Andreia Sofia Silva Eventos Manchete“MasterChef Asia” | Programa filmado no território estreia esta semana Os dez episódios do concurso de culinária “MasterChef Ásia” filmados em Macau terão estreia esta semana em países como a Índia e Coreia. Mercados e bairros históricos serviram de pano de fundo a um programa que conta com chefs bem conhecidos do público, como Edward Lee, “Pam” Pichaya S. e Kelvin Cheung Estreia esta semana em vários países asiáticos a série de dez episódios do “MasterChef Ásia” filmada em Macau. Segundo uma nota da Direcção dos Serviços de Turismo (DST), o popular concurso de descoberta de talentos culinários, e que tem edições em todo o mundo, conta com chefs famosos no júri, como Edward Lee, “Pam” Pichaya S. e Kelvin Cheung. O programa, produzido pela Warner Bros. Discovery e CreAsia Studio, como parte da produtora Endemol Shine India, estreia no canal TLC, no Sudeste Asiático, amanhã, 22; seguindo-se a estreia no Discovery Channel na quarta-feira, 23 de Setembro. O “MasterChef Ásia” também pode ser visto na plataforma de streaming HBO Max. A série será ainda lançada na TLC Índia e Médio Oriente, respectivamente amanhã, dia 22, e quinta-feira, dia 24 de Setembro, sem esquecer a estreia no canal Discovery Channel na Coreia do Sul esta quarta-feira, dia 23 de Setembro. Segundo uma nota da DST, esta série do concurso contou com “desafios culinários que tiveram lugar em mercados emblemáticos de zonas comunitárias”, sem esquecer os “restaurantes estrela-Michelin em resorts integrados”, reunindo-se dez concorrentes, incluindo uma participante de Macau, de nome Sandy Tang. Os restantes concorrentes são o chef vietnamita-australiano Khanh Ong; o dono de restaurante Sahadol “Pond” Tantrapim; Marcus Low, chef de pastelaria da Malásia; a especialista de gastronomia coreana Areum Yoon; Nambie Jessica Marak, “Embaixadora Culinária e Cultural de Meghalaya”; e ainda os chefs de cozinha asiática Audrey Wicksana, Therese Lum, Mime Kataniwa e Ivory Yat. A ideia do “MasterChef Asia” é pôr chefs de diferentes países e regiões à prova, “à medida que estes põem à prova as suas capacidades, criatividade e versatilidade, sendo avaliados por um elenco de renome da cozinha asiática”. Património na televisão Segundo a DST, esta série de episódios revela “o património cultural de Macau de encontro entre o Oriente e o Ocidente, a forte oferta de restauração e o desenvolvimento [de Macau] como Cidade Criativa da UNESCO em Gastronomia”. O programa será marcado por “uma nova ronda de exigentes desafios culinários que mostrarão o charme único do destino [Macau] a públicos de mercados que são fontes de visitantes internacionais prioritários para a DST”, é revelado. Além do júri repleto de nomes bem conhecidos, há também outras personalidades convidadas, como é o caso do criador de conteúdos de comida Mark Wiens e os chefs Ken Chong e Julien Tongourian, que trabalham em Macau. A DST destaca como as filmagens deste programa na RAEM servem para “preparar terreno” para as celebrações do 10.º aniversário de Macau como Cidade Criativa de Gastronomia, que decorrem no próximo ano. Assim, o “MasterChef Asia” contribui também para “mostrar a cultura gastronómica singular do destino e o seu dinâmico desenvolvimento como um centro mundial de turismo e lazer”. O “MasterChef” é reconhecido pelo “Guinness World Records” como o “programa de cozinha em formato para televisão mais popular do mundo”, tendo sido adaptado para 74 mercados. O programa já tem mais de 750 temporadas e mais de 16 mil episódios exibidos. Criado por Franc Roddam e lançado em 1990, o popular programa é conhecido e apreciado em todo mundo.
João Santos Filipe Manchete SociedadeCrime | Detido por tentativa de homicídio relacionada com dívida Uma dívida de 15 mil dólares terá estado na origem do diferendo que terminou com mais de 10 facadas. O alegado criminoso esteve praticamente um ano em excesso de permanência, sem que tivesse sido interceptado pelas autoridades Um homem em situação irregular em Macau foi detido por, alegadamente, ter esfaqueado outro devido a uma dívida de 15 mil dólares de Hong Kong. O crime foi divulgado na sexta-feira pela Polícia Judiciária (PJ), e o detido foi encaminhado para o Ministério Público (MP). O caso aconteceu na sexta-feira de madrugada, durante um encontro entre os dois homens, num restaurante na Avenida de D. Rodrigo Rodrigues. Nessa ocasião, o detido terá pedido a devolução do montante emprestado para apostar nos casinos do território. Como o devedor se recusou pagar a dívida, o detido foi à cozinha, pegou numa faca e atacou a vítima na cabeça e na parte superior do corpo. O agredido tentou defender-se do ataque com um banco de madeira, mas sofreu ferimentos em várias zonas do corpo, com pelo menos 10 golpes na cabeça e parte superior do corpo. Após o ataque com a faca, o agressor colocou-se em fuga. No entanto, os trabalhadores do restaurante auxiliaram a vítima, que foi transportada para o Hospital Kiang Wu, e alertaram a polícia para o sucedido. As autoridades procederam à detenção na manhã de sexta-feira, numa casa de massagens no NAPE. Promessa de gorjeta Segundo a informação da PJ, a vítima e o suspeito conheceram-se no mês passado, quando também se encontraram num restaurante. Nesse encontro, o agressor aceitou emprestar 15 mil dólares de Hong Kong à vítima, com a condição de receber uma “gorjeta” em caso de vitória do jogador, além da devolução do dinheiro emprestado. No entanto, nas mesas dos casinos, a sorte não esteve do lado do devedor, que perdeu o dinheiro todo e ficou sem capacidade financeira para devolver o dinheiro. Com o empréstimo por pagar, os dois reuniram-se pela primeira vez na noite de quarta-feira. Nessa altura, o agressor não conseguiu cobrar a dívida, mas ambos agendaram um novo encontro para a madrugada de sexta-feira. No segundo encontro, como o homem que estava ilegalmente em Macau considerou que o devedor não estava a lidar com o assunto de forma séria e não tinha planos para pagar a dívida decidiu partir para a agressão. Segundo o relatório médico, a vítima sofreu lesões na cabeça, rosto e tronco, além de uma fractura na falange média do dedo mindinho da mão direita. O jornal Ou Mun indica que os médicos estimaram o período de recuperação em três meses. O suspeito tem 36 anos, é residente do Interior e afirmou estar desempregado. Encontrava-se em excesso de permanência no território há cerca de um ano. Durante a intervenção, a polícia apreendeu a faca de cozinha com uma lâmina de 18 centímetros que foi utilizada no crime. Como as autoridades consideraram que o atacante visou zonas vitais da vítima, a Polícia Judiciária concluiu que houve intenção de matar, pelo que indiciou o suspeito por homicídio na forma tentada, detenção de arma proibida e empréstimo ilícito para a prática do jogo. A situação de excesso de permanência do suspeito será objecto de um processo autónomo.
Hoje Macau Manchete SociedadeTurismo | Número de visitantes subiu 6% para 4,5 milhões em Agosto Macau recebeu em Agosto quase 4,5 milhões de visitantes, uma subida homóloga de 6,1 por cento, apesar da queda de quase 10 por cento dos turistas internacionais. Em oito meses, entraram no território quase 29 milhões de visitantes, mais 7,7 por cento face ao mesmo período de 2025 Macau ficou a escassos 22 mil visitantes de atingir o registo de 4,5 milhões entradas de turistas em Agosto, indicou a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) na sexta-feira. O número de turistas no mês passado foi 6,1 por cento superior a Agosto do ano passado. Entre os visitantes que se deslocaram a Macau em Agosto, mais de metade (quase 2,9 milhões) eram excursionistas, o que representa um aumento de 11,7 por cento face ao mesmo período do ano anterior. Já o número de turistas (1,63 milhões) registou uma queda de 2,4 por cento em Agosto, em termos anuais, acrescenta a nota. A maioria dos visitantes (perto de 3,6 milhões) era proveniente da China continental, mais 9,3 por cento, sendo que 643,4 mil chegaram de Hong Kong, uma descida de 5,6 por cento, e 101,3 mil de Taiwan, mais 13,7 por cento, em comparação com o mesmo período de 2025. Os visitantes internacionais (item que exclui o Interior da China, Hong Kong e Taiwan), refere ainda a nota da DSEC, totalizaram em Agosto 171,7 mil, o que representa uma queda de 9,8 por cento, em termos homólogos. Visto à lupa Nos mercados do Sudeste Asiático, a Malásia foi a excepção à regra, com o aumento de 2,1 por cento de entradas no mês em análise, para um total de 8.161 turistas. Já Filipinas registaram uma quebra anual de 18,5 por cento para quase 31.300 pessoas, enquanto as entradas de turistas vindos da Indonésia decresceram 16,9 por cento face a Agosto de 2025, para um total de 11,1 mil. Quanto ao Sul da Ásia, o número de entradas de visitantes da Índia (6.430) baixou 17,6 por cento, em relação a Agosto do ano anterior. A tendência de quebra alastrou-se aos mercados do Nordeste Asiático, com o número de entradas de visitantes da República da Coreia (30.738) e o do Japão (11.464) a caírem 12,6 e 31,1 por cento, respectivamente. No agregado dos primeiros oito meses de 2026, porém, entraram no território quase 29 milhões de visitantes, ou seja, mais 7,7 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. No total, o aumento de visitantes entre Janeiro e Agosto ficou a dever-se ao número de excursionistas que subiu 13,6 por cento em termos anuais (17,85 milhões), enquanto o número de turistas individuais permaneceu quase igual (quebra de 0,6 por cento para 11,1 milhões). Já os visitantes internacionais totalizaram 1,77 milhões nos primeiros oito meses do ano, representando um crescimento de 3,4 por cento em relação ao mesmo período de 2025.
Hoje Macau Manchete PolíticaIA | PJ preocupada com possível ameaça à segurança nacional O director da Polícia Judiciária alertou para os riscos da cibercriminalidade e para os métodos criminosos que são cada vez “mais inteligentes e automatizados”. A segurança nacional continua a ser a principal preocupação das autoridades em Macau O director da Polícia Judiciária (PJ), Sit Chong Meng, manifestou preocupação com o facto de o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) poder ameaçar a ordem social e a segurança nacional. Os riscos colocados “pela IA e pela ‘big data'” não só “ameaçam a ordem social e o interesse público, como representam uma ameaça directa à segurança nacional no seu todo”, afirmou o director da PJ, Sit Chong Meng, na sexta-feira, na cerimónia de abertura da Semana Nacional de Sensibilização para a Cibersegurança. Sit reconheceu que as tecnologias emergentes “têm proporcionado um impulso poderoso” à inovação na governação, à modernização industrial e aos serviços públicos, “mas, ao mesmo tempo, deram origem a novos desafios de cibersegurança”. “A cibercriminalidade continua a grassar e o rápido desenvolvimento da tecnologia de inteligência artificial levou a que os métodos criminosos se tornem cada vez mais inteligentes e automatizados”, acrescentou. O responsável sublinhou que os hackers estão a realizar ataques a “um ritmo sem precedentes” – com “métodos cada vez mais dissimulados” – que as novas formas de fraude são cada vez mais enganadoras e que a gravidade do roubo de dados e dos ciberataques “aumentou significativamente”. “Estes riscos e desafios servem de alerta constante de que temos de fazer avançar a governação da segurança a par do desenvolvimento tecnológico, por forma a garantir que a tecnologia é utilizada para o bem e que o progresso tecnológico beneficia a sociedade”, defendeu. Panorama mais exigente Perante um cenário de cibersegurança e de segurança tecnológica “cada vez mais exigente”, o responsável sugeriu que a sociedade tem de reforçar a cooperação – “agora mais do que nunca” – para melhorar as defesas de cibersegurança e a protecção contra riscos e ameaças, como a fraude online, os ciberataques e as violações de dados. Sit citou o Presidente Xi Jinping, afirmando que a salvaguarda da cibersegurança requer “cooperação reforçada”, “aprendizagem mútua”, “investigação e desenvolvimento conjuntos” e “benefícios mútuos e resultados vantajosos para todas as partes”. O dirigente chinês vai visitar os Estados Unidos esta semana, e a administração norte-americana está a ponderar reunir os líderes das principais empresas de IA, informou a cadeia televisiva CNN.
Hoje Macau Manchete PolíticaTJB | Concluída audiência do processo em que Au Kam San é arguido O Tribunal Judicial de Base anunciou na sexta-feira a conclusão da audiência do processo contra o ex-deputado Au Kam San, e que irá “designar a data da leitura do acórdão”, dois dias depois do início do julgamento O anúncio breve através de um comunicado do Tribunal Judicial de Base (TJB) acontece dois dias após o início do julgamento do primeiro processo relativo à segurança do Estado em Macau. “O Juízo Criminal do Tribunal Judicial de Base terminou, no dia 18 de Setembro, a audiência de julgamento do processo relativo à segurança do Estado relacionado com o arguido Au Kam San e irá designar uma data para a leitura do acórdão”, informa o tribunal, deixando claro que a produção de prova, testemunhal e outra, defesa e alegações finais foram já deixadas para atrás, restando apenas o acórdão e respectiva sentença enquanto último acto de tramitação processual. O julgamento do cidadão português começou na quarta-feira da semana passada à porta fechada e com presença policial desde as primeiras horas da manhã, apesar de não ter sido divulgada a hora do início da sessão. Vários agentes da polícia foram mobilizados para o exterior do TJB, onde estiveram poucos jornalistas, a quem foi permitida a presença no local, mas pedida identificação, observou a agência Lusa. “A pedido do Ministério Público e com a confirmação da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da Região Administrativa Especial de Macau, o juiz titular do processo (…), decidiu proceder ao julgamento do processo à porta fechada, a fim de assegurar que não se cause prejuízo aos interesses da segurança do Estado”, indicou o TJB. 25 anos Au Kam San é acusado, no primeiro caso de segurança nacional a ser julgado no território, de “subversão contra o poder político do Estado” e “estabelecimento de ligações” com entidades externas “para prática de actos contra a segurança do Estado”, referiu em Julho o TJB. Pelo crime de subversão contra o poder político do Estado, Au Kam San arrisca uma pena que pode chegar aos 25 anos de prisão. O antigo deputado foi detido em 30 de Julho de 2025 em Macau e ficou desde esse dia em prisão preventiva.
Andreia Sofia Silva Grande Plano ManchetePoesia | Editora portuguesa lança “China – Poemas do Erotismo Suave” Serão os chineses dados à explicitação do sexo? No mais recente livro de poesia traduzida por António Graça de Abreu, “China – Poemas do Erotismo Suave”, a pergunta faz-se no passado e dá respostas afirmativas: na China antiga escreveu-se muito sobre sexualidade e amor carnal. Não faltam sequer poemas sobre o amor LGBT António Graça de Abreu acaba de assinar a tradução de um punhado de poemas chineses clássicos que remetem para uma temática muito pouco comum nos dias de hoje na hora de editar poesia chinesa: o erotismo. Quando falámos com o autor e, por lapso, referimos romantismo, do outro lado da linha a questão surgiu condimentada com algum humor: “Romantismo?” Não é de romantismo que trata o livro, mas sim de sexualidade e erotismo puro na forma de palavras. “China – Poemas do Erotismo Suave”, acabado de sair para as bancas com a chancela da editora Guerra e Paz, deixa desde logo antever uma pergunta: “Como era o amor e amar na velha China?”. O prefácio, assinado pelo próprio António Graça de Abreu, denota como, ao contrário do que se possa pensar, a sexualidade estava bem presente na vida da corte imperial e não era vivida com tanto pudor como se possa pensar. Desde logo porque, como se lê, “não nos podemos esquecer que a China escapou aos preconceitos sexuais do mundo judaico-cristão, por isso, a ideia de pecado, punição e culpa é alheia; exterior ao simples fluir do homem e da mulher por dentro do brilho ou da penumbra do tempo”. O livro apresenta poesia sobre esta temática, incluindo escritos de obras clássicas como é o caso de “O Sonho do Pavilhão Vermelho ou Hong Lou Meng”, de Cao Xueqin, editado em meados do século XVIII, na dinastia Qing. Não faltam ainda poemas de Li Yu, como “Ode do coração despedaçado”, “O modesto instrumento” ou “Da esposa do soldado para o marido ausente”. E o que dizer do poema “Os teus dois montes”, de Wang Shizhen, que deixa ao leitor uma imagem de deleite visual do narrador: “Os teus dois montes, como lótus cor-de-rosa, / iluminam o teu corpo, / na limpidez da tarde.” Trata-se, portanto, de uma obra que expõe “o tema do amor na China entre o homem e uma mulher, embora também tenha referências ao amor homossexual entre homens e com lésbicas.” DR Um dos exemplos de um poeta que retrata relações homossexuais é Wang Wei. O livro apresenta três poemas traduzidos da sua autoria, como “Canção da bela de Luoyang”, “Balada de Xi Shi” e “Poema mesclado”. “Recentemente descobriram que havia tendências homossexuais em Wang Wei, um poeta dos anos 700 [século VIII] e um dos maiores poetas da China, e que tem um amigo a quem dedica poemas maravilhosos, tendo também dois ou três poemas virados para o feminino.” O lugar da mulher António Graça Abreu segue uma certa linha cronológica nos poemas, começando pelo “Livro das Mutações ou Yi Jing”, tido como “o mais enigmático dos clássicos chineses” e que terá sido composto por volta do século X a.C. Sobre esta poesia tão antiga, o autor e tradutor traça a comparação com a poesia trovadoresca portuguesa, que começou a ser escrita a partir do século XII e que tinha também o amor e o romance como tema. Já nesses primeiros poemas chineses se notavam “muitas referências de natureza sexual”, pelo que se pode concluir que não havia pudor ou até timidez neste tipo de expressões. “[A poesia] não esconde praticamente nada. A própria participação da mulher no poema… ela está à espera de um companheiro galante e bonito para haver amor. Isso acontece logo nos primeiros poemas, mais ou menos eróticos, da velha poesia chinesa”, destacou. “Depois”, frisa António Graça de Abreu, “as coisas vão evoluindo e é preciso considerar [outras questões], que também tem a ver com Confúcio que, de algum modo, subalternizava a mulher, colocando-a uns degraus abaixo do homem, mas no budismo não”. Certo é que “praticamente até ao século XX a mulher teve sempre pouco valor” na poesia, sendo que, na verdade, “não há muita poesia de amor”. Isto porque a beleza feminina é evidenciada em muitos dos escritos, mas nem sempre há uma elevação da mulher em relação ao homem. “As mulheres eram compradas e usadas muitas vezes. Mas depois há o encantamento feminino, com as mulheres a serem comparadas com flores de lótus, há toda uma poética do amor… as mulheres aparecem como sendo muito bonitas, muito estilizadas, com uma pele de seda, com um certo comportamento. Mas isso não é muito geral na poesia chinesa, e há muito mais poemas dedicados a outros letrados [mandarins] do que a mulheres que eles amaram.” António Graça de Abreu dá o exemplo do poeta Li Bai, também incluído na antologia, que viveu entre os anos de 701 e 762, e que tinha quatro mulheres. Porém, apesar destes lugares em que homens e mulheres eram colocados, havia depois algumas excepções na socialização. “A sociedade chinesa é muito curiosa nesse aspecto, porque tem períodos ou momentos de grande liberdade, em que se podia fazer quase tudo. O encantamento da mulher fazia parte da vida dos poetas, mas eles não davam tanta importância a isso como davam à amizade entre mandarins, por exemplo.” Ainda relativamente às possíveis comparações com a poesia trovadoresca, António Graça de Abreu destaca como podemos encontrar poemas muito parecidos com as Cantigas de Amigo. “Também há na China uma espécie de Cantigas de Amigo, mas é o homem que faz o poema, como se fosse a mulher a falar do companheiro.” Tal não quer dizer que não tenha havido mulheres a escrever poesia na China antiga, mas são casos muito pontuais. “As poetisas eram, muitas vezes, cortesãs, marginais na sociedade. Mas eram mulheres cultas, que tinham aprendido a escrever. Normalmente, as mulheres não sabiam ler nem escrever, mas as que faziam poemas na China, sobretudo na dinastia Tang, entre os anos de 600 a 900, eram cortesãs e, portanto, meio prostitutas”, explicou. Estas autoras “muito delicadas, dedicavam poemas inclusivamente aos poetas”. Tinham, portanto, “um núcleo de poetas com quem trabalhavam em amizade”. “Uma novidade” António Graça de Abreu assegura que esta obra “é uma novidade em Portugal porque nunca ninguém mexeu neste tema, a poesia erótica chinesa”. Este é, aliás, um resultado de muitos anos de pesquisa. “Entretive-me a comprar, ao longo destes anos e para fazer este trabalho, uma série de livros de poesia, inclusive dos Estados Unidos da América.” Relativamente a “O Sonho do Pavilhão Vermelho” é, para o autor, “um romance fabuloso, do século XVIII, um dos grandes romances da literatura universal, mas que está recheado de poemas e alguns eróticos”. “Já Mao Zedong dizia que cada chinês deveria ler cinco vezes o ‘Sonho do Pavilhão Vermelho'”, destaca. Houve uma época em que na China havia maior liberdade em termos de costumes, e Xangai “era o grande império da prostituição no Extremo Oriente, mas depois praticamente acabaram com a prostituição em Xangai nos anos 50, seguindo os princípios confucianos”. António Graça de Abreu escreveu no prefácio outra realidade muito comum nos anos da China imperial: as concubinas. “E que dizer da depurada prática sexual de mandarins e príncipes – afastados de qualquer idealismo romântico – que tinham à disposição inúmeras mulheres, esposas, concubinas, cortesãs e prostitutas para amar ou fingir o amor de amar?”. Graça de Abreu dá o exemplo de um poeta que, com 65 anos, comprou 10 concubinas. “Uma era a boquinha de cereja, e outra a cintura de salgueiro. Ele dizia que, com a cintura de salgueiro, era capaz de subir às árvores. Com 65 anos, está a ver? Portanto, o encantamento da mulher é uma constante em todas as civilizações, mas na China não se nota muito. Foi isso que tentei fazer nesta antologia, indo buscar poemas desde a era de Confúcio até aos nossos dias.” Na obra constam ainda notas sobre os períodos históricos a que remetem os poemas. Graça de Abreu diz ter procurado assegurar que os poemas “tivessem qualidade em português”, mantendo algum do ritmo do original chinês. “O poema tem de ter som, algumas rimas internas como tem em chinês. Como tradutor tenho de dar uma volta àquilo, para que fique bonito em português. É isso que me satisfaz, porque consigo dar algum valor ao poema, que, em português, fica com uma leitura agradável.” Esse é um dos desafios a que António Graça Abreu procura dar sempre resposta. “Se traduzimos mal o poema para português, ou se somos demasiado literários, estamos quase a assassinar o poema, e eu não quero isso, porque são poemas muito bonitos em chinês, com cor, sensibilidade, bom gosto. Ficamos a ver as pessoas à nossa frente”, rematou. Uma coisa é certa: este livro mostra “que os homens [chineses] sabem amar, e as mulheres também”, remata o autor.
João Santos Filipe Desporto MancheteFutebol | Torneio da Soberania realiza-se a 28 e 29 de Novembro A selecção de veteranos de Macau, o Sporting Clube de Portugal, o Macallum Sports Club, da Malásia, e uma equipa de Pequim vão ser as quatro formações participantes na edição deste ano do Torneio da Soberania. Ao contrário do habitual, a 26.ª edição da competição organizada pela Associação dos Veteranos de Futebol de Macau é antecipada para 28 e 29 de Novembro. “As nossas expectativas são sempre as melhores. E este ano o torneio é um bocado especial, porque nós decidimos convidar uma equipa da Malásia”, afirmou Francisco Manhão, ex-presidente da associação e actual consultor, ao HM. “E, por feliz coincidência, o nosso Chefe do Executivo também esteve recentemente na Malásia numa viagem para reforçar os laços de amizade. Por isso, vamos aproveitar este torneio para reforçar os laços, um aspecto que nos recorda um bocado a política de pingue-pongue que foi utilizada para aproximar as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a China”, apontou. Entre as equipas convidadas consta também uma formação de veteranos do Sporting, um regresso ao território. Sobre esta formação, Manhão indicou que o torneio só faz sentido se houver uma equipa de Portugal, dado que o torneio assinala a transferência da administração de Macau. “Se estamos a assinalar esta data, só faz sentido se também houver uma equipa de Portugal”, vincou. Velhos conhecidos Em relação à equipa que viaja de Portugal para participar no evento, Francisco Manhão destacou um velho conhecido do território, o guarda-redes Mário Fonseca, que entre os anos de 1993 e 1994 representou as cores do Negro Rubro. “Foi um jogador que se sagrou campeão de futebol de 11 e de futebol de 7 – a nossa Bolinha – também participou na Taça dos Campeões da Ásia, num ano em que bateram uma equipa de Cantão por 4-3”, recordou o consultor do torneio. A equipa de Lisboa é ainda integrada por jogadores como Diogo Salomão, que realizou cerca de 15 jogos pela equipa principal do Sporting, Edgar Marcelino e João Paiva. Todos estes atletas passaram pela Academia de Alcochete e foram internacionais por Portugal nos anos de formação. Sobre a antecipação da data do torneio, que normalmente se realiza em Dezembro e no Canídromo, Manhão justificou a mudança com a dificuldade em arranjar um campo de futebol, devido à realização de obras, durante as datas tradicionais. Os jogos vão assim decorrer no Campo Desportivo da Universidade de Macau, o que o consultor reconheceu tornar mais complicadas as deslocações para os jogos.
João Santos Filipe Manchete SociedadeHabitação | Compras e vendas com queda de 16% em Agosto Ao longo do último mês, o mercado de habitação voltou a contrair, com menos transacções e a preços mais baratos. Coloane foi a zona mais cara do território para comprar casa Em Agosto, o número de compras e vendas de habitação registou uma redução mensal de 15,9 por cento, para 253 transacções. Em Julho deste ano, o número de transacções no território tinha sido de 301. Os dados mais recentes do mercado imobiliário foram divulgados ontem pela Direcção de Serviços de Finanças (DSF) e mostram que Agosto é o segundo mês consecutivo de contracção, depois de em Junho ter sido registado um total de 433 compras e vendas. No corrente ano, o mês com mais actividade no mercado foi Fevereiro, quando foram totalizadas 494 transacções de habitação. Em relação aos dados de Agosto deste ano, o maior número de transacções ocorreu na Península de Macau (187), mercado seguido pela Taipa (46) e por Coloane (20). A Península e a Taipa foram os locais que pressionaram negativamente o mercado, dado que em Julho tinham registado 241 e 49 compras e vendas, respectivamente. No entanto, Coloane apresentou uma tendência contrária, com as transacções a crescerem, dado que no mês anterior tinham sido inscritas 11 compras e vendas. Quando a comparação do número de compras e vendas é feita em termos anuais, o mercado apresenta um crescimento de 7,7 por cento. Em Agosto de 2025 houve um total de 235 transacções, uma diferença de 18 compras e vendas. Os números estão muito longe da realidade pré-covid, dado que em Agosto de 2019 foram registadas 770 transacções. Preços em queda Em relação aos valores praticados em Agosto, o preço médio por metro quadrado foi de 65.998 patacas, o que representou uma redução mensal de 2,5 por cento, dado que em Julho o preço médio tinha sido de 67.667 patacas. Na Península, o preço médio do metro quadrado foi de 63.851 patacas, na Taipa de 63.466 patacas e em Coloane de 85.388 patacas. Em relação a Julho, os preços médios ficaram mais baixos na Península e na Taipa, dado que anteriormente atingiram 66.932 e 69.347 patacas, respectivamente. Todavia, o cenário foi diferente em Coloane, onde o valor médio do metro quadrado valorizou, dado que em Julho tinha sido de 72.835 patacas. Em termos anuais, o metro quadrado apresentou uma desvalorização de 17,9 por cento, uma vez que em Agosto de 2025 o preço atingiu 80.370 patacas. No corrente ano, o preço por metro quadrado mais elevado foi registado em Junho, com 87.869 patacas. Também em relação ao preço, o mercado está muito afastado da realidade pré-pandemia. Em Agosto de 2019, o metro quadrado era comercializado, em média, por 116.856 patacas, uma diferença negativa de 43,5 por cento.
Hoje Macau Manchete SociedadeAMCM | Taxa de juro de referência sobe pela primeira vez desde 2023 Os reguladores financeiros de Macau e Hong Kong aprovaram ontem a primeira subida da principal taxa de juro de referência desde 2023, seguindo a Reserva Federal norte-americana. A autoridade monetária de Hong Kong alertou para consideráveis incertezas quanto a futuros custos de financiamento A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) aumentou em 0,25 pontos percentuais, para 4,25 por cento a taxa de redesconto, valor cobrado aos bancos por injecções de capital de curta duração, com efeito imediato, de acordo com um comunicado. O regulador financeiro da RAEM seguiu assim o aumento anunciado na quarta-feira pela Fed. A AMCM disse que a subida era inevitável, por a pataca estar indexada ao dólar de Hong Kong, pelo que “a taxa de juros em Macau é consistente com a taxa de juros em Hong Kong”. A decisão da AMCM surgiu menos de meia hora depois de a Autoridade Monetária de Hong Kong (HKMA, na sigla em inglês) ter anunciado a subida da taxa de juro de referência, devido ao aumento imposto pelo banco central dos EUA. O dólar de Hong Kong está indexado ao dólar norte-americano. O director-geral da Autoridade Monetária de Hong Kong, Eddie Yue, ressalvou ontem que existem consideráveis incertezas quanto ao futuro dos custos de financiamento, embora salientando que o rácio de crédito malparado na região vizinha se mantem estável. Vida a crédito Na quarta-feira, a Reserva Federal norte-americana (Fed), o banco central dos Estados Unidos, decidiu, por unanimidade, aumentar as taxas de juro em 25 pontos base, para o intervalo entre 3,75 e 4 por cento, após uma reunião de dois dias. A Fed não aumentava as taxas directoras, que orientam os custos dos empréstimos, desde o Verão de 2023. De acordo com projecções apresentadas pelo presidente da Reserva, Kevin Warsh, será provavelmente necessário proceder a uma nova subida das taxas de juro até ao final do ano para combater a inflação. A subida da taxa de juro surge numa altura em que o crédito malparado tem vindo a cair em Macau, depois de ter atingido um recorde histórico de 57,8 mil milhões de patacas em Junho de 2025. De acordo com dados oficiais da AMCM, os empréstimos vencidos caíram, pelo terceiro mês consecutivo, para 46 mil milhões de patacas, no final de Julho passado. O crédito vencido representava em Julho 4,4 por cento dos empréstimos dos bancos de Macau. Uma percentagem que sobe para 4,7 por cento no caso do crédito a instituições ou indivíduos fora da RAEM. Ainda assim, a percentagem de crédito bancário vencido em Macau está longe do recorde de 25,3 por cento alcançado em meados de 2001, em plena crise económica mundial causada pelo rebentar da bolha especulativa das empresas ligadas à Internet.
João Luz Manchete PolíticaConsumo | Governo retoma incentivos no valor de 468 milhões O grande prémio do consumo está de volta a 9 de Outubro, por 10 semanas. A iniciativa mudou de nome, os cupões podem ser gastos logo no dia em que são obtidos e os estabelecimentos aderentes podem acrescentar descontos ou ofertas. Os cupões de desconto têm um valor total de 468 milhões de patacas A Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) apresentou ontem a nova ronda do grande prémio do consumo, desta feita designado como “Prémios Consecutivos para o Consumo nas Zonas Comunitárias 2026”. A iniciativa irá decorrer durante 10 semanas, entre 9 de Outubro e 17 de Dezembro e irá oferecer cupões com descontos para o consumo com um valor de 468 milhões de patacas, um aumento face aos cerca de 400 milhões de patacas da última ronda, que decorreu entre Abril e Julho. As principais novidades desta ronda prendem-se com o período em que os cupões de desconto podem ser usados. Compras feitas entre sexta-feira e domingo no valor de, pelo menos, 50 patacas permitem aceder ao sorteio com três tentativas para receber cupões. Estes descontos podem ser gastos entre o dia da sua obtenção e a quinta-feira da semana seguinte, em mais de 20 mil lojas físicas de Macau que os aceitem. Em relação ao valor, os cupões continuam a ter valores nominais de 10, 20, 50, 100 e 200 patacas. A outra novidade anunciada ontem prende-se com o papel dos próprios estabelecimentos aderentes que podem, se assim escolherem, oferecer cupões de desconto imediato (12 patacas para gastos acima de 100 patacas), ou cupões de oferta no consumo (por exemplo, uma bebida ou snack grátis numa refeição que custe mais de 100 patacas). A despesa destes descontos é paga pelos comerciantes. Alargar a todos Na conferência de imprensa que apresentou o programa, o director da DSEDT, Yau Yun Wah, revelou a forma como o Governo concluiu pela promoção destes descontos a cargo dos comerciantes. “Fizemos um inquérito e observámos que muitos comerciantes, sobretudo restaurantes, fornecerem voluntariamente promoções semelhantes ao que estamos a propor. Por isso, incluímos essa prática neste programa, para que os comerciantes se promovam na nossa plataforma”, explicou. Apesar de não estarem incluídos no programa de benefícios electrónicos patrocinados pelos cofres públicos, Yau Yun Wah afirmou esperar que os grandes supermercados e resorts também forneçam voluntariamente os cupões de desconto imediato, ou promoções semelhantes. Yau Yun Wah referiu também que, actualmente, cerca de 600 comerciantes participam no programa, principalmente restaurantes e de lojas de venda a retalho. Quanto à fiscalização desta ronda de incentivos ao consumo, o presidente da Associação Comercial de Macau, Ma Chi Ngai (que coorganiza mais uma vez a iniciativa) argumentou que o poder das redes sociais tem um efeito dissuasor face a possíveis comportamentos censuráveis. “Para os comerciantes, a reputação é importante. Como sabemos, os consumidores partilham frequentemente falhas nas redes sociais. Por isso, acredito que os comerciantes serão prudentes”, indicou. Em relação aos benefícios para idosos e os titulares do Cartão de Registo de Avaliação da Deficiência, a ronda que começa no próximo mês segue os mesmos moldes da anterior. Os beneficiários vão continuar a poder usufruir do desconto imediato para consumo no valor de 500 patacas através do cartão Macau Pass, obtendo descontos de 50 por cento em compras em lojas ou restaurantes aderentes.
Hoje Macau Manchete PolíticaEspanha | Secretária reforça ideia de Macau como elo de conexão A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura disse na abertura do Fórum de Think Tanks que Macau deve ser uma ponte de ligação aos países de língua espanhola. A Fundação Cátedra China propôs a criação da “Rede China–Iberofonia” para desafiar o monopólio da língua inglesa Abriu ontem a edição deste ano do Fórum de Think Tanks, tendo a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, defendido a estratégia governamental para que Macau seja uma ponte com o mercado da Península Ibérica. A secretária disse que o 3º Plano Quinquenal de Macau, recentemente apresentado, está alinhado com a estratégia de Pequim para expandir a plataforma de Macau além dos países de língua portuguesa, chegando aos países de língua espanhola. A secretária deixou algumas propostas de como esta aproximação pode ser feita, nomeadamente no reforço da investigação académica em áreas como a governação global, o multilateralismo e a aplicação do princípio “um país, dois sistemas”. O Lam fez ainda um apelo para mais acções de intercâmbio de alunos e investigadores de forma a aproximar os territórios, defendendo que Macau vai continuar a usar as línguas como meio de aproximação a Portugal e Espanha, apoiando as iniciativas de política externa da China. Inovar em rede Entretanto, no mesmo Fórum, a presidente da fundação espanhola Cátedra China propôs a criação da “Rede Internacional China–Iberofonia” para desafiar o monopólio da língua inglesa na governança global. “Vivemos num mundo monolingue e creio que temos de avançar no sentido do pluralismo da Iberofonia”, afirmou à agência Lusa Marta Ana Montoro Carrión. Considerando essencial mudar a visão linguística do mundo “e torná-la muito mais multilateral”, Montoro Carrión notou que o português, o espanhol e o chinês “são línguas muito importantes e devem ser tratadas como tal em todas as novidades relacionadas” com inteligência artificial, nas universidades, nos centros de reflexão e centros de decisão. Na apresentação, Montoro Carrión propôs a criação de “uma Rede internacional China–Iberofonia para o Diálogo entre Civilizações e a Governação Global”. Esta rede, reforçou, “não pretende competir com as diplomacias oficiais, mas sim alimentá-las e multiplicá-las”. A ideia, continuou, passa por impulsionar consórcios académicos “para que o processamento da linguagem natural, as grandes bases de dados e os modelos de inteligência artificial não dependam exclusivamente do inglês”, garantindo que o chinês, o espanhol e o português sejam línguas de primeira linha na produção científica e tecnológica do futuro. A fundação sugere, além disso, que a rede tenha sede em Macau: “Porque até agora esta questão não tem sido abordada como uma questão geopolítica e consideramos que é necessário começar a trabalhar neste sentido”. O Fórum de Think Thanks entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola 2026 está focado na Iniciativa de Governança Global, apresentada em 2025 pelo Presidente chinês, Xi Jinping, para promover o desenvolvimento inclusivo, segurança comum e diálogo entre civilizações. O evento foi acolhido pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST).
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteRicardo Borges, académico e historiador: “‘Landins’ nunca criaram raízes em Macau” O Instituto de Estudos Europeus recebe amanhã uma palestra sobre a história dos “landins”, soldados moçambicanos destacados em Macau durante a administração portuguesa. O historiador Ricardo Borges descreve ao HM como a presença destes soldados no território passou a ser um incómodo para o regime a partir de 1961 Imagens cedidas por Ricardo Borges e publicadas na revista “Nam Van”, em 1986 Que tipo de investigação está a desenvolver sobre os “Landins”? Estou a preparar um doutoramento em História, focado na história militar de Macau, mais concretamente nas décadas de 1950 e 1960. O número de soldados africanos destacados para Macau atingiu o pico durante este período e julgo ser importante entender as circunstâncias ligadas à sua presença, pois as suas vivências e condição social eram diferentes dos soldados que vinham da metrópole. Neste sentido, procuro investigar as origens destes soldados e o seu recrutamento, as caraterísticas do seu modus vivendi dentro e fora dos quartéis, bem como reflectir sobre as ramificações da sua presença dentro e fora de Macau. Quais as principais razões para o envio destes soldados para Macau, e qual a sua origem? Eram sobretudo financeiras, e pela fácil adaptação que tinham para viver num clima de feições tropicais. As praças africanas eram classificadas como praças de 3ª Classe, enquanto que da metrópole eram de 1ª Classe, reflectindo-se em menos despesas de pré (salário), rancho (comida) e fardamento. Esta discriminação viria mais tarde a ser uma das razões para não haver mais soldados africanos em Macau, pois a discriminação institucional não se coadunava com os preceitos de um suposto luso-tropicalismo. A difícil adaptação dos soldados que vinham da metrópole ao clima tropical de Macau levou, já no século XIX, à procura de recrutas vindos de Goa. Todavia, o serviço militar deixou de ter apelo para os residentes de Goa, sendo depois o recrutamento alargado à Índia Britânica, conforme o modelo britânico das “raças guerreiras” com, por exemplo, os sikhs, maratas e muçulmanos Punjabi. No início do século XX, em resposta dos entraves britânicos às tentativas portuguesas de recrutar indianos para o serviço militar, começaram a ser organizados contingentes em Moçambique que, após anos de experiências, demonstraram grandes qualidades de bravura e disciplina. Estas excepcionais qualidades para o serviço militar tornaram-nos indispensáveis para a guarnição e defesa militar de Macau. Os soldados africanos destacados em Macau vieram sempre de Moçambique, à excepção de um período de dois anos, entre 1949 e 1951, quando vieram de Angola e da Guiné-Bissau. Que tipo de trabalho desenvolviam os “Landins”? Ficaram em Macau, criaram raízes no território? Os chamados “Landins” nunca tiveram oportunidade de criar raízes em Macau, sendo-lhes imposto sempre um período de comissão de dois anos. Após o término, tinham de obrigatoriamente regressar à origem para serem rendidos por outros soldados de África. Além do mais, um dos alicerces para a preferência pelo destacamento de soldados africanos estava precisamente na distância que estes tinham em relação à comunidade chinesa, pois a própria comunidade local tinha preconceitos sobre estes e discriminava-os. Deste modo, estes soldados estavam totalmente focados nas suas funções nos quartéis, garantindo uma maior dificuldade em cair em hábitos viciosos e, em situações mais difíceis, cumprindo ordens superiores com maior frieza. Porquê o uso da designação “Landim”? Pelas ligações a Moçambique, ou havia outra razão? O autor Walter Rodney sugere que os “Landins” eram uma classe social distinta no sul de Moçambique no século XIX, mas a designação “Landim” não aparenta ser um termo específico para identificar uma etnia ou povo em específico. Foi um termo que prevaleceu na consciência e no discurso público em Macau para se referir ao conjunto de soldados africanos destacados para cá. Na realidade, os soldados provinham de diversas áreas de Moçambique e de diferentes etnias. Com a descolonização, como ficou a situação dos “Landins” em Macau? Com o início das acções dos movimentos de independência em Angola e Guiné, a permanência de soldados africanos foi considerada problemática, pois receava-se que tivessem sido influenciados por esses acontecimentos e que a segurança da chamada província ultramarina de Moçambique estivesse em risco. Isto porque o Comando Militar em Macau, através dos seus serviços internos de informações, ficou a saber que algumas das praças africanas tinham sido submetidas a determinado grau de doutrinação ideológica por frequentarem escolas comunistas e estarem com elementos chineses que, falando bem português, exploravam junto das praças os temas de discriminação e desigualdade de tratamento entre europeus e africanos. Ora, enviar de regresso a Moçambique homens com preparação militar, com doutrinação política e espírito anti-português foi considerado um risco demasiado elevado, determinando o fim da presença de soldados africanos em Macau. Essa doutrinação tinha ocorrido nas escolas de Macau? Sim. Algumas praças africanas frequentavam escolas comunistas em Macau nos períodos de licença, ou dias de folga. Para atrair as praças, junto dos quartéis actuava um grupo chefiado por um dirigente comunista que se fazia rodear de raparigas chinesas jovens, explorando os temas mencionados e selecionavam as praças mais receptivas à mensagem. Os objectivos destes esforços de doutrinação política não eram imediatos, pois o que procuravam era lançar sementes de revolta dentro da província de Moçambique aquando o regresso destes soldados a casa. As discriminações relativamente a estes soldados partiam mais da comunidade portuguesa ou chinesa? Ambas as comunidades tinham preconceitos contra africanos. Havia discriminação institucional dentro do Comando Militar, mas a realidade era um pouco mais complexa, porque dentro dos quartéis não eram permitidos comportamentos discriminatórios por parte das praças europeias e vários comandantes. Na década de 50 alertavam para a necessidade uniformizar os regulamentos e abandonar as diferenças verificadas entre praças de 1ª Classe (europeus e macaenses) e praças de 3ª Classe (africanos). Com a comunidade chinesa não havia grande proximidade, pois os soldados africanos estavam limitados a comissões de dois anos, o que os dissuadia de estabelecer ligações mais fortes com a comunidade local. Os próprios chineses tinham respeito pelos “Landins”, mas a discriminação e xenofobia eram, infelizmente, comuns nessa época. Quais as principais acções militares em que participaram estes soldados? Foram várias, a começar pelos incidentes de “Chip Seng” de 1922, passando pela repressão de piquetes grevistas que em 1925 e 1926 disparavam contra as fortificações construídas nas Portas do Cerco, até aos graves incidentes de Julho de 1952, quando várias praças africanas foram gravemente feridas. Uma delas, o soldado Jacinto Mundau, veio a falecer no hospital militar de São Januário. O último contingente de soldados africanos partiu de Macau a 29 de Setembro de 1962, portanto anos antes dos acontecimentos do “1, 2, 3”.
Sérgio Fonseca Desporto MancheteKarting | Coloane voltou a atribuir títulos mundiais da FIA Dez anos depois, Macau, e mais precisamente o Kartódromo de Coloane, voltou a ser palco da atribuição de títulos de campeões de automobilismo da Federação Internacional do Automóvel (FIA), desta vez no recém-nascido Campeonato FIA Karting Arrive and Drive Ásia-Pacífico, nas categorias Júnior e Sénior Este ano, a FIA lançou novos campeonatos em três continentes, Europa, América do Sul e Ásia-Pacifico, utilizando o formato “Arrive and Drive” com o objectivo de tornar o karting mais acessível e aumentar a participação na modalidade. O conceito, promovido pela FIA, pretende proporcionar uma competição acessível, inclusiva e a preços justos, valorizando a habilidade e o talento individuais em pista. Todos os pilotos utilizam karts idênticos, sendo apenas necessário trazer o equipamento pessoal e um mecânico. Devido às condições meteorológicas registadas em Macau na manhã de domingo, toda a actividade em pista foi suspensa antes da realização das restantes mangas destinadas aos pilotos das categorias Júnior e Sénior. O programa foi, por isso, reformulado, permitindo apenas a realização das finais das duas categorias. Numa prova que contou com 44 pilotos, provenientes de 16 países e territórios, as grelhas de partida foram determinadas pelos resultados da única manga disputada na tarde de sábado. Na categoria Sénior, a final foi marcada por uma intensa luta a quatro pela vitória ao longo da corrida. Numa última volta emocionante, a australiana Amelia Phillips cruzou a linha de meta em primeiro lugar, mas uma penalização por posicionamento incorreto do deflector frontal promoveu a dinamarquesa Signe Pejs Ørnbøll à vitória na corrida e no campeonato. Amelia Phillips terminou no terceiro lugar do pódio, enquanto Conrad Garrow, de Singapura, foi segundo. Na categoria Júnior, John Han protagonizou uma forte prestação ao longo de um fim de semana em que foi intensamente desafiado pelo australiano Knox Black, numa corrida emocionante e marcada por várias trocas de liderança. Na última volta, o jovem talento de Hong Kong garantiu a vitória e o título com uma ultrapassagem decisiva, sagrando-se campeão Júnior do FIA Karting Arrive and Drive Ásia-Pacífico de 2026. Liu Bowen, do Interior da China, terminou na terceira posição. Três apurados para a Taça do Mundo Na categoria Sénior, destinada a pilotos dos 14 aos 19 anos, dois pilotos da RAEM terminaram entre os 17 primeiros e garantiram, assim, a qualificação para a Taça do Mundo Karting Arrive and Drive da FIA, que terá lugar na Malásia no final do ano. Com uma vasta experiência em provas no Kartódromo de Coloane, Vernice Lao Si Lun foi oitava classificada. Depois de se ter qualificado no terceiro lugar no sábado e de ter chegado a rodar na segunda posição, a final não correu de feição à jovem de 16 anos, que perdeu posições ao longo das 21 voltas de corrida. Depois de ter rodado entre os dez primeiros, o macaense Henrique Quintela Borges terminou a final no 16º lugar, após receber uma penalização de cinco segundos por instalação ou posicionamento incorreto do defletor frontal do seu chassis Kosmic Mercury, equipado com motores Vortex SV de dois tempos. Ainda na categoria Sénior, Lou Chi Leong terminou no 18.º lugar, enquanto Chong Ian Ip, embora inicialmente inscrito, não chegou a alinhar numa grelha de partida que contou com 23 jovens pilotos. Na categoria Júnior, destinada a pilotos dos 12 aos 14 anos, Macau esteve representado por Kin Long Lou, que terminou no 15.º lugar, e Hau Yin Tsui, que abandonou à segunda volta. A Taça do Mundo Karting Arrive and Drive da FIA decorrerá de 19 a 22 de Novembro de 2026, no Circuito Internacional LYL, na Malásia.
João Santos Filipe Manchete SociedadeJogo | CLSA revê estimativas de crescimento em baixa A CLSA estima que as receitas do jogo se expandam 2,4 por cento no próximo ano e 4,3 por cento em 2028. Em relação aos lucros das concessionárias, a corretora alerta para uma redução, devido ao aumento dos custos operacionais A corretora CLSA confessa ter adoptado uma visão “mais cautelosa” sobre o mercado do jogo e cortou as previsões de crescimento para 2027 e 2028. A informação foi divulgada através do mais recente relatório sobre a principal indústria de Macau, citado na terça-feira pelo portal GGRAsia. Segundo as novas previsões, a estimativa do crescimento de 2027 situa-se em 2,4 por cento, num total de 259,2 mil milhões de patacas. Este valor significa um corte de 4 por cento, face à estimativa anterior, que era de 269,1 mil milhões de patacas. Em relação a 2028, o relatório assinado pelo analista Jeffrey Kiang apresenta receitas de 270,4 mil milhões de patacas, o que significaria um crescimento de 4,3 por cento em comparação com 2027. Todavia, face aos números anteriores, este valor representa uma redução de 3 por cento, dado que a previsão anterior era de 280,1 mil milhões de patacas. A média diária das receitas brutas seria assim de 710 milhões de patacas em 2027 e de 739 milhões de patacas em 2028. Apesar do ambiente mais conservador, em relação ao ano em curso, a previsão fica “praticamente inalterada”, com a CLSA a indicar que as receitas deverão atingir 253,2 mil milhões de patacas. Jeffrey Kiang reconhece que após o Mundial de Futebol, que afastou os jogadores do território, houve uma “recuperação notável” que se reflecte tanto ao nível das receitas como do número de visitantes. No entanto, a realidade não permite grandes recuperações: “não achamos que o cenário macroeconómico seja favorável o suficiente para impulsionar um crescimento incremental a partir do ritmo de receita actual”, justificou. Menos propício Como parte do ambiente menos favorável às receitas dos casinos de Macau, a corretora aponta os números mais recentes do índice de lucros industriais do Interior, mercado de onde vem a maioria dos jogadores. Jeffrey Kiang defende que o índice de lucros industriais do Interior e as receitas brutas do jogo em Macau têm uma correlação positiva, ou seja, quando os lucros industriais aumentam as receitas do jogo crescem, e quando os lucros industriais caem as receitas também sofrem uma diminuição. “Assumindo que essa correlação se mantenha, os ventos contrários macroeconómicos permanecem para Macau, uma vez que o referido diferencial tem sido negativo desde Fevereiro”, foi indicado. A CLSA espera ainda que a margem de EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) se mantenha sob pressão em 2027, devido ao crescimento rápido das despesas operacionais das concessionárias. O aumento das despesas deverá ultrapassar o crescimento das receitas e ser impulsionado por aumentos salariais. “Na nossa perspectiva, a pressão sobre as despesas operacionais não se dissipa facilmente, uma vez que tem havido uma pressão ascendente sobre os custos com pessoal”, explicou a CLSA. “Houve um aumento salarial consistente para funcionários não gestores de pelo menos 2,5 por cento a cada ano, anunciado em 2024, 2025 e 2026. Estes ajustes salariais são altamente semelhantes em toda a linha”, foi vincado.
Nunu Wu Manchete SociedadeMacau Pass | Pai de vítima de falha exige pedido de desculpas O progenitor da criança quer que a Macau Pass venha a público explicar as falhas de segurança. Além disso, argumenta que as dúvidas sobre a segurança da plataforma Mpay são demasiado sérias para serem levadas de ânimo leve O pai da alegada vítima de uma falha de segurança da MPay, que resultou na perda de 2 mil patacas, quer que a Macau Pass venha a público assumir os erros. A posição foi tomada através de uma publicação nas redes sociais, com o progenitor do lesado a pedir à empresa do grupo Alibaba medidas necessárias para garantir a confiança dos clientes. A polémica que envolve a plataforma MPay surgiu nas redes sociais, quando um internauta denunciou que a titularidade da carteira electrónica do seu filho de 10 anos tinha sido transferida para outra pessoa. Segundo a mesma queixa, o facto de o número de telemóvel do filho ter sido reciclado, ou seja, ter pertencido anteriormente a outra pessoa, foi suficiente para convencer a Macau Pass a entregar-lhe a conta associada a esse número, sem verificações de segurança. Como resultado, o filho, que actualmente está na posse do número de telemóvel associado à conta, ficou sem acesso à sua carteira digital e às 2 mil patacas que tinha guardadas. Agora, numa nova publicação, o pai do lesado insiste que a empresa ligada à Alibaba tem de assumir os erros e falhas para justificar merecer a confiança dos residentes. “Como uma das plataformas de pagamentos com maior taxa de utilização em Macau, os residentes depositam capital na MPay por terem confiança [na empresa]. A MPay tem a obrigação de garantir a segurança de cada cêntimo”, afirmou. O autor também considerou que a falha não pode ser tratada de “ânimo leve” porque resultou de erro humano, em conjunto com falhas sistémicas. Quando fez a denúncia do caso pela primeira vez, o progenitor do lesado revelou que o antigo proprietário do número conseguiu ficar com a carteira do filho, sem nunca ter de confirmar através de um código SMS que estava na posse do número de telefone associado à conta da MPay. A transferência terá resultado de uma conversa com o serviço ao cliente. Maior segurança Ao longo da publicação foram ainda expostas outras falhas de segurança, como a ausência de um mecanismo de alerta interno: “Quando registamos uma conta na plataforma MPay, o sistema não nos alerta que o número de telefone já tinha sido registado anteriormente. Isto significa que o sistema do back-office não tem um mecanismo para associar e remover os números de telefone aos bilhetes de identidade, o que faz com que possa haver confusão nos registos da empresa sobre a identidade do real proprietário das carteiras electrónicas”, indicou. O progenitor também alertou para os riscos de os proprietários de números reciclados poderem ficar sem carteiras electrónicas, dado que é possível recuperar carteiras digitais associadas a números, sem a verificação de segurança por código enviado por SMS. No texto mais recente, o autor vincou ainda que não está disponível para negociar com a empresa uma compensação de forma privada, e que o assunto exige vários esclarecimentos públicos, assim como um pedido de desculpas. Anteriormente, na primeira reacção a este caso, a Macau Pass, citada pelo canal chinês da Rádio Macau, prometeu total cooperação com a investigação em curso das autoridades e defendeu que “os seus mecanismos de segurança estão a funcionar normalmente, não tendo sido detectada qualquer anomalia ao nível da segurança do sistema”.
Hoje Macau Manchete SociedadeIPOR | Mais de dez universidades suspendem português na China Mais de dez universidades no Interior da China suspenderam estudos de língua portuguesa nos últimos três anos, após um pico de cerca de 60 instituições com oferta curricular, indicou o Instituto Português do Oriente “Existem 39 universidades da China com cursos de português, a que somamos mais cinco de Macau, ou seja, 44 no total”, referiu à Lusa a direcção do Instituto Português do Oriente (IPOR). O pico da oferta formativa, continuou o IPOR, “foi no ano lectivo 2022/2023, com cerca de 55 a 60 universidades a proporcionarem estudos em português”. “Não conseguimos ter dados exactos”, reforçou o instituto, que tem como missão preservar e difundir a língua e a cultura portuguesas no Oriente. A Universidade de Sun Yat-sen, em Guangzhou, foi um dos estabelecimentos visados, notou à Lusa o académico da Universidade Politécnica de Macau (UPM) Manuel Duarte João Pires, que leccionou anteriormente naquela instituição do Interior da China. “Tinha um programa de ‘minor’, que era um programa de 2+2, ou seja, de dupla certificação, e agora não tem”, reflectiu o académico, também autor do estudo “Vinte anos de ensino de Português na China: exponencial, saturado e o futuro”, publicado em Agosto. Na investigação, Pires traça o percurso do ensino da língua portuguesa na China, com o primeiro curso de licenciatura a ser estabelecido no Instituto de Radiodifusão de Pequim (hoje Universidade de Comunicação da China), “focado em formar profissionais para atender à demanda de relações diplomáticas com países de língua portuguesa, especialmente aqueles de África que então lutavam pela independência”. Depois de uma suspensão e “envio de muitos professores e alunos para trabalhos rurais” durante a Revolução Cultural (1966-1976), houve “um renascimento do ensino de línguas estrangeiras”. Nas últimas duas décadas, o ensino da língua portuguesa passou de uma presença residual para uma expansão acelerada. Até 2005, aponta o autor, apenas três universidades ofereciam licenciaturas em português, mas a “globalização e modernização da China” e a intensificação das relações económicas com países de língua portuguesa, sobretudo Brasil e Angola, transformou o idioma numa ferramenta de empregabilidade. Dezenas de instituições abriram cursos, num crescimento descrito como exponencial: de acordo com fontes consultadas pelo autor, no ano lectivo 2012/2013 eram 19 universidades; em 2017 chegavam a 37 e em 2022 contabilizavam-se 56, com mais de seis mil alunos e mais de 300 professores. Momento disruptivo Nos últimos anos, porém, esse crescimento entrou em fase de estagnação, com a suspensão de cursos e universidades a redimensionarem a oferta. “Depois veio a pandemia, agora a questão da inteligência artificial [IA], também os cursos de STEM [sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática], muito procurados pelas famílias, pelo meio académico”, indica Pires. A articulação com a sociedade civil, particularmente com empresas e instituições que operam no espaço de língua portuguesa, é essencial para a revitalização do português na China, defende. “Vejo isso muito parado, não sei se por questões políticas, mas a sociedade civil entrar na universidade é algo muito difícil”, refere à Lusa. Estágios profissionais integrados nos planos de estudo, projectos desenvolvidos em colaboração com empresas e a participação regular de profissionais activos nas universidades podem ajudar a reduzir o fosso entre a formação académica e as exigências do mundo profissional, propõe-se na investigação. O autor sugere ainda a “diversificação dos enfoques de ensino a favor de abordagens especializadas adaptadas às necessidades específicas de diferentes sectores profissionais”. No contexto chinês, completa, esta adaptação pode assumir “formas concretas como a criação de programas interdisciplinares onde o português fosse ensinado como ferramenta de trabalho”, em áreas como engenharia civil, para projectos em Angola ou Moçambique, saúde pública, para cooperação com o Brasil, ou comércio electrónico, para plataformas digitais como a Ali Express nos mercados de língua portuguesa. À Lusa, o investigador salienta que este processo de estagnação, face ao crescimento da IA, não é exclusivo do português, mas alcança o ensino de línguas em geral. “Desde o início que se associa à língua ao seu poder económico. Ou seja, isso é indissociável”, ressalva, sublinhando que “a médio prazo” o lugar do português vai depender sempre das relações económicas e políticas com os países da esfera da lusofonia. “Já chegou também a um patamar de 56 universidades, não haverá muito mais para crescer a nível de ensino superior”, complementa, notando que “o crescimento exponencial não é sempre infinito” e este talvez seja um “processo natural”. Pires admite que a situação é diferente em Macau, onde o português é uma das línguas oficiais”: “É mais difícil as coisas mudarem como muda no Interior da China, onde há uma perspectiva mais pragmática, mais económica em relação aos cursos”.
João Luz Manchete PolíticaAdministração | Deland Leong à frente dos institutos Cultural e do Desporto A presidente do Instituto Cultural foi nomeada para liderar, cumulativamente, o Instituto do Desporto. Em relação à fusão dos dois institutos e do Fundo de Desenvolvimento da Cultura numa só entidade, Deland Leong Wai Man revela que deve estar concluída até ao fim do ano A presidente do Instituto Cultural (IC), Deland Leong Wai Man, foi designada para exercer interinamente as funções de presidente do Instituto do Desporto (ID), segundo um despacho assinado pelo Chefe do Executivo publicado ontem no Boletim Oficial. A responsável vai estar à frente do ID a partir do próximo domingo, até 31 de Outubro, sem que haja, para já, indicação de quem assumirá a presidência da entidade a partir de Novembro. Recorde-se que a presidência do ID tem sofrido várias reformulações nos últimos anos. Depois de ter sido dirigido por Pun Weng Kun durante oito anos e meio, até Agosto de 2024, Luís Gomes assumiu a presidência do organismo público que gere o desporto em Macau até há quase exactamente um ano atrás, quando foi nomeado vice-presidente do Fundo de Segurança Social. A dança das cadeiras prosseguiu, com Lei Si Leng a assumir o cargo de presidente interina do ID em Fevereiro deste ano. A nomeação de Deland Leong para exercer as funções de presidente do ID marca a quarta liderança do organismo em pouco mais de dois anos e, face à nomeação que se estende até ao fim do próximo mês, pode estar para breve a escolha de uma nova presidência. Ponto de fusão O despacho assinado por Sam Hou Fai referiu também que Deland Leong será remunerada pela quantia mensal equivalente ao valor do índice 80 da tabela indiciária da função pública, um encargo suportado pelo orçamento do ID. Em Novembro do ano passado, durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2026, Sam Hou Fai indicou que, até ao quarto trimestre deste ano, o Instituto Cultural, Fundo de Desenvolvimento da Cultura e Instituto do Desporto seriam fundidos num só organismo. Deland Leong Wai Man participou ontem no programa Fórum Macau, do canal chinês da Rádio Macau onde confirmou que a fusão dos organismos está para breve, entre Outubro e Novembro. A responsável acrescentou que medida irá facilitar os procedimentos em ambas as áreas e que tal não irá prejudicar a organização do Grande Prémio de Macau.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteHong Kong | Plano Quinquenal anuncia mais habitação e emprego Hong Kong anunciou ontem o primeiro Plano Quinquenal e as linhas de acção governativa do território que promete mais habitação, emprego e o desenvolvimento da zona de “Northern Metropolis”. Espera-se “um novo horizonte” para a RAEHK, com a aposta “na reforma e inovação” e o compromisso com políticas que assegurem a qualidade de vida O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, apresentou ontem o primeiro Plano Quinquenal da região vizinha. Depois de um período de consulta pública, foi divulgado o documento que se foca no emprego e habitação, mas não esquece matérias como a garantia da qualidade de vida, a implementação do princípio “um país, dois sistemas” ou ainda o reforço de medidas securitárias. Segundo a agência Reuters, John Lee prometeu a construção de 196 mil casas públicas em cinco anos, que deverá dar tecto a 2,5 milhões de pessoas. O Governo garantiu também que irá incentivar, em matéria de habitação, a “mobilidade ascendente”, com o objectivo de “melhorar a escada habitacional para promover a aquisição de casa própria entre os jovens”, disse o governante. Pretende-se, neste contexto, fomentar o desenvolvimento da área de Northern Metropolis, com cerca de 30 mil hectares e que fica muito perto do território chinês. A ideia é que a zona venha a “reforçar as ligações tecnológicas e económicas com o continente, com o objectivo de criar empregos e habitação”, descreveu a Reuters. Sobre o projecto, John Lee declarou que irá “reforçar ainda mais a competitividade global e o dinamismo de Hong Kong para um desenvolvimento sustentável”. Nos próximos dez anos, a oferta de habitação será dividida nas seguintes proporções: 40 por cento das casas públicas para arrendamento, 30 por cento de habitação subsidiada e outros 30 por cento de habitação destinada ao mercado privado. O documento traça objectivos para os anos de 2026 a 2030, visando “abrir novos horizontes e iniciar um novo capítulo” para o território, lê-se no website oficial do Plano Quinquenal. A Autoridade de Renovação Urbana planeia gastar cerca de 40 mil milhões de dólares de Hong Kong nos próximos cinco anos “em iniciativas de renovação urbana”, lê-se no Plano. “Tendo em conta o ano de início do 15º Plano Quinquenal [da China], este inaugural Plano Quinquenal da RAEHK está formulado para, de forma pró-activa, se alinhar com as estratégias nacionais de desenvolvimento e uma melhor integração” no país, pode ler-se. Há sete princípios definidos: “adesão ao princípio ‘um país, dois sistemas'”; “manter o compromisso” com a garantia de qualidade de vida no território; a liderança do poder Executivo, a aposta “na reforma e inovação”; a intenção de uma “dupla abordagem” nas ideias de um “mercado eficiente” e um “Governo capaz”. Pretende-se ainda, dentro destes princípios, “adoptar uma aproximação holística nas áreas do desenvolvimento e segurança”; além de se adoptar “um planeamento pragmático e pró-activo”. Finanças são o caminho John Lee assegurou que Hong Kong irá, com o Plano Quinquenal, “reforçar o seu papel enquanto centro global de negócios offshore em renminbis, como centro internacional de gestão de activos e património, e também como centro internacional de gestão de riscos”. Pretende-se o desenvolvimento de “um ecossistema de comércio de matérias-primas, alinhando-se os serviços financeiros com as necessidades da economia real”, declarou o governante. Segundo a Reuters, o Chefe do Executivo da região vizinha anunciou, para o primeiro trimestre do próximo ano, a criação do primeiro sistema central de compensação e liquidação de ouro da cidade. Além disso, a Autoridade Monetária de Hong Kong planeia implementar, até ao final deste ano, a liquidação através de moeda digital do banco central, acrescentou John Lee. Tendo em conta a importância do território para a transacção de mercadorias, o Plano Quinquenal contém a medida de transformar Hong Kong num “superconector” entre regiões, sobretudo com a Grande Baía. “Vamos acelerar o alinhamento com as principais estratégias nacionais no domínio da tecnologia”, disse o Chefe do Executivo. As grandes áreas de cooperação passam pela melhoria da qualidade de vida, cuidados de saúde, inteligência artificial, robótica e microelectrónica, entre outras. No contexto da Grande Baía e integração regional, o que se pretende é a “‘conectividade dos corações’ entre os residentes de Guangdong, Hong Kong e Macau”, através do “reforço da cooperação das instituições do ensino superior de Hong Kong” com as restantes regiões, a fim de “cultivar a junção de talento e cooperações entre Guangdong e Hong Kong”. Pretende-se, a este nível, “abrir horizontes para que os mais jovens possam desenvolver as suas carreiras” na Grande Baía, que inclui as duas regiões administrativas especiais e mais nove cidades da província chinesa. Criar uma nova marca Se Macau está a criar a sua Cidade Universitária em Hengqin, também Hong Kong tem planos para desenvolvimento a área do ensino superior. O Plano Quinquenal apresenta projectos para três áreas destinadas à instalação de campus universitários, criando a marca “Study in Hong Kong” [Estudar em Hong Kong] para atrair estudantes de todo o mundo, incluindo “talentos não locais”. John Lee indicou também que a ideia é “desenvolver um centro internacional de inovação e tecnologia (IT)”, criando-se um modelo “assente em três grandes parques de IT e cinco instituições-chave na investigação e desenvolvimento”. Em causa está o Parque de Hong Kong da Zona de Cooperação de Inovação Científica e Tecnológica Hetao Shenzhen-Hong Kong e o San Tin Technopole; o Science Park e o Cyberport. Por sua vez, estabelece-se a ligação com cinco instituições – Hong Kong Productivity Council, o Hong Kong Applied Science and Technology Research Institute, o Hong Kong Microelectronics Research and Development Institute, o Hong Kong Artificial Intelligence Research and Development Institute e o Life and Health Technology Research Institute. A ideia é “reforçar o sistema público de investigação e a eficácia do quadro de inovação e tecnologia”. De frisar que, com estes planos de mudanças a nível político e económico, as autoridades da RAEHK pretendem criar 650 mil empregos. John Lee referiu que um dos grandes objectivos do plano, e também do Executivo, é “melhorar o bem-estar da população”, definindo-se medidas nas áreas da “educação, desenvolvimento dos jovens e mulheres” e ainda o “reforço do apoio aos grupos desfavorecidos”. Na área da saúde, por exemplo, planeia-se “avançar com o desenvolvimento de infra-estruturas de cuidados de saúde”, no âmbito do Primeiro Plano de Desenvolvimento Hospitalar [First Hospital Development Plan]. Este tem por objectivo aumentar o número de camas nos hospitais públicos para 35 mil em 2031. Hong Kong também se depara com uma baixa taxa de natalidade e, a pensar nessa problemática, a linha de acção governativa inclui a extensão, por mais três anos, do incentivo de 20 mil dólares de Hong Kong para quem tenha o primeiro filho. Caso haja mais filhos, esse valor aumenta para 30 mil dólares de Hong Kong, sendo também concedidos subsídios para crianças, deduções fiscais e criados centros adicionais de cuidados infantis. Na área do ensino não superior, Hong Kong quer apostar “na integração progressiva da inteligência artificial (IA) na aprendizagem, ensino e avaliação”. Pretende-se, assim, “promover a educação digital para o reforço da aprendizagem dos alunos na matemática, ciências e tecnologia”, além de se criar “mais espaço” para a inovação.
Hoje Macau China / Ásia MancheteIA | Fórum chinês defende controlo mas rejeita lógica de blocos entre China e EUA Governação das tecnologias emergentes, estabilidade estratégica e competição entre grandes potências, são temas em debate a partir de hoje em Pequim na 13.ª edição do Fórum Xiangshan, principal encontro de diplomacia militar organizado pela China Especialistas reunidos ontem em Pequim defenderam o reforço da supervisão humana, dos mecanismos de segurança e da cooperação internacional perante os riscos da inteligência artificial, rejeitando que outros países tenham de escolher entre China e Estados Unidos nesta tecnologia. O debate decorreu no âmbito da 13.ª edição do Fórum Xiangshan, principal encontro de diplomacia militar organizado pela China, que será formalmente inaugurado hoje. A agenda deste ano inclui entre os principais temas a governação das tecnologias emergentes, a estabilidade estratégica e a competição entre grandes potências. O antigo secretário-geral da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) Vladimir Norov afirmou que os riscos associados à IA são “sérios” e defendeu que os governos reforcem a capacidade de supervisão, em conjunto com empresas tecnológicas e centros de estudos. Norov alertou que a tecnologia está a avançar mais rapidamente do que a capacidade das instituições para a regular, defendendo a criação de mecanismos de partilha de informação sobre riscos e incidentes graves relacionados com a IA. O também antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Uzbequistão e presidente da Associação de Inteligência Artificial da Ásia Central afirmou que os sistemas de IA estão a evoluir rapidamente e que “nenhum país consegue geri-los sozinho”. O general reformado dos Emirados Árabes Unidos Obaid Al Ketbi, antigo alto responsável do ministério dos Negócios Estrangeiros do país, afirmou que o avanço dos agentes de IA, capazes de planear, coordenar e executar tarefas complexas, obriga a colocar o controlo humano no centro das prioridades. “Se deixarmos as coisas nas mãos da IA sem controlo humano, será realmente duro e difícil”, afirmou Al Ketbi, que defendeu uma regulamentação proporcional aos riscos. Outra lógica Os dois participantes rejeitaram também uma lógica de blocos entre Pequim e Washington. Norov afirmou que os países da Ásia Central não querem ser “consumidores passivos” de IA nem ser obrigados a escolher entre China e Estados Unidos, mas procuram uma “parceria, não dependência” e transferência de tecnologia. Al Ketbi defendeu uma posição semelhante para o Médio Oriente, afirmando que a região deve poder cooperar com ambas as potências e, simultaneamente, desenvolver capacidades próprias. O debate ocorre depois de responsáveis do sector tecnológico norte-americano terem defendido um abrandamento do desenvolvimento dos modelos de IA mais avançados devido aos riscos de segurança, posição rejeitada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que considera que uma maior regulamentação poderá beneficiar a China. Pequim tem defendido nos últimos dias uma IA “orientada para o bem”, ao mesmo tempo que acusa Washington de utilizar argumentos relacionados com a segurança para limitar o desenvolvimento tecnológico chinês.
Nunu Wu Manchete SociedadeBolo Lunar | Andy Wu prevê mais de 110 mil visitantes diários O presidente da Associação de Indústria Turística prevê que no fim-de-semana prolongado do Festival do Bolo Lunar, Macau receba diariamente entre 110 e 120 mil visitantes. Andy Wu estima também uma ocupação de taxa hoteleira entre 80 e 90 por cento Com o fim-de-semana prolongado pelo feriado do Festival do Bolo Lunar no horizonte, entre 25 e 27 de Setembro para os turistas do Interior da China, o presidente da Associação de Indústria Turística estima que Macau volte a receber uma enchente de turistas. Andy Wu espera que durante os três dias entrem em Macau uma média diária entre 110 mil e 120 mil visitantes. Em declarações ao jornal Ou Mun, o empresário de agência de turismo lembrou que o território já recebe diariamente cerca de 100 mil turistas, não sendo, portanto, de estranhar que essa fasquia aumente, em particular no sábado, 26, com a possibilidade de o volume ultrapassar as 120 mil pessoas. Em relação à taxa de ocupação hoteleira durante o Festival do Bolo Lunar, Andy Wu estima uma boa temporada para o sector, com taxas a variar entre 80 e 90 por cento. Apesar de esperar o aumento de volume de turistas, o responsável salientou que este ano não foram lançadas promoções especiais para assinalar o feriado em conjugação com eventos organizados em Macau. Como tal, o Concurso Internacional de Fogo de Artifício de Macau acaba por ser o principal destaque turístico durante o feriado, facto que não se materializou, para já, em promoções temáticas oferecidas por hotéis. Porém, como ainda falta uma semana e meia até o Festival do Bolo Lunar, Andy Wu espera que os hotéis da ZAPE tirem partido da localização geográfica para lançar promoções de quartos que permitam assistir ao fogo de artifício. O evento, argumenta, poderá desviar uma parte do fluxo de turistas que normalmente é canalizado para o Cotai, beneficiando os negócios na península. Bons vizinhos Uma questão que se tem colocado cada vez mais sobre a capacidade de atracção turística do Concurso Internacional de Fogo de Artifício de Macau é o facto de o evento poder ser visto a partir de Hengqin. A possibilidade de a Ilha da Montanha desviar turistas que normalmente viriam a Macau durante o Festival do Bolo Lunar não preocupa Andy Wu, uma vez que a competitividade de Macau não se esgota no fogo de artifício, ou outros eventos, face aos recursos turísticos abrangentes e encantos exclusivos da cidade. Além disso, Andy Wu considera que entre Macau e Hengqin, não existe uma relação competitiva de tentativa de desviar turistas, mas uma ligação de complementaridade com vantagens para ambos os territórios no âmbito do turismo cultural na Grande Baía.
João Santos Filipe Manchete SociedadeBairros Históricos | Loi I Weng diz que programa está a falhar às PME A deputada das Mulheres pede ao Executivo que repense a estratégia de promover eventos culturais nos bairros históricos. A legisladora sugere uma nova estratégia para “reter” os turistas por mais tempo naqueles locais A deputada Loi I Weng pede ao Governo que apresente novas medidas para ajudar a promover os negócios nos bairros históricos. O pedido faz parte de uma interpelação escrita, em que a legisladora das Mulheres aponta as falhas do modelo económico baseado na promoção de eventos culturais nestes bairros. Segundo a opção do Executivo, as concessionárias ficam obrigadas a promover eventos em determinadas zonas históricas, como a Barra ou a Rua da Felicidade. A esperança é que estes eventos levem mais pessoas àqueles locais e incentivem o consumo nas pequenas e médias empresas. No entanto, Loi I Weng aponta que apesar dos investimentos nos bairros o dinheiro não está a chegar às empresas com menor dimensão: “analisando o funcionamento actual das zonas históricas, verifica-se que os avultados recursos afectados ainda não foram eficazmente convertidos em benefícios reais para a economia comunitária, subsistindo várias contradições estruturais profundas que urge resolver”, justifica a deputada. Sobre os problemas, Loi considera que a coordenação entre o discurso político e a implementação “não é suficientemente eficaz”, com a prática a não corresponder ao pretendido. Fornecedores fixos Além disso, Loi I Weng explica que as concessionárias recorrem quase sempre aos seus fornecedores de há vários anos na organização dos eventos, pelo que o número de empresas beneficiadas por estas iniciativas acaba por ser limitado. Em relação a este aspecto, a deputada quer saber se a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico e a Direcção dos Serviços de Turismo vão criar “mecanismos” para obrigar “as entidades operadoras dos bairros históricos a publicar periodicamente listas de aquisição e de recrutamento” de serviços. O objectivo passa por criar mais oportunidades para outras empresas serem beneficiadas com os eventos. Por último, a legisladora explica que os turistas visitam as iniciativas, mas muitas vezes nem consomem nos locais: “a atracção de visitantes mantém-se ao nível superficial, faltando um mecanismo de longo prazo que conduza os visitantes às ruas e vielas interiores”, aponta. “As actividades nas zonas históricas concentram-se sobretudo nas praças principais ou em troços específicos, onde os turistas fazem uma visita rápida e partem, sem se deslocarem às ruas e vielas das zonas antigas envolventes para consumir. Muitos comerciantes das lojas antigas referem não ter beneficiado do fluxo de pessoas gerado pelo programa”, acrescentou. Neste capítulo, a deputada defende que a aprovação dos projectos financiados com capitais públicos deve ser mais criteriosa, com a atribuição de prioridade a propostas que façam com que os turistas caminhem pelas zonas envolventes dos bairros históricos.
João Luz Manchete PolíticaCTT | Hutchison renuncia à licença de serviços de telecomunicações O Governo recebeu um pedido da Hutchison, que até ao início do ano operava a rede de telemóveis 3 Macau, de renúncia à licença dos serviços de telecomunicações móveis 4G, com vista à cessação dos serviços de comunicações móveis a partir de 1 de Dezembro Agora é oficial. Depois da venda da operadora de telecomunicações “3” à Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM), em Janeiro deste ano, a Hutchison – Telefone (Macau) pediu ao Governo da RAEM a renúncia à sua licença dos serviços de telecomunicações móveis 4G e pretende cessar os serviços de comunicações móveis em Macau a partir de 1 de Dezembro deste ano. A notícia do pedido foi revelada ontem pela Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT), que apontou a situação operacional da Hutchison como justificação para a decisão. “Trata-se de uma decisão comercial tomada autonomamente pela empresa”, sublinharam os CTT. Os CTT acrescentaram que, para salvaguardar os direitos e interesses dos utilizadores, exigiram à Hutchison que elaborasse um plano para assegurar a “transição estável dos serviços”. A entidade pública comprometeu-se ainda em acompanhar de perto o processo de cessação das actividades da empresa de telecomunicações. Foi também recordado aos utilizadores que devem escolher “o mais cedo possível e de acordo com as suas necessidades, uma operadora de telecomunicações adequada para tratar das formalidades de mudança de operadora, por forma a assegurar a utilização normal dos serviços de comunicações”. Tomar o lugar “Durante o período de transição, a Hutchison compromete-se a manter o funcionamento normal dos serviços básicos de comunicações e a prestar informações e apoio aos utilizadores nas suas lojas, das lojas da CTM e da linha de atendimento ao cliente”, é indicado. Os CTT recordam que a Hutchison celebrou um acordo com a CTM para que esta assumisse a prestação de serviços aos clientes da 3, apoiando a “transferência ordenada para a rede da CTM”. Recorde-se que no início do ano a CTM tornou-se a principal accionista da Hutchison Telefone (Macau), num negócio no valor de 110 milhões de dólares de Hong Kong, encerrando mais de duas décadas de operações no mercado de Macau. No comunicado à Bolsa de Valores de Hong Kong onde anunciou o negócio, o presidente da Hutchison Telecom, Canning Fok Kin Ning, afirmava que a venda iria melhorar a rentabilidade nos próximos anos, permitindo redistribuir recursos de forma mais eficaz e simplificar a estrutura operacional. A Hutchison Telecom é uma subsidiária do grupo CK Hutchison Holdings do bilionário de Hong Kong Li Ka-shing.
João Santos Filipe Manchete PolíticaSegurança Nacional | Iau Teng Pio diz que plataforma com Ocidente cria riscos O deputado e vice-director da Faculdade de Direito da Universidade de Macau defende que as associações têm de se subordinar à segurança nacional e incluir o patriotismo nos estatutos O deputado Iau Teng Pio considera que o facto de Macau ser uma plataforma entre a China e o Ocidente contribui para a existência de vários riscos para a segurança nacional. A posição foi tomada através da publicação de um artigo de opinião no jornal Ou Mun, em que o também vice-director da Faculdade de Direito da Universidade de Macau defende maiores exigências patrióticas para as associações locais. “Como centro de intercâmbio entre a cultura chinesa e a ocidental, Macau enfrenta riscos potenciais de segurança nacional que revestem um carácter mais dissimulado e complexo”, escreve Iau Teng Pio. “Ao aperfeiçoar o seu sistema de governação através de reformas legislativas, a RAEM cria um novo panorama focado em áreas de alto risco — como as relações externas das associações, a circulação de fundos e a disseminação em redes —, aplicando um controlo de conformidade regular para dissipar os riscos na origem e tecer uma rede de protecção multidimensional e tridimensional para a segurança nacional”, é acrescentado. A opinião surge numa altura em que decorre uma consulta pública sobre a futura lei das associações, que se espera que dê poderes às autoridades para encerrarem qualquer associação que não seja considerada patriota. Apesar deste aspecto, o especialista em direito considera que não se está a limitar a liberdade de associação: “O aperfeiçoamento do regime de conformidade com a segurança nacional para as associações não visa limitar a liberdade de associação, mas sim seguir a lógica internacional de governação centrada em ‘regulamentar para promover a saúde e garantir a conformidade para alavancar o desenvolvimento’, purificando o ecossistema associativo e padronizando a ordem operacional”, sustenta. À imagem da Rússia Em defesa do diploma do Governo que ainda não é conhecido, o deputado considera que a “liberdade de associação é um direito fundamental, mas não um direito absoluto”. Iau Teng Pio aponta que as associações têm de estar subordinadas à segurança nacional, e que o mesmo acontece “em todos os países do mundo”. “Todos os países do mundo delimitam claramente os seus regimes de direitos, estabelecendo a salvaguarda da segurança nacional e da ordem pública como limites legais indispensáveis para o funcionamento das associações”, escreve. “Assim, observa-se que a aplicação de supervisão e controlo de conformidade no âmbito da segurança nacional às associações representa um princípio jurídico e uma prática internacional comummente aceites a nível global”, frisou. Entre os exemplos citados pelo deputado de jurisdições que limitam a liberdade de associação surgem a Rússia, o Reino Unido e ainda a Alemanha. Iau Teng Pio indica também que o conceito de “amor pela Pátria e por Macau” e o “cumprimento da lei e salvaguarda da segurança deve ser incorporado nos estatutos sociais e integrado nas operações diárias” das associações. O deputado pede ainda às associações para deixarem de ser “meros sujeitos de prestação de serviços sociais” e evoluam para “guardiãs da segurança nacional na base comunitária”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivro | Joaquim Magalhães de Castro lança “Bengala e o Reino do Dragão” Acaba de ser editado o livro “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias”, de Joaquim Magalhães de Castro, cronista e viajante que viveu em Macau. O livro revive o percurso que os padres jesuítas Estevão Cancela e João Cabral fizeram pelos Himalaias, no século XVII, em busca de um sítio chamado “Cataio”, nome alternativo para a China Há muito que Joaquim Magalhães de Castro se dedica a vaguear pela Ásia em busca dos seus segredos, com particular incidência sobre as missões dos jesuítas portugueses e a presença histórica dos portugueses no continente. Depois do documentário “No Reino do Dragão”, exibido em 2022 na RTP, o autor e cronista resolveu editar um livro que nasce desse projecto audiovisual e que conta as aventuras dos jesuítas Estevão Cacela e João Cabral rumo ao Tibete Central, no século XVII, e que incluiu uma longa estadia no recém-criado Butão, no coração dos Himalaias. “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” é o nome dado à obra apresentada recentemente na Feira do Livro do Porto, e que tem a chancela da Lema D’Origem. Estevão Cacela e João Cabral estiveram na missão jesuíta de Cochim e foram para Goa, no então Estado português da Índia. Saíram em 1626 do Golfo de Bengala para o Butão, onde chegaram em Fevereiro de 1627 e onde permaneceram largos meses. O objectivo, porém, era chegar ao Tibete Central e a um lugar chamado “Cataio”, ou seja, à China. Segundo o prólogo do livro, antes da chegada ao Tibete era preciso desbravar “as montanhas do reino do Butão, tarefa que não se adivinhava nada fácil”. Oito meses depois, e “após duas sofridas viagens – intercaladas por uma longa e privilegiada permanência no reino butanês –, Cacela atingiria Xigatsé”. Por sua vez, João Cabral chegaria a esse lugar uns meses depois, onde os dois criaram uma missão jesuíta. Ao HM, Joaquim Magalhães de Castro conta como este livro é fruto da viagem realizada há exactamente dez anos para a produção do documentário para a RTP. “Queria contar o resto da história das viagens dos jesuítas ao Tibete. Os padres João Cabral e Estevão Cacela foram os primeiros ocidentais a conhecer o Butão via Bengala, e nessa viagem que fizemos para o documentário passámos pelo Bangladesh, Bengala e Butão, seguindo mais ou menos o trajecto que os padres fizeram no início do século XVII.” Lançar este livro revelou-se importante dado que em 2026 celebram-se os 400 anos do início desta viagem. Dos oito meses que passaram no Butão, grande parte foram marcados por difíceis viagens a pé, em condições muito precárias, das quais restaram alguns escritos. “A chegada deles [dos dois padres jesuítas] coincide com a formação do Estado do Butão, que antes não existia nessa condição. Na primeira parte do livro falo dessa história”, explicou o autor. Joaquim Magalhães de Castro também se debruça “nas comunidades de católicos que vivem naquela zona de Bengala”, onde “há muita gente que se assume como tendo origem portuguesa, tendo ou não sangue português, e que têm apelidos portugueses”. Uma série de peripécias Por norma, naqueles anos, os jesuítas exploravam aquela parte do mundo pela Índia, “através das montanhas dos Himalaias”. Tratava-se de um percurso “cheio de peripécias, aventuras e dificuldades”, sendo que a primeira passava por tentar passar despercebido. “Eles iam sempre disfarçados de mercadores muçulmanos, por exemplo. A certa altura, disfarçavam-se de soldados, usavam todos os meios que tinham ao seu alcance para atingir o objectivo que queriam, que era chegar ao Tibete.” Além disso, a dupla de padres levava mercadorias para possíveis transacções, e “presentes que serviam como moedas de troca para favores”. “Agora existem fronteiras, mas na altura era mais complicado, e havia ainda muitos ladrões e uma série de dificuldades no trajecto em si. Logo em Daca [actual capital do Bangladesh], houve uma rebelião e eles foram praticamente linchados, tendo de se esconder em cima de uma casa com a ajuda de alguém. Conseguiram afastar-se, mas a aventura poderia ter terminado logo ali”, acrescentou. Estevão Cacela e João Cabral foram avançando entre autorizações de reis para atravessar território. Havia ainda “a questão das doenças, e um deles contraiu uma, talvez malária, e teve quase às portas da morte, tudo isto antes de chegar ao Butão”. Chegados a este país nos Himalaias, o monarca foi “previamente informado de que havia estrangeiros nas suas terras” e acabou por mandar “enviados especiais para saber o que é que eles [padres jesuítas] queriam, se traziam presentes”. O livro conta também “imensas histórias interessantes” que Estevão Cacela e João Cabral deixaram até chegar ao Tibete Central. “De certa maneira enganaram o próprio rei, que os tinha como hóspedes, mas, ao mesmo tempo, prisioneiros. Eles [autoridades asiáticas] gostavam de ter estrangeiros, pois eram pessoas exóticas e com conhecimento, cultas.” Joaquim Magalhães de Castro realça a permanência de estrangeiros sob uma ténue vigilância mediante um acordo tácito, uma espécie de moeda de troca. “Havia a questão da curiosidade, e depois claro que os portugueses tinham o objectivo de envangelizar [as populações].” Sinais que perduram O autor de “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” adiantou que ainda hoje, nas escolas do Butão, “as crianças aprendem nos manuais escolares quem foi João Cabral e Estevão Cacela como os dois primeiros ocidentais a chegar ao Butão”. “Enquanto que, no Tibete, a memória desapareceu completamente, no Butão continua e é ensinado na escola, além de que pessoas com alguma cultura sabem essa história”, acrescentou. Ao longo dos anos houve registos, “documentos que não foram publicados, que não foram descobertos, ou que se perderam”. Estas viagens feitas pelos jesuítas “eram especiais e únicas, feitas com muitas dificuldades”. Joaquim Magalhães de Castro já as fez, quer na qualidade de documentarista, quer como guia turístico, e assume: “só podemos sentir um bocadinho do que eles passaram”. “Há zonas em que se sobem as montanhas, uma cada vez mais alta do que outra, com vales e precipícios, coisas incríveis, com uma profundidade… é como multiplicar as nossas montanhas várias vezes. E eles referem isso nos seus diários. Imagine-se fazer isto a pé, sempre com ladrões, a ter de pagar isto e aquilo”, rematou. De destacar que o par de religiosos aventureiros tiveram relações com Macau, que por esta altura já tinha uma presença jesuíta bem firmada: João Cabral foi vice-reitor do Colégio de São Paulo, a primeira instituição de ensino superior de estilo ocidental na Ásia. A escola foi fundada em 1594 e servia para preparar os missionários jesuítas nas suas missões. Tinha disciplinas como Latim, Teologia, Filosofia, Matemática, Chinês e Japonês, entre outras.