que Siza Vieira conquistou em 1988, com a sede do Banco Borges e Irmão, em Rio Ave.

O ateliê do arquitecto Carlos Marreiros foi o escolhido para desenhar a nova biblioteca central de Macau, que vai ocupar o edifício do Antigo Tribunal (na Avenida da Praia Grande) e a ex-sede da Polícia Judiciária (na Rua Central).

Por este projecto, o arquitecto vai receber 18,68 milhões de patacas e terá um prazo de execução de sensivelmente nove meses. A futura biblioteca, de 11 andares e 45 metros de altura, vai ter capacidade para acolher até um milhão de livros, oferecendo 1.125 lugares sentados nos espaços dedicados à leitura. Estão também previstos espaços lúdicos, como um anfiteatro, sala de exposições e um café, com aproximadamente 800 lugares.

22 Nov 2018