Andreia Sofia Silva PolíticaMetro Ligeiro | Governo diz que expandir horário exige mais análise A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) defende que a extensão dos horários do Metro Ligeiro exige “uma análise global”. Em resposta a uma interpelação escrita do deputado Nick Lei, a entidade governamental garantiu que deve ser feita “uma avaliação global tendo em consideração as reais condições de funcionamento” deste meio de transporte público. “Tendo em conta o grande volume de passageiros durante feriados e grandes eventos, a operadora já prolongou o horário de funcionamento, tendo aumentado a frequência das carruagens em função da afluência, a fim de dar resposta às necessidades de deslocação dos passageiros”, lê-se na resposta. A DSAT disse ainda que, para garantir um funcionamento mais regular do Metro Ligeiro, seria necessário “assegurar a estabilidade do sistema de carruagens, realizar diariamente, durante a noite, trabalhos de manutenção e inspecção das vias, de forma a assegurar a segurança da operação”. O deputado Nick Lei defendeu, na interpelação, que o horário do Metro Ligeiro deveria ser ajustado tendo em conta “as necessidades de deslocação de um maior número de residentes, sobretudo trabalhadores por turnos e profissionais do sector do jogo”. Pagamentos coordenados Na mesma resposta, a DSAT esclareceu que tem vindo a realizar a “substituição faseada dos acessos por equipamentos que permitem pagamentos digitais”. Assim, “com a entrada em funcionamento dos novos equipamentos, estarão reunidas condições de base para a articulação entre os sistemas de cobrança do metro ligeiro e dos restantes transportes públicos”, foi apontado. A DSAT indica que a ligação dos meios de pagamento com os autocarros “tem sido discutido activamente” por parte das operadoras de transporte, a fim de assegurar “o desenvolvimento futuro dos serviços, e respectivas medidas de optimização” das redes de transporte.
Andreia Sofia Silva EventosIPOR | Edição chinesa de “Para sempre Vilarinho da Furna!” lançada amanhã O livro “Para sempre Vilarinho da Furna” evoca, em banda desenhada, a história desta aldeia portuguesa na zona do Gerês. Da autoria de Luciana Castelli, a obra ganhou versão chinesa e é apresentada amanhã no Instituto Português do Oriente. Eis um projecto que nasceu da grande paixão de Manuel Antunes, docente e último morador da Vilarinho da Furna, pela aldeia O Instituto Português do Oriente (IPOR) acolhe amanhã, a partir das 16h, na Biblioteca Camilo Pessanha, o lançamento da edição em chinês da obra de banda desenhada, pensada para crianças, “Para Sempre Vilarinho da Furna!”. Segundo uma nota do IPOR, trata-se de uma história que dá a conhecer “às novas gerações o património, as tradições e a memória de Vilarinho da Furna, a aldeia do Gerês submersa nos anos 70”. “Com a tradução em chinês, esta mensagem ultrapassa barreiras linguísticas e aproxima crianças e famílias de Macau e de todo o universo cultural chinês”, lê-se. Da autoria de Luciana Castelli, que escreve como se fosse uma menina de dez anos a contar a história, o livro nasce da grande paixão do professor Manuel Antunes pela sua aldeia. O fundador da AFURNA – Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna – foi o último morador a sair de Vilarinho da Furna, nos anos 70. Ao HM, Manuel Antunes conta o trabalho que tem feito nos últimos anos para manter a memória desta aldeia, e que inclui a criação do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, que abriu portas em 1989. “Tive a ideia mirabolante de criar um museu etnográfico evocativo da aldeia. Pensei que seria a coisa mais normal do planeta fazer-se qualquer coisa, evocar algo, e criar um espaço que lembrasse a aldeia que desapareceu com a barragem. Lancei essa ideia em 1978 ou 1979, e demorei aí uns 20 anos até construir o museu. Sou teimoso, os meus projectos são sempre assim, demora-se 20 anos, mas realizam-se.” Manuel Antunes saiu de Vilarinho da Furna a 1 de Janeiro de 1971, a barragem foi inaugurada a 21 de Maio de 1972. O museu fez-se, em parte, com as pedras que restaram das casas. “Soube que estavam a retirar as pedras de umas casas e eu e o arquitecto João Rosado Correia, que fez o projecto do museu, fomos lá escolher umas pedras. Por mim, trazia a aldeia toda, mas trouxemos duas casas com as pedras todas numeradas.” Nessa época, Manuel Antunes estudava Filosofia e fez todo esse trabalho nas férias de Verão, já na casa da tia, moradora de uma aldeia vizinha. Desde então que com a AFURNA, fundada em 1985, faz um trabalho de divulgação da aldeia, nomeadamente junto dos seus alunos. Luciana Castelli foi aluna de Manuel Antunes e foi assim que nasceu o livro que amanhã se apresenta. Emoções à flor da pele De pedidos de apoio em pedidos de apoio, Manuel Antunes acabou por estabelecer contactos com a comunidade chinesa de Macau, o que abriu portas à apresentação da obra em Macau. “Esperamos que tenha sucesso. Vai ser muito agradável apresentar este livro na sua versão em chinês e só de pensar que as crianças chinesas de Macau vão saber a história e que as vamos pôr a contar a história de Vilarinho das Furnas, até fico emocionado”, contou. Uma das entidades apoiantes desta obra foi a OMNI Investments. Numa nota divulgada no website da empresa, refere-se que Luciana Castelli disse que este livro foi “um projecto particularmente desafiante”, já que “nunca tinha escrito para crianças”. “O resultado foi uma obra de linguagem simples, acessível e envolvente, mas profundamente rica em sentimentos, memórias e valores humanos. Através destas páginas, as novas gerações são convidadas a conhecer a história da aldeia comunitária de Vilarinho da Furna, preservando a memória colectiva de um património único da cultura portuguesa”, lê-se na mesma nota. “Para sempre Vilarinho da Furna!” ganhou uma menção honrosa no Prémio Nacional do Ambiente Fernando Pereira 2023. Coube à OMNI “o apoio e coordenação da tradução integral da obra para chinês simplificado, bem como a respectiva impressão, permitindo que a história de Vilarinho da Furna chegue a novos leitores e diferentes contextos culturais”, é ainda descrito.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLisboa | Casa de Macau é o último reduto da comida macaense Com o encerramento do restaurante Patuá, os almoços quinzenais na Casa de Macau em Lisboa tornaram-se o último reduto da comida macaense na capital portuguesa. No dia da visita do HM, o almoço foi Porco Bafassá cozinhado por Maria João Ferreira. Entre sócios e amigos há quem sonhe transformar o espaço numa espécie de restaurante Ao abrir a porta na casa cor-de-rosa na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o cheiro emana da cozinha onde todos ajudam por amor à camisola. Tem sido assim todas as quartas-feiras, a cada quinze dias, na Casa de Macau em Lisboa, lugar que passou a ser o único a servir comida verdadeiramente macaense desde que o restaurante Patuá, também em Lisboa, fechou portas. O Patuá serve ainda refeições temporariamente, mas apenas até à próxima segunda-feira, numa parceria com o bar, restaurante e sala de espectáculos Damas, numa acção intitulada “Patuá Takeover”. No dia em que o HM almoçou na Casa de Macau, o menu foi Porco Bafassá e rolinhos de massa de arroz com camarão para entrada. Pelo meio-dia a azáfama na cozinha já era muita, e apesar de a cozinheira ter sido Maria João Ferreira, membro da direcção da Casa, muitos braços ajudaram. “Não posso dizer quem me ensinou esta receita, porque é um prato feito com muita frequência nas casas macaenses. Provavelmente aprendi em Macau com a empregada chinesa que estava em nossa casa. Sempre gostei muito de cozinhar, de maneira que a pouco e pouco comecei a fazer em minha casa.” Há muito que a Casa de Macau tenta promover a gastronomia macaense. Não apenas com almoços com minchi aos sábados, como na organização de almoços semanais que contavam com a chef Justina do Rosário. A sua saída levou a direcção a decidir manter a iniciativa, para não perderem “projecção”. “A Justina foi-se embora por questões de saúde e tivemos uma quebra bastante grande. Para o assunto não morrer, decidimos, em reunião de direcção, organizar os almoços quinzenalmente e não semanalmente, como fazíamos com a Justina. Tentamos respeitar as receitas macaenses.” A Casa de Macau conseguiu aumentar o número de sócios no mandato de Carlos Piteira, de 180 para cerca de 400. “Não se pode dizer que temos um lucro grande, mas para nós é sempre positivo e temos alguma projecção.” Maria João Ferreira entende que “faz falta comida macaense” em Portugal. “Não há. Quando muito, há restaurantes a fazer minchi, mas não passa disso.” Transformar a iniciativa quinzenal da Casa de Macau numa espécie de restaurante, com apoios, “seria excelente”, confessa. “Acho que todos nós desejaríamos isso, mas não sei até que ponto se poderá concretizar, não sei se a RAEM tem interesse em financiar uma iniciativa dessas. Mas seria fantástico, é um sonho de todos nós. Gostaríamos imenso de ter um restaurante em casa de Macau.” “Conheci-os no Instagram” Pelas mesas a azáfama é muita e, pelo meio de sócios e rostos habituais da casa, há quem tenha ido almoçar para descobrir os sabores desta gastronomia de fusão. É o caso de Pedro Carneiro, que gosta de explorar o que de novo existe em Lisboa, em termos culturais. “Sempre fui interessado na cultura macaense e tenho família que vive em Macau, e quis experimentar. Já tinha algumas referências da comida macaense. Tinha alguma curiosidade para ver como é feita cá, e o tipo de eventos que se fazem.” Naquele dia, mostrou mesmo interesse em fazer-se sócio da Casa. Sendo conhecedor do restaurante Patuá, considera “fundamental” a existência destes espaços. “Há vários espaços associativos ou de restauração que estão a fechar, por diferentes razões, o que significa que qualquer comunidade ou espaço que organize eventos que permitem às comunidades estarem próximas umas das outras, é fundamental.” “Sempre fui interessado por comidas crioulas, que juntam várias culturas. É sempre engraçado ver como as técnicas, ou os ingredientes portugueses, são confeccionados de maneira híbrida com ingredientes asiáticos”, destacou. Também Gonçalo Lamy, de 19 anos, quis ir provar o Porco Bafassá e levou consigo dois amigos. O estudante da Universidade Nova de Lisboa viajou até Macau há dois anos graças a uma parceria entre a sua escola secundária e a Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes. “Gostei muito de Macau e quis experimentar estes almoços. Conheci-os no Instagram, comecei a seguir. Achei um ambiente bastante familiar e fomos muito bem-recebidos. É engraçado ver as pessoas a encontrarem-se aqui”, destacou. A voz da tradição Na televisão vê-se a TDM, o canal chinês. Pelos corredores, trocam-se dois dedos de conversa enquanto o almoço não está na mesa. No dia da reportagem, o jornalista português Ricardo Dias Felner, autor do podcast “O Homem que Comia Tudo”, e cronista do semanário Expresso, também se encontrava à mesa para descobrir aquele lugar de comida macaense genuína. Disso percebe Manuel Fernandes Rodrigues, macaense de gema e autor de diversos estudos sobre a gastronomia da sua comunidade. Sócio e participante habitual das actividades da Casa de Macau, os almoços quinzenais servem para matar saudades. “Em Lisboa não há restaurantes que façam comida macaense, e a Casa de Macau é o único sítio que conheço que faz comida genuína”, contou. “A Casa de Macau já teve workshops semanais de gastronomia. É difícil manter um restaurante por uma razão muito simples: como se vão arranjar cozinheiros? A população de Macau que reside em Portugal tem uma idade avançada e as novas gerações não se interessam tanto por esta profissão. Ser cozinheiro já não é um modo de vida.” Manuel Fernandes Rodrigues conhece as histórias que vivem no meio de sabores de cada prato. Explica-nos que a comida macaense tem origem em Malaca, que os portugueses conquistaram em 1511 e por onde passou grande parte do comércio feito na Ásia. Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam apoiar este projecto gastronómico quinzenal, para que se sirvam refeições de forma mais frequente, Manuel Fernandes Rodrigues diz que seria importante tal acontecer. “Pessoalmente, acho que sim [que deveria haver apoios]. Mas as autoridades de Macau têm as suas prioridades, e não sei se o projecto da comida de Macau está nessas prioridades. Na minha óptica, deveria estar.” O macaense entende que se deve apostar na divulgação que explicasse devidamente “o que é a comida macaense, porque não se resume apenas a receitas”. “Há muito mais, como a história dos macaenses, que têm a sua maneira de ser, e por detrás de cada receita está isso tudo.” O almoço, acompanhado com xarope de figo, fechou com gelatina de agar-agar com chocolate. “Em Macau há dois tipos de gelatina de chocolate. A versão chinesa é menos rica, porque só leva o chocolate diluído em agar-agar, e esta leva leite normal ou leite condensado, portanto, tem mais doce”, explica Maria João Ferreira. Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, também almoçou pela Casa de Macau. Ao HM, fala das dificuldades que é apoiar financeiramente estes projectos que vivem de acções voluntárias, mas que expandir os almoços quinzenais para um projecto mais regular seria importante. “Não são fáceis os financiamentos. Mesmo em Macau os financiamentos passam por um escrutínio mais rigoroso. Desde que as instituições ligadas a Macau tenham condições de estudar possibilidades de subsidiar este ou aquele projecto, porque não? Nos tempos em que nos encontramos, a boa vontade tem um preço. As coisas custam dinheiro, o tempo que se dá a isto tem o seu preço, e é fundamental que se criem condições para este projecto seja uma realidade. Caso contrário, é mais uma coisa que acaba.” Miguel de Senna Fernandes “lamenta” que o restaurante Patuá tenha fechado, assumindo que fazem falta espaços que mantenham a gastronomia macaense na comunidade. “A gastronomia macaense mantem-se nas casas. Há muitos macaenses que estão em Lisboa e seguem a sua própria comida com muito orgulho. É fundamental que se continue a pensar em termos comunitários. A Casa de Macau, por si só, não consegue fazer tudo, e é preciso boa vontade das pessoas”, concluiu.
Andreia Sofia Silva EventosColóquio internacional na UM debate papel da IA no ensino superior A Universidade de Macau (UM) acolhe a partir de hoje, e até sábado, dia 24, o colóquio internacional “A World Without Humanities – Rethinking the Role of Universities in the Age of AI” [Um Mundo sem Humanidades – Repensar o Papel das Universidades na Era da IA]. A organização está a cargo do departamento de português da UM e conta com a colaboração dos docentes Raquel Abi-Sâmara, Chen Keyi, Rivaldo Freire Tavares e Raquel de Sá. As sessões decorrem nas salas E1-UM Gallery e E22-G015. A primeira sessão começa hoje às 10h tendo como orador Zhang Longxi que irá falar sobre “IA, Subjectividade Humana e Criatividade”. No período da tarde, a partir das 14h, é vez de subir ao palco o professor da Universidade de Potsdam, Ottmar Ette, que irá falar da “Filologia na Era Digital: Sobre a Vida Longa das Humanidades”. Ligação à literatura Não faltam neste colóquio sessões sobre a conexão entre a IA e a literatura e os actos de leitura. Hoje à tarde, a partir das 16h, Raquel Abi-Sâmara, da UM, fala sobre “A Poesia Digital de André Vallias: Da Poesia Concreta aos Novos Actos de Leitura e a Questão do Humano”. De frisar que André Vallias, poeta brasileiro de 63 anos, é visto como um pioneiro na relação entre a poesia e a Internet. Raquel Abi-Sâmara regressa a esta temática no último dia da conferência, ao falar, a partir das 16h30, dos “70 Anos da Poesia Concreta e 70 Anos da IA: O ‘SonetarIA’ de André Vallias e a Máquina de Fazer-SonetosIA”. Por sua vez, amanhã, Li Li, da Universidade Politécnica de Macau aborda a questão “O que pode a Tecnologia fazer à Literatura? Navegando no Espaço Emocional da Poesia dos Heterónimos de Fernando Pessoa.” Júlio Jatobá, da UM, e Lu Shi Yi, do Instituto Português do Oriente, falam, a partir das 15h50, também esta quinta-feira, de como a IA pode impactar a leitura, com a sessão “Lendo o Humano na Era da IA: Robots e Infância na Literatura Chinesa e Portuguesa”.
Andreia Sofia Silva EventosMOIDF | Festival de documentário arranca sábado Começa este sábado, dia 24, a nona edição do Festival Internacional de Cinema Documental de Macau, que decorre até ao dia 8 de Novembro no Bona Cinema Macau. Com 22 documentários disponíveis numa iniciativa subjacente ao tema “Registar / Recordar”, o festival arranca com “A Simple Soldier”, passado no contexto da guerra da Ucrânia O Festival Internacional de Cinema Documental de Macau (MOIDF, na sigla inglesa) está de regresso a partir deste sábado, dia 24, depois de um ano de ausência. Os filmes com um cunho de realidade são exibidos até ao dia 8 de Novembro no Bona Cinema Macau, situado no empreendimento YOHO Treasure Island Resorts World Hotel. Em exibição, estarão 22 documentários locais e estrangeiros. Uma das novidades desta edição é a categoria “New Voices Competition” [Competição Novas Vozes], e que inclui a atribuição de dois prémios. De resto, há muitas histórias para ver e conhecer no MOIDF, nomeadamente com cenários de guerra pelo meio. Uma destas histórias conta-se no filme de abertura, que tem a guerra na Ucrânia como pano de fundo. Com exibição este sábado, dia 24, a partir das 16h30, “A New Soldier” é a história do fotógrafo ucraniano Artem que se alistou no exército. “Com uma câmara e espingarda nas mãos, dirigiu-se para a linha da frente para registar a vida e morte dos seus camaradas, bem como o quotidiano da vida militar. Os tiroteios eram muito mais brutais do que ele tinha imaginado. À medida que os seus companheiros de armas eram mortos um após o outro, a solidão aumentava e os sentimentos foram-se desgastando com o derramamento de sangue”, revela a sinopse do filme. O documentário volta a ser exibido no dia 1 de Novembro. “Birds of War”, exibido no domingo, também a partir das 16h30, sai da Ucrânia para a Síria, país que também foi marcado por um longo conflito. “Ao longo de treze anos de guerra, revolução e exílio, como se atravessa um céu cheio de fogo? Uma entrevista que começou durante a luta em Aleppo, em 2016, leva uma jornalista libanesa a viver em Londres a ser fotógrafa na linha da frente na Síria”, pode ler-se na sinopse. De Amílcar à Fábrica Há também filmes com um cunho de lusofonia, na categoria “A Taste of Portuguese”, nomeadamente com a exibição de “Amílcar”, de Miguel Eek, exibido dia 27. Este documentário conta a história de Amílcar Cabral, poeta e lutador anti-fascista com ligações à Guiné-Bissau e Cabo Verde. “Seguindo-se os seus poemas, escritos políticos e cartas enviadas às suas duas mulheres, o filme navega nos arquivos coloniais, em imagens da revolução e em microfilmes de 16 milímetros para reconstruir o seu diálogo interior”, revela-se na sinopse. O documento sobre um homem que foi assassinado em 1973, “quando a independência nacional estava prestes a ser atingida”, deixou um rasto de coisas por descobrir e muitos mistérios. “Uma causa que não foi atingida e cadernos que registam amor, poder e traição.” A nona edição do MOIDF traz também histórias de cariz social, como é o caso do documentário “Titicut Follies”, com uma cópia restaurada exibida também este sábado, mas às 20h30, com repetição a 6 de Novembro. O realizador, Frederick Wiseman, desenvolveu este projecto quando era professor de Direito na Universidade de Boston e depois de ter levado estudantes seus ao Hospital de Massachusetts, que albergava autores de crimes e portadores de doença mental. “Com a permissão do superintendente para filmar, [Frederick Wiseman] começou a sua carreira como realizador. Sem formação numa escola de cinema ou experiência profissional por detrás da câmara, Wiseman explorou a instituição a fundo e registou de forma muito próxima doentes e médicos, enfermeiros, guardas e assistentes sociais, registando um lado do hospital raramente visto.” No último dia do MOIDF, destaca-se a exibição de “Factory”, às 16h. A história passa-se na fábrica da Lenovo, em Wuhan, em Fevereiro de 2020, ou seja, em plena pandemia. Qi Yue era gerente da fábrica e regressou à unidade para que a produção voltasse ao normal, tendo sido implementado um sistema de controlo da pandemia. O documentário conta, portanto, o lado do gestor, “passando depois para os administradores, técnicos e operários na linha de produção”, e a forma como viveram as difíceis regras de confinamento. “No final, um veículo robótico segue um percurso algorítmico pela oficina, como uma nova espécie a observar friamente e a ouvir de soslaio as conversas humanas. Avança a uma velocidade constante e nunca diz uma palavra”, lê-se na sinopse de “Factory”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteHistória | Publicado livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles Foi recentemente publicado o livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles, advogado e irmão de Ademar e Sita Valles, assassinados em Angola no período pós-independência. Ao HM, o autor revela estar a preparar um livro sobre o caso. Em “Sombras e Luzes do Império”, Edgar Valles relata a Angola antes de 1974 Edgar Valles acaba de lançar o livro “Sombras e Luzes do Império”, com a chancela da Gradiva, que relata “episódios – uns doces, outros amargos – da vida colonial e da ‘metrópole'”. A obra transfere para o papel as vivências do advogado, com sangue goês, nascido em Angola em 1953. A “metrópole” que refere era o Portugal anterior ao 25 de Abril de 1974, quando havia um império colonial, que incluía Macau. Durante o Estado Novo, regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974, foram muitas as histórias de um império que passou por muitas crises antes de cair, incluindo 13 anos de guerra colonial. Edgar Valles diz ser uma espécie de “filho do império”, no sentido em que é “fruto do império”. “Se os portugueses não tivessem chegado a Goa, a minha família não teria ido para Angola. Por outro lado, a minha infância e adolescência, foram passados em Angola. Se não fosse esse império, não estaria em Angola, e não teria estudado em Portugal”, frisou. “Sombras e Luzes do Império” não tem cunho ideológico, nascendo de crónicas que Edgar Valles foi escrevendo na imprensa local portuguesa. “O livro não tem pretensões ideológicas, nem pedagógicas. Relata apenas experiências vividas. Isto porque considero que, hoje em dia, os jovens têm acesso a muita coisa, a redes sociais, a televisão, a tudo, mas leem muito pouco. E procurei traduzir no papel histórias de vida em que não sou o personagem central, mas apenas a pessoa que assistiu a muitas situações.” Segundo a sinopse do livro, descrevem-se “histórias verdadeiras e bem-humoradas, como o desembarque do primeiro-ministro Nehru numa praia de Benguela, que ali teria chegado de submarino e era procurado por tal infracção”. Há ainda o relato “do lutador antifascista que se julga vigiado por um casal de agentes da PIDE a partir de um automóvel, quando, afinal, estes apenas estavam a utilizar o veículo para outros fins, por sinal atentatórios da moral dominante”. O livro contém também “histórias sobre as peripécias da luta política contra o regime”. “Sombras e Luzes do Império” lança um convite ao leitor para “reflectir sobre estes relatos com a franqueza e profundidade que exigem, permitindo que as histórias contadas revelem não apenas a história de um tempo, mas também as ressonâncias que ecoam na nossa própria identidade”, descreve a mesma sinopse. Um “modo de vida diferente” O lado bom desse antigo império português era “o modo de vida”, recordou Edgar Valles. Se Portugal parecia um país sombrio, a viver numa ditadura, com separação de sexos nas escolas e baixo nível de vida, nas antigas colónias a vida tinha mais cor, apesar do regime político ser o mesmo. “Nós, tal como acontecia em Moçambique, tínhamos praia, desportos náuticos, sol. No fundo, era um modo de vida completamente diferente do que existe aqui. Éramos muito abertos, os miúdos andavam de calções, e mesmo os adultos vestiam-se de forma muito simples. Tratávamos toda a gente por tu. Chocou-me, por exemplo, quando tinha 17 anos e vim para Lisboa, para a Faculdade de Direito, o facto de as pessoas não se tratarem por tu”, frisou. Edgar Valles diz que este e outros episódios lhe causaram “impressão”. “É estranho, porque as pessoas daqui de Lisboa consideravam que nós éramos atrasados [os que vinham das colónias africanas], mas nós éramos mais avançados em muita coisa. Até tínhamos coca-cola, coisa que aqui não havia”, relata. Edgar Valles diz ter percebido, já na adolescência, que pertencia a um império que acarretava uma certa ideologia e propaganda que não batiam certo com a realidade. “Despertei para isso antes de vir para cá. Mas, no fundo, há uma luta de contrários. Por um lado, havia aquele orgulho em ser português que eu cheguei a ter, do ‘Portugal de Minho a Timor’. Isto quando tinha uns 12, 13, 14 nos. Mas depois houve a constatação de que as coisas não eram bem assim. Isso, às vezes, é doloroso.” Questionado sobre o seu sentimento de pertença, Edgar Valles diz que, quando está em Goa, sente-se goês. “Quando estou em Portugal, sinto-me português de Portugal.” Angola não entra nesta equação. As “testemunhas de Jeová” Edgar Valles chega a Lisboa em 1970 e ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, quando a luta estudantil contra o regime está ao rubro. Aderiu ao Partido Comunista Português (PCP) e abraçou a luta anti-fascista, mas nunca foi preso pela PIDE. “A minha mulher foi presa e esteve seis dias em tortura de sono, em que a pessoa tinha de ficar de pé, e se se deitasse, era pontapeada. Também era chamada tortura da estátua. Só tive uma situação [de risco de prisão], mas não foi relevante: a 5 de Outubro de 1973 fazíamos sempre uma romagem ao cemitério do Alto de S. João, a polícia carregou e prendeu uma série de pessoas, e eu estive detido umas horas. Seríamos apresentados a julgamento por actividades subversivas, mas depois deu-se o 25 de Abril”. Deixou o PCP anos depois da revolução, no contexto do assassinato da irmã, Sita Valles, aquando do movimento de 27 de Maio de 1977 em Angola, e também do irmão, Ademar Valles. Sita tinha pertencido ao PCP e quando é morta por forças ligadas ao partido angolano MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, o PCP nunca saiu em defesa da sua antiga militante e dirigente. “Saí depois em 1977, quando isso aconteceu em Angola. Na altura acreditava naquilo tudo. Aquilo é fanatismo, como as Testemunhas de Jeová. Achávamos que a revolução estava a ir por água abaixo, e que o povo deveria revoltar-se e travar o capitalismo que se estava a implantar.” A saída do PCP deu-se, precisamente, por considerar injusto o tratamento que o partido deu ao caso Sita Valles, que tinha sido uma das mais importantes dirigentes da UEC – União dos Estudantes Comunistas, quando era estudante de Medicina. Edgar Valles acha, porém, que já é tarde para que as autoridades governamentais ou entidades partidárias se pronunciem sobre o caso. “Acho que já se falou bastante. Na altura, as autoridades deveriam ter tido outro tipo de postura, agora perdeu-se um pouco a oportunidade. É algo que as autoridades consideram um caso encerrado, infelizmente.” A história de Sita Valles, e do próprio Edgar e Ademar, conta-se no livro “Sita Valles – Revolucionária, Comunista até à Morte (1955-1977)”, da jornalista Leonor Figueiredo. Novo livro a caminho A perda dos irmãos e o contexto político em que isso aconteceu será tema central de um novo livro. Sobre ele, Edgar Valles pouco quer revelar agora. “Vou escrever sobre o que aconteceu a seguir ao 25 de Abril.” Ao reviver o passado, o autor não tem dúvidas de que foi o dia mais feliz da sua vida, mas teve desilusões com tudo o que aconteceu a seguir. “Houve muitas melhorias do ponto de vista económico na sociedade portuguesa, mas há um certo sentimento de angústia pelo facto de não se ter conseguido atingir estabilidade social. Acaba por haver uma liberdade muito formal, com algum controlo, porque é difícil publicar opiniões críticas. Há um certo desencanto na sociedade actual”, considerou.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMaria Célia Lima-Hernandes, autora de “Macau – Lótus do Oriente”: “Em Macau quase tudo é híbrido” Docente da Universidade de São Paulo e aluna de pós-doutoramento e docente na Universidade de Macau, a linguista Maria Célia Lima-Hernandes queria estudar o português de Macau e acabou por escrever um livro sobre as áreas “híbridas” do território, com foco na língua e na comunidade macaense. “Macau – Lótus do Oriente” é apresentado hoje na Casa de Macau em Lisboa Como surge Macau no seu trabalho académico? Fui professora de língua portuguesa na Universidade de São Paulo. Todas as vezes que tinha de falar sobre o português em Macau, não tinha material suficiente. Então esperei que as minhas filhas crescessem para me candidatar a uma bolsa para poder fazer pesquisa em Macau [estágio de pós-doutoramento com a docente Maria José Grosso]. O único livro que havia na universidade [Universidade de São Paulo] sobre Macau era de Graciete Batalha [Dialecto Macaense] e falava da língua crioula [patuá], e não português. Quando dava aulas dizia que em Macau havia um crioulo, mas não sabia falar nada sobre o português e a sua situação. Só quando fui para Macau é que descobri o que era, de facto. Depois, comecei a frequentar o outro lado, e comecei a interessar-me pela história do entrosamento entre portugueses e chineses. Comecei a dividir o meu trabalho com o Arquivo Histórico de Macau, no Tap Seac, e a analisar certidões, assentos de nascimento, casamento e morte, de óbito, e também testamentos. Comecei a descobrir a história das meninas que foram abandonadas, ou que ficaram órfãs mesmo, na primeira década do século XX. Porque escolheu esse período para investigar? Há muitos estudos até ao final do século XIX, há muitos estudos a partir de 1920. E a documentação da primeira década desapareceu, com tufões e incêndios, e o que ficou são registos de nascimento, morte ou casamento. Comecei a investigar a partir daí. Este livro funciona como uma espécie de radiografia de Macau, da sua geografia humana. Como foi encontrar um fio condutor nesta diversidade que é Macau? Voltando a esta primeira década do século XX, Macau era um território onde se podia caminhar, e as pessoas comentavam nestes documentos históricos que a China era do outro lado. Perguntei, anos mais tarde, a macaenses o que planeavam para o futuro, agora que [a administração de] Macau tinha passado para a China. Perguntava como tinha sido percebida a entrada da China no território. As respostas deram-me outras questões, e uma delas era que a China estava a aproximar-se pela água, e ninguém percebia. Houve aterros. As pessoas não tinham esta noção. Isto aconteceu em 2015, no segundo momento da minha estadia em Macau. Mesmo na universidade, os meus alunos ajudaram-me a perceber essa percepção do espaço. Eu perguntava: “Quando estão aqui [no campus da UM em Hengqin] estão em Macau ou na China?”. Os professores, e também os portugueses, que viviam no campus; e os alunos de Macau diziam que estávamos em Macau. Mas os alunos da China diziam que ali era a China, porque tinham a mesma rede de telemóvel. Aí comecei a trabalhar na questão das fronteiras, e com os documentos recuei no tempo, descobrindo a Ilha Verde que já não era ilha, mas que as pessoas ainda chamavam assim. Tudo isso foi mudando, mas as percepções das pessoas não. Fiz entrevistas a pessoas que se dizem macaenses 100 por cento, ou seja, 50 por cento chinês, 50 por cento português. Esse é um dos grupos que trabalho neste livro. Há outros grupos de macaenses, mas esse é o mais interessante, porque é a raiz de Macau. São muito chineses e muito portugueses, defendem essas duas nacionalidades como uma só, nessa hibridez. Foi aí que surgiu a ideia da flor de lótus [para o título do livro], porque ela é híbrida. Tanto está no meio do lodo, como sobe à superfície, mostrando toda a beleza que tem. Os macaenses que se dizem 100 por cento são isso. Deu aulas em Macau em 2015, mas esteve no território antes para fazer pesquisa. Só cheguei a Macau em 2010. Fiz as entrevistas, não havia smartphones, então foi tudo feito corpo a corpo. Depois voltei ainda para pesquisar documentos no Arquivo Histórico, e regressei então em 2015. Macau já estava totalmente diferente. Fiquei a viver no campus da UM, e tive uma experiência completamente diferente. Mas voltando à questão do macaense. No livro refere que não é só uma questão de etnia, mas de “construção social”. Em que sentido? Os macaenses 100 por cento sempre tiveram o chinês dentro da família. Alguns receberam o documento oficial dentro da família, a certidão de baptismo, apenas depois da morte da parte da família portuguesa. Mantém-se ali, como filhos da herança portuguesa, mas não têm o documento, e conseguem-no não porque lutassem por ele, mas porque deveriam ser escondidos, porque ninguém queria ter uma mãe chinesa, compreende? Falamos aqui da primeira década do século XX? Sim, mas essa situação repete-se com as pessoas que entrevistei, muitos anos depois. Nessa primeira década era a situação das meninas órfãs, e analisei o caso das meninas que estavam na congregação das Canossianas, italianas. Elas recolhiam essas crianças, dando-lhe instrução e ensinando português. Eram meninas sem família? Algumas tinham família e eram entregues porque os pais queriam que fossem inseridas na sociedade. Outras eram entregues por serem bastardas, filhas de soldados portugueses que não as reconheciam. A vida era muito difícil para muitas famílias [da comunidade chinesa], por causa de guerras, tufões, doenças. Elas percebem que, com a presença portuguesa [em Macau] era necessário incluir essas meninas, para que tivessem uma história digna na sociedade. Ia passando de boca em boca, nesta comunidade, o que era ensinado e o que era necessário para se ser uma mulher macaense. Mas elas não tinham nome. Tinham o nome chinês, e depois eram sujeitas a um baptismo colectivo, e aí recebiam nomes portugueses. Inicialmente, são dados os nomes das freiras. Depois, na segunda geração de crianças, já são nomes de macaenses. Falamos então de meninas macaenses oriundas de famílias chinesas pobres e que moravam em zonas periféricas. São crianças inseridas na sociedade e que depois ganham um segundo nome, com o marido macaense ou português metropolitano. Então, logo aí, havia a construção social do macaense. Mas isso vai acontecer depois na sociedade, mesmo com chineses. Disse que entrevistou apenas um grupo de macaenses. Porquê? Interessaram-me os que foram para a Escola Comercial. Eram mais de classe média, e existia uma pobreza muito grande. Eles foram para essa escola para aprender um ofício e começar a trabalhar. O seu livro faz também uma espécie de estudo das línguas existentes em Macau, da relação entre o patuá, o português e o chinês. É uma espécie de levantamento da evolução destes idiomas no território. Na verdade, quando comecei a pesquisa, percebi que o tema não era aquele por onde tinha começado. O tema ganhou vida e outras proporções. Percebi que o tema que sempre me tinha interessado era a hibridez, e ao longo do livro percebemos que em Macau quase tudo é híbrido, e é muita coisa. Mas, obviamente, não analisei tudo. Então, o que é homogéneo em Macau? Acho que a identidade do português da metrópole é homogénea. Mesmo que os portugueses tenham casado depois com chinesas, e que ficaram em Macau até hoje, e que nem querem voltar para Portugal, têm uma identidade portuguesa muito forte. Os chineses, por outro lado, também são muito homogéneos. De todos esses cenários de hibridez em Macau, qual é, para si, o mais fascinante? O que mais me fascinou foi a forma como as duas identidades convivem. São duas coisas numa só. Quando estive em Macau agora, fui ao Cemitério [na Avenida de Sidónio Pais], identifiquei ali algumas meninas [da pesquisa dos primeiros anos do século XX]. Então o que mais me encanta é essa hibridez que não é vista, nem percebida. É a hibridez identitária, da comida misturada, da terra com a água. A língua passou a ser o que menos importava. A língua mostra, vincula, mas esconde muita coisa. Macau está num rápido processo de integração regional. Em que lugar fica esta hibridez? Que território vamos ter? É uma boa pergunta. Quando vejo os prédios a serem erguidos na Grande Baía, pergunto: “Quem vai morar ali?”. Espera-se que sejam para os reformados, então vamos tirar um grupo de pessoas de um espaço, levá-lo para outro grupo, e é uma hibridez diferente, porque vai entrando cada vez mais na China. Parece-me que quando voltar lá daqui a cinco anos, talvez a hibridez seja de chineses. Sempre houve, mas é mais escondida do que aquilo que podemos pensar. Nos levantamentos que fiz para o livro, havia uma grande mistura de chineses, mas toda ela coordenada pela China. Quem entrava, quem vinha fazer o quê em Macau. Conheci uma senhora que veio ao colo da mãe para Macau. Hoje está completamente integrada na sociedade. Então ela é chinesa de Macau? Não, macaense. Então no futuro vai ser difícil separar tudo isso, porque os macaenses 100 por cento que conheci estão a morrer e os filhos já usam inglês como língua corrente. Acho que, no futuro, vai ser chinês e inglês. No livro diz que temos de olhar para Macau “como um caleidoscópio”, porque existirem muitos condicionalismos na definição desses perfis de língua. Em que sentido? Senti que, cada vez que chegava a Macau, era como se tivesse um caleidoscópio na mão, agitasse e tivesse sempre uma nova imagem a aparecer, com mudanças muito rápidas. O discurso também mudou, e da penúltima vez que voltei, havia um debate imenso na imprensa sobre a questão do chinês e a questão da preservação do cantonês. Para um linguista não há dialectos, porque todas as formas de manifestação linguística são línguas, pela questão de sociolinguística, pelo direito de falar. E o cantonês é uma língua muito forte. Os professores já ensinam mandarim na sala de aula, mas o vigor do cantonês mantém-se, e acho que é uma tradição muito forte, é mesmo cultural. É a língua da família, e isso não se perde. Foi para Macau estudar o português no território. Encontrou as respostas que queria? Identifiquei coisas sobre as quais não vou poder avançar mais, porque tudo está a mudar rapidamente. O que acha que vai mudar mais depressa? A geografia, a mobilidade do povo. Quando sai um funcionário público macaense ou português, entra um chinês para o lugar. Haverá mais chineses que chegam para estudar e ficam. Mais chineses do exterior que ficam. Esta é uma obra emocional, que fala de pessoas que conheci.
Andreia Sofia Silva SociedadeRestauração | Marisqueira UMA quer expandir negócios na Ásia Serve apenas arroz de marisco e abriu portas nos anos 80, em Lisboa. Da Rua dos Sapateiros, com uma clientela maioritariamente chinesa, a Marisqueira UMA veio para Macau e promete abrir mais restaurantes na Ásia. Alexandre Grazina, fundador do restaurante, disse ao HM que há ideias para a Coreia do Sul e o Japão A Marisqueira UMA, que abriu portas na Rua dos Sapateiros, em Lisboa, há 38 anos, inaugurou recentemente um espaço em Macau e a Ásia continua nos planos de expansão e internacionalização deste restaurante. Segundo contou Alexandre Grazina, fundador do negócio, ao HM, Coreia do Sul e Japão fazem parte dos planos. “Abrimos aí em Macau e agora encontrámos uma outra oportunidade, vamos para o Japão ainda este ano. Já temos tudo preparado para abrir lá, mesmo em Tóquio”, contou. Mas Alexandre Grazina, que é também a alma por detrás do principal prato da casa, disse que a Coreia do Sul também faz parte dos planos. “Se pudéssemos ir mais para cima, iríamos, mas não nos deixam entrar”, ironizou. Alexandre Grazina esteve quatro meses em Macau a preparar a equipa e diz que o negócio tem corrido bem, não obstante o facto de “o macaense [os locais] não ir muito a restaurantes”. “Ali trabalhamos mais com o turismo”, disse. O espaço funciona na Rua de Fernão Mendes Pinto. O sucesso da Marisqueira UMA e a conexão à Ásia começou ainda em Lisboa. “Quando começámos a trabalhar tivemos muitos portugueses e espanhóis, mas de há uns anos para cá temos tido muitos asiáticos. Actualmente é possível que 80 por cento dos nossos clientes sejam asiáticos, e na marisqueira em Lisboa temos uma média de 300 a 400 pessoas por dia, em média.” No espaço de Lisboa um tacho de arroz de marisco, para uma pessoa, custa 19,90 euros e é servido num tacho, contendo camarão, sapateira, mexilhão, miolo de mexilhão e lula. Também é servida uma nova versão do prato com lagosta, mas para duas pessoas, e com um valor mais elevado, de quase 70 euros. Em Macau, o prato de arroz de marisco custa 195 patacas, sendo que o arroz com lagosta tem o valor de 699 patacas. Nas críticas do Google a Marisqueira UMA Macau tem uma média de 4,8 estrelas em 5. “À espera de mais” Alexandre Grazina confessou que o segredo do seu arroz de marisco, que faz sucesso nas redes sociais, é o facto de ser preparado no momento e “com amor e carinho”. “Não temos arroz já cozido, nada já feito [previamente]. Temos os tachos e fazemos [o prato] individualmente. Se são dois, faz-se dois, se são três, faz-se três. O arroz demora uns 25 a 30 minutos a fazer”, exemplificou. “A cozinha é para inventar”, adiantou. “Inventámos o arroz desta maneira, aos poucos, foi criando uma enorme fama e valeu a pena.” Sobre Macau, o fundador do restaurante confessou que “estava à espera de mais” em termos de volume de negócios. “Tem corrido mais ou menos, mas vou ser sincero: esperava um bocadinho mais. Percebi, pelo tempo em que lá estive, que o macaense não é de ir aos restaurantes comer, e aí é logo uma desvantagem.”
Andreia Sofia Silva PolíticaArbitragem | Governo quer criar centro de litígios comerciais Wong Sio Chak, secretário para a Administração e Justiça, revelou que será criado em Macau o “Centro de Resolução de Litígios Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola)”. No discurso proferido no 2º Congresso de Arbitragem Lusófona, o governante destacou também a necessidade do reforço “da capacidade jurídica em matérias que envolvam legislação do exterior”, nomeadamente nos “serviços jurídicos dos Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola) e países que participam conjuntamente na construção de ‘Uma Faixa, Uma Rota'”. Pretende-se ainda melhorar “a formação de quadros qualificados em matérias que envolvam legislação do exterior”, já que Wong Sio Chak destacou que o “ritmo crescente da ‘expansão para o exterior’ das empresas aumenta a frequência de actividades comerciais transfronteiriças”, levando à necessidade de recorrer à arbitragem. “Macau, graças às características institucionais únicas do sistema jurídico continental, à vantagem do bilinguismo sino-português e à posição de plataforma de ligação entre o Interior da China e os Países de Língua Portuguesa, dispõe de todas as condições e capacidades para se tornar numa importante plataforma de arbitragem comercial e de resolução de litígios entre a China e os Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola)”, concluiu.
Andreia Sofia Silva PolíticaAL | Chui Sai Peng na Comissão de Regimento e Mandatos Na sessão plenária de sexta-feira houve eleições para os presidentes e secretários das diversas comissões que compõem a Assembleia Legislativa (AL). Segundo um comunicado da AL, o deputado Chui Sai Peng passa a presidir a Comissão de Regimento e Mandatos, sendo adjudicado por Iau Teng Pio, com o cargo de secretário, e por Angela Leong, Wong Kit Cheng, Song Pek Kei, Ip Sio Kai e Lei Wun Kong. A primeira comissão permanente será presidida por Wong Kit Cheng, enquanto que a segunda comissão será dirigida por Ip Sio Kai. Leong Sun Iok passa a presidir à terceira comissão permanente. No que diz respeito à Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Terras e Concessões Públicas, Ella Lei será presidente; enquanto que a Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Finanças Públicas será liderada por Song Pek Kei. Ma Chi Seng preside à Comissão de Acompanhamento dos Assuntos da Administração Pública.
Andreia Sofia Silva PolíticaRua de Pequim | Deputado sugere zona pedonal coberta O deputado Vong Hou Piu sugeriu, no período de intervenções de antes da ordem do dia, que as autoridades devem “aproveitar a oportunidade da transformação trazida pela saída dos casinos-satélite para remodelar a Rua de Pequim”, transformando-a “numa rua pedonal comercial”. Vong destacou que o encerramento dos casinos-satélite, em finais de 2025, afectou negócios, mas que é importante repensar a utilização da zona. A Rua de Pequim “foi alvo, há anos, de um reordenamento do ambiente pedonal, dispondo de uma base para criar um sistema pedonal. Mas a fisionomia urbana, as instalações e distribuição de actividades comerciais continuam relativamente dispersas, não tendo sido plenamente aproveitado o potencial de comércio”. Para potenciar o uso da rua, o deputado sugeriu a “instalação de estruturas de cobertura semi-circulares” em ruas secundárias, e que tenham “valor estético e artístico, destinadas a ocultar as colunas expostas”. Além disso, deve-se eliminar “a ocupação ilegal do espaço público”; criando-se também zonas coberturas que se conjuguem “com a política de esplanadas”. Tal iria permitir “com um estilo uniforme, ligar as esplanadas dos estabelecimentos de restauração de ambos os lados, unindo as esplanadas dispersas num único espaço, transformando-as numa rua pedonal comercial a funcionar em todas as condições atmosféricas”. Nesta zona com coberturas, iriam funcionar bancas de gastronomia, “lembranças culturais e criativas e produtos de lojas de conveniência”. Para os comerciantes, devem ser estabelecidos “mecanismos transparentes de admissão, fiscalização sanitária e rotatividade”, dando-se prioridade “à participação de micro e pequenos empresários locais”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteTestamento vital | Chan Lai Kei quer mudar a lei para doenças terminais Num debate pautado por pedidos de medidas para enfrentar o envelhecimento populacional e mais apoios a idosos, o deputado Chan Lai Kei defendeu mudanças na lei para permitir as chamadas “directivas antecipadas de vontade”, ou o testamento vital, em casos de doença terminal O deputado Chan Lai Kei pede que o Governo altere a lei para permitir que uma pessoa assine a chamada “directiva antecipada de vontade” para casos de doença terminal. Numa intervenção antes da ordem do dia (IAOD) na Assembleia Legislativa (AL), o deputado diz que os Serviços de Saúde (SS) e o Instituto de Acção Social (IAS) devem “iniciar uma consulta pública e estudar a criação de um mecanismo de instruções médicas prévias adequado ao contexto social de Macau, de modo a acumular as bases para a futura revisão da legislação relevante”. O deputado cita um “um estudo académico realizado em Macau”, sem nomear o nome da instituição académica ou os autores, em que 62 por cento dos 737 residentes entrevistados disseram “que na fase final da vida dariam prioridade aos cuidados paliativos”. Porém, adiantou o deputado, nesse mesmo estudo, “cerca de metade dos inquiridos considerou que, em nenhuma circunstância, se deveria interromper o tratamento de suporte vital”. Para Chan Lai Kei, estes 50 por cento de respostas mostra como “persiste uma lacuna de conhecimento relativamente aos conceitos de cuidados no final da vida e de directivas antecipadas de vontade”. O deputado cita “outro estudo local” que refere o facto de que “mais de 73 por cento dos residentes de Macau estariam dispostos a elaborar directivas antecipadas de vontade, caso existisse um mecanismo juridicamente reconhecido”. Estas directivas serviriam, na prática, “para expressar antecipadamente a sua vontade em matéria de cuidados de saúde para quando viessem a perder a capacidade de decisão”. Desta forma, o deputado chama a atenção para o facto de a “sociedade possuir uma base de aceitação para este sistema”. Explicações necessárias O deputado referiu o projecto piloto dos SS na área de cuidados paliativos e cuidados antecipados com alguns lares de idosos subsidiados, mas, no seu entender, “trata-se apenas de uma fase piloto com âmbito de aplicação limitado”. Chan Lai Kei diz que a comunidade chinesa evita, por norma, falar da morte, existindo ainda muitas dúvidas sobre o que são, realmente, as directivas antecipadas de vontade. “Ao ouvirem falar de cuidados paliativos, muitos cidadãos interpretam-nos logo como abandono de tratamento. Sugere-se que o Governo, em conjunto com associações de idosos, lares de idosos, organizações médicas e jurídicas; e em colaboração com o Centro Hong Neng, organize palestras e workshops de fácil compreensão, partilhando casos reais dos serviços prestados pelo Centro Hong Neng”. A ideia é “explicar claramente” que “as directivas antecipadas de vontade são apenas a recusa prévia dos tratamentos de suporte vital fúteis, sendo mantidos os cuidados básicos, tais como o alívio da dor e os cuidados de enfermagem”. Olhar os idosos No debate de sexta-feira, vários deputados usaram o período de IAOD para pedir apoio à população envelhecida de Macau. Um deles foi José Chui Sai Peng, que defende o reforço “do regime jurídico sobre a acessibilidade para impulsionar o desenvolvimento da medicina e dos cuidados para idosos”. O deputado chama a atenção para o facto de a lei “Supressão de barreiras arquitectónicas”, de 1983, “está em vigor há mais de 40 anos e algumas normas não responderem às necessidades actuais da sociedade no que respeita ao ambiente acessível”. Existem ainda “discrepâncias, em termos jurídicos e práticos, face às ‘Normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras na RAEM’, publicadas nos últimos anos”. Desta forma, o deputado pede um mapeamento das necessidades, em termos de mobilidade, dos mais velhos. “Sugere-se ao Governo que proceda, primeiro, ao levantamento das necessidades espaciais nos cenários de prestação de cuidados a idosos no domicílio, cuidados diurnos na comunidade, cuidados em lares de idosos e cuidados transfronteiriços a idosos, estabelecendo, depois, níveis diferenciados”, tendo em conta as “novas zonas urbanas, habitação pública e instalações públicas”. José Chui Sai Peng também defende que as normas devem articular-se com as regiões de Hengqin e Grande Baía, para criar “condições para a prestação de cuidados transfronteiriços a idosos, encaminhamento e referência médica, e reconhecimento mútuo de serviços”. Já Si Ka Lon falou da necessidade de fomentar a chamada “economia prateada”, ligada à criação de negócios ou serviços para idosos. “Embora a escala do mercado de Macau seja relativamente reduzida, o crescimento da população idosa indica um potencial de procura interna significativa. A indústria prateada abrange vários domínios, incluindo cuidados de saúde e bem-estar, tecnologia para a terceira idade, turismo de lazer e finanças para a reforma”, explicou. Assim, o deputado ligado à comunidade de Fujian entende que esta área “não só é uma exigência inevitável para fazer face a uma sociedade envelhecida, mas também uma oportunidade crucial para promover a diversificação adequada da economia de Macau e abrir novos horizontes de mercado para as pequenas e médias empresas locais”. No debate de sexta-feira foram aprovadas, na generalidade, as propostas de lei “Regime para a regulação de determinadas actividades e eventos” e ainda a “Alteração ao Regulamento do Imposto de Consumo, aprovado pela Lei n.º 4/99/M, de 13 de Dezembro” (ver caixa). Além disso, foi apresentado o Relatório sobre a Execução do Orçamento de 2025 e Relatório de Auditoria da Conta Geral de 2025. Foi ainda feito um projecto de simples deliberação do plenário relativo ao Orçamento Privativo da Assembleia Legislativa para o ano económico de 2027. Abusos | Ho Ion Sang pede “reforço” da protecção de menores O deputado Ho Ion Sang recorreu ao período de intervenções de antes da ordem do dia para abordar o mais recente caso em que um trabalhador de uma instituição é suspeito de abusar sexualmente de um menino e de ter filmado outras crianças. O deputado pediu o “reforço da linha de defesa da protecção das crianças”, devendo as autoridades, na sua visão, “implementar a supervisão por níveis e a guarda institucionalizada de ciclo completo”. Para Ho Ion Sang, uma das soluções é “aperfeiçoar o regime de admissão e qualificação do pessoal dos lares, estabilizando as equipas profissionais”.
Andreia Sofia Silva EventosImagens para ver na galeria Ochre Space até ao dia 24 A galeria Ochre Space, em Lisboa, fundada pelo curador, fotógrafo e advogado João Miguel Barros, apresenta até ao próximo dia 24 a exposição de fotografia “Kamaitachi”, de Hosoe Eikoh. A coordenação e curadoria está a cargo do próprio João Miguel Barros, sendo este um dos mais importantes fotógrafos japoneses do período contemporâneo. Segundo o catálogo da mostra, são 13 as imagens deste fotógrafo que podem ser vistas pelo público português. “Esta exposição parte de uma pergunta simples: o que muda quando algumas fotografias de um livro passam das páginas para as paredes de uma sala? Para responder, escolhemos treze imagens de ‘Kamaitachi’ e demos-lhes uma ordem própria, inspirada na lenda que dá nome ao projecto. Explicar essa ordem obriga a começar pelo livro e pelo nome”, é explicado. “Kamaitachi” é um livro de fotografia com grande no género de dança do pós-II Guerra Mundial, intitulado “Ankoku Butoh”, também conhecido como “dança das trevas” ou “dança da escuridão”. A primeira edição aconteceu em 1969, em Tóquio, mas já várias edições posteriores da mesma obra foram realizadas. Projecto de monta Conforme explica João Miguel Barros no texto que acompanha a exposição, “antes de ser livro, ‘Kamaitachi’ foi uma viagem”, já que o fotógrafo tentou lidar com as memórias da sua saída de Tóquio em 1944, em plena II Guerra Mundial, com apenas 11 anos. “Viveu até Setembro de 1945 em Yonezawa, onde nascera, junto da família materna. Duas décadas depois escolheu Akita, terra natal de Hijikata Tatsumi, figura fundadora do ankoku butō. A memória do fotógrafo encontraria no corpo do bailarino uma experiência próxima da sua, embora vivida por outra pessoa. Em Setembro de 1965, trabalharam dois dias na aldeia de Tashiro, em plena colheita do arroz.” O termo “Kamaitachi” remete para “cortes súbitos na pele, atribuídos ao vento, sem que se veja o que os provocou”, ou ainda “o nome da criatura invisível que os provocaria, frequentemente imaginada como uma doninha de garras em forma de foice que habita o redemoinho”. “A criatura chega, fere e vai-se embora; quem a recebe encontra o corte, mas não vê o que o causou. Nesta exposição, a dobra e a ferida sugerem duas relações com o que não se vê: a página aberta revela a fotografia que ocultava; o corte é a marca de uma causa que permanece invisível”, acrescenta-se. O público pode ver 13 imagens dispostas em oito paredes com uma organização muito própria.
Andreia Sofia Silva EventosHong Kong | Pianista Bruce Liu inaugura edição do Festival de Artes Já é conhecido o cartaz da 55.ª edição do Festival de Artes de Hong Kong, cujos bilhetes começaram a ser vendidos no passado dia 7. O cartaz arranca dia 18 de Fevereiro de 2027 com o concerto de Bruce Liu, pianista canadiano que se faz acompanhar da Orquestra Sinfónica de Montreal. Destaque ainda para as apresentações de “Spartacus”, com a Companhia Estatal de Bailado do Teatro de Ópera de Astana, do Cazaquistão; e “Macbeth” Foto de Antoine Salto São 55 anos de um cartaz responsável por trazer a Hong Kong espectáculos de qualidade que vão desde o bailado ao teatro. Já é conhecido o programa da 55.ª edição do Festival de Artes de Hong Kong, cujo espectáculo de estreia acontece a 18 de Fevereiro de 2027 com o concerto do pianista canadiano Bruce Liu. Este senta-se ao piano no palco do Centro Cultural de Hong Kong fazendo-se acompanhar da Orquestra Sinfónica de Montreal. O maestro será Rafael Payare. Bruce Liu conquistou a medalha de ouro no 18.º Concurso Internacional de Piano Chopin ao interpretar o 2.º Concerto para Piano de Rachmaninov, compositor russo. A fechar o festival, já a 19 de Março, estará o bailado “Spartacus”, apresentado pela Companhia Estatal de Bailado do Teatro de Ópera de Astana, do Cazaquistão. Este espectáculo também acontece no Centro Cultural de Hong Kong. “Considerada uma obra marcante do bailado soviético, a encenação heróica de ‘Spartacus’, de Yuri Grigorovich, combina dança masculina de grande intensidade, uma história de amor comovente e a magnífica partitura de Aram Khachaturian, interpretada ao vivo pela Orquestra Filarmónica de Hong Kong”, lê-se na mesma nota de imprensa. Apresentam-se, no total, mais de 190 apresentações com 1500 artistas locais e internacionais, num total de 45 programas. Fazem ainda parte do programa as iniciativas “Plus”, com 300 actividades complementares que se focam na educação e sensibilização do público em prol da arte. Os bilhetes estão à venda desde o dia 7 deste mês. Citado por uma nota de imprensa, Lo Kingman, presidente do Festival, indica que esta edição conta com um orçamento superior a 160 milhões de dólares de Hong Kong. “Organizar um evento artístico internacional desta dimensão exige um enorme esforço todos os anos para angariar os fundos necessários”, destacou. O Governo de Hong Kong financia “cerca de 11 por cento das receitas anuais”, explicou o presidente, juntando-se “mais 21 por cento [de receitas] provenientes do programa de financiamento por contrapartida”. Por sua vez, a venda de bilhetes representa 24 por cento” das receitas. Flora Yu, directora-executiva do Festival, falou da intenção de trazer “a Hong Kong os melhores artistas e obras de todo o mundo”. “O público poderá descobrir uma extraordinária variedade de obras inovadoras, criadas por artistas visionários. Realizadores e intérpretes de renome reinterpretam obras tradicionais com novas abordagens, dando origem a produções teatrais contemporâneas, emocionalmente intensas, inspiradas em clássicos do teatro.” Além disso, “a ópera e a ópera chinesa ocupam lugar de destaque, com tesouros da tradição lírica ocidental e obras consagradas da tradição operática chinesa”. De Bach ao “K-pop” No capítulo da ópera, o público pode assistir à produção “Johann Strauss II – O Morcego”, com a companhia de Ópera e Bailado do Teatro Nacional da Eslovénia, de Ljubljana. Eis a oportunidade para o público “apreciar o humor, o encanto e o virtuosismo vocal de uma grande ópera cómica”. O cartaz musical traz “um programa rico e diversificado, reunindo orquestras de nível internacional, grandes mestres, solistas de renome, instituições corais históricas, jovens talentos e colaborações que cruzam diferentes géneros”. Jaeden Izik-Dzurko, que venceu a Medalha de Ouro no Concurso de Leeds de 2024, actua com a Orquestra Sinfónica de Montreal para apresentar o 4.º Concerto para Piano de Beethoven, “num programa que inclui também obras de Denis Gougeon e Richard Strauss”. Há 300 anos estreava a composição “Paixão segundo São Mateus”, de Bach, e para celebrar essa efeméride apresenta-se a interpretação do coro Thomanerchor Leipzig, “cujo cantor-mor foi o próprio Bach, acompanhado pela Gewandhausorchester Leipzig, uma das orquestras mais antigas do mundo”. Bach, nomeadamente a sua obra sacra, faz-se ouvir no espectáculo “René Jacobs, B’Rock Orchestra e Zürcher Sing-Akademie — Paixão segundo São João, de Bach”. Em palco, haverá instrumentos de época com direcção de René Jacobs, especialista em música barroca. Numa onda musical diferente, destaque para o concerto de “K-pop” intitulado “Hankyung Art Philharmonic x SM Classics”, onde “os grandes êxitos do ‘K-pop’ chegam à sala de concertos em versões sinfónicas”. A orquestra filarmónica de Seul interpreta arranjos orquestrais de temas do catálogo da SM Entertainment, acompanhada por vocalistas convidados. Em termos de grupos locais, apresenta-se “A Princesa das Flores – Cantata para Orquestra Chinesa, Narrador e Seis Cantores”, com a Orquestra Chinesa de Hong Kong. No jazz, apresenta-se o pianista e musicólogo Ralph van Raat, que interpreta “The Köln Concert”, do “lendário” pianista de jazz Keith Jarrett. Para quem gosta de ópera chinesa, o 55.º Festival de Artes de Hong Kong pretende “celebrar a das tradições operáticas chinesas, com a conclusão do projecto trienal dedicado à ópera cantonense e uma celebração marcante da ópera de Pequim e da ópera Kunqu”. Este projecto trienal intitula-se “300 anos de Ópera Cantonense: O Próximo Capítulo – ‘O Órfão Zhao'”, fazendo-se a “reinterpretação contemporânea de um dos clássicos mais duradouros do teatro chinês, sob a direcção artística de Yuen Siu-fai e com texto de Keith Lai”. Faz-se ainda a “celebração da ópera de Pequim e da ópera Kunqu”, apresentando-se clássicos em palco. No que à dança diz respeito, destaque para “Sonho de uma Noite de Verão”, de Alexander Ekman, apresentado pelo Ballett Dortmund. É uma “adaptação contemporânea em bailado do clássico de Shakespeare, que assinala a estreia em Hong Kong desta obra coreográfica de longa duração e visualmente impressionante”. Este espectáculo acontece no dia 19 de Fevereiro. Ainda no capítulo teatral, apresenta-se “Macbeth”, de William Shakespeare, mas com uma “nova e importante produção em língua chinesa”, especialmente encomendada para o Festival. Em palco, podem ver-se os “consagrados actores Hu Jun e Lu Fang nos papéis de Macbeth e Lady Macbeth, respectivamente”. Já a encenação está a cargo do “aclamado” realizador francês Arthur Nauzyciel.
Andreia Sofia Silva SociedadeFundação Macau | Premiados trabalhos académicos de investigação Já são conhecidos os premiados da sétima edição do “Prémio de Estudos em Ciências Sociais e Humanas de Macau”, iniciativa que recebeu 390 candidaturas de trabalhos académicos realizados não apenas em Macau, como no exterior, num total de 314 teses e 76 monografias. Apenas 58 trabalhos foram seleccionados pelo júri. Três monografias obtiveram o “Prémio do 1.º Lugar”, nomeadamente o trabalho “A Corpus-assisted Multimodal Analysis to Policy Addresses of Macao SAR Government – Two Decades of Change in Macao”, de Michelle Lam; “Conceito, Lógica e Proposição: Estudo sobre o Sistema Teórico das Regiões Administrativas Especiais da China”, de Luo Weijian, Zhao Yingjie e Wang Rongguo; e também “Cronologia Documental de Tang Tingshu”, de Dai Longi. Esta iniciativa, organizada pela Fundação Macau (FM) e pela editora Social Sciences in China Press, atribui prémios que variam entre as 10 e 50 mil patacas para as categorias de monografia e mérito; enquanto que na categoria de tese e mérito, os prémios pecuniários oscilam entre as 5 e 25 mil patacas. O Prémio foi criado em 2004, sendo que “os candidatos desta edição são provenientes do Interior da China, Macau e Hong Kong”, é referido numa nota da FM. Ainda no “Prémio de 1.º Lugar”, mas na categoria de teses, destaca-se o trabalho de Anthony Wong, Yim King e Danni Sun, com o nome “Understanding hospitality service aesthetics through the lens of aesthetic theory”, ou ainda a tese de Xi Ye, intitulada “A heterotopic reading of heritage: The Village of Our Lady in Ka Ho, Macau”.
Andreia Sofia Silva PolíticaPresidente do TUI realça aumento de casos penais e laborais A presidente do Tribunal de Última Instância (TUI), Song Man Lei, salientou o aumento anual do número de processos penais, sobretudo relacionados com o jogo e burla, e ainda de casos do foro laboral. A presidente do TUI referiu o “aumento contínuo dos processos penais”, com o número de processos entrados no Tribunal Judicial de Base (TJB) aumentou de 5.606 para 5.783, face ao ano judiciário de 2024/2025. Por sua vez, “o número de processos penais comuns de tribunal colectivo subiu de 1.776 para 1.969, mantendo-se, pelo terceiro ano consecutivo, uma subida na ordem dos 10 por cento”, disse. A magistrada associou estes dados “à recuperação contínua do número de visitantes e a retoma do sector do turismo e do jogo”, bem como “o reforço do combate pelo Governo aos crimes relacionados com actividades periféricas do jogo e burlas praticadas através das telecomunicações e da Internet”. Com mais processos, “agravou-se a pressão sobre os tribunais colectivos criminais no julgamento dos processos”, admitiu. Song Man Lei destacou o crime de jogo ilícito, já que entraram no TJB 383 processos relativos a câmbio ilícito, “representando 19,5 por cento do total de processos penais comuns” entrados no TJB. O impacto da retoma No tocante aos processos laborais, Song Man Lei salientou ainda o aumento de 70,1 por cento no número de recursos cíveis e laborais entrados no Tribunal de Segunda Instância em termos anuais, de 167 para 284 no ano transacto. Tal é reflexo “da retoma das actividades económicas e transacções de mercado, bem como da gradual recuperação da circulação de pessoas e do investimento”. Song Man Lei deu outra justificação: “o aumento do número de juízes do TJB e a criação do 4.º Juízo Cível, o que permitiu acelerar a tramitação dos processos cíveis”. Prevê-se, na sua visão, a “tendência de subida” deste tipo de processos, tendo em conta “a contínua recuperação da economia e o maior dinamismo das diversas transacções de mercado e interacções entre particulares”. Criminalidade | MP alerta para mais casos com menores Tong Hio Fong, procurador do Ministério Público (MP), destacou na sessão de abertura do ano judiciário 2026/2027 que tem ocorrido “um crescimento do número de processos e de menores infractores com idade inferior a 16 anos”. Tong Hio Fong salientou que “o MP remeteu a tribunal, para efeitos de autuação de processos relativos a menores com idade inferior a 16 anos, um total de 186 processos que envolveram 294 menores”, “um aumento de 25 processos, e de 87 menores”, face ao ano judiciário de 2024/2025. O procurador chamou também atenção para o “aumento contínuo dos crimes associados ao jogo e persistência da exploração do câmbio ilícito”, tendo sido autuados, “no ano judiciário transacto, 892 inquéritos por crimes relacionados com o jogo, uma subida de 17,4 por cento face aos 760 registados no ano anterior”. Destaca-se os 160 inquéritos, um aumento de mais de 150 por cento, sobre o crime de “exploração ilícita de jogo de fortuna ou azar online ou de aposta mútua online”. Tong Hio Fong declarou que o “crescimento acentuado” mostra que “os infractores procuram tirar partido da elevada clandestinidade, do carácter transfronteiriço e da rápida circulação de capitais inerentes ao jogo online para se esquivarem à investigação policial e à correspondente responsabilidade criminal”. Houve ainda um aumento de 20 por cento no número de inquéritos ligados ao crime de “exploração de câmbio ilícito para jogo”, com um total de 493 inquéritos. Permanece, assim, “activa” no território a actividade da troca de dinheiro, destacou Tong Hio Fong.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteAno Judiciário | Sam Hou Fai pede fim de “fenómenos indesejáveis” na advocacia Decorreu ontem a sessão de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, com o Chefe do Executivo a deixar recados à Associação de Advogados de Macau. Esta deve “eliminar estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector” e corrigir “fenómenos indesejáveis” com “coragem” O discurso do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, na abertura de mais um Ano Judiciário, que decorreu ontem, pautou-se por recados à forma como a advocacia está regulamentada no território e o que deve ser feito pela Associação de Advogados de Macau (AAM). Sam Hou Fai pediu que a AAM “assuma com coragem as suas responsabilidades, seja hábil na inovação, acelere a reforma institucional e reforce a organização do sector”. Tudo para promover “uma maior normalização e modernização na área de advocacia”, devendo ser estudada “a revisão de leis e regulamentos relevantes, como o ‘Estatuto do Advogado’, a fim de eliminar os estrangulamentos que condicionam o desenvolvimento do sector”. Sam Hou Fai entende que a profissão de advogado em Macau deve ter um “novo dinamismo”. “É necessário alcançar consenso e avançar com determinação para reforçar a gestão regulamentada da profissão de advogado, corrigindo fenómenos indesejáveis”, adiantou. A AAM deve, portanto, “inspirar-se em experiências avançadas e acelerar a criação de um regime moderno de advocacia, que satisfaça a Lei Básica de Macau e corresponda à realidade de Macau”. De resto, Sam Hou Fai fez um breve comentário quanto ao primeiro caso relacionado com segurança nacional, em que foi julgado o ex-deputado Au Kam San. “Iniciaram-se, de forma rigorosa e nos termos da lei, a investigação e apreciação do primeiro processo relacionado com a segurança nacional, defendendo com firmeza a segurança nacional e a estabilidade social.” Na visão de Sam Hou Fai, “a edificação do Estado de Direito em Macau alcançou resultados importantes e auspiciosos”. Corpo de magistrados O discurso proferido pelo governante olhou ainda para outras áreas da vida da RAEM, com Sam Hou Fai a declarar que o Governo vai atravessar, no próximo ano, o cumprimento de “prazos apertados, tarefas pesadas e exigências elevadas em todos os domínios da acção governativa”. O Chefe do Executivo lembrou que “o contexto interno e externo de Macau está a sofrer mudanças profundas e complexas, o que exige que mantenhamos sempre uma elevada consciência dos riscos, uma percepção das crises e uma mentalidade centrada nos limites mínimos”. Foi pedido aos órgãos judiciais que adoptem “uma visão de conjunto, para saber abordar as questões a partir dos interesses fundamentais do país e do interesse geral de Macau”, mediante vários princípios. Um deles passa pelo “reforço da consciência de prevenção e combate à corrupção”. “O corpo judiciário deve ser íntegro e imparcial”, frisou Sam Hou Fai referindo ainda ser necessário “optimizar a gestão do pessoal dos órgãos judiciais e acelerar a formação de uma equipa judiciária mais profissional e eficiente.” Sam Hou Fai referiu que, desde 1999, “o corpo de magistrados tem vindo a crescer continuamente”, com o “número de juízes nos três níveis de tribunais a aumentar de 23 para 50; o número de magistrados em funções no Ministério Público a passar de 20 para 40; e ainda o número total de funcionários de justiça nos três níveis de tribunais e no Ministério Público a aumentar de 146 para 390”. Assim, o Chefe do Executivo alertou para o facto de “o desenvolvimento económico e social de Macau nesta nova fase impor, inevitavelmente, novas e mais elevadas exigências ao trabalho do corpo judiciário”. Sam Hou Fai pediu também a realização de “estudos sobre novos sistemas e regimes”, bem como “tirar referência de experiências bem-sucedidas do interior e do exterior país”. Sam Hou Fai acrescentou ainda outro pedido: o da importância de estudos “sobre o aperfeiçoamento de diplomas legais, nomeadamente o ‘Estatuto dos Magistrados’ e o ‘Estatuto dos Funcionários de Justiça'”, para melhorar os “regimes de nomeação e frequência do curso e estágio de formação de magistrados”. Relativamente a obras em curso, Sam Hou Fai destacou que “o edifício do Tribunal de Segunda Instância deverá estar concluído no primeiro semestre do próximo ano”, enquanto que “as obras dos edifícios do Tribunal Judicial de Base estão a avançar de forma ordenada”. Presidente da AAM diz que mudanças estão a ser analisadas Vong Hin Fai, presidente da Associação de Advogados de Macau (AAM), apontou ontem que estão a ser analisadas as mudanças necessárias na regulamentação da advocacia em Macau. No discurso de abertura do Ano Judiciário 2026/2027, Vong Hin Fai admitiu, em linha com as ideias deixadas pelo Chefe do Executivo, que “o actual regime da advocacia de Macau tem vindo a demonstrar algumas limitações no estímulo à inovação e reforço da competitividade externa, não respondendo às exigências de modernização da profissão na nova conjuntura”. Desta forma, foi criado no início deste ano o “Grupo de Trabalho Provisório para Aperfeiçoamento do Regime da Advocacia”, que inclui várias comissões de trabalho. O objectivo, segundo disse o presidente da AAM, é “o aperfeiçoamento da estrutura orgânica e mecanismos de gestão interna da Associação”, bem como a “elaboração do regime das sociedades de advogados”. Está ainda a ser estudada “a introdução do regime de prestação de serviços jurídicos externos por advogados do exterior”, ou ainda a “implementação da formação profissional contínua obrigatória”. Este Grupo de Trabalho também está a analisar “a revisão das normas deontológicas e do procedimento disciplinar”, sendo que todo este trabalho de análise está a ser feito mediante “um estudo comparado com os regimes do Interior da China, regiões vizinhas e práticas internacionais”. Grande família Vong Hin Fai destacou também que na última assembleia-geral da AAM, realizada em Setembro, foram alterados os estatutos da associação, “que alarga de sete para nove o número de membros da direcção da AAM”. Segundo o responsável, “trata-se de um ajustamento orgânico de relevante significado histórico”, sendo “a primeira com esta dimensão desde a criação da Associação em 1991”. Tal ocorreu “para dar resposta ao acrescido volume de trabalho, reforçar a eficiência decisória e aperfeiçoar os serviços prestados aos associados e aos interessados”. O presidente da AAM comentou ainda a recente revisão da Lei dos Advogados da China, aprovada pelo Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, e que entrou em vigor no passado dia 1 de Setembro. Vong Hin Fai considera que “o exercício da advocacia na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau transitou de um programa-piloto para um regime jurídico permanente”, dando aos advogados locais “um quadro legal mais estável para expandirem a sua actividade e participarem activamente na construção do Estado de Direito da Grande Baía”.
Andreia Sofia Silva EventosSalão de Outono | Nova edição inaugura parceria com museu de Xangai Arranca esta sexta-feira, dia 16, a 17.ª edição do Salão do Outono, que traz mais de uma centena de obras de artistas locais à Casa Garden. Uma obra feita ao vivo por Fortes Pakeong Sequeira é um dos destaques do cartaz, mas a grande novidade é a exportação do evento para o Museu Powerful de Xangai A Casa Garden, sede da Fundação Oriente (FO) em Macau, acolhe, a partir desta sexta-feira, dia 16, e até 22 de Novembro, mais uma edição do Salão de Outono, que há 17 anos acontece em Macau. Porém, a iniciativa promovida pela AFA – Art for All Society, traz, além do habitual concurso para jovens artistas, uma novidade: em Março do próximo ano, o Salão de Outono passa a fronteira e marca presença no Museu Powerful de Xangai. Esta cooperação faz parte “da nova estratégia” da organização, com o estabelecimento, pela primeira vez, “de uma colaboração inter-regional com instituições de referência do interior da China”. Além deste museu, foi estabelecida uma parceria com a entidade Art Infinity, cuja directora-executiva é Linwood Lin, de Hong Kong, e que está ligada à área da gestão, curadoria e profissionalização do mundo das artes. Segundo um comunicado da AFA, a exposição de Macau terá a cerimónia de inauguração no próximo dia 24, a partir das 18h30. Com a edição deste ano, e de Xangai, o Salão de Outono quer transformar-se numa “plataforma de exposições internacional para os artistas de Macau”. No tocante à mostra de Macau, a curadoria está a cargo de Kitman Leong e Julia Lam Tsz Kwan, e contou com a orientação de Alice Kok, presidente da AFA. Foram submetidas 187 obras para esta edição, tendo sido seleccionadas 133 trabalhos assinados por 96 artistas locais. A exposição abrange diversas formas de expressão artística contemporânea, incluindo pintura chinesa, pintura a óleo, aguarela, escultura, fotografia, cerâmica, instalação, vídeo, inteligência artificial e arte digital, “revelando a dinâmica criativa dos artistas de Macau”, é explicado. Do rol de artistas incluem-se nomes bem conhecidos do panorama artístico local como Alexandre Marreiros, Catarina Cottinelli Costa, presidente da Casa Garden; Diogo Dias dos Santos, Alice Kok, Alice Costa, Leong Kit Man ou Francisco Ricarte. Esta edição do Salão de Outono traz ainda o novo vencedor do “Prémio de Arte da FO”, anunciado dia 24. O prémio visa “apoiar jovens artistas locais na realização de residências artísticas em Portugal e será anunciado durante a cerimónia de abertura, simbolizando a continuidade e o desenvolvimento do ecossistema artístico local”. Fortes Pakeong ao vivo A AFA revela ainda aquele que será “um dos principais destaques da exposição deste ano”: a criação artística ao vivo do artista de Macau Fortes Pakeong Sequeira. Este fim-de-semana, de sexta-feira a domingo, e depois entre os dias 22 e 24 de Outubro, sempre entre das 13h e as 18h, Pakeong Sequeira recorre ao lápis e papel de desenho para apresentar o projecto “Do As I Am”. Segundo a AFA, “num contexto marcado pela turbulência, o artista transforma a tela, partindo de um estado de total ‘vazio’ para uma ‘respiração’ fria e concentrada, numa exploração progressiva que passa do ambiente exterior para o estado interior da mente”. “Embora os meios materiais sejam limitados, a imaginação não conhece fronteiras. Pakeong demonstrará ao público como descobrir o macro no micro, transformando um pequeno espaço num universo, e convidará os visitantes a experimentar a liberdade absoluta proporcionada pelo desprendimento durante este processo de criação imersiva”, é explicado. Modelo para Macau? A AFA quer ainda, com esta edição do Salão de Outono, promover uma “integração profunda dos recursos de exposição com os mecanismos de mercado”. Assim, foi também estabelecida uma parceria com a Universidade de Turismo de Macau, que acolhe um debate. O “Seminário de Administração da Arte e Fórum do Salão de Outono AFA: Quebrar Barreiras, Capacitar e Co-criar — Construir um Ecossistema Sustentável para a Arte Contemporânea de Macau” tem lugar já na próxima terça-feira, 20, das 19h às 21h, no Grande Auditório FG51 do campus da Taipa da instituição de ensino. Pretende-se, com esta sessão, “ultrapassar as fronteiras existentes e impulsionar a evolução do ecossistema artístico e cultural de Macau para um modelo profissional de indústria cultural”. A moderação está a cargo de Alice Kok, marcando presença em Macau Wendy Xu, directora do Museu Powerlong de Xangai. A ideia é debater como o modelo aplicado neste museu “poderá ser introduzido em Macau”. Trata-se de uma fórmula que “combina o reconhecimento académico de um museu de arte sem fins lucrativos, o alcance público de um centro de arte e a capacidade comercial de uma galeria”. Desta forma, procura-se “criar um percurso sistemático e de qualidade que permita às obras de arte ultrapassar a distância entre o meio académico e o mercado”. A mesa redonda conta com Linwood Lin; Bai Shui, artista emergente seleccionado pela Forbes China em 2025; Cindy Ng, curadora do Pavilhão de Macau na 61.ª Bienal de Veneza; e Eric Fok, artista local que participou na Bienal de Veneza. Segundo a AFA, este “conseguiu estabelecer relações de representação com galerias e integrar-se no circuito internacional de coleccionismo”. Nesta sessão terão lugar “três questões centrais”, nomeadamente como se pode criar “um centro eficaz que permita aos artistas de Macau estabelecer ligações com os mercados nacional e internacional”. O debate irá também abordar “como formar coleccionadores e públicos especializados” e ainda como se pode “aproveitar a experiência dos sistemas da cadeia de valor da indústria artística do Interior da China”, a fim de se “promover a industrialização e a profissionalização do ecossistema artístico e cultural de Macau”.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaDST | Macau é destino preferido de confederação de agências espanholas Helena de Senna Fernandes anunciou que os visitantes espanhóis “aumentaram perto de 20 por cento nos primeiros oito meses do ano” e que a Confederação Espanhola de Agências de Viagens escolheu Macau como “Destino Preferido 2027” As relações entre Macau com os países de língua espanhola parecem estar a aprofundar-se na área económica e turística. Prova disso é que “os visitantes espanhóis [em Macau] aumentaram perto de 20 por cento nos primeiros oito meses” deste ano, isto no contexto do crescimento “superior a 30 por cento do número de visitantes europeus”. Os números foram avançados pela directora dos Serviços de Turismo (DST), Helena de Senna Fernandes, que, citada por uma nota oficial, destaca a importância do mercado espanhol para o turismo local. A DST revelou também que a Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEAV) escolheu Macau como “Destino Preferido 2027”, tendo Helena de Senna Fernandes explicado que a DST “vai continuar a cooperar com a CEAV para atrair mais visitantes a Macau ou para viagens ‘multi-destinos’ na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. Aquando da realização da última edição do Concurso Internacional de Fogo-de-Artifício de Macau, esteve no território uma delegação da CEAV. A escolha de Macau como “Destino Preferido 2027” vai permitir o reconhecimento “das vantagens únicas de Macau enquanto centro mundial de turismo e lazer”, uma distinção que será “favorável à expansão contínua do mercado espanhol e mesmo europeu”. Macau na FITUR As relações entre Macau e Espanha na área do turismo têm sido profícuas. Segundo a mesma nota, decorreu em Abril deste ano duas acções promocionais em Madrid, o “Sentir Macau Roadshow” e “Sabor da China – Aroma de Macau”. Além disso, realizou-se a sessão “Actualização de Produtos de Turismo de Macau”, com o objectivo de “apresentar à indústria espanhola os mais recentes desenvolvimentos turísticos de Macau e promover o potencial para o turismo ‘multi-destinos”. Em Julho a DESTINIA, “grande agência de viagens online de Espanha”, trouxe a Macau um grupo para uma “visita de familiarização”; sendo que, este mês, foi organizada outra visita para a delegação da CEAV. Tais acções “favorecem o marketing de precisão dos operadores espanhóis e o lançamento de produtos turísticos de Macau”, explica a DST. No próximo ano a DST vai participar na Feira Internacional de Turismo de Espanha, para reforçar “os esforços de promoção para posicionar Macau como um destino de longa distância atractivo para o mercado espanhol, promovendo o desenvolvimento contínuo e diversificado da indústria turística de Macau”, é explicado.
Andreia Sofia Silva PolíticaDeputada questiona atrasos de Planos Pormenor na Zona Norte A deputada Song Pek Kei quer saber em que fase estão os Planos Pormenor da Zona Norte da península e questiona quando será possível avançar com os prometidos projectos de renovação urbana. Numa interpelação escrita, a deputada ligada à comunidade de Fujian residente em Macau, afirmou que caso o Governo não publique, o mais rapidamente possível, os Planos de Pormenor para as zonas abrangidas, estarão em causa projectos como a reconstrução de edifícios antigos, infra-estruturas comunitárias e a transformação de edifícios industriais, por falta base jurídica. “O Governo destacou várias vezes que vai acelerar o processo de renovação urbana apostando num pensamento inovador e que os Planos Pormenor serão a base do reordenamento dos bairros antigos, a transformação dos terrenos e desenvolvimento de zonas. Mas como está o progresso da elaboração do Plano de Pormenor da Unidade Operativa de Planeamento e Gestão (UOPG) da Zona Norte – 1 e de outras zonas?”, questionou. De frisar que os Planos Pormenor são desenvolvidos no âmbito do Plano Director da RAEM, que delimita 18 UOPG. Porém, o website da Rede de Informação de Planeamento Urbanístico da Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana refere que apenas foram iniciados os Planos Pormenor para as zonas Este-2, Zona do Porto Exterior-1 e Zona do Porto Exterior-2, Norte-1 e Taipa Central-2, sendo que apenas a UOPG para a zona Este-2 registou avanços. Ilha Verde à espera Outro ponto destacado na interpelação da deputada, prende-se com atrasos na requalificação de alguns espaços na zona da Ilha Verde, que também estão incluídos no planeamento da Zona Norte. Song Pek Kei exige que o Governo apresente uma agenda para a mudança do Matadouro Municipal, Cais de Dragagem e renovação de edifícios industriais dispersos e ineficientes. A deputada citou, na interpelação, o Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona da Ilha Verde, onde se explica que este tipo de infra-estruturas vão ter nova localização para que esta zona tenha mais espaços pensados para atingir o objectivo da diversificação económica do território.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivro | Daniel Pires lança biografia de Bartolomeu Lourenço de Gusmão Há 300 anos morreu o padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Homem de múltiplos feitos, falou de uma “máquina que voa” ao rei D. João V e foi perseguido pela Inquisição. Daniel Pires acaba de lançar “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, editado pela Imprensa Nacional A história de vida de Bartolomeu Lourenço de Gusmão acaba de chegar ao público em formato de livro. O projecto editorial, assinado por Daniel Pires, estudioso de Camilo Pessanha, conta a complexa vida do inventor da “passarola”. “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Um padre-cientista voando sobre brasas”, tem edição da Imprensa Nacional e é lançado numa altura em que passam 300 anos sobre a morte do padre que teve muitas facetas, incluindo a de assessor do rei D. João V, e que morreu em Toledo, Espanha, com apenas 38 anos. Ao HM, Daniel Pires explica como iniciou a investigação para o livro. “Ele era um jovem luso-brasileiro, nascido em Santos, que na altura era uma vila piscatória, numa família de doze irmãos, todos católicos. Fez a instrução primária em Santos, depois foi para um seminário de jesuítas, e aos 20 anos percebe que não tem mais hipótese de evoluir e decide vir para o então continente [Portugal], com uma cunha do governador do Brasil, conseguindo que o rei [D. João V] o chamasse.” É na primeira audiência com o monarca que Bartolomeu de Gusmão fala da sua “passarola” e de como podia ajudar o rei a comunicar com as então colónias, dispersas por África, Ásia e América do Sul. “O rei queria saber coisas do Brasil, que não conhecia. Fez perguntas sobre os índios, a alimentação, a escravatura, o ouro. Às tantas, Bartolomeu de Gusmão, que era, na altura, um miúdo de 23 anos, consegue dizer ao rei: ‘Vossa Excelência conhece a locomoção terrestre, o ser humano desloca-se por terra e por mar, mas eu sei que o ser humano também se pode deslocar pelo ar, e tenho a possibilidade de fazer uma máquina que voa'”. O encontro com D. João V Segundo Daniel Pires, o padre inventor terá dito que, com esta máquina, era possível ir além do “país imenso” que era Portugal, já que se consideravam as colónias como parte do território. “Disse ao rei que ele podia governar mais facilmente se tivesse este engenho aeroestático, que levasse as ordens às colónias portuguesas, e que depois poderia transportar mercadorias, fazer negócios”, aponta o autor. D. João V, perante esta novidade, ficou “admiradíssimo”. “Estamos a falar da primeira máquina que voava no mundo, não apenas em Portugal. Ainda por cima, apresentava esta possibilidade de Portugal ganhar a guerra com Espanha [Guerra da Sucessão Espanhola, entre os anos de 1704–1715] e resolver esse problema, pois Portugal sofria com uma derrota pesadíssima”, acrescentou. Neste encontro com D. João V, que decorreu no ano de 1709, foi exigido a Bartolomeu de Gusmão que apresentasse, então, um desenho que explicasse como construir a “passarola”. “O rei reuniu físicos, matemáticos, químicos portugueses, e cinco dias depois o projecto estava aprovado. Gerou-se depois [um debate]: por um lado, havia pessoas retrógradas, mais concretamente a Igreja, desconfiados; e havia ainda quem apoiava Bartolomeu de Gusmão. Mas quem estava do lado da Igreja foi à Bíblia, e pensou: ‘locomoção pelo ar? Quem é que se desloca pelo ar na Bíblia? Os anjos’. Como a Bíblia não faz referência a máquinas aéreas, acharam que Bartolomeu de Gusmão tinha relações com bruxas, um pacto com o demónio. A partir daí, perseguiram-no a vida inteira.” Múltiplas fugas Bartolomeu de Gusmão teve de “fugir várias vezes”, perseguido pela Inquisição. “Ao fim de três meses, a máquina aeroestática subiu cerca de quatro metros e despenhou-se, incendiou-se. Então as más-línguas, e pessoas mal-intencionadas, disseram que ele, além de ter um pacto com o demónio, também queria criar uma máquina armada para subjugar os países católicos, neste caso Espanha, Portugal, França e Itália. Então, a partir daí, deu-se uma perseguição constante e [Bartolomeu de Gusmão] acabou por fugir de vez para a Holanda, onde foi inventando outras máquinas, outras coisas.” Uma destas coisas foi o registo “da patente de uma máquina hidráulica”. O padre fez ainda estudos em França, Holanda e Inglaterra. Porém, D. João V nunca deixou de acreditar imaginativo clérigo, e acabou por o chamar de volta a Portugal, regresso que permitiu a Bartolomeu de Gusmão estudar Direito Canónico na Universidade de Coimbra. “Criou-se uma amizade muito forte entre ele e o rei, que sempre confiou nele”, disse Daniel Pires. É então que Bartolomeu de Gusmão se torna secretário de D. João V. Apesar da posição, continuaria a ser perseguido e acusado das mais variadas coisas, inclusivamente de ser judeu. Porém, D. João V nunca acreditou nestas acusações e diz a Bartolomeu de Gusmão para fugir, pois havia o risco de ser queimado em praça pública pela Inquisição, como era costume à época. A denúncia dos jesuítas A figura de Bartolomeu de Gusmão ficou para sempre no imaginário português, ao ponto de José Saramago, escritor e Prémio Nobel da Literatura, ter criado um personagem inspirado nele, o “padre voador”. “[Saramago] criou um personagem muitíssimo bem-criado de acordo com os parâmetros históricos, pois tanto a história de Bartolomeu de Gusmão como a reconstituição da sociedade da época estão muito bem feitos no livro”, disse. Há muitas referências que falam de Bartolomeu de Gusmão enquanto padre jesuíta, mas a obra de Daniel Pires prova que este nunca entrou na Companhia de Jesus que, aliás, o terá denunciado à Inquisição. “Foi algo grave, o facto de a própria Companhia de Jesus ter denunciado Bartolomeu de Gusmão à Inquisição. Havia ali grandes divergências, pois nunca aceitaram que ele não tenha querido entrar na Companhia de Jesus. Mas também desconfiavam bastante daquela máquina aerostática.” Falamos de um “tempo difícil para os visionários”, com um grande poder da Igreja Católica. “Depois da morte de Bartolomeu de Gusmão o seu nome continuou a ser proibido. Estamos a falar do primeiro inventor de balões, do primeiro cientista das Américas.” Esta não foi a primeira vez que Daniel Pires fez a incursão no mundo deste padre inventor, já que, no ano passado, reuniu num livro toda a sua obra. O livro “Obra de Bartolomeu de Gusmão” nasceu de uma busca incessante de Daniel Pires pelos seus papéis. “Quando vi que ele tinha sido perseguido pela Inquisição e que tinha morrido em Espanha, vi que não havia praticamente quaisquer papéis e documentos dele. Há cerca de dois anos e meio resolvi investigar porquê. A Inquisição não queimou os papéis de amigos e familiares, existindo cópias, e foi a partir daí que comecei a trabalhar, reunindo toda a obra dele, 15 inéditos.” Este foi o resultado de uma pesquisa feita por vários arquivos em Portugal, incluindo a Torre do Tombo, assim como arquivos em Espanha, França e Inglaterra. “Trata-se de uma obra muito diversificada, que inclui poesia, filosofia, ciência. Ele também foi jurista e historiador, e fazia, por exemplo, os códigos cifrados dos documentos diplomáticos portugueses. Era também um grande matemático”, rematou Daniel Pires. Bartolomeu de Gusmão teve uma vida curta, falecendo de febres em Toledo com apenas 38 anos.
Andreia Sofia Silva EventosHengqin | Festival da Cultura Lusófona este fim-de-semana O Centro Cultural e Artístico de Hengqin recebe este fim-de-semana, de sexta-feira a domingo, o Festival da Cultura Lusófona de Hengqin, organizado pelo Instituto Cultural (IC) e organismos ligados à Zona de Cooperação Aprofundada de Guangdong e Macau em Hengqin. Segundo uma nota da organização, o festival acontece entre as 16h e as 21h, não faltando mascotes e muitas representações da cultura portuguesa e macaense. Há, portanto, a “doçura e sabor inconfundível dos pastéis de nata” no espaço dedicado à gastronomia lusófona. Destaque para a participação da chef macaense Antonieta Manhão, mais conhecida como chef Neta, que apresenta as receitas de bifana de porco com açafrão e pão com chouriço. Haverá ainda duas demonstrações de culinária ao vivo por dia com foco na gastronomia macaense, apostando-se na confecção de pratos como o minchi ou porco balichão tamarindo. O festival traz uma exposição de artesanato com objectos dos países de língua portuguesa, com “oficinas práticas em que os visitantes podem fazer pintura de azulejos tradicionais portugueses, leques de papel, crochet e pintura com areia”, sendo que cada sessão tem 30 vagas. Outro foco do festival, é a reprodução da festa de São João do Porto. “Com o preenchimento de um questionário os visitantes recebem um martelo insuflável colorido para espalhar votos de boa fortuna através de divertidas e leves marteladas”, destaca a mesma nota. Além de um expositor dedicado ao Grande Prémio de Macau, o cartaz inclui também 20 “espectáculos temáticos” que vão desde o Fado às danças brasileiras, com grupos escolares.
Andreia Sofia Silva EventosMúsica | Achun lança dois novos singles em plataformas digitais O músico local Achun tem novidades no mercado discográfico, com dois novos singles. “Energetic” já está disponível nas plataformas digitais de streaming desde o dia 2 de Outubro; “A Lonesome Soul”, será lançado posteriormente. Eis Achun em nome próprio a explicar as influências destas composições, que vão da dança ao cinema Achun está de regresso às canções, mas não com um disco. Em entrevista ao HM, o músico de Macau disse que decidiu lançar apenas dois singles, um deles apresentado no passado dia 2, e de nome “Energetic”, já disponível em várias plataformas de streaming, como é o caso do “Spotify”. Será também lançado “A Lonesome Soul”. As origens destas produções são diferentes, mas a génese está na mesma pessoa que assume fazer música por pura paixão. E essas influências vagueiam entre géneros musicais ligados às lides culturais urbanas, como é o caso de “Chicago Ghetto House”. “No passado, a minha estratégia de lançamentos baseava-se nos EPs e nos álbuns. Agora, simplesmente quero mudar a minha abordagem e manter cada lançamento com uma só faixa. O impulso criativo por detrás de ‘Energetic’ surgiu da minha paixão de longa data [pelos géneros] Chicago Ghetto House, Footwork e Juke. Esta categoria está dentro da linhagem House, e já fiz este ‘estilo Footwork’ antes. Desta vez, ‘Energetic’ está direccionado para o House.” “Também sou um apaixonado por filmes, e já tenho alguma experiência em aparecer em algumas produções. ‘A Lonesome Soul’ cresceu a partir da influência de determinados filmes e séries”, acrescentou. Em meados de 2023, Achun lançou um outro single, intitulado “The Dance of a Heart Alone”, música na qual trabalhou por mais de dois anos. Aí começou a pensar mais na possibilidade de fazer canções e, simplesmente, disponibilizá-las em meios digitais. “No final estava a ficar cada vez menos motivado; e o único caminho que restou, enquanto ainda não queria desistir da canção, era fazer o ‘upload’ para as plataformas de streaming e deixá-la lá. Depois de ter saído, não fiz nenhuma promoção. Se o algoritmo trouxe [a canção] para uma plataforma de ‘streaming’, era esse o seu destino; se nunca for ouvida, não se perde nada. Pode-se dizer que esta foi a forma mais passiva de sempre de lançar uma canção, ou a mais experimental, ou ainda numa forma de tentativa-erro”, admitiu. Porém, com “‘Energetic’ e ‘A Lonesome Soul’ a abordagem foi completamente diferente, e quis que o lançamento destes dois singles fosse organizado, com alguma extensão desta espécie de experiência”, explicou. Acto de um crente Um dos primeiros álbuns de Achun data de 2014, e intitula-se “The Gloaming Time”, contando com faixas como “Here Comes the Moon”, “Yesteryear” ou “Hologram World”. “Everywhere”, por sua vez, surgiu em 2022 e contém oito faixas, nomeadamente a que dá nome ao álbum; “I Can’t Stand” e “I Forgot to React”. Por entre faixas e discos, fazer música é mesmo o grande amor de Achun. “Não é um mero hobby para mim, e existe quase com um sentido religioso, no sentido em que me defino como músico como um crente se define como alguém com fé.” Porém, ser músico em Macau acarreta lidar com desafios e tomar decisões. “O maior desafio de fazer música em Macau é que a maioria do público tem pouco entusiasmo pelos músicos ou mesmo um baixo nível de aceitação”, começa por dizer. “A música quase não é vista como tendo valor comercial a nível local, e algumas pessoas até a detestam e encaram-na como barulho. O Governo e alguns entusiastas, e as pessoas da indústria que estão na comunidade já recorreram a todos os métodos que podem para promover actividades relacionadas com a música, e lançamentos, incluindo bandas estrangeiras e músicos que chegam a Macau, [apostando-se também] no crescimento de bandas locais e músicos, mas nenhum foi adoptado pelo mercado.” A acrescentar a este cenário, os espaços para concertos ao vivo “têm encerrado um atrás do outro” e, no final, “sem terem mais onde tocar, as pessoas vão para a rua, e a polícia costuma aparecer para as impedir”. Desta forma, “estes factores objectivos constituem, sem dúvida, um grande obstáculo e desafio para os músicos de Macau. Nestas condições difíceis, tentei entrar no mercado da China continental”. Álbum na China Foi, assim, na China que Achuna lançou todas as cartas de que dispunha ao editar “On The Other Side”, o seu primeiro álbum, em 2012. “Na altura, até os meus amigos de Macau pensavam que eu me tinha mudado para Xangai de vez. Quanto a Hong Kong, em tempos considerei-a uma cidade onde era mais fácil desenvolver-me como músico do que em Macau, e também mais favorável à música, embora os músicos locais possam não ver as coisas dessa forma.” Achun actuou na região vizinha pela primeira vez em 2010, “quando Lai Fai, que dirigia o ‘Heavy HK’, colectivo de baixo/reggae de Hong Kong, e que na altura ainda não se tinha focado no reggae, me convidou para dar o meu primeiro concerto em Hong Kong no ‘Backstage Live House, em Lan Kwai Fong, um espaço que já fechou há muito tempo”. Esse tempo levam Achun a recordar a origem de um outro projecto, de 2021. Trata-se do LP de vinil de 180 g “Keep Da Vibez Goin’”, pela XXX Records. “Lembro-me que naquela noite, por entre a multidão, um estrangeiro andava a circular pelo público a distribuir panfletos para outra festa musical. O panfleto era mais pequeno do que a palma da mão. Essa pessoa era o Enso (Cassady Winston), que dirigia outro espaço de espectáculos [em Hong Kong], a ‘XXX Gallery’. Independentemente dos rumos que a ‘XXX Gallery’ tenha tomado mais tarde em Hong Kong, ela ainda me proporcionou, nos dez anos seguintes, muitas oportunidades de fazer atcuações ao vivo ou sessões de DJ nesse espaço”. Foi assim que Enso o ajudou a lançar o LP de 2021.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMariana Pereira, investigadora: “Uma Macau que vai muito além da terra” Mariana Pereira, investigadora do Instituto Internacional de Macau e da Universidade de York, colaborou na pesquisa para a exposição “Pessoas do mar – A comunidade piscatória de Macau”, inaugurada amanhã no Museu Marítimo de Macau. Em entrevista ao HM, defende a promoção do conhecimento marítimo num Delta do Rio das Pérolas em rápida mudança Como surgiu a oportunidade de realizar esta exposição? Surgiu um pouco da confluência de vários interesses. Primeiro fui eu que, no contexto do meu pós-doutoramento, quis perceber o que acontece ao conhecimento do mar quando as pessoas emigram, digamos assim, para terra. Sou muito interessada no património cultural relacionado com a emigração e diásporas e com aquilo que acontece na nossa ligação com o espaço. Em conversas com vários colegas, pensei que seria um tema interessante perceber o que se faz com o conhecimento do mar, neste caso, da comunidade piscatória de Macau. O meu pai lembra-se dessa comunidade vir para terra uns dias antes de haver tufões porque sabia ler o mar e ver se haveria tempestades, além de ter muito conhecimento da geografia local. Fiquei interessada nisso, e questionei-me: “Pronto, e agora? Onde fica esse conhecimento?”. A comunidade tem mudado bastante e queria perceber onde está agora. Contactei os meus colegas do IIM que depois me ajudaram a contactar o Museu, que, por sua vez, se mostrou interessado e nos facilitou o contacto com a comunidade piscatória. Não é fácil estudar as comunidades piscatórias da Ásia. Em que sentido? Vários colegas tentaram fazê-lo, com as comunidades de Hong Kong, Malásia, Indonésia. A de Macau continua a ser bastante desconhecida e acho que merece ter toda a atenção, uma vez que o Delta está a ser transformado de forma irreversível. Esse conhecimento do mar é único, mas desaparece muito depressa. Depois contactámos a Associação de Auxílio Mútuo dos Pescadores de Macau. Demorei quase dois anos a solucionar este contacto e conseguimos agora realizar duas entrevistas. São muito poucas, mas é uma porta de entrada. Tudo aconteceu com a ajuda dos nossos colegas e graças à confiança que existe entre o Museu Marítimo e a comunidade piscatória, e que demorou anos a estabelecer-se. Gostaria de ver esta exposição como um início para que as pessoas prestem mais atenção, mas é necessário um estudo mais aprofundado e alargado. Quero realmente chamar a atenção da comunidade de Macau quanto à fragilidade do conhecimento do mar, e que nos ajuda a perceber como podemos lidar com o Delta [do Rio das Pérolas] que está a alterar-se muito, não apenas com as alterações climáticas, mas com a própria interacção humana. O que poderemos ver nesta mostra? Há um pouco de tudo, desde entrevistas a vídeos, e textos a acompanhar as fotografias. O meu trabalho aqui é essencialmente o da pesquisa, tratamento da documentação e análise etnográfica das entrevistas. Mas as perguntas a fazer à comunidade e o rumo que tudo isto iria levar foi feito em parceria com o IIM e o Museu Marítimo. Que respostas obteve sobre uma comunidade que estará em vias de extinção? Não diria que está em extinção, mas sim que mudou muito e que está sob muita pressão para ser algo diferente. Percebi que há um grande sentimento de urgência para que este conhecimento do mar não se perca, as pessoas não querem que isso aconteça. Há interesse em passar esse conhecimento, em transmiti-lo, mudando a perspectiva que houve durante séculos desta comunidade. E qual foi? É uma comunidade móvel, que navega, literalmente, Macau, mas uma Macau que vai muito além da terra. E conseguimos perceber que há mais nuances de como era a vida no mar, os conhecimentos de pesca, de como localizar um barco e até o papel da mulher, que foi algo que nos interessou bastante. Há ainda assuntos como a educação e coisas sobre as quais gostaríamos de saber mais, como a medicina. Não conseguimos fazer ainda essas perguntas. Acima de tudo, é uma comunidade que quer muito partilhar e salvaguardar a relação com o mar, ainda que já não pesque e que não viva da mesma forma. A comunidade está bastante interessada nisso e já o faz muito bem, com as visitas de barco que se organizam quase todos os anos. Penso que é uma comunidade que tem sido mal interpretada, embora haja alguns bons estudos que tentam mostrar o mundo através dos seus olhos. Essencialmente onde é que estas comunidades estão? No Porto Interior, Coloane? É difícil saber. Muitas delas estão sim no Porto Interior, mas, por exemplo, essa noção de espaço era antigamente muito diferente. A comunidade estava também muito ligada a Hong Kong, e alguns deles passavam meses no mar, indo até às Filipinas ou à China. Não só é difícil saber onde estão essas comunidades como é difícil definir essa comunidade. Tem havido más informações sobre o que é essa comunidade, embora haja descendentes de famílias pescadoras que estão muito interessadas em se relacionar com esse conhecimento que os pais tinham do mar. Mas sim, o Porto Interior continua a ser um espaço único, e Coloane estava associada a uma comunidade um pouco diferente. Como? Havia uma longa história com a pirataria, por exemplo, e aí era uma forma diferente de viver. Mas há ainda muitas questões por levantar. Por exemplo, nós temos uma perspectiva muito específica que vem das fontes [documentais e históricas] portuguesas. É uma perspectiva de não compreensão, um pouco de não saber muito bem como lidar com estas comunidades. Falamos de discriminação? A comunidade piscatória está muito ligada à comunidade que vende peixe em Macau, e não são iguais. É a comunidade que está no Mercado Vermelho, por exemplo, e que continua a fazer festividades como a do Dragão Embriagado. Os pescadores dependiam muito destas comunidades que vendiam o peixe e havia todo um sistema económico que se começa agora a desvendar um pouco. Houve depois uma série de desafios, como a questão das licenças que, se calhar, começaram a impedir os pescadores de irem tantas vezes a Hong Kong. Passou a ser obrigatório registar o barco e aí tiveram que decidir onde se queriam registar. Mas, no passado, eram comunidades muito mais fluídas, navegavam mais e conheciam mais as cidades portuárias sem terem de necessariamente se estabelecer numa delas. Muitas dessas pessoas estavam, portanto, com o barco atracado em Macau, mas não estavam documentadas. Com essas licenças, essa situação também melhorou, estas pessoas passaram a estar mais integradas? Talvez tenhamos de reformular essa ideia de maneira diferente. Lá porque as comunidades não tinham documentação não significa que não estavam conectadas com a terra. O sistema de identificação de Macau é que excluiu, muitas vezes, essas comunidades, ou seja, havia dificuldade em lidar com as comunidades móveis, pois o processo de documentação exigia uma residência fixa. Não é que esta comunidade estivesse marginalizada, mas de certa forma era marginalizada, porque o próprio sistema de documentação não facilitava a sua identificação. Mas, sim, grande parte das pessoas estão legalizadas, e isto aconteceu, claro, já depois de 1987 e de todo o processo de transição de Macau. Mas são necessárias mais entrevistas para se perceber como essa legalização se fez. Mas é um tema difícil, que não vai estar na exposição porque não é fácil, e levanta muitas questões. Mas há uma relação muito próxima desta comunidade com várias profissões que estão em terra, e que viviam do mar, e que precisa de ser explorada melhor. O Museu Marítimo tem feito isso, mas há que perceber o aqui e o agora, onde estão essas pessoas agora. Que mensagens são transmitidas com esta mostra? Uma delas é que as pessoas venham conhecer uma comunidade que está disposta a partilhar o seu conhecimento. Mas é importante virem sem preconceitos. Há imenso a explorar, a descobrir, e urgentemente precisamos de nos reconectar ao Delta. Esta comunidade oferece um olhar diferente e importante para perceber como Macau depende completamente do mar que o rodeia. Esperamos que esta exposição origine mais informações e futuras exposições. Foto: Museu Marítimo Exposição no Museu Marítimo inaugurada amanhã O Museu Marítimo acolhe, a partir de quinta-feira a mostra “Pessoas e o Mar: A Comunidade Piscatória em Macau”, inaugurada às 18h. O projecto apresenta-se ao público nas três línguas que circulam em Macau – chinês, português e inglês – e é organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). Há ainda a colaboração de entidades como a Fundação Macau, a Associação de Auxílio Mútuo dos Pescadores de Macau e o apoio logístico do próprio Museu Marítimo. Revelam-se “as memórias, vida, tradições e os costumes desta comunidade que são retratados junto da comunidade local e dos turistas, que culturalmente é identificada pelos residentes de Macau”. As histórias contam-se, conforme disse Mariana Pereira, com fotografias cedidas pelo Museu Marítimo e textos. Macau foi, durante séculos, uma aldeia piscatória até se desenvolver no território que é hoje. Assim, segundo uma nota do IIM, pretende-se “retratar a história da comunidade piscatória, como exerciam a profissão e a pesca em particular, reforçando a importância dos seus costumes e tradições, que é grande parte preservada e reconhecida em itens do património cultural intangível de Macau, classificados e inseridos na lista do inventário do Instituto Cultural do Governo da RAEM”. Investigação em curso A exposição pode ser vista até ao dia 26 deste mês e nasce de uma investigação da entrevistada em colaboração com outras pessoas, sendo um deles Jack Wang Deyi, estudante de doutoramento que trabalha no IIM a construir “um futuro projecto” dedicado ao estudo desta comunidade piscatória. Segundo explicou António Monteiro, dirigente do IIM, “o projecto de investigação vai continuar com a equipa composta por Mariana Pereira, Jack Wang Deyi e o IIM, além de que temos tido a positiva colaboração do Museu Marítimo de Macau”. O objectivo da mostra é “realçar a memória e relembrar a existência desta comunidade, parte também de Macau”, disse António Monteiro. “Pode ser útil para Macau trabalhar com esta comunidade em novas ideias e projectos para esta Macau, muito diferente dos tempos da aldeia piscatória.”