Entre parêntesis

Gostar de arquitecturas. De organização, equilíbrio, circulação, rigor. O espaço como composição. De luz e sombra, também. Mas haver um fascínio específico por espaços devolutos. Estranhas arquitecturas a sobrar de uma morte da função no espaço e intervalos entre passado e futuro. São assim esses espaços. À espera. E que às vezes encontram por fim um código de marcas, que os fazem reviver para lá das anódinas formas iniciais, inexpressivas ou feias. São despojos de vida. Mas talvez uma decadência que ganha o tom sublime da linguagem. Da textura. Esses espaços sem vida a mais que não a sua de grandes animais arquitectónicos, reformados do trabalho e abandonados. Calados e ensimesmados mas repletos de ecos surdos que é preciso ouvir para então os entender melodiosos. A beleza abstracta e imprevista de manchas produzidas pela presença de reacções e matérias e humidades, ou pela ausência de outras, ou por fractura ou por justaposição ou degradação. E a generosidade dos alçados em que cabem pessoas bem grandes sem encolher ombros e cabeças de olhar no chão. Muito chão. E, às vezes, por cima o céu. A arquitectura é música congelada e é resistente ao tempo. A longo prazo a erosão, mas a curto prazo uma organização do silêncio em cheios e vazios. A que somente a luz muda o tom. Prédios, casas, armazéns, memórias da indústria e outras funções esquecidas. Lojas. Desligados, como um instante descontinuo entre parêntesis, do antes e do desconhecido vindouro.

Sim, gostar daqueles espaços. Devolutos, mas tão vivos que, às vezes, ali voam pássaros. Quase a céu aberto e em completa liberdade. Como se devolvidos a uma certa natureza escondida na cidade. Mas uma natureza urbana. A dos materiais de construção humana. Lugares quase irreais sem uso e sem funcionalidade. Serão estes, lugares de poesia. Abstraídos. Livres de marcadores, estereótipos, trabalhos, hábitos e funções. De habitantes presos como numa roda dentada. Passam a ser – libertos de desígnios – por um tempo, lugares de sempre e nunca, da eternidade e da ilusão. Do puro pensamento e do puro sonho.

Ela percorria lentamente e sem tempo lugares de devaneio. Esses espaços sem tempo colocados então na agenda da cidade, presos a uma data de encontro. E entendia aí, nesse tempo, que o lugar era circunscrito.

De nunca e de sempre. Ali. Um pedaço de eternidade. Não de pés descalços como se o lugar fosse de um chão aplainado ternamente, mas na constatação simples de que todos os momentos de aspereza, todos os cortes possíveis, todos os golpes de pregos invisíveis de lascas inocentes mas sólidas, e de outras matérias secretas de forma, tal como a violência nelas contida, se poderiam avizinhar sem aviso. E magoar. Pés nus.

Mas, ainda assim, deve arriscar a emoção sedosa também possível. Por entre lascas de madeiras secas e de metais retorcidos. Restos intactos de uma suavidade antiga. A ter existido. E pensa se cada um de nós é um espaço também. Visto em perspectiva. Mas também um lugar de estar com a profundidade de um momento e só. No momento, como aquele. Em sintonia com as rugas deste, a plasticidade de matérias que reagem ao passar de tudo. E se fosse assim o habitar puro e simples sem recuperação ou reabilitação. Se fossemos cidades com os seus lugares parados ou revivificados. Que deixam de ser espaços de ausência mas afirmações construídas em novas texturas e formas sem arquétipo. Quando Schopenhauer diz: ”sentimos a dor mas não a sua ausência”, faz pensar que ali não há um olhar indolor. Mas se se pode neles não sentir vida, também não se sente a ausência de vida. Há uma transformação para lá dela.

Na rua cintura do porto de L. e o rio de contentores e gruas do outro lado. Barcos abandonados e rotos mais longe e com restos de tintas coloridas. E barcaças largas de arrastar contentores e mudanças pelo mar, com os nomes de verão. Um olhar terno de dívida. Um dia os móveis de gavetas cheias de vida passaram a ser embalagens caneladas com a forma de móveis as cadeiras com a forma de cadeiras e as mesas com a forma de mesas. Os quadros com a forma de quadros de portas ou de espelhos, os mais misteriosos. E a casa veio pelo mar fora plantar-se em outra terra. Daí o olhar. Terno. Com que visita pela noite, terminais com eles alinhados e sobrepostos a tentar adivinhar casas. De novo a questão do contentor. Invólucro cheio e de mistério. E o contrário, espaços esvaziados onde não sobra a ausência. Mas sons. Texturas da passagem pelo tempo.

Mudou de lugar. A importância de ao longo dos dias mudar de lugar. Rua cintura. Um golpe rins da cidade atira-a sempre para a margem do rio. Aqueles armazéns. Um, por empréstimo. Era ali que escolhia dançar.

Essa respiração com música sem olhar nem espelho nem espectáculo. Pura explosão dos pulmões em expansão e dos membros sem móveis a chocar com eles. Só esse olhar terno e envelhecido de espaço esquecido. Uma narrativa sem fim a esquecer as cãibras nos pés. O oposto de palco. O oposto de tudo e o oposto de tempo. Uma coisa sem testemunho e sem objecto. Quase fora da vida no seu ridículo. E, ridículo, diria quem soubesse. E que coxeava, nos dias comuns. Uma perna mais curta num esticão de crescimento.

Por isso as pessoas têm destas coisas secretas. E um tempo qualquer que não foi registado na agenda. Um intervalo entre coisas normais.

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