Sérgio Fonseca Desporto MancheteFIA Esports Global Rally Tour | Macau eleito para eliminatória regional A Federação Internacional do Automóvel (FIA), o organismo regulador mundial do desporto motorizado e a federação das organizações de mobilidade a nível global, lançou na semana passada o “FIA Esports Global Rally Tour”, a primeira competição virtual de ralis que vai ter uma etapa importante na RAEM Impulsionada pelo próprio Mohammed Ben Sulayem, Presidente da FIA e ex-piloto de ralis, a iniciativa recebeu apoio unânime de todos os Vice-Presidentes da FIA para o Desporto. Entre 12 e 25 de Maio, decorrerá uma fase de qualificação online, a nível mundial, na popular plataforma Assetto Corsa Rally. A ideia é encontrar os 56 melhores pilotos, oito de cada região participante: Europa (Norte e Sul), MENA (Médio Oriente e Norte de África), América do Norte, América do Sul, Ásia-Pacífico e África. Apesar da sua vaga história na modalidade de ralis, que contrasta com o seu peso mundial no que respeita à disciplina de velocidade, a RAEM “entra em campo” na fase seguinte, pois foi o local escolhido pela FIA para acolher a fase de selecção da região Ásia-Pacífico. Com oito participantes, esta será composta por eliminatórias regionais em formato de eliminação directa, com quartos-de-final, meias-finais e uma final. O evento de Macau decorrerá durante a Conferência da FIA em Macau, a 23 de Junho. O evento do “FIA Esports Global Rally Tour” contará com equipamento de dois dos fornecedores oficiais de Esports da FIA, a Advanced SimRacing e a D-BOX, e está a ser organizado em parceria com a 505 Games, Supernova Games Studios, parte do grupo Digital Bros, e com apoio técnico da KUNOS Simulazioni. Os dois melhores pilotos saídos destas eliminatórias decisórias de Macau irão participar na final mundial no Interior da China, mais precisamente na cidade de Xangai. Os 16 melhores pilotos, dois por região, à excepção da Europa que, dado o maior número global de Clubes Membros da FIA, qualificará quatro pilotos, acrescidos de dois wildcards nomeados pela FIA, qualificar-se-ão para as Finais do FIA Esports Global Rally Tour, a realizar durante a semana da prestigiada Semana de Gala da FIA em Xangai, em Dezembro. Antes da prova principal, uma competição prévia no local reunirá os 16 pilotos qualificados para estabelecer a classificação inicial. A competição culminará durante a Cerimónia de Gala da FIA, a 12 de Dezembro de 2026, onde os dois melhores pilotos se defrontarão numa Grande Final ao vivo, lado a lado, em palco. Aproximar um novo público Numa altura em que a FIA tenta reabilitar a imagem do Campeonato do Mundo de Ralis da FIA (WRC), o organismo liderado por Mohammed Ben Sulayem quer chegar, com esta iniciativa do “FIA Esports Global Rally Tour”, aos mais novos e a uma geração que cresceu com a Fórmula 1 como a principal, e quase única, influência automobilística. A federação quer igualmente criar uma maior proximidade entre as federações ou associações responsáveis pelo desporto, as Autoridades Desportivas Nacionais, e um novo público. “Expandir a disciplina de Esports e ligar o seu público em rápido crescimento às nossas Autoridades Desportivas Nacionais, de forma a reforçar as suas iniciativas locais, é uma das nossas principais prioridades”, afirmou Niroshan Pereira, Presidente da Comissão de Esports da FIA. “O FIA Esports Global Rally Tour incorpora verdadeiramente esta visão e representa um passo significativo em frente para o desporto. Gostaria de agradecer ao nosso Presidente da FIA e aos Vice-Presidentes da FIA para o Desporto pelo seu apoio incondicional, e estou entusiasmado por ver milhares de pilotos de todo o mundo a competir por uma oportunidade de demonstrar as suas capacidades perante todos os Campeões do Mundo da FIA em Xangai, ainda este ano.” Organizadas pelo clube membro da FIA na RAEM, a Associação Geral do Automóvel de Macau-China (AAMC), com o apoio do Galaxy Macau, as Assembleias Gerais Extraordinárias e a Conferência anual da FIA irão regressar este ano a Macau. O Galaxy International Convention Center (GICC) será a sede da Conferência da FIA tanto em 2026 como em 2027, fruto de uma parceria estratégica de três anos entre a FIA e a Galaxy Macau. São esperados mais de 400 delegados das 198 organizações filiadas de 139 países e territórios, que se reunirão para debater o futuro do desporto motorizado e da mobilidade.
Hoje Macau Manchete SociedadeAnálise | Receitas deverão crescer pelo menos 6,6% em Maio Analistas esperam que em Maio o crescimento das receitas dos casinos seja alavancado por uma forte procura pós-Semana Dourada, que termina hoje. Uma das principais forças deste crescimento é o segmento mais alto do mercado de massas Ao longo deste mês, as receitas dos casinos deverão crescer anualmente entre 6,6 por cento e 8,5 por cento, para valores que devem rondar 22,6 milhões de patacas e 23,0 milhões de patacas. As previsões constam de dois relatórios dos bancos de investimento CLSA e Seaport Research Partners, citados pelo portal GGRAsia. A estimativa mais conservadora consta no relatório do banco de investimento CLSA, assinado pelo analista Jeffrey Kiang. “Actualmente, prevemos que as receitas brutas do jogo de Maio de 2026 cresçam 6,6 por cento em termos homólogos, atingindo 22,6 mil milhões de patacas, o que consideramos exequível”, escreveu o analista da CLSA, num relatório emitido após uma visita a Macau. “Isto implica que a média diária das receitas brutas do jogo vai ser de 729 milhões de patacas, semelhante à média de Março de 2026”, foi acrescentado. De acordo com os resultados de Abril, divulgados na semana passada, as receitas brutas do jogo apresentaram uma redução mensal de 12 por cento, face a Março. No entanto, a análise anual mostrou um crescimento de 5,5 por cento, para 22,6 mil milhões de patacas. O banco de investimento apontou também que actualmente existe uma “grande tendência” para os jogadores do segmento mais elevado do mercado de massas, que podem apostar valores por jogada de 100 mil dólares de Hong Kong, preferirem visitar os casinos de Macau durante as épocas mais baixas do turismo. Devido a esta lógica, mesmo após o fim da Semana Dourada, que termina hoje, os analistas acreditam que as receitas vão continuar durante mais alguns dias a apresentar valores elevados. Maior optimismo Já a empresa Seaport Research Partners mostra-se mais optimista em relação às receitas de Maio. “Prevemos que as receitas brutas do jogo no mês de Maio aumentem 8,5 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior”, pode ler-se no documento. “Embora nem sempre seja um indicador da solidez das receitas brutas, o feriado de cinco dias da Semana Dourada (…) mostra um forte fluxo de visitantes e uma elevada ocupação hoteleira”, escreveu o analista Vitaly Umansky. A Seaport Research Partners considera também que houve vários visitantes que optaram por adiar as viagens planeadas do final de Abril para o início de Maio, de forma a coincidirem com os feriados no Interior.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeIPOR | Agenda para este ano com mais de 100 cursos Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, diz que a instituição “retomou os números de 2019, mas com uma dinâmica diferente” e que actualmente tem “mais público jovem”. Além do festival “Letras&Companhia”, que começa hoje, o IPOR tem na agenda deste ano uma centena de cursos O Instituto Português do Oriente (IPOR) está bem e recomenda-se. Ao HM, a directora, Patrícia Quaresma, falou da centena de cursos que está programada para este ano, do facto de ter recuperado os números pré-pandemia, em termos de alunos, e de ter professores suficientes. “Nos últimos anos registou-se uma alteração no público-alvo e no tipo de formações que organizamos”, começou por dizer. “Estamos com mais público jovem, a colaborar mais com a DSEDJ [Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude] e as universidades, na formação de professores e em programas de cursos para fins específicos.” Segundo a directora do IPOR, “após um período de quebra, retomamos os números de 2019, mas com uma dinâmica diferente”, sendo que, actualmente, as instalações do IPOR “têm espaço suficiente para acolher as turmas dos cursos que promovemos”. Porém, “a dinâmica” passa também pela crescente realização de acções de formação fora das instalações do IPOR, disse. “No que diz respeito ao corpo docente do nosso Centro de Língua, estamos neste momento com 16 professores em Macau e um em Pequim, número suficiente para responder aos mais de 100 cursos que temos na agenda para 2026”, adiantou. O IPOR foi uma das entidades que, na recente visita do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, a Lisboa, assinou um protocolo com a Universidade de Coimbra e a DSEDJ para que os estudantes possam continuar os estudos superiores em Coimbra, podendo inscrever-se em licenciaturas e mestrados. Mas já anteriormente o IPOR assinou acordos com a Universidade do Porto e Universidade da Beira Interior. Todos eles permitem “facilitar e enquadrar o acesso e a frequência, por parte de estudantes da RAEM, com estatuto de estudante internacional, a ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciado e de mestre”. “Ao IPOR compete receber as candidaturas dos estudantes, organizar os seus processos e leccionar um curso preparatório de língua portuguesa com a duração de 300 horas. No final do curso, os alunos que atingirem, no mínimo, o nível A2 de proficiência, prosseguem para a universidade em Portugal, onde continuarão mais um ano de aprendizagem de língua, podendo, nalguns casos frequentar, mas sem avaliação, algumas das cadeiras da licenciatura ou mestrado em que foram admitidos, a qual terá início apenas no ano lectivo seguinte. Desta forma, iniciam o ciclo de estudos com uma consistente proficiência em língua portuguesa, idealmente o nível B2, e completamente integrados na vida académica, cultural e social do país”, explicou. Festival envolvente O HM conversou com Patrícia Quaresma a propósito da realização de mais uma edição do Festival “Letras&Companhia”, que começa hoje e que traz nomes de escritores portugueses como Inês Cardoso e Afonso Cruz, e muitas actividades para pais e filhos. “O festival tem procurado envolver as instituições de ensino em todas as actividades, e este ano decidimos reforçar esta participação realizando a cerimónia de abertura na Escola Portuguesa de Macau e convidando a Escola Sun Wah para fazer um espectáculo na abertura do Letras&Companhia com os vencedores do Quarto Concurso de Canto Lusofonia promovido pela escola”, explicou. O festival colabora também, este ano, com a empresa local CESL-Ásia. “Queremos que o Letras&Companhia se torne num marco das memórias dos mais pequenos e das famílias. Procuramos acima de tudo que o festival possa proporcionar bons momentos em português e que, por sua vez, consiga estimular a criatividade, o imaginário e, principalmente, o interesse pela leitura e pelos livros”, acrescentou a directora do IPOR. Patrícia Quaresma diz notar “uma evolução muito positiva” na adesão do público. “Sentimos que o festival já faz parte das agendas das famílias e da comunidade e por isso, procuramos inovar e constituir um programa com novos elementos e actividades.” Um dos exemplos, nesta edição, é a parceria com o Festival de cinema de Lisboa “Monstra”. “O festival procura promover o livro e a leitura, trazendo para o público não apenas um conjunto de publicações de autores dos países de língua portuguesa, mas também através da edição de traduções para chinês de algumas destas publicações. O IPOR tem publicado e apresentado pelo menos uma nova edição em língua chinesa, procurando assim alargar o alcance da literatura, da leitura e dos livros destes autores ao público não falante de língua portuguesa”, rematou.
João Santos Filipe Manchete PolíticaCotai | FAOM pede mudanças devido a confusão no Local ao Ar Livre Após a confusão no festival K-Spark, Leong Meng Ian, da FAOM, pediu ao Executivo mudanças na exploração do espaço e criticou a falta de civismo de alguns espectadores A directora da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), Leong Meng Ian, sugeriu mudanças no Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau, depois da confusão de sábado, que terminou com cenas de pancadaria. Segundo Leong, o Executivo tem de aprender com a experiência caótica do passado fim-de-semana, exigindo que os organizadores tomem medidas necessárias para garantir que quem compra bilhetes pode disfrutar de um espectáculo sem sobressaltos. O espectáculo K-Spark teve como principal artista o cantor coreano G-Dragon, e ficou marcado pela disponibilização de cadeiras dobráveis, uma vez que todos os lugares eram sentados. Como as cadeiras não estavam fixas, vários fãs moveram as cadeiras o mais para a frente possível, o que gerou tensão entre os membros da audiência, com várias pessoas a queixarem-se que ficavam com o campo de visão para o placo bloqueado. Além das queixas, até porque houve pessoas a colocaram-se de pé nas cadeiras, surgiu pelo menos uma cena de pancadaria, que se tornou viral online. Face aos episódios divulgados online, Leong Meng Ian pediu ao Governo para aprender com a experiência de organizadores de eventos habituados a lidar com milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, apontou que os organizadores têm de colocar mais ecrãs gigantes na zona de espectáculos. A também membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários das Ilhas alertou ainda para a demora de cerca de 20 minutos para entrar no local de espectáculos, o que gerou uma grande concentração de pessoas. Para Leong, este tipo de demoras pode ter consequências “catastróficas” se houver alguma emergência ou momentos de pânico, com a possibilidade vítimas mortais em casos de esmagamento. Críticas à assistência Apesar das falhas, Leong Meng Ian considera que grande parte dos problemas se deveu à falta de civismo da audiência, que não ficou no local onde estavam as cadeiras. A responsável defende que o Executivo deve emitir instruções para a zona de espectáculos, para garantir comportamentos civilizados. Leong Meng Ian também elogiou o Executivo pelas novas medidas para escoar o público no fim dos espectáculos. A responsável indicou que os espectadores demoraram cerca de 20 minutos a abandonar o recinto no fim do evento.
João Luz Manchete PolíticaFundação Macau | Apoios no primeiro trimestre totalizam quase 200 milhões No primeiro trimestre deste ano, a Fundação Macau distribuiu 198,8 milhões de patacas para mais de 700 projectos. As associações tradicionais foram as maiores beneficiárias, com os Operários a receber cerca de 16 milhões de patacas e os Moradores 17,2 milhões de patacas Ao longo dos primeiros três meses de 2026, a Fundação Macau distribuiu cerca de 198,9 milhões de patacas, entre 743 projectos e actividades de associações e instituições. O valor dos apoios cresceu 162,4 por cento face ao trimestre anterior quando foram entregues 75,8 milhões de patacas, mas regista-se uma descida acentuada face ao primeiro trimestre de 2025, com uma quebra de 84,3 por cento. Entre os maiores beneficiários, contam-se as associações tradicionais. No primeiro trimestre deste ano, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau foi a entidade que recebeu quantias mais avultadas, cerca de 17,2 milhões de patacas. De acordo com os dados publicados no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos, o segundo lugar no “pódio” foi para a Federação das Associações dos Operários de Macau, com um apoio total a rondar os 16 milhões. O pódio encerra com a Associação Geral das Mulheres de Macau, que recebeu 13,9 milhões de patacas. A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau ficou a uma grande distância dos maiores beneficiários, com cerca de 478 mil patacas. Em relação às entidades ligadas a conterrâneos de Fujian, a Aliança de Povo de Instituição de Macau obteve apoios financeiros de cerca de 7,3 milhões de patacas, enquanto a Associação Geral dos Conterrâneos de Fukien de Macau foi financiada com 1,4 milhões de patacas. Projectos além-fronteiras Ainda no capítulo das associações de cariz político, destaque para o apoio financeiro concedido à Associação Geral dos Chineses Ultramarinos de Macau, que recebeu mais de 3,2 milhões de patacas. Já Associação dos Conterrâneos de Kong Mun, que representa a comunidade de Jiagmen, foi beneficiada com 1,7 milhões de patacas. Neste trimestre, a Fundação Macau voltou a conceder um apoio ao Instituto Cultural para a realização do Concerto de Bandas Sonoras da Grande Baía, 2025 “Lua Cheia Nascendo sobre a Baía”, desta feita no valor de 1,38 milhões de patacas. Analisando os dados públicos, podemos verificar que o mesmo projecto foi apoiado no último trimestre do ano passado com 12,4 milhões de patacas, totalizando quase 13,8 milhões de patacas. Por seu turno, o IPOR – Instituto Português do Oriente recebeu cerca de 213 mil patacas. No plano de apoio social, foram distribuídos à Cáritas de Macau cerca de 8,8 milhões de patacas. Um dos projectos de solidariedade social no Interior da China inscrito na lista de entidades apoiadas nos últimos anos é a construção da Escola Secundária Ao Yuan, na aldeia de Heshi do distrito de Xiushui da província de Jiangxi, que recebeu nos primeiros três meses de 2026 a última prestação para erigir a escola, num valor superior a 3,5 milhões de patacas. A construção da escola foi concluída em 2023. A este valor, foram acrescentadas 750 mil patacas em bolsas de estudo para 25 alunos com dificuldades financeiras no ano lectivo 2025/2026, o que resulta em 30 mil patacas por aluno. Um dos apoios mais avultados no primeiro trimestre do ano, foi a última prestação para pagar o projecto de reconstrução e ampliação dos edifícios escolares do Instituto Salesiano de Macau, num valor superior a 14,8 milhões de patacas.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteJosé Ferreira Pinto, docente | Na época da “tirania dos números” Docente na Universidade Cidade de Macau, José Ferreira Pinto acaba de editar, na Amazon, a obra “Arithmocracy: When Numbers Rule and Judgment Disappears”, sobre o poder crescente dos números sobre relações interpessoais. A “aritmocracia” veio, definitivamente, para ficar e é difícil reagir ou encontrar alternativas mais humanas, diz o autor Porque razão decidiu escrever sobre esta “obsessão métrica”? Como profissional académico e consultor, testemunhei uma transformação profunda nas organizações, com a substituição progressiva do julgamento humano pela tirania dos números. A “obsessão métrica” não é simplesmente o uso de dados, mas a elevação da medição a uma posição de domínio organizacional que, paradoxalmente, mina os próprios resultados que a medição pretendia melhorar. É como quando o médico passa mais tempo a documentar do que a curar. A “aritmocracia” não é sobre ter métricas – é sobre as métricas nos terem a nós. Desde a industrialização que os números, no sentido das horas de trabalho, ou contagem da produção, dominam a vida humana. Com a chegada dos meios digitais e, sobretudo, da Inteligência Artificial (IA), podemos ter uma nova fase desta “obsessão métrica”? Charlie Chaplin, em “Modern Times” (1936), profetizou este fenómeno, mostrando como sistemas desenhados para optimizar performance podem produzir situações absurdas, alienação e estupidez sistémica. Com a IA e meios digitais, entramos numa fase exponencialmente mais intensa. Como? A fase industrial, de Chaplin, tinha medição manual, localizada e visível, em que o cronómetro de Taylor media movimento. Aí, o trabalhador via a medição acontecer. Mas na fase digital há a mediação automática, ubíqua e invisível, em que os algoritmos medem cada clique, pausa e desvio sem que nos apercebamos. A IA não reduz a burocracia – torna-se a arma definitiva da “aritmocracia”. O que Chaplin satirizou como loucura mecânica, nós normalizámos como “gestão data-driven”. Hoje a máquina não apenas mede, mas também decide. E quando os algoritmos decidem, a responsabilidade moral dissolve-se: “foi o algoritmo que determinou.” De onde vem o conceito de “aritmocracia”? Tem uma genealogia fascinante, nomeadamente uma raiz histórica em Charles Kinglsey (1850), que cunhou este conceito para criticar a redução da democracia a uma mera contagem de votos: “A ‘democracy’ of mere numbers is no democracy, but a mere brute ‘arithmocracy’.” Há ainda um paralelo histórico com o período da dinastia Qing, na China, (221-206 a.C.), e a revitalização moderna com Anthony Tasgal, um estratega de comunicação, que reintroduziu o termo para descrever “a obsessão com números e medição, a crença numa espécie de infalibilidade divina nos números.” O que faço, no livro, é partir de uma observação sobre disfunção organizacional para uma teoria sobre como os sistemas métricos se tornam regimes de poder, e também porque a resistência individual parece fútil. Como funcionava o sistema de governança por quantificação na dinastia Qing? Esta dinastia oferece um paralelo histórico fascinante e instrutivo – talvez o exemplo pré-moderno mais sofisticado de governança através de quantificação sistemática. O sistema Qin antecipa, com notável precisão, os mecanismos da “aritmocracia” moderna. A filosofia Legista que fundamentou a Dinastia Qin representou uma revolução no pensamento político chinês. Ao contrário do Confucionismo, que enfatizava a virtude moral dos governantes, o Legismo propunha que o Estado deveria operar através de leis fixas e incentivos mensuráveis, nomeadamente com o “Registo Doméstico Sistemático”. Pela primeira vez na história chinesa, cada família foi catalogada, registada e tornada “legível” ao poder central. Este sistema não era meramente administrativo, mas epistemológico. Transformava populações em unidades contáveis que podiam ser taxadas, recrutadas e controladas com precisão sem precedentes. Havia depois o “Sistema de Mérito Quantificado”, em que o status social deixou de ser hereditário para ser determinado por realizações mensuráveis. Por exemplo, os soldados subiam de patente com base em “contagem de cabeças” – o número literal de inimigos mortos em batalha. [Publicou-se também] “O Livro do Senhor Shang”, um texto que articulou uma visão de statecraft [arte de governar] onde recompensas e punições eram calibradas matematicamente a resultados mensuráveis, eliminando a “confusão” introduzida por considerações morais. Deu-se ainda uma estandardização radical, em que pesos, medidas, largura de eixos de carruagens, escrita, moeda, tudo foi uniformizado. Isso tornou o vasto território “legível” à autoridade central, permitindo a administração à distância através de categorias universais. Contudo, a dinastia implodiu apenas 15 anos após a sua fundação – um dos colapsos mais rápidos na história imperial chinesa. Porquê? Deu-se a fragilidade sistémica, com um regime construído inteiramente em métricas abstratas, sem atenção à legitimidade moral ou sensibilidade a condições locais, revelando-se profundamente frágil. Quando uma revolta começou entre trabalhadores recrutados que chegaram atrasados aos seus postos – enfrentando a execução por falhar uma métrica temporal – o império inteiro desmoronou. As regras eram tão rígidas que nenhum contexto importava – e quando as pessoas deixaram de acreditar nas regras, não havia mais nada a sustentar o sistema. Como o historiador Mark Edward Lewis observou, Qin demonstrou que “o poder que flui de cima através de métricas é mais eficiente que o poder que emerge de baixo através de consenso – mas também é infinitamente mais frágil.” Que semelhanças podem ser encontradas com a actualidade? Em ambos [os períodos] se promete a eficiência através de uma quantificação universal, ou ambos tratam a diversidade humana como legível através de categorias estandardizadas. Além disso, privilegiam o controlo central sobre conhecimento local, transformando o julgamento moral em cálculo técnico. Defende-se que o termo “aritmocracia” não é “uma conspiração, mas um padrão emergente onde o sistema de medição, designado como ferramentas, se torna mestre”. Também entende que a forma como pensamos está a mudar. De que forma? A “aritmocracia” opera através do que Mary Douglas chamou “pensamento institucional”, em que sistemas métricos não apenas constrangem comportamento, mas fornecem as categorias cognitivas através das quais processamos experiência. Há três mecanismos de transformação cognitiva, através da naturalização das métricas, em que estas se apresentam não como escolhas institucionais, mas como descrições da realidade. Há ainda a ideia de que “o dashboard [painel de controlo] mostra”, que se torna equivalente a “a realidade é”; as alternativas tornam-se impensáveis. Há ainda uma amnésia institucional, em que as organizações esquecem o que não medem – um hospital que mede o “tempo de espera”, mas não a “compaixão” [para com os doentes], gradualmente esquece que compaixão importa. Há depois a ideia de captura de valor, de Thi Nguyen, em que valores ricos e subtis das pessoas encontram versões simplificadas e quantificadas no ambiente. Ou seja, as versões simplificadas assumem o controlo. Dou um exemplo concreto: um médico que trabalhou 20 anos num sistema de 15 minutos por consulta eventualmente perde a capacidade de diagnóstico profundo. Não por má vontade, mas por atrofia cognitiva – as capacidades que não praticamos, perdemos. Traz casos concretos para esta obra, oriundas de “histórias da academia, sistema de saúde, Governo, educação e hotelaria”. São sistemas métricos que não “apenas nos moldam, mas como reformulam a forma de pensar”. Os casos que o livro documenta são de cinco domínios, e um deles é a academia, em que há a “tirania do h-index”, com académicos a optimizar citações em vez de [garantir] o impacto intelectual [do trabalho produzido]. Há um jogo de rankings, em que as universidades manipulam métricas, encorajando-se candidaturas para rejeitar ou inflacionar rácios professor-aluno. Ainda na área da educação, apresento o “PISA Panic” [pânico ou pressão em torno dos resultados dos testes PISA], pois ministros copiam sistemas de topo em rankings sem questionarem se as métricas PISA capturam o que importa. Há depois a gamificação infantil, com crianças de sete anos a competir por “pontos de leitura”, escolhendo livros por valor de pontos, e não por interesse. [Falo ainda] dos modelos de valor acrescentado, em que professores são avaliados por pontuações de testes, independentemente de contexto. Na área do turismo, que exemplos apresenta? Nos resorts integrados há uma tensão entre a lógica do “gaming”, com controlo e métricas precisas, e a experiência. Há ainda uma gestão de receitas, com sistemas que maximizam a receita de quartos a curto prazo, ao mesmo tempo que potencialmente danificam relações com clientes a longo prazo através [da ideia] da percepção de injustiça nos preços. Há ainda uma inércia activa, quando os resorts que enfrentam desafios competitivos respondem medindo mais intensivamente, analisando mais profundamente, otimizando mais agressivamente, numa actividade sem adaptação. O livro fala da resistência individual à “aritmocracia”. De que forma pode ocorrer? Argumenta-se que resistência individual é largamente fútil – o problema é sistémico. Mas o livro documenta estratégias coletivas emergentes, nomeadamente a existência de métricas democráticas. [Há o caso da cidade de] Porto Alegre, em que os cidadãos deliberam que resultados importam e como medir. Há ainda o exemplo de cooperativas de trabalhadores, em que os empregados estabelecem métricas de performance. Temos ainda o caso da integração narrativa, em que se podem combinar “dashboards” quantitativos com histórias de pacientes, com a ideia de que os números mostram “o quê” e as narrativas explicam “o porquê”. Há depois actos individuais de coragem, como o médico que fecha o computador portátil para realmente ouvir [o doente] ou ainda o gestor que suspende a avaliação métrica para entender o que os empregados realmente precisam. Estes não mudam sistemas sozinhos, mas criam fissuras no edifício “aritmocrático”. Que conclusões retirou desta obra? A “aritmocracia” não representa meramente uma mudança técnica nos sistemas de gestão, sendo uma transformação na própria natureza da agência humana e da autoridade epistémica, na forma como conhecemos o que nos rodeia. Quando um médico experiente enfrenta um paciente cuja condição não se enquadra nos protocolos algorítmicos, o sistema não reconhece [este caso], [reconhecendo apenas] desvios mensuráveis de padrões estatísticos. O médico pode saber que este caso particular requer uma abordagem diferente, mas esse conhecimento não é quantificável, não pode ser inserido numa folha de cálculo, não gera métricas reportáveis. Aos olhos do sistema, não existe. O que se perde não é apenas autonomia profissional, mas a capacidade de responder à singularidade de cada situação humana. Mais profundamente perturbador é o que a “aritmocracia” faz à categoria de pessoa, quando algoritmos de contratação classificam candidatos por “pontuação de adequação”, ou quando plataformas digitais calculam o “valor vitalício do cliente”. Este é um problema da transformação de pessoas em pontos de dados, tratando-as como objectos mensuráveis em vez de sujeitos que se auto-interpretam. A vida humana caracteriza-se por uma pluralidade irredutível de valores que não podem ser reduzidos a uma escala comum de medição. Na prática, os valores que resistem à quantificação tornam-se progressivamente invisíveis e depois indefensáveis. É docente na área do turismo, porquê enveredar por esta área do discurso métrico e do raciocínio em torno dele? Por exemplo, de que forma este domínio do discurso métrico influencia o turismo e as respectivas políticas de gestão? A minha motivação para investigar a aritmocracia emerge da confluência entre a minha posição profissional e os interesses académicos que têm orientado o meu percurso intelectual. Como docente a tempo inteiro na Faculdade de Negócios da Universidade Cidade de Macau, encontro-me numa posição privilegiada para observar e analisar uma ampla diversidade de contextos organizacionais e sistemas de gestão subjacentes. Esta experiência proporciona-me acesso directo às dinâmicas através das quais diferentes tipos de negócios – desde pequenas empresas locais a grandes corporações multinacionais – implementam, resistem ou são transformados por lógicas quantitativas de tomada de decisão. O contacto quotidiano com estudantes que se preparam para entrar nestas realidades organizacionais, bem como com gestores e profissionais que navegam as suas complexidades, permite-me compreender não apenas as estruturas formais da aritmocracia, mas também as suas manifestações vividas e as causas profundas que a sustentam. Esta investigação conecta-se de forma particularmente significativa com o núcleo da minha tese de doutoramento, que se centrou na resiliência aos níveis individual e organizacional. Há uma relação entre a aritmocracia e esta resiliência? A relação entre aritmocracia e resiliência revela-se fundamental de múltiplas formas. Por um lado, sistemas aritmocráticos prometem aumentar a resiliência organizacional através de monitorização contínua, detecção precoce de desvios e resposta baseada em dados. Por outro lado, a própria rigidez destes sistemas pode minar as capacidades adaptativas que constituem uma resiliência genuína – a capacidade de responder criativamente ao inesperado, de mobilizar conhecimento tácito em situações ambíguas, de manter coerência de propósito mesmo quando métricas específicas se tornam temporariamente desfavoráveis. A nível individual, a resiliência dos profissionais confrontados com pressões aritmocráticas torna-se uma questão crítica: como mantêm integridade profissional e bem-estar psicológico quando o seu trabalho é reduzido a indicadores de desempenho? Esta intersecção entre os mecanismos de controlo quantitativo e as capacidades humanas e organizacionais de persistir, adaptar-se e prosperar sob condições de pressão constitui um território conceptual que liga organicamente o meu trabalho anterior a esta investigação presente, permitindo-me explorar como sistemas de governação numérica tanto facilitam quanto constrangem a resiliência em múltiplos níveis de análise. Porquê editar o livro em formato kindle na Amazon? Teve dificuldades em chegar a uma editora? A escolha da auto-publicação em formato Kindle foi deliberada e estratégica, por três razões: a velocidade, pois o livro aborda um fenómeno em rápida aceleração. O processo editorial tradicional, de 12 a 18 meses, tornaria o conteúdo desactualizado. Há depois a questão do alcance global, pois a Amazon permite distribuição imediata em mais de 190 países, essencial para um fenómeno global. Há ainda uma ironia intencional, no sentido do poder do uso de ferramentas da aritmocracia, como os algoritmos da Amazon e as métricas de vendas para criticamente a examinar. É trabalhar dentro do sistema enquanto o questionamos. Quanto às editoras tradicionais, não procurei [nenhuma] activamente. A academia tem os seus próprios rituais de publicação, com sistemas de revisão por pares ou editoras universitárias, mas este livro é, deliberadamente, transdisciplinar – combina antropologia institucional, filosofia, estudos de caso de negócios, crítica de tecnologia. Essa hibridez é difícil de encaixar nas categorias editoriais convencionais.
Hoje Macau Eventos MancheteBienal de Veneza | Macau participa com obras sobre Wu Li Macau vai estar representada na Bienal de Veneza este ano com uma exposição inspirada na vida do pintor e poeta católico chinês, Wu Li (1623-1718), também conhecido como Jacone. Com curadoria conjunta de Feng Yan e Ng Sio Ieng, a exposição organizada pelo Instituto Cultural de Macau (IC) e implementada pelo Museu de Arte de Macau reúne os artistas locais Eric Fok Hoi Seng, O Chi Wai e Veronica Lei Fong Ieng, sendo inaugurada em Veneza a 8 de Maio. Segundo o IC, o projecto integra instalação, pintura e vídeo, e inspira-se na figura do pintor e poeta Wu Li, que viveu entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, para reinterpretar a sua “viagem criativa transcultural e espiritual”. Wu Li residiu em Macau em 1681, durante o reinado do imperador Kangxi, onde estudou teologia e registou na coletânea Sanba Ji a convergência das culturas chinesa e ocidental. Tendo estudado latim e teologia no Colégio de São Paulo, a primeira escola de estilo Ocidental na China, Wu converteu-se ao catolicismo e foi missionário jesuíta na província chinesa de Jiangsu, referindo-se a si mesmo como “Jacone”. A exposição recria, através da arte contemporânea, a viagem à Europa que o “poeta nunca realizou”, celebrando as “raízes culturais de Macau e a sua herança multicultural”. A mostra estará patente de 9 de Maio a 22 de Novembro de 2026 no Arsenale, Campo della Tana, em Veneza, com entrada gratuita. Macau participou pela primeira vez na Bienal de Veneza em 2007, sendo esta a décima participação do território no maior e mais antigo palco internacional de arte.
Hoje Macau Manchete SociedadeJogo | Receitas de Abril foram as mais baixas dos últimos sete meses Nem tudo foram más notícias para a principal indústria de Macau. Apesar dos resultados mensais mais baixos desde Setembro, Abril trouxe um crescimento anual de 5,5 por cento das receitas brutas dos casinos As receitas do jogo registaram em Abril uma queda de 12 por cento, em termos mensais, alcançando o valor mais baixo dos últimos sete meses, de acordo com dados anunciados na sexta-feira. Os casinos arrecadaram 19,9 mil milhões de patacas em Abril, contra 22,6 mil milhões de patacas no mês anterior, de acordo com dados da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ). Trata-se do valor mais baixo desde Setembro de 2025, quando as receitas dos casinos totalizaram 18,3 mil milhões de patacas. No entanto, em termos homólogos, as receitas apresentaram um crescimento de 5,5 por cento, dado que em Abril do ano passado as receitas tinham alcançado 18,9 mil milhões de patacas. Em 2025, as receitas de 18,9 mil milhões de patacas foram as terceiras mais baixas desse ano, ficando apenas a cima do mês de Setembro, quando o valor foi de 18,3 mil milhões de patacas e do mês de Janeiro, que teve receitas de 18,2 mil milhões de patacas. Os número revelado na sexta-feira ainda está longe da realidade pré-pandemia. Em Abril de 2019, as receitas do jogo atingiram 23,6 mil milhões de patacas, uma diferença de 18,6 por cento ou 3,7 milhões de patacas. Carteira mais pesada Em termos de receita bruta acumulada, os primeiros quatro meses deste ano registaram uma subida de 12,1 por cento em relação ao ano anterior, com um total de 85,8 mil milhões de patacas contra 76,5 mil milhões de patacas entre Janeiro e Abril de 2025. Também neste aspecto os números estão distantes da realidade pré-covid-19. Em 2019, nos primeiros quatro meses do ano, as receitas do jogo atingiram 99,7 mil milhões de patacas, uma diferença de 23,2 mil milhões de patacas para os números mais recentes. Apesar disso, as receitas continuam a crescer ano após ano, com os primeiros quatro meses de 2026 a atingirem as maiores receitas desde a pandemia. Macau fechou o ano passado com receitas totais de 247,4 mil milhões de patacas, mais 9,1 por cento do que no ano anterior (226,8 mil milhões de patacas).
João Santos Filipe Manchete SociedadeEspectáculos | Cadeiras dobráveis geram cenas de violência O festival de Kpop no K-Spark in Macau foi um sucesso e os bilhetes esgotaram rapidamente. No entanto, os organizadores só disponibilizaram lugares sentados, o que espalhou a confusão entre os fãs O festival de Kpop no K-Spark in Macau, que decorreu no sábado no Local de Espectáculos ao Ar Livre, ficou marcado pela confusão criada com a colocação de cadeiras dobráveis à frente do palco, uma zona que normalmente é para lugares em pé. Ansiosos por estarem mais pertos dos ídolos, vários fãs não se coibiram de colocar as cadeiras móveis o mais à frente possível, perto do palco, o que gerou momentos de tensão, inclusive cenas de pancadaria. As imagens da confusão foram divulgadas pelos fãs nas redes sociais, com várias queixas, principalmente através da rede social Threads. Apesar de ser um lugar de concertos ao ar livre, os organizadores apenas disponibilizaram lugares sentados, mesmo em zonas que normalmente são para lugares em pé. A esperança era que as pessoas respeitassem o lugar onde as cadeiras móveis estavam colocadas. No entanto, pouco depois de se sentarem, os fãs perceberam que podiam mover as cadeiras mais perto do palco, porque não havia controlo. A situação gerou imediatamente mal-estar, porque quem respeitou o lugar onde tinham sido colocadas as cadeiras ficou com a visão para o palco bloqueada. E os momentos de tensão acabaram mesmo por gerar cenas de pancadaria, pelo menos num caso, que também foi divulgado online, com puxões de cabelos entre fãs, chapadas e empurrões. Concerto esgotado Apesar da confusão, o espectáculo foi um sucesso de vendas e os 30 mil bilhetes disponíveis esgotaram rapidamente. Os preços variavam entre as 799 patacas e 2.999 patacas. O espaço tem uma capacidade máxima para 80 mil pessoas, embora normalmente não seja totalmente utilizado, o que voltou a acontecer. O principal cabeça-de-cartaz foi o cantor coreano G-Dragon, cuja presença em Macau fica mais uma vez marcada por polémica. Em Junho do ano passado, durante outra passagem pelo território, os concertos foram alvos de uma operação contra a contratação ilegal de trabalhadores não-residentes. Em causa, esteve o facto de três mulheres do Interior, envolvidas na equipa de vendas dos organizadores, terem contratado cerca de 68 estudantes, igualmente do Interior, que aproveitaram os vistos para trabalhar, o que constitui uma situação ilegal. Daesung foi o segundo cantor mais popular do evento, também ele coreano e colega de G-Dragon no grupo de Kpop Big Bang, embora ambos tivessem actuado a solo. Os outros artistas, foram os grupos P1Harmony, Kiss of Life e Kiiikiii.
Hoje Macau Manchete PolíticaDia do Trabalhador | Sétimo ano sem manifestações As manifestações do Dia do Trabalhador, que chegaram a reunir milhares de participantes em Macau, não se realizaram pelo sétimo ano consecutivo, de acordo com o Corpo de Polícia de Segurança Pública. Este ano, as autoridades não receberam avisos prévios de reunião ou manifestação As manifestações que durante anos foram uma tradição na celebração do Dia do Trabalhador, a 1 de Maio, desapareceram do panorama político de Macau. Segundo informações avançadas na véspera do feriado pelas autoridades policiais à Lusa, não foram recebidos avisos “prévios de reunião ou manifestação” para 1 de Maio, data que antes de 2020 registava regularmente iniciativas públicas. Segundo a Lei Básica de Macau, todos os residentes de Macau têm o “direito de se reunir, pacificamente e sem armas, em lugares públicos, abertos ao público ou particulares”. No entanto, é necessário entregar um aviso prévio ao Corpo de Polícia de Segurança Pública por qualquer entidade que planeie realizar uma demonstração, com qualquer recusa ou restrição a ter de ser justificada pelas autoridades policiais. Durante a pandemia de covid-19, as forças de segurança recusaram-se a aprovar o percurso de qualquer manifestação, invocando razões de “ordem e segurança” ou de saúde pública. Estas proibições chegaram ao Comité dos Direitos Humanos da ONU que, em 2022, avaliou “um crescente número de informações de restrições indevidas ao exercício da liberdade de manifestações pacíficas”. As autoridades levantaram as restrições antipandémicas no final de 2023, mas as manifestações não voltaram às ruas da cidade. Ruas só com turistas No ano passado, o grupo Poder Popular de Macau cancelou uma manifestação planeada para 1 de Maio, a exigir a redução do número de trabalhadores migrantes, devido à “pressão da polícia”, que alegou que o protesto poderia violar a lei de Segurança Nacional, reportou na altura o jornal All About Macau. O Governo indicou então que a realização de manifestações pode ameaçar a segurança da China, mas negou que a polícia tivesse pressionado a associação a cancelar a iniciativa. “As manifestações podem trazer conflitos à sociedade, à segurança de Estado”, defendeu o então secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, numa conferência de imprensa. Um homem que protestava contra o número de trabalhadores migrantes em Macau, viria a ser detido no 1 de Maio do ano passado, com as autoridades a invocarem uma violação da lei do Direito de Reunião e Manifestação. Este foi o primeiro protesto público no Dia do Trabalhador desde 1 de Maio de 2019, antes da pandemia da covid-19, quando duas associações organizaram acções. Em 2018, por exemplo, a Nova Associação dos Direitos de Trabalhadores da Indústria de Jogos levou cerca de três centenas de membros a percorrer as ruas de Macau, exigindo melhores condições laborais. ATFPM | 1 de Maio assinalado com eventos desportivos A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) organizou no Dia do Trabalhador, 1 de Maio, uma série de actividades desportivas. Segundo um comunicado da associação, a participação este ano bateu o recorde, com “mais de 1.000 funcionários públicos e seus familiares” a participarem no evento. As competições abrangeram desportos como atletismo, futebol de sete, ténis de mesa e badminton. Além dos funcionários de mais 28 serviços públicos, participaram também docentes e funcionários da Universidade de Macau e da Universidade Politécnica de Macau, bem como trabalhadores da Companhia de Electricidade de Macau. As provas desportivas realizaram-se no Estádio Olímpico e no Pavilhão Desportivo dos Jogos da Ásia Oriental de Macau, e à noite realizou-se uma cerimónia de entrega de prémios.
Hoje Macau Manchete PolíticaCriminalidade | Jornal Ou Mun critica fim de conferências de imprensa O maior jornal diário em língua chinesa de Macau criticou as autoridades por “fecharem as portas ao público”, depois de o Governo ter terminado as conferências de imprensa trimestrais sobre relatórios de criminalidade. O Executivo acrescentou que o fim das conferências de imprensa tem como objectivo “aumentar a transparência” O jornal Ou Mun publicou um artigo de opinião onde critica o fim das conferências de imprensa, organizadas pela secretaria para a Segurança, de apresentação dos dados estatísticos da criminalidade em Macau. O relatório de criminalidade 2025 foi divulgado na passada terça-feira, apenas na página do gabinete do secretário para a Segurança, Chan Tsz King, na Internet, e sem a realização da habitual conferência de imprensa. Em comunicado, o gabinete confirmou que irá deixar de realizar conferências de imprensa trimestrais para apresentar os dados, “no intuito de aumentar a transparência das informações” e contribuir “para a paz e harmonia”. A divulgação regular dos dados estatísticos criminais vai passar a ser efectuada por “meios electrónicos” e apenas presencialmente quando “necessário”. Na edição de quinta-feira do jornal Ou Mun, um jornalista escreveu uma opinião, em que considerou que a “verdadeira transparência da informação não “significa simplesmente ‘colocar dados online de forma transparente’ mas “ter coragem para enfrentar as críticas e aceitar activamente a supervisão pública”. O mesmo jornalista afirmou que o ajuste “pode fechar uma das poucas janelas de diálogo que ainda restam” entre as autoridades do território e o público. “Quando um Governo escolhe fechar os canais de comunicação com os ‘media’ e reduzir a interacção directa com os jornalistas, pode parecer que evita o incómodo de lidar com perguntas difíceis, mas ao fazê-lo, também fecha voluntariamente a porta para resolver mal-entendidos e manter a credibilidade pública”, sublinhou o jornalista. Na mesma opinião, o jornalista aponta que, no passado, as conferências de imprensa “não eram apenas ocasiões para divulgar estatísticas criminais, mas também canais importantes através dos quais os cidadãos podiam comunicar com as autoridades através dos ‘media'”. “Durante as conferências, os responsáveis tinham de responder aos jornalistas em frente às câmaras, mesmo que as suas explicações nem sempre fossem satisfatórias, e pelo menos havia um diálogo aberto”, alertou o jornalista. Papel com poder Para o mesmo autor, “por mais detalhados que sejam os dados ou bem organizadas que estejam as tabelas” fornecidas ‘online’, “sem as perguntas de seguimento dos jornalistas, sem as respostas e esclarecimentos imediatos dos responsáveis, e sem um debate interactivo em tempo real” deixa de ser possível informar correctamente o público. Fundado em 1958 com o apoio do Partido Comunista Chinês, o jornal Ou Mun possui a maior tiragem do território, representando de 70 a 80 por cento da circulação de jornais da cidade. A publicação tem mantido desde sempre relações muito próximas com o poder político local e nacional. O histórico director da publicação, Lok Po foi membro de Macau no Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) entre 2003 e 2008, e mais tarde representante de Macau na Assembleia Popular Nacional (APN) entre 2008 e 2022. Antes da entrada nos dois principais órgãos consultivos e legislativos a nível nacional, Lok Po foi membro da CCPPC da província de Guangdong. Quando saiu do cargo na APN, foi substituído pelo director-geral do jornal Ou Mun, Wan Nang Hon. João Luz / Lusa
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteJacob Fordham, académico: “Estudo a história dos primeiros macaenses” Jacob Fordham, académico ligado à London School of Economics, está a ultimar um livro que analisa o papel dos tradutores no comércio entre portugueses e chineses em Macau. No âmbito das Conferências da Primavera, no Centro Científico e Cultural de Macau, o investigador apresentou a palestra “Chinese-Portuguese Linguists, Corruption, and Office: a Late Ming Chinese Debate”. Ao HM, diz que os “linguistas” eram “essenciais para gerir relações com chineses” Tem analisado arquivos chineses, ingleses e portugueses sobre o comércio no sul da China. Falamos de um período intenso de negociações, com muitos interesses em jogo? Fiz o doutoramento em Estudos Asiáticos e do Médio Oriente na Universidade de Oxford, investigando a história dos “linguistas” ou “jurubaças” [termo atribuído a chineses cristãos nascidos em Macau] do delta do Rio das Pérolas nos séculos XVI e XVII. Eram tradutores e intérpretes, mas, ao contrário do que esperamos hoje — que os tradutores sejam neutros e discretos — estavam também activamente envolvidos nas relações entre chineses e estrangeiros como negociadores e intermediários. Estudei teoria da tradução, mas fiquei um pouco insatisfeito com a análise de textos traduzidos como forma de estudar a tradução no passado. Porquê? Porque a tradução não é apenas linguística; é um acto social realizado por pessoas num contexto específico, e queria escrever sobre essas pessoas. Por isso, passei da teoria da tradução para a história. Mas voltando a esse período histórico em Macau… Foi, de facto, um período de negociações intensas e de luta pela sobrevivência para a recém-estabelecida cidade de Macau. Não se tratava apenas de um encontro entre duas culturas separadas, mas de um constante vai-e-vem, um contacto que gerou novas formas de pensar a relação entre Estado e comércio, entre chineses e estrangeiros, e assim por diante. Tentei revelar algumas dessas formas de pensamento através da lente dos “linguistas”, que estavam no centro dessas negociações. Na sua apresentação, no Centro Científico e Cultural de Macau, falou do caso de Paulo Neretti [falante de português que esteve envolvido no comércio entre Macau e o Japão no século XVII] e das percepções de Zhang e Chen [figuras chinesas envolvidas no comércio] sobre o seu papel como “linguistas”, especialmente em relação ao poder político e comercial e à busca de lucro. Como encontrou a figura de Paulo Neretti e qual a sua importância? Paulo Neretti foi uma descoberta casual que acabou por ser fascinante. Encontrei-o quando procurava material sobre as primeiras viagens inglesas ao sul da China. Na Biblioteca Bodleian, em Oxford, existe o diário de um mercador inglês que participou na primeira expedição comercial inglesa a chegar a Macau e Cantão, e que lidou com este “linguista” bilingue, Paulo Neretti. A partir daí, segui o rasto arquivístico pelo mundo para descobrir quem ele era exactamente. Descobri que, na verdade, era chinês de nascimento, mas foi criado em Macau na casa de um nobre florentino chamado Orazio Neretti, que se estabeleceu na cidade e chegou a servir como enviado a Nagasaki. Esse agregado incluía outros intérpretes bilingues com ligações até à Coreia e ao Japão. Paulo Neretti teve uma vida extraordinária, sendo eventualmente assassinado em sua casa pouco depois de regressar de um encontro com o imperador Shunzhi, onde actuara como intérprete de uma embaixada holandesa. Foi ele quem me colocou no caminho de estudar os “linguistas” e abriu uma janela para um mundo raramente preservado nos arquivos. Macau foi um porto comercial muito importante no sul da China a partir de meados do século XVI. Como descreveria a relação entre mercadores e tradutores, ou “linguistas” nesse período? Uma relação próxima, com convergência de interesses? Eram completamente dependentes uns dos outros. Na verdade, os “linguistas” pertenciam normalmente à casa de um mercador, criados desde o nascimento a falar ambas as línguas. A ligação aos mercadores dava-lhes acesso a uma actividade potencialmente muito lucrativa; e, para os mercadores — que não falavam muito chinês —, os “linguistas” eram essenciais para gerir as relações com os chineses. Mais especificamente sobre a comunidade macaense, participou activamente nesses jogos de poder em nome da administração portuguesa, ou também da chinesa? Pode dar exemplos? Este foi o período inicial em que aquilo a que chamamos comunidade macaense estava a formar-se. Muitos dos “linguistas” que estudei tinham origens étnicas mistas ou biculturais, o que lhes permitia ser bilingues em português e chinês. Curiosamente, o termo “jurubaça” passou a ser usado não só no sentido de intérprete, mas também como classificativo étnico para chineses cristãos nascidos em Macau, devido à forte associação com essa profissão. Portanto, aquilo que estudo é, na verdade, uma história dos primeiros macaenses. Como descreveria a perspectiva das autoridades chinesas sobre este tipo de comportamento, especialmente em relação a lucro, poder e Estado? Seriam conceitos muito diferentes dos europeus? O que me chamou a atenção ao ler fontes chinesas e europeias foi que todos enfrentavam o mesmo problema: a comercialização trazia oportunidades e perigos. Por um lado, os “linguistas”, vindos de famílias mercantis, eram motivados pelo lucro, e isso podia ser aproveitado pelos oficiais para gerir relações com estrangeiros. Por outro lado, era arriscado, pois significava delegar o controlo da fronteira. Hoje vemos a tradução como algo neutro, mas eles encaravam-na como uma actividade com interesses próprios. Em vez de perguntarem “como traduzem os tradutores?”, perguntavam “por que traduzem?”. Ou seja, qual era a sua motivação? Nas fontes europeias, fala-se da “honestidade” e “coragem” dos tradutores; nas chinesas, da sua “orientação para o bem público” ou “interesse próprio”. Assim, o mesmo problema era pensado de formas diferentes em tradições intelectuais distintas. Podemos concluir que, em termos de corrupção e jogos de poder, as autoridades chinesas estavam conscientes dessas situações e as permitiam para benefício próprio, nomeadamente em Macau? Sem dúvida que estavam conscientes e faziam uso disso. Hoje, o termo “corrupção” tem uma conotação totalmente negativa, mas alguns oficiais chineses da época viam isto como uma oportunidade. O uso das “línguas” motivado pelo lucro permitia ao Estado expandir a sua influência além das suas capacidades directas. Quanto a Hong Kong, surgiu muito mais tarde, quando os “linguistas” já tinham perdido importância e eram essencialmente funcionários aduaneiros. Este sistema de gestão de fronteira, delegado a intermediários semi-estatais e semi-comerciais, foi bastante específico dos séculos XVI e XVII. O que revelam estes casos sobre a presença portuguesa e britânica no sul da China e o comércio da época? Estes debates ajudam a compreender como eram as relações entre a China e os países europeus na época moderna. Muitas vezes, essas relações são vistas de forma negativa, com a ideia de que a China era fechada, xenófoba e imutável. Mas estes casos mostram que isso não é verdade. A forma de pensar era diferente da nossa. Que investigação pretende desenvolver no pós-doutoramento? Estou a escrever um livro baseado nesta investigação, que está quase concluído. Espero que esse livro mostre uma história mais humana e que vá além dos estereótipos de uma China passiva e estática. Também podemos aprender com eles sobre o papel de intermediários informais em zonas de fronteira hoje. Estou também a iniciar um novo projecto sobre as relações entre Macau e Malaca, bem como com o mundo malaio em geral.
Hoje Macau Manchete SociedadeCriminalidade | Abuso sexual de crianças aumentou 77,3% em 2025 As forças policiais registaram 39 casos de abuso sexual de crianças em 2025, mais 77,3 por cento do que no ano anterior. Os dados fazem parte do balanço da criminalidade em 2025, divulgado na terça-feira apenas na página do gabinete do secretário para a Segurança, Chan Tsz King, sem a realização da habitual conferência de imprensa. Num comunicado, o gabinete confirmou que irá deixar de realizar conferências de imprensa trimestrais para apresentar os dados, “no intuito de aumentar a transparência das informações” e contribuir “para a paz e harmonia”. Ainda assim, a nota admite que “os respectivos trabalhos de divulgação serão realizados, sempre que necessário, presencialmente”. O balanço revela ainda que o número de crimes de jogo ilícito em Macau mais que quadruplicou em comparação com 2024, atingindo 570. O documento não fornece qualquer explicação para o aumento dos delitos de jogo ilícito. As forças policiais deixaram também de divulgar dados sobre burla com recurso às telecomunicações e à Internet. O balanço menciona apenas uma queda de 19,5 por cento nas burlas em geral e de 42,7 por cento na criminalidade informática. No geral, as forças policiais registaram quase 13.500 delitos criminais em 2025, menos 5,9 por cento do que no ano anterior, sobretudo graças a uma queda de 10,5 por cento nos crimes contra o património, incluindo roubo, furto e burla.
João Luz Manchete SociedadeGP Consumo | Gerados 290 milhões em duas semanas Nas primeiras duas semanas, o Grande Prémio do Consumo gerou negócios de cerca de 290 milhões de patacas e foram utilizados cupões de desconto num valor superior a 61 milhões de patacas. Em relação às verbas atribuídas através de cartões de idosos ou portadores de deficiência, foram gastos mais de 18 milhões de patacas A nova edição do Grande Prémio do Consumo gerou nas primeiras duas semanas negócios na ordem dos 290 milhões de patacas, indicou ontem a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT). A medida de apoio ao comércio local, cuja última edição arrancou no dia 10 de Abril, tem sido uma das medidas do Governo para fazer face ao impacto do baixo consumo de turistas e residentes. Nas primeiras duas semanas desta edição, foram gastos mais de 3,18 milhões de cupões num valor superior a 61 milhões de patacas. O Governo revelou que nesta ronda, os residentes estão a utilizar mais os descontos, com uma taxa de utilização global na ordem dos 92 por cento, o que representa um aumento de 6,6 por cento face ao período homólogo da actividade do ano anterior. A DSEDT explica o aumento da utilização dos cupões descontos como um reflexo do “prolongamento do período de utilização”, que “permite um gozo mais suficiente dos benefícios electrónicos”. Recorde-se que nesta ronda, os sorteios de cupões são disponibilizados após gastos superiores a 50 patacas em compras feitas em lojas aderentes durante o fim-de-semana, e podem ser usados durante a semana, invertendo o sistema das rondas anteriores do Grande Prémio do Consumo. Os sectores beneficiários são essencialmente os de venda a retalho e de restauração, representando, respectivamente, 62 e 29 por cento do consumo total. Outros caminhos Nas primeiras duas semanas desta ronda, foram efectuadas 1,7 milhões de transacções oferecendo oportunidades para ganhar descontos electrónicos. O Governo realça que “o número médio diário de transacções é quase o dobro em relação ao do Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias 2025”. Face aos dados apresentados ontem, o Governo concluiu que “a actividade deste ano recebe reacções mais entusiásticas por parte dos cidadãos, tendo registado um nível de participação significativamente mais elevado em relação ao ano passado”. A outra modalidade disponível para beneficiar da iniciativa é pela via dos cartões Macau Pass para idosos e para deficientes, onde os beneficiários recebem 500 patacas em cartão. Neste capítulo, a DSEDT dá conta de gastos superiores a 61 milhões de patacas. Até às 10h de ontem, mais de 100 mil pessoas elegíveis já tinham os cartões Macau Pass carregados. Ao longo das 10 semanas que irá durar a iniciativa, os residentes podem utilizar benefícios electrónicos e descontos imediatos em mais de 20 mil estabelecimentos comerciais de Macau.
Hoje Macau Manchete SociedadeDireito | Macau e Coimbra criam centro sobre IA A nova parceria entre a Universidade de Coimbra e a Universidade de Macau visa “promover a colaboração interdisciplinar na investigação e educação avançada” na ligação entre Direito e Inteligência Artificial. Nos últimos anos, as duas instituições têm promovido várias iniciativas conjuntas A Universidade de Macau (UM) anunciou ontem a criação de um centro conjunto com a Universidade de Coimbra (UC) sobre Direito e Inteligência Artificial (IA). Num comunicado, a UM indicou que o novo centro “irá promover a colaboração interdisciplinar na investigação e educação avançada” na ligação entre Direito e IA. A instituição deu como exemplo “projectos de investigação conjunta, formação de quadros, organização de conferências internacionais” e intercâmbio de professores e estudantes. A UM sublinha que a nova iniciativa representa “uma expansão significativa” da cooperação com a universidade portuguesa no domínio dos estudos jurídicos. Em Outubro de 2024, as duas instituições assinaram um acordo para a criação de um doutoramento em co-tutela na área da Saúde “e das Neurociências em especial”, disse na altura à Lusa o vice-reitor para as Relações Externas da UM, João Nuno Calvão da Silva. Um ano antes, a UC e a UM criaram um laboratório conjunto para estudar o envelhecimento cognitivo e responder às necessidades geradas pelo aumento da esperança de vida. O acordo para a criação do novo centro conjunto sobre Direito e IA foi assinado em 20 de Abril pelo reitor da UM, Song Yonghua, que esteve em Lisboa integrado na comitiva do líder do Governo, Sam Hou Fai. Acordo com a UL Na mesma ocasião, a UM assinou um acordo com a Universidade de Lisboa (ULisboa), que irá apoiar a criação da primeira faculdade de medicina publica da RAEM. Os finalistas do curso conjunto de licenciatura na futura Faculdade de Medicina da UM, com inauguração prevista para 2028, poderão fazer uma tese para completarem o mestrado integrado da ULisboa. A UM sublinhou ontem que os médicos assim formados poderão obter o reconhecimento e exercer medicina não apenas em Macau, Hong Kong, China continental e Portugal, mas também em toda a União Europeia. Ainda em Lisboa, a UM assinou um acordo com o IPLuso – Instituto Politécnico da Lusofonia e a Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Chengdu para “fomentar a cooperação educacional e de investigação em medicina chinesa”. A parceria irá usar os recursos das três instituições para formar profissionais de medicina tradicional chinesa, tirando partido “do papel único de Macau como ponte de ligação entre a China e Portugal”.
João Luz Manchete SociedadeHabitação social | Fracções chegam a menos de metade dos candidatos Em seis anos e meio, o Instituto de Habitação recebeu mais de 10 mil candidaturas, das quais 73,5 por cento foram admitidas, resultando na atribuição de habitações sociais a 41,8 por cento dos candidatos. Entre os concorrentes em lista de espera, a larga maioria representam agregados de apenas uma pessoa Entre o primeiro dia de candidaturas permanentes a habitação social, 20 de Agosto de 2020, e ontem, o Instituto de Habitação (IH) recebeu 10.079 candidaturas em que foram submetidos todos os documentos exigidos. Deste universo, 7.407 foram admitidas pelo IH, correspondendo a 73,5 por cento, enquanto 1.788 (17,7 por cento) foram indeferidas por incumprimento dos requisitos, de acordo com as estatísticas publicadas no portal do IH. Dos mais de 10 milhares de candidaturas, apenas 407, ou cerca de 4 por cento, estão ainda em apreciação, registo ligeiramente inferior ao número de desistências (438). No que diz respeito às candidaturas admitidas para habitação social, dos 7.470 processos, 5.342 foram concluídos, o que corresponde a 72,1 por cento das candidaturas admitidas. Entre os processos concluídos, foram atribuídos 4.218 apartamentos, representando uma proporção de 79 por cento. Já com os processos em andamento, após a admissão de candidaturas, o IH deu conta de mais uma vaga de desistências nos últimos seis anos e meio, com mais 606 candidatos a perder o interesse em habitações sociais. As autoridades especificam que das 7.407 candidaturas admitidas, estão em lista de espera 2.065 processos, o que corresponde a 27,9 por cento. Quem é quem De acordo com os dados do IH, a composição dos agregados familiares cuja candidatura se encontra em lista de espera são essencialmente pessoas individuais. Dos 2.065 processos ainda pendentes, 1.146 dizem respeito a candidaturas individuais, ou seja 55,5 por cento, enquanto que um terço (33 por cento) dos processos a aguardar resolução foram submetidos por agregados familiares constituídos por duas pessoas. As candidaturas em lista de espera que dizem respeito a famílias com 5 ou mais pessoas são as menos “representadas”, com apenas sete processos, ou seja 0,3 por cento.
João Santos Filipe Manchete PolíticaPME | Crédito malparado caiu 6,3 por cento no 2.º semestre de 2025 Apesar da redução do valor total do crédito malparado, a taxa de incumprimento tem crescido, o que foi explicado com a existência de menos crédito no mercado Na segunda metade do ano passado, o crédito malparado das pequenas e médias empresas (PME) apresentou uma redução de 6,5 por cento, de acordo com o relatório sobre as Estatística de Crédito das PME. No entanto, os dados da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), mostram que a taxa de incumprimento está a subir. No final de Dezembro de 2025 as dívidas de PME em atraso há mais de três meses atingiram 5,3 mil milhões de patacas, uma redução de 6,5 por cento em comparação com os dados de Junho desse ano, quando as dívidas chegavam a 5,6 mil milhões de patacas. A grande maioria das dívidas em atraso está por pagar há mais de um ano. O relatório aponta que dos 5,3 mil milhões de patacas em crédito malparado 3,7 mil milhões de patacas estão há mais de um ano por pagar, o que representa uma proporção de 70,9 por cento. A segunda fatia mais relevante, das dívidas tem um atraso de seis meses a um ano, com um valor de 1,4 mil milhões de patacas, ou 25,7 por cento do total. As dívidas com um atraso superior a três meses, mas inferior a seis meses são de 177,9 milhões de patacas, o que significa 3,4 por cento do total. Apesar da redução do incumprimento, a taxa de incumprimento tem crescido, atingido 7,9 por cento em Dezembro, quando em Junho não ia além dos 7,6 por cento, um aumento de 0,3 pontos percentuais. Nas conclusões do relatório, a AMCM indica que este aumento se deveu ao facto de haver menos crédito no mercado das PME. Menos crédito às PME No espaço de seis meses o crédito emitido pelas instituições de crédito às PME apresentou uma redução de 74,5 mil milhões de patacas para 67,3 por cento, uma diminuição de 9,7 por cento. O sector que mais recorreu aos empréstimos foi a construção civil, com 42,6 por cento do total, seguido pela categoria “outros”, com 33 por cento. As vendas por grosso e retalho foram o terceiro sector mais significativo, ao receberem 13,8 por cento dos empréstimos, enquanto os restaurantes, hotéis e actividades semelhantes foram responsáveis por 6,8 por cento, enquanto a manufactura pediu 1,9 por cento do crédito total, e os transportes, armazéns e comunicações 1,3 por cento. Em relação aos principais motivos que levaram as instituições de crédito a recusar empréstimos, no topo da lista surge a “fraca credibilidade”, invocada em 33,3 por cento dos pedidos recusados. Entre outros motivos mais utlizados surge o “desempenho pouco satisfatório” e ainda a “falta de transparência”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLiteratura | Beltrão Coelho lamenta falta de visibilidade de Leal de Carvalho Rodrigo Leal de Carvalho, juiz e escritor falecido em Janeiro aos 93 anos, “foi sempre preterido em termos oficiais” em Macau, segundo Rogério Beltrão Coelho, que publicou a maioria das obras de Leal de Carvalho com a Livros do Oriente. Num colóquio online, Beltrão Coelho denunciou a dificuldade de criar, ou manter presentes, livros de Macau em Portugal Decorreu na terça-feira o “Congresso de Homenagem a Rodrigo Leal de Carvalho”, juiz do Supremo Tribunal de Justiça e escritor recentemente falecido, aos 93 anos. O evento, online, foi promovido no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, ligado a dois centros de investigação da Universidade Nova de Lisboa. Na sessão, Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente e responsável por grande parte da edição dos romances de Leal de Carvalho, destacou o facto de ser quase “a primeira vez, em 15 anos de actividade ligada ao autor, que o editor é chamado a participar” e a falar sobre a obra deste autor que viveu em Macau no âmbito da sua actividade jurídica, mas sobre o qual deixou obra literária importante. Rogério Beltrão Coelho, que editou, com a Livros do Oriente, títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”, destacou que este romance daria “um filme extraordinário”, mas essa ideia “nunca foi sugerida por ninguém, nem pelos serviços oficiais, que nunca fizeram a abordagem para esse projecto”. Beltrão Coelho lamenta mesmo que o Instituto Cultural (IC) não tenha dado a devida atenção a Leal de Carvalho e que se tenha imiscuído, muitas vezes, nas tarefas que cabe ao editor de um escritor. “Houve, durante uns 15 anos, uma oposição sistemática dos serviços públicos, que queriam chamar a si uma actividade que, à partida, pode ser oficial com algumas condições, como é o caso da Imprensa Oficial, mas que em Macau tem uma componente comercial e de divulgação que os serviços públicos não podem fazer. E o doutor Leal de Carvalho foi sempre preterido em termos oficiais durante os anos em que esteve em Macau. Respeitavam-no, ninguém dizia que não era bom [escritor], mas foi sempre preterido. Ainda bem que se está agora a falar nele, e a ser reavivado”, disse. O fundador da Livros do Oriente diz ter “sofrido por não dar a Rodrigo Leal de Carvalho a posição que ele, de facto, merecia”. “Fizemos [Livros do Oriente] tudo o que estava ao nosso alcance, e deu até certo ponto, mas não deu tudo o que gostaria que tivesse dado”, acrescentou. Beltrão Coelho referiu os tempos em que o IC, nos anos 80, “produzia livros sem revisão prévia” que, “depois de impressos, e com gralhas, iam para o lixo e faziam-se outros, porque havia dinheiro”. “Portanto, o Instituto Cultural não estava vocacionado para ser editor, mas para regular a actividade, criar condições para as editoras produzirem, criar prémios literários. Mas chamava a si tudo isso [tarefas do editor], inclusivamente as feiras do livro fora de Macau, em que o Instituto Cultural ia sem convidar ninguém.” Nas palavras de Rogério Beltrão Coelho, que falou na apresentação “As publicações de Rodrigo Leal de Carvalho em Macau”, a Livros do Oriente “foi, seguramente, a editora que produziu, sem exagero, 90 por cento da ficção de Macau nos anos 90 e que tem mais de 14 autores de ficção e 9 de poesia editados”. Ainda sobre a ligação do IC com editores e livreiros, Beltrão Coelho recorda que nem sempre beneficiaram da divulgação da literatura que se fazia no território, pois “de cada vez que alguém chegava a Macau e perguntava o que se passava em termos literários, o caminho indicado era apenas um [o próprio IC]”, e que “nunca ninguém foi encaminhado para a Livros do Oriente”. Uma “ligação visceral” Foi em 1992 que Beltrão Coelho travou contacto com Rodrigo Leal de Carvalho, quando este foi colocado em Macau, sendo um “dos mais discretos magistrados” do território, no papel de Procurador-geral Adjunto. Foi aí que o editor teve conhecimento da escrita de “Requiem por Irina Ostrakoff”, editado em Janeiro de 1993. Leal de Carvalho ainda pensou em usar um pseudónimo, mas foi o seu nome verdadeiro que foi dado à estampa. “Estávamos perante o que se poderia classificar de romance histórico, romance-saga ou romance psicológico, no qual eram intersectados acontecimentos históricos ocorridos nos espaços geográficos onde os protagonistas iam vivendo entre as décadas de 20 e 50 do século XX. Tudo com uma rara qualidade literária cuja publicação se impunha”, disse Beltrão Coelho. “Requiem por Irina Ostrakoff” foi um sucesso, com três edições, “uma situação excepcional em Macau”, e foi “a única obra de ficção distinguida em 1994 com um galardão literário – o prémio IPOR [Instituto Português do Oriente] – nos últimos 25 anos de administração do território”. Beltrão Coelho recordou a “ligação profunda e visceral a Macau” que Leal de Carvalho manteve nos sete livros seguintes editados por si. “Inteligentemente, e felizmente para nós, leitores, é sempre uma ligação apaixonada e irónica, sem deixar de exercer suficientemente a crítica a Macau, às suas gentes e etnias. Macau é a dama pela qual luta e sofre, numa adesão total quase carnal. A tudo isso se pode acrescentar uma extraordinária capacidade de recriar ambientes e passá-los vivos, quase interactivos, usando uma linguagem moderna para quem o lê, o que não acontece só com Macau”, recordou. Beltrão Coelho lembrou ainda a personalidade de Leal de Carvalho, um autor “teimoso” com algumas escolhas e ideias, e que, no território, “cedo engajou a simpatia das elites, e não só, de Macau, passando a figura omnipresente nas actividades culturais do território”, embora fosse “formal e discreto como entendia ser exigência do seu estatuto”. “Ninguém alguma vez imaginou que pudesse ser autor de uma obra como ‘Irina’, não pela qualidade da escrita, que se podia adivinhar pela muito elevada cultura que lhe se conhecia, mas pelo comportamento conservador, reservado e até tímido.” Foi também destacada a edição de “As Rosas Brancas do Surrey”, em Dezembro de 2007, livro que começou a ser publicado em formato folhetim no jornal Ponto Final em 2005. Um “percurso inédito” Para Rogério Beltrão Coelho, “toda a obra de Leal de Carvalho fez um percurso inédito em Macau”, com títulos “a serem, quase sempre, os mais procurados no que se refere à literatura de Macau e que, durante os anos 90, antes do colapso das grandes distribuidoras em Portugal, estiveram acessíveis nas livrarias do país” e até na Feira do Livro de Lisboa. Beltrão Coelho deixou no ar a possibilidade de Rodrigo Leal de Carvalho ser “o mais importante escritor que se refere ao Extremo Oriente, na senda de William Somerset Maugham, Joseph Conrad ou Rudyard Kipling”, sem desprimor para autores como Maria Ondina Braga ou Venceslau de Morais. Quem o leu, de Macau, e “os macaenses liam-no muito”, encontraram nos seus livros “as histórias que eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas, embora de forma ficcionada”. “Mas sabiam quem eram os personagens – alguns deles extremamente irónicos, sobretudo nas críticas que fazia à incapacidade da administração portuguesa que ‘reinava’ em Macau”. “Era um homem notável e, sobretudo, com uma educação e delicadeza… só tinha amigos e admiradores em Macau”, frisou. O fim da livraria Ainda sobre a dificuldade de distribuição, ou da existência, de obras sobre Macau em Portugal, Rogério Beltrão Coelho lamentou o encerramento, no período da covid-19, da livraria que funcionava na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, e que anualmente se fazia representar na Feira do Livro de Lisboa. “Tínhamos uma livraria na delegação de Macau e a primeira coisa que se fez foi acabar com isso. Não havendo livros em mais lado nenhum, encaminhavam-se as pessoas para aquele sítio. Hoje não há nenhum local com livros de Macau, e como é um tema que não é muito generalista, as livrarias não aceitam [as obras]. Não é fácil [a distribuição]”, salientou. Beltrão Coelho destacou que em 1999, aquando da transferência da administração portuguesa de Macau para a China, a Livros do Oriente propôs oferecer dois exemplares de cada uma das edições às bibliotecas portuguesas, o que aconteceu. “Verificou-se, e hoje verifica-se dez vezes mais, que as bibliotecas recusavam porque não era tema que lhes interessasse, ou não tinham espaço”. Além disso, fazer reedições “não é fácil” por não haver “mercado”. O fundador da Livros do Oriente deixou a sugestão de digitalizar algumas obras e colocá-las na Biblioteca Nacional. O congresso desta terça-feira contou ainda com a apresentação do livro “Dois Olhares sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho”, edição deste ano de Dora Nunes Gago e Anabela Freitas. Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, falou do lugar da mulher nas obras do romancista, enquanto que o tradutor David Brookshaw protagonizou a apresentação “Macau como destino, Macau como lugar de passagem. As ironias do destino na obra de Rodrigo Leal de Carvalho.” Mónica Simas, Dora Nunes Gago e Ana Paula Laborinho foram outras intervenientes no congresso.
Hoje Macau China / Ásia MancheteChina / EUA | Representantes esperam que encontro entre Xi e Trump relance relações O encontro entre os dois líderes deverá acontecer entre 14 e 15 de Maio em Pequim Responsáveis chineses e norte-americanos indicaram ontem, em Hong Kong, esperar que visita prevista de Donald Trump à China, em Maio, relance as relações bilaterais entre os países. Durante numa conferência organizada pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos em Hong Kong (AmCham), o comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China naquele território, Cui Jianchun, afirmou que a forma como as duas maiores economias do mundo “se relacionam vai moldar o panorama global fundamental”. “O único caminho a seguir é através do diálogo e da consulta”, disse, acrescentando que relações estáveis “servem os interesses comuns da comunidade internacional”. Trump deverá visitar Pequim nos dias 14 e 15 de Maio para se reunir com Xi, naquela que será a primeira deslocação de um Presidente norte-americano em funções à China em quase uma década. A viagem, destinada a estabilizar as relações económicas e comerciais, estava prevista para Março, mas foi adiada devido à guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irão. Está também prevista uma visita de Xi a Washington ainda este ano. Cui afirmou que a abordagem de Pequim assenta em “respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação mutuamente benéfica”, incluindo o respeito pelos sistemas políticos e interesses fundamentais de cada parte, bem como a gestão das divergências sem conflito. “Desde que a China e os Estados Unidos respeitem estes princípios, as relações bilaterais terão um futuro melhor”, afirmou. O responsável confirmou que as duas partes mantêm contactos sobre a visita planeada de Trump, acrescentando que relações “estáveis, sólidas e sustentáveis” irão “reforçar a confiança da comunidade empresarial norte-americana” e aprofundar a cooperação económica. No mesmo evento, a cônsul-geral dos Estados Unidos em Macau e Hong Kong, Julie Eadeh, destacou tanto as oportunidades como as tensões na relação bilateral. “Os desafios que enfrentamos na relação entre os Estados Unidos e a China são reais e, em alguns casos, estão a aumentar”, afirmou, reiterando o compromisso de Washington com o diálogo. “Os Estados Unidos procuram uma relação com a China assente na equidade e na reciprocidade, que torne o nosso país mais seguro, mais forte e mais próspero”, acrescentou, sublinhando a necessidade de “condições de concorrência equitativas” e de um “acesso ao mercado justo e recíproco”. Diálogo e incerteza Eadeh referiu que mais de 1.400 empresas norte-americanas operam em Hong Kong, atraídas pelos “mercados de capitais e conectividade internacional” do território, descrevendo a cidade como um espaço historicamente propício ao “diálogo construtivo”, embora reconhecendo que “a cidade mudou de forma significativa” e que a política dos EUA se ajustou. Pequim reforçou, desde 2023, o controlo de Hong Kong ao implementar duras medidas de segurança nacional e ao suprimir a oposição política local. David Butts, responsável pela AmCham em Hong Kong, afirmou que a conferência ocorre num momento de elevada incerteza. “Não há dúvida que o clima empresarial deste ano é dos mais turbulentos”, disse, classificando 2026 como “um ano decisivo” para as relações económicas entre EUA e China, e considerando que a suspensão de um ano de sanções comerciais impostas pelos EUA está prevista terminar em Novembro. “Estamos a antecipar desenvolvimentos significativos”, afirmou Butts, apontando para a possibilidade de vários encontros entre Trump e Xi este ano, bem como para marcos políticos importantes, incluindo a aprovação do novo plano económico quinquenal da China e a cimeira de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC na sigla inglesa), prevista para Novembro em Shenzhen.
João Santos Filipe Manchete SociedadeHengqin | Novo Bairro de Macau oferece fracções espaçosas A Macau Renovação Urbana anunciou ontem que vai disponibilizar apartamentos modelo de maiores dimensões no Novo Bairro de Macau em Henqgin, para visitas de potenciais compradores. A empresa afirma que moram no complexo habitacional mais de 4.000 residentes da RAEM O Novo Bairro de Macau, em Hengqin, vai disponibilizar a potenciais compradores fracções modelo correspondentes a fracções mais espaçosas no terceiro andar do Bloco 4, indicou ontem a Macau Renovação Urbana em comunicado. A empresa de capitais públicos revelou que os apartamentos em questão têm “salas de estar espaçosas, áreas multifuncionais e soluções de arrumação flexíveis, o que aumenta significativamente a sensação de amplitude e a entrada de luz natural nos interiores”. A área total destes apartamentos, que estão à venda, é de 118 metros quadrados, área que normalmente correspondente a um imóvel ou quatro a cinco assoalhadas. Além disso, a Macau Renovação Urbana acrescentou que, actualmente, moram no complexo habitacional mais de 4.000 residentes de Macau. O número de moradores avançado ontem não especifica quantos apartamentos foram vendidos. Porém, o número de moradores da RAEM não difere muito dos últimos dados de vendas, que apontavam para 1.610 fracções vendidas desde o início das vendas, em Novembro de 2023, menos de 40 por cento do total de fracções nos blocos de apartamentos, como noticiou o HM no início do passado mês de Fevereiro. Deste total de vendas, se em cada apartamento viverem três pessoas, isso daria um total de 4.830 moradores. Recorde-se que o Novo Bairro de Macau tem 4.070 apartamentos. Às mil maravilhas Apesar de existir uma fronteira entre a RAEM e o Novo Bairro, a Macau Renovação Urbana continua a publicitar as vantagens de mudar para as torres de apartamentos, a começar pelos equipamentos: centros de saúde, escolas, restaurantes, supermercados e autocarros e ligação com o posto fronteiriço de Hengqin. Outro “trunfo” para vender apartamentos no Novo Bairro de Macau diz respeito aos espaços verdes circundantes. A Macau Renovação Urbana citou ainda um morador, residente da RAEM, que se mudou para o Novo Bairro em Setembro de 2024, depois de comprar uma fracção no primeiro dia de vendas (28 de Novembro de 2023), tornando-se um dos primeiros proprietários a concluir o processo de compra. Além da atmosfera aprazível, o residente, de apelido Hoi, é citado a elogiar a organização dos espaços e a facilidade de deslocação entre Hengqin e Macau, que demora “pouco mais de meia hora”.
João Santos Filipe Manchete SociedadeResíduos | Novo Centro de Recuperação a funcionar em 2027 O Novo Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, que teve um custo estimado de construção e exploração de 1,87 mil milhões de patacas, vai começar a funcionar no próximo ano. A exploração inclui a participação das empresas Tongfang Environment e Wangneng Environment O Novo Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos vai entrar em funcionamento no próximo ano. A confirmação partiu de Ip Kuong Lam, director dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), na resposta a uma interpelação da deputada Song Pek Kei. Segundo Ip Kuong Lam a entrada em funcionamento da nova infra-estrutura vai acontecer no próximo ano, sem que haja especificação de uma data concreta, e vai permitir “elevar ainda mais o nível da reciclagem de resíduos”. O centro está localizado a Leste do Aterro para Resíduos de Materiais de Construção, junto à Avenida do Aeroporto, no COTAI. As obras da infra-estrutura de reciclagem começaram na segunda metade de 2023, com os trabalhos a serem adjudicados ao consórcio constituído pelas empresas China Railway First Group, Tongfang Environment, Wangneng Environment e Grupo de Construção OMAS. O consórcio venceu o concurso de construção e de exploração da infra-estrutura ao apresentar uma proposta de 1,87 mil milhões de patacas pelas obras e exploração. As obras foram contratualizadas com um custo de 1,15 mil milhões de patacas, embora a despesa pudesse aumentar, consoante a evolução dos preços dos materiais de construção e mão-de-obra. A este custo, acrescem ainda 720 milhões de patacas, como assistência para a exploração do centro. Dividir os ganhos Segundo o contrato de 2023, quando o consórcio começar a exploração do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos fica obrigado a entregar 30 por cento das receitas ao Governo. A exploração está prevista para um período inicial de 15 anos. O acordo define ainda que as receitas que estão sujeitas a partilha com o Governo têm de resultar da “venda de energia renovável produzida pelo centro”, “venda de resíduos gordurosos a recicladores qualificados para efeitos de reciclagem”, “exportação do excedente dos fertilizantes orgânicos para o exterior para efeitos de reciclagem” e “venda dos créditos de carbono gerados a partir do tratamento de resíduos alimentares e de gorduras, etc., no mercado do comércio de créditos de carbono”. Na primeira fase, a capacidade de tratamento diário do centro vai ser de 150 toneladas de resíduos alimentares e de 420 metros cúbicos de águas residuais, transportados por camiões-cisterna. Estas águas são constituídas principalmente por água residual retida nas câmaras retentoras de gorduras de cozinhas de restaurantes e águas residuais químicas de sanitários móveis de estaleiros de obras.
João Santos Filipe Manchete SociedadeIPIM | Mais de 40 empresas externas interessadas em abrir lojas na RAEM Apesar do interesse no programa promovido pelo IPIM, o presidente da instituição acredita que apenas 18, 46 por cento, se devem estabelecer efectivamente em Macau. O apoio máximo foi fixado em 1 milhão de patacas Mais de 40 empresas de fora mostraram interesse em começar a operar em Macau, ao abrigo do Plano para o Desenvolvimento Económico no âmbito de Apoio ao Estabelecimento da Primeira Loja em Macau. O programa é promovido pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM) e o número foi revelado pelo presidente Che Weng Keong, em resposta a uma interpelação da deputada Loi I Weng. “Na primeira fase de candidatura ao ‘Plano para o Desenvolvimento Económico no âmbito de Apoio ao Estabelecimento da Primeira Loja em Macau’ que decorreu de 1 de Novembro do ano passado a 31 de Janeiro do corrente ano, foram recebidas mais de 40 candidaturas”, foi comunicado. No entanto, o número de empresas que efectivamente vão operar em Macau ao abrigo deste programa deverá ser inferior, de 18 negócios. Che explicou que as previsões mais recentes apontam para que “cerca de 46 por cento das quais [empresas interessadas] venham a estabelecer as suas lojas nas zonas designadas no âmbito do plano, como, por exemplo, a Zona de Aterros do Porto Exterior, área de San Kio e Areia Preta, entre outras”. A primeira fase do programa visou as lojas estabelecidas em Macau desde Agosto de 2025, tendo como principais focos marcas ligadas aos países de língua portuguesa, espanhola, mas incluindo também o Interior, Hong Kong e Taiwan. Até 1 milhão de patacas Os apoios para estas lojas podem chegar a um máximo de um milhão de patacas, dependendo das despesas efectivas, do número de trabalhadores locais e da zona onde ficam instaladas. O subsídio mais básico é de 500 mil patacas e tem por base as despesas realizadas. No entanto, as lojas que se instalarem na Zona de Aterros do Porto Exterior, Areia Preta, Iao Hon, Barca, Barra, Fai Chi Kei, Doca do Lamau, Tamagnini Barbosa e Ilha Verde podem receber mais 300 mil patacas. Além disso, se as lojas tiverem uma área entre 100 metros quadrados e 150 metros quadrados, há um apoio adicional de 100 mil patacas. Se a área for superior a 150 metros quadrados, o apoio sobe para 200 mil patacas. Finalmente, os negócios que contratarem entre 10 e 15 trabalhadores locais recebem mais 50 mil patacas. Se o número de empregados domésticos ficar acima dos 15, o apoio financeiro sobe para 100 mil patacas. O programa tem como objectivo “aumentar a atractividade do ambiente de negócios da cidade, atrair marcas estrangeiras a estabelecerem as suas primeiras lojas em Macau e enriquecer a oferta de consumo local”. A segunda fase do programa arranca em Maio e prolonga-se até ao final de Julho.
João Luz Manchete PolíticaAdministração | Destacados funcionários de nível médio e superior Numa sessão de divulgação do espírito das “Duas Sessões”, Wong Sio Chak destacou os funcionários públicos de nível médio e superior como uma “força fundamental” de governação. O secretário pediu aos trabalhadores que traduzam, em acções concretas, o espírito que saiu das “Duas Sessões” O secretário para a Administração e Justiça, Wong Sio Chak, quer que os funcionários públicos tenham entre as suas prioridades o reforço da cooperação interdepartamental, espírito inovador, responsabilidade e clarificação de objectivos. A posição foi adaptada numa sessão de divulgação do espírito das “Duas Sessões”, realizada na segunda-feira, na qual participaram cerca de 450 dirigentes e chefias de serviços e entidades públicas. As “Duas Sessões” são os principais eventos políticos do país, incluindo as sessões plenárias da Assembleia Popular Nacional (APN), o órgão máximo legislativo chinês, e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um órgão consultivo que integra representantes de vários sectores da sociedade. No discurso de encerramento, Wong Sio Chak referiu que “os trabalhadores dos serviços públicos de nível médio e superior desempenham um papel crucial na governação da administração pública, constituem a força fundamental para melhorar a eficácia da governação, concretizar o desenvolvimento próspero e estável de Macau, bem como apoiar o desenvolvimento de alta qualidade do país”. Para tal, o governante incutiu os funcionários a adoptarem uma “atitude mais proactiva”, “consciência mais responsável” e uma abordagem pragmática na tradução do espírito das “Duas Sessões” e na articulação com o plano quinquenal nacional. Noutra perspectiva Além de Wong Sio Chak, a palestra que se realizou na Universidade de Macau contou com a participação do sub-director do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM, Zhang Yingjie e do chefe da delegação de deputados de Macau à APN, Lau Ngai Leong. Outro interveniente, foi o deputado e membro permanente do comité nacional da CCPPC Ho Ion Sang, que referiu que Macau está numa “fase crítica de transformação, marcada pela diversificação adequada da economia, reforma institucional e transição para um desenvolvimento de alta qualidade”. Assim sendo, Ho Ion Sang afirmou que os funcionários públicos constituem uma “força fundamental do Governo” e, como tal devem dedicar-se “plenamente ao serviço da estratégia nacional”, preservar a prosperidade e estabilidade, bem como escrever, com acções concretas, um novo capítulo na prática do princípio “Um País, Dois Sistemas”. Por sua vez, os Serviços de Administração e Função Pública organizaram ontem palestra, depois da inicial a 15 de Abril, para orientar os funcionários públicos na compreensão das “linhas orientadoras traçadas para o desenvolvimento nacional e os planos das principais políticas”.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaCrise energética | Deputados exigem medidas para travar preços dos combustíveis A criação de fundos de apoios, subsídios permanentes ao sector dos transportes e mercadorias e a aposta em energias verdes foram algumas das ideias que Kevin Ho e Song Pek Kei sugeriram ontem ao Executivo para contornar a subida de preço dos combustíveis A guerra no Irão e no Médio Oriente tem provocado uma escalada de preços a nível global, e também Macau enfrenta o risco de aumento dos preços da energia e dos produtos em termos gerais. A pensar nesta questão, dois deputados recorreram ontem ao período de intervenções antes da ordem do dia para pedir ao Executivo medidas concretas de apoio ao sector da logística e transportes. Um deles foi o empresário Kevin Ho, que pediu “medidas de curto prazo para atribuição de subsídios de combustíveis, prestando apoio directo e preciso ao sector dos transportes e da logística”, além de, no seu entender, ser necessário “reforçar a fiscalização dos preços dos combustíveis”. O deputado eleito pela via indirecta pede também a criação de um “mecanismo de sobretaxa de combustível nos transportes públicos, cobrando uma sobretaxa provisória quando o preço do petróleo ultrapassar o limite definido, com a respectiva suspensão automática quando o preço do petróleo descer”. Tudo para “aliviar a pressão sobre os custos do sector”. “Se o lucro exceder o limite autorizado, o montante excedente deve ser ‘devolvido’ através da redução das tarifas dos serviços de transportes, o que vai ajudar as operadoras a enfrentar o impacto do preço do petróleo e salvaguardar os interesses dos passageiros”, indicou Kevin Ho. O deputado sugeriu também “criação de um fundo para estabilizar os preços dos combustíveis no sector dos transportes e logística”, tendo em conta os preços praticados nos mercados internacionais. Assim, a ideia é que as autoridades possam recorrer “a meios institucionalizados para fazer face às flutuações drásticas do mercado energético internacional”. Aposta no hidrogénio Também a deputada Song Pek Kei, ligada à comunidade de Fujian, falou da crise energética que pode impactar Macau, sugerindo a elaboração de políticas em prol de energias limpas. “A generalização dos veículos movidos a energia eléctrica é cada vez mais rápida, mas representa menos de dez por cento do número total de veículos motorizados, uma percentagem relativamente baixa”, alertou. Assim, as autoridades devem “lançar políticas de apoio mais atractivas para incentivar as empresas e os residentes a substituir veículos movidos a novas fontes de energia”, bem como “acelerar o aperfeiçoamento da rede de infra-estruturas de carregamento e de troca de energia eléctrica”. Song Pek Kei pediu também celeridade no “lançamento de planos de estudo sobre a aplicação da energia de hidrogénio, a fim de elevar a fiabilidade e a segurança do fornecimento de energia”. Também Kevin Ho falou da importância do uso de “combustíveis fósseis para electrificação”, a fim de “reduzir a dependência externa”, devendo ser investidos “mais recursos” e criar “incentivos políticos que impulsionem o desenvolvimento das energias verdes”. Por seu turno, Ella Lei realçou a “preocupação persistente da sociedade” face ao que chama de “subidas rápidas e descidas lentas” nos preços dos combustíveis. No leque de sugestões, a deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau falou na necessidade de reforço da “supervisão do abastecimento e formação de preços dos produtos petrolíferos”, com um mecanismo de ajuste “razoável e transparente”. A deputada defende que o Executivo deve “continuar a estudar e propor a introdução da Gasolina Sem Chumbo 95 nos terrenos destinados aos novos postos de abastecimento de combustível”, bem como “introduzir mais fontes de energia”, nomeadamente o reforço da “promoção do desenvolvimento dos novos meios de transporte”, entre outras medidas.