João Luz Manchete SociedadeGrande Baía | Dias mais quentes e mais chuvosos em 2025 No ano passado, em Macau, Hong Kong e na Grande Baía houve mais dias com temperaturas elevadas, com chuvadas fortes e mais tufões a atingirem terra. Estas são algumas conclusões de um estudo conjunto das duas regiões administrativas especiais e de Guangdong relativo a 2025 Um relatório anual realizado pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos da RAEM, o Observatório de Hong Kong e os Serviços Meteorológicos de Guangdong indica que no ano passado, a região teve mais dias de altas temperaturas, mais dias de chuva intensa e menos dias de névoa seca ou smog. No capítulo dos tufões, 2025 teve o primeiro tufão mais cedo e mais tempestades atingiram ou afectaram a região. Em 2025, a temperatura média na Grande Baía foi de 23,1 graus, o que representou uma subida de 0,7 graus face ao número médio anual (estabelecido pelo padrão climático baseado em dados dos últimos anos). Em relação ao número de dias de temperaturas elevadas, o relatório indica que no ano passado foram registados 26,5 dias, mais 7,1 dias face à média normal, com o apontamento de que Macau registou dois dias com temperaturas máximas diárias iguais ou superiores a 35 graus centígrados. O relatório conjunto revela que a precipitação média na Grande Baía foi de 2.056,9 milímetros, volume que representou um crescimento de 7 por cento, em relação à média normal, enquanto no período de cheias, a precipitação média subiu 22 por cento face a 2024. Além das chuvas, o ano passado foi também marcado pela maior frequência de trovoadas, sem, no entanto, haver registo de vítimas mortais, enquanto os dias com névoa seca ou smog caíram face a 2024. Ventos e custos O relatório conclui que em 2025, cerca de 2,83 milhões de pessoas foram afectadas por desastres meteorológicos na Grande Baía, incluindo duas mortes, que levaram ao colapso de 437 habitações e a perdas económicas directas de quase 16,4 mil milhões de yuan. Ao longo do ano, 14 tufões atingiram a terra ou impactaram a Grande Baía, afectando quase 2,1 milhões de pessoas, danificando 26,8 mil hectares de cultivo. Tudo somado, os 14 tufões resultaram em perdas económicas directas de cerca de 9,9 mil milhões de yuan. Em matéria de tufões, o estudo conjunto destaca dois recordes locais. O tufão Whipa levou à emissão do sinal 10 de tempestade mais precoce desde que há registos em Macau, ou seja, 1968. Cerca de dois meses depois, o Ragasa levou de novo as autoridades locais a emitir o sinal 10, também a primeira vez que Macau teve dois tufões que levaram à subida do maior sinal de tempestade no mesmo ano desde que há registos. Além disso, o Ragasa também bateu o recorde de maior duração em sinal 10, que esteve içado durante 10 horas e meia.
João Santos Filipe Manchete SociedadeImobiliário | Preços com nova redução anual em Setembro A diminuição dos preços foi acompanhada de um aumento ligeiro no número de transacções, com mais quatro compras e vendas. A comparação anual trimestral confirma também uma redução dos preços, acompanhada do aumento de transacções Em Setembro deste ano, os preços da habitação apresentaram uma redução anual de cerca de 8,5 por cento, de acordo com os dados mais recentes divulgados pela Direcção dos Serviços de Finanças (DSF). No nono mês deste ano, o preço médio do metro quadrado foi de 69.236 patacas, quando em igual período de 2025 tinha sido de 75.655, o que representa uma diferença de 6.419 patacas. Em Setembro de 2025, o preço médio mais elevado do metro quadrado tinha sido registado na Taipa, com 80.454 patacas. Este ano, o valor diminuiu para 64.454 patacas por metro, uma diferença de 16.000 patacas, o que representa 19,89 por cento. Coloane voltou a ser o local onde a habitação é mais cara, como normalmente acontece. E neste capítulo, os números mostram uma valorização de 13.883 patacas no valor do metro quadrado, de 72.180 patacas para 86.063 patacas. Este valor representa um aumento do preço de 19,23 por cento. Em relação à Península de Macau, o metro quadrado desvalorizou 7,77 por cento, o equivalente a 5.758 patacas, de 74.127 patacas, em Setembro de 2025, para 68.369 patacas em Setembro deste ano. Mais transacções Os preços mais baixos reflectiram-se num aumento ligeiro do número de transacções, com mais quatro compras e vendas de habitação. Em Setembro de 2025, o mercado tinha registado 247 transacções, número que aumentou para 251 no mês mais recente, uma diferença de 1,62 por cento. O mercado mais activo foi o da Península com um total de 183 compras e vendas, menos duas do que no período homólogo (185), uma diminuição de 1,08 por cento. Na Taipa, a redução do número de transacções foi mais acentuada, de 19,23 por cento, de 52 para 42 compras e vendas. A excepção aconteceu em Coloane, onde houve mais 16 transacções, um crescimento de 160 por cento, de 10 compras e vendas para 26. A Península de Macau é o mercado dominante com uma quota de 72,91 por cento, seguida pela Taipa, 16,73 por cento e Coloane (10,36 por cento). Números trimestrais Em termos do terceiro trimestre do ano, verificou-se uma desvalorização média de 12,33 por cento nos preços por metro quadrado, que valiam 77.147 patacas no terceiro trimestre de 2025 e passaram a valer 67.634 patacas, no trimestre mais recente. A queda dos preços levou a um crescimento de 4,14 por cento no número de compras e vendas de habitação em Macau, que aumentaram de 773 no terceiro trimestre de 2025 para 805 no trimestre mais recente. Este crescimento foi impulsionado por Coloane, onde o número de negócios mais do que duplicou, passando de 28 para 57 transacções. Na península registaram-se mais cinco transacções, que cresceram de 606 para 611, enquanto na Taipa houve uma redução, de 139 para 137 compras e vendas de habitação.
Nunu Wu Manchete PolíticaMédicos | Governo descarta queixas e garante contratações Depois de uma residente se ter queixado da falta de vagas de emprego nos hospitais locais após a formação de médicos especialistas, os Serviços de Saúde desmentiram o desfasamento entre formação e recrutamento e vincaram a prioridade de contratação de médicos locais Na segunda-feira, uma ouvinte do programa matinal Fórum Macau, do canal chinês da Rádio Macau denunciou a falta de correspondência entre os planos de formação de médicos especialistas e as oportunidades de emprego de especialistas em hospitais de Macau. “Antigamente, os nossos hospitais formavam médicos especialistas. Mas, desde 2026, se os hospitais deixarem de dar vagas estes profissionais ficam desempregados ou têm de procurar trabalho noutro lugar. Se os hospitais não tencionam recrutar estes médicos, porque lhes dão formação? Não tiveram em conta as necessidades de mão-de-obra?”, questionou. A queixa foi mais tarde negada pelos Serviços de Saúde (SS), em respostas enviadas à emissora pública. As autoridades sublinharam que os recursos e os profissionais médicos são os pilares fundamentais para salvaguardar a saúde dos residentes, e que sempre prestam elevada atenção à formação e ao desenvolvimento de quadros qualificados locais. A entidade liderada por Alvis Lo indicou que o investimento em saúde tem sido mantido de forma consistente, focado no objectivo de concretizar o “princípio de priorizar a contratação de residentes de Macau”, sem endereçar directamente a queixa. Além disso, os SS afirmaram que o Centro Hospitalar Conde de São Januário e o Peking Union Medical College Hospital estão a recrutar médicos de diversas especialidades, e que algumas vagas serão preenchidas por profissionais que terminaram o estágio. Assim sendo, os SS garantiram que vão “zelar pela formação de quadros qualificados na área da saúde e pela construção da respectiva equipa, reforçando a comunicação e a colaboração com as instituições de formação e optimizando a utilização dos recursos formativos”. A declaração foi proferida num comunicado alusivo à “Cerimónia de abertura da 2.ª edição da formação de médicos residentes”, que marcou um novo passo na carreira de 42 profissionais. O director Alvis Lo referiu que “nos próximos seis anos, os serviços competentes subordinados aos Serviços de Saúde proporcionarão um ambiente de aprendizagem médica favorável à formação especializada e ao crescimento pessoal” dos formandos, permitindo que se integrem “nas fileiras dos médicos especialistas”.
Hoje Macau Manchete PolíticaHabitação | Reduzido preço de venda a funcionários públicos O Chefe do Executivo reduziu o valor de vendas das habitações arrendadas aos funcionários públicos, ou aos cônjuges ou descendentes, com a actualização do preço unitário por metro quadrado para 48.500 patacas. Este valor é utilizado para definir a valorização da habitação ao abrigo do Regulamento da Alienação dos Fogos do Governo aos seus Arrendatários. A definição de 48.500 patacas por metro quadrado é o valor mais baixo desde a segunda metade de 2016, quando o metro quadrado foi fixado em 44.900 patacas. No pólo oposto, o valor mais elevado foi atingido na segunda metade de 2019, com o metro quadrado a valer 82.700 patacas. De acordo com a lei, o preço definido pelo Chefe do Executivo deve ser actualizado a cada seis meses, o que não se verifica desde 2022. Desde esse ano, as actualizações passaram a ser feitas de forma anual. Além disso, o preço deve “aproximar-se na medida do possível do preço médio actualizado de valorização do metro quadrado de construção praticado no mercado livre de habitação”.
João Santos Filipe Manchete PolíticaConcertação Social | Comissão passa a custar 874 mil patacas por ano Com o novo regime do Conselho Permanente de Concertação Social, o pagamento dos membros da Comissão Executiva deixa de estar dependente de senhas de presença e da apresentação de despesas Desde o início de Setembro que o Chefe do Executivo passou a destinar 874 mil patacas por ano dos cofres da RAEM para os membros da Comissão Executiva do Conselho Permanente de Concertação Social (CPCS). A informação foi publicada ontem no Boletim Oficial e substitui parte do regime de pagamento de acordo com as senhas de presença. Actualmente, o CPCS é composto por 13 membros, entre representantes da Administração, do patronato e de associações ligadas aos trabalhadores, tendo como presidente a secretária para a Economia e Finanças, Dora Ng Wai Han. Esta é a única participante das reuniões que não é remunerada especificamente pela participação nas reuniões. Além disso, entre os restantes 12 membros, há seis que constituem a Comissão Executiva do CPCS, entre os quais Chan Un Tong, director dos Serviços para os Assuntos Laborais, como coordenador, e Yau Yun Wah, director dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, como coordenador-adjunto. Com as novas regras, Chan passa a auferir uma remuneração mensal de 15.040 patacas, e Yau um pagamento mensal de 12.690 patacas. Estes dois salários, assumindo que são pagos apenas 12 meses, custam 332.760 patacas por ano aos cofres da RAEM. No entanto, a Comissão Executiva é ainda constituída por dois representantes do patronato, o ex-deputado Chan Chak Mo e Alan Wong Yeuk Lai, e dois representantes do sector laboral, Kuong Chi Fong e O Lai Heong. Cada um destes membros da comissão vai auferir um pagamento mensal de 11.280 patacas, o que representa 135.360 patacas por ano. O total destes quatro membros da Comissão Executiva vai custar aos cofres da RAEM 541.440 patacas por ano. A Comissão Executiva passa, assim, a receber do Orçamento da RAEM 874.200 patacas por ano. Maiores certezas Até às alterações divulgadas ontem, os quatro membros da Comissão Executiva do CPCS, excluindo o coordenador e o coordenador-adjunto, eram pagos com base em senhas de presença e apresentação de despesas associadas ao desempenho das funções. O valor das despesas realizadas pelos membros não é divulgado publicamente no portal do CPCS. No entanto, cada senha de presença por reunião representa um pagamento de 940 patacas e o Orçamento da RAEM para este ano destina cerca de 1 milhão de patacas com a despesa com os 13 membros do CPCS. Ao longo de 2023, 2024 e 2025, tendo em conta o número de reuniões do CPCS, cada representante do patronato e dos trabalhadores na Comissão Executiva recebeu 17.860 patacas (19 reuniões em 2023), 14.100 patacas (15 reuniões em 2024) e 15.980 patacas (17 reuniões em 2025). Por isso, estes quatro membros custaram aos cofres da RAEM, nos anos em causa, 71.440 patacas, 56.400 patacas e 63.920 patacas. Estes são valores abaixo das 541.440 patacas por ano definidos pelo Chefe do Executivo. Todavia, o valor não tem em conta as despesas apresentadas pelos membros. Em relação ao coordenador e ao coordenador-adjunto, o portal da CPCS não divulga o regime de remuneração especial aprovado pelo Chefe do Executivo que esteve em vigor até Setembro.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMaria Célia Lima-Hernandes, autora de “Macau – Lótus do Oriente”: “Em Macau quase tudo é híbrido” Docente da Universidade de São Paulo e aluna de pós-doutoramento e docente na Universidade de Macau, a linguista Maria Célia Lima-Hernandes queria estudar o português de Macau e acabou por escrever um livro sobre as áreas “híbridas” do território, com foco na língua e na comunidade macaense. “Macau – Lótus do Oriente” é apresentado hoje na Casa de Macau em Lisboa Como surge Macau no seu trabalho académico? Fui professora de língua portuguesa na Universidade de São Paulo. Todas as vezes que tinha de falar sobre o português em Macau, não tinha material suficiente. Então esperei que as minhas filhas crescessem para me candidatar a uma bolsa para poder fazer pesquisa em Macau [estágio de pós-doutoramento com a docente Maria José Grosso]. O único livro que havia na universidade [Universidade de São Paulo] sobre Macau era de Graciete Batalha [Dialecto Macaense] e falava da língua crioula [patuá], e não português. Quando dava aulas dizia que em Macau havia um crioulo, mas não sabia falar nada sobre o português e a sua situação. Só quando fui para Macau é que descobri o que era, de facto. Depois, comecei a frequentar o outro lado, e comecei a interessar-me pela história do entrosamento entre portugueses e chineses. Comecei a dividir o meu trabalho com o Arquivo Histórico de Macau, no Tap Seac, e a analisar certidões, assentos de nascimento, casamento e morte, de óbito, e também testamentos. Comecei a descobrir a história das meninas que foram abandonadas, ou que ficaram órfãs mesmo, na primeira década do século XX. Porque escolheu esse período para investigar? Há muitos estudos até ao final do século XIX, há muitos estudos a partir de 1920. E a documentação da primeira década desapareceu, com tufões e incêndios, e o que ficou são registos de nascimento, morte ou casamento. Comecei a investigar a partir daí. Este livro funciona como uma espécie de radiografia de Macau, da sua geografia humana. Como foi encontrar um fio condutor nesta diversidade que é Macau? Voltando a esta primeira década do século XX, Macau era um território onde se podia caminhar, e as pessoas comentavam nestes documentos históricos que a China era do outro lado. Perguntei, anos mais tarde, a macaenses o que planeavam para o futuro, agora que [a administração de] Macau tinha passado para a China. Perguntava como tinha sido percebida a entrada da China no território. As respostas deram-me outras questões, e uma delas era que a China estava a aproximar-se pela água, e ninguém percebia. Houve aterros. As pessoas não tinham esta noção. Isto aconteceu em 2015, no segundo momento da minha estadia em Macau. Mesmo na universidade, os meus alunos ajudaram-me a perceber essa percepção do espaço. Eu perguntava: “Quando estão aqui [no campus da UM em Hengqin] estão em Macau ou na China?”. Os professores, e também os portugueses, que viviam no campus; e os alunos de Macau diziam que estávamos em Macau. Mas os alunos da China diziam que ali era a China, porque tinham a mesma rede de telemóvel. Aí comecei a trabalhar na questão das fronteiras, e com os documentos recuei no tempo, descobrindo a Ilha Verde que já não era ilha, mas que as pessoas ainda chamavam assim. Tudo isso foi mudando, mas as percepções das pessoas não. Fiz entrevistas a pessoas que se dizem macaenses 100 por cento, ou seja, 50 por cento chinês, 50 por cento português. Esse é um dos grupos que trabalho neste livro. Há outros grupos de macaenses, mas esse é o mais interessante, porque é a raiz de Macau. São muito chineses e muito portugueses, defendem essas duas nacionalidades como uma só, nessa hibridez. Foi aí que surgiu a ideia da flor de lótus [para o título do livro], porque ela é híbrida. Tanto está no meio do lodo, como sobe à superfície, mostrando toda a beleza que tem. Os macaenses que se dizem 100 por cento são isso. Deu aulas em Macau em 2015, mas esteve no território antes para fazer pesquisa. Só cheguei a Macau em 2010. Fiz as entrevistas, não havia smartphones, então foi tudo feito corpo a corpo. Depois voltei ainda para pesquisar documentos no Arquivo Histórico, e regressei então em 2015. Macau já estava totalmente diferente. Fiquei a viver no campus da UM, e tive uma experiência completamente diferente. Mas voltando à questão do macaense. No livro refere que não é só uma questão de etnia, mas de “construção social”. Em que sentido? Os macaenses 100 por cento sempre tiveram o chinês dentro da família. Alguns receberam o documento oficial dentro da família, a certidão de baptismo, apenas depois da morte da parte da família portuguesa. Mantém-se ali, como filhos da herança portuguesa, mas não têm o documento, e conseguem-no não porque lutassem por ele, mas porque deveriam ser escondidos, porque ninguém queria ter uma mãe chinesa, compreende? Falamos aqui da primeira década do século XX? Sim, mas essa situação repete-se com as pessoas que entrevistei, muitos anos depois. Nessa primeira década era a situação das meninas órfãs, e analisei o caso das meninas que estavam na congregação das Canossianas, italianas. Elas recolhiam essas crianças, dando-lhe instrução e ensinando português. Eram meninas sem família? Algumas tinham família e eram entregues porque os pais queriam que fossem inseridas na sociedade. Outras eram entregues por serem bastardas, filhas de soldados portugueses que não as reconheciam. A vida era muito difícil para muitas famílias [da comunidade chinesa], por causa de guerras, tufões, doenças. Elas percebem que, com a presença portuguesa [em Macau] era necessário incluir essas meninas, para que tivessem uma história digna na sociedade. Ia passando de boca em boca, nesta comunidade, o que era ensinado e o que era necessário para se ser uma mulher macaense. Mas elas não tinham nome. Tinham o nome chinês, e depois eram sujeitas a um baptismo colectivo, e aí recebiam nomes portugueses. Inicialmente, são dados os nomes das freiras. Depois, na segunda geração de crianças, já são nomes de macaenses. Falamos então de meninas macaenses oriundas de famílias chinesas pobres e que moravam em zonas periféricas. São crianças inseridas na sociedade e que depois ganham um segundo nome, com o marido macaense ou português metropolitano. Então, logo aí, havia a construção social do macaense. Mas isso vai acontecer depois na sociedade, mesmo com chineses. Disse que entrevistou apenas um grupo de macaenses. Porquê? Interessaram-me os que foram para a Escola Comercial. Eram mais de classe média, e existia uma pobreza muito grande. Eles foram para essa escola para aprender um ofício e começar a trabalhar. O seu livro faz também uma espécie de estudo das línguas existentes em Macau, da relação entre o patuá, o português e o chinês. É uma espécie de levantamento da evolução destes idiomas no território. Na verdade, quando comecei a pesquisa, percebi que o tema não era aquele por onde tinha começado. O tema ganhou vida e outras proporções. Percebi que o tema que sempre me tinha interessado era a hibridez, e ao longo do livro percebemos que em Macau quase tudo é híbrido, e é muita coisa. Mas, obviamente, não analisei tudo. Então, o que é homogéneo em Macau? Acho que a identidade do português da metrópole é homogénea. Mesmo que os portugueses tenham casado depois com chinesas, e que ficaram em Macau até hoje, e que nem querem voltar para Portugal, têm uma identidade portuguesa muito forte. Os chineses, por outro lado, também são muito homogéneos. De todos esses cenários de hibridez em Macau, qual é, para si, o mais fascinante? O que mais me fascinou foi a forma como as duas identidades convivem. São duas coisas numa só. Quando estive em Macau agora, fui ao Cemitério [na Avenida de Sidónio Pais], identifiquei ali algumas meninas [da pesquisa dos primeiros anos do século XX]. Então o que mais me encanta é essa hibridez que não é vista, nem percebida. É a hibridez identitária, da comida misturada, da terra com a água. A língua passou a ser o que menos importava. A língua mostra, vincula, mas esconde muita coisa. Macau está num rápido processo de integração regional. Em que lugar fica esta hibridez? Que território vamos ter? É uma boa pergunta. Quando vejo os prédios a serem erguidos na Grande Baía, pergunto: “Quem vai morar ali?”. Espera-se que sejam para os reformados, então vamos tirar um grupo de pessoas de um espaço, levá-lo para outro grupo, e é uma hibridez diferente, porque vai entrando cada vez mais na China. Parece-me que quando voltar lá daqui a cinco anos, talvez a hibridez seja de chineses. Sempre houve, mas é mais escondida do que aquilo que podemos pensar. Nos levantamentos que fiz para o livro, havia uma grande mistura de chineses, mas toda ela coordenada pela China. Quem entrava, quem vinha fazer o quê em Macau. Conheci uma senhora que veio ao colo da mãe para Macau. Hoje está completamente integrada na sociedade. Então ela é chinesa de Macau? Não, macaense. Então no futuro vai ser difícil separar tudo isso, porque os macaenses 100 por cento que conheci estão a morrer e os filhos já usam inglês como língua corrente. Acho que, no futuro, vai ser chinês e inglês. No livro diz que temos de olhar para Macau “como um caleidoscópio”, porque existirem muitos condicionalismos na definição desses perfis de língua. Em que sentido? Senti que, cada vez que chegava a Macau, era como se tivesse um caleidoscópio na mão, agitasse e tivesse sempre uma nova imagem a aparecer, com mudanças muito rápidas. O discurso também mudou, e da penúltima vez que voltei, havia um debate imenso na imprensa sobre a questão do chinês e a questão da preservação do cantonês. Para um linguista não há dialectos, porque todas as formas de manifestação linguística são línguas, pela questão de sociolinguística, pelo direito de falar. E o cantonês é uma língua muito forte. Os professores já ensinam mandarim na sala de aula, mas o vigor do cantonês mantém-se, e acho que é uma tradição muito forte, é mesmo cultural. É a língua da família, e isso não se perde. Foi para Macau estudar o português no território. Encontrou as respostas que queria? Identifiquei coisas sobre as quais não vou poder avançar mais, porque tudo está a mudar rapidamente. O que acha que vai mudar mais depressa? A geografia, a mobilidade do povo. Quando sai um funcionário público macaense ou português, entra um chinês para o lugar. Haverá mais chineses que chegam para estudar e ficam. Mais chineses do exterior que ficam. Esta é uma obra emocional, que fala de pessoas que conheci.
Sérgio Fonseca Desporto MancheteGP Macau | Edição com mais actividades e grelhas de qualidade superior A 73.ª edição do Grande Prémio de Macau foi apresentada na passada sexta-feira pela Comissão Organizadora, numa cerimónia realizada, pela primeira vez, no Centro Cultural de Macau. Com um programa de sete provas, idêntico ao do ano passado, e um orçamento de cerca de 240 milhões de patacas, o mesmo valor de 2025, o evento promete reforçar a oferta de actividades paralelas e apresentar grelhas de partida mais competitivas. À semelhança de anos anteriores, o Grande Prémio contará com o apoio das seis empresas integradas de turismo e lazer de Macau, num montante global de 100 milhões de patacas. A MGM China Holdings Limited, a Sands China Ltd., o Galaxy Entertainment Group e a SJM Resorts, S.A., contribuirão, cada uma, com 20 milhões de patacas. Por sua vez, a Melco Resorts & Entertainment Ltd. e a Wynn Macau, Ltd. apoiarão o evento com 10 milhões de patacas cada. Os bilhetes para a edição deste ano, agendada para 19 a 22 de Novembro, já se encontram à venda, com preços entre 100 e 1.200 patacas, consoante o dia e a bancada, e 3.000 patacas para o paddock. A procura estará a decorrer a bom ritmo, com cerca de 70 por cento da lotação das bancadas já vendida. Como manda a tradição, a bancada da Curva do Lisboa continua a ser a mais procurada. Actividades paralelas O Grande Prémio de Macau será acompanhado por um conjunto de iniciativas culturais, desportivas e de entretenimento, destinadas a envolver residentes e visitantes e a reforçar a ligação entre o desporto motorizado e a identidade cultural da cidade. Entre 14 e 22 de Novembro, o Instituto Cultural promoverá o “Festival Cidade da Cultura de Macau”, dedicado ao património material e imaterial do território e ao seu papel enquanto ponto de encontro entre as civilizações chinesa e ocidental. O Fórum de Macau será transformado na “Praça do Tempo”, com exposições, demonstrações culturais e bancas de produtos criativos. O programa incluirá ainda visitas guiadas ao Centro Histórico de Macau e uma actuação da Orquestra Chinesa de Macau nas Ruínas de São Paulo. A programação dirigida às famílias terá lugar a 7 e 8 de Novembro, na Praça Tap Seac, com o Festival em Família. A iniciativa contará com uma recriação do Circuito da Guia e uma mini-pista de corridas, proporcionando às crianças a oportunidade de conhecer melhor as diferentes funções envolvidas na organização de uma prova. O Anim’Arte Nam Van receberá igualmente actividades temáticas entre 13 e 15 e entre 20 e 22 de Novembro, incluindo jogos interactivos, simuladores e transmissões do Grande Prémio em ecrãs gigantes. A Praça Tap Seac acolherá também a Exposição de Automóveis e Motos do Grande Prémio, nos dias 14 e 15 de Novembro, permitindo ao público observar de perto os veículos de competição. A cerimónia oficial de abertura está marcada para 14 de Novembro. A organização promoverá ainda o 73.º Concurso Fotográfico do Grande Prémio de Macau, incentivando a participação criativa dos residentes. A programação cultural incluirá também a exibição do documentário “MGP: the Untamed Circuit”, dedicado à 72.ª edição da prova. A produção reúne testemunhos de pilotos, equipas, organizadores e residentes, a par de imagens históricas raras, revisitando a evolução e o legado do evento. O filme foi seleccionado para a lista de finalistas dos Chinese Documentary Film Awards e integra o National Image Collection Project. Os titulares de bilhetes para o Grande Prémio deste ano poderão beneficiar de um desconto no preço de entrada para a sua exibição. Grelhas mais fortes No plano desportivo, a edição deste ano promete elevar o nível competitivo das cinco provas automóveis que fazem parte do programa. A Taça do Mundo de Formula Regional (FR) apresenta a sua melhor lista de inscritos de sempre, num ano marcado pela estreia do novo monolugar no Circuito da Guia. O pelotão reunirá jovens pilotos provenientes dos principais campeonatos de Formula Regional do mundo, bem como participantes que competiram no Campeonato de Fórmula 3 da FIA e no campeonato japonês Super Formula Lights. Entre os inscritos estarão também membros das academias de pilotos das equipas de Fórmula 1 da Ferrari, Mercedes, McLaren, Red Bull e Williams. Na Taça do Mundo FIA de F4, a decisão da FIA de abrir a competição a equipas que utilizem os chassis Tatuus T421 contribuiu para a formação de uma grelha mais competitiva. Estarão presentes alguns dos principais protagonistas dos campeonatos de Fórmula 4 disputados em países como a China, Espanha, Itália, Japão e Reino Unido, além de participantes noutras competições de nível inferior realizadas no Médio Oriente e no Sudoeste Asiático. Depois de um historial marcado por oscilações na dimensão e qualidade do pelotão, a Taça do Mundo FIA de GT contará com a melhor grelha da sua história. Aston Martin e Mercedes-AMG regressam à competição, juntando-se às marcas Audi, BMW, Ferrari, Lamborghini, McLaren e Porsche, que deram corpo à prova na pretérita edição. A lista reúne 18 pilotos, 17 dos quais ligados às respectivas marcas. Entre os nomes em destaque encontram-se antigos vencedores em Macau, como Maro Engel, Raffaele Marciello e Augusto Farfus, o campeão do DTM Thomas Preining ou o único piloto chinês a vencer as 24 Horas de Le Mans, o Ye Yifei, representante da Ferrari. A Corrida da Guia Macau – Kumho FIA TCR World Tour Event of Macau contará com 30 carros, o maior pelotão desde 2020. A prova reunirá alguns dos melhores pilotos de carros de Turismo do mundo, que terão pela frente os principais talentos regionais provenientes do TCR China e do TCR Asia. Às equipas oficiais da Geely e da Hyundai, que disputarão o título nas ruas de Macau, juntar-se-ão vários carros privados competitivos e um exemplar do Lynk & Co 03+ TCR, o primeiro modelo TCR do grupo Geely construído na China. Com as listas de inscritos da Taça GT – Corrida da Grande Baía (GT4) e do Macau Roadsport Challenge preenchidas até ao limite máximo, o cenário é menos favorável no Grande Prémio de Motos de Macau. A lista de inscritos desta prova apresenta-se mais débil, tendo Peter Hickman como único nome de grande notoriedade no panorama das corridas de estrada. Não se confirmou o regresso de Davey Todd, Michael Rutter ou Michael Dunlop. Os quinze de Macau A edição deste ano contará com 15 pilotos da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), dois dos quais de ascendência portuguesa: Jerónimo Badaraco e Maximiano Manhão. «Noni» voltará a participar no Macau Roadsport Challenge, enquanto o jovem Manhão, que transporta um apelido histórico do automobilismo local, fará a sua estreia na Taça GT – Corrida da Grande Baía (GT4). Para o efeito, estará ao volante do McLaren 570S GT4 da equipa local LW World Racing Team, o mesmo carro com que disputou as provas de apuramento no Circuito Internacional de Zhuhai. Na prova destinada aos carros da classe GT4 estarão também presentes Kevin Leong Ian Veng, Liu Weng Hin, Wong Cheng Tou, Billy Lo Lai Fung e Lao Kim Hou. Já o pelotão reservado aos Toyota GR86 e Subaru BRZ contará com Leung Chi Ho, Carson Tang, Lou Cheok In, Leong Keng Hei e Cheong Kin Sang. Macau voltará igualmente a estar representado na Corrida da Guia, algo que não acontecia desde que a prova passou a integrar o Kumho FIA TCR World Tour. Marcus Cheong Man Hei, que participou por duas vezes na corrida de Fórmula 4 de Macau, fará a sua segunda aparição em competição com carros de Turismo, depois da estreia no passado fim-de-semana, em Chengdu, no Interior da China. O piloto da casa alinhará com um Honda Civic Type R FL5 TCR da MacPro Racing Team. Na Taça do Mundo FIA de F4, Vernice Lao Si Lun, inscrita pela equipa local Asia Racing Team RFN, fará a sua estreia na prova e tornar-se-á a primeira mulher de Macau a competir numa corrida de monolugares no Circuito da Guia. Uma das ausências mais notadas será a de Rui Valente, o piloto de Macau com mais participações no Grande Prémio e o segundo com maior número de presenças na história do evento, apenas atrás de Albert Poon, de Hong Kong. O veterano piloto português procurava regressar à Corrida da Guia, mas a obrigatoriedade de disputar previamente uma prova do campeonato mundial de TCR acabou por inviabilizar essa possibilidade. As limitações orçamentais e o reduzido apoio aos pilotos locais com mais de 35 anos contribuíram igualmente para afastar a hipótese de regresso. Regresso de Portugal e do Brasil A edição deste ano ficará também marcada pelo regresso de pilotos de automóveis de Portugal e do Brasil. Noah Monteiro, filho de Tiago Monteiro — o primeiro e único piloto português a vencer a Corrida da Guia —, participará na Taça do Mundo FIA de F4. Será o primeiro piloto português a competir numa prova de monolugares no Circuito da Guia desde 2016, ano em que António Félix da Costa regressou a Macau para disputar a prova de Fórmula 3. Será também a primeira presença de um piloto português numa corrida do Grande Prémio desde 2022, quando André Pires e Sheridan Morais participaram na competição de motociclismo. Actualmente segundo classificado no Campeonato de Espanha de Fórmula 4, que ainda tem uma jornada por disputar, e depois de ter vencido a Spanish Winter Series, Noah Monteiro estará ao volante de um dos monolugares da icónica equipa local SJM Theodore Racing. Este ano, a estrutura de Teddy Yip Jr. não contará com o apoio técnico da italiana Prema Racing, sendo essa função assegurada este ano pela LN4 Racing, a nova estrutura criada pelo campeão do mundo de Fórmula 1 Lando Norris e que conta com René Rosin, filho do fundador da Prema Racing. Depois de um ano sem representação, o Brasil, o maior país lusófono, também regressará ao pelotão do Grande Prémio. Augusto Farfus será um dos três pilotos escolhidos pela BMW M Motorsport para tentar reconquistar a Taça do Mundo FIA de GT. Já Celso Neto, que compete nos Estados Unidos no IMSA Michelin Pilot Challenge, fará a sua estreia em Macau na Corrida da Guia, ao volante de um CUPRA Leon VZ TCR inscrito pela equipa francesa SP Compétition.
Hoje Macau Eventos MancheteFestival da Lusofonia | Fafá de Belém traz ritmos quentes do Brasil Ainda que com um cartaz mais curto, a 29.ª edição do Festival da Lusofonia, nas Casas-Museu da Taipa, não poupa nos ritmos latinos. A cantora brasileira Fafá de Belém é o grande destaque, actuando esta sexta-feira e sábado. Além dos músicos locais, o público pode ouvir os sons dos grupos Epo Dance, da Guiné Equatorial, e Timor Furak, de Timor-Leste A cantora brasileira Fafá de Belém será a cabeça de cartaz do 29.º Festival da Lusofonia que decorre no próximo fim-de-semana, de 23 a 25 de Outubro, anunciou o Instituto Cultural (IC). Nascida Maria de Fátima Palha de Figueiredo, Fafá de Belém conta com cerca de 15 milhões de discos vendidos numa carreira que começou no início dos anos 70, e que incluiu até uma passagem pelo teatro. Num comunicado, o IC disse que, uma vez que se está a celebrar o Ano Cultural China-Brasil, o Festival da Lusofonia dará destaque à cultura brasileira, com a presença do artista de arte urbana Fábio Panone Lopes, especializado em murais e graffiti. Além de Fafá de Belém, os grupos de dança EPO Dance, da Guiné Equatorial, e Timor Furak, de Timor-Leste, irão actuar nas Casas da Taipa, juntamente com mais de 40 grupos artísticos lusófonos locais. São eles João Gomes e Banda, Tuna Macaense, Jandira Silva ou Concrete / Lotus, entre muitos outros. O programa inclui ainda espectáculos de música e dança tradicional em vários bairros da cidade, uma exposição de livros ilustrados em chinês e português, sessões de promoção da leitura e oficinas criativas destinadas às famílias. O Festival da Lusofonia, realizado desde 1998, inclui normalmente expositores culturais, bancas de comida e bebida e jogos populares, e um cartaz musical com artistas de cada um dos dez países e regiões lusófonos. A edição de 2025 contou com as atuações de artistas como os Calema, de São Tomé e Príncipe, e a cantora portuguesa Marisa Liz. Reduções e desilusões Questionada em 30 de Setembro sobre a decisão de reduzir a duração do festival de seis para apenas três dias (sexta-feira e um fim de semana), a presidente do IC, Leong Wai Man, explicou que, após avaliações realizadas em edições anteriores, foi considerado que esse formato é o mais adequado. “Houve uma edição com duas semanas de duração e várias actividades, mas, depois da avaliação, pensamos que uma semana é mais adequada. Foi um consenso alcançado entre várias partes”, indicou. Segundo reportou a emissora pública TDM – Teledifusão de Macau, a interrupção do modelo alargado deve-se à ausência de patrocínio da operadora de jogo Galaxy Entertainment Group, uma mudança que obrigou a limitações orçamentais e a uma reestruturação do programa. Dirigentes de associações de matriz lusófona como a Associação dos Macaenses e a Casa de Portugal em Macau indicaram à emissora pública estar desiludidos com uma edição mais reduzida e a falta de apoio orçamental. O Festival da Lusofonia faz parte do Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que irá incluir ainda um concerto do músico moçambicano Stewart Sukuma, em conjunto com a Orquestra Chinesa de Macau, a 14 de Novembro. Um dos músicos mais premiados de Moçambique e um dos principais impulsionadores do estilo musical marrabenta, quer a solo quer com a Banda Nkhuvu, Stewart Sukuma já realizou várias digressões por África, Europa, Ásia, Estados Unidos, América Latina e Caraíbas.
João Luz Manchete SociedadeCreche Smart | Decretada prisão preventiva para Christiana Ieong Duas das três arguidas do caso da Creche Smart estão em prisão preventiva, incluindo, a directora Christiana Ieong. O Juiz de Instrução Criminal aplicou a medida de coacção mais gravosa tendo em conta o “grau de intensidade do dolo”, a gravidade dos crimes e a possibilidade de fuga A directora da Creche Smart Christiana Ieong vai aguardar julgamento em prisão preventiva, assim como outra arguida do grupo de três suspeitas acusadas de defraudar o erário público em 3,9 milhões de patacas. A aplicação das medidas de coacção foi anunciada pelo Ministério Público (MP) na manhã de sábado. Depois do anúncio pela Polícia Judiciária, na quinta-feira passada, da detenção de três suspeitas, a investigação foi entregue ao MP, que indicou que “duas arguidas, incluindo a responsável em causa, ficaram em prisão preventiva a aguardar julgamento, enquanto à terceira arguida foram aplicadas outras medidas de coacção previstas na lei”. O MP indica que, de acordo com as informações do inquérito, as três arguidas agiram em conluio para obter fraudulentamente subsídios do Instituto de Acção Social. É referido que Christiana Ieong simulou o vínculo laboral das outras duas arguidas como trabalhadoras a tempo inteiro, procedendo ao pagamento dos seus salários. Após receberam os salários, as duas arguidas devolveram parte do dinheiro à responsável da creche, através de transferência bancária ou depósito em dinheiro, “com vista a fraudarem o erário público em co-autoria”, avança o MP. Como tal, estão acusadas da prática dos crimes de burla de valor consideravelmente elevado, cuja moldura penal vai de dois a 10 anos de prisão, falsificação informática (multa, ou pena até três anos de prisão), branqueamento de capitais (prisão até 8 anos) e associação criminosa (entre três a 10 anos de prisão). Este último crime pode levar a uma pena máxima de 12 anos de prisão para quem “chefiar ou dirigir” o grupo. Questão de instrução Durante o primeiro interrogatório, o Juízo de Instrução Criminal “entendeu que existem fortes indícios” da prática do “crime de burla de valor consideravelmente elevado”, bem como do crime de branqueamento de capitais. O MP indica ainda a existência de, “pelo menos, indícios suficientes de que as três arguidas praticaram o crime de associação criminosa” e falsificação informática. “Tendo em conta factores como a natureza e a gravidade dos crimes, o modus operandi, a motivação, a ilicitude dos factos e o grau de intensidade do dolo das três arguidas, bem como a prevenção de eventual fuga para se eximirem à responsabilidade criminal, o Juízo de Instrução Criminal, sob a promoção do Ministério Público, aplicou às duas arguidas a medida de coacção de prisão preventiva, e outras medidas de coacção previstas na lei à terceira arguida”. O MP não especifica que medidas de coacção foram aplicadas à terceira arguida. O comunicado do MP termina com um aviso sobre os subsídios e benefícios sociais atribuídos pelo Governo para o bem-estar da população provenientes do erário público, vincando ser “absolutamente intolerável que qualquer pessoa obtenha os subsídios por meios fraudulentos”.
Hoje Macau Manchete SociedadeJogo VIP | Receitas subiram 10% entre Janeiro e Setembro O segmento dos grandes apostadores gerou 52,4 mil milhões de patacas em receitas nos primeiros nove meses do ano. O valor ainda está longe do período dourado vivido na década anterior à pandemia As receitas oriundas dos grandes apostadores, um segmento conhecido como jogo VIP, registaram uma subida homóloga de 9,9 por cento nos primeiros nove meses de 2026. O chamado jogo bacará VIP atingiu receitas de 52,4 mil milhões de patacas entre Janeiro e Setembro, divulgou a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ). As receitas das grandes apostas registaram um aumento homólogo de 0,1 por cento no terceiro trimestre, para 16,9 mil milhões de patacas, uma melhoria face à queda de 2,6 por cento no segundo trimestre, mas longe da subida de 35 por cento no primeiro trimestre. O jogo VIP já tinha crescido 24,1 por cento em 2025, embora continue longe dos picos históricos atingidos antes da pandemia de covid-19. Em 2019, o bacará para este segmento representava 46,2 por cento das receitas totais dos casinos. Mas nos primeiros nove meses de 2026 ficou-se por uma fatia de 28 por cento. As grandes apostas foram afectadas pela detenção do líder da maior empresa angariadora de apostas VIP do mundo, conhecidas como ‘junkets’, em Novembro de 2021. O antigo director executivo da Suncity Alvin Chau Cheok Wa foi condenado, em Janeiro de 2023, a 18 anos de prisão, num caso que fez cair de 85 para 18 o número de licenças de promotores de jogo emitidas em Macau. De acordo com dados da DICJ, o número de licenças recuperou e fixava-se em 29 no início de Julho. Ainda assim, permanece aquém do limite máximo fixado pelo Governo, que é de 50. Além disso, o presidente da Associação Profissional de Promotores de Jogo de Macau, U Io Hung, disse ao portal de notícias GGRAsia que o número de ‘junkets’ no activo deveria ser “inferior a 20”. Massas com quebra Pelo contrário, as receitas do jogo mais popular em Macau, o bacará no chamado mercado de massas, caíram 7,9 por cento no terceiro trimestre, em comparação com igual período de 2025, para 33,6 mil milhões de patacas. Ainda assim, o bacará de massas representou 56,3 por cento do total das receitas dos casinos entre Janeiro e Setembro, continuando a ser de longe o jogo de fortuna e azar mais procurado pelos apostadores chineses. As receitas das máquinas electrónicas de jogos aumentaram 11,8 por cento em comparação com o terceiro trimestre de 2025, para 4,09 mil milhões de patacas. Nos primeiros nove meses do ano, os casinos registaram receitas totais de 187,11 mil milhões de patacas, um aumento de 3,2 por cento em comparação com o mesmo período de 2025.
João Santos Filipe Manchete PolíticaFunção pública | População acha que bom atendimento depende de cunha Um estudo feito por associações ligadas aos trabalhadores da função pública alerta que os residentes acreditam que as relações pessoais são importantes para ter um bom atendimento em serviços públicos Os residentes consideram que a eficácia dos serviços públicos na resolução dos problemas depende da existência de cunhas. A conclusão faz parte de um estudo elaborado pela Federação das Associações dos Trabalhadores da Função Pública de Macau e pela Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Origem Chinesa de Macau, apresentado no sábado. Segundo o jornal Ou Mun, o trabalho de investigação teve por base 2.063 respostas válidas de residentes, reunidas entre Março e Junho deste ano, e tentou avaliar a percepção sobre os Serviços Públicos. Os autores utilizaram uma escala de 1 a 5 e confrontaram os inquiridos com diferentes cenários. Quanto mais alta a pontuação dos cenários, maior a percepção de que estes se verificam na realidade. Quando os inquiridos foram confrontados com a necessidade de conhecer alguém nos serviços públicos para verem os seus problemas resolvidos, a resposta atingiu 2,89 pontos. Este resultado mostra que os inquiridos acreditam que um bom atendimento nos serviços públicos de Macau depende da existência de conhecidos. Apesar do que percepcionam como uma prática existente, os residentes afirmam não concordar com esta forma de actuação (2,13 pontos). Face a estes indicadores, as equipas das associações responsáveis pelo estudo apontaram que “os residentes são obrigados a recorrer a relações pessoais devido à falta de eficácia nos serviços”, mesmo que desaprovem esta cultura. Os investigadores destacaram ainda que este resultado alerta a sociedade para a necessidade de “elevar a eficácia e a imparcialidade dos serviços públicos”. Meios electrónicos aprovados Em termos das percepções, foi ainda apurado que os residentes consideram que o atendimento online acarreta menores encargos administrativos para a população, o que mostra o apoio a esta opção, em vez dos atendimentos presenciais. Os investigadores apontaram também que os residentes defendem a existência de mecanismos de queixas convenientes e eficazes e que estes contribuem para legitimar as acções da administração. O estudo mostrou ainda que os residentes admitem compreender com dificuldade a linguagem utilizada nos documentos oficiais (2,6 pontos) e as funções dos serviços públicos (3,13 pontos). Face aos números foi concluído que a população sente dificuldades em entender os documentos oficiais e identificar as funções dos diferentes organismos. Na conferência de imprensa, os investigadores defenderam ainda “uma melhoria geral da qualidade dos serviços” e a reforma dos serviços com tempos de atendimento mais longos, que criam a percepção da necessidade de cunhas.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteTestamento vital | Chan Lai Kei quer mudar a lei para doenças terminais Num debate pautado por pedidos de medidas para enfrentar o envelhecimento populacional e mais apoios a idosos, o deputado Chan Lai Kei defendeu mudanças na lei para permitir as chamadas “directivas antecipadas de vontade”, ou o testamento vital, em casos de doença terminal O deputado Chan Lai Kei pede que o Governo altere a lei para permitir que uma pessoa assine a chamada “directiva antecipada de vontade” para casos de doença terminal. Numa intervenção antes da ordem do dia (IAOD) na Assembleia Legislativa (AL), o deputado diz que os Serviços de Saúde (SS) e o Instituto de Acção Social (IAS) devem “iniciar uma consulta pública e estudar a criação de um mecanismo de instruções médicas prévias adequado ao contexto social de Macau, de modo a acumular as bases para a futura revisão da legislação relevante”. O deputado cita um “um estudo académico realizado em Macau”, sem nomear o nome da instituição académica ou os autores, em que 62 por cento dos 737 residentes entrevistados disseram “que na fase final da vida dariam prioridade aos cuidados paliativos”. Porém, adiantou o deputado, nesse mesmo estudo, “cerca de metade dos inquiridos considerou que, em nenhuma circunstância, se deveria interromper o tratamento de suporte vital”. Para Chan Lai Kei, estes 50 por cento de respostas mostra como “persiste uma lacuna de conhecimento relativamente aos conceitos de cuidados no final da vida e de directivas antecipadas de vontade”. O deputado cita “outro estudo local” que refere o facto de que “mais de 73 por cento dos residentes de Macau estariam dispostos a elaborar directivas antecipadas de vontade, caso existisse um mecanismo juridicamente reconhecido”. Estas directivas serviriam, na prática, “para expressar antecipadamente a sua vontade em matéria de cuidados de saúde para quando viessem a perder a capacidade de decisão”. Desta forma, o deputado chama a atenção para o facto de a “sociedade possuir uma base de aceitação para este sistema”. Explicações necessárias O deputado referiu o projecto piloto dos SS na área de cuidados paliativos e cuidados antecipados com alguns lares de idosos subsidiados, mas, no seu entender, “trata-se apenas de uma fase piloto com âmbito de aplicação limitado”. Chan Lai Kei diz que a comunidade chinesa evita, por norma, falar da morte, existindo ainda muitas dúvidas sobre o que são, realmente, as directivas antecipadas de vontade. “Ao ouvirem falar de cuidados paliativos, muitos cidadãos interpretam-nos logo como abandono de tratamento. Sugere-se que o Governo, em conjunto com associações de idosos, lares de idosos, organizações médicas e jurídicas; e em colaboração com o Centro Hong Neng, organize palestras e workshops de fácil compreensão, partilhando casos reais dos serviços prestados pelo Centro Hong Neng”. A ideia é “explicar claramente” que “as directivas antecipadas de vontade são apenas a recusa prévia dos tratamentos de suporte vital fúteis, sendo mantidos os cuidados básicos, tais como o alívio da dor e os cuidados de enfermagem”. Olhar os idosos No debate de sexta-feira, vários deputados usaram o período de IAOD para pedir apoio à população envelhecida de Macau. Um deles foi José Chui Sai Peng, que defende o reforço “do regime jurídico sobre a acessibilidade para impulsionar o desenvolvimento da medicina e dos cuidados para idosos”. O deputado chama a atenção para o facto de a lei “Supressão de barreiras arquitectónicas”, de 1983, “está em vigor há mais de 40 anos e algumas normas não responderem às necessidades actuais da sociedade no que respeita ao ambiente acessível”. Existem ainda “discrepâncias, em termos jurídicos e práticos, face às ‘Normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras na RAEM’, publicadas nos últimos anos”. Desta forma, o deputado pede um mapeamento das necessidades, em termos de mobilidade, dos mais velhos. “Sugere-se ao Governo que proceda, primeiro, ao levantamento das necessidades espaciais nos cenários de prestação de cuidados a idosos no domicílio, cuidados diurnos na comunidade, cuidados em lares de idosos e cuidados transfronteiriços a idosos, estabelecendo, depois, níveis diferenciados”, tendo em conta as “novas zonas urbanas, habitação pública e instalações públicas”. José Chui Sai Peng também defende que as normas devem articular-se com as regiões de Hengqin e Grande Baía, para criar “condições para a prestação de cuidados transfronteiriços a idosos, encaminhamento e referência médica, e reconhecimento mútuo de serviços”. Já Si Ka Lon falou da necessidade de fomentar a chamada “economia prateada”, ligada à criação de negócios ou serviços para idosos. “Embora a escala do mercado de Macau seja relativamente reduzida, o crescimento da população idosa indica um potencial de procura interna significativa. A indústria prateada abrange vários domínios, incluindo cuidados de saúde e bem-estar, tecnologia para a terceira idade, turismo de lazer e finanças para a reforma”, explicou. Assim, o deputado ligado à comunidade de Fujian entende que esta área “não só é uma exigência inevitável para fazer face a uma sociedade envelhecida, mas também uma oportunidade crucial para promover a diversificação adequada da economia de Macau e abrir novos horizontes de mercado para as pequenas e médias empresas locais”. No debate de sexta-feira foram aprovadas, na generalidade, as propostas de lei “Regime para a regulação de determinadas actividades e eventos” e ainda a “Alteração ao Regulamento do Imposto de Consumo, aprovado pela Lei n.º 4/99/M, de 13 de Dezembro” (ver caixa). Além disso, foi apresentado o Relatório sobre a Execução do Orçamento de 2025 e Relatório de Auditoria da Conta Geral de 2025. Foi ainda feito um projecto de simples deliberação do plenário relativo ao Orçamento Privativo da Assembleia Legislativa para o ano económico de 2027. Abusos | Ho Ion Sang pede “reforço” da protecção de menores O deputado Ho Ion Sang recorreu ao período de intervenções de antes da ordem do dia para abordar o mais recente caso em que um trabalhador de uma instituição é suspeito de abusar sexualmente de um menino e de ter filmado outras crianças. O deputado pediu o “reforço da linha de defesa da protecção das crianças”, devendo as autoridades, na sua visão, “implementar a supervisão por níveis e a guarda institucionalizada de ciclo completo”. Para Ho Ion Sang, uma das soluções é “aperfeiçoar o regime de admissão e qualificação do pessoal dos lares, estabilizando as equipas profissionais”.
Hoje Macau Eventos MancheteCasa de Portugal em Macau leva teatro e arqueologia às escolas A Casa de Portugal em Macau está a organizar o festival “Conta-me histórias”, que leva arqueólogos e uma companhia teatral de Tondela a escolas locais, para despertar o interesse pelo património e pela memória. Na sexta-feira, a Trigo Limpo Teatro Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) leva ao auditório da Escola Portuguesa de Macau (EPM) a peça “Queres que te conte?”. Ilda Teixeira, que concebeu e interpreta a peça, disse à Lusa que “o espectáculo, basicamente, é um tear, o cenário e uma dobadoira, com lã, e é tudo contado com recurso a novelos de lã”. Para preparar “Queres que te conte?”, Teixeira foi falar com uma associação que trabalha com linho e com a Universidade Sénior para “ouvir contar histórias, as músicas antigas que os avós lhe cantavam”. A peça, explicou a actriz, “tem tudo a ver com as histórias que se transmitiam dos avós para netos e que iam passando de boca em boca. E todo o espectáculo foi construído com base nessa tradição oral”. Outras histórias “Queres que te conte?” é um dos dois espectáculos do festival abertos ao público em geral. O outro é “O Bosque”, que a Trigo Limpo irá apresentar na Universidade de Macau, no domingo. “Além de serem os nossos espectáculos mais portáteis, trabalham ambos sobre o que é a memória e a passagem da memória”, disse Ilda Teixeira, encenadora de “O Bosque”, interpretada por Pedro Sousa, Ricardo Augusto e Sandra Santos. A peça é “sobre as memórias antigas de uma cidade, fala sobre as árvores que vão ficando, os edifícios, as moedas que se vão encontrando”, explicou Pedro Sousa à Lusa. O objectivo, disse o actor, é “deixar sementes para os mais novos e os mais velhos conversarem entre eles”. “Nós damos a matéria-prima, mas também há trabalho que tem de ser feito pelos pais e pelos professores”, acrescentou. O festival arrancou na segunda-feira e decorre até 23 Outubro, com o Trigo Limpo a levar os dois espectáculos e momentos de formação em representação e música à EPM e à Escola Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes. O Trigo Limpo ACERT, que está a comemorar 50 anos de vida, já apresentou espectáculos em países como Angola, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Luxemburgo, Bélgica, Grécia e Alemanha, e irá também à Guiné-Bissau, de 24 de Novembro a 01 de Dezembro. Ontem, hoje e amanhã Além do teatro, o festival inclui sessões de promoção de arqueologia para crianças, contadas em escolas por Natalina Guerreiro e José Luís Monteiro, ambos funcionários do Património Cultural de Portugal. Natalina Guerreiro, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, vai contar histórias de tesouros perdidos no mar devido a dois naufrágios que aconteceram em Portugal. “Tentamos mostrar que, para arqueologia, o tesouro não é só ouro, porque às vezes, um fragmento de cerâmica pode nos dar muito mais informação sobre de onde ela veio”, explicou Guerreiro. Já José Luís Monteiro quer apresentar “uma perspectiva da arqueologia não tradicional”, graças às “tecnologias que revolucionaram completamente” este campo de conhecimento. Há situações “em que já nem é necessário escavar, porque temos tecnologia que nos consegue identificar o que está no solo”, incluindo drones, fotografia área e modelos a três dimensões a partir de fotografia de objectos, disse. Mas mais do que encorajar futuros arqueólogos, o objectivo é “tentar motivar e incentivar os miúdos para as questões do património, seja ele arqueológico ou qualquer património cultural”, sublinhou Monteiro.
João Luz Manchete SociedadePeste | Governo dá formação a trabalhadores da linha da frente Apesar de vincarem que a pneumonia desconhecida da Sibéria representa baixo risco para a saúde pública, os Serviços de Saúde deram formação sobre controlo de infecções a trabalhadores da linha da frente nas fronteiras. As autoridades garantem estar preparadas para lidar com potenciais infecções Uma equipa de inspecção sanitária dos Serviços de Saúde (SS) organizou na quarta-feira uma acção de formação sobre colocação e remoção de equipamentos de protecção individual e técnicas de controlo de infecção para trabalhadores da linha da frente dos postos fronteiriços, na sequência da pneumonia de causa desconhecida identificada na província russa de Irkutsk, na Sibéria. Segundo um comunicado dos SS emitido na madrugada de ontem, a medida tem como objectivo “consolidar de forma contínua a barreira de prevenção e controlo de infecções nos postos fronteiriços e reforçar a capacidade de resposta do pessoal da linha da frente a situações de emergência de saúde pública”. A acção de formação foi realizada em colaboração com o Grupo de Controlo de Infecção Hospitalar do Centro Hospitalar Conde de São Januário, por enfermeiros especializados em controlo de infecções e teve como destinatários principais membros da equipa de quarentena nos postos fronteiriços. As autoridades salientam que a formação combinou teoria e prática e, além das dicas sobre o uso de equipamento, focou aspectos como gestão de riscos de contaminação, higiene das mãos e controlo de infecções no local. Os profissionais que receberam a formação vão “ministrar formação ‘prática e individualizada’, por fases, a pessoal de primeira dos postos fronteiriços do Corpo da Polícia de Segurança Pública, Serviços de Alfândega e Direcção dos Assuntos Marítimos e da Água. Seguranças e pessoal de limpeza também vão receber formação. A grande barreira Os SS salientam que, “após avaliação” dos casos de pneumonia de causa desconhecida na Sibéria, “o risco para a saúde pública em Macau é, neste momento, baixo”. Ainda assim, “a título preventivo”, o Governo reforçou as medidas de prevenção nas fronteiras, com a monitorização contínua da temperatura corporal, avaliação do estado de saúde dos viajantes e rastreio de casos de febre. Além disso, pessoas que tenham visitado Irkutsk nos 14 dias anteriores à entrada no território devem proceder “voluntariamente à declaração de saúde e colaborem com o rastreio médico”. Caso seja detectado um caso suspeito de infecção, o paciente será imediatamente encaminhado para o Hospital Conde de São Januário. Os SS indicaram ainda que estão em contacto com a Organização Mundial de Saúde e as autoridades sanitárias das regiões vizinhas, de forma poder “ajustar dinamicamente as estratégias de prevenção e controlo de acordo com a evolução do risco”.
João Luz Manchete SociedadeCreche Smart | Christiana Ieong detida por suspeitas de burlar IAS A PJ anunciou ontem a detenção de três responsáveis da Creche Smart, por suspeitas de defraudar o Instituto de Acção Social em 3,9 milhões de patacas. Entre as detidas estará a directora da instituição, Christiana Ieong. As acusações incluem contratações fictícias e falsificação de extractos bancários O diferendo entre a associação Zonta Club de Macau, que geria a Creche Smart, e o Instituto de Acção Social (IAS) conheceu ontem um desfecho de cariz criminal. A Polícia Judiciária (PJ) anunciou a detenção de três residentes suspeitas de defraudarem o Instituto de Acção Social em 3,9 milhões de patacas, através da obtenção de fundos públicos de apoio para o funcionamento de uma creche na Taipa. Além das detidas, a PJ procura um homem alegadamente envolvido no esquema fraudulento. As autoridades não mencionam directamente a Creche Smart, mas não só os contornos das suspeitas correspondem à conclusão da investigação do Comissariado Contra a Corrupção, como a identificação das pessoas detidas parece indicar que entre elas, a suspeita de apelido Ieong de 63 anos de idade, será Christiana Ieong, presidente fundadora e directora da Creche Smart. Ieong foi descrita pela PJ como a cabecilha do grupo. As outras duas detidas são uma mulher de 39 anos e outra de 47 anos, que as autoridades dizem se terem feito passar por responsável de recursos humanos e responsável da área financeira contratadas pela Smart. As autoridades alegam que os fundos públicos terão sido utilizados para pagar os salários dos quatro suspeitos. Como tal, estão acusadas da prática dos crimes de burla de valor consideravelmente elevado, cuja moldura penal vai de dois a 10 anos de prisão, falsificação informática (multa, ou pena até três anos de prisão), branqueamento de capitais (prisão até 8 anos) e associação criminosa (entre três a 10 anos de prisão). O caso foi encaminhado para o Ministério Público. Este último crime pode levar a uma pena máxima de 12 anos de prisão para quem “chefiar ou dirigir” o grupo. Seguir as pisadas As autoridades garantiram ontem que estão a intensificar esforços para capturar o indivíduo em fuga, assim como rastrear o fluxo dos fundos ilícitos. Durante a investigação, a PJ apreendeu telemóveis, dois computadores e um disco externo das três suspeitas. O anúncio de ontem das detenções culmina um braço de ferro entre a Creche Smart, e a sua directora, e o IAS e a liderança de Hon Wai, que envolveu uma batalha judicial e investigação do CCAC, com uma troca acesa de acusações. No final de Junho, o IAS anunciou o fim da ligação à associação Zonta Club de Macau, entidade gestora da creche Smart, colocando um ponto final na cooperação, depois de a associação ter interposto uma providência cautelar nos tribunais para travar o fim do financiamento público e recuperação das instalações. A Creche Smart fechou portas no dia 15 de Agosto.
João Santos Filipe Manchete PolíticaDeficientes Visuais | Pedida mais atenção para necessidades especiais O deputado Nick Lei alerta que as falhas na manutenção do piso táctil nos passeios estão a criar situações de perigo para os cidadãos com dificuldades visuais. Lei pede também uma nova legislação para obrigar os espaços privados a criarem melhores condições de acessibilidade O deputado Nick Lei considera que é necessário fazer mais para garantir uma cidade sem barreiras de acordo com as expectativas da sociedade. Em causa, está o facto de o legislador considerar que existem várias falhas na manutenção do piso táctil, instalado nos passeios e utilizado para orientar as pessoas com dificuldades visuais. Num comunicado, o deputado ligado à comunidade de Fujian apontou que existem problemas relacionados com os pisos tácteis com danos, materiais soltos ou fora de posição, o que impede a sua utilização. No entanto, Lei destacou que mais perigoso do que esses pisos tácteis impedirem a utilização é o facto de, em algumas situações, orientarem de forma errada as pessoas com dificuldades visuais, criando situações de perigo ou levando os utilizadores por caminhos bloqueados ou interrompidos. Além disso, Nick Lei salientou que em vários bairros antigos, centros comerciais ou lojas, faltam instalações de acessibilidade, o que traz dificuldades para as pessoas com deficiência visual dificuldades visitarem estes locais sem o apoio de terceiros, limitando ainda mais a sua vida quotidiana. Outras expectativas O deputado destaca ainda que a sociedade tem a expectativa de criar um ambiente pedonal acessível e conveniente, como decorre do 3.º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico da RAEM. Neste sentido, Nick Lei sugere que o Governo preveja e analise todas as instalações destinadas às pessoas com deficiência visual na cidade e melhore as instalações para facultar a acessibilidade, com vista a reforçar o ambiente social nos âmbitos da inclusão e integração. Quanto à manutenção diária das instalações destinadas às pessoas com deficiência visual, o legislador sugeriu que o Governo crie um mecanismo de inspecção permanente e que a manutenção dos pisos tácteis e das instalações seja incluída no âmbito da manutenção municipal diária. Por outro lado, o deputado pediu ao Governo que garanta o correcto funcionamento do guia dos pisos tácteis, em rigorosa conformidade com as normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras, na RAEM. Nick Lei sugeriu ainda a aprovação de nova legislação para regular o ambiente sem barreiras, criando novas obrigações de acessibilidade para espaços privados, de forma a evitar discriminações.
João Santos Filipe Manchete PolíticaHengqin | UPM e UTM investem 2,14 mil milhões em terrenos A Zona de Cooperação Aprofundada continua a lucrar com terrenos para as universidades de Macau, desta vez com um investimento superior a 2,14 mil milhões de patacas. Anteriormente, recebeu cerca de 1,4 mil milhões de patacas da Universidade de Macau As empresas da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e da Universidade de Turismo de Macau (UTM) vão investir 2,14 mil milhões de patacas em terrenos na Ilha da Montanha, no local onde está a ser desenvolvida a Cidade Universitária Internacional de Macau e Hengqin. A informação foi divulgada ontem no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos (DSSGAP). Em relação à empresa controlada pela UPM, a Inovação Tecnológica da UPM Sociedade Unipessoal Limitada, o investimento vai ser de 884 milhões de renminbis, o que equivale a cerca de 1,07 mil milhões de patacas. O mesmo acontece com a empresa da UTM, a Desenvolvimento de Cultura e Turismo da Universidade de Turismo de Macau, Sociedade Unipessoal Limitada, que vai igualmente entrar com 884 milhões de renminbis no negócio. Estes 1,77 mil milhões de renminbis vão ser utilizados, numa primeira fase, como o capital de constituição da Companhia para o Desenvolvimento do Ensino Superior da UPM e UTM na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, Lda. Esta empresa resulta de uma parceria entre as duas instituições de ensino para desenvolver o campus na Ilha da Montanha. Todavia, a informação divulgada ontem pelo DSSGAP revela que o dinheiro vai ter como destino final apoiar “a Universidade Politécnica de Macau e a Universidade de Turismo de Macau na aquisição dos terrenos de uso educativo no campus na Zona de Cooperação Aprofundada”. Até ontem, cada uma das empresas das instituições de ensino tinha realizado 585 milhões da participação social de 884 milhões de renminbis. Além das participações através das empresas, cada uma das universidades vai ainda injectar directamente 43 milhões de renminbis na parceira, que tem um capital social de 1,85 mil milhões de renminbis. Acordo em Setembro A divulgação do montante a ser gasto com os terrenos no Interior surge depois de, no mês passado, ter sido divulgado um acordo entre a UTM e a UPM com a Comissão de Gestão da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin. O contrato prevê a transferência do uso de terrenos e utilização do futuro campus universitário. O projecto da UPM e UTM na Cidade Universitária tem mais de 459 mil metros quadrados, com as duas instituições de ensino a desenvolverem um campus em conjunto com edifícios de aulas, laboratórios, biblioteca, residências universitárias e instalações desportivas. Segundo a informação, espera-se que as obras arranquem em 2027 e fiquem “praticamente” concluídas em 2030. Anteriormente também a Universidade de Macau tinha assinado um contrato semelhante para a utilização de terrenos na Zona de Cooperação, ao gastar 946 milhões de renminbis (1,4 mil milhões de patacas). A cidade universitária é um projecto comercial falhado em Hengqin, com arquitectura de inspiração alemã, que está a ser reaproveitado como um campus para a expansão das universidades públicas da RAEM. Desde o Verão que o espaço começou a acolher os primeiros docentes, mas o objectivo é receber 20 mil estudantes até 2029.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteAno Judiciário | Sam Hou Fai pede fim de “fenómenos indesejáveis” na advocacia Decorreu ontem a sessão de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, com o Chefe do Executivo a deixar recados à Associação de Advogados de Macau. Esta deve “eliminar estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector” e corrigir “fenómenos indesejáveis” com “coragem” O discurso do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, na abertura de mais um Ano Judiciário, que decorreu ontem, pautou-se por recados à forma como a advocacia está regulamentada no território e o que deve ser feito pela Associação de Advogados de Macau (AAM). Sam Hou Fai pediu que a AAM “assuma com coragem as suas responsabilidades, seja hábil na inovação, acelere a reforma institucional e reforce a organização do sector”. Tudo para promover “uma maior normalização e modernização na área de advocacia”, devendo ser estudada “a revisão de leis e regulamentos relevantes, como o ‘Estatuto do Advogado’, a fim de eliminar os estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector”. Sam Hou Fai entende que a profissão de advogado em Macau deve ter um “novo dinamismo”. “É necessário alcançar consenso e avançar com determinação para reforçar a gestão regulamentada da profissão de advogado, corrigindo fenómenos indesejáveis”, adiantou. A AAM deve, portanto, “inspirar-se em experiências avançadas e acelerar a criação de um regime moderno de advocacia, que satisfaça a Lei Básica de Macau e corresponda à realidade de Macau”. De resto, Sam Hou Fai fez um breve comentário quanto ao primeiro caso relacionado com segurança nacional, em que foi julgado o ex-deputado Au Kam San. “Iniciaram-se, de forma rigorosa e nos termos da lei, a investigação e apreciação do primeiro processo relacionado com a segurança nacional, defendendo com firmeza a segurança nacional e a estabilidade social.” Na visão de Sam Hou Fai, “a edificação do Estado de Direito em Macau alcançou resultados importantes e auspiciosos”. Corpo de magistrados O discurso proferido pelo governante olhou ainda para outras áreas da vida da RAEM, com Sam Hou Fai a declarar que o Governo vai atravessar, no próximo ano, o cumprimento de “prazos apertados, tarefas pesadas e exigências elevadas em todos os domínios da acção governativa”. O Chefe do Executivo lembrou que “o contexto interno e externo de Macau está a sofrer mudanças profundas e complexas, o que exige que mantenhamos sempre uma elevada consciência dos riscos, uma percepção das crises e uma mentalidade centrada nos limites mínimos”. Foi pedido aos órgãos judiciais que adoptem “uma visão de conjunto, para saber abordar as questões a partir dos interesses fundamentais do país e do interesse geral de Macau”, mediante vários princípios. Um deles passa pelo “reforço da consciência de prevenção e combate à corrupção”. “O corpo judiciário deve ser íntegro e imparcial”, frisou Sam Hou Fai referindo ainda ser necessário “optimizar a gestão do pessoal dos órgãos judiciais e acelerar a formação de uma equipa judiciária mais profissional e eficiente.” Sam Hou Fai referiu que, desde 1999, “o corpo de magistrados tem vindo a crescer continuamente”, com o “número de juízes nos três níveis de tribunais a aumentar de 23 para 50; o número de magistrados em funções no Ministério Público a passar de 20 para 40; e ainda o número total de funcionários de justiça nos três níveis de tribunais e no Ministério Público a aumentar de 146 para 390”. Assim, o Chefe do Executivo alertou para o facto de “o desenvolvimento económico e social de Macau nesta nova fase impor, inevitavelmente, novas e mais elevadas exigências ao trabalho do corpo judiciário”. Sam Hou Fai pediu também a realização de “estudos sobre novos sistemas e regimes”, bem como “tirar referência de experiências bem-sucedidas do interior e do exterior país”. Sam Hou Fai acrescentou ainda outro pedido: o da importância de estudos “sobre o aperfeiçoamento de diplomas legais, nomeadamente o ‘Estatuto dos Magistrados’ e o ‘Estatuto dos Funcionários de Justiça'”, para melhorar os “regimes de nomeação e frequência do curso e estágio de formação de magistrados”. Relativamente a obras em curso, Sam Hou Fai destacou que “o edifício do Tribunal de Segunda Instância deverá estar concluído no primeiro semestre do próximo ano”, enquanto que “as obras dos edifícios do Tribunal Judicial de Base estão a avançar de forma ordenada”. Presidente da AAM diz que mudanças estão a ser analisadas Vong Hin Fai, presidente da Associação de Advogados de Macau (AAM), apontou ontem que estão a ser analisadas as mudanças necessárias na regulamentação da advocacia em Macau. No discurso de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, Vong Hin Fai admitiu, em linha com as ideias deixadas pelo Chefe do Executivo, que “o actual regime da advocacia de Macau tem vindo a demonstrar algumas limitações no estímulo à inovação e reforço da competitividade externa, não respondendo às exigências de modernização da profissão na nova conjuntura”. Desta forma, foi criado no início deste ano o “Grupo de Trabalho Provisório para Aperfeiçoamento do Regime da Advocacia”, que inclui várias comissões de trabalho. O objectivo, segundo disse o presidente da AAM, é “o aperfeiçoamento da estrutura orgânica e mecanismos de gestão interna da Associação”, bem como a “elaboração do regime das sociedades de advogados”. Está ainda a ser estudada “a introdução do regime de prestação de serviços jurídicos externos por advogados do exterior”, ou ainda a “implementação da formação profissional contínua obrigatória”. Este Grupo de Trabalho também está a analisar “a revisão das normas deontológicas e do procedimento disciplinar”, sendo que todo este trabalho de análise está a ser feito mediante “um estudo comparado com os regimes do Interior da China, regiões vizinhas e práticas internacionais”. Grande família Vong Hin Fai destacou também que na última assembleia-geral da AAM, realizada em Setembro, foram alterados os estatutos da associação, “que alarga de sete para nove o número de membros da direcção da AAM”. Segundo o responsável, “trata-se de um ajustamento orgânico de relevante significado histórico”, sendo “a primeira com esta dimensão desde a criação da Associação em 1991”. Tal ocorreu “para dar resposta ao acrescido volume de trabalho, reforçar a eficiência decisória e aperfeiçoar os serviços prestados aos associados e aos interessados”. O presidente da AAM comentou ainda a recente revisão da Lei dos Advogados da China, aprovada pelo Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, e que entrou em vigor no passado dia 1 de Setembro. Vong Hin Fai considera que “o exercício da advocacia na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau transitou de um programa-piloto para um regime jurídico permanente”, dando aos advogados locais “um quadro legal mais estável para expandirem a sua actividade e participarem activamente na construção do Estado de Direito da Grande Baía”.
Sérgio Fonseca Desporto MancheteMacau terá um piloto no TCR World Tour em Chengdu Marcus Cheong Man Hei vai estrear-se este fim-de-semana no Kumho FIA TCR World Tour, no Circuito Internacional de Tianfu Chengdu, no interior da China. O jovem piloto da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), de 23 anos, tornar-se-á assim o primeiro representante do território a competir naquela que é actualmente a principal competição mundial de carros de Turismo. Habitualmente dedicado ao karting local, Marcus Cheong tem vindo a alargar a sua experiência competitiva aos monolugares, nomeadamente na Fórmula 4, no Campeonato da China da especialidade. O Circuito da Guia e o Grande Prémio de Macau também fazem parte do seu percurso, tendo participado na Corrida de Fórmula 4 de Macau de 2023, na qual terminou em 12.º lugar, e na prova de Fórmula 4 integrada na Taça do Mundo FIA de F4, onde alcançou a oitava posição. A participação em Chengdu representará, contudo, uma estreia absoluta tanto no Kumho FIA TCR World Tour como nas corridas de carros de Turismo. Esta oportunidade surge numa temporada em que o piloto de Macau tem mantido a sua actividade competitiva no karting. Perante um desafio inteiramente novo, o seu principal objectivo passa por “adaptar-se a esta nova realidade”. Integrada também no calendário do TCR Asia, a jornada chinesa compreenderá três corridas. Antes disso, Marcus Cheong terá apenas duas sessões de treinos livres, de 30 minutos cada, para conhecer o Honda Civic FL5 TCR e preparar-se para uma qualificação particularmente importante na definição da grelha de partida. O piloto apoiado irá alinhar com um dos Honda da MacPro Racing Team, estrutura sediada em Macau que conta com uma longa ligação ao automobilismo do território e pela qual passaram nomes como André Couto, Henry Ho e Eurico de Jesus. Com mais de uma década de experiência nas competições de carros de Turismo, a equipa manteve uma relação estreita com a Honda, tendo inclusivamente representado oficialmente a Dongfeng Honda no campeonato TCR China. Contas pré-Macau O FIA TCR World Tour já se encontra em território asiático e a Hyundai assumiu o protagonismo na ronda sul-coreana, disputada há duas semanas. A marca conquistou duas vitórias em casa por intermédio do espanhol Mikel Azcona, que aproveitou os resultados para ascender à liderança do campeonato, destronando Santiago Urrutia. O uruguaio da Geely Cyan Racing teve um fim-de-semana difícil e caiu para a terceira posição da classificação, ficando a 49 pontos de Azcona e a oito de Norbert Michelisz, colega do espanhol na BRC Hyundai N Squadra Corse. Na China, a Geely Cyan Racing procurará recuperar terreno no circuito de Chengdu, que curiosamente pertence ao construtor chinês. Urrutia e os seus três colegas de equipa estarão empenhados em regressar aos lugares cimeiros, numa jornada importante para as contas do campeonato. Depois de subir ao pódio na Coreia do Sul, Thed Björk e Ma Qing Hua, a estrela local, procurarão também lutar pelas vitórias. O mesmo objectivo estará na mira do campeão em título, Yann Ehrlacher, que abandonou na sequência de um toque no arranque da segunda corrida em Inje. Apesar dos resultados menos favoráveis na ronda sul-coreana, a Geely Cyan Racing conserva a liderança do campeonato de equipas, com uma vantagem de 17 pontos sobre a BRC Hyundai N Squadra Corse. Após a passagem por Chengdu, o FIA TCR World Tour disputará ainda uma ronda no Circuito de Zhejiang, escolhido pelo promotor chinês para substituir o Circuito Internacional de Hunan, inicialmente previsto no calendário. Só depois chegará o momento decisivo da temporada, no âmbito do 73.º Grande Prémio de Macau, onde os protagonistas do campeonato voltarão a competir no icónico Circuito da Guia.
João Santos Filipe Manchete SociedadeJunkets | Bens de Levo Chan colocados em venda judicial Os imóveis do ex-presidente do Grupo Tak Chun foram colocados à venda a pedido do Banco Industrial e Comercial da China (Macau), devido a uma dívida de 198,9 milhões de patacas Sete imóveis propriedade de Levo Chan Weng Ling, anterior presidente do Grupo Tak Chun, estão em venda judicial, de acordo com a informação disponibilizada no portal dos Tribunais da RAEM. A venda é realizada a pedido do Banco Industrial e Comercial da China (Macau) que, segundo o portal Macau News Agency, pretende recuperar de Levo Chan uma dívida superior a 198,9 milhões de patacas. Os interessados podem apresentar as propostas até 19 de Novembro, através de carta fechada, e no dia seguinte é conhecido o resultado da venda judicial. Se todos os bens forem vendidos ao preço base, os activos poderão render pelo menos 137,0 milhões de patacas. O activo identificado como tendo o valor mais elevado é uma habitação perto do Hotel da Boa Vista que surge avaliada em 71,1 milhões de patacas. Contudo, este é o preço mínimo, pelo que dependendo das propostas, o imóvel até pode ser vendido por um valor superior. O segundo activo mais valioso é uma moradia situada na Estrada de Cheoc Van que tem um preço mínimo de venda de 25,6 milhões de patacas. Entre o pódio dos bens mais caros, surge ainda uma fracção autónoma num edifício industrial, avaliada em 24,0 milhões de patacas. No pólo oposto, o activo menos valioso é um lugar de estacionamento num prédio na Taipa, que tem um preço mínimo de 741 mil patacas. A MNA indica também que estes activos foram indicados por Levo Chan, em 2016, como garantias de diferentes empréstimos que totalizaram 336,6 milhões de dólares de Hong Kong. Caído em desgraça Levo Chan foi detido em Fevereiro de 2022, numa altura em que as autoridades locais lançaram uma campanha contra as principais empresas de promoção do jogo do território. Como resultado, Levo Chan foi condenado, em Dezembro de 2024, a uma pena de prisão de 13 anos devido à prática de 27 crimes: 24 crimes de exploração ilícita de jogo em local autorizado, 1 crime de associação ou sociedade secreta, 1 crime de exploração ilícita de jogo e 1 crime agravado de branqueamento de capitais. O empresário, actualmente a cumprir a pena de prisão, foi igualmente condenado a pagar uma dívida à RAEM de 1,83 mil milhões de dólares de Hong Kong. Este valor terá de ser pago em conjunto com os restantes condenados deste julgamento. Na sequência desta condenação, a RAEM arrestou cerca de 36 imóveis do empresário para cobrir a dívida. Levo Chan foi o segundo caso judicial mais mediático entre os promotores de jogo, depois de em Julho de 2024, Alvin Chau Cheok Wa, presidente do Grupo Suncity, ter sido condenado a uma pena de prisão de 18 anos.
João Santos Filipe Manchete SociedadeUBS | Receitas de jogo em Outubro podem ficar abaixo do previsto O banco de investimento admite que vai ser “um desafio” as receitas de jogo atingirem os valores apontados anteriormente pelos analistas Entre 5 e 11 de Outubro, as receitas médias diárias do jogo atingiram 729 milhões de patacas, de acordo com o mais recente relatório do banco de investimento UBS. No documento, citado pelo portal GGRAsia, a instituição admite que vai ser “um desafio” as receitas atingirem as previsões iniciais dos diferentes analistas para este mês. As verificações mais recentes no território mostram uma tendência de redução das receitas face aos primeiros quatro dias da Semana Dourada, entre 1 a 4 de Outubro, quando se registou um ritmo médio diário de 1.000 milhões de patacas. O banco UBS aponta que os primeiros 11 dias de Outubro deste ano apresentam uma média diária de receitas de 836 milhões de patacas, acima da média dos primeiros 12 dias de Outubro do ano passado, quando a média foi de 804 milhões de patacas. Todavia, os analistas reconhecem que as receitas de Outubro do ano passado foram afectadas por factores negativos que tenderam a afastar as pessoas das mesas dos casinos, como a passagem de um tufão, a 5 de Outubro, e o Festival do Meio do Outono, a 6 de Outubro. O banco UBS explica ainda que para as receitas atingirem o consenso dos analistas, que ronda os 24 mil milhões de patacas, é necessária uma média diária de 777 milhões de patacas na totalidade dos 31 dias de Outubro. Estas contas indicam que para se atingir o consenso, nos restantes 20 dias de Outubro a média diária das receitas tem de ser de 744 milhões de patacas, o que o banco UBS indica parecer “um desafio” face à situação actual. Premium em quebra No relatório, o banco UBS explica ainda que o segmento dos maiores apostadores do mercado de massas apresenta uma quebra. Ainda assim, e como esperado, os números de Outubro são superiores aos de Setembro, quando as receitas médias diárias foram de 602 milhões de patacas. Nesse mês, as receitas totais apresentaram uma redução anual de 1,2 por cento para 187,1 mil milhões de patacas. Anteriormente, o banco UBS associou o enfraquecimento das receitas do jogo no segmento premium do mercado de massas às novas regras de impostos no Interior. Desde 24 de Julho que as autoridades centrais impuseram um imposto sobre os activos colocados por residentes fiscais singulares chineses em fundos offshore e sobre os rendimentos gerados por esses activos. Nos últimos quatro meses, as receitas do jogo apresentam quebras, em termos anuais, mas apesar disso, entre Janeiro e Setembro, o montante acumulado atingiu 187,1 milhões de patacas, um crescimento de 3,2 por cento face ao mesmo período de 2025.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaDST | Macau é destino preferido de confederação de agências espanholas Helena de Senna Fernandes anunciou que os visitantes espanhóis “aumentaram perto de 20 por cento nos primeiros oito meses do ano” e que a Confederação Espanhola de Agências de Viagens escolheu Macau como “Destino Preferido 2027” As relações entre Macau com os países de língua espanhola parecem estar a aprofundar-se na área económica e turística. Prova disso é que “os visitantes espanhóis [em Macau] aumentaram perto de 20 por cento nos primeiros oito meses” deste ano, isto no contexto do crescimento “superior a 30 por cento do número de visitantes europeus”. Os números foram avançados pela directora dos Serviços de Turismo (DST), Helena de Senna Fernandes, que, citada por uma nota oficial, destaca a importância do mercado espanhol para o turismo local. A DST revelou também que a Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEAV) escolheu Macau como “Destino Preferido 2027”, tendo Helena de Senna Fernandes explicado que a DST “vai continuar a cooperar com a CEAV para atrair mais visitantes a Macau ou para viagens ‘multi-destinos’ na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. Aquando da realização da última edição do Concurso Internacional de Fogo-de-Artifício de Macau, esteve no território uma delegação da CEAV. A escolha de Macau como “Destino Preferido 2027” vai permitir o reconhecimento “das vantagens únicas de Macau enquanto centro mundial de turismo e lazer”, uma distinção que será “favorável à expansão contínua do mercado espanhol e mesmo europeu”. Macau na FITUR As relações entre Macau e Espanha na área do turismo têm sido profícuas. Segundo a mesma nota, decorreu em Abril deste ano duas acções promocionais em Madrid, o “Sentir Macau Roadshow” e “Sabor da China – Aroma de Macau”. Além disso, realizou-se a sessão “Actualização de Produtos de Turismo de Macau”, com o objectivo de “apresentar à indústria espanhola os mais recentes desenvolvimentos turísticos de Macau e promover o potencial para o turismo ‘multi-destinos”. Em Julho a DESTINIA, “grande agência de viagens online de Espanha”, trouxe a Macau um grupo para uma “visita de familiarização”; sendo que, este mês, foi organizada outra visita para a delegação da CEAV. Tais acções “favorecem o marketing de precisão dos operadores espanhóis e o lançamento de produtos turísticos de Macau”, explica a DST. No próximo ano a DST vai participar na Feira Internacional de Turismo de Espanha, para reforçar “os esforços de promoção para posicionar Macau como um destino de longa distância atractivo para o mercado espanhol, promovendo o desenvolvimento contínuo e diversificado da indústria turística de Macau”, é explicado.
João Luz Manchete PolíticaCheque pecuniário | Gastos de 2025 caíram 1,6 mil milhões de patacas Em 2025, quando começou a obrigação de estar em Macau 183 dias para receber o cheque pecuniário, o Governo gastou menos 1,65 mil milhões de patacas nesse apoio, face a 2024. No ano passado, todos os apoios tiveram aumentos de custos, excepto o cheque pecuniário e o programa de aperfeiçoamento contínuo No ano passado, o Governo gastou menos cerca de 1.657 milhões de patacas no plano de comparticipação pecuniária no desenvolvimento económico, ou cheques pecuniários, face a 2024. No total, o apoio totalizou quase 5,7 mil milhões de patacas em 2025, quando em 2024 o Governo distribuiu 7,35 mil milhões de patacas. A quebra de 22,5 por cento coincidiu com a entrada em vigor do requisito de permanência em Macau de, pelo menos, 183 dias ao longo do ano para poder receber o cheque. Os dados estão discriminados no Relatório sobre a execução do orçamento do ano 2025, elaborado pela Direcção dos Serviços de Finanças (DSF), que será votado amanhã à tarde no plenário da Assembleia Legislativa. Entre as várias rúbricas de apoios sociais, o cheque pecuniário e o Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo foram os únicos que diminuíram. A verba gasta com o programa de aperfeiçoamento contínuo no ano passado foi de 155 milhões de patacas, menos 39 milhões de patacas, representando uma quebra anual de 20,1 por cento. Nos apoios à população, depois dos cheques pecuniários, os itens que representam maiores despesas públicas são a injecção de capitais na conta individual do regime de previdência central não obrigatório, que aumentou no ano passado 6,4 por cento para mais de 3,1 mil milhões de patacas, e os subsídios para idosos que cresceram 17,7 por cento para mais de 1,45 mil milhões de patacas. Taxas e tachos A diminuição dos gastos com cheques pecuniários surge mencionada em várias rubricas do relatório do orçamento do ano passado. Uma delas é “outros subsídios e abonos”, onde as despesas efectivas foram de 6,77 mil milhões de patacas, menos 2,2 mil milhões face a 2024. A quebra de quase 25 por cento das despesas efectivas é justificada no relatório da DSF com a redução das despesas com os cheques pecuniários e as taxas de utilização da Zona do Posto Fronteiriço da Parte de Macau do Posto Fronteiriço Hengqin e das suas zonas contíguas. Importa referir que em 2024, as taxas de utilização da parte de Macau do Posto Fronteiriço Hengqin zonas contíguas custaram aos cofres públicos 453 milhões de patacas. Ainda no capítulo dos apoios aos residentes, destaque para o aumento de 21,1 por cento das despesas efectivas com o subsídio de invalidez, que totalizaram no ano passado 281 milhões de patacas, e o subsídio de assistência na infância, de cerca de 277 milhões de patacas, que foi atribuído no ano passado pela primeira vez. Na rubrica das despesas com as restituições de impostos, a participação em capital social, o relatório orçamental revela um aumento de quase 10 por cento das despesas efectivas, para um total de 2,04 mil milhões de patacas, devido principalmente ao aumento da injecção de capital na Companhia de Transportes Aéreos Air Macau, e na CAM – Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivro | Daniel Pires lança biografia de Bartolomeu Lourenço de Gusmão Há 300 anos morreu o padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Homem de múltiplos feitos, falou de uma “máquina que voa” ao rei D. João V e foi perseguido pela Inquisição. Daniel Pires acaba de lançar “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, editado pela Imprensa Nacional A história de vida de Bartolomeu Lourenço de Gusmão acaba de chegar ao público em formato de livro. O projecto editorial, assinado por Daniel Pires, estudioso de Camilo Pessanha, conta a complexa vida do inventor da “passarola”. “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, tem edição da Imprensa Nacional e é lançado numa altura em que passam 300 anos sobre a morte do padre que teve muitas facetas, incluindo a de assessor do rei D. João V, e que morreu em Toledo, Espanha, com apenas 38 anos. Ao HM, Daniel Pires explica como iniciou a investigação para o livro. “Ele era um jovem luso-brasileiro, nascido em Santos, que na altura era uma vila piscatória, numa família de doze irmãos, todos católicos. Fez a instrução primária em Santos, depois foi para um seminário de jesuítas, e aos 20 anos percebe que não tem mais hipótese de evoluir e decide vir para o então continente [Portugal], com uma cunha do governador do Brasil, conseguindo que o rei [D. João V] o chamasse.” É na primeira audiência com o monarca que Bartolomeu de Gusmão fala da sua “passarola” e de como podia ajudar o rei a comunicar com as então colónias, dispersas por África, Ásia e América do Sul. “O rei queria saber coisas do Brasil, que não conhecia. Fez perguntas sobre os índios, a alimentação, a escravatura, o ouro. Às tantas, Bartolomeu de Gusmão, que era, na altura, um miúdo de 23 anos, consegue dizer ao rei: ‘Vossa Excelência conhece a locomoção terrestre, o ser humano desloca-se por terra e por mar, mas eu sei que o ser humano também se pode deslocar pelo ar, e tenho a possibilidade de fazer uma máquina que voa'”. O encontro com D. João V Segundo Daniel Pires, o padre inventor terá dito que, com esta máquina, era possível ir além do “país imenso” que era Portugal, já que se consideravam as colónias como parte do território. “Disse ao rei que ele podia governar mais facilmente se tivesse este engenho aeroestático, que levasse as ordens às colónias portuguesas, e que depois poderia transportar mercadorias, fazer negócios”, aponta o autor. D. João V, perante esta novidade, ficou “admiradíssimo”. “Estamos a falar da primeira máquina que voava no mundo, não apenas em Portugal. Ainda por cima, apresentava esta possibilidade de Portugal ganhar a guerra com Espanha [Guerra da Sucessão Espanhola, entre os anos de 1704–1715] e resolver esse problema, pois Portugal sofria com uma derrota pesadíssima”, acrescentou. Neste encontro com D. João V, que decorreu no ano de 1709, foi exigido a Bartolomeu de Gusmão que apresentasse, então, um desenho que explicasse como construir a “passarola”. “O rei reuniu físicos, matemáticos, químicos portugueses, e cinco dias depois o projecto estava aprovado. Gerou-se depois [um debate]: por um lado, havia pessoas retrógradas, mais concretamente a Igreja, desconfiados; e havia ainda quem apoiava Bartolomeu de Gusmão. Mas quem estava do lado da Igreja foi à Bíblia, e pensou: ‘locomoção pelo ar? Quem é que se desloca pelo ar na Bíblia? Os anjos’. Como a Bíblia não faz referência a máquinas aéreas, acharam que Bartolomeu de Gusmão tinha relações com bruxas, um pacto com o demónio. A partir daí, perseguiram-no a vida inteira.” Múltiplas fugas Bartolomeu de Gusmão teve de “fugir várias vezes”, perseguido pela Inquisição. “Ao fim de três meses, a máquina aeroestática subiu cerca de quatro metros e despenhou-se, incendiou-se. Então as más-línguas, e pessoas mal-intencionadas, disseram que ele, além de ter um pacto com o demónio, também queria criar uma máquina armada para subjugar os países católicos, neste caso Espanha, Portugal, França e Itália. Então, a partir daí, deu-se uma perseguição constante e [Bartolomeu de Gusmão] acabou por fugir de vez para a Holanda, onde foi inventando outras máquinas, outras coisas.” Uma destas coisas foi o registo “da patente de uma máquina hidráulica”. O padre fez ainda estudos em França, Holanda e Inglaterra. Porém, D. João V nunca deixou de acreditar imaginativo clérigo, e acabou por o chamar de volta a Portugal, regresso que permitiu a Bartolomeu de Gusmão estudar Direito Canónico na Universidade de Coimbra. “Criou-se uma amizade muito forte entre ele e o rei, que sempre confiou nele”, disse Daniel Pires. É então que Bartolomeu de Gusmão se torna secretário de D. João V. Apesar da posição, continuaria a ser perseguido e acusado das mais variadas coisas, inclusivamente de ser judeu. Porém, D. João V nunca acreditou nestas acusações e diz a Bartolomeu de Gusmão para fugir, pois havia o risco de ser queimado em praça pública pela Inquisição, como era costume à época. A denúncia dos jesuítas A figura de Bartolomeu de Gusmão ficou para sempre no imaginário português, ao ponto de José Saramago, escritor e Prémio Nobel da Literatura, ter criado um personagem inspirado nele, o “padre voador”. “[Saramago] criou um personagem muitíssimo bem-criado de acordo com os parâmetros históricos, pois tanto a história de Bartolomeu de Gusmão como a reconstituição da sociedade da época estão muito bem feitos no livro”, disse. Há muitas referências que falam de Bartolomeu de Gusmão enquanto padre jesuíta, mas a obra de Daniel Pires prova que este nunca entrou na Companhia de Jesus que, aliás, o terá denunciado à Inquisição. “Foi algo grave, o facto de a própria Companhia de Jesus ter denunciado Bartolomeu de Gusmão à Inquisição. Havia ali grandes divergências, pois nunca aceitaram que ele não tenha querido entrar na Companhia de Jesus. Mas também desconfiavam bastante daquela máquina aerostática.” Falamos de um “tempo difícil para os visionários”, com um grande poder da Igreja Católica. “Depois da morte de Bartolomeu de Gusmão o seu nome continuou a ser proibido. Estamos a falar do primeiro inventor de balões, do primeiro cientista das Américas.” Esta não foi a primeira vez que Daniel Pires fez a incursão no mundo deste padre inventor, já que, no ano passado, reuniu num livro toda a sua obra. O livro “Obra de Bartolomeu de Gusmão” nasceu de uma busca incessante de Daniel Pires pelos seus papéis. “Quando vi que ele tinha sido perseguido pela Inquisição e que tinha morrido em Espanha, vi que não havia praticamente quaisquer papéis e documentos dele. Há cerca de dois anos e meio resolvi investigar porquê. A Inquisição não queimou os papéis de amigos e familiares, existindo cópias, e foi a partir daí que comecei a trabalhar, reunindo toda a obra dele, 15 inéditos.” Este foi o resultado de uma pesquisa feita por vários arquivos em Portugal, incluindo a Torre do Tombo, assim como arquivos em Espanha, França e Inglaterra. “Trata-se de uma obra muito diversificada, que inclui poesia, filosofia, ciência. Ele também foi jurista e historiador, e fazia, por exemplo, os códigos cifrados dos documentos diplomáticos portugueses. Era também um grande matemático”, rematou Daniel Pires. Bartolomeu de Gusmão teve uma vida curta, falecendo de febres em Toledo com apenas 38 anos.