Juíza portuguesa diz que tribunais constitucionais “estão a ser atacados”

A juíza do Tribunal Constitucional (TC) português Maria Benedita Urbano avisou ontem que os tribunais constitucionais “estão a ser atacados” face à ascensão do populismo e autoritarismo em sociedades democráticas.

“Somos alvo de ataque por aqueles que querem desmantelar o Estado de Direito democrático, porque o Tribunal Constitucional defende os direitos fundamentais, de expressão, manifestação, participação política”, disse a magistrada. Urbano, que é também docente na Universidade de Coimbra, falava durante o 29º Encontro de Professores de Direito Público, que decorreu pela primeira vez em Macau.

O TC “assegura que competição política é justa e igualitária”, sublinhou Urbano, e “garante o jogo de pesos e contrapesos, que o executivo não usurpe as funções do legislativo”. A juíza defendeu que a pandemia de Covid-19 “foi a tempestade perfeita”, ao levar à imposição de restrições às liberdades fundamentais, algo que “acelerou estas tendências” para o populismo.

Urbano alertou para vários métodos que podem ser usados para reduzir o papel do TC como “guardião da Constituição por excelência”, incluindo a “asfixia financeira”, a limitação da jurisprudência e a substituição de juízes.

A magistrada deu como exemplo a “campanha pública de deslegitimação” do Supremo Tribunal Federal do Brasil, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023) tentou nomear “mais juízes sensíveis à sua causa”.
Urbano sublinhou que a situação não é tão grave em Portugal, mas lembrou que em 2022 juristas apelaram ao fim ou à redução do número de juízes nomeados pelos outros membros do TC.

Nos termos da Constituição, o TC é composto por 13 juízes, sendo dez designados pela Assembleia da República e os outros três cooptados por estes. Dos 13, seis são obrigatoriamente escolhidos de entre juízes dos restantes tribunais e os demais de entre juristas.

“Há quem defenda que a cooptação deve deixar de existir, que os três juízes devem ser nomeados pelo Presidente da República”, disse Urbano. Mas a magistrada disse que essa mudança “é de evitar”, porque pode levar à nomeação de “juízes leais ao poder político do momento” e “favorecer o controlo do poder judicial pelo executivo”.

Para evitar uma “deslegitimação, que com o tempo se pode agravar”, Urbano sublinhou que o TC deve manter “total respeito pela separação dos poderes”. “É preciso manter o prestígio do Tribunal Constitucional, manter e transmitir uma imagem de tribunal independente e parcial, para que seja a própria população a defender a instituição”, disse a juíza.

Cenários políticos

Em Maio, a vice-presidente do grupo parlamentar do partido português Chega, Cristina Rodrigues, acusou o TC de “activismo político” e desrespeito pela separação de poderes. Isto depois do TC ter declarado como inconstitucional um decreto do parlamento que previa a perda de nacionalidade como sanção acessória pela prática de certos crimes.

“A esquerda perdeu a maioria na Assembleia da República, mas continua a ter a maioria no TC e nos juízes que ocupam os cargos para os quais são nomeados. E isto tem tido consequências, consequências à vista de todos, principalmente nos últimos tempos”, afirmou Rodrigues.

15 Set 2026

Estudo | “Economia da solidão” superou um bilião de dólares na China em 2025

Os consumidores solteiros na China gastaram mais de um bilião de dólares em 2025, mais 50 por cento do que dois anos antes, impulsionando uma crescente “economia da solidão”, indica um relatório divulgado ontem

 

O documento, da autoria de Y. Tony Yang, professor da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, aponta, no entanto, que o fenómeno deve ser entendido não apenas como um novo mercado de consumo, mas como resultado da desagregação de funções tradicionalmente asseguradas pelas famílias.

Durante grande parte da história moderna as famílias partilharam despesas como habitação e alimentação, além de assegurarem cuidados a crianças e idosos, companhia e protecção perante imprevistos, observa o autor. “Em toda a Ásia Oriental, esse modelo está a perder peso, levando cada vez mais pessoas a recorrer a serviços pagos para satisfazer necessidades antes asseguradas no seio da família”, escreve Yang.

Na China, o censo de 2020 contabilizou 125 milhões de pessoas a viver sozinhas, o equivalente a uma em cada quatro famílias, enquanto tendências semelhantes são observadas noutros países da região. Na Coreia do Sul, 36 por cento dos agregados familiares são constituídos por uma única pessoa, enquanto no Japão a proporção deverá atingir 44 por cento em 2050.

Segundo dados da empresa chinesa de investigação Discovery Reports, citados pelo autor, os gastos dos solteiros chineses ultrapassaram um bilião de dólares em 2025, aumentando cerca de 50 por cento em apenas dois anos. Yang considera, contudo, que parte desse crescimento não representa necessariamente nova actividade económica, mas a “transformação em transacções comerciais de funções anteriormente desempenhadas dentro do agregado familiar”.

Quando uma família prepara uma refeição em casa, exemplifica, essa actividade não é contabilizada no produto interno bruto (PIB), mas quando alguém que vive sozinho encomenda uma refeição individual ou paga por entretenimento ou companhia, essas mesmas necessidades passam a surgir nas estatísticas económicas.

O autor alerta ainda que parte das despesas associadas à chamada “economia da solidão” não corresponde a consumo discricionário, mas a custos que quem vive sozinho não pode partilhar, incluindo renda, electricidade ou electrodomésticos.

Família de um

A tendência está também a criar produtos e serviços na China, desde refeições para uma pessoa a aplicações destinadas a verificar o bem-estar de quem vive sozinho. Uma aplicação chinesa cujo nome pode ser traduzido como “Estás morto?” chegou ao primeiro lugar entre as aplicações pagas no país em Janeiro. O serviço alerta um contacto de emergência caso o utilizador falhe duas verificações diárias consecutivas.

Para Yang, trata-se de “um substituto pago para uma tarefa que, até recentemente, não precisava de um produto”.

O relatório destaca igualmente o crescimento dos serviços de companhia baseados em inteligência artificial (IA), numa altura em que Pequim começou a regulamentar este mercado. Novas regras chinesas para serviços de IA “antropomórfica”, em vigor desde 15 de Julho, proíbem relações românticas virtuais com menores, exigem consentimento dos encarregados de educação para utilizadores com menos de 14 anos e obrigam as empresas a intervir perante sinais de automutilação ou dependência emocional excessiva, segundo o documento.

Yang defende que o crescimento das famílias unipessoais obrigará também os governos a repensar sistemas de saúde e assistência social ainda construídos em torno da existência de cônjuges, filhos ou outros familiares capazes de prestar cuidados. “A economia da solidão é três coisas ao mesmo tempo: um mercado real, um artefacto estatístico e uma perda de eficiência”, resume.

O académico considera a Ásia um “local piloto” para uma transformação que deverá alastrar posteriormente a outras regiões do mundo, à medida que aumenta o número de pessoas que vivem sozinhas.

15 Set 2026

MPay | AMCM “atenta” a acusações sobre falhas de segurança

A MPay foi acusada de permitir o roubo de uma conta, ao transferir a titularidade sem verificar a identidade do dono da conta, resultando na perda de 2 mil patacas do novo titular, uma criança de 10 anos. A AMCM assegura que está atenta ao caso e a possíveis falhas de segurança

 

A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) afirma estar “atenta” às acusações de existência de fragilidades na segurança da plataforma de pagamentos MPay, explorada pela Macau Pass, que integra o grupo Alibaba. A plataforma de pagamentos está a ser acusada de transferir a titularidade da conta de um utilizador sem qualquer verificação de identidade por SMS, o que terá permitido um alegado roubo de fundos.

A polémica que envolve a plataforma MPay surgiu durante o fim-de-semana nas redes sociais, quando um internauta denunciou que a titularidade da carteira electrónica do seu filho de 10 anos tinha sido transferida para outra pessoa, com perdas de 2 mil patacas.

A transferência de titularidade terá sido possível porque anteriormente o número de telemóvel da criança tinha pertencido a outra pessoa. Esta pessoa também tinha registado uma conta na plataforma MPay com o mesmo número.

Contudo, com o passar dos anos, o número ficou inactivo e foi reciclado pela CTM e atribuído ao filho do denunciante. Este utilizou o número para registar uma conta na plataforma MPay para a criança, para onde transferia todas as semanas 70 patacas.

Todavia, o antigo proprietário do número de telemóvel terá contactado a MPay para recuperar a conta antiga, o que conseguiu: “Afinal, aquele número de telefone já tinha sido usado anteriormente para registar uma conta na MPay. O antigo titular da conta pediu para reaver a conta sem precisar do código de verificação por SMS, e a MPay, sem qualquer tipo de aviso, transferiu directamente a conta do actual titular do número para o nome do antigo titular…”, relatou o queixoso numa publicação num grupo de Facebook.

“Só posso dizer que esta falha no sistema da MPay fez com que o meu filho ficasse a usar a conta antiga de outra pessoa. Naquele momento fiquei de queixo caído e só me apetecia perguntar: afinal, para que serve o código de verificação do telemóvel?”, acrescentou.

Investigação em curso

O relato difundido nas redes sociais tornou-se viral, com o denunciante a recomendar que as pessoas nunca mais utilizem a aplicação MPay. O homem divulgou também ter apresentado queixa à Polícia Judiciária (PJ), pelo que o caso está sob investigação.

Na publicação online, o autor reconheceu estar conformado com a perda de 2 mil patacas, e recomendou às pessoas que registem sempre os números de telemóvel em todas as aplicações possíveis, para impedir roubos deste género.

Numa resposta citada pelo canal chinês da Rádio Macau, a AMCM indicou que o caso denunciado se trata de uma disputa sobre a titularidade da conta e que está a ser acompanhado pelos órgãos judiciários.

A AMCM afirmou ainda que presta muita atenção à segurança do uso dos pagamentos electrónicos, pelo que exige às instituições de pagamento o estabelecimento de medidas adequadas de verificação de identidade em etapas como o registo de conta, redefinição de palavra-passe, transacções e verificação de identidade, de modo a garantir a segurança dos pagamentos e a salvaguardar os direitos e interesses dos clientes.

Por sua vez, a Macau Pass prometeu total cooperação com a investigação e defendeu que “os seus mecanismos de segurança estão a funcionar normalmente, não tendo sido detectada qualquer anomalia ao nível da segurança do sistema”.

15 Set 2026

Metro Ligeiro | Conselheiro quer mais comércio ligado à cultura

O membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários Si Iat defende que no planeamento das zonas comerciais do Metro Ligeiro se deve apostar no turismo cultural. O conselheiro defende a introdução de produtos dos países de língua portuguesa

 

No planeamento dos espaços comerciais do Metro Ligeiro deve ser dada atenção à cultura e património, apostando-se em modelos de negócio que estabeleçam uma ligação com as zonas de Macau por onde passa este meio de transporte.

A ideia foi defendida por Si Iat, conselheiro dos Serviços Comunitários, que, segundo o Jornal do Cidadão, sugeriu ao Governo os exemplos das cidades da Grande Baía ao combinar o transporte urbano com o turismo cultural. Em declarações ao jornal chinês, o conselheiro explicou que se deve apostar em negócios e espaços comerciais que promovam a cultura de cada bairro ou zona de Macau, revitalizando-se, desta forma, o ambiente comercial do Metro Ligeiro.

Outra das sugestões de Si Iat passa pela atracção de marcas de Macau para as estações do Metro Ligeiro, além da aposta numa zona de exposição de produtos oriundos dos países de língua portuguesa. O responsável defendeu também que a entidade gestora deste meio de transporte, a Sociedade do Metro Ligeiro de Macau, pode trabalhar com as autoridades no sentido de reservar algumas lojas com renda controlada para que os jovens locais possam desenvolver os seus negócios.

Si Iat deu o exemplo da empresa gestora do metro de Hong Kong, a MTR Corporation Limited, que cobra a renda das lojas conforme as receitas obtidas, ao invés de cobrar um montante mensal fixo.

Patacas nas fronteiras

Tendo em conta as estações do Metro Ligeiro que vão estar perto dos postos fronteiriços das Portas do Cerco e Qingmao, o conselheiro disse que a aposta das autoridades deve ser em lojas de conveniência, tendo em conta o elevado número de visitantes.

Si Iat considera que podiam ser abertas lojas de levantamento de mercadorias com isenção de impostos, lojas de lembranças turísticas ou ainda de venda de cartões de telemóvel, bem como de câmbio de moeda. A ideia é disponibilizar os serviços mais procurados pelos visitantes dentro das estações, ou nos percursos de ligação.

Porém, Si Iat defende que o comércio nestes espaços do metro deve procurar dar resposta às necessidades dos moradores destas zonas que vão trabalhar ou que simplesmente usam o metro para se deslocar no dia-a-dia, com a abertura de supermercados, cafés, cabeleireiros ou lojas do Taobao.

As estações do metro também poderiam acolher feiras aos fins-de-semana ou feriados, acrescentou, além de que algumas lojas poderiam ser alugadas a curto prazo para a apresentação de produtos da área das indústrias criativas.

Por sua vez, Kuok Meng Chit, membro do Conselho Consultivo do Trânsito, disse que a estação do Metro Ligeiro da Barra faz uma importante ligação entre meios de transporte, mas que as lojas que estão na estação não estão localizadas nas zonas que os passageiros têm de atravessar, o que afecta o interesse comercial destes espaços.

Assim, o conselheiro disse que, o planeamento dos espaços comerciais do Metro Ligeiro deve dar atenção à localização das lojas, para que haja uma conjugação com os percursos feitos pelos passageiros.

15 Set 2026

Edifícios | FAOM quer criminalizar arremesso de objectos em altura

Após a queda de uma faca de um edifício na Zona A dos Novos Aterros, Cheang Kai Lok, membro dos Operários no Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Norte, defende a criminalização da conduta

 

O membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Norte, Cheang Kai Lok, defende a criminalização do arremesso de objectos em altura. Foi desta forma que o membro dos Operários reagiu a um caso recente em que uma faca de cozinha caiu dos andares superiores de um prédio na Zona A dos Novos Aterros.

Através de um comunicado divulgado ontem, Cheang considerou a legislação actual ultrapassada por punir com “sanções relativamente ligeiras” o arremesso de objectos em altura, desde que não haja feridos nem danos materiais. O conselheiro sugere, assim, ao Executivo que siga o exemplo das “regiões vizinhas” para criar um novo tipo de crime autónomo para esta conduta.

No entanto, se o Governo não quiser criar o novo tipo de crime, o membro da FAOM defende que se devem “agravar as sanções administrativas” para estabelecer “normas jurídicas mais claras e severas”.

Sobre as opiniões que defendem a instalação de mais câmaras de videovigilância na cidade viradas para as habitações, de forma a detectar os infractores deste tipo de práticas, Cheang Kai Lok pediu cautela. O conselheiro explicou que “a instalação adicional de equipamentos de vigilância em altura pode entrar em conflito com as disposições relativas à protecção da privacidade individual no actual regime jurídico da videovigilância em espaços públicos”.

Cheang considera que o mais importante passa pelas as autoridades encontrarem “um equilíbrio razoável” entre a salvaguarda da segurança pública e a garantia da privacidade individual dos residentes.

Comunidade preocupada

Sobre o episódio da queda de uma faca de cozinha, Cheang Kai Lok alertou para os riscos e para o facto de ser uma prática repetida. “Dado o risco extremo que a queda de objectos em altura representa, e considerando que no passado já tinham ocorrido de forma esporádica episódios de diferente gravidade nessa zona, o caso gerou rapidamente uma enorme preocupação e apreensão entre os residentes do bairro”, descreveu.

No seguimento do alerta, o conselheiro pediu à população para ter mais cuidado com a forma como guarda as coisas em casa, principalmente perto das janelas.

Cheang defendeu ainda que os “moradores devem inspeccionar proactivamente o seu ambiente doméstico, especialmente espaços abertos como varandas e parapeitos de janelas, evitando a colocação de vasos de plantas, ferramentas, utensílios de cozinha ou outros objectos susceptíveis de cair”.

Além da negligência acidental, Cheang Kai Lok assinalou que alguns comportamentos de arremesso de objectos em altura podem ter origem em oscilações emocionais ou no stress do quotidiano de determinados indivíduos. Face a estes casos, o responsável entende que as famílias devem acompanhar e apoiar os membros que se mostrem mais fragilizados.

15 Set 2026

Hengqin | Sam Hou Fai defende visão integrada de políticas

O Chefe do Executivo pediu aos secretários uma “abordagem integrada entre Macau e Hengqin” na implementação de políticas. Sam Hou Fai vincou a importância de tratar os assuntos de Hengqin como assuntos de Macau

 

Sam Hou Fai presidiu ontem à sexta reunião do Grupo de Liderança para a Promoção da Construção da Zona de Cooperação em Hengqin, tendo defendido que “todos os sectores do Governo da RAEM devem estabelecer uma abordagem integrada entre Macau e Hengqin” na adopção de medidas e políticas para o território.

Segundo um comunicado difundido pelo Gabinete de Comunicação Social, o encontro serviu para a definição de políticas a adoptar na Zona de Cooperação, contando com os cinco secretários que compõem o Executivo local.

No processo de integração entre Macau e Hengqin, Sam Hou Fai lembrou que se deve continuar a promover “os quatro projectos-chave de Macau”, sendo que um deles é a construção da nova Cidade Universitária. Na visão do governante, as autoridades devem “alinhar as regras e integrar mecanismos a fim de avançar na integração entre Macau e Hengqin”.

O Chefe do Executivo destacou também “a importância desta reunião especial”, dado realizar-se “no momento crucial que é o quinto aniversário da criação da Zona de Cooperação, o que tem um impacto significativo”, disse.

Assuntos dos dois lados

Sam Hou Fai referiu também que a sexta reunião deveria ser encarada como “uma oportunidade para acelerar a implementação do ‘pacote de políticas e medidas'” já delineadas para esta zona. Além disso, “os próximos passos devem ser planeados de forma abrangente para levar os trabalhos da Zona de Cooperação a um novo patamar”, descreveu.

Desta forma, Sam Hou Fai “reiterou a necessidade de tratar os assuntos de Hengqin como assuntos de Macau”, devendo existir um alinhamento com o 15º Plano Quinquenal do país, bem como com o mais recente Plano de Desenvolvimento Sócio-económico da RAEM.

Xia Baolong, director do Gabinete de Trabalho de Hong Kong e Macau do Comité Central do Partido Comunista da China, esteve presente na sessão. Sam Hou Fai lembrou a importância de “estudar o espírito da reunião e o discurso do director Xia Baolong”, a fim de as autoridades poderem implementar “de forma integral todos os planos de trabalho”.

15 Set 2026

El Niño | SMG alerta que tufões podem tornar-se mais intensos

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos avisam a população para se preparar para o impacto de supertufões ainda este ano. Devido ao El Niño, esperam-se menos tufões, mas cada vez mais intensos

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) avisaram que o fenómeno El Niño aumenta o risco de o sul da China ser atingido por tufões mais intensos ainda este ano. O El Niño é caracterizado por um aumento nas temperaturas da superfície no centro e leste do Pacífico equatorial. Normalmente ocorre a cada dois a sete anos e dura aproximadamente nove a doze meses.

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) de Macau alertaram que, quando o El Niño ocorre, “o número de tempestades tropicais que entram no mar do Sul da China é, em geral, inferior ao normal, mas a sua intensidade tende a ser mais forte”.

Isto porque “as águas quentes do Oceano Pacífico equatorial acumulam-se nas regiões central e oriental do oceano”, pelo que “os locais de formação das tempestades tropicais deslocam-se para leste”, explicaram os SMG, num comunicado.

“Como as tempestades tropicais dispõem de mais tempo para se desenvolver sobre o oceano, absorvendo continuamente o vapor de água e a energia térmica oceânica, a sua intensidade costuma ser também mais forte”, sublinhou a agência. Além disso, referiram os SMG, o El Niño deverá transportar “mais ar quente e húmido para a região” do sul da China, “resultando num nível de precipitação no inverno de Macau superior ao normal”.

O mais forte

A agência recordou que, de acordo com previsões da Organização Meteorológica Mundial e do Centro Nacional de Clima da China, o El Niño poderá ser o “mais forte desde que há registos observacionais”.

“As previsões apontam para que a sua intensidade possa evoluir para o nível “superforte” (ultrapassando os +2,5 °C), e se mantenha até Fevereiro de 2027″, disseram os SMG. Em Maio, o director-adjunto interino da agência meteorológica de Hong Kong já tinha avisado que o fenómeno aumenta o risco de o sul da China ser atingido este ano por supertufões.

O dirigente do Observatório de Hong Kong, Choy Chun-wing, previu que a região deverá ser afectada por entre quatro e sete tempestades tropicais em 2026, menos do que as 14 registadas no ano passado. No entanto, Choy alertou que o El Niño aumenta a probabilidade de as tempestades tropicais se transformarem em supertufões.

Os tufões são fenómenos recorrentes no Sudeste Asiático, quando as águas quentes do Oceano Pacífico favorecem a formação de ciclones, e o sul da China é atingido todos os anos por dezenas dessas tempestades tropicais.

Cenário esperado

No final de Março, os SMG de Macau não excluíram a possibilidade de a região ser afectada por supertufões semelhantes ao Ragasa, a mais poderosa tempestade registada no planeta em 2025.

Segundo um estudo publicado em 2024, os tufões na região estão a formar-se mais perto da costa do que no passado, intensificando-se mais rapidamente e permanecendo mais tempo sobre terra, em consequência das alterações climáticas.

De acordo com cientistas, as alterações climáticas estão a provocar fenómenos meteorológicos extremos mais frequentes e intensos em todo o mundo.

14 Set 2026

BIR | José Cesário vê “sinais positivos” da parte do Governo de Sam Hou Fai

O deputado acredita num novo regime para facilitar a aquisição de residência por cidadãos portugueses e declara haver “intenções positivas” no que diz respeito à presença portuguesa em Macau

O líder da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas da Assembleia da República de Portugal, José Cesário, considera que “há sinais positivos” que podem desbloquear a emissão do bilhete de identidade de residentes para cidadãos portugueses. As declarações foram prestadas ao canal em língua portuguesa da TDM, durante uma visita a Macau.

“Sei que há, eu diria, intenções positivas no sentido de dar garantias de que os portugueses continuam presentes em Macau. Recentemente foram nomeados dois magistrados portugueses para Macau e isso é muito importante”, afirmou o deputado do Partido Social Democrata. “O actual Chefe do Executivo é muito interessado, muito empenhado nesta relação, na presença portuguesa em Macau. Eu acho que tem havido sinais positivos e acho que poderá haver ainda mais”, frisou.

Desde 2023 que a Administração Pública de Macau acabou com o acesso preferencial de portugueses ao bilhete de identidade para residente, justificado pelo desempenho do exercício de funções técnicas especializadas.

Com as regras actuais, os portugueses que se mudem para Macau ficam abrangidos pelo regime de trabalhadores não residentes, o que impede a fixação de residência permanente e obriga a que os contratos de trabalho tenham um termo fixo, normalmente renovado a cada dois anos.

À espera da Comissão Mista

Desde as alterações legais que os políticos portugueses que visitam Macau, entre eles o primeiro-ministro, Luís Montenegro, expressam o desejo da criação de um novo regime especial para os cidadãos portugueses.

Este assunto deverá ser um dos tópicos de debate entre as duas partes na próxima Reunião da Comissão Mista, um acordo de cooperação entre as duas partes.

Não há qualquer reunião plenária da Comissão Mista desde 2019, antes da pandemia, e, apesar de as duas partes fazerem promessas frequentes de um novo encontro, este tem sido adiado ano após ano.

Sobre o futuro encontro, José Cesário mostrou-se confiante: “Não tenho qualquer informação privilegiada, acabou de reunir uma subcomissão [mista de educação]. Sei que é vontade dos Governos a sua realização breve, mas não sei mais do que isso”, apontou. “Acredito que a reunião se realize em breve”, reconheceu.

José Cesário realizou uma visita a Macau, onde, como tradicionalmente acontece, visitou a sede da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM). Sobre a visita, Cesário, o também ex-secretário da Comunidades Portuguesas, afirmou servir para ouvir os portugueses. “Eu tenho sempre muita expectativa. Não venho cá apenas para debitar um discurso, venho sobretudo ouvir”, explicou. “Já tive a oportunidade de avaliar bem a importância que tem o facto de termos de fazer todos um esforço para manter a presença muito viva de Macau em Portugal e também manter a presença de Portugal aqui, em Macau”, apontou.

14 Set 2026

Finanças | Excedente das contas públicas dispara 26,2% até Agosto

O maior excedente deveu-se ao aumento das receitas com o jogo, até porque a despesa com apoios sociais também cresceu. O salto dos apoios ficou abaixo do previsto no orçamento

O excedente das contas públicas subiu 26,2 por cento até Agosto, em comparação com igual período de 2025, sobretudo devido ao aumento das receitas dos impostos sobre os casinos. De acordo com dados publicados pela Direcção dos Serviços de Finanças (DSF), o excedente foi de quase 19 mil milhões de patacas entre Janeiro e Agosto. Recorde-se que no orçamento para todo o ano de 2026, o Governo tinha previsto um excedente muito menor, de 5,22 mil milhões de patacas.

O território terminou 2025 com um excedente nas contas públicas de 19,9 mil milhões de patacas, mais 26,1 por cento do que no ano anterior.

O excedente beneficiou de um crescimento de 6,2 por cento na receita corrente, para 76,6 mil milhões de patacas. A principal razão para este aumento foi um acréscimo de 6,9 por cento, para 66,2 mil milhões de patacas, nas receitas dos impostos sobre o jogo – que representaram 85,1 por cento do total.

As seis operadoras de jogo da cidade pagam um imposto directo de 35 por cento sobre as receitas do jogo, 2,4 por cento destinado ao Fundo de Segurança Social e ao desenvolvimento urbano e turístico, e 1,6 por cento entregue à Fundação Macau para fins culturais, educacionais, científicos, académicos e filantrópicos.

Mais receitas e despesas

As receitas totais dos casinos atingiram entre Janeiro e Agosto 169,1 mil milhões de patacas, um aumento de 3,7 por cento em comparação com o mesmo período do ano passado.

As despesas públicas também subiram 2,2 por cento nos primeiros oito meses do ano, sobretudo devido ao aumento nos gastos com apoios sociais. A região gastou até ao final de Agosto 58,8 mil milhões de patacas, 53,9 por cento do previsto para todo o ano.

A principal razão para a subida das despesas foi o reforço dos gastos em apoios e subsídios sociais, que cresceram 11,1 por cento, para 34,4 mil milhões de patacas. O orçamento aprovado em Novembro inclui benefícios fiscais para atrair sociedades gestoras de fundos de investimento, fundos de investimento especiais e investidores em fundos, para ajudar a desenvolver o sector financeiro.

Além disso, o Governo isentou do imposto de selo a compra da primeira habitação por parte de residentes, até seis milhões de patacas, num documento que previa uma subida de 4,3 por cento nos apoios e subsídios sociais.

Em Julho de 2025, a Assembleia Legislativa também já tinha aprovado uma proposta do Governo para aumentar em 2,86 mil milhões de patacas as despesas previstas no orçamento do ano passado, para reforçar os apoios sociais. A revisão inclui a criação de um subsídio, no valor total de 54 mil patacas, para as crianças até aos 3 anos, numa tentativa de elevar a mais baixa natalidade do mundo.

Pelo contrário, os gastos com obras públicas – o Plano de Investimentos e Despesas da Administração (PIDDA) – recuaram 13,2 por cento até Agosto, para 9,54 mil milhões de patacas.

14 Set 2026

TJB | Julgamento de Au Kam San arranca quarta-feira à porta fechada

O ex-deputado Au Kam San será julgado no Tribunal Judicial de Base, com a primeira sessão de audiência marcada para quarta-feira. O Ministério Público pediu que as audiências decorram à porta fechada para prevenir “prejuízo aos interesses da segurança do Estado”

Mais de um ano depois de ter sido detido, o julgamento do ex-deputado Au Kam San vai começar na próxima quarta-feira, numa sessão que irá decorrer à porta fechada, segundo um comunicado emitido pelo Tribunal Judicial de Base (TJB) na sexta-feira. Au Kam San é o primeiro arguido a ser julgado num processo relativo à segurança do Estado.

“A pedido do Ministério Público e com a confirmação da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da Região Administrativa Especial de Macau, o juiz titular do processo (…), decidiu proceder ao julgamento do processo à porta fechada, a fim de assegurar que não se cause prejuízo aos interesses da segurança do Estado”, indica o TJB.

Recorde-se que a Comissão de Defesa da Segurança do Estado é presidida pelo Chefe do Executivo e constituída pelos secretários do Governo, as chefias dos Serviços de Polícia Unitários, Serviços de Alfândega, Polícia Judiciária, Corpo de Polícia de Segurança Pública, Instituto Cultural, os directores de serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude e Serviços de Assuntos de Justiça, o director da Inspecção e Coordenação de Jogos e os chefes de gabinete do Chefe do Executivo e do secretário para a Segurança. A comissão é assessorada por representantes do Governo Central.

A defesa de Au Kam San, cidadão português, é outra questão definida pela lei da Comissão de Defesa da Segurança de Estudo. No fim da discussão em Conselho Executivo, o secretário para a Administração e Justiça de Macau, Wong Sio Chak, afirmou que mandatários dos réus envolvidos em julgamentos enquadrados pela Lei de Segurança Nacional terão que ter “certas características e ser aprovados por um juiz”. Estes advogados podem ser excluídos pelo juiz, após decisão da comissão, sem direito a recurso.

Longa espera

Au Kam San foi detido a 30 de Julho de 2025 por suspeitas de violação da Lei de Segurança Nacional, a primeira detenção por este tipo de crime desde a fundação da RAEM.

Um dia depois, a Polícia Judiciária emitiu um comunicado a alegar que Au, deputado na Assembleia Legislativa durante duas décadas, actuou em conluio “uma organização estrangeira anti-China” desde 2022, a quem forneceu “uma grande quantidade de informações imprecisas e incendiárias” para serem divulgadas fora da China e também na Internet.

Au Kam San foi também acusado de manter “ligações de longa data” com várias entidades estrangeiras anti-China e de lhes fornecer “repetidamente” informações “imprecisas” sobre Macau, assim como a órgãos de comunicação social controlados por essas entidades.

14 Set 2026

Cinema | Fundação Oriente recebeu estreia de “The Violin Case”

“The Violin Case”, a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny, teve a estreia europeia na sexta-feira na Fundação Oriente, em Lisboa. O filme conta a história de um artista que se vê enrolado em múltiplas peripécias enquanto procura um violino perdido. O filme rodado durante a pandemia procurou captar a essência de Macau

Quem nunca teve problemas com um taxista em Macau? A questão transversal é o ponto de partida para a história de Theo, um artista que transporta um violino pintado com a figura do Napoleão Bonaparte, obra de arte que é o ponto de ignição para um autêntico incêndio narrativo. A impossibilidade de pagar a totalidade da tarifa de táxi, leva o motorista a vingar-se e simplesmente arrancar com o veículo, levando a que Theo perca o violino que tinha de entregar nessa noite.

Este episódio, que se inspira numa história verdadeira, é o mote para a primeira longa-metragem de Maxim Bessmertny. Depois da estreia em Macau, “The Violin Case” teve a sua estreia europeia na última sexta-feira, no Auditório Dr. Stanley Ho da Fundação Oriente (FO). O público pode ver de perto os actores, o realizador e parte da equipa de produção, incluindo António Vale da Conceição, músico macaense responsável pela banda sonora.

“The Violin Case” é um filme que retrata a noite de Macau com todos os seus ingredientes: as ruas quentes e desertas, os táxis e carros a deambularem de um lado para o outro, os néons que dão ao território uma essência tão especial. Maxim Bessmertny conseguiu fazer um filme onde o jogo está longe de ser o principal protagonista, nem sequer o Cotai. Há personagens que remetem para as muitas vidas que Macau tem e teve, de pessoas que, não nascendo no território, fizeram dele a sua casa. É o caso da personagem Pauline, interpretada pela designer Clara Brito, que, na trama, foi viver para o território nos anos 80 devido aos negócios do pai, e que vira uma galerista sem escrúpulos.

Ao HM, Maxim Bessmertny revelou como esta foi a primeira vez que mostrou um trabalho cinematográfico seu em Lisboa. “É uma sensação incrível porque vim cá com os actores, a Clara [Brito], o Filipe Baptista Tou, que também é músico, actor, empreendedor de Macau. É a primeira vez que vou mostrar qualquer trabalho meu em Portugal. Mostrei as curtas-metragens, mas estávamos na altura da covid-19. Espero que as pessoas gostem do filme, que haja mais exibições e que o cinema independente continue a crescer.”

O realizador revela a dificuldade em chegar à programação de festivais de cinema com uma longa-metragem. “É este o nosso trabalho [mostrar o filme]. Eu, com as curtas-metragens, tive a sorte de entrar em festivais, mas com as longas-metragens é muito mais complicado, porque um festival de cinema recebe cerca de quatro mil filmes. É impossível.”

Desta forma, salientou, “é preciso ser um pouco mais criativo com as coisas, e não depender apenas de reuniões e convites”, referiu, explicando a presença na FO. Outras organizações de Macau, como a Fundação Macau ou a operadora de jogo Melco, deram também apoio, tal como o Governo da RAEM.

Filmar durante a covid

Fazer “The Violin Case” implicou enfrentar o período de confinamento em Macau na fase da covid-19. Implicou fazer escolhas e, muitas vezes, esperar até ao último momento para tomar decisões.

Maxim Bessmertny é filho do pintor russo Konstantin Bessmertny, há décadas radicado em Macau. Eles próprios perderam um violino há muitos anos, em Hong Kong, e foi esse lado real que o realizador transpôs para a sua primeira longa.

“O filme inspira-se num acidente que aconteceu ao meu pai, pintor que nasceu na Rússia e veio para Macau nos anos 90, onde cresci. A minha primeira memória é, portanto, de Macau, e o filme é inspirado nas imagens de Macau, na noite, e também na aventura que tive com o meu pai, em Hong Kong, quando ele perdeu o violino.”

“Passámos a noite inteira à procura da peça de arte, e no final não o conseguimos encontrar. Fomos à polícia, fizeram-se umas investigações, e não aconteceu nada nessa noite. Só o facto de eu estar à frente de um polícia de Hong Kong a fingir que era advogado do meu pai…”, recordou Maxim Bessmertny na apresentação do filme, para divertimento da plateia.

“Tentei escrever vários guiões, mas nada era muito real. Era tudo mais ligado aos anos 40, ao período da II Guerra Mundial, sempre passado em Macau, com o Casino Lisboa. Era difícil financiar isso. Lembrei-me da história do violino, estava a ver ‘After Hours’, do Martin Scorsese, e foi uma explosão de ideias”, explicou Maxim sobre o momento em que teve a ideia sobre aquilo que ia filmar.

Questionado pelo HM sobre os principais desafios do projecto, o realizador destacou a rodagem do filme, que coincidiu com os tempos da pandemia. “Quase não filmámos, porque havia um confinamento todos os dias, testes. Não sabíamos se íamos realmente filmar, então foi sentir pânico até ao último minuto.”

E nesta história não falta, sequer, o ingrediente da superstição. “No dia 1 de Setembro fizemos a cerimónia do Pai San, e não houve chuva durante as nossas noites de filmagens. Tivemos quase um mês inteiro sem chuva, e percebi que talvez os ventos estivessem do nosso lado.”

Maxim Bessmertny destaca como teve “sorte, e muita sorte com as pessoas, que entenderam que estávamos a fazer uma coisa maluca num tempo maluco, com ideias malucas: várias localizações, quase 42, em 24 noites. Muitas personagens. Esse foi o grande desafio, o de conseguir chegar ao final”.

O realizador transformou a história que viveu com o pai fazendo-lhe adaptações. Theo, interpretado pelo jornalista e músico Kelsey Wilhem, é, por exemplo, “um artista mais novo”. “The Violin Case” foi também feito à imagem de “The After Hours”, película de 1985 com assinatura de Scorsese. “Escrevi o argumento numa semana”, confessou Maxim Bessmertny. E tudo se compôs depois disso.

O malvado motorista

Filipe Baptista Tou tem um dos papéis mais importantes da trama: é motorista de táxi e responsável por levar o violino para bem longe de Theo.

Ao HM, Filipe recorda a experiência. “Para começar filmámos este filme durante a pandemia e todos nós estávamos em confinamento, não tínhamos nada para fazer. Conheci o Maxim num podcast, conversámos, e ele disse-me que ia fazer um filme. Um ano depois perguntou-me se queria entrar. Ele deu-me a escolher entre dois personagens, um deles o de motorista de táxi. Fiz os dois, e tinha a ideia de que conseguiria fazer este papel na vida real. Quando fiz o teste, eles disseram: ‘Ok, temos o nosso condutor de táxi'”.

Filipe Baptista Tou destaca a importância de apresentar “The Violin Case” na Europa já que, em Macau, “não são feitos muitos filmes”. “Na maioria, são feitas curtas-metragens e eis que o Maxim decidiu fazer este filme, trabalhando com pessoas de diferentes nacionalidades. É um privilégio para mim estar no filme”, acrescentou.

“Precisamos de mais tempo [para desenvolver a indústria do cinema], porque de facto não temos uma grande indústria de entretenimento em Macau, com compositores, músicos, actores… Macau é muito pequeno, e estamos ainda a tentar mostrar-nos lá fora e conectarmo-nos com mais pessoas e países. O facto de estarmos aqui constitui uma grande oportunidade.”

Por sua vez, Clara Brito confessou que a possibilidade de interpretar Pauline surgiu quando buscava novos desafios. “Foi uma fase em que estava particularmente aberta a novos desafios, e não tinha grandes expectativas. Para mim, era entusiasmante fazer parte do projecto, e estávamos naquele contexto fechado, com Macau parada, e sendo eu da área criativa, interessava-me.”

A apresentação do filme contou com a presença do pintor e artista Manuel San-Payo, que viveu em Macau e partilhou a sua vivência com Konstantin Bessmertny.

14 Set 2026

HK / Incêndio | Acusadas duas empresas e quatro pessoas

A tragédia que atingiu as torres residenciais em Tai Po causando mais de 160 mortos continua a ser investigada. Conclusões deverão ser apresentadas em Outubro

O Governo de Hong Kong acusou duas empresas e quatro pessoas de usarem materiais não-retardantes e violarem normas de segurança nas obras de reparação que causaram o pior incêndio registado na cidade desde 1948.

O Departamento de Edifícios apresentou na quarta-feira 259 acusações contra o empreiteiro principal das obras, Prestige Construction & Engineering, e a consultora Will Power Architects, assim como contra um inspector e três directores das duas empresas.

Os quatro, juntamente com outras três pessoas, já tinham sido, em 10 de Junho, acusados de 25 crimes, incluindo homicídio involuntário, conspiração para cometer fraude, branqueamento de capitais, tentativa de obstrução à justiça e fraude fiscal.

As autoridades sublinharam que foram também removidas janelas resistentes ao fogo ao longo das escadas de emergência para criar aberturas de acesso temporárias, permitindo que o fumo e o fogo invadissem os sete edifícios do complexo de Wang Fuk.

Também na quarta-feira, o Departamento do Trabalho apresentou 25 acusações contra a Prestige Construction & Engineering, a Power Architects e uma pessoa devido à morte de cinco trabalhadores do empreiteiro durante o incêndio. A lei da região semiautónoma chinesa prevê que a negligência na execução de obras pode ser punida com uma multa de até 500 mil dólares de Hong Kong e uma pena máxima de 18 meses de prisão.

O fogo, que deflagrou em 26 de Novembro e se prolongou por mais de 44 horas, matou 168 pessoas no complexo de habitação pública de Wang Fuk, situado na zona de Tai Po, nos Novos Territórios, onde viviam 4.600 pessoas.

Em Dezembro, o líder do Governo de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, criou um comité independente de investigação, com a missão de completar um relatório, em nove meses, sobre “as causas do incêndio” e “apresentar recomendações para prevenir incidentes semelhantes”.

Em Junho, o advogado principal da comissão, Victor Dawes, disse que dois grupos de peritos, a trabalhar de forma separada, concluíram que o elevado número de mortes no incêndio teria sido “totalmente evitável”.

A líder da divisão de ciências forenses do laboratório público de Hong Kong, Lee Wing-man, disse que a causa mais provável do incêndio terão sido pontas de cigarro fumadas por trabalhadores. Em 18 de Agosto, o comité liderado por David Lok Kai-hong, juiz do Tribunal de Primeira Instância do Supremo Tribunal de Hong Kong, adiou para o final de Outubro a entrega do relatório final.

O comité sublinhou que realizou 30 sessões diárias de audiências, entre Março e Julho, onde ouviu depoimentos orais de 80 testemunhas e relatórios periciais. A polícia deteve 22 pessoas por suspeita de homicídio voluntário, além de outras seis por suspeita de fraude. A agência anticorrupção deteve ainda 23 pessoas, incluindo consultores, empreiteiros e membros da associação de condóminos.

11 Set 2026

Saúde | Quase um terço dos alunos do 1º ao 6º ano sofre de miopia

Cerca de 29 por cento dos estudantes de Macau, do 1º ao 6º ano, sofre de miopia e 13,5 por cento de astigmatismo. Os problemas não ficam por aqui: 13,5 por cento têm excesso de peso e 42 por cento sofrem de cáries dentárias. O Governo apelou aos pais para terem em conta a saúde dos filhos

Os jovens de Macau não estão muito saudáveis, de acordo com os dados do Programa de Saúde Escolar 2025/2026, anunciados ontem pelos Serviços de Saúde (SS). As autoridades realizaram um estudo alargado, a estudantes de 97 escolas do território, assim como a Escola de Hengqin Afiliada à Escola Secundária Hou Kong, em que participaram 52 mil alunos do 1º ano ao 6º ano de escolaridade.

O estudo releva que 13,5 por cento dos estudantes inquiridos tem excesso de peso, incluindo casos de obesidade. Do universo de jovens com peso a mais, 13,3 por cento sofre de uma doente de pele (acantose nigricans) que está associada ao risco de diabetes ou doenças cardiovasculares precoces.

Os SS partilharam ainda um estudo do Hospital Kiang Wu a jovens do ensino secundário, que revela que 18,8 por cento dos alunos do 7º ao 9º ano também têm excesso de peso, enquanto 8,8 por cento sofre de má nutrição.

Os dados do Hospital Kiang Wu resultaram de consultas a 546 jovens.

Os resultados do Programa de Saúde Escolar 2025/2026 revelam que os problemas de visão constituem uma das situações mais prevalentes entre os jovens inquiridos. Pouco mais de 29 por cento tem miopia, o que representa cerca de 14.200 jovens, enquanto 13,5 por cento sofre de astigmatismo, mais de 7.000 alunos.

Doces chatices

Entre os 52.000 alunos que participaram no estudo, 37.000 não usam óculos,

apesar de 22,6 por cento sofrerem de problemas como miopia, hipermetropia e astigmatismo, percentagem que corresponde a 8.385 alunos.

Segundo o canal chinês da Rádio Macau, a equipa que conduziu o estudo referiu que os problemas de visão estão a afectar alunos cada vez mais jovens, e tendem a agravar-se com a idade. Por exemplo, o número de estudantes com miopia duplica do 2º ano para o 4º ano de escolaridade.

Face a esta realidade, as autoridades apelaram aos pais para levarem os filhos a consultas de oftalmologia para encontrar soluções que corrijam problemas de visão o mais precocemente possível.

O inquérito demonstra ainda que entre os alunos do 3º e 5º de escolaridade, 42,3 por cento têm cáries dentárias, proporção que representa 5.214 estudantes.

Em relação à triagem auditiva, os resultados não foram tão desanimadores. Os SS indicaram que entre os alunos do 1º ano os problemas auditivos afectam 0,16 por cento das crianças (seis), enquanto no 3º ano a percentagem sobe para 1 por cento (48 alunos). As autoridades indicaram que estas crianças foram encaminhadas para acompanhamento de especialidade médica.

Foi também referido que 3,2 por cento dos alunos do 5º ano sobre de problemas de coluna, o equivalente a 207 jovens. As autoridades de saúde não explicaram a razão para os resultados serem apresentados de forma escalonada e não global. Porém, apelaram aos pais para tomarem atenção à saúde dos filhos, aconselhando que façam, pelo menos, uma hora de exercício físico por dia, e o tempo em frente a ecrãs limitado a duas horas por dia.

11 Set 2026

Autocarros | Song Pek Kei pede melhores ligações para Hac Sá

Apesar do aproximar do fim do Verão, a deputada defende que a Praia de Hac Sá continua a ser muito procurada, pelo que é necessário aumentar a frequência dos autocarros públicos

A deputada Song Pek Kei pediu ao Governo para criar melhores ligações de autocarro para a Praia de Hac Sá, devido à crescente procura por residentes e turistas. A solicitação consta de uma interpelação divulgada ontem e tem em conta a redução do número de autocarros ligada ao fim da época balnear.

Segundo a deputada ligada à comunidade de Fujian, “o número de residentes e turistas que se deslocam” à Praia de Hac Sá e zonas próximas “não pára de crescer”, independentemente da época do ano.

Todavia, a legisladora avisa que as ligações por transportes públicos são tidas como insuficientes. “Todos os fins-de-semana e feriados continuam a registar-se problemas como o congestionamento das estradas em redor de Hac Sá, tempo excessivo de espera pelos autocarros e a escassez de lugares de estacionamento”, descreve Song Pek Kei.

A deputada alerta ainda que não se espera que a situação melhore a curto prazo, uma vez que com o final do Verão o autocarro n.º 15 deixou de passar pela Praia de Hac Sá, assim como o autocarro nocturno N3.

Neste cenário, as viagens são feitas nos autocarros n.º 26A e n.º 21A, que para Song têm muitos problemas. Em relação ao autocarro 21A, a deputada aponta que o “intervalo entre as viagens é relativamente longo”, o que faz acumular o número de passageiros. No 26A, tido como a ligação principal, a situação não é muito melhor, e Song indica que a viatura “fica frequentemente cheia a meio do percurso, fazendo com que os residentes por vezes enfrentem longos tempos de espera ou não consigam embarcar”.

Face às dificuldades, a deputada questiona o Executivo sobre a existência de planos para ajustar a frequência dos autocarros e facilitar as deslocações para a praia.

Os mais utilizados

Além das ligações à praia, a deputada alerta também para a necessidade de melhorar outras carreiras. Com recurso aos dados oficiais, a deputada aponta que entre Janeiro e Junho o volume de passageiros dos autocarros públicos atingiu os 120 milhões, o que representa um aumento anual de 6,12 por cento.

Contudo, Song Pek Kei considera que as ligações de autocarros ainda apresentam muitos problemas, como acontece quando existe uma “sobreposição de rotas em zonas turísticas muito frequentadas”, indicando os exemplos da Praia Grande e a Avenida de Almeida Ribeiro. Para a deputada, esta sobreposição “provoca filas de veículos nas paragens que resultam em congestionamentos na rede viária”, além de fazer com que o sistema seja menos eficiente.

Em relação a este problema, Song questiona o Governo sobre a possibilidade de repensar as ligações existentes, com uma maior aposta em autocarros que liguem pontos específicos, de forma a reduzir a sobreposição excessiva.

11 Set 2026

Museu da Cultura | Aberto concurso para projecto de arquitectura

O Instituto Cultural convidou 10 equipas de arquitectura para apresentarem propostas para o futuro Museu Nacional da Cultura. O edifício vai ficar localizado perto da Torre de Macau, à frente do Tribunal de Segunda Instância, e a data de abertura está prevista para 2029

O Governo convidou 10 equipas a apresentarem propostas de arquitectura para o futuro Museu Nacional da Cultura. A informação foi revelada ontem, através de uma conferência de imprensa do Instituto Cultural (IC), e o objectivo passa por fazer com que a primeira fase do museu entre em funcionamento em 2029.

Segundo a apresentação de ontem, o futuro museu vai ficar localizado na Zona B dos Novos Aterros, à frente do Complexo da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e do Edifício do Tribunal de Segunda Instância.

No entanto, o projecto de concepção arquitectónica ainda tem de ser definido, o que vai ser feito depois de um concurso por convite com a participação de 10 equipas de arquitectura: “O museu é uma instalação cultural de referência para o futuro de Macau, vai ser uma obra de grande escala e com elevadas exigências de concepção arquitectónica, devendo corresponder aos padrões técnicos internacionais de alto nível”, afirmou a presidente do IC. “O Governo da RAEM já convidou sete equipas de concepção arquitectónica de renome mundial e de topo, bem como três equipas locais de concepção arquitectónica, num total de dez equipas, para apresentarem propostas”, acrescentou.

Além das três equipas locais, três das convidadas são provenientes do Interior, havendo igualmente quatro equipas de Portugal, Suíça, Reino Unido e Holanda. Após a elaboração das propostas vai haver uma selecção, por parte de um júri constituído por membros dos serviços públicos e especialistas em planeamento urbano, arquitectura e museologia.

Funcionamento em 2029

As autoridades esperam que o projecto de arquitectura seja escolhido até ao final do ano. Por este motivo, a presidente do IC, Deland Leong, avançou que ainda não é possível fazer uma previsão sobre o orçamento da infra-estrutura.

Além disso, as autoridades esperam que o museu entre em funcionamento em 2029. A construção vai ser dividida em duas fases, com a primeira, que se espera de menor dimensão, a entrar em funcionamento nesse ano. A segunda fase só será aberta posteriormente.

O edifício do museu vai ter uma área de cerca de 100 mil metros quadrados, dos quais 80 mil metros quadrados vão ser destinados ao edifício principal, que vai receber as áreas de exposição, depósito de colecções, espaços de investigação, salas para intercâmbio cultural, entre outros espaços. Haverá também uma zona comercial destinada ao lazer e à cultura, com cerca de 20 mil metros quadrados, para lojas, restaurantes, instalações de lazer para as famílias e um centro de incubação para artistas. O projecto prevê igualmente um estacionamento, mas a dimensão ainda não foi decidida.

Zona Cultural

O Museu Nacional da Cultura é um dos três projectos da futura Zona Cultural do território, que tem como designação oficial Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados de Macau. Além deste museu, fazem ainda parte do projecto o Centro Internacional das Artes Performativas de Macau e o Museu Internacional de Arte Contemporânea.

“A Zona Cultural tem como objectivo constituir um novo marco cultural do futuro de Macau, e o Museu Nacional da Cultura de Macau vai ser lançado em primeiro lugar”, explicou a presidente do IC. “Este museu tornar-se-á uma ponte cultural entre a China e o Ocidente, uma área de divulgação de conhecimento, uma sala de visitas da cidade e um motor de turismo cultural”, destacou.

Deland Leong apontou também que o Museu Nacional da Cultura vai ser desenvolvido em coordenação com o Museu Nacional da China, em Pequim, e que se espera criar um centro de visita para mostrar a cultural de Macau, onde existe uma fusão com predominância da cultura chinesa.

Autocarros nas Ilhas

O Museu Nacional de Cultura vai ocupar parte de um espaço que actualmente serve para o estacionamento de autocarros públicos e de turismo. Com as obras a começar no próximo ano, o estacionamento destes veículos será alterado. Ontem, o chefe do Departamento de Planeamento Urbanístico da Direcção dos Serviços de Obras Públicas, Leong Io Hong, indicou que as autoridades vão encontrar alternativas na Taipa ou em Coloane. No entanto, não foram indicados pormenores sobre os futuros estacionamentos dos veículos pesados.

11 Set 2026

Hengqin | Arrancou construção de novo centro meteorológico nacional

Começou ontem a construção do Centro Internacional de Intercâmbio de Dados do Sistema Terrestre, em Hengqin, a primeira instituição do género a nível nacional que irá monitorizar desastres naturais e emitir alertas. O centro deverá começar a operar na capacidade máxima daqui a seis anos

Foi ontem oficialmente lançada a construção do primeiro Centro Internacional de Intercâmbio de Dados do Sistema Terrestre do País (Macau), em Hengqin, construído em conjunto pela Administração Meteorológica da China, o Governo da RAEM e o Executivo da zona de cooperação aprofundada em Hengqin.

O centro irá funcionar numa base de cooperação científica e tecnológica no domínio da meteorologia entre o Interior da China e Macau, com o objectivo de monitorizar desastres naturais, lançar alertas de forma mais atempada e aperfeiçoar previsões meteorológicas.

Foi ontem também assinado um acordo-quadro de cooperação entre Macau, Hengqin e a Administração Meteorológica da China, que estabelece um período de construção de três anos, e mais três anos até que o centro esteja a operar na sua capacidade máxima.

A expressão “sistema terrestre” refere-se ao estudo da litosfera, atmosfera, hidrosfera e biosfera, e, segundo um comunicado emitido ontem pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) o centro “visa promover o desenvolvimento e a utilização do ecossistema de elementos de dados, criar uma ponte de cooperação para dados do sistema terrestre, construir uma plataforma de abertura ao exterior de alto nível”.

O centro terá também como metas “impulsionar a exportação de produtos de dados de elevada qualidade e capacidades de serviço, formando um mercado unificado para elementos de dados do sistema terrestre na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”.

O novo petróleo

O director da Administração Meteorológica da China, Chen Zhenlin, destacou que este será “o primeiro centro de intercâmbio de dados construído pela Administração Meteorológica da China no âmbito da sua implementação global”.

As autoridades referem que “os dados do sistema terrestre, enquanto ‘novo petróleo’ da era inteligente, possuem vantagens únicas de cobertura global, penetração contínua e disponibilidade permanente. Ao associarem-se e integrarem-se com uma vasta gama de cenários de produção e da vida quotidiana, tornam-se progressivamente um elemento de produção fulcral e um recurso estratégico fundamental para sustentar o desenvolvimento da economia digital”.

11 Set 2026

11 de Setembro | Ataque às Torres Gémeas aconteceu há 25 anos

A 11 de Setembro de 2001, Jorge Silva tinha acabado de apresentar o telejornal quando se deparou com a catástrofe do outro lado do globo que viria a mudar o mundo. O analista Pedro Ponte e Sousa destaca como a queda das Torres Gémeas alterou “profundamente a ordem internacional”

O 11 de Setembro foi há 25 anos e, tantos anos depois, a imagem da queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, após o embate de dois aviões desviados por terroristas da Al-Qaeda, ainda permanece na memória vívida. O mundo parou e as televisões permaneceram ligadas a imagens que pareciam ficção, mas que eram terrivelmente reais.

Em Macau, Jorge Silva, pivot recentemente aposentado da TDM – Teledifusão de Macau – tinha acabado de apresentar o telejornal, o relógio batia as 21h. “Recordo-me perfeitamente desse dia porque acabei o telejornal como habitualmente, por volta das nove horas, e quando chego à redacção, um colega meu da altura que já não é jornalista, Rui Moura, disse-me: ‘Jorge, vê a televisão porque um avião acaba de bater no World Trade Center’. Por um segundo, perguntei: ‘Isto é no World Trade Center de Macau? O que se passa?’. Liguei a televisão, e percebi que era em Nova Iorque, e era uma coisa medonha. Logo a seguir, outro avião.”

Jorge Silva ligou ao pai, que estava em Portugal, perguntando-lhe se estava a ver o horror em directo. “O meu pai respondeu: ‘Isto é a Terceira Guerra Mundial’. Assim mesmo.”

A actualidade noticiosa dos anos seguintes foi pautada pelo ataque às Torres Gémeas e os seus protagonistas: Osama Bin Laden, anos mais tarde capturado e morto pelos Estados Unidos da América (EUA), a organização que liderava, a Al-Qaeda, e o terrorismo como alvo a abater.

“Pegámos [a TDM] no dia seguinte, porque naquele dia não havia mais nenhum serviço noticioso. Por umas horas ninguém sabia exactamente o que estava a acontecer, mas o nome de Osama Bin Laden já estava a circular. Foi algo inusitado, ninguém imaginaria uma tragédia como essa. Aquilo transformou as nossas vidas e foi matéria noticiosa durante anos.”

O crescimento de Pequim

Na visão do analista Pedro Ponte e Sousa, investigador do IPRI – Instituto Português de Relações Internacionais e analista político na RTP, “o 11 de Setembro mudou profundamente a ordem internacional, mas talvez de uma forma diferente daquela que Washington imaginou”.

Isto porque “os atentados permitiram aos EUA transformar o combate ao terrorismo no princípio organizador da sua política externa durante quase duas décadas. O resultado foi a chamada ‘guerra global contra o terrorismo’, com o Afeganistão, Iraque, Guantánamo, operações extraterritoriais, assassinatos selectivos e uma extraordinária expansão dos poderes de vigilância”.

A Guerra no Iraque levou, no entender do analista, a uma “erosão” da ordem internacional. “A invasão do Iraque em 2003, fundada em alegações sobre armas de destruição maciça que se revelaram falsas, o combate ao terrorismo deixou de ser apenas uma política de segurança e tornou-se uma espécie de licença geopolítica para o exercício da força.”

Desde então, os EUA “concentraram enormes recursos políticos, militares e financeiros no Médio Oriente e na ‘guerra ao terror'”, enquanto “a China consolidou a sua ascensão económica e estratégica”.

Para Pedro Ponte e Sousa, a China tornou-se, nos 20 anos que se seguiram, “numa potência económica global e progressivamente numa potência política, tecnológica e militar. A ‘guerra global contra o terrorismo’, que pretendia consolidar a primazia norte-americana, contribuiu também para criar as condições em que a China pôde reduzir a distância em relação aos EUA”, referiu.

Mudanças práticas

Jorge Silva recorda o “medo” que pairava por toda a parte e mudanças no dia-a-dia das pessoas, tal como na forma de viajar. “Não podíamos transportar determinados produtos que antes transportávamos na mala de mão e que passaram a ir para o porão. Começou também um maior controlo das transferências bancárias”, graças a suspeitas que, na altura, pairavam sobre financiamentos e o envolvimento de estudantes nos atentados terroristas.

O ex-jornalista recorda também como, a seguir ao 11 de Setembro, “começaram pequenos ataques contra alvos ocidentais”. “Aqui na Ásia, na Indonésia, discotecas e restaurantes ocidentais eram alvo de ataques de células ligadas à Al-Qaeda, por parte de terroristas radicais e, sobretudo, anti-Ocidente. Percebemos que o mundo tinha mudado. E mudou para sempre”, frisou.

Jorge Silva não tem dúvidas que tudo isso culminou no actual panorama político nos EUA, pautado pela era Trump. “A situação agravou-se nos últimos tempos com Donald Trump, um presidente norte-americano completamente paranoico. Iniciaram-se uma série de aventuras hegemónicas norte-americanas, e não apenas anti-islâmicas, criando-se uma grande agitação no mundo, e estamos a pagar esse preço.”

A IA na nova era

Pedro Ponte e Sousa diz que a grande conclusão que se deve tirar do 11 de Setembro, e de tudo o que sucedeu nos 25 anos posteriores, é que “não se derrota uma ideologia através da guerra permanente”.

“A Al-Qaeda foi profundamente debilitada e o Estado Islâmico perdeu o território que chegou a controlar, mas o terrorismo jihadista não desapareceu. E surgiram novas formas de extremismo, incluindo fenómenos de radicalização online e comunidades violentas sem uma estrutura organizacional clássica.”

O analista destaca que hoje existem “redes digitais descentralizadas e com jovens radicalizados através da Internet”. “A grande lição deveria ser que a segurança não pode ser reduzida à dimensão militar. Quando se responde a um fenómeno político, social e ideológico fundamentalmente com bombardeamentos, ocupações e repressão, pode-se destruir organizações concretas, mas não se eliminam necessariamente as condições que alimentam a violência.”

O analista não esquece as novas tecnologias, sobretudo a inteligência artificial (IA), e as novas formas de conflito, com o perigo da “utilização da ameaça tecnológica para justificar uma nova expansão dos mecanismos de vigilância e controlo”.

“Foi exactamente isso que aconteceu depois de 2001. O medo legítimo do terrorismo foi utilizado para normalizar formas de vigilância que, em circunstâncias normais, seriam politicamente muito mais difíceis de aceitar. Com a IA, esse risco é ainda maior”, rematou.

Estudo | Mais de 80% dos americanos lembram-se do ataque às Torres Gémeas

Um inquérito realizado entre 24 e 30 de Agosto deste ano pelo Pew Research Center destaca que muitos adultos se recordam perfeitamente do 11 de Setembro e dos pequenos detalhes que povoaram as suas vidas nesse dia.

Segundo o centro de estudos, “muitos americanos recordam esse dia com clareza”, já que “83 por cento dos adultos nascidos antes de 2001 – incluindo 93 por cento daqueles que tinham 10 anos, ou mais, na altura – afirmam lembrar-se exactamente onde estavam ou o que estavam a fazer quando ouviram a notícia”.

O Pew Research Center destaca como “à medida que os ataques se tornam mais distantes no tempo, a percentagem de adultos americanos que não viveram aquele dia continua a aumentar”, já que “10 por cento dos adultos de hoje nasceram depois de 2001 e só conhecem os ataques através do que aprenderam com outras pessoas”.

Além disso, os inquiridos que são hoje adultos, e que têm entre 18 e 24 anos, diz ter ficado a saber do 11 de Setembro pela primeira vez “nas aulas ou através de trabalhos escolares”, representando 60 por cento de todos os participantes.

“Uma percentagem menor afirma ter tomado conhecimento dos ataques pela primeira vez através da família ou de amigos, 16 por cento; ao ler ou ver algo por conta própria, 8 por cento; ou de outra forma, 1 por cento.”

Para a realização do inquérito, o Pew Research Center entrevistou 5.166 adultos norte-americanos.

O inquérito comprova como o ataque às Torres Gémeas deixou “efeitos profundos no país”. “As sondagens realizadas na sequência desses acontecimentos revelaram um sentimento generalizado de medo, raiva e tristeza, a par de um apoio esmagador da opinião pública a uma acção militar contra os responsáveis”, indica o think tank.

11 Set 2026

Língua portuguesa | Macau e Portugal retomam diálogo sete anos depois

A presidente do Instituto Camões (IC) destacou que a reunião de ontem da Subcomissão Mista de Língua Portuguesa e Educação marca a retoma do diálogo entre Portugal e Macau, após sete anos de interregno.

“Foi um momento muito significativo, é a revitalização, a retoma de um diálogo que não acontecia desde 2019”, sublinhou Florbela Paraíba, num evento realizado no consulado-geral de Portugal no território.

A Comissão Mista Portugal-Macau não se reúne desde antes da pandemia, “um interregno maior” que Paraíba justifica não apenas com a covid-19, mas também com várias mudanças nos governos de Portugal e da região chinesa.

A presidente do IC sublinhou que, desde que Macau voltou a abrir as fronteiras, no início de 2023, houve “importantes momentos de visitas bilaterais que fortaleceram a relação” com Portugal. Mas a diplomata disse que os dois lados reconheceram a existência de “pontos onde há muito a fazer”, dando como exemplo o reforço da formação contínua e maior investimento em tradutores e intérpretes.

Paraíba apontou como meta “revitalizar a rede de geminações” entre escolas de Macau e de Portugal, que disse ser “muito importante”, também para a região chinesa, onde o português é língua oficial, mas o cantonês é dominante.

A presidente do IC defendeu ainda mais parcerias e intercâmbios e estágios, tanto para “um maior acesso ao ensino do mandarim em Portugal” como para dar mais oportunidades a alunos de Macau que queiram estudar português. O território chinês “tem todas as condições” para apostar num “bilinguismo efectivo” e assim “transformar um legado histórico em oportunidades concretizadas”, sublinhou a diplomata.

Dominar a língua portuguesa representa para os residentes de Macau uma vantagem, disse Paraíba, tendo em conta o papel que a China atribuiu à cidade, de plataforma de serviços económicos e comerciais com os mercados lusófonos.

Mista adiada

No mesmo evento, o cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong, Alexandre Leitão, disse esperar que a reunião de ontem sirva de “antecâmara para a desejada reunião da Comissão Mista que esperemos se realize daqui a pouco tempo”.

Em Setembro de 2025, o primeiro-ministro português Luís Montenegro disse, durante uma visita à região chinesa, que a Comissão Mista Portugal-Macau iria reunir-se em Fevereiro, algo que não chegou a acontecer. Montenegro e o líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai, voltaram a encontrar-se em Abril passado, em Lisboa, mas da visita não saíram quaisquer novidades sobre a retoma da Comissão Mista.

Em 10 de Junho, durante a cerimónia do Dia de Portugal, Sam Hou Fai anunciou que espera realizar este ano, em Macau, a 7.ª reunião da Comissão Mista e garantiu que a região fará “todos os preparativos necessários” para o encontro.

10 Set 2026

Restauração | Desvalorizado impacto da valorização do renminbi

Com 60 por cento dos produtos importados do Interior, a valorização pode fazer com que os produtos fiquem mais caros para os consumidores. A Associação de Desenvolvimento da Indústria de Restauração e Bebidas de Macau aponta que há capacidade de manter os preços nos próximos tempos

Apesar da valorização do renminbi face ao dólar, a Associação de Desenvolvimento da Indústria de Restauração e Bebidas de Macau considera que a pressão do aumento dos custos operacionais para os negócios locais ainda não se faz sentir.

Nas últimas semanas, o renminbi tem valorizado face à moeda americana e ontem um dólar equivalia a 6,7 renminbis. No entanto, esta variação pode ter um impacto na restauração local, uma vez que a pataca acompanha as flutuações da moeda americana e muitos dos produtos são importados do Interior, logo pagos em renminbis.

Em declarações ao jornal Ou Mun, o presidente da associação, Ieong Weng Seng, destacou que no futuro mais próximo os negócios vão conseguir lidar com a valorização da moeda chinesa.

Ieong explicou que 60 por cento dos produtos da restauração provêm do Interior, enquanto 40 por cento têm origem em outros mercados. No entanto, como os empresários tendem a assinar contratos de abastecimento e a fazer pagamentos mensais, a subida dos preços demora cerca de 30 dias a fazer-se sentir.

O presidente da associação também recusou, para já, a possibilidade de haver um aumento dos preços para os consumidores. Ieong Weng Seng argumentou que, como o território atravessa uma situação económica mais exigente, os comerciantes tendem a sacrificar a margem de lucro para não afastar os clientes.

Ao mesmo tempo, Ieong clarificou que o aumento dos preços não deve acontecer a curto prazo, porque todos os aumentos têm de ser previamente indicados ao Governo.

Stocks ajudam

Além disso, o responsável destacou que há stock dos produtos importados do Interior, principalmente no que diz respeito à carne congelada. Por esta razão, para a maioria dos restaurantes de Macau, onde cerca de 70 por cento usam carne congelada, temporariamente não se vai sentir o impacto da valorização do renminbi. No entanto, nas cozinhas de luxo, como por exemplo, os restaurantes com estrelas Michelin, Ieong Weng Seng apontou que vão sofrer mais pressão, dado que usam mais ingredientes frescos.

No caso dos vegetais, a pressão vai ser mais generalizada porque são produtos com uma vida útil curta.

Num olhar mais geral sobre a restauração, Ieong Weng Seng afirmou que o maior problema são as mudanças estruturais no modelo de consumo e da origem dos consumidores. O presidente da Associação de Desenvolvimento da Indústria de Restauração e Bebidas de Macau explicou que desde que os jogadores deixaram de frequentar o ZAPE devido ao encerramento dos casinos-satélite, que o consumo teve uma redução significativa. O responsável também explicou que os novos clientes daquela zona gastam muito menos dinheiro.

10 Set 2026

Trânsito | CPSP vai recolher dados 3D para analisar acidentes

A polícia espera introduzir em breve câmaras que analisam dados em três dimensões para apurar causas de acidentes rodoviários. Entre Janeiro e Agosto, foram instaurados mais de 870 processos por não concessão de prioridade em passadeiras, quase o dobro no mesmo período de 2025

As autoridades policiais estão investidas na resolução de um dos problemas que tem provocado mais preocupações nos últimos tempos: a sinistralidade rodoviária e os atropelamentos nas ruas de Macau.

O segundo-comandante substituto do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), Wong Kim Hong, afirmou ontem que serão instalados brevemente câmaras com scanners 3D que recolhem dados tridimensionais para análise e apuramento das causas de acidentes.

Esta será mais uma ferramenta que as autoridades policiais vão poder usar para produzir relatórios de análise a pontos críticos em termos de sinistralidade na rede rodoviária para entregar à Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego. Estes relatórios podem conter sugestões, como a remoção de passadeiras, como já aconteceu no cruzamento da Avenida de Almeida Ribeiro e da Rua do Visconde Paço de Arcos, e noutros locais críticos para peões.

Em declaração no programa matinal Fórum Macau, do canal chinês da Rádio Macau, o representante do CPSP afirmou que entre Janeiro e Agosto deste ano, foram instaurados mais de 870 processos por não concessão de prioridade a peões em passadeiras, volume que representa quase o dobro face aos mesmo período de 2025.

O arco-íris

Outra novidade avançada por Wong Kim Hong, diz respeito à passagem fronteiriça de veículos de Macau para Hengqin. O dirigente do CPSP referiu que as autoridades estão a testar um modelo de controlo através de reconhecimento da íris e facial. A tecnologia, ainda em fase experimental, irá permitir aos condutores atravessarem a fronteira para Hengqin sem terem de sair do automóvel.

A medida faz parte de um plano de modernização de controlo fronteiriço que deverá ser instalada em todas as 30 faixas da fronteira entre Macau e Hengqin. Wong Kim Hong indicou aos microfones da emissora pública que o objectivo das autoridades é ter esta tecnologia a funcionar plenamente até ao fim de 2027.

O responsável acrescentou que nos postos fronteiriços de Qingmao, Hengqin e Ponte de Hong Kong-Zhuhai-Macau, todos os 204 canais de auto-atendimento inteligente com reconhecimento facial registaram a passagem de mais de 600 mil pessoas entre Janeiro e Agosto deste ano.

10 Set 2026

Dia do Professor | FAOM pede medidas para garantir empregos

Numa altura de redução da natalidade, Ella Lei, Leong Sun Iok, Lam Lon Wai e Leong Pou Iu pedem ao Executivo que tome medidas para assegurar emprego para os docentes, mesmo que tenha de haver uma reconversão profissional

Os deputados Ella Lei, Leong Sun Iok, Lam Lon Wai e Leong Pou Iu pedem ao Governo que tome medidas para assegurar os empregos dos professores, numa altura de redução do número de alunos. A mensagem foi divulgada ontem pelos membros da Federação das Associações dos Operários, em antecipação ao Dia do Professor, assinalado hoje na China.

Segundo os legisladores, no ano passado houve um total de 2.870 nascimentos no território, com 1.421 a ocorrerem na primeira metade do ano. Contudo, Entre Janeiro e Junho deste ano registou-se uma redução de 81 nascimentos, para um total de 1.340.

A tendência é tida como preocupante pelos quatro deputados: “O declínio contínuo da taxa de natalidade afecta gravemente a estabilidade profissional dos docentes”, foi alertado. “Algumas escolas enfrentam sérios desafios na captação de alunos, tendo já surgido situações de redução de turmas e de pessoal, prevendo-se que essa tendência de redução se possa intensificar no futuro”, foi acrescentado.

Neste contexto de maior insegurança laboral, os legisladores pedem às autoridades que “optimizem a afectação de recursos educativos em função das variações da população em idade escolar”, “ajustem o número de alunos por turma no regime de turmas reduzidas”, “optimizem o rácio professor-turma”, “revejam o sistema de redução de horas lectivas e tentem” e procurem “estabilizar e optimizar a equipa docente através do fluxo natural de saídas”.

Ao mesmo tempo em que surgem cada vez mais planos de escolas para se fundirem e transformarem, Ella Lei, Leong Sun Iok, Lam Lon Wai e Leong Pou Iu pedem ao Executivo que desenvolva acções de formação para os docentes, para que possam adaptar-se a novas carreiras e encontrar outras oportunidades profissionais.

Na mensagem, os professores são considerados uma das pedras basilares da sociedade, pelo que se pede uma maior valorização da profissão.

Saúde mental

Apesar de o dia ser de celebração dos docentes, os legisladores não esquecem os alunos, apelando a que o Governo e a sociedade prestem mais atenção à saúde mental.

Em concreto, os deputados pretendem que as escolas reforcem os quadros com profissionais que ajudem os estudantes a lidar com os problemas mentais: “Com as mudanças no desenvolvimento socio-económico, os problemas de saúde mental dos estudantes têm atraído gradualmente a atenção da sociedade”, foi reconhecido. “Sugere-se que as autoridades aumentem o investimento de recursos e elevem a proporção de pessoal especializado, como conselheiros escolares, permitindo que as escolas, ao desenvolverem um ensino diversificado, prestem também atenção ao desenvolvimento da saúde mental dos alunos, promovendo o seu crescimento integral”, foi defendido.

10 Set 2026

Desporto | Vong pede esclarecimentos sobre pista no gelo prometida

O deputado Vong Hou Pio recorda a promessa do Instituto do Desporto de construir uma pista de gelo e pergunta quanto tempo o projecto vai continuar suspenso

O deputado Vong Hou Pio quer saber se o Governo mantém os planos para construir uma pista de gelo. O tema surge numa interpelação escrita elaborada pelo legislador e contabilista.

Na perspectiva do deputado, a população está cada vez mais interessada em envolver-se em actividades desportivas e o número de praticantes tem aumentado nos últimos anos. No entanto, o território enfrenta o problema crónico de falta de terrenos para instalações e de excesso de utilização das existentes.

Vong pretende saber se o Instituto do Desporto (ID) vai construir instalações para “desportos especiais”, que haviam sido prometidas no passado. “Relativamente à garantia de instalações para desportos especiais, como o hóquei no gelo, o Governo tinha planeado a construção de uma pista de gelo padrão na Taipa, embora o plano tenha sido posteriormente suspenso”, relatou o deputado. “O ID manifestou que continuará a procurar locais adequados e a estudar a viabilidade da construção de uma pista de gelo. As autoridades vão reservar terrenos na Zona A ou noutros locais apropriados para a construção de uma pista de gelo conforme os padrões internacionais?”, perguntou.

A promessa do ID de fazer uma pista de gelo surgiu em 2022, em plena pandemia, quando Pequim organizou os Jogos Olímpicos de Inverno. Durante esse período, vários deputados e membros do Governo defenderam a necessidade de apostar em desportos de Inverno.

Como consequência da onda de entusiasmo, surgiu a promessa de construção de uma pista com as dimensões oficiais para a prática de hóquei no gelo. No passado, havia uma pista no Parque de Diversões da Future Bright, junto ao Jardim de Camões, mas sem tamanho suficiente para corresponder aos padrões internacionais da modalidade.

Casa às costas

Vong Hou Pio lamenta ainda que a falta de uma pista de gelo esteja a prejudicar a selecção de Macau. “Tomando como exemplo o hóquei no gelo, a equipa de hóquei no gelo de Macau já obteve excelentes resultados em várias competições internacionais e chegou mesmo a representar Macau nos Jogos Asiáticos de Inverno”, relatou. “Contudo, esta selecção, que tantas vezes alcançou grandes feitos, enfrenta actualmente a difícil realidade de ‘não ter pista para treinar’. A única pista de gelo existente em Macau encontra-se em obras desde 2023, sem previsão de reabertura”, indicou.

Face à falta de instalações, o deputado revela que os atletas estão “obrigados a deslocar-se a Zhuhai para treinar após o trabalho ou as aulas, regressando muitas vezes a Macau já ao final da noite, o que aumenta significativamente o custo em termos de tempo e reduz drasticamente a eficácia do treino”. “A escassez de instalações não só afecta a preparação dos atletas em actividade, como também desencoraja novos talentos, podendo a médio e longo prazo provocar uma ruptura na formação de novos talentos qualificados”, defendeu.

10 Set 2026

Mao Zedong | A morte do Grande Timoneiro, 50 anos depois

Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, marcando uma mudança política profunda no país. 50 anos depois, a data não se reflectiu em cerimónias oficiais na China, embora Mao nunca tenha deixado de ter importância ou de ser uma figura política omnipresente no país

Cinquenta anos depois da morte de Mao Zedong, a China deixou ontem passar a efeméride sem cerimónias oficiais ou destaque na imprensa estatal, apesar da omnipresença simbólica do fundador da República Popular. Nas páginas da agência noticiosa oficial Xinhua, do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), ou do Global Times, o aniversário estava ausente dos principais destaques durante a manhã. Contudo, no mausoléu erguido no centro da praça Tiananmen, onde o corpo embalsamado de Mao permanece exposto, o horário foi prolongado em três horas e as reservas para toda a semana estão esgotadas.

Por seu lado, a Xinhua dedicou uma ampla cobertura aos 90 anos da vitória da Longa Marcha, outro marco da história revolucionária chinesa. A agência estatal tem ainda uma reportagem fotográfica sobre o local de onde partiu o Exército Vermelho para a Longa Marcha, em Yudu, na província de Jiangxi, e que é hoje ponto turístico para muitos. O local tem um museu que serve de memorial a este episódio histórico, descrevendo a Xinhua que as autoridades de Yudu têm “aproveitado os abundantes recursos turísticos relacionados com a temática revolucionária para diversificar as experiências turísticas, promovendo tanto a herança do espírito da Longa Marcha como o desenvolvimento do turismo local”.

A realidade é outra

Mao permanece ainda hoje na paisagem política chinesa. O seu retrato continua afixado sobre a Porta da Paz Celestial, junto à Praça Tiananmen, no centro de Pequim, o rosto figura em todas as notas de renminbi e o “Pensamento Mao Zedong” integra a ideologia oficial do PCC. O seu legado permanece ainda indissociável das campanhas políticas que marcaram os seus quase 30 anos no poder e, sobretudo, da Revolução Cultural (1966-1976), lançada na última década da sua vida.

Apresentada como uma campanha para “aprofundar a luta de classes sob a ditadura proletária”, a Revolução Cultural mobilizou milhões de jovens Guardas Vermelhos contra alegados “revisionistas”, “reacionários” e “inimigos de classe”, mergulhando o país numa década de purgas, perseguições e violência.

O académico e comentador chinês Zhang Hongliang argumentou à agência Lusa, no entanto, que aquela foi “a única altura em que os pobres na China foram tratados com dignidade”. “Tinham habitação e educação gratuita e boas pensões. E, acima de tudo, a coragem para se erguerem perante burocratas e intelectuais” – então designados de “inimigos de classe” -, descreveu.

Professor de Economia na Central University for Nationalities, em Pequim, Zhang é um dos mais proeminentes representantes da extrema-esquerda chinesa, uma facção que se bate pelo regresso da China à ortodoxia maoista. O derramamento de sangue constituiu uma “necessária intervenção cirúrgica na sociedade chinesa”, disse.

Yu Xiangzhen tinha 13 anos quando se juntou aos Guardas Vermelhos e começou a perseguir professores e outros “inimigos de classe”. “Ninguém encarava as nossas acções como erradas, nem sequer parava para pensar, limitava-me a seguir ordens superiores”, contou. Para aquela adolescente, Mao “era como um deus”.

“Acima do partido”

O próprio PCC classificou posteriormente a Revolução Cultural como um grave erro, mas nunca repudiou o homem que fundou a RPC e devolveu a dignidade e a soberania à China. Isso ajuda, em parte, a explicar por que razão, meio século depois, a sua figura permanece indispensável à legitimidade política do regime.

Sob a liderança do actual Presidente Xi Jinping, regressaram ainda conceitos associados à era Mao, incluindo a unidade ideológica, a centralização do poder e o espírito de “luta”, embora especialistas rejeitem uma equivalência entre os dois líderes.

“Mao estava acima do Partido”, enquanto Xi é “um homem do Partido por inteiro”, explicou Jean Christopher Mittelstaedt, professor da Universidade de Zurique.
A nostalgia é visível nas gerações mais antigas. Num antigo complexo habitacional maoista de Pequim, Zhang Qiwei lamentou a sociedade produzida por quase cinco décadas de reformas económicas, iniciadas após a morte do fundador da República Popular. “O povo está dividido; existe um materialismo excessivo”, afirmou. “No tempo de Mao, trabalhava-se arduamente sem se pensar em dinheiro. Lutava-se por um ideal comum”, acrescentou.

O legado de Deng

Dois anos depois da morte de Mao Zedong, a China entrava num período de Reforma e Abertura de que Deng Xiaoping foi um dos protagonistas. Apesar de Mao ter designado Hua Guofeng para a liderança do partido, a verdade é que Deng ascendeu no poder em 1978. A sua estátua de bronze encontra-se hoje no topo do parque Lianhua Hill Park, em Shenzhen, demonstrando a importância desta figura política para o país.

Nos 120 anos do nascimento de Deng, celebrados em 2024, a Xinhua destacou, em reportagem, os seus grandes feitos. Numa reportagem da agência foi entrevistado Lan Zongguo, camponês de 58 anos natural de Huaqiao, cidade de Guang’an, terra natal de Deng Xiaoping. E este destacou que “as reformas lideradas pelo falecido dirigente chinês colocaram tigelas de arroz nas mãos das suas quatro irmãs”.

Huaqiao é hoje conhecida pela produção de arroz, mas, nos anos 70, havia ainda escassez e muitas normas patriarcais que condicionavam a produção agrícola. Assim, Lan era o único membro da família autorizado a comer a modesta ração de arroz, lê-se na reportagem. “À hora do jantar, era o único dos filhos a receber uma tigela de arroz. As minhas duas irmãs mais velhas comiam silenciosamente a sua porção de papa de milho, enquanto as minhas irmãs mais novas se juntavam à minha volta, na esperança de conseguir uma colherada de arroz”, contou.

Deng Xiaoping foi responsável não só pela implementação das Zonas Económicas Especiais, que deram um impulso à zona sul do país e a uma maior industrialização, como também criou, no início da década de 80, o “sistema de responsabilidade por contrato familiar”, reforma que atribuía terras colectivas a famílias individuais, permitindo aos agricultores gerir a sua própria produção e ficar com a maior parte das colheitas. Foi isso que trouxe mais comida à família de Lan.

A Xinhua descreve ainda como o “processo de Reforma e Abertura liderado por Deng deu início à histórica transformação da China, que passou de uma economia planificada, com um Produto Interno Bruto per capita de cerca de 200 dólares norte-americanos, para a segunda maior economia do mundo”. Shenzhen tornou-se, em 1980, numa das primeiras ZEE do país, o que permitiu que empresas estrangeiras instalassem fábricas na cidade.

Um dos exemplos foi a “gigante da televisão” Konka, fundada em 1980 em Shenzhen, e que “começou por produzir televisores a preto e branco para responder à crescente procura interna de produtos electrónicos de consumo”. Zhou Bin, presidente do grupo Konka, disse à Xinhua que a ZEE foi de extrema importância para o crescimento de uma economia de mercado.

“Ao permitir que as empresas tivessem acesso a recursos estrangeiros, o processo de reforma e abertura criou um ambiente mais favorável à inovação, o que, por sua vez, acelerou o desenvolvimento social e económico da China”, afirmou. A.S.S. / Lusa

10 Set 2026

PISA 2025 | Macau lidera na resolução de problemas com recurso à tecnologia

Foram ontem divulgados os dados do PISA (Programme for International Student Assessment), o grande estudo da educação da OCDE, relativo ao ano de 2025. Macau volta a destacar-se nos números e no uso de ferramentas tecnológicas e digitais, liderando a nível mundial na categoria de resolução de problemas utilizando ferramentais computacionais, aponta uma nota ontem divulgada pela Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

Na RAEM, o estudo do PISA relativo a Macau é realizado pela equipa de estudo do Centro de Investigação de Testes e Avaliação Educativa da Faculdade de Educação da Universidade de Macau.

De um total de 91 países ou economias a nível mundial, “os alunos de Macau voltaram a demonstrar excelentes resultados de aprendizagem e capacidades de aplicação prática, classificando-se em terceiro lugar a nível mundial tanto em ciências como em matemática, e em quinto lugar em leitura”, é referido.

Sobre o primeiro lugar obtido na resolução de problemas com recurso a computadores, destaca-se que os “alunos de Macau alcançaram um desempenho particularmente brilhante”, sendo que, pela primeira vez no PISA se avaliou esta componente, tendo em conta “a crescente importância das tecnologias de inteligência artificial”.

Boa preparação

No que diz respeito às áreas das ciências, tecnologia, engenharia e matemáticas (STEM – Science, Technology, Engineering, and Mathematics), o território “regista uma proporção consideravelmente elevada de alunos com um nível de desempenho elevado”, com uma pontuação de 541 pontos na área das ciências, ficando em terceiro lugar a nível mundial, apenas ultrapassado pela China e Singapura. A média da OCDE é de 482 pontos.

Na matemática, Macau arrecada novamente o terceiro lugar, com 549 pontos, sendo que a média da OCDE nesta área de estudos é de 463. Macau desce, contudo, uns lugares no que diz respeito à leitura, ficando em quinto lugar, ultrapassado por Singapura (que neste campo lidera a tabela), China, região de Taiwan e Japão. A RAEM fica, assim, com 501 pontos, perante a média da OCDE de 461 pontos.

Na resolução de problemas com o computador, Macau lidera, então, a lista, com uma média de 572 pontos, ultrapassando Singapura que fica em segundo lugar, com 563 pontos.

A DSEDJ destaca, assim, que “os alunos de Macau demonstram uma literacia robusta na área STEM no PISA 2025, sendo capazes de integrar a investigação científica, o raciocínio matemático e o pensamento computacional para resolver problemas complexos”.

Os dados mostram como os estudantes locais “revelaram capacidades de programação e de modelação de nível superior, conseguindo construir programas e modelos de forma interactiva em ambientes de aprendizagem digital”.

Além disso, o PISA 2025 mostra como “as escolas de Macau garantem que quase a totalidade dos alunos de 15 anos de idade atinge o nível básico de literacia e de competências nucleares exigido para uma participação eficaz nos assuntos sociais”, o que os capacita a enfrentar “os desafios e oportunidades que surgem na vida real”.

9 Set 2026