População do Japão diminuiu para menos de 120 milhões de habitantes

A população do Japão caiu para menos de 120 milhões pela primeira vez em 42 anos, segundo dados governamentais divulgados ontem, numa altura em que o país enfrenta uma baixa taxa de natalidade e o envelhecimento da população.

A 01 de Janeiro de 2026, o número de cidadãos japoneses residentes no país (excluindo os estrangeiros) era de 119.736.483 — uma queda de 0,76 por cento face ao ano anterior —, segundo dados governamentais.

A população do Japão tem vindo a diminuir há 17 anos consecutivos, após ter atingido um valor máximo em 2009. Em contrapartida, o número de residentes estrangeiros no Japão atingiu o nível mais elevado desde o início dos registos, segundo o Ministério dos Assuntos Internos do Executivo de Tóquio.

Incluindo o grupo de cidadãos estrangeiros, a população total do Japão é de 123,76 milhões. O Japão tem a segunda população mais idosa do mundo (com uma idade média de 49,9 anos), ficando apenas atrás do Mónaco, segundo o Banco Mundial.

Dados oficiais anteriores, divulgados no início do mês de Junho, mostraram que a taxa de natalidade do Japão desceu para um nível recorde de 1,14 filhos por mulher em 2025, evidenciando a crise demográfica que afecta a quarta maior economia do mundo.

Crise e preconceitos

O Japão apresenta também uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, o que gera uma série de problemas, incluindo escassez de mão-de-obra, custos crescentes da segurança social e uma redução do número de trabalhadores contribuintes.

O número de recém-nascidos no Japão foi de 671.236 em 2025 — quase menos 15 mil do que no ano anterior e o índice mais baixo desde o início dos registos, em 1899, sendo que os dados abrangem apenas as crianças japonesas nascidas no país.

Embora a imigração seja frequentemente apontada como uma solução para o declínio demográfico, a primeira-ministra conservadora Sanae Takaichi defende medidas mais rigorosas em relação à entrada de estrangeiros.

Nos últimos anos, os líderes japoneses — tanto a nível nacional como local — tentaram, com sucesso limitado, promover o casamento e a natalidade através do aumento das ajudas para a educação dos filhos, dos subsídios para a licença parental e até do lançamento de aplicações digitais para encontros.

Dados oficiais divulgados este mês revelaram que 265 casais se juntaram após se terem conhecido numa aplicação digital de encontros, lançada pelo Governo de Tóquio em 2024.

30 Jul 2026

China / Europa | Comércio ferroviário supera 450 mil milhões de euros em dez anos

Os comboios de mercadorias entre a China e a Europa realizaram mais de 130 mil viagens na última década, transportando bens avaliados em mais de 450 mil milhões de euros, anunciou ontem a principal entidade chinesa de planeamento económico.

Os dados foram divulgados por Liang Linchong, director-geral do Departamento de Abertura Regional da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR), o principal órgão de planeamento económico da China, durante uma conferência de imprensa em Pequim.

Citado pelo jornal oficial Global Times, Liang afirmou que o volume mensal de mercadorias actualmente transportado por esta ligação ferroviária equivale ao total movimentado durante todo o ano de 2016.

Segundo o responsável, o número de viagens aumentou de 1.702 em 2016, ano em que os serviços passaram a operar sob uma designação unificada, para mais de 20 mil em 2025, o que representa uma taxa média de crescimento anual superior a 30 por cento.

Liang acrescentou que a digitalização dos procedimentos aduaneiros permitiu reduzir o tempo médio de desalfandegamento para cerca de 30 minutos.

A introdução de horários fixos para os comboios também encurtou em mais de um terço o tempo de trânsito em rotas como a que liga Xi’an, no centro da China, a Duisburgo, no oeste da Alemanha, reduzindo a viagem de 15 para 11 dias.

Segundo o responsável, os comboios partem há 46 meses consecutivos com a capacidade de carga totalmente preenchida.

Liang destacou ainda que o volume de mercadorias exportadas da China e o de bens transportados no sentido inverso está próximo de um equilíbrio de um para um, o que, segundo afirmou, demonstra uma procura robusta nos dois sentidos.

Corredor atractivo

O alargamento das ligações ferroviárias entre a China e a Europa aumentou também a atractividade deste corredor para o comércio transfronteiriço, acrescentou, referindo a abertura de novas rotas através do corredor do mar Cáspio, da Turquia e do porto russo de São Petersburgo para a Alemanha.

A volatilidade das rotas marítimas, provocada pelo agravamento das tensões geopolíticas, também favoreceu o transporte ferroviário, sobretudo para empresas que procuram reduzir os prazos de entrega.

Liang apontou como exemplo as fabricantes chinesas de aparelhos de ar condicionado Midea e Gree, que reduziram o tempo de entrega para a Europa de cerca de 40 para aproximadamente 15 dias, em resposta à vaga de calor que afecta o continente europeu.

30 Jul 2026

China e Rússia concluem patrulha naval conjunta no Pacífico ocidental

Uma força naval conjunta da China e da Rússia chegou ontem a Vladivostoque, no extremo oriente russo, após concluir uma patrulha no Pacífico iniciada a 13 de Julho, anunciou a agência oficial chinesa Xinhua.

A flotilha integrou os contratorpedeiros chineses equipados com mísseis guiados Kaifeng e Anshan, o navio de reabastecimento Kekexilihu e a corveta russa Rezkiy, indicou a Xinhua. Os navios partiram de Qingdao, no leste da China, após o encerramento dos exercícios navais “Mar Conjunto-2026”, atravessando os estreitos de Miyako, Etorofu e Soya antes de chegarem a Vladivostoque.

Durante a patrulha, as forças dos dois países realizaram exercícios de aterragem de helicópteros, operações anti-terroristas conjuntas, missões de busca e salvamento humanitário, inspecção e captura de embarcações, além de outros exercícios “orientados para condições reais de combate”.

Pequim apresentou a missão como parte do plano anual de cooperação entre as Forças Armadas chinesas e russas, destinada a reforçar a capacidade de actuação conjunta e a responder de forma coordenada a “ameaças à segurança marítima”.

A agência oficial chinesa acrescentou que a operação “não está relacionada com a actual situação internacional e regional”. A patrulha decorreu após os exercícios “Mar Conjunto-2026”, realizados em águas e espaço aéreo próximos de Qingdao e centrados, segundo a parte chinesa, na resposta conjunta a ameaças à segurança marítima.

Essas manobras incluíram missões de reconhecimento conjunto, defesa anti-aérea e anti-míssil, ataques contra alvos marítimos e operações de salvamento submarino, envolvendo meios navais, submarinos, aéreos e de apoio.

Nos últimos anos, China e Rússia intensificaram a cooperação militar através de exercícios navais, patrulhas aéreas conjuntas e contactos de alto nível entre os respectivos comandos, em paralelo com o estreitamento das relações políticas entre os Presidentes chinês e russo, Xi Jinping e Vladimir Putin, que, pouco antes da invasão russa da Ucrânia, em 2022, proclamaram uma parceria bilateral “sem limites”.

30 Jul 2026

Segurança nacional | EUA acusados de reprimir empresas chinesas após proibição de robôs

A China acusou ontem os Estados Unidos de tentarem reprimir as empresas chinesas, depois de Washington anunciar a proibição da importação de robôs humanoides fabricados no estrangeiro por razões de segurança nacional.

A Administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, acrescentou na terça-feira os robôs humanoides e quadrúpedes à lista de produtos proibidos de entrar nos Estados Unidos, no âmbito de medidas destinadas a proteger a segurança nacional.

A maioria dos robôs humanoides comercializados nos Estados Unidos é fabricada no estrangeiro, nomeadamente na China, cujas empresas e ‘startups’ se afirmaram como pioneiras num setor em rápida expansão.

“A China sempre se opôs firmemente à tendência dos Estados Unidos para invocar abusivamente a segurança nacional para reprimir empresas chinesas”, afirmou ontem a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning, em conferência de imprensa.

“O proteccionismo não melhora a competitividade dos Estados Unidos. Apenas prejudica os interesses das empresas e dos consumidores norte-americanos”, acrescentou.

Mao garantiu ainda que Pequim tomará “as medidas necessárias” para defender os interesses das empresas chinesas. Os chamados “dispositivos robóticos avançados”, categoria que inclui “robôs móveis”, foram acrescentados à lista da Comissão Federal das Comunicações (FCC), regulador norte-americano das telecomunicações.

30 Jul 2026

China | Novas regras para travar guerra de preços no sector dos painéis solares

As autoridades chinesas anunciaram novas regras contabilísticas para os fabricantes de painéis solares e vão reunir-se esta semana com responsáveis do sector, numa nova etapa da campanha destinada a travar a guerra de preços na indústria.

Segundo o portal económico Yicai, a nova regulamentação pretende “resolver o caos provocado pelos diferentes métodos de contabilidade” utilizados pelas empresas do sector, que enfrenta uma forte pressão sobre as margens de lucro devido à concorrência baseada na redução de preços, levando algumas fabricantes a operar com prejuízo.

Esta situação, que se prolonga desde 2024, resulta de um excesso de capacidade produtiva e fez com que, das 26 empresas chinesas cotadas que já divulgaram previsões para o primeiro semestre, apenas quatro esperem manter-se lucrativas.

As restantes poderão acumular prejuízos entre Janeiro e Junho equivalentes a 2,7 mil milhões e 3,2 mil milhões de dólares, segundo o Yicai. Pequim acredita que a introdução de um método normalizado para calcular os custos permitirá dar um “passo fundamental” para impedir que as empresas continuem a vender abaixo do custo de produção.

Entretanto, outro importante órgão económico chinês, o Cailianshe, adiantou ontem que a Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR) vai reunir-se na sexta-feira com a associação da indústria solar e representantes de empresas do sector para prestar orientações sobre a aplicação das novas regras de fixação de preços.

Especialistas citados pelo Cailianshe consideram que esta iniciativa representa uma mudança da política de Pequim para uma postura mais intervencionista. Já o Yicai enquadra as medidas desta semana num plano mais vasto para criar um quadro regulatório completo para o sector, após a introdução, nas últimas semanas, de novas normas de segurança e eficiência.

30 Jul 2026

UM | Curso de Verão de português teve 400 alunos

A Universidade de Macau (UM) realizou mais uma edição do Curso de Verão de Língua Portuguesa, a 40.ª, que contou com cerca de 400 alunos. Citada por uma nota da UM, Li Qianyu, uma aluna de nível avançado que participou no curso, diz ter feito a “leitura atenta de obras de autores prestigiados de língua portuguesa”, com o apoio da professora.

Esta estudante acrescentou ter aprofundado “a compreensão sobre a história e literatura de Macau”. Já o aluno Huang Wai Kuan, que vai frequentar o curso de Direito na UM, indicou que esta área “exige o domínio tanto do chinês como do português, motivo pelo qual se inscreveu no curso”, diz a mesma nota.

Por sua vez, os coordenadores do curso, Lu Chunhui e Tânia Ferreira, referiram que esta edição incluiu, além das aulas de língua, “uma oferta diversificada de actividades culturais”, com a aposta em conteúdos relacionados com a dança folclórica portuguesa, a história e cultura de Portugal, a evolução cultural e literária do Brasil, a interpretação de grandes autores como Camões e Fernando Pessoa ou ainda a prática de tradução poética.

Segundo a UM, “a concepção do curso teve em conta a diversidade temática e geográfica, articulando-se em diferentes níveis de acesso para que os formandos de todas as etapas pudessem obter resultados frutuosos”.

30 Jul 2026

Fundo de Pensões | Défice vai atingir quase 9 mil milhões

Entre 2027 e 2031, o défice do Fundo de Pensões deve atingir 8,99 mil milhões de patacas. A estimativa foi apresentada ontem pelo Governo aos deputados da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, que está a analisar a proposta de lei “Consolidação dos Recursos Financeiros do Fundo de Pensões”.

A proposta prevê que o orçamento de Macau possa financiar directamente o fundo, dentro de certos limites estabelecidos pelo Chefe do Executivo.

Os representantes do Governo, liderados pelo secretário para a Administração e Justiça, Wong Sio Chak, apontaram também, segundo o canal chinês da Rádio Macau, que actualmente o fundo tem 6.465 subscritores no activo, ou seja, que fazem descontos, e que estes têm uma média de idades de 51,9 anos e 26,4 anos de tempo de serviço.

Até ao final do mês passado, foram pagas um total de 6.577 pensões, das quais 6.056 eram pensões de aposentação e 521 pensões de sobrevivência, o que representa um aumento de 390 pensões em relação ao mesmo período do ano anterior. Prevê-se que, até ao final de 2030, restem 3.290 subscritores no activo, e que o número de pensões atribuídas aumente para 9.150.

Segundo Ella Lei, deputada que preside à comissão, durante a discussão os deputados perguntaram ao Governo se o futuro financiamento do Fundo de Pensões vai prejudicar os apoios sociais. Os representantes do Executivo garantiram que tal não aconteceu. Importa referir que, até à pandemia, os orçamentos da RAEM apresentaram sempre um superavit. Esta situação mantém-se actualmente.

30 Jul 2026

Díli | Rosa Mota vai disparar tiro de partida da Maratona Internacional

A atleta Rosa vai disparar o tiro de partida, juntamente com o Presidente timorense, da Maratona Internacional de Díli, a realizar-se em 08 de Agosto, anunciou ontem a embaixada de Portugal e a Presidência timorense.

“Ter a Rosa Mota em Timor-Leste mostra o nosso empenho neste evento desportivo de primeira linha. Díli tem-se posicionado como uma cidade de afirmação internacional, visibilidade e cruzamento de culturas”, pode ler-se numa publicação da Embaixada de Portugal na rede social Facebook.

Na publicação, a embaixada, que também vai patrocinar o evento, agradece ao Ministério da Cultura, Juventude e Desporto e ao Instituto Português da Juventude e Desporto pelo “apoio e entusiasmo com que acolheram a ideia”.

A atleta, que chega a Díli em 04 de Agosto, foi a primeira mulher portuguesa a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, depois de em 1984 ter obtido a medalha de bronze na maratona olímpica de Los Angels, Estados Unidos.

Num comunicado, a chefe da Casa Civil da Presidência da República, Henriqueta da Silva, destacou o patrocínio da Embaixada de Portugal em Timor-Leste como um “abraço lusófono”.

“Uma recordação de que a distância entre Lisboa e Díli, em termos humanos e culturais, nunca foi grande e de que no próximo 08 de Agosto essa ponte será atravessada por oitenta mil passos de corredores dos nossos dois países e de todo o mundo”, afirmou Henriqueta da Silva.

Durante a sua estada em Timor-Leste, Rosa Mota vai realizar seminários sobre estratégia de corrida e recuperação física com a equipa nacional de maratona timorense, visitar a exposição “Move-te por Valores”, promovida pelo Instituto Português da Juventude e Desporto e realizar visitas a escolas para promover a prática desportiva.

29 Jul 2026

Japão | Sismo faz desabar andar de centro comercial

Um dos andares de um centro comercial no Japão caiu na sequência do terramoto de 7,1 de magnitude que abalou o sudoeste do país, prendendo várias pessoas nos destroços, avançou ontem a televisão pública NHK.

O desabamento causou uma forte explosão, relatada inicialmente pela polícia, que ainda desconhece se há vítimas mortais e a extensão dos danos. A NHK já tinha avançado existirem pelo menos 50 feridos causados pelo desabamento de prédios, incêndios e cortes de energia na sequência do sismo.

“Ainda estamos a avaliar a extensão dos ferimentos e dos danos materiais, mas fui informada de que há vários feridos. Há falhas de energia e incêndios em algumas áreas, estradas e pontes foram danificadas e edifícios desabaram”, disse a primeira-ministra, Sanae Takaichi, num comunicado televisivo.

Segundo as autoridades locais, pelo menos 12 pessoas estão em estado grave devido a fraturas e ferimentos causados pelo colapso parcial de estruturas, sendo que 12 casas ruíram perto da cidade de Yatsushiro, na região central da província de Kumamoto.

Além disso, adiantaram, um grande apagão deixou cerca de 48.000 casas sem eletricidade na província. A Agência Meteorológica do Japão chegou a emitir um alerta de ‘tsunami’ (maremoto) logo após o sismo, mas o aviso foi suspenso pouco tempo depois por o terramoto ter ocorrido em terra firme.

Nível grave

O sismo, que abalou violentamente a região, atingiu o nível máximo (7) numa escala separada utilizada no Japão, que mede a intensidade dos terramotos num determinado local. Imagens televisivas mostram pontes rodoviárias parcialmente destruídas, edifícios em chamas e comboios de mercadorias tombados.

Não foram detectadas anomalias imediatas nas centrais nucleares da região, de acordo com a Autoridade de Regulação Nuclear do Japão. Kumamoto já tinha sido atingida, há 10 anos, por dois sismos devastadores — um de magnitude 6,5, e outro, dois dias depois, de magnitude 7,3 na escala de Richter – que mataram 273 pessoas e feriram mais de 2.800.

Um sismo de magnitude 7,2 também atingiu o norte do Japão a 25 de Junho, mas sem causar mortes ou danos significativos. O Japão é um dos países do mundo mais propensos a sismos, já que fica localizado na junção de quatro grandes placas tectónicas ao longo da orla oeste do Círculo de Fogo do Pacífico.

O arquipélago, com uma população de cerca de 125 milhões de habitantes, sofre normalmente centenas de tremores de terra todos os anos e é responsável por cerca de 18 por cento dos sismos registados no mundo. A grande maioria destes sismos é de baixa intensidade, embora os danos que causam variem consoante a sua localização e a profundidade a que ocorrem abaixo da superfície da Terra.

O país ainda carrega as cicatrizes do sismo submarino de magnitude 9,0 de 2011, responsável por um ‘tsunami’ que fez cerca de 18.500 mortos ou desaparecidos e provocou o desastre nuclear de Fukushima.

29 Jul 2026

HK | Ex-líder da oposição autorizado a ficar seis meses no Reino Unido

O activista Wu Chi-wai foi autorizado a permanecer no Reino Unido como visitante, indicou ontem o advogado do antigo líder do Partido Democrático de Hong Kong, que já se reuniu com a família, após problemas na imigração.

O advogado Paul Harris disse à agência Associated Press (AP) que as autoridades de imigração enviaram uma carta à defesa de Wu a indicar que o activista iria obter autorização para permanecer como visitante durante seis meses. A família de Wu reside no Reino Unido.

A decisão das autoridades britânicas surgiu depois de a entrada de Wu, na semana passada, ao abrigo de uma fiança de imigração de sete dias, ter suscitado preocupações por parte de grupos de defesa dos direitos humanos e de cidadãos de Hong Kong que vivem no Reino Unido e no território chinês, escreveu a AP.

Wu Chi-wai saiu da prisão de Hong Kong no mês passado, após cumprir quatro anos e cinco meses de pena por conspiração para subversão no âmbito do processo conhecido como “Hong Kong 47”, considerado o maior julgamento ao abrigo da lei de segurança nacional imposta por Pequim.

Wu foi o 20.º arguido a concluir a pena, num caso que envolveu 47 activistas acusados de planear “uma crise constitucional” através de eleições primárias não oficiais em 2020. Quarenta e cinco arguidos foram condenados e dois foram absolvidos neste processo.

Wu afirmou numa entrevista à AP, no domingo, que só lhe foi permitido permanecer no Reino Unido até quarta-feira, uma vez que as autoridades fronteiriças britânicas consideravam que pudesse ter outros objectivos além de uma simples visita, incluindo a procura de residência de longa duração.

Wu afirmou num vídeo publicado pelo meio de comunicação online Green Bean que se sentiu angustiado nos últimos dias e que estava feliz por, afinal, ter sido autorizado a passar mais tempo com a família. “Espero que todos os habitantes de Hong Kong possam viver bem e valorizar os seus entes queridos”, afirmou.

29 Jul 2026

Naufrágio | Resgatados 48 tripulantes de navio vietnamita afundado no mar do Sul

O número de sobreviventes do navio de carga vietnamita que se afundou no sábado junto a um recife ocupado pela China subiu para 48, enquanto prosseguem as operações de busca por 14 tripulantes ainda desaparecidos.

As operações de busca e salvamento envolvem equipas do Vietname, das Filipinas e da China. As autoridades vietnamitas anunciaram na segunda-feira o resgate de mais três dos 62 tripulantes que seguiam a bordo, sem divulgarem pormenores sobre a operação.

O cargueiro Khoi Nguyen 18 afundou-se no sábado à noite nas imediações do recife Fiery Cross, uma ilha artificial construída pela China no mar do Sul da China.

O ministério dos Negócios Estrangeiros vietnamita indicou que o navio se afundou devido ao mau tempo no mar do Sul da China e acrescentou que os 48 sobreviventes já foram entregues às autoridades vietnamitas, que lhes prestam assistência médica antes do regresso ao continente.

Segundo plataformas de monitorização marítima, o Khoi Nguyen 18 é um navio de carga geral construído em 2017. O sistema de identificação automática (AIS) do navio registou a sua última posição em Março, ao largo da costa do Vietname, de acordo com a plataforma MarineTraffic.

Ao abrigo de uma convenção das Nações Unidas sobre segurança marítima ratificada pelo Vietname, os navios de carga de grande porte devem manter permanentemente ligado o sistema AIS, que transmite a identidade, posição e rumo da embarcação.

Hanói afirmou que mobilizou de imediato meios de busca e salvamento, em coordenação com navios de resgate chineses, helicópteros e outras embarcações que se encontravam na zona.

A Guarda Costeira das Filipinas, que destacou um navio-patrulha e uma aeronave após um pedido das autoridades vietnamitas, afirmou que a operação decorre ao abrigo de acordos internacionais de segurança marítima e da cooperação bilateral entre Manila e Hanói.

29 Jul 2026

Presidente eslovaco defende em Pequim maior cooperação entre China e UE

O Presidente da Eslováquia, Peter Pellegrini, afirmou ontem, em Pequim, que o seu país está disposto a promover o diálogo entre a União Europeia e a China, durante uma visita destinada a reforçar as relações bilaterais.

Segundo a agência oficial chinesa Xinhua, Pellegrini defendeu que as diferenças entre Pequim e Bruxelas devem ser resolvidas “através da consulta” e manifestou a disponibilidade da Eslováquia para contribuir para uma relação “mais estável” entre as duas partes.

O Presidente chinês, Xi Jinping, apelou a Bratislava para desempenhar um papel “construtivo” na promoção do entendimento entre a China e a UE, numa altura em que as relações entre Pequim e o bloco comunitário atravessam um período de tensões políticas e comerciais.

O líder chinês afirmou que ambas as partes devem concentrar-se nos interesses comuns e gerir as divergências através do diálogo, reiterando que Pequim considera a UE um “parceiro”.

Pellegrini manifestou também o interesse da Eslováquia em atrair novos investimentos chineses, enquanto Xi propôs reforçar os intercâmbios nos domínios da cultura, turismo, desporto, juventude e cooperação entre administrações locais.

Mais perto

China e Eslováquia elevaram as relações bilaterais ao nível de parceria estratégica em Novembro de 2024, durante uma visita do primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, a Pequim, na qual os dois governos acordaram aprofundar a cooperação.

A aproximação política ficou também patente em Setembro de 2025, quando Fico foi o único chefe de Governo de um país da UE a participar no desfile militar realizado em Pequim para assinalar o 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, ao lado de Xi Jinping, do Presidente russo, Vladimir Putin, e do líder norte-coreano, Kim Jong-un.

Após a cerimónia, Fico afirmou que tinha sido “uma honra” participar no evento e criticou a ausência dos restantes dirigentes europeus, considerando que quem ficou isolada não foi a China, mas sim a União Europeia.

A visita de Pellegrini, que termina na quarta-feira, dá continuidade à estratégia do Governo eslovaco de reforçar os laços económicos e políticos com Pequim.

No início da deslocação, o chefe de Estado escreveu na rede social X que esta é a sua primeira visita oficial à China desde que assumiu a Presidência, em Junho de 2024, e apenas a segunda visita de um Presidente eslovaco ao país asiático. “Nestes tempos dinâmicos, é crucial para o nosso futuro reforçar estes laços”, escreveu.

29 Jul 2026

Quota das marcas automóveis estrangeiras cai abaixo de 25% pela primeira vez

A quota de mercado dos fabricantes estrangeiros de automóveis na China caiu este ano abaixo dos 25 por cento pela primeira vez, devido ao rápido crescimento das marcas chinesas, sobretudo no segmento dos eléctricos, segundo dados citados ontem pela imprensa local.

De acordo com a estimativa apresentada recentemente por Wang Qian, director-geral adjunto da fabricante automóvel chinesa Dongfeng, durante um fórum do sector, a percentagem inclui também as joint ventures’, como a que a Dongfeng mantém com a japonesa Nissan, classificando a situação como “inimaginável há apenas três anos”.

O responsável afirmou que o crescimento do mercado chinês de veículos eléctricos pôs fim ao modelo tradicional do sector, em que os fabricantes estrangeiros forneciam a tecnologia e os parceiros chineses asseguravam a distribuição e vantagens de custos, em troca do acesso a um mercado de grande dimensão.

Queda contínua

Dados da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis (CAAM) mostram que os fabricantes estrangeiros e as suas empresas conjuntas com parceiros locais controlavam mais de 60 por cento do mercado chinês em 2020.

Essa quota caiu para 28 por cento no primeiro semestre deste ano, um valor ligeiramente superior à estimativa apresentada por Wang.

Segundo o portal de notícias Yicai, todas as grandes marcas estrangeiras registaram quedas significativas nas vendas na China entre Janeiro e Junho. A Volkswagen viu as vendas recuar 26 por cento, enquanto as japonesas Toyota, Nissan e Honda registaram descidas de 17 por cento, 15 por cento e 35 por cento, respectivamente.

O segmento de luxo também foi afectado, com as vendas da Mercedes-Benz a caírem 28 por cento em termos homólogos no primeiro semestre, enquanto a Audi e a BMW registaram descidas de 19 por cento e 20 por cento, respectivamente.

Perante este cenário, os fabricantes estrangeiros estão a acelerar a localização das suas operações na China, atribuindo maior autonomia às equipas locais na tomada de decisões e no desenvolvimento tecnológico, numa tentativa de recuperar competitividade e responder mais rapidamente às mudanças do mercado.

Segundo Wang, a empresa conjunta Dongfeng Nissan conseguiu aumentar as vendas em 192 por cento em termos homólogos depois de elevar a proporção de veículos eléctricos nas vendas totais de 7 por cento para 30 por cento este ano, após o lançamento de três novos modelos eléctricos.

29 Jul 2026

Estudo | Financiamento chinês para energia verde no exterior atinge máximo histórico

O investimento chinês em projectos de energia limpa alcançou, no primeiro semestre deste ano, valores nunca antes registados

O financiamento chinês para projectos de energia verde atingiu um recorde de 20,1 mil milhões de dólares no primeiro semestre, ultrapassando o total de 2025, segundo um estudo divulgado ontem.

Os dados constam de um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, e do Green Finance & Development Center, em Xangai, a “capital” económica da China. Do montante total, 11,8 mil milhões de dólares correspondem a projectos de construção e 8,3 mil milhões de dólares a investimentos.

Segundo Christoph Nedopil Wang, especialista em energia e financiamento da China na Universidade de Queensland e autor do estudo, o menor custo das energias renováveis continuou a impulsionar o investimento chinês, apesar das tensões comerciais.

“O menor custo da energia verde tem impulsionado de forma consistente o investimento chinês e os países que cooperam com a China neste sector poderão beneficiar de uma menor volatilidade dos preços da energia causada pela guerra com o Irão”, apontou.

O valor total dos projectos da iniciativa Faixa e Rota, um gigantesco projecto internacional de infraestruturas lançado por Pequim, também atingiu um máximo histórico de 126,3 mil milhões de dólares no primeiro semestre, acima dos 123,3 mil milhões de dólares registados no mesmo período do ano passado.

Desse total, 49,8 mil milhões de dólares corresponderam a investimento directo e 76,5 mil milhões de dólares a projectos de construção.

Ritmo a acelerar

Além da energia, aumentou igualmente o financiamento destinado aos sectores da indústria transformadora, tecnologia, metais e mineração.

O ritmo do investimento acelerou num contexto em que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão fizeram disparar os preços do petróleo e do gás, ao mesmo tempo que aumentou a procura por infraestruturas eléctricas e centros de dados para responder ao crescimento da inteligência artificial (IA).

Os dados oficiais das alfândegas chinesas mostram igualmente um aumento das exportações chinesas de tecnologias limpas nos últimos meses. Lançada por Xi Jinping em 2013, poucos meses após assumir a liderança da China, a iniciativa Faixa e Rota é considerada o principal instrumento de Pequim para reforçar a influência económica e as ligações comerciais com os países em desenvolvimento.

Na semana passada, Xi anunciou uma nova coligação internacional destinada a promover a influência chinesa no desenvolvimento da IA, reforçando a ambição de competir com os Estados Unidos na liderança deste sector.

Novo perfil

O estudo indica também uma alteração do perfil dos participantes na iniciativa, com um peso crescente das empresas privadas.

A participação do sector privado representou 48 por cento dos projectos no primeiro semestre, face a apenas 13 por cento em 2022. A iniciativa Faixa e Rota tem sido alvo de críticas devido ao alegado agravamento do endividamento de vários países em desenvolvimento, sobretudo em África.

Apesar dessas críticas, os dados mostram que o interesse africano na iniciativa continua elevado, com o investimento chinês no continente a quase triplicar em termos homólogos no semestre em análise, para 33,5 mil milhões de dólares.

Em contrapartida, não foram anunciados novos projectos no Paquistão nem na Rússia. Segundo Christoph Nedopil Wang, o envolvimento da Rússia permanece reduzido desde a invasão da Ucrânia, devido às dificuldades em substituir grandes projectos estatais por investimentos privados.

O especialista acrescentou que o Paquistão, durante anos um dos principais parceiros da iniciativa, parece estar a reforçar a aproximação aos Estados Unidos, ao mesmo tempo que as relações entre a China e a Índia estabilizaram.

29 Jul 2026

A chávena de chá – Um objecto entre a história, a etiqueta e a memória familiar

Por Tan Yuanyun

Na vida quotidiana chinesa, os objectos comuns raramente se limitam à sua função prática. Uma chávena serve para beber, evidentemente, mas essa evidência é quase insultuosa, como dizer que uma biblioteca serve para guardar papel ou que uma avó serve para dar conselhos com uma precisão ligeiramente assustadora. Em muitos lares chineses, uma chávena de porcelana guarda calor, hábitos, hierarquias afectivas, pequenas normas de convivência e memórias que passam de geração em geração sem necessidade de proclamação solene. No meu caso, a chávena de porcelana branca que existe em casa da minha família tornou-se um desses objetos discretos que parecem nada dizer e, precisamente por isso, dizem quase tudo.

Desde criança, lembro-me de haver sempre uma chávena de chá a fumegar algures em casa. Quando chegavam visitas, preparava-se chá; quando a família descansava depois das refeições, alguém segurava uma chávena em silêncio; quando surgia uma conversa difícil, o chá aparecia antes das palavras mais graves, como se tivesse sido convocado para impedir que os adultos transformassem um pequeno conflito doméstico numa tragédia clássica. Beber chá, nesse contexto, nunca significou simplesmente matar a sede. Significava criar uma temperatura comum, oferecer uma pausa, acolher o outro dentro de um gesto reconhecível.

Sempre me intrigou o facto de uma chávena branca, simples, sem decoração exuberante e sem qualquer pretensão estética evidente, poder ocupar um lugar tão persistente na memória familiar. Ao contrário de objectos luxuosos, que parecem exigir admiração, esta chávena nunca pediu atenção. Permanecia ali, modesta, ligeiramente desgastada pelo uso, com uma autoridade silenciosa que nenhum copo novo, brilhante e moderno conseguia substituir. Este texto nasce dessa pergunta: como pode um objecto tão pequeno condensar história, etiqueta, corpo, afecto e continuidade familiar?

A minha memória mais antiga remete para a chávena de porcelana branca que o meu pai usa há muitos anos. O seu desenho é simples, quase austero, e o tempo deixou nela sinais discretos de uso. Desde pequeno, reparei que as nossas chávenas eram pequenas e não tinham pega. Esse detalhe parecia-me, na infância, uma falha de design, talvez até uma espécie de conspiração contra os dedos das crianças. Num mundo ideal, pensava eu, uma chávena deveria ter uma asa evidente, generosa, civilizada, uma espécie de corrimão para mãos inexperientes. A minha avó, porém, ensinou-me que a ausência de pega possuía uma lógica própria, muito mais subtil do que a minha indignação infantil permitia perceber.

O uso destas pequenas chávenas exige uma técnica corporal específica. Seguram-se com a ponta dos dedos, junto à borda, sentindo a temperatura antes de beber. A chávena comunica através do tacto: se estiver demasiado quente para ser segurada, o chá ainda não está pronto para ser levado à boca. A minha avó repetia isto com a serenidade de quem não precisava de grandes teorias para demonstrar uma verdade. O calor da porcelana torna-se uma forma de aviso, uma pequena pedagogia material. A espera deixa de ser uma ordem moral — “tem paciência” — e transforma-se numa evidência física: a mão compreende aquilo que a criança talvez ainda não aceitasse ouvir.

Esse gesto pertence ao que se poderia chamar conhecimento corporal, ou shēntǐ zhīxìng (身体知性): um saber incorporado, aprendido pela experiência directa, pela repetição e pela sensibilidade táctil. A cultura transmite-se muitas vezes assim, sem manuais, sem discursos monumentais, sem que ninguém se sente à mesa para declarar: “Hoje vamos estudar a epistemologia da porcelana.” Felizmente. Aprende-se porque se toca, porque se espera, porque se queima ligeiramente a ponta dos dedos uma ou duas vezes e se descobre que a sabedoria tradicional, afinal, tinha razão.

A minha avó também me ensinou uma regra que seguimos sempre em casa: chá mǎn qī rén (茶满欺人). A expressão significa que encher a chávena de chá até ao topo pode ser interpretado como um gesto rude, quase uma forma de pressionar o convidado. Quando eu era pequeno, esta regra parecia-me misteriosa. Na minha lógica infantil, mais chá significava mais generosidade; se meio copo era bom, um copo cheio seria uma espécie de prémio. A avó explicou-me que, ao servir os mais velhos ou os convidados, se deve deixar um pequeno espaço na chávena. Esse intervalo vazio exprime respeito, delicadeza e consideração pelo conforto do outro. Uma chávena demasiado cheia é difícil de segurar, pode queimar as mãos e sugere pressa, excesso, falta de atenção.

A chávena ensina que a hospitalidade chinesa não reside na abundância descontrolada, mas na medida justa. Servir bem implica observar o outro, prever o seu gesto, proteger-lhe os dedos, permitir-lhe beber sem perigo e sem constrangimento. Há aqui uma ética minúscula, quase invisível, mas muito exigente. A delicadeza começa no espaço que se deixa por preencher. Curiosamente, a chávena confirma uma verdade que muita gente só aprende tarde: o excesso raramente é elegância.

Na concepção chinesa da vida quotidiana, a chávena de chá relaciona-se também com o conceito de hé (和), harmonia. A sua forma arredondada sugere suavidade, continuidade e conciliação. Em criança, naturalmente, eu não pensava em harmonia cósmica ao olhar para uma chávena; pensava apenas que ela era menos agressiva do que outros objectos e que, quando não estava demasiado quente, cabia bem na mão. Só mais tarde compreendi que essa forma circular, sem ângulos violentos, participava de uma sensibilidade cultural na qual a convivência deve procurar equilíbrio, contenção e fluidez.

Lembro-me de que, quando havia pequenos desentendimentos em casa, ou quando eu chorava depois de uma repreensão, alguém me trazia uma chávena de chá e dizia suavemente: xiān hē kǒu chá (先喝口茶), “bebe primeiro um gole de chá”. A frase funcionava como um botão de pausa, uma tecnologia doméstica de regulação emocional muito anterior às aplicações de meditação e provavelmente mais eficaz do que muitas delas. O chá não resolvia o problema, mas impedia que o problema ocupasse todo o espaço. Criava alguns segundos de respiração, baixava a temperatura da voz, devolvia ao corpo uma medida suportável.

Com o tempo, percebi que essa era uma das formas concretas da harmonia familiar. A vida doméstica não é um território livre de conflitos; nenhuma família chinesa, portuguesa ou marciana vive permanentemente num anúncio de chá verde ao pôr-do-sol. Existem mal-entendidos, cansaço, irritações, palavras ditas depressa demais. A diferença está, muitas vezes, nos gestos que impedem a ruptura. Em minha casa, a chávena cumpria essa função: introduzia uma pausa entre a emoção e a resposta, entre a ferida e a palavra, entre a tristeza e a reconciliação possível.

Há uma cena que nunca esqueci. Num Ano Novo Lunar, o meu avô veio visitar-nos. O meu pai escolheu, de propósito, a velha chávena de porcelana branca para lhe servir chá. Ao verter a água, a mão dele tremeu ligeiramente, e algumas gotas caíram sobre a mesa. O meu avô não fez qualquer comentário de reprovação. Pegou na chávena, bebeu um gole e disse, com calma: “Esta chávena continua a ser a mais confortável de usar.” Na altura, eu era demasiado jovem para entender o alcance daquela frase. Parecia uma observação banal, quase técnica, sobre ergonomia familiar. Hoje percebo que o meu avô falava da casa, da permanência, da continuidade de um afecto que se exprime melhor através de objectos usados do que através de declarações solenes.

Aquela chávena dizia que a família continuava a reconhecer-se nos mesmos gestos. Dizia que o tempo tinha passado, mas alguns sinais permaneciam inteligíveis. Dizia que a tradição, quando é verdadeira, raramente precisa de se anunciar como tradição. Vive na escolha de uma chávena, no modo de servir, na mão que treme um pouco, no silêncio de quem recebe e compreende.

Durante muito tempo, pensei que as pequenas chávenas de porcelana sem pega fossem apenas objetos vulgares. Essa percepção mudou quando, no primeiro ano do ensino secundário, visitei um museu e vi pequenos zhǎn (盏), taças da dinastia Song, ainda menores do que as chávenas usadas actualmente em minha casa. A guia explicou que, naquela época, era comum praticar o método do diǎn chá (点茶), no qual o chá em pó era batido até formar espuma, de modo parcialmente comparável ao matcha japonês contemporâneo. Fiquei surpreendido ao perceber que os antigos possuíam modos de beber chá bastante diferentes dos nossos e que um objecto aparentemente banal podia abrir uma porta para séculos de transformação cultural.

Mais tarde, pesquisei sobre a evolução das chávenas chinesas e compreendi que o seu tamanho, a sua forma e o seu uso acompanharam mudanças profundas nas técnicas de preparação do chá. Na dinastia Tang, eram comuns taças mais largas; na dinastia Song, os pequenos zhǎn adequavam-se ao diǎn chá, que exigia uma bebida batida, concentrada e saboreada em pequenos goles; nas dinastias Ming e Qing, tornou-se mais popular o pào chá (泡茶), a infusão de folhas em água quente. Apesar dessas transformações, as chávenas conservaram geralmente dimensões reduzidas, porque o centro da experiência chinesa do chá reside no pǐn chá (品茶), isto é, no acto de degustar lentamente, distinguindo aromas, temperaturas, texturas e variações subtis de sabor.

Aquilo que me parecera um simples detalhe de design revelava-se, afinal, parte de uma longa história do paladar, da técnica e da sensibilidade. A pequena chávena da minha casa não surgira do nada. Estava ligada a uma genealogia de práticas, materiais, gestos e preferências que atravessaram dinastias, transformações sociais e mudanças de gosto. O meu pai nunca pensava nestas origens históricas quando a usava; sabia apenas que aquela chávena lhe parecia confortável, familiar e tranquila. E talvez seja assim que muitas tradições sobrevivem: não através de discursos grandiosos, mas através da teimosia afetuosa de quem continua a usar o mesmo objeto porque ele já aprendeu a forma da mão.

Hoje, bebemos café, chá com leite, bebidas geladas, infusões aromatizadas e líquidos com nomes tão modernos que quase exigem passaporte. Existem copos bonitos de todos os estilos, garrafas térmicas inteligentes, canecas com frases motivacionais e recipientes que prometem transformar a hidratação numa experiência de personalidade. Apesar disso, a pequena chávena tradicional nunca foi definitivamente guardada no armário da minha família. Sempre que regresso a casa dos meus pais, a minha mãe serve-me chá numa chávena semelhante, como se esse gesto bastasse para restituir, por instantes, a ordem íntima do regresso.

Não sei explicar inteiramente por que razão ela me transmite tanta serenidade. A chávena não é particularmente bonita, não possui decoração preciosa e, por vezes, continua a ser quente demais para segurar com dignidade. Ainda assim, quando a tenho nas mãos, lembro-me do meu pai a beber chá em silêncio, da minha avó a corrigir a forma de servir, do meu avô a reconhecer a velha porcelana, das tardes lentas, dos pequenos conflitos apaziguados, dos regressos a casa e dessa continuidade discreta que a vida familiar constrói sem pedir aplauso.

Para mim, a chávena não é um símbolo grandioso. Não precisa de o ser. A sua grandeza está precisamente na modéstia com que acolhe o quotidiano. É casa, família, gesto, temperatura, espera, memória e educação sensível. É uma pequena peça de porcelana branca onde cabem a história do chá chinês e a história privada de uma família. E talvez os objectos verdadeiramente importantes sejam assim: parecem pequenos porque não precisam de se exibir; permanecem connosco porque aprenderam, em silêncio, a guardar aquilo que somos.

29 Jul 2026

Gripe | Residente de 73 anos luta pela vida

Um residente de 73 anos está internado em estado grave, depois de ter sido diagnosticado com gripe do tipo A. A informação foi divulgada ontem pelos Serviços de Saúde (SS). Segundo a informação oficial, o internado tem “antecedentes de doenças crónicas” e, no domingo, “começou a apresentar sintomas de febre, tosse, corrimento nasal e mialgia generalizada”.

No primeiro dia em que apresentou os sintomas, o homem tomou medicação e ficou em casa. No entanto, na segunda-feira, depois de sentir falta de ar, foi à urgência do Hospital Kiang Wu. Foi na instituição médica que o idoso “sofreu uma perda de consciência repentina” e entrou em “paragem cardiorrespiratória”. “Necessitou de ventilação mecânica e foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos, onde se encontra actualmente em estado grave”, foi acrescentado. Segundo os SS, o homem tinha sido vacinado contra a gripe sazonal.

Centro Médico | Realizada primeira operação de urgência

O Centro Médico de Macau do Peking Union Medical College Hospital revelou ontem que se realizou, no passado dia 21 deste mês, a primeira operação de urgência a um turista da China que teve uma paragem cardiorespiratória. Segundo um comunicado da unidade hospitalar, a equipa de cirurgia realizou com sucesso a primeira operação urgente de intervenção coronária percutânea, desobstruindo um vaso sanguíneo bloqueado.

O doente foi depois transferido para a unidade de cuidados intensivos, estando neste momento estável. No mesmo comunicado, é referido que o doente já tinha um historial de doença cardíaca, tendo tido anteriormente um enfarte do miocárdio. No caso do episódio ocorrido em Macau, o homem desmaiou e foi depois levado ao hospital chegando à urgência em estado crítico.

29 Jul 2026

Mercado Tamagnini Barbosa | Mais de 220 propostas para sete bancas

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) anunciou ontem ter recebido 222 propostas no concurso público para gerir e operar sete bancas de comidas do Mercado Tamagnini Barbosa. Das 222 propostas entregues, cinco foram rejeitadas por não cumprirem as regras do concurso.

Em comunicado divulgado ontem, o IAM acrescenta ter analisado as “217 propostas aceites com base em cinco critérios principais: estratégia operacional, experiência e qualificações, horário de funcionamento diário, variedade de produtos e facilidade dos métodos de pagamento”.

Após revisão, as autoridades chegaram a uma lista reduzida de candidatos, que serão notificados de acordo com um ranking de avaliação. O IAM espera que as bancas estejam em operação no primeiro semestre de 2027, com as concessões a terem uma duração de três anos.

Será organizada uma sessão informativa para ajudar os candidatos escolhidos “a compreender melhor as precauções a tomar no arrendamento de bancas no mercado e os trâmites subsequentes para a abertura”. O IAM garante ainda que irá monitorizar e avaliar as operações das bancas, cujos contratos podem ser terminados se foram violadas regulações ou padrões de qualidade.

29 Jul 2026

IAM | Detectado excesso de metal pesado em lírios secos a granel

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) detectou quantidades excessivas de cádmio, um metal pesado, num tipo de lírios secos à venda a granel no mercado, “ordenando ao estabelecimento em causa a suspensão da venda do produto afectado, e apelando aos cidadãos para suspender o seu consumo”.

O lírio seco a granel em causa foi recolhido da Agência Comercial Lung Fat, na Rua da Praia do Manduco, em Macau. De acordo com o resultado da análise, a amostra do produto alimentar seco continha 0,536 ppm de cádmio – após conversão –, um teor superior ao estipulado nos “Limites máximos de metais pesados contaminantes em géneros alimentícios”, de Macau.

O cádmio é um metal pesado contaminante, e a sua ingestão prolongada pode causar intoxicação crónica, provocando danos nas funções renais do corpo humano. No que diz respeito à análise do teor de cádmio detectado, o IAM refere que em condições normais de consumo, apresenta baixa probabilidade de ter impacto negativo para a saúde.

29 Jul 2026

Eleições | Condenado a pena de prisão suspensa por difamação

Um residente local foi condenado com uma pena de prisão de cinco meses, suspensa por dois anos, pela prática de dois crimes de difamação, durante as eleições legislativas do ano passado. O homem vai ter também de pagar 10 mil patacas a cada uma das duas associações que o tribunal considerou terem sido difamadas.

Segundo o jornal Ou Mun, durante o período das eleições, o homem publicou comentários na sua página do Facebook em que descreveu várias associações locais como “escumalha” e “desumanas”. Acusou ainda as associações de se oporem ao aumento salarial para os croupiers e de apoiar o Governo na importação de trabalhadores não residentes.

O homem teve de responder em tribunal, depois de duas associações, não identificadas pelo jornal, terem apresentado queixa. Na decisão de condenação, o juiz apontou que apesar de o condenado ter reconhecido ter feito os comentários num momento de raiva, não apresentou qualquer prova para sustentar as suas alegações. Apesar da condenação, o homem foi ilibado da acusação do crime de coacção e artifícios fraudulentos sobre a comissão de candidatura.

29 Jul 2026

FDCT | Quatro distinções para cientistas de laboratórios estatais

O Fundo de Desenvolvimento das Ciências e Tecnologia (FDCT) anunciou ontem as quatro distinções atribuídas a cientistas de Macau, entre os meses de Maio e Julho deste ano, em prémios de ciência nacionais.

Um deles é o Prémio Nacional de Inovação e Excelência (Categoria Colectiva), criado pelo Governo Central chinês, onde foi distinguido o Laboratório de Referência do Estado para a Ciência Lunar e Planetária, situado em Macau, com o 4.º Prémio.

Por sua vez, outra equipa de investigação científica de Macau, em cooperação com homólogos de Guangzhou, foi distinguida com o segundo lugar do Prémio Nacional de Progresso Científico e Tecnológico. Nesta equipa, incluem-se Zhu Yizhun, vice-reitor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e director do Laboratório de Descoberta de Medicamentos a partir de Recursos Naturais (Centro de I&D), e Liu Zongquiu, da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Guangzhou. O projecto participante intitula-se “Construção e Aplicação do Sistema de Tecnologia Inovadora para a Análise do Mecanismo de Acção da Medicina Tradicional Chinesa Centrada em Substâncias Eficazes”.

Outra distinção consta na lista dos galardoados com o Prémio Guanghua de Ciência e Tecnologia de Engenharia, criada pela Academia Chinesa de Engenharia e atribuída bienalmente. De entre 40 especialistas a nível nacional, dois são de Macau, nomeadamente Mak Pui In, director do Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos; e Xu Cheng-Zhong, professor catedrático do Laboratório de Referência do Estado de Internet das Coisas para a Cidade Inteligente.

Para o FDCT, estas distinções “representam um novo impulso para o desenvolvimento do sector científico e tecnológico de Macau”.

29 Jul 2026

Inclusão e Harmonia | Wong quer famílias monoparentais incluídas

A deputada Wong Kit Cheng defende que as famílias monoparentais com filhos com menos de três anos e que não frequentam jardins-de-infância passarem a ser incluídas no Programa de Inclusão e Harmonia na Comunidade.

O assunto foi abordado pela deputada ligada à Associação das Mulheres numa interpelação escrita. Este programa destina-se a auxiliar as famílias em dificuldades financeiras e prevê o pagamento de dois subsídios por ano, num valor que varia entre 2.900 patacas e 11.200 patacas, consoante o agregado familiar é composto por uma ou mais de oito pessoas.

No entanto, as famílias monoparentais ficam excluídas do apoio se tiverem filhos com menos de três anos que não frequentam jardins-de-infância. Para a deputada, se esta situação for alterada, o Governo mostra um maior apoio “às famílias com crianças em diferentes etapas de crescimento”.

29 Jul 2026

Idosos | Nick Lei pede medidas para resolver espera em lares

O deputado Nick Lei pediu ao Governo medidas para aliviar as listas de espera nas admissões em lares de idosos. Em interpelação escrita, o deputado pede que as autoridades tenham como exemplo Hong Kong, onde são atribuídos subsídios para os idosos que estão à espera de acolhimento em lares para que possam escolher um lugar em Macau ou Guangdong.

Nick Lei, ligado à comunidade de Fujian, argumentou que, actualmente, o tempo médio de espera por uma vaga é de aproximadamente 16 meses, e mesmo com o Governo a planear construir três novos lares na Zona A dos Novos Aterros, com cerca de 1.100 vagas, é difícil melhorar a pressão sentida.

O deputado entende que o tempo de espera é demasiado longo, exigindo que seja criado um sistema de promoção profissional e certificação de competências na prestação de serviços a idosos, a fim de atrair mais residentes para a profissão. Nick Lei pede também uma melhor cadeia de fornecimento de medicamentos entre fronteiras para maior conveniência aos idosos.

29 Jul 2026

Naufrágio | China resgata 47 marinheiros de navio vietnamita

O Governo chinês informou ontem que já foram resgatados 47 dos 62 marinheiros que se encontravam a bordo do navio vietnamita que se afundou na noite de sexta-feira em águas do mar do Sul da China.

O porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lin Jian actualizou, numa conferência de imprensa, o número de sobreviventes, que passou de 44 para 47, e indicou que todos já foram entregues de forma ordenada às autoridades vietnamitas.

“Depois de ter sido conhecida a situação de perigo em que o navio se encontrava, a parte chinesa iniciou de imediato operações de resgate, um gesto pelo qual a parte vietnamita expressou o seu agradecimento”, afirmou Lin.

Segundo a televisão estatal chinesa CCTV, o navio ‘Nanhaijiu 115’, operado pelo ministério dos Transportes, detectou um sinal luminoso de emergência e localizou dois grupos de botes salva-vidas que foram arrastados para águas próximas do recife Fiery Cross, conhecido na China como Yongshu, permitindo o resgate inicial de vários marinheiros de nacionalidade vietnamita.

Apesar dos esforços realizados, vários tripulantes continuam desaparecidos, pelo que as operações de busca e salvamento prosseguem.

28 Jul 2026

Ucrânia | Seul acompanha cooperação entre russos e norte-coreanos

O Governo sul-coreano acompanha de perto a cooperação militar entre Moscovo e Pyongyang, depois de o Presidente ucraniano ter alertado para a possibilidade de a Coreia do Norte enviar mais 30 mil soldados para a Rússia.

“O Governo está a acompanhar de perto os desenvolvimentos relacionados com a cooperação militar entre a Coreia do Norte e a Rússia”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul num comunicado divulgado pela agência de notícias sul-coreana Yonhap. Segundo a Yonhap, não há, de momento, indícios de qualquer envio adicional de tropas norte-coreanas.

No sábado, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou nas redes sociais que Moscovo procura recrutar 30 mil soldados da Coreia do Norte, depois de ter sofrido quase 225 mil baixas militares em menos de sete meses de guerra na Ucrânia neste ano, 131 mil mortos e quase 93 mil feridos.

O Governo sul-coreano insistiu que a cooperação militar entre Pyongyang e Moscovo viola as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e “deve cessar imediatamente”.

Já o porta-voz do Governo japonês, Minoru Kihara, afirmou ontem que a cooperação militar entre a Rússia e a Coreia do Norte, como o envio de tropas e a aquisição de armas e munições norte-coreanas pela Rússia, “não só agrava a situação na Ucrânia, como é motivo de séria preocupação devido ao seu impacto na segurança regional”.

“Da nossa parte, continuaremos a recolher e a analisar informações relevantes, incluindo os últimos acontecimentos”, declarou Kihara.

Segundo os serviços de informação sul-coreanos, Pyongyang enviou aproximadamente 15.000 soldados em apoio da Rússia na sua guerra contra a Ucrânia. Em troca, o regime de Kim Jong-un recebeu moeda estrangeira, bens e tecnologia de Moscovo. O Presidente russo, Vladimir Putin, recebeu a ministra dos Negócios Estrangeiros norte-coreana, Choe Son-hui, no Kremlin, em meados deste mês, pela segunda vez em menos de um ano.

28 Jul 2026