A Intrigante Beleza da Deusa do Rio Luo

Qu Yuan (c.349 – 278 a. C.), o celebrado poeta do inquietante tempo dos Estados Combatentes, é apontado como autor de uma série de cento e setenta e duas perguntas que fazem parte da recolha Chuci, «Elegias de Chu», o Estado em que nasceu e que serviu lealmente como seu ministro, mas que se distinguem pela forma, mais próxima de textos fundamentais como o Daodejing ou o Shijing.

Nelas estão recolhidos conhecimentos populares e eruditos que se referem a eventos intrigantes da mitologia e antigas crenças religiosas, não evitando referências a contradições ou enigmas. Diz-se que o poeta começou a conceber essas «Perguntas ao Céu», Tianwen, após ter observado várias cenas pintadas em murais no templo dos ancestrais do Estado Chu. Uma dessas inquirições, que se lê como uma charada diz: «O imperador enviou Houyi para reformar o povo da primeira dinastia Xia, porque é que ele disparou uma seta contra Hebo e tomou para si a sua esposa Fufei?»

Houyi é o lendário e heróico arqueiro que destruiu nove dos dez sóis que existiam no princípio dos tempos. Hebo, o «Senhor do rio» também conhecido como Heshen, a «divindade do rio», personifica o espírito impetuoso e benfazejo do grande rio Amarelo, Huanghe, uma figura que emerge como recompensa ao mortal Fengyi que se afogara ou se sacrificara nas águas do rio.

Uma resposta ao enigma pode ser lida no Huainanzi, o Livro dos sábios de Huainan (escrito antes de 139 a. C.) que fala deste carácter dúplice do rio que tanto fertiliza, irrigando as margens, como causa inundações devastadoras. Numa dessas catástrofes foi chamado o herói arqueiro que lhe acertou uma flecha no olho esquerdo obrigando-o a fugir. O prémio que Houyi se atribuiu foi levar a esposa do deus do rio, filha de Fuxi, o primeiro mítico imperador, uma mulher fascinante conhecida por nomes diversos como Fufei, a «Consorte Fu» ou Luoshen, a «Divindade do rio Luo», um longo rio que nasce na Província de Shaanxi e desagua no rio Huanghe em Henan. Uma deusa deslumbrante e inesgotável fonte de inspiração.

Wei Jiuding, um pintor de Tiantai (Zhejiang) que viveu no século XIV, ao contrário da mais célebre pintura sobre ela, o rolo horizontal de Gu Kaizhi (c.345-406) que inclui e ilustra o poema de Cao Zhi (192-232), que mostra o encontro em sonhos da deusa com o poeta, concebeu um retrato da deusa isolada.

Usando o método da linha clara baimiao, num rolo vertical (tinta sobre papel, 90,8 x 31,8 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) a pintura na escassez de referências espaciais sublinha o inefável da visão deslizante sobre as águas, numa brisa tão leve que apenas faz esvoaçar as longas tiras do seu vestuário. Que o poeta-princípe Cao Zhi descreveu como: «leve como um cisne em alvoroço, flexível como um dragão a nadar, radiante como um crisântemo no Outono, viçosa como um pinheiro na Primavera.»

31 Ago 2026

Qiu Jin – O pincel e a espada

Tradução, comentário e notas por Sara F. Costa

題《芝龕記》八章(其七、其八)

Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí qī, qí bā)

VII

結束戎妝貌出奇,

Jiéshù róngzhuāng mào chūqí,

個人如玉錦駝騎。Gèrén rú yù jǐn tuó qí. 同心兩女肩朝事,

Tóngxīn liǎng nǚ jiān cháoshì,

多少男兒首自低。

Duōshǎo nán’ér shǒu zì dī.

VIII

肉食朝臣盡素餐, Ròushí cháochén jìn sùcān, 精忠報國賴紅顏。

Jīngzhōng bàoguó lài hóngyán.

壯哉奇女談軍事, Zhuàng zāi qínǚ tán jūnshì, 鼎足當年花木蘭。

Dǐngzú dāngnián Huā Mùlán.

O Registo do Nicho de Zhi (poema VII e VIII de VIII)

VII

Pelo traje de guerra, há um porte que assombra,¹

a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha.²

Num só coração, duas mulheres levam o reino aos ombros,³ quantos homens, perante elas, baixam a cabeça.⁴

VIII

Fartos de carne, comem os ministros da corte sem servir,⁵

de rosto rubro repousam as mulheres inteiras.⁶

Magníficas, as mulheres singulares transacionam a guerra entre si,⁷ como a Hua Mulan de outrora, perfazem a grande tríade feminina.⁸

Notas

¹ 結束 (jiéshù) conserva aqui o sentido clássico de «vestir-se», «compor o traje» ou

«aprontar-se». 戎妝 (róngzhuāng) designa o trajo militar, em particular a figura revestida de armadura. O verso apresenta as duas mulheres depois de se armarem. A tradução «Em trajo de guerra» evita a leitura moderna de 結束 (jiéshù) como

«terminar», que levaria ao sentido incorreto de despir ou abandonar a indumentária militar. 貌出奇 (mào chūqí) caracteriza a sua aparência como extraordinária. «Um porte que assombra» converte essa singularidade numa impressão visual (Qiu, 2020, notas 289–291).

² 個人 (gèrén) possui aqui o valor clássico de «aquela pessoa» ou «aquela figura», frequentemente aplicado a alguém contemplado com admiração, e não o sentido moderno de «indivíduo» ou «pessoal». 玉 (yù), «jade», evoca beleza, luminosidade e valor. Em 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 錦 (jǐn) sugere o brocado e 駝 (tuó) funciona como verbo,

«carregar às costas», num uso equivalente a 馱 (tuó). 騎 (qí) designa a montada. A imagem apresenta, portanto, uma figura semelhante a jade, envolta em brocado e transportada pelo animal. Este valor verbal de 駝 (tuó) encontra-se registado

no Dicionário Revisto de Mandarim do Ministério da Educação de Taiwan. A tradução preserva a compactação visual do verso e afasta a leitura literal de «camelo», estranha ao contexto.

³ 同心 (tóngxīn), literalmente «com o mesmo coração», exprime união de propósito. 肩(jiān) funciona como verbo, «carregar aos ombros» ou «assumir», enquanto 朝事(cháoshì) designa os assuntos da corte e, por extensão, os negócios do Estado. «Levam

o reino aos ombros» conserva a metáfora corporal e torna perceptível o peso político confiado às duas mulheres.

⁴ 首自低 (shǒu zì dī) significa que as cabeças dos homens «se baixam por si mesmas».

O gesto reúne vergonha, reconhecimento e submissão perante a evidência do mérito feminino. «Perante elas» explicita a relação implícita no verso chinês.

⁵ 肉食 (ròushí), literalmente «comer carne», designa os titulares de cargos elevados e

evoca a frase 肉食者鄙,未能遠謀 (ròushí zhě bǐ, wèinéng yuǎn móu), «os que comem carne são de visão estreita e incapazes de conceber planos distantes», do Zuǒ zhuàn 左傳 (Zuǒ zhuàn). 素餐 (sùcān) significa receber sustento ou remuneração sem prestar serviço e remete para a expressão 不素餐兮 (bù sùcān xī), «não come em vão», do poema 伐檀 (Fátán) do Shījīng 詩經 (Shījīng). Qiu Jin funde as duas alusões numa sátira aos ministros que vivem dos privilégios da corte sem cumprirem o dever correspondente. «Comem sem servir» procura conservar a relação entre alimento, remuneração e inutilidade pública (Qiu, 2020, notas 292–294; Ruan, 1980).

⁶ 精忠報國 (jīngzhōng bàoguó) exprime o serviço da pátria com lealdade inteira. 賴(lài) significa «depender de» ou «contar com». 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rubro», constitui uma designação convencional da mulher, associada à juventude e à beleza. «Rostos de mulher» conserva a metonímia corporal e a tonalidade cromática do original. A frase transfere para as mulheres a virtude política que os ministros do verso anterior abandonaram.

⁷ 談軍事 (tán jūnshì) significa falar, deliberar ou tratar de assuntos militares. O verso reconhece às mulheres uma autoridade estratégica e discursiva, além da coragem demonstrada no combate. «Tratam da guerra» preserva essa amplitude.

⁸ 鼎足 (dǐngzú) alude aos três pés do dǐng 鼎 (dǐng), vaso ritual cuja estabilidade

depende de três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan formam assim uma tríade de heroínas colocadas em plano de igualdade. Hua Mulan 花木蘭 (Huā Mùlán) é a guerreira da tradição literária que ocupa o lugar do pai no exército. A versão mais antiga conservada da lenda encontra-se na Balada de Mulan, embora a personagem tenha adquirido formas distintas ao longo dos séculos (Idema & Kwa, 2010). «Perfazem

o tripé» reproduz a estrutura ternária da imagem e o gesto de consagração que encerra o ciclo.

Comentário

As duas composições finais encerram o ciclo através de três movimentos sucessivos. O sétimo poema dá corpo às figuras cuja representação pictórica fora desejada no sexto. O oitavo transforma esse retrato em acusação política e termina com a inscrição de Qin Liangyu e Shen Yunying numa genealogia heroica presidida por Hua Mulan. A imagem, o juízo e a memória convergem no fecho.

O primeiro verso do poema VII exige particular cautela. Embora na contemporaneidade, 結束 (jiéshù) signifique habitualmente «terminar», o uso clássico presente no poema corresponde a vestir-se, compor o traje e preparar o corpo para a ação. A cena começa, portanto, com a assunção da armadura. A tradução «Pelo traje de guerra » fixa esse momento e impede a inversão narrativa por oposição a versões que imaginam as mulheres depois de despirem o uniforme.

戎妝 (róngzhuāng) reúne dois campos semânticos. 戎 (róng) pertence à guerra e

às armas. 妝 (zhuāng) pertence ao adorno e à composição da aparência. O eu poético conserva no mesmo vocábulo a feminilidade e o equipamento militar. A guerreira surge como uma figura construída pela convergência desses códigos. A armadura integra a sua aparência e transforma-a num corpo público, preparado para comandar.

貌出奇 (mào chūqí) assinala o efeito produzido por essa aparição. 出奇 (chūqí) descreve aquilo que excede o habitual e provoca espanto. «Um porte que assombra» desloca a ênfase da fisionomia para a presença inteira. O assombro nasce da figura armada e da perturbação das expectativas sociais que nela se tornam visíveis.

O segundo verso aproxima matéria, cor e movimento. 玉 (yù), o jade, oferece uma imagem de brilho contido, pureza e valor. 錦 (jǐn), o brocado, acrescenta cor, textura e distinção. A montada introduz o movimento que faltava ao retrato imaginado no poema VI. As duas mulheres deixam a imobilidade de uma pintura ausente e atravessam agora o verso como figuras equestres. A sequência 錦駝騎 (jǐn tuó qí) apresenta uma sintaxe muito comprimida. 駝 (tuó) pode designar o ato de transportar sobre o dorso. A leitura que melhor se articula com a cena entende a montada como suporte da figura revestida de brocado. «a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha» conserva o fulgor mineral, a riqueza do tecido e a elevação do corpo.

No segundo dístico, o poema abandona a contemplação e revela a dimensão política dessas figuras. 同心 (tóngxīn) apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como uma unidade de vontade. O coração comum substitui a exceção individual por uma aliança feminina. As duas mulheres partilham a responsabilidade pelo destino coletivo. O verbo 肩 (jiān) converte o ombro em ação. Os assuntos da corte adquirem peso e repousam sobre corpos femininos. «Levam o reino aos ombros» amplia 朝事 (cháoshì) sem dissolver a sua origem política.

O último verso do poema VII responde a essa elevação com um movimento descendente. As mulheres assumem o peso do reino, enquanto as cabeças masculinas se inclinam. O contraste espacial produz a inversão hierárquica. Torna-se visível na postura dos corpos. 首自低 (shǒu zì dī) contém ainda uma forma subtil de inevitabilidade. As cabeças baixam-se «por si mesmas». Nenhuma autoridade exterior ordena o gesto. O mérito das duas mulheres força os homens ao reconhecimento. A tradução «perante elas» torna explícita essa relação e conserva a ambiguidade entre homenagem e vergonha.

O poema VIII abre com a imagem mais satírica de todo o ciclo. 肉食 (ròushí) e 素餐 (sùcān) pertencem ao mesmo campo alimentar, embora apontem para tradições textuais distintas. Os ministros comem carne porque ocupam posições privilegiadas. Ao mesmo tempo, «comem em vão», recebendo honras e remuneração sem serviço correspondente. A abundância da mesa converte-se em prova de esterilidade política.

Em português, o verso convoca o ato de pôr comida à mesa e o dever de servir o Estado. A mesa farta e a ausência de serviço tornam-se faces da mesma corrupção.

O verso seguinte opõe à inércia dos ministros a lealdade das mulheres. 精忠

(jīngzhōng) designa uma fidelidade levada ao grau máximo. 報國 (bàoguó) associa essa virtude à obrigação de retribuir, proteger ou servir o país. O verbo 賴 (lài) torna a dependência explícita. A ordem política sustenta-se nos «rostos rubros» que a sua própria hierarquia afastava do poder.

«Nos rostos de mulher repousa a inteira lealdade à pátria» preserva a imagem corporal de 紅顏 (hóngyán). O rosto feminino, associado pela convenção à beleza, torna-se o lugar onde subsiste a virtude pública. A cor deixa de ornamentar o corpo e passa a iluminar uma falência masculina. Esta inversão conserva uma tensão histórica. O ciclo celebra valores de lealdade e piedade filial herdados da ordem confuciana e ligados, no

enredo do Zhīkān jì, ao serviço da dinastia Ming. O eu poético apropria-se desse vocabulário para demonstrar a capacidade política das mulheres. A tradição fornece-lhe os próprios termos com que ela contesta a distribuição masculina da autoridade. Hsieh (2021) observa que as narrativas sobre Shen Yunying legitimaram frequentemente a sua ação militar através da piedade filial e da lealdade.

O terceiro verso concede às mulheres um poder adicional. 談軍事 (tán jūnshì)

abrange a discussão, a deliberação e o tratamento dos assuntos militares. Qin Liangyu e Shen Yunying possuem força no campo de batalha e voz na esfera estratégica.

«transacionam a guerra entre si» mantém aberta essa dupla capacidade. A guerra surge como ação e como conhecimento.

O adjetivo 奇 (qí), «singular» ou «extraordinário», acompanha as figuras femininas desde o início do poema VII até ao penúltimo verso do ciclo. Primeiro, o porte causa assombro. Depois, as próprias mulheres recebem o nome de «singulares». A repetição transforma a diferença socialmente imposta numa marca de grandeza. Aquilo que escapava à norma torna-se critério de excelência.

O último verso condensa a genealogia numa imagem arquitetónica. O dǐng 鼎 (dǐng) permanece de pé graças a três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan ocupam essas posições equivalentes. A comparação abandona o modelo em que uma mulher excecional recebe licença para entrar numa história masculina. As três mulheres formam uma estrutura autónoma de memória heroica.

Hua Mulan desempenha uma função decisiva nesse fecho. A sua história circulou durante séculos como paradigma da filha que assume o lugar do pai no exército. Qin Liangyu e Shen Yunying pertencem ao domínio da história dinástica, enquanto Mulan chega através da balada e das suas sucessivas reelaborações literárias. O passado feminino adquire, assim, uma forma ampla, feita de arquivo, teatro, poesia e imaginação.

Xia Xiaohong (1998) relaciona a leitura do Zhīkān jì com a formação do imaginário heroico de Qiu Jin. Esta relação torna-se especialmente evidente nas duas composições finais. O retrato das comandantes contém uma dimensão de autorreconhecimento e de desejo. Ao contemplar mulheres armadas, capazes de carregar o reino e de fazer baixar as cabeças masculinas, a autora ensaia a figura pública que procuraria construir para si própria.

A sequência completa progride do reconhecimento histórico para a criação de uma comunidade. Nos primeiros poemas, Qin Liangyu e Shen Yunying aparecem como exemplos de fama e capacidade militar. Nos poemas centrais, a sua lealdade e piedade filial expõem a falência dos generais masculinos. Os poemas VII e VIII dão-lhes corpo, voz política e posição numa genealogia. O ciclo termina quando a exceção se converte em linhagem e a linhagem em medida do heroísmo.

Referências

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Hsieh, H.-C. [謝曉菁 Xiè Xiǎojīng]. (2021). Nánxìng wénrén bǐxià de cóngjūn nǚxìng: Yǐ Míngmò nǚjiàng Shěn Yúnyīng wéi héxīn 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming]. Nǚxué Xuézhì: Fùnǚ yǔ Xìngbié Yánjiū 女學學

誌:婦女與性別研究, 48, 1–27. https://doi.org/10.6255/JWGS.202106_(48).01 Idema, W. L., & Kwa, S. (Eds. & Trans.). (2010). Mulan: Five versions of a classic Chinese legend, with related texts. Hackett Publishing Company. Página da obra

Qiu, J. [秋瑾 Qiū Jǐn]. (1979). Qiū Jǐn jí 秋瑾集 [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shànghǎi Gǔjí Chūbǎnshè 上海古籍出版社.

Qiu, J. [秋瑾 Qiū Jǐn]. (2020). Qiū Jǐn xuǎnjí: Zēngdìng běn 秋瑾選集:增訂

本 [Obras escolhidas de Qiu Jin: Edição aumentada] (G. Yanli [郭延禮 Guō Yánlǐ] &

G. Zhen [郭蓁 Guō Zhēn], Eds.). Rénmín Wénxué Chūbǎnshè 人民文學出版社.

Ruan, Y. [阮元 Ruǎn Yuán] (Ed.). (1980). Shísānjīng zhùshū: Fù jiàokānjì 十三經注疏:附校勘記 [Comentários e subcomentários aos Treze Clássicos, com notas de crítica textual]. Zhōnghuá Shūjú 中華書局. (Reimpressão da edição de 1816)

Wang, L. [王力 Wáng Lì]. (1977). Shīcí gélǜ 詩詞格律 [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhōnghuá Shūjú 中華書局.

Xia, X. [夏曉虹 Xià Xiǎohóng]. (1998). Shǐ xìn yīngxióng yì yǒu cí: Qiū Jǐn yǔ Zhīkān jì 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se crê que o heroísmo também é mulher: Qiu Jin e o Zhīkān jì]. Wénxué Pínglùn Cóngkān 文學評論叢刊, 1(2), 227– 236.

Nota textual. A transcrição segue a p. 55 de Qiū Jǐn jí 秋瑾集 (Qiū Jǐn jí), de 1979, que apresenta as formas 戎妝 (róngzhuāng), 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 肩朝事 (jiān cháoshì) e 精忠 (jīngzhōng). Algumas transcrições modernizadas substituem 戎妝 (róngzhuāng) por 戎裝 (róngzhuāng), variante semanticamente próxima. Outras apresentam 盡忠(jìnzhōng) em lugar de 精忠 (jīngzhōng). A edição consultada sustenta a leitura 精忠(jīngzhōng), que preservo na tradução.

27 Ago 2026

Centenário evoca obra da poeta e jornalista Noémia de Sousa

A poeta e jornalista Noémia de Sousa, consagrada como a “mãe dos poetas moçambicanos” por ter feito da literatura uma arma contra o colonialismo, assinala 100 anos em 20 de Setembro, data que evoca o seu legado.

Pioneira da poesia no seu país e a primeira mulher negra a publicar em Moçambique, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (1926-2002), mais conhecida como Noémia de Sousa, deixou a sua marca na cultura e no jornalismo em língua portuguesa.

Nascida em 20 de Setembro de 1926, em Catembe, Moçambique, e criada no histórico bairro da Mafalala, em Maputo, foi aí que escreveu os seus poemas que exaltam os valores africanos e de denúncia da opressão, como o célebre poema “Deixa passar o meu povo”.

Perseguida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) pelo seu activismo e pela ligação aos movimentos de libertação, Noémia de Sousa assinava com o pseudónimo literário Vera Micaia para contornar a censura do Estado Novo. Quando começou a escrever poemas, utilizava também as iniciais N. S., embora por motivos pessoais.

A sua escrita concentrou-se num período muito curto, entre 1948 e 1951, mas a sua obra dispersa acabou por influenciar decisivamente as futuras gerações intelectuais do seu país.

Exílio na Europa

A perseguição política forçou-a ao exílio em Portugal, em 1951, e mais tarde a uma fuga “a salto” para Paris, França, em 1964. A fuga para Paris deveu-se à ligação que tinha com o Centro de Estudos Africanos, cujas reuniões eram realizadas na Casa da Tia Andreza, tia da poeta são-tomense Alda Espírito Santo.

Após o regresso a Lisboa, dedicou a vida ao jornalismo. Já depois de ter trabalhado na ANI, ingressou na agência Reuters em 1972, transitando mais tarde para as agências de notícias portuguesas ANOP (1982-1986) e Lusa (1986-2001), onde continuou a trabalhar mesmo depois de se reformar.

Em 2001, foi publicada uma colectânea dos poemas, que escreveu entre 1948 e 1951, intitulada “Sangue Negro”, pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), sendo depois reeditado por Nelson Saúte em Moçambique e, mais tarde, lançado no Brasil pela editora Kapulana.

Em Outubro de 2024, a obra ganhou uma edição em francês, com o título ‘Sang Noir’, publicada pela editora ‘Project’îles’.

Para assinalar a data do seu centenário, a agência Lusa vai promover uma homenagem que reunirá antigos colegas de profissão, representantes da comunidade moçambicana e artistas cuja criação continua a ser influenciada pela obra da autora.

Além desta iniciativa, o escritor moçambicano Nelson Saúte vai lançar uma obra biográfica, intitulada “Se me quiseres conhecer – Noémia de Sousa: Biografia literária”, que vai ser apresentada em 1 de Setembro no Brasil, pela editora Kapulana, em Setembro a edição moçambicana do livro também será lançada e será depois apresentada, em Lisboa, em 20 de Setembro.

17 Ago 2026

O Cipreste Que Confúcio Terá Plantado

Mi Fu (1051-1107), o pintor e poeta da dinastia Song, envergando deliberadamente as sumptuosas vestes de funcionário imperial que lhe conferiam um carácter grave, curvou-se um dia numa vénia perante uma rocha de aspecto especialmente bizarro pela erosão causada pelos elementos, visível testemunho da passagem de um tempo longo.

Noutra ocasião, em Qufu (Shandong) no templo dedicado ao sábio Confúcio (551-479 a. C.), admirado perante uma antiquissíma árvore que sempre se disse ter sido plantada pelo próprio mestre, escreveu um poema numa rocha adjacente, que não sobreviveria ao desgaste causado pelo clima porém graças ao engenho do espírito, as suas palavras viveriam em esfregaços feitos em frágeis folhas de papel preservadas como inestimáveis tesouros.

A árvore que ele homenageava e que hoje de forma inacreditável ainda persiste, designa-se hui, vocábulo que nomeia tanto o zimbro como o cipreste mas pela descrição se associa mais facilmente a este último. Duas outras árvores de longevidade excepcional denominadas yin xing, mais conhecidas pela palavra japonesa ginkgo, persistem hoje como cicatriz de um lugar onde estariam desde a dinastia Sui (589-618) enterrados o barrete e o manto usados por Confúcio. Ali outrora foi um oratório dedicado à memória do mestre nos arredores de Xangai chamado Kongzhai, a «residência de Confúcio», destruído durante a Revolução cultural.

O louvor ao cipreste que Mi Fu escreveu em 1103 em Qufu, Huishu zan pode ser assim traduzido: «Radiante como uma via imperial, alimenta o sol brilhante,/ Aproveitando o Sopro primordial ilumina a suprema unidade./ Ao ser plantado, este cipreste agitou-se com o mecanismo criativo do universo,/ Erecta, a sua moldura heróica é torcida como um dragão em sobressalto./ Durante dois mil anos rivalizou com metal e pedra,/ Emendando a ordem e o caos como se fora apenas um único dia passado./ Transmitido por cem gerações, lança a sua sombra sobre tábuas de jade e ceptros.»

Zhang Zhao (1691-1745), um alto funcionário imperial pintor e calígrafo da corte que ocupou duas vezes o cargo de ministro da justiça, transcreveu respeitosamente este poema numa face de um leque desdobrável (35,3 x 58 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) que na outra face ostenta uma pintura de um cipreste que terá sido executado pelo pincel do imperador Qianlong (r.1735-96).

A escolha do poema reflecte a própria eleição como árvore exemplar por Confúcio. Nos Analectos (9, 28) está escrito: «Quando o ano está frio, sabe-se que o pinheiro e o cipreste são os últimos a perder as suas folhas.» E o calígrafo escolhido, reconhecido pintor de flores de ameixieira símbolo do combate contra a adversidade, daria um derradeiro testemunho de piedade filial, a confuciana raíz das virtudes humanas, ao acabar os seus dias quando corria apressado para o funeral do seu pai.

3 Ago 2026

Qiu Jin – a poesia e a espada

題《芝龕記》八章(其一、其二)

Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí yī, qí èr)

今古爭傳女狀頭,
Jīngǔ zhēng chuán nǚ zhuàngtóu,

紅顏誰說不封侯?
Hóngyán shuí shuō bù fēng hóu?

馬家婦共沈家女,
Mǎ jiā fù gòng Shěn jiā nǚ,

曾有威名振九州。
Céng yǒu wēimíng zhèn Jiǔzhōu.

Èr

撐持乾坤女土司,
Chēngchí qiánkūn nǚ tǔsī,

將軍才調絕塵姿。
Jiāngjūn cáidiào juéchén zī.

靴刀帕首桃花馬,
Xuē dāo pà shǒu táohuā mǎ,

不愧名稱娘子師。
Bù kuì míngchēng niángzǐ shī.

O Registo do Nicho de Zhi (poema I e II de VIII)

I

Desde sempre se celebram as primeiras entre as mulheres (1):

quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado? (2) A esposa da casa Ma e a filha da casa Shen (3)

fizeram ressoar pelas Nove Províncias a sua fama guerreira. (4)

II

A chefe tusi (5) sustém o Céu e a Terra, (6) general de génio e porte sem igual.

Punhal na bota, lenço na cabeça, cavalo flor de pessegueiro: (7) bem merece o nome de Exército da Senhora. (8)


NOTAS

女狀頭 (nǚ zhuàngtóu), expressão formada a partir de 狀頭 (zhuàngtóu), antiga designação do primeiro classificado nos exames imperiais, aqui adaptada ao feminino.

封侯 (fēng hóu), literalmente ser investido como marquês, designa a atribuição de um

título nobiliárquico por mérito político ou militar.

馬家婦 (Mǎ jiā fù), a esposa da casa Ma, refere-se a Qin Liangyu; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», a Shen Yunying.

九州 (Jiǔzhōu), «Nove Províncias», designação tradicional e poética da totalidade do território chinês.

土司 (tǔsī), título atribuído a governantes hereditários locais reconhecidos pela administração imperial chinesa.

乾坤 (qiánkūn), literalmente «Céu e Terra», representa o universo e a ordem do mundo.

桃花馬 (táohuā mǎ), literalmente «cavalo flor de pessegueiro», designa uma montada cuja pelagem evocaria as tonalidades dessa flor.

娘子師 (niángzǐ shī), literalmente «exército da senhora», designa uma força militar comandada por uma mulher.

Comentário

Estes dois poemas pertencem ao ciclo de oito composições escritas por Qiu Jin a propósito de Zhīkān jì, drama histórico do género chuanqi composto por Dong Rong (1711–1760) em meados do século XVIII (題《芝龕記》八章). A obra, concluída por volta de 1751 e publicada pouco depois, organiza acontecimentos dos últimos reinados da dinastia Ming em torno das figuras de Qin Liangyu e Shen Yunying.

O seu programa moral assenta na celebração da lealdade política e da piedade filial das duas guerreiras, apresentadas como protagonistas de uma história da qual as mulheres haviam sido habitualmente afastadas (Tu, 2005, pp. 1–17; Wang, 2014, pp. 61–72). Cada uma das duas composições apresenta uma quadra de sete caracteres. Os versos rimam segundo o esquema tradicional em que a rima ocorre no primeiro, segundo e quarto versos: 頭(tóu), 侯 (hóu) e 州 (zhōu) no primeiro poema; 司 (sī), 姿 (zī) e 師 (shī) no segundo.

Estes poemas devem ser lidos com alguma cautela histórica. Pertencem à fase inicial da escrita de Qiu Jin e ainda valorizam formas imperiais de reconhecimento, como o título nobiliárquico e a consagração oficial do mérito. A sua força crítica nasce da apropriação desses valores: Qiu Jin não recusa aqui a linguagem da honra, da lealdade ou do poder militar; recusa o monopólio masculino sobre ela. A leitura de Zhīkān jì oferece-lhe uma linhagem de mulheres guerreiras na qual começa a projetar a sua própria aspiração a tornar-se uma 奇女子 (qínǚ), uma «mulher extraordinária». Xia Xiaohong mostrou como esta identificação com Qin Liangyu e Shen Yunying participa na formação do imaginário heroico que acompanharia Qiu Jin ao longo da vida, embora o seu pensamento político viesse depois a ultrapassar o horizonte imperial presente nestes primeiros poemas (1998, pp. 227–236).

O primeiro poema apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como figuras de exceção inscritas numa genealogia feminina do heroísmo. 女狀頭 (nǚ zhuàngtóu) adapta ao feminino uma designação associada ao primeiro classificado nos exames imperiais. A expressão atribui às duas mulheres uma primazia formulada através do vocabulário institucional do mérito. «As primeiras entre as mulheres» preserva essa ideia de excelência, embora atenue a referência concreta ao sistema de exames.

A pergunta 紅顏誰說不封侯? concentra o núcleo provocatório da quadra. 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rosado», é uma designação convencional da mulher jovem e bela. 封侯 (fēng hóu) significa ser investido no título de 侯 (hóu), habitualmente traduzido por «marquês». O verso aproxima deliberadamente dois campos que a ordem social mantinha separados: a feminilidade codificada através da aparência e o reconhecimento político ou militar reservado aos homens. A opção «quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado?» sacrifica a imagem do «rosto rosado», mas torna explícito o desafio lançado à exclusão feminina da honra pública. 馬家婦 (Mǎ jiā fù), «a esposa da casa Ma», designa Qin Liangyu através da família do marido, Ma Qiancheng; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», identifica Shen

Yunying pela linhagem paterna. Qiu Jin conserva as formas tradicionais de nomeação feminina e faz com que sejam elas a ocupar o centro do poema. A tensão é significativa: as protagonistas continuam linguisticamente relacionadas com estruturas familiares masculinas, mas são os seus feitos que fazem ressoar o nome pelas 九州 (Jiǔzhōu), as «Nove Províncias», designação simbólica da totalidade do território chinês. A abertura 今古 (jīngǔ), «o presente e a Antiguidade», e o fecho 九州 ampliam a fama das duas mulheres em duas direções complementares, através do tempo e do espaço.

O segundo poema concentra-se sobretudo em Qin Liangyu. 女土司 (nǚ tǔsī) identifica-a como mulher investida na estrutura hereditária de autoridade local conhecida como tusi. A tradução mantém o termo porque «governante» apagaria a especificidade histórica e territorial do cargo. 撐持乾坤 (chēngchí qiánkūn), literalmente «sustentar o Céu e a Terra», eleva essa autoridade a uma escala cósmica. A mulher deixa de ocupar uma posição marginal: é apresentada como força capaz de sustentar a ordem do mundo.

將軍才調絕塵姿 reúne aptidão e presença. 才調 (cáidiào) pode abranger talento, capacidade e qualidade pessoal; 絕塵 (juéchén) sugere alguém que deixa os restantes para trás ou se eleva acima do «pó» do mundo comum. «General de génio e porte sem igual» torna o elogio inteligível em português, embora abandone a imagem concreta do pó. A perda parece-me preferível à opacidade de «figura acima do pó», que dificilmente permite ao leitor português reconstruir a expressão chinesa.

O terceiro verso é construído como uma sequência nominal, quase um retrato em movimento: 靴刀, o punhal levado na bota; 帕首, a cabeça envolta num lenço; 桃花馬, o «cavalo flor de pessegueiro». A ausência de verbos acelera a visão e reúne arma, indumentária e montada numa única imagem. «Cavalo flor de pessegueiro» conserva a dimensão cromática e pictórica de 桃花馬, possivelmente associada à pelagem da montada. A delicadeza floral permanece dentro da representação militar, sem neutralizar a força da guerreira.

娘子師 (niángzǐ shī) designa um exército comandado por uma mulher. «Exército da Senhora» mantém a estranheza e a dignidade do nome, evitando sugerir que se trataria necessariamente de uma tropa composta por mulheres. O verbo 稱 (chēng), «chamar», «designar», confere ainda ao verso final uma dimensão de legitimação: a autoridade feminina torna-se reconhecível porque pode ser nomeada.

Referências bibliográficas:

Xia, X. [夏晓虹](#). (1998). 始信英雄亦有雌——秋瑾与《芝龛记》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文学评论丛刊, 1(2), 227–236.

Hsieh, H.-C. [謝曉菁](#). (2021). 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming](#). 女學學誌:婦女與性別研究, 48, 1–27. https://doi.org/10.6255/JWGS.202106_(48).01

Tu, S.-M. [涂淑敏](#). (2005). 《芝龕記》傳奇敘錄 [Introdução ao drama

chuanqi Zhīkān jì](#). 通識教育學報, 8, 1–17. https://doi.org/10.7107/JGED.200512.0001

Wang, A.-L. [王璦玲](#). (2014). 「雖名傳奇,卻實是一段有聲有色明史」:

論董榕《芝龕記》傳奇中之演史、評史與詮史 [A representação e interpretação dramáticas da queda da dinastia Ming no Zhīkān jì de Dong Rong](#). 戲劇研究, 13, 61–98. https://doi.org/10.6257/JOTS.2014.13061

Xia, X. [夏曉虹](#). (1997). 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文學評論叢刊, 1(2), 227–236.

31 Jul 2026

10 de Junho | David Mourão-Ferreira recordado hoje no IPOR

Faz hoje 30 anos que faleceu o poeta português David Mourão-Ferreira, e que agora é recordado numa palestra intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, na Biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente. Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam uma sessão pensada no âmbito das comemorações do 10 de Junho

“E por vezes as noites duram meses / E por vezes os meses oceanos / E por vezes os braços que apertamos / nunca mais são os mesmos.” É assim que começa um dos poemas mais conhecidos de David Mourão-Ferreira, poeta português contemporâneo falecido há exactamente 30 anos e que hoje é recordado numa palestra que decorre na biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente (IPOR), a partir das 18h30.

Os académicos e docentes Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam a sessão intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, que visa recordar “o especial contributo de David Mourão-Ferreira para as letras nacionais”, disse ao HM Pedro D’Alte.

O poema com que este texto se inicia, “E por vezes”, é, para Pedro D’Alte, “dos mais belíssimos poemas portugueses o que, por si, já diz muito da capacidade estética do autor”. Mas como recorda o responsável, Mourão-Ferreira não foi apenas poeta, tendo também escrito em prosa e exercendo crítica literária.

“David Mourão-Ferreira foi letrista para Amália Rodrigues, escrevendo fados icónicos que, hoje, são transversais tanto ao gosto popular como das elites. Tem a particularidade de ser um teórico, professor académico, conhecedor literário. Este conhecimento é plasmado nas suas composições, mesmo que aparentemente simples.”

Pedro D’Alte destaca que, na obra do poeta, “são relevantes as inúmeras referências intertextuais e os diálogos profundos com outros autores de renome”. “Numa perspectiva mais pessoal, é singular o ascendente sensorial na representação do erotismo e, também, de enaltecer a quantidade e a qualidade da produção e a incursão em diferentes esferas de produção que perpassam a música, a poesia e a estética romanesca”, acrescenta.

A sessão de hoje no IPOR “irá centrar-se na presença do Amor, do Erotismo, da figura feminina, e dos aspectos mais exploratórios deste ascendente sensorial” nos poemas deste autor.

Será dada “primazia a ‘Antologias Poéticas’, organizadas pelo próprio autor em vida, ou organizadas por outros teóricos já após o seu falecimento”, fazendo-se depois o cruzamento com uma “esfera narrativa”, com edições como “Os amantes e outros contos” ou “As quatro estações”.

Pedro D’Alte anunciou que no próximo ano deverá ser celebrado o centenário do nascimento do poeta português, pelo que a sessão de hoje não pretende “esgotar nem ampliar em demasia os conteúdos sobre este autor, de modo a não sobrecarregar o nosso público de Macau com demasiados tópicos ou linhas de leitura”.

Escrever “contra-corrente”

Pedro D’Alte recorda que David Mourão-Ferreira “não foi um autor estático”, mas sim “errático e, por vezes, em contra-corrente”.

“Basta lembrar-se o quão desafiante e contrária foi, para os poderes instalados e para a sua própria vida pessoal, a produção de letras para o fado, determinadas capas nas suas obras ou a maneira explícita como o Erótico se assume eixo central em determinadas composições. Creio que, neste sentido, David Mourão-Ferreira nos relembra a história e o sentido de ser-se português, pelo menos no seu viés mais salutar e celebrado”, defende o co-orador e organizador da sessão de hoje.

O poeta recusou “o conforto e o fácil e, em oposição, [procurou] a insurgência, a inquietação, o favorecimento e o prevalecimento da descoberta de novos caminhos, do êxtase e do gosto pela vida, do uso do tempo pessoal para a construção de um nome maior, nas mais diferentes esferas”.

David Mourão-Ferreira é, assim, mais um dos “bons nomes que Portugal tem para celebrar neste 10 de Junho”, remata Pedro D’Alte, que é pós-doutorado em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta e professor da Universidade Politécnica de Macau. Lia D’Alte é, por sua vez, mestre em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta e colaboradora da Escola Portuguesa de Macau.

16 Jun 2026

FRC | Poesia e leitura em destaque hoje

A Fundação Rui Cunha (FRC) apresenta hoje, a partir das 18h30, a sessão “Um Encontro de Poesia: A Árvore e tudo o que queiram”, que visa celebrar o Dia Mundial da Poesia, data instituída pela UNESCO na 30.ª Conferência Geral em Paris, em 1999. O evento assinala também o Dia Internacional das Florestas, com ambas as datas a serem assinaladas a 21 de Março pelas Nações Unidas.

A sessão de hoje é organizada pelo Clube de Leitura da Associação dos Amigos do Livro em Macau, sendo, segundo descreve a FRC em comunicado, “uma oportunidade para incentivar a leitura, apoiar os poetas e preservar a diversidade linguística e cultural, através da palavra escrita e falada”.

A sessão, a ser conduzida pelo médico e escritor Shee Vá, pretende levar o público a partilhar poemas que tenham um significado especial nas suas vidas, que podem estar sujeitos ao tema da “Árvore”, ou não. O que importa é “homenagear a expressão poética e a sua importância cultural como legado identitário da língua de cada país ou países”.

“A poesia, com a sua capacidade de emocionar, provocar reflexões e transmitir sentimentos, foi capaz de atravessar séculos e civilizações, sendo um dos pilares da arte literária. Se quiser participar, apareça na Galeria da FRC e peça a palavra. Venha preparado para ouvir e ler, contribuindo para enriquecer a experiência das comunidades locais neste desígnio de dar voz ao sentimento dos poetas e tocar almas”, descreve a mesma nota sobre o evento.

19 Mar 2026

FRC | Dia Mundial da Poesia celebrado amanhã com tertúlia

Decorre esta sexta-feira uma sessão na Fundação Rui Cunha que visa celebrar a poesia, a exemplo do que acontece em todo o mundo. A iniciativa “Dê Vida a um Poema”, coordenada pelo médico e autor Shee Va, é uma tertúlia em que todos são convidados a trazer poemas à sua escolha e a lê-los em conjunto, sempre na descoberta das palavras

A Fundação Rui Cunha (FRC) apresenta amanhã, a partir das 18h30, uma sessão especial para celebrar a poesia. A tertúlia intitula-se “Dê Vida a um Poema” e pretende comemorar o Dia Mundial da Poesia, data instituída pela UNESCO na 30ª Conferência Geral em Paris, em 1999, para homenagear a expressão poética e a sua importância cultural nas sociedades em todo o mundo.

O evento é organizado pela Associação dos Amigos do Livro em Macau e pela Associação de Poesia dos Amigos do Jardim da Flora, sendo “uma oportunidade para incentivar a leitura, apoiar os poetas e preservar a diversidade linguística e cultural, através da palavra escrita e falada”, descreve a FRC.

Sob a forma de tertúlia, o público é convidado a passar pela galeria da FRC com um poema da sua preferência, em português ou chinês, para partilhar com os outros participantes, num serão com o propósito de enriquecer a experiência comum. A poesia, com a sua capacidade de emocionar, provocar reflexões e transmitir sentimentos, atravessa séculos e civilizações, sendo um dos pilares da arte literária.

Forma de expressão

Segundo a FRC, “mais do que um simples conjunto de versos, a poesia é uma manifestação da alma humana, que pode ser lírica, épica, social, filosófica ou experimental, adaptando-se às diferentes épocas e estilos”.

“Desde os sonetos de Camões e os poemas clássicos de Liu Yong, até aos versos livres da poesia contemporânea, este género literário tem sido um meio poderoso de comunicação e resistência”, acrescenta-se.

A sessão será conduzida pelo médico e escritor Shee Va, em representação da Associação dos Amigos do Livro em Macau, que convidará os participantes a revelar poemas com significado especial nas suas vidas. A conversa será realizada em português e chinês, conforme as leituras sugeridas.

Shee Va, médico gastrenterologista e autor de diversos livros sobre a cultura chinesa, tem-se dedicado a várias iniciativas culturais, tendo integrado, em 2023, o IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos, na Venezuela. Em 2018, lançou uma obra sobre a ópera em Macau, com o nome “Ópera no FIMM 18- Tomo III“.

20 Mar 2025

Biografia do orvalho

Manoel de Barros leva-nos à ponte das Fadas, esse local lindíssimo numa localidade francesa, e no entanto ele é um poeta brasileiro do século XX, um modernista, fazedor de neologismos, que disse apenas ser de uma vanguarda primitiva. É um poeta do mais excepcional que os locais oníricos relembram como padroeiro, um talvez imenso duende que transformou a competência de ser numa alegria imprópria aos atormentados que se alongam nos mistérios sem a abrangência da maravilha. E este é o título da sua demonstração de poeta transfigurado.

As fadas aparecem quais gotas de orvalho aos primeiros raios da manhã fazendo da condensação notas musicais de suavidade quase imperceptível, caiem em ramos e folhas bem ao ritmo das suas intérpretes bretãs e germânicas que galvanizaram os seus feitos que tanto influenciaram a geração poética dos anos 30, estando este estatuto ainda quase imerso num envolvente e maravilhoso pansexualismo. Manoel de Barros foi criador de gado, aquelas culturas, criadoras de mitos, e todos eles se levantavam provavelmente ao despontar da alba retendo o embrião feérico dessa hora: as bênçãos do orvalho são ainda, e mais que tudo, as rosas «rosée» que quer dizer exatamente, orvalho. E quando pelas noites quente de Verão o feminino se delícia com este denominado vinho, é ainda um brinde às fadas que quer transmitir.

O nosso poeta pertenceu na adolescência à União da Juventude Comunista, e num imenso desaire persecutório apenas foi salvo por ter escrito uma coisa chamada «Nossa Senhora da escuridão» que fez balançar algozes e chorar simpatizantes, e só terá sido salvo por esta intercepção vinda da noite.- Já eram as Fadas! Aliás, ele viveu tanto, que só as pétalas das rosas contaram os seus dias. Mas fadas andam por todo o lado! Até Italo Calvino fez uma obra a partir de recolhas folclorísticas italianas para uma abordagem do conto popular onde vemos a importância da sua nomeação: «Sobre os Contos de Fadas» e será impensável não se mergulhar nesta obra com carácter de urgência. Ou então, nunca a conhecer. Vivemos aqui, na Terra, ninguém sabe quem são estes seres, e sobretudo, as novas gerações nem leram contos de fadas.

« Perdoai

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas»

Pessoa tê-lo-ia adorado neste poema, e como se de grandes feéricos aqui se tratasse, a borboleta da biografia do orvalho é a plena metamorfose do tempo que se transmuta: mas partamos de um paradigma inverso onde a coisa amada primeiro se possui, e só depois a temos de conquistar. A janela está sobranceira aos primeiros orvalhos matutinos, e toda a graça da ressurreição condensada vem por ela, mas o sono fundo faz sonhar com dias outros sem a fronteira de orvalhos que são lembranças de lágrimas não choradas, e caímos então num lodo de finitas competências que não contemplam alvoradas.

«Vertido em seis pratos dispostos em forma de triângulo de fogo, o orvalho é agora exposto ao fluído cósmico, para aumentar a sua força (grego, «rosis»). E ao fundo as cortinas protectoras desapareceram das janelas».

12 Jul 2024

Poesia em português distinguida na 1ª edição do prémio chinês de tradução

Poemas de Moçambique, Portugal e do Brasil estiveram entre os seis vencedores da edição inaugural de um prémio de tradução para chinês de poesia em português e espanhol, anunciados na terça-feira. Um dos prémios foi para Luís Lu Jing e Jasmim Wu Hui, dois alunos do doutoramento em Português da Universidade Politécnica de Macau (MPU, na sigla em inglês), pela tradução de poemas do moçambicano José Craveirinha (1922-2003).

Um trabalho que resultou no livro “Poemas Seleccionados”, sob a coordenação da professora da MPU, Lola Geraldes Xavier, que foi publicado em Macau pela editora Praia Grande Edições em Maio de 2022. O poeta e tradutor chinês Yao Jingming, membro do júri, disse que a tradução “transmite o ritmo, tom e respiração” dos “poemas de batalha, rítmicos e sonoros, mas também poemas de amor terno” de José Craveirinha.

Entre os vencedores esteve ainda Huang Lin, da Universidade de Macau, graças a seis poemas da portuguesa Natália Correia (1923-1993), que Yao Jingming descreve como de “palavras muito sedutoras e perigosas” para um tradutor.

Chen Yibing, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, foi também premiado pela tradução do poema “Março”, da luso-angolana Alice Neto de Sousa e de poesia da brasileira Cecília Meireles (1901-1964).

Prémios e motivações

O prémio de tradução para chinês de poesia em português e espanhol foi lançado no ano passado por uma associação de antigos alunos da Universidade de Pequim, em homenagem ao poeta e tradutor Hu Xudong, que morreu em 2021.

A Associação de Alumni da Universidade de Pequim na Província de Hubei disse à Lusa que decidiu lançar o prémio bienal, destinado a estudantes universitários, após receber apoio dos familiares e amigos de Hu Xudong. A associação sublinhou que o prémio tem como objetivo motivar jovens tradutores chineses a olhar para línguas menos populares na China.

Os candidatos, que vieram de universidades “de todo o país”, eram “encorajados a descobrir poemas de poetas” que ainda não tinham sido traduzidos para chinês, disse a associação.

A China tem actualmente pelo menos 25 instituições de ensino superior que oferecem licenciaturas em português. Hu Xudong, que morreu em 22 de Agosto de 2021, é considerado um dos principais poetas chineses nascidos na década de 1970 e, além de poesia, publicou uma colecção de ensaios sobre o Brasil. Entre 2003 e 2005, Hu Xudong esteve no Brasil a dar aulas na Universidade de Brasília, tendo então começado a traduzir poesia em língua portuguesa para chinês.

24 Ago 2023

Poesia | Sara F. Costa lança “Ser-Rio, Deus-Corpo” em Portugal e na Índia

O sexto livro de poesia de Sara F. Costa intitula-se “Ser-Rio, Deus-Corpo” e será lançado no próximo mês de Novembro em Portugal, na cidade do Porto, e depois na Índia, na sua versão inglesa. A obra é resultado de uma bolsa de criação literária

 

“Ser-Rio, Deus-Corpo” é o nome do novo livro de poesia de Sara F. Costa, ex-colaboradora do HM que tem vindo a crescer no mundo da poesia. A autora, que viveu em Pequim e é fluente em mandarim, lança no próximo mês, no Porto, aquele que é o seu sexto livro de poesia. A obra ganha uma versão inglesa que será lançada mais tarde na cidade de Bengaluru, na Índia.

No ano passado, Sara F. Costa ganhou uma bolsa de criação literária financiada pela Direcção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas do Ministério da Cultura Portuguesa, o que deu origem a “Ser-Rio, Deus-Corpo”, livro editado pela editora Labirinto.

Nesta obra, a autora incorpora vários registos poéticos de “tradição simbolista, surrealista, imagista e objectivista” interpretando a psique e a índole humana “a partir do corpóreo”.

Na carta de candidatura à bolsa de criação literária, Sara F. Costa descreveu este projecto de poesia como sendo “uma ode à fertilidade” ou “um trabalho sobre a criação intrauterina do ponto de vista estritamente matriarcal”, numa clara referência à maternidade.

“Ser-Rio, Deus-Corpo” retrata “a experiência intimista de uma mãe durante o período de gestação do feto, incorporando, por vezes, elementos da tradição modernista como a objectividade, intelectualidade, abstração e distanciamento necessários para transformar a experiência em arte”. Contudo, “nunca se abandona o registo privado, quase doméstico, em que a voz poética procura transcender a casa-corpo”.

A autora, num comunicado de imprensa, dá conta de que os temas que se relacionam com a maternidade, no campo da literatura ocidental, começaram a surgir nos anos 70 do século XX, “quando surge a segunda onda do movimento feminista”. Desta forma, “pretendia-se combater as pré-noções que sentenciavam certos tópicos como inapropriados enquanto motivos literários”.

Mais internacional

Sara F. Costa trabalha, com este livro, a ideia de “mãe-poeta” que “não é uma personagem muito presente”, uma vez que a mãe “é mais representada por autores masculinos do que femininos”. “O objectivo deste trabalho é trazer a representação da mãe que não precisa de ser representada porque o é. A poeta é universal, mas é mulher”, diz a autora no mesmo comunicado. De frisar que a ilustração da capa é da autoria da artista Constança Araújo Amador.

Em relação ao lançamento da obra na Índia, este surge do convite feito a Sara F. Costa para participar no Festival Internacional de Literatura organizado Asia Pacific Writers & Translators, que tem como tema “Meridian – Writing Outside the Frame” e que decorre entre os dias 28 a 30 de Novembro. O livro é editado pela “Red River”, uma editora independente de Nova Deli, sendo apresentado no dia 28 de Novembro em Bengalore, no Festival Internacional de Literatura Asia Pacific Writers & Translators. Além das edições em português e inglês, “Ser-Rio, Deus-Corpo” será também editado em Espanha.

Os textos de Sara F. Costa têm vindo a ser publicados e traduzidos um pouco por todo o mundo, tendo a autora sido convidada para participar em festivais literários em países como Espanha, Polónia, Turquia, China e Índia. O seu livro “A Transfiguração da Fome” obteve o Prémio Literário Internacional Glória de Sant’Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018.

Sara F. Costa publicou ainda uma antologia de poesia chinesa contemporânea por si organizada e traduzida, fruto do contacto com os meandros literários e artísticos de Pequim, onde viveu até 2020. Nesse ano, quando começa a pandemia da covid-19, a autora regressou a Portugal, quando estava grávida de oito meses.

17 Out 2022

“Na margem do rio. Diálogos com a morte nos versos de quatro poetas polacos”

In https://revistapiparote.com.br/

Apresentação e tradução de Piotr Kilanowski

Quatro poemas, quatro poetas, um tema. Ou quase um. Temos três diálogos antes da viagem para o paradeiro mais misterioso das nossas vidas e um poema que reflete a solidão dessa viagem inconcebível. Dois dos poemas, o de Jarosław Iwaszkiewicz e o de Tadeusz Różewicz, ambos marcando seu silêncio pela falta de um título, ambos saindo da garganta apertada (talvez a articulação de Różewicz esteja mais apertada, mais essencial e mais simples e por isso mais impactante) nos colocam diante do último diálogo da mãe e do filho. A figura de pietá, na qual a ordem da natureza está revertida, obriga a doadora da vida ser também a pessoa que ajuda a fazer a transição para a não-vida, a outra margem. O que está nela? O nada? Se for, dentro dele também há uma réstia de esperança, como no poema de Iwaszkiewicz, o infinito do não saber.

Todos esses poemas contêm em si a escuridão e a tentativa de expressar o inexpressável. Todos são um grito, um protesto que ele mesmo sendo mudo, por tentar expressar o silêncio, emudece o leitor. O protesto contra a condição humana e, em algum nível, também a aceitação da sua inevitabilidade. O drama existencial nos primeiros três poemas é encenado pela primeira forma de um drama: diálogo. E se no poema de Aleksander Wat temos a situação que pode se referir ao último diálogo apenas metaforicamente, o mais essencial dos poemas, o mais dramático, da autoria de Różewicz, é também aquele que nos despoja de quaisquer ilusões. As palavras mais banais, mais gastas, quase todas com marcas de oralidade são dispostas pelo poeta de uma maneira que não apenas rasga o leitor mas também o obriga a mergulhar no infinito das palavras como “tudo” e “nada” colocadas em uma oposição completa. Começando pela situação coloquial, que sugere uma partida ou viagem, Różewicz por meio de absoluta economia de palavras, que ecoam ao longo do poema e do diálogo, fortalece o efeito da nossa impotência diante do inevitável. Renovando as palavras gastas nos aproxima daquilo que não pode ser dito.

“Busco as palavras que não existem”, disse Jerzy Ficowski no livro A leitura das cinzas, que por meio da palavra poética tentou instaurar o monumento à ausência provocada pelo Holocausto. Różewicz não procura essas palavras. Por meio das que existem nos aproxima à não-existência que sustenta a nossa existência. Tudo isso, “a vida inteira”, para nós, seres compostos da eterna insatisfação, será sempre um espantoso “só isso” …

Jaroslaw Iwaszkiewicz

(1894-1980) foi poeta, prosador, dramaturgo e político polaco. O amor e a morte e sua relação, assim como efemeridade da vida sempre figuraram como temas importantes na sua obra. Vários dos contos de Iwaszkiewicz serviram como inspirações para os filmes de Andrzej Wajda. Foi um dos fundadores e membro de Skamander (Escamandro) o mais importante grupo poético do entreguerras polaco. Sua obra lírica, extremamente melódica e pessoal é marcada pela constante presença de elementos contrários: afirmação da vida e fascinação pela morte, fé no poder da arte e dúvida no poder das ações humanas, elementos contemplativos e sede de viver.

Jaroslaw Iwaszkiewicz

Mamã, eu fiquei cego?
“Não, filho. Só a noite escura”.

Por que é tão terrível?
“Nada, filho. Não tarda”.

E ainda frio por cima
“Depois não sentirás mais nada”.

Mesmo assim, tenho medo.
“Deus é bom – diz Epicuro”.

Oh, tem uma réstia na frente.
“Chamam isso de existência”.

Roma, IV-V, 1975.

14 Jul 2022

Poesia | Deusa D’África lança “Sinopse de cães à estrada e poetas à morgue”

Deusa D’África, escritora moçambicana que foi uma das convidadas do festival literário Rota das Letras, acaba de lançar um novo livro, com a chancela da Alcance Editores. “Sinopse de cães à estrada e poetas à morgue” é hoje lançado na cidade de Xai-Xai

 

“Sinopse de cães à estrada e poetas à morgue” é o título do quarto livro de poesia de Deusa
D´África, escritora moçambicana que já se embrenhou nas linhas do romance. O livro será lançado hoje na cidade de Xai Xai, em Moçambique, numa parceria entre a Alcance Editores e a Associação Cultural Xitende, de que Deusa D´África é coordenadora geral.

Este é um livro onde a poesia apresenta “uma influência da oralidade na constituição da linguagem poética e a recorrência da pertença local”, sendo este “um importantíssimo elemento de subversão canónica, fundamental para a inovação da literatura moçambicana, contestação e denúncia”, aponta a sinopse do livro.

Nascida em 1988, Deusa D´África tem, apesar da paixão pela escrita, formação na área dos números, possuindo um mestrado em contabilidade e auditoria. Além disso, é ainda professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica. É também gestora financeira do projecto Global Fund – Malária.

Inspirada pela poesia de Noémia de Sousa, Deusa D´África começou a escrever poesia em 1999, sendo autora de diversas obras. Títulos como “A Voz das Minhas Entranhas” e “O Limpopo das Nossas Vidas” venceram o Concurso Literário Internacional Alpas do Brasil.

Muitos dos seus poemas encontram-se publicados no Jornal Notícias, O País, Pirâmide, Diário de Moçambique e Xitende. Deusa D’África viu alguns dos seus trabalhos editados no Brasil e outros traduzidos para sueco.

Um “golpe de azagaia”

A sinopse desta obra dá ainda conta de que “os versos Deusa d’Africa desautomatizam a linguagem e causam estranhamento”, sendo que a poetisa “vê uma função dialéctica com o poder de inaugurar [mas também] de destruir”.

“A sua actividade poética é revolucionária por natureza, exercício espiritual, um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Ciente deste poder regenerador da poesia, a lírica de Deusa d’África vaticina.

Outros teóricos, como Ezra Pound, prescrevem a necessidade do tratamento directo do tema como factor intrínseco ao bom poema. Também assim pode ser a lírica de Deusa, que relata casos como o ciclone Idai, em 2019”, lê-se no mesmo texto, assinado por Vanessa Riambau Pinheiro.

Os poemas da autora são tidos como um “golpe de azagaia”, enquanto que a escrita “desassossega, perturba, rouba a paz, tira-nos da letargia”.

“Cães à estrada e poetas à morgue” é dividida em três partes (Cães de papel/Cães à estrada e Poetas à morgue/ Respeito nas bancas do mercado grossista) e, ao longo de mais de cem poemas, “entretece uma poética-manifesto”.

Os versos expõem “males sociais, como a criminalidade, repressão, violência e miséria”, onde Deusa D´África aponta “as mazelas como problemas sociais de seu país, mas também rasura consonâncias metaforizadas entre a casa física e a entidade abstracta”.

1 Jul 2022

Os Girassóis de Odessa e poemas afegãos

Luis Gustavo Cardoso

https://revistapiparote.com.br

 

OS GIRASSÓIS DE ODESSA¹

Quando a lua abre caminho
entre os girassóis de Odessa
sei de um perfume que arrepia os campos:
Spasiba, Trachimbrod.

Em cada haste na terra fértil
pétalas, feito moinhos, retêm do vento
o conto inquieto de outros cantos:
Spasiba, Trachimbrod.

Sei de uns seios firmes, calmos, brancos
de cujas tetas mornas sabe a chuva
e o leite branco a esperar nas portas:
Spasiba, Trachimbrod.

AFEGÃO

O afago do afegão
sobre a barba de outro

é feito

afago de mãe

que não recebeu jamais

carinho de filho.

O afago do afegão

sozinho

é o maior dos carinhos.

TALIBÃ

Pense na barba do Talibã
Na textura dos pelos secos e empoeirados
Onde os traços do rosto se perdem
Cavados na terra feito as vias do país

Zeloso ele guarda o fuzil
e a paz de seus companheiros:
todos solteiros.

ALI KHAN

Ali Khan é avô
de outra menina
sem nome e sem
um dos olhos, o
esquerdo, que só
com o direito pode
ver a fumaça:

Minas brotam do chão.

Ali Khan e a neta
assistem à explicação:
sob as oliveiras o instrutor
descreve minas, bombas,
toda sorte de munição.

Outras crianças afegãs
sem nome, sem idade
têm o rosto tocado
pelo vento que arrasta
as folhas das árvores:
manhã de sol do afegão.

Devem aprender
onde pisar no chão
onde não tocar
onde se esconder.

Com 4, 5, 6 anos
as crianças afegãs
não têm idade.

Ali Khan também não.

O VOO DO AFEGÃO

Hoje vi um afegão voando
direto das asas de um avião.
Não era um juiz brasileiro,
não era um caça espião.

Era um homem sem asas
No meio de algum lugar
Caindo sentado no chão.

  1. O poema Os Girassóis de Odessa integra o livro “Noite Grande” (2017). Os poemas afegãos são inéditos.
13 Abr 2022

Fundação Oriente | Serão celebra Dia Mundial da Poesia em português

Mais de 20 pessoas, entre estudantes, professores e amantes da poesia, assinalam na sexta-feira o Dia Mundial da Poesia em Macau num serão literário com a leitura de obras em português.

“É um encontro de pessoas que gostam de poesia e em que uns dizem poesia de sua autoria – nós tentamos privilegiar os poetas de Macau para divulgarem a sua poesia através da leitura – mas também há outras pessoas que dizem poesia [de outros autores]”, explicou Ana Paula Cleto, coordenadora da delegação de Macau da Fundação Oriente, que se associa no evento ao Centro de Ensino e Formação Bilingue Chinês-Português do Departamento de Português da Universidade de Macau.

Da Universidade de Macau, “seis ou sete alunos” sobem ao palco e, entre os autores convidados, encontram-se o jornalista Carlos Morais José, o fotógrafo António Duarte Mil-Homens e o poeta chinês Yao Jing Ming.
“Mas quer-se espontâneo”, nota Ana Paula Cleto, referindo que, além dos convidados, o evento, “que tem sido organizado com alguma regularidade”, está ao alcance a todos aqueles que querem dizer poesia.

“Tem sido sempre [poesia] de autores de língua portuguesa e penso que irá continuar a ser, mas não significa que tenha de ser restrito a autores de língua portuguesa”, afirma a responsável, frisando que este “é um evento aberto” à língua chinesa. “Mas também não há muita poesia chinesa traduzida para português”, sublinha Ana Paula Cleto.

O serão literário, que se realiza na Casa Garden, sede da Fundação Oriente em Macau, vai também ser celebrado com música, com elementos da banda da Casa de Portugal em Macau a cantarem obras de poetas portugueses em três momentos.

23 Mar 2022

Poemas de Jacques Prévert

Jacques Prévert (1900-1970) foi um poeta e roteirista popular da França. Participou do movimento Surrealista juntamente com o escritor Raymond Queneau e com o roteirista Marcel Duhamel, sendo, mais tarde, um dissidente deste grupo. Muitos de seus poemas foram cantados por Marianne Oswald, Yves Montand e Edith Piaf. Os poemas aqui seleccionados foram retirados do livro Parole (1946) e são apresentados em português do Brasil.

 

Tradução de Luís Márcio Silva* – * Escritor, tradutor e editor da Revista Piparote, https://revistapiparote.com.br/, com a qual o Hoje Macau inicia assim uma colaboração

 

 

O BUQUÊ

O que faz aqui, garotinha,

Com estas flores recém-cortadas?

O que faz aqui, jovem menina,

Com essas flores, essas flores secas?

O que faz aqui, bela mulher,

Com essas flores que murcham?

O que faz aqui, decrépita mulher,

Com essas flores que morrem?

Estou à espera pelo triunfante.

 

LE BOUQUET

Que faites-vous là petite fille

Avec ces fleurs fraîchement coupées

Que faites-vous là jeune fille

Avec ces fleurs ces fleurs séchées

Que faites-vous là jolie femme

Avec ces fleurs qui se fanent

Que faites-vous là vieille femme

Avec ces fleurs qui meurent

J’attends le vainqueur.

 

NA FLORICULTURA

Um homem entra numa floricultura

E escolhe umas flores

A florista embrulha as flores

O homem leva a mão ao bolso

Para pegar o dinheiro

O dinheiro para pagar as flores

Mas subitamente

ele coloca

A mão sobre o coração

E cai

No momento em que cai

As moedas rolam pela terra

E depois tudo

Cai ao mesmo tempo

as flores

o homem

o dinheiro

E a florista fica ali

Com as moedas que rolam

Com as flores que murcham

Com o homem que morre

Tudo isto é muito triste evidentemente

E é preciso que ela faça alguma coisa

A florista

Mas ela não sabe o que fazer

Não sabe ela

Por onde começar

Há tantas coisas por fazer

Com o homem que morre

Com as flores que murcham

E com as moedas

as moedas que rolam

Que não param de rolar

CHEZ LA FLEURISTE

Un homme entre chez une fleuriste

et choisit des fleurs

la fleuriste enveloppe les fleurs

l’homme met la main à sa poche

pour chercher l’argent

l’argent pour payer les fleurs

mais il met en même temps

subitement

la main sur son cœur

et il tombe

En même temps qu’il tombe

l’argent roule à terre

et puis les fleurs tombent

en même temps que l’homme

en même temps que l’argent

et la fleuriste reste là

avec l’argent qui roule

avec les fleurs qui s’abîment

avec l’homme qui meurt

évidemment tout cela est très triste

et il faut qu’elle fasse quelque chose

la fleuriste

mais elle ne sait pas comment s’y prendre

elle ne sait pas

par quel bout commencer

Il y a tant de choses à faire

avec cet homme qui meurt

ces fleurs qui s’abîment

et cet argent

cet argent qui roule

qui n’arrête pas de rouler.

 

A MENSAGEM

A porta que alguém abriu

A porta que alguém fechou

A cadeira onde alguém se sentou

O gato que alguém acariciou

A fruta que alguém mordeu

A carta que alguém leu

A cadeira que alguém derrubou

A porta que alguém abriu

A estrada onde alguém ainda corre

O bosque que alguém atravessa

O rio onde alguém se joga

O hospital onde alguém morreu

LE MESSAGE

La porte que quelqu’un a ouverte

La porte que quelqu’un a refermée

La chaise où quelqu’un s’est assis

Le chat que quelqu’un a caressé

Le fruit que quelqu’un a mordu

La lettre que quelqu’un a lue

La chaise que quelqu’un a renversée

La porte que quelqu’un a ouverte

La route où quelqu’un court encore

Le bois que quelqu’un traverse

La rivière où quelqu’un se jette

L’hôpital où quelqu’un est mort.

VERÁ O QUE VERÁ

Uma moça nua nadando no mar

Um homem barbudo andando sobre a água

Onde está a maravilha das maravilhas

Do milagre anunciado acima?

 

VOUS ALLEZ VOIR CE QUE VOUS ALLEZ VOIR

Une fille nue nage dans la mer

Un homme barbu marche sur l’eau

Où est la merveille des merveilles

Le miracle annoncé plus haut ?

DOMINGO

Entre os canteiros de árvores na avenida Gobelins

Uma estátua de mármore me conduz pela mão

Hoje é domingo, os cinemas estão lotados,

Os pássaros nos galhos observam os humanos

E a estátua me abraça, mas ninguém nos vê,

Apenas uma criança cega que nos aponta os dedos.

DIMANCHE

Entre les rangées d’arbres de l’avenue des Gobelins

Une statue de marbre me conduit par la main

Aujourd’hui c’est dimanche les cinémas sont pleins

Les oiseaux dans les branches regardent les humains

Et la statue m’embrasse mais personne ne nous voit

Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.

PARA O MEU AMOR

Eu fui ao mercado de pássaros

E lhe comprei pássaros,

Meu amor.

Eu fui ao mercado de flores

E lhe comprei flores,

Meu amor.

Eu fui ao ferro-velho

E lhe comprei correntes

Pesadas correntes

Para ti,

Meu amor.

E depois fui ao mercado de escravos

E procurei por ti

Mas não lhe encontrei,

Meu amor.

POUR TOI MON AMOUR

Je suis allé au marché aux oiseaux

Et j’ai acheté des oiseaux

Pour toi

mon amour

Je suis allé au marché aux fleurs

Et j’ai acheté des fleurs

Pour toi

mon amour

Je suis allé au marché à la ferraille

Et j’ai acheté des chaînes

De lourdes chaînes

Pour toi

mon amour

Et puis je suis allé au marché aux esclaves

Et je t’ai cherchée

Mais je ne t’ai pas trouvée

mon amour

7 Mar 2022

António Izidro: “Acho interessante a ideia de estabelecer um paralelo entre Li Bai e Camões”

António da Amada Izidro, macaense, bilingue em Chinês e Português, foi Chefe do Departamento de Informação no Gabinete de Comunicação Social, até se reformar em 2002. Daí para cá um dos seus maiores interesses tem sido a poesia e a vida do poeta chinês Li Bai. Agora vai publicar um livro – “Li Bai – A Via do Imortal”, que intersecta a biografia com numerosos dos seus poemas traduzidos para língua portuguesa. O lançamento, integrado na Semana de Cultura Chinesa do Hoje Macau, terá lugar na próxima segunda-feira, dia 7 de Março, na Fundação Rui Cunha, pelas 18:30

 

Como nasceu o seu interesse por Li Bai e pela poesia chinesa?

Quem gosta de poesia chinesa, delicia-se. Quem não gosta, aprende a gostar. A poesia chinesa, como dizia um político chinês, é como cana-de-açúcar. Começa-se a degustar a parte menos doce da raiz e à medida que vai roendo tronco acima, o aroma açucarado intensifica e enche a boca. Por quê Li Bai? Das recordações da sua infância ao tempo de exílio, uma vida tumultuosa, Li Bai caracteriza-se por ser um poeta com verdadeiro amor à pátria. Uma vida contemplativa nos montes, exótica sob o luar, escondida no vinho. Provavelmente, é o mais multifacetado dos compositores chineses, de personalidade ímpar, que dificilmente se dobra. Os seus poemas são um cardápio de temas tão abrangente que não se encontra noutros poetas: misticismo, erotismo, espiritualidade, poemas melíferos e ácidos, sentimentais e românticos, tudo pincelado com a mesma originalidade e riqueza de estilo. Verticalidade é porventura o termo que assenta bem no seu discurso.

Que passos teve de dar para fazer este livro? Visitou locais frequentados pelo poeta?

De Sichuan até Hangzhou, um trajecto de quilómetros e mais quilómetros por entre municípios e vilas. «Ainda é possível ´respirar´ Li Bai», dizia eu. «Antigamente talvez se pudesse dizer isso. Hoje está tudo mudado», assegurava-me o meu cicerone, que aí procurou guiar a conversa para a excelência dos locais que o poeta pisou e que me ia mostrar. De manhã cedo metemo-nos no caminho. Quanto a mim, era para satisfazer um fascínio nascido no dia remoto em que sentia a necessidade de rasgar novos horizontes e lançar o trabalho rotineiro para as raias do esquecimento. A política de reformas e abertura mudou toda a China, cintilam agora grandes e modernas metrópoles. Os montes, em cadeia, capeados de pinheiros, os rios e vales verdes, esses, felizmente, é que não mudaram, nem as pedras, nem os pagodes que ainda emanam ´cheiros´ do poeta imortal. Foram muitos museus percorridos e papelada sem fim consultada. Eu sabia dos livros, mas preferia testemunhos vivos. De tudo fui ouvindo, perguntando, memorizando e anotando.

Para realizar este livro, visitou então numerosos lugares na China. Como correram essas viagens e o que trouxe delas? Quanto tempo lhe levou a realização deste livro?

Trouxe um volumoso bloco de notas que fui ordenando, pesquisando e acrescentando novos elementos, mas sem ainda o impulso para iniciar o trabalho. Foi então que a covid-19 estoirou e veio a ordem governamental que mandou fechar tudo. Eu também me fechei, mas no meu quarto deleitando-me com Li Bai durante cerca de um ano.

Depois de tanto tempo a conviver com ele, com que ideia ficou do poeta e do homem Li Bai?

Digamos que tem um perfil incompleto, quase perdido, mas nele tudo fala, nada esconde: homem de forte personalidade, sensível ao mal alheio, grande espiritualidade, observa a vida ao redor e não poupa críticas através de uma forma subtil. O filme pessoal que tinha pensado apresentar à história, contracenando com figuras heróicas do passado ruiu na estratégia, no idealismo que lhe parecia verosímil e no não aderir aos sistemas corruptos que grassavam na corte Tang, no curto tempo em que lá permaneceu. Granjeou, indiscutivelmente, a simpatia do imperador, num ambiente em que não faltaram oposição e ciúmes, com os quais os círculos do poder o alvejavam. Conquistou amizades e admiração dos seus pares. Morreu com dissabores e frustações. A fama e a arte ficam para a posteridade e a história. Acho interessante a ideia – penso que não é despropositada – de estabelecer um paralelo entre Li Bai e Luís de Camões, não me refiro ao engenho e à arte dos dois, evidentemente. É possível constatar, porém, que fizeram um percurso de vida que se assemelha em alguns aspectos: Camões também lia poemas na corte portuguesa, viajou por mares, enquanto que Li Bai peregrinou pelas montanhas. Ambos lutaram pela causa da pátria, receberam pensão da coroa, ambos foram presos. Li Bai morreu só e frustrado, no limiar de uma nova dinastia, enquanto que Camões viveu seus anos finais na pobreza. Terá dito o poeta luso que morria com a Pátria.
Repara nestes dois poemas:

O teu perfume ficará em mim para sempre,
mas onde andas tu, meu amor?
Suspiro e folhas amarelas caem dos ramos.
Choro e o musgo verde brilha, húmido de orvalho.
Li Bai

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Luís de Camões

Tem algum método particular para abordar a tradução de uma língua tão distante da portuguesa como o chinês?

Sim. Primeiro, procuro sempre encontrar o contexto histórico-cultural, às vezes físico, em que a poesia foi escrita. Em segundo lugar, faço uma tradução literal palavra a palavra, expressão a expressão. Em terceiro lugar, reescrevo tudo de modo a fazer sentido em português, sem que perca com isso o seu sentido original. Finalmente, procuro sentir o que terá sentido o poeta e volto a reescrever. Nem sempre fico satisfeito com o resultado (risos).

De facto, o seu livro e as notas apresentam, de forma erudita, os contextos em que vários poemas foram escritos. Considera isso fundamental para o entendimento desta poesia?

É preciso contextualizar não só em termos históricos e geográficos, mas também as circunstâncias, os sentimentos, as ideias que os poemas versam. São episódios distintos e ambientados, inseridos na vida do poeta Li Bai. As notas dos poemas, diria, são como o sal que se quer para a comida. Os detalhes eliminam o surreal e enquadram melhor o leitor na compreensão, no alinhamento com os cenários vividos pelo autor. É um tratamento virtual que se dá à leitura poética.

Considera estas traduções poéticas o ponto mais alto da sua carreira de tradutor ou preferia traduzir discursos oficiais e ser intérprete como no tempo em esteve no GCS?

Diria antes que foi um trabalho fascinante e o cumprimento de um propósito que me impusera. É recomendável manter-se sempre activo intelectualmente. Tive oportunidades de praticamente traduzir de tudo e todos. O trabalho profissional deve ser abrangente e o ineditismo circunscreve-se no âmbito da criação que não se deve abdicar. Traduzir e interpretar poemas clássicos chineses sã devera penoso mas empolga o espírito e assoberba a vontade.

Nascido em Macau, assistiu ao final da administração portuguesa e a duas décadas de administração chinesa. Que mensagem gostaria de deixar aos presentes e futuros governantes desta terra? E aos seus conterrâneos macaenses?

Continuo a achar que não podemos cruzar os braços e deixar escoar uma sociedade em que os ventos do Norte sopram cada vez mais fortes, num processo de transformação sem precedentes que acabará (espero que não) por diluir irremediavelmente a identidade e cultura macaenses. Há que atiçar o empenho para garantir que as condições existam; que os ´filhos da terra´ de agora e gerações vindouras possam assumir um papel mais interventor nos diferentes sectores sociais, sem fomentar o individualismo, mas posto ao serviço da sociedade de Macau e da comunidade macaense. O actual critério que rege a atribuição de cargos públicos de responsabilidade de acordo com o ratio étnico-racial da população local julgo que deve ser reconsiderado. Afinal, os portugueses de Macau (naturais e não naturais) são herança de uma história de cinco séculos, não é?

Teve alguns apoios para a realização deste trabalho?

Essencialmente livros de consulta e alguns mestres sinólogos.

1 Mar 2022

Ruy Cinatti, uma poesia com vultos

Disse Jorge de Sena, no prefácio a um livro de Ruy Cinatti, que os literatos seus contemporâneos, em matéria de insulíndias não iam além das livrarias do Boulevard Saint Michel. De facto, poucos como este poeta nascido em Londres em 1915 olharam de forma tão intensa para fora do eixo euro-americano, para terras que são as eternas ilhas dos exotismos dos outros. Cinatti escolheu Timor – por ninguém desejado ou escolhido, devastado que era pela invasão japonesa e pela péssima administração – não como um lugar de sensualidades imprevistas, mas como uma geografia humana, real e sensível. Foi aí que ele deu largas a uma amorosa compreensão do espaço e das gentes, e por isso se chama Timor-Amor um de seus livros.

Homem de ciência e de terreno, da agronomia (sua formação de base) e da meteorologia, passou à etnologia e à antropologia (sempre timorenses, bem entendido). Na mesma década em que dirigiu, com Tomaz Kim e José Blanc de Portugal, os Cadernos de Poesia, chefiou também o gabinete do governador desta colónia portuguesa, de quem fala num poema dos anos 70: “Desse digo eu,/ que me queria às vezes/ para seu poeta,/ sorrindo às minhas luzes de botânico,/ «Você… da Orta…/ Eu, Albuquerque!»”, um que acabou “com os miolos fritos/ pegados no teto”.

Mas as tais luzes de botânico deram para ter duas plantas batizadas com o seu nome, tal como o seu predecessor em Timor, o também poeta-botânico Alberto Osório de Castro. Cinatti vai e vem daquele território português e, entre os anos de 1951 e 1956, lá o encontramos diretor dos serviços de agricultura. Porém, incompatibilizado com a administração colonial, regressa a Lisboa. As visitas à “ilha verde e vermelha” ficarão cada vez mais condicionadas, até à definitiva proibição em 1966. Metido em Lisboa, dedicou-se a uma errância mais condicionada e à poesia das famosas folhas volantes, que distribuía mão a mão.

Os versos timorenses, sobretudo o livro central Paisagens timorenses com vultos (1974), conseguem grande concisão nas suas intimações sobre o espaço e as gentes: diretas, despretensiosas, abertas ao estremecimento emocional e até ao humor: “Em Díli./ Em Baucau, tanto faz.// Um médico suplicava: «Não leias António Nobre,/ que eu adoeço».”

Centrada numa atenção ao quotidiano que comunica diretamente com a linguagem de alguns poetas dos anos 70, a escrita de Ruy Cinatti abre-se a um tipo de discurso que a poesia portuguesa demorou a levar a sério. Mas bem antes, já nos anos 40, Cinatti constituía uma ruptura na poesia portuguesa, já que os Cadernos pretendiam ser uma opção quer ao presencismo, quer ao neo-realismo.

O outro aspecto que ressalta nos versos dedicados a Timor é que aqui se realiza, talvez pela primeira vez na poesia portuguesa, uma forma de lidar com o mundo não-europeu que o não subjuga ao filtro do império e de seus avatares.

Quer dizer, não é o Timor português, projeção colonial de um Portugal sempre fora de si, que se colhe destes versos, apesar de o poeta ter vivido o império in loco e de até o ter defendido em seu estertor. Não admira, pois, que o nome do poeta tenha caído na marginalidade, apesar da galeria ilustre de predecessores, como Camões ou Pessanha, cuja escrita – tal como a de Cinatti – dependeu estreitamente das formas que historicamente assumiu o funcionalismo colonial português.

Neste sentido, é a partir do precedente aberto por este poeta que alguma poesia portuguesa contemporânea pode aceitar uma representação descomprometida e cosmopolita de espaços não-europeus: de forma notável na poesia de ambiente turco e chinês de Gil de Carvalho, mas também na poesia “macaense” de José Alberto Oliveira, na série «Poemas Orientais» de Fernanda Maldonado e ainda nos curiosos poemas japoneses de Miguel-Manso, numa dispersão geocultural que contrasta com o lastro de provincianismo que também deixou a sua marca na poesia portuguesa contemporânea. É partindo dos luminosos passos de Cinatti que novos poetas instauram novas formas de se falar na Ásia em Portugal, superando as marcas discursivas do exotismo orientalista. Longe do Oriente como metáfora do império ou locus exótico, o novo Oriente da poesia portuguesa é agora uma Ásia que é um entre outros interesses culturais, geográficos e sociais. Em suma, este descentramento físico e mental em relação ao espaço europeu, a constante plasticidade discursiva e ainda a positividade de fundo cristão são coisas que juntas se acham raramente e que não voltaram, depois de Ruy Cinatti, a juntar-se na poesia portuguesa.

5 Nov 2021

Poesia | “Salitre”, de Duarte Drumond Braga, editado na RAEM pela Capítulo Oriental

O novo livro do académico Duarte Drumond Braga tem Macau como musa e tema central. “Salitre” será editado este mês pela Capítulo Oriental e é, como descreve o autor, uma metáfora poética sobre as características do território

 

“É que / na aldeia lê-se o que há na papelaria, / vai-se a tudo o que há no Dom Pedro V / desfraldou-se uma vela / e perseguimos o pirata”. O verso do poema “Sal” espelha bem a matéria do mais recente livro de poemas de Duarte Drumond Braga, académico da Universidade de Lisboa que viveu em Macau.

“Sal” é um dos poemas que integra “Salitre”, livro de poesia inteiramente dedicado ao território, com versos escritos entre os anos de 2019 e 2020. Editado este mês no território pela Capítulo Oriental, com apoio da Universidade de Macau, ainda sem data oficial de lançamento devido à pandemia. A obra terá também lançamento em Lisboa.

O livro de poesia é uma ode metafórica ao território que acolheu Duarte Drumond Braga. “Salitre é um fenómeno químico bem conhecido que actua nas paredes das casas. O salitre talvez possa ser uma metáfora da acumulação de sinais, traços, uns legíveis outros menos, que constitui uma cidade como Macau. Poderia ser também o bolor ou o mofo, bem conhecidos dos habitantes de Macau, mas já há um livro de Augusto Abelaira com o título do primeiro e talvez estes remetam menos para a escrita como acumulação de traços ou raspagens”, contou ao HM.

O poeta e investigador escreveu “Salitre” ao mesmo tempo que ia fazendo versos para “Os Sininhos do Inferno”, mas os poemas do livro agora lançado foram “quase exclusivamente” escritos no território. Escrever novamente sobre Macau surgiu como uma necessidade, dado o interesse constante do autor pelas suas “textualidades”.

“É pena termos sempre acesso a um dos lados da moeda apenas, nós que não falamos chinês, porque o texto-Macau tem muitas autorias. O livro procura mostrar, antes de mais graficamente, que esta é uma cidade que é também um conjunto de citações, em línguas diferentes, que se cruzam, formando um texto único, mas de autoria múltipla.”

A Macau histórica

Nestas muitas versões da mesma história, há também espaço para a Macau histórica, consumo de ópio e piratas. Exemplo disso é o verso “No esterquilínio / é a cena do ópio: / um homem / tragicamente hirsuto / de olhos rolados, / dobrado sobre si mesmo / como um feto ao fogo / e uma mulher / que queima bolas”.

Mas, conforme explicou Duarte Drumond Braga, “Salitre” não é apenas isso. Os seus poemas contêm referências “a espaços muito concretos”, e não apenas a eventos históricos.

“Volta-se a esse imaginário para colocá-lo de forma diferente, por vezes de forma cortante. Creio que ainda há marcas de um certo exotismo na literatura em língua portuguesa de/sobre Macau. Este livro demarca-se dele, ainda que não se esgote nisso.”

A Capítulo Oriental indica que a obra contém uma Macau “lida como uma cidade-texto, feita de letras, signos, sinais”, “uma cidade que é também um conjunto de citações, em línguas diferentes, que se cruzam, formando um texto único, mas de autoria múltipla”.

Uma interpenetração

“Salitre” é também uma espécie de “livro-colagem”, onde “os versos à esquerda são da minha autoria e os destacados à direita pertencem a vários livros de literatura e até de história de Macau”, aponta o seu autor. Neste processo, “os lugares, as referências históricas e as personagens dessa cidade constituem um mapa que mobiliza a transformação de Macau em tropo da linguagem”.

Investigador na área da literatura comparada, Duarte Drumond Braga adianta que “a investigação e a poesia são actividades que se interpenetram”. “Interessa-me cada vez mais a poesia como forma de investigação, interessa-me construi-la em simultâneo com as questões que eu estudo, como sendo a Ásia e a produção escrita de língua portuguesa, essencialmente”, frisou.

Editar “Salitre”, o seu terceiro livro de poesia, em Macau é importante para o autor. “Vinte anos depois da transferência da soberania, a publicação de qualquer livro em língua portuguesa em Macau – o que é talvez mais significativo quanto a um livro de literatura – constitui, em si mesmo, um facto cultural de relevo”, rematou.

Fundada em 2019, a Capítulo Oriental é a primeira agência literária a trabalhar entre a Ásia e países ou territórios de língua portuguesa, e que tem sede em Macau. Representa também autores de Macau, China, Hong Kong, Taiwan e Portugal, entre outros territórios.

1 Nov 2021

Poesia | Duarte Drumond Braga lança “Sininhos do Inferno”

Editado pela Não Edições, “Sininhos do Inferno” é o segundo livro de poesia do académico Duarte Drumond Braga, que viveu durante algum tempo em Macau. O território está, por isso, presente nos seus escritos, com poemas que revelam “o circuito quotidiano” que o poeta fazia, no meio das velharias, “entre a Rua de Santo António e o bazar chinês”

 

 

Em 2015 lançou “Voltas do Purgatório” e agora tem um segundo livro de poesia. Até que ponto diferem um do outro?

Do Purgatório ao Inferno vai um saltinho. O primeiro livro tinha um tom diferente, mais distanciado, este é mais cru e directo. Era um livro sobre Portugal, o país-purgatório, como lhe chamava Pascoaes. Reelaborava de forma críptica figuras portuguesas, este reelabora episódios, perdendo o lado mais críptico. De alguma forma era um livro mais formal, e este mais próximo, mais interessado em outro tipo de experiências.

Porquê o nome “Sininhos do Inferno”?

O primeiro poema, “Trombeta Bath, Lisboa”, de alguma forma responde a isso. Os locais bas-fond são infernos, não (só) no sentido moral ou religioso do termo, mas num sentido também de serem subterrâneos, de serem lugares do desejo, do cativeiro do desejo, da repetição, do círculo. A repetição é puramente infernal. Ouvem-se sinos no inferno, porque o inferno é musical, tem ritmos, regularidades sonoras.

Este é um livro que “observa uma série de lugares e depois uma série de amantes”, todos eles “guardados por porteiros”. É um livro sobre sexo, mas também sobre amor?

Como diz a Rita Lee: “Amor é um, / Sexo é dois./ Sexo antes,/ Amor depois”.

Parece haver uma certa conotação com as ideias de religião e moralidade, sobretudo quando se afirma que “Deus não existe, como a China sabe”. Estou certa, ou não é esse o caminho ou a ideia de alguns destes poemas? O nome do livro também pode estar relacionado com estas ideias?

Não estou preocupado com uma ideia moral, mas pode-se dizer que há uma inquirição religiosa ou espiritual, sim, que já aparecia no outro livro. Alguém já disse que o que mais perturbou os missionários católicos do século XVI foi o facto de uma sociedade tão sofisticada não se fundar numa ideia teísta. Para eles uma sociedade complexa não podia dispensar a ideia de Deus. Mas desde Wenceslau de Moraes só podemos ser no máximo peregrinos, não missionários na Ásia, e foi de facto um privilégio o tempo que estive na China e o que pude aprender.

Macau surge representada em poemas como “Prefiro Rosas”, passado no Pátio da Eterna Felicidade, junto às ruínas de S. Paulo. Porquê este local? É aquele que melhor representa aquilo que Macau é, na sua plenitude?

Tem a ver com o circuito quotidiano que eu fazia, o das velharias, entre a Rua de Santo António e o bazar chinês. O poema refere a destruição da Macau antiga, que para nós europeus pode ser perturbadora, mas que faz sentido na visão de mundo da Ásia ou mesmo extra-europeia tout court. No Brasil isso também se sente bem. O poema refere ainda a mistura entre as referências portuguesas, a partir das quais não podemos deixar, como portugueses, de ler Macau (Camões, etc) e a realidade da cidade financeira, aberta a qualquer invasor. Fascina-me ser ao mesmo tempo a cidade ex-portuguesa na Ásia e a cidade-puta, aberta a todos, sobretudo aos que já têm as tais “libras”.

A Ásia, nomeadamente a cidade de Banguecoque, está também representada. São, no entanto, poemas diferentes face ao que escreveu sobre Macau?

E o Brasil também está representado, gostaria de lembrar isso. São não só ecos da minha biografia, mas sobretudo uma forma de tirar partido da vida fora da Europa, que é uma experiência preciosa. Outras formas de organizar o espaço e talvez até o tempo.

Parece-me haver aqui uma ideia de prazer oculto, de fuga, com a ideia de que há ‘uma série de amantes todos guardados por porteiros'”. Este é um livro de vontades, mas também de mistérios?

Não. O que está, ou pode estar, oculto na realidade fica patente no poema. Os poemas que falam em sexo assumem o desejo pelo corpo do outro, não são fugas nem mistérios. Interessa-me assumir o corpo e um tipo particular de desejo. O desejo em si pode ser um mistério, mas isso já são outras conversas.

Tens mais algum projeto de poesia para breve?

Sim, até ao final do ano a Capítulo Oriental, editora/agência literária sedeada em Macau e Lisboa vai publicar um outro livro meu, Salitre, este inteiramente escrito e dedicado a Macau.

19 Jul 2021

Carta a um jovem poeta

Organizada pelo poeta Zetho Gonçalves, saiu agora na Letra Livre (numa bela edição), uma compilação de textos de Jorge de Sena que de comum são difíceis de encontrar e cuja reunião se justifica no longo, justo, e tenso prefácio em que Zetho explana o pensamento poético do autor de “Metamorfoses”.

Logra-se o efeito deste livro, precisamente, abanar alguns lugares-comuns sobre a poética de Sena (quer no prefácio, quer congruente propriedade que a montagem dos textos revela) e estar à altura da verve que o homenageado cultiva na ácida “Carta a Um Jovem Poeta”, aqui repescada como pretexto para de outros modos de viver a poesia e a dignidade que a deve estribar se falar.

A impressão que nos fica desta leitura (de “Carta a um jovem poeta”; “Sobre Poesia, alguma da qual portuguesa”; “Acerca de um Puro Poeta – fragmentos”; “Oito Poemas para a Nova Madrugada”; “Prefácio da Primeira Edição de Poesia”; “Discurso do Prémio Etna-Taormina”; “Discurso da Guarda”) é a de que este fluxo de disparos e tinir de espadas nos chega de um pirata de Madagáscar, tal é a violência da carga que se apresenta no traslado.

É impossível numa crónica apresentar todos os argumentos que aqui se esgrimam, iremos ater-nos ao texto que dá título ao livro e a algumas irremovíveis estocadas com que Sena desfaz as ilusões poéticas.

Conta Zetho, o texto surgiu de um convite do poeta brasileiro Walmir Ayala, através de Sophia de Mello Breyner Andresen, para Sena figurar numa obra colectiva cujo plinto seria as famosas “Cartas a Um Jovem Poeta”, de Rilke.

E relata-se, num delicioso apontamento memorialístico, que perguntando Zetho a Sophia pela sua própria Carta, da qual não haveria notícia, respondeu a poeta: “A carta do Jorge deixou-me sem mar para escrever fosse o que fosse”.

Lendo a carta vê-se como Sena sabota as mais rudimentares pretensões pedagógicas e seca qualquer pingo de aragem para o mais mínimo cata-vento:

«A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa.

Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o “si mesmo” está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu sim mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. (…) Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser.»

Sena procede como Sileno, o tutor de Dionísio, a quem o rei Midas perseguiu na floresta, insistindo em perguntar-lhe qual dentre as coisas seria a melhor e a preferível para o homem. Forçado pelo rei, respondeu: «Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, ser nada. E o melhor em segundo lugar, para ti, é morrer rápido» (, in Nietzsche, A Origem da Tragédia). Sensivelmente pela mesma data da escrita desta carta de Sena, em Londres, o jovem poeta de Bombaim, Dom Moraes (tinha dezanove anos), em visita à cidade, almoça com o seu poeta favorito das gerações precedentes, Stephen Spender; o qual desfere, sem dó: «você está ciente de que ser poeta/ é olhar-se ao espelho e ir padecendo/ do ser monstruoso em que se vai tornando,/ porque a poesia não pactua com a mentira?».

Gente sem feitio para andar com bordados. Mas que sobretudo previne que o terreno é pedregoso e que a poesia só oferece «uma garantia da dignidade humana» se a sua independência e liberdade se cumprirem (um poeta não pode esquecer-se de transformar o mundo), deixando então pressentir a vera radiação de uma presença inominável, reconhecível nos exercícios de cabotagem que a escrita permite, mas tão difusa que querer obter proveitos dela é como capturar o oceano com um garfo.

E continua Sena: «Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida?»

Quanto ao gesto do jovem poeta pedir conselhos, ou da pertinência destes, volta Sena a desenganá-lo: «a poesia autêntica não necessita de ser encorajada; antes se acrisola numa solidão que de própria natureza bem conhece».

Percebe-se que Sophia tenha ficado sem chão, como todos nós. Mas o que torna
necessário a leitura desta Carta contundente, visceral, é exactamente lembrar-nos que há uma espessura para as coisas e que na anti-pulcritude da verdade que contém se traceja a “aventura espiritual” (expressão repetida neste livro) que importa, mesmo contra o que parecia adquirido: «A literatura, de resto, é algo de somenos que nunca me interessou; salvo raras excepções que me espantam, sempre a achei uma forma de analfabetismo, exactamente como o ensino universitário: uma e outro não conferem cultura, mas ideias feitas, preconceitos, muita presunção vazia.»

Dizia o Godard, se a cultura é a regra a arte é a excepção. Ainda que incomode, é a que encontramos nesta carta que nos devolve à solidão. O resto é o marketing – espuma, o que na longa duração apenas fede.

10 Jun 2021

Pessoa, o Oriente e a Sociedade Teosófica

A palavra de ordem dos românticos alemães: “É no Oriente que devemos procurar o romantismo supremo” (F. Schlegel). Mas nunca conseguimos sair do plano das representações. Seria preciso esperar pelas vagas de emigração de proveniência dos países do mundo árabe e da Ásia, a partir dos anos 60, na Europa, e em Portugal nos anos 90, para termos acesso não a textos sufocados por traduções, mas a pessoas reais, com práticas e contextos reais. Mas já de antes o Oriente do budismo, do Hinduísmo, numa espiritualidade muito diluída e mal traduzida, exerciam um verdadeiro fascínio na Europa, ainda que sempre separado e alheio do contexto religioso, social, doutrinal em que nasceram. Acresce a isto o Esoterismo, que tantas vezes se misturou com muitas destas tradições, mas que tem uma linha europeia própria: tradição hermética, alquímica, maçónica, cabala, simbolismo cristão.

Um dos movimentos que mais fama teve, e logo na segunda metade do século XIX, foi a Sociedade Teosófica, cuja principal força motriz foi fazer essa ponte entre Ocidente e Oriente, daí o seu resultado textual ser fortemente orientalizado. Esse movimento propôs uma fortíssima e sincera revalorização das espiritualidades orientais. Com efeito, a fase madura da doutrina de Helena Blavatsky (1831-1891) foi influenciada pelo Hinduísmo e, mais tarde, pelo Budismo, sobretudo depois da sua viagem à Índia, em 1878, que deu origem à esmagadora obra em seis volumes A Doutrina Secreta (1888). É de notar que, instalada na Índia desde 1883, a Sociedade deu apoio ao combate anti-colonial contra os ingleses.

Fernando Pessoa descobriu a Teosofia em 1915, tendo traduzido para Português várias obras teosóficas como a da Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky, datada de 1916. Mas a sua relação com o movimento e com a Sociedade não ultrapassa o papel de estudioso e tradutor, nem consta que tenha sido filiado. De qualquer modo, a espiritualidade tradicional indiana, e asiática em geral (ou uma certa imagem dela), passa a ser um objeto de pesquisa de Pessoa e entra na formação do pensamento esotérico pessoano. Não por acaso o poeta Ricardo Reis e o filosofo António Mora sentem a necessidade de serem dois acérrimos críticos do Esoterismo, pois também no ensaio e na reflexão sobre estas questões a autoria heteronímica entra em cena. As posições da côterie heteronímica sobre esta questão são, como seria de esperar, diversas e contraditórias.

O inicial respeito e fascínio conduz a um progressivo desconforto que o poeta e intelectual vai experienciando com esta tradição. Tal implica um repúdio face ao Oriente reciclado que a Teosofia apresentava, o que é visível neste apontamento inédito, datável da década de dez [c. 1917], onde se opõe a perspetiva teosófica ao Rosacrucianismo: “A Rosicrucian is a kind of occultist a man <† to> of <†> /our/ mind can understand. He cannot understand a neo-buddhist. The detestable indian sub-jugglery, called Theosophy, so despicably, taken far from the great, though diseased beauty of the Buddhism of the East, by its □ mixture with /western/ modernities” (BNP/E3, 26B-8r).
Mas a crítica pessoana à Sociedade Teosófica visa não apenas as suas roupagens orientalizadas. Outro dos incómodos, para Pessoa, consistiria na vulgarização dos princípios do Esoterismo, que defendia não deverem ser massificados, ao contrário do que a Teosofia propunha, bem como no seu “humanitarismo” militante, visto pelo autor como uma espécie de novo supracristianismo, incompatível com o projeto do anti-cristianismo neo-pagão que estava a desenvolver. Confessa numa importante carta a Mário de Sá-Carneiro, datada de 6 de Dezembro de 1915, e que pode ser conferida pelo primeiro volume da edição de Manuela Parreira da Silva da Correspondência: “A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (…), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito”. Por isso, o caminho do esoterismo pessoano vai divergir para o Rosicrucianismo, a Alquimia, a astrologia ocidental. Mas certas ambições pessoanas de criar um sistema totalizante, que unisse as religiões, as filosofias, a ciência e da literatura, é da Teosofia que recebem o seu primeiro modelo e impulso de escrita.

9 Jun 2021

“A morte de um apicultor” 1

Esta será a primeira de quatro partes à volta de um livro do escritor sueco Lars Gustaffson, «A Morte de um Apicultor». A edição usada nas nossas citações é a da editora Marcador, na tradução de Mélanie Wolfram e Afonso Cruz. A seguir às citações, entre parêntesis, aparece o número de página desta edição. A edição original é de 1978.

Estamos perante um livro «sui generis», por várias razões. Primeiro, porque se trata de um livro composto por 3 cadernos, de cores e temáticas diferentes, deixada por um professor primário, que nos conta a história a sua história, embora tenha sido organizada por uma outra pessoa, que é quem começa a narração do livro. Como se o escritor se colocasse de fora do que está a escrever e nos dissesse: isto que vão ler não fui eu que escrevi, apenas organizei. De imediato, faz-nos lembrar de uma peça famosa de Pirandello, Esta Noite improvisa-se, onde no início é o encenador que vem ao palco, não para desculpabilizar-se, como faz Gustaffson no início do livro, mas para dizer que aquilo a que os espectadores vão assistir não é da responsabilidade do escritor Luigi Pirandello, mas dele, o encenador.

Embora ao contrário, com uma estratégia inversa, estamos perante o mesmo artifício: a de fazer com que o escritor não seja o foco da atenção do leitor ou espectador. Embora o problema da dificuldade de identificação do que é real e do que é ficção seja muito maior em Pirandello do que no escritor sueco, pois a obsessão filosófica primeira de Gustaffson é a linguagem. E adiantei-vos uma citação: «Contrariamente ao que acontece com a percepção das cores, a linguagem não desenvolveu palavras específicas para definir as sensações das dores. Elas não têm nome.» Faltam-nos palavras, não apenas para nos expressarmos, mas para nos conhecermos. Ainda nos falta palavras para sabermos quem somos. Isto sempre foi uma preocupação maior do filósofo Wittgenstein. E estas preocupações no livro de Gustaffsson alargam-se no terceiro capítulo, «A Infância», onde o narrador lembra várias expressões que ouvia na infância, em reuniões familiares, e analisa-as para além do esperado, isto é, escalpeliza as expressões tentando mostrar o que está de facto por detrás daquelas frases que são repetidas quase sem se pensar nelas. Dou alguns exemplos: «para cúmulo da desgraça»; «uma pessoa que eu cá sei» ou «é sempre a mesma merda». Quase no final do terceiro capítulo «A infância», lê-se: «Sabemos o que querem dizer as palavras, e ao mesmo tempo não as entendemos.» (126) Mas além da questão do entendimento ou não entendimento da linguagem, Gustaffson liga o uso compulsivo dela, o estarmos sempre a falar como uma espécie de procura de redenção ou, pelo menos, um acreditar que alguém nos ouve. Que alguém nos ouve sinceramente. Leia-se: «Liberta a humanidade sofredora /

Mas primeiro liberta-me a mim, porque fui quem sofreu mais. / Basta apanhar o eléctrico durante uns quilómetros para perceber a situação. E não conseguirem queixar-se de nada, queixam-se das suas sagradas doenças, das dores dos joelhos, das pedras dos rins, das úlceras, das veias inflamadas, dos soluços e das azias, das diarreias ou das fezes duras como rochas, que fazem barulho ao bater no fundo do penico. / E enquanto falam disso, imaginam que alguém lhe dá importância, só por se queixarem.» (93) O problema da linguagem assume uma duplicidade: o parco conhecimento que temos da linguagem em si mesma e o esperarmos que ela nos liberte da dor ou, pelo menos, nos traga empatia. É esta a razão por que se reza. Rezar é esperar que as palavras que dizemos são escutadas, verdadeiramente escutadas, que alguém realmente nos ouve. O facto das palavras se fazerem ouvir fora de nós, pelos outros, e de também muitas vezes se fazerem compreender, como por exemplo «passa-me o sal», faz com que se extrapole para um «nós podemos ser compreendidos» ou, na tese mais radical «a nossa necessidade de consolo pode ser satisfeita ao falarmos». Mais: a linguagem impõe que o outro preste atenção em nós. Por isso se diz que é falta de educação não responder. Como se a linguagem nos obrigasse a responder. Se alguém te diz «bom dia», tens de responder de acordo com isso. Neste livro, mais do que o problema da incompreensão, de não sabermos o que estamos a dizer com o que dizemos, a linguagem cria a ilusão de que podemos ser escutados. Ou seja, a linguagem cria a ilusão de que ao falarmos alguém se aproxima de nós, alguém cria empatia por nós e que de algum modo o mal que sentimos ameniza ou sara. De tal modo, que o narrador identifica a única forma de retórica das camadas inferiores da pequena burguesia sueca: a lamentação. Como se o exercício da lamentação os redimisse de alguma coisa. Lamentar é uma forma de rezar na direcção do outro, ao invés de na direcção de Deus, esperando que os pedidos sejam atendidos.

Em relação à linguagem é brilhante aquelas páginas em que, depois da visita dos jovens de 12 anos, adeptos de histórias de terror, surge aquela história fantástica acerca da origem da dor e dos seus meandros, «O Grande Órgão da Ilha de Og», para logo de imediato nos surgir uma descrição «científica» do que é um cancro. Dois modos distintos de abraçarmos a linguagem, e duas idades completamente antagónicas a infância e a idade adulta. A linguagem nunca é a mesma ao longo da vida, ainda que as palavras possam ser. Leia-se esta passagem, também do terceiro capítulo: «É sempre a mesma merda. Vamos para a escola, depois para o liceu, depois para a universidade, e passamos por várias represas que nos levam a uma linguagem cada vez mais refinada. E mais abstracta.» (125) No fundo, o narrador entende que a linguagem está ligada ao mundo que se tem. As palavras podem ser as mesmas, ou quase as mesmas, mas o sentido torna-se diferente no mundo que se tem. E este mundo não é apenas o mundo que se abre com as diferentes idades de uma vida, é também no interior de uma classe social, no interior de um modo de se viver, que o narrador identificava claramente quando era professor. Escreve: «A linguagem da classe média era a mais indefinida de todas. […] Sabemos o que querem dizer as palavras, e ao mesmo tempo não as entendemos.» (126) Por tudo isto e o muito que se verá ainda nesta minha leitura, estamos diante daquilo a que o próprio autor chama, quase no final do livro, de antropologia mística. No mesmo sentido que Wittgenstein denomina tudo aquilo que podemos saber para além da lógica. Para além da lógica há a mística. Porque não nos é possível outra coisa senão traçar um mapa de ilusões, mais ou menos plausíveis.

(Continua na próxima semana)

8 Jun 2021

Do prazer (e) da ilusão

E trocar a erudição pelo belo? É o que me pergunto ante alguma distância e secura árida de algum do discurso sobre o discurso. A crítica sobre a obra. O saber sobre a arte ou a poesia, que me faz sempre querer tapar os ouvidos e ver simplesmente. Ouvir. Fruir e mergulhar fundo na ilusão de vida que é o uso da linguagem. O mais sólido e vazio prazer da ilusão, como disse Giacomo Lombardi. Uma astronómica manobra de sobrevivência, dado que o belo nunca desilude. Já a razão é uma barca de derivas abstractas que levam a cenários longínquos e analíticos mas, malgrado a euforia do saber, distancia-se do sentir e do embalar da simples e delicada beleza que em si é simplesmente o que é, sem necessidade de explicação ou fundamentação. Mas como dizer que a beleza seja um malabarismo da nossa capacidade de ilusão sem reconhecer a lírica e lúdica apetência do hedonismo que nos salva de todo o resto, sem graça, sem emoção e sem sentido e nos mergulha na trémula e deslumbrada sensação de pura contemplação. Talvez esta seja a chave do precioso segredo da humildade. A capacidade de deslumbramento. Que nada cobra do universo e em vez disso se silencia atónito ante o ver e o admirar. Nem que seja por momentos.

Ignorar o próprio ser por momentos, por momentos esquecer e render homenagem ao objecto admirado é como abrir as portas afanosamente aos anjos e que entrem que deslumbrem ou sirvam. Isso é lá com eles. Sem juízos e avaliações e pódios. Sem hierarquizar um momento puro e emocional de prazer ante a beleza de uma frase, escrita, pensada ou lida, de um gesto, de uma paisagem, de um olhar ou de uma vida, ou discorrer sobre ela de um ponto de vista crítico.

Às vezes todas as ilusões de nitidez, não para com a vida, não para com nada que nos seja reflectido dos outros, mas com a simples realidade familiar com que nos deparamos em nós. Que pode, de um momento para o outro, tornar-se uma vasta poalha de intermitências indefinições e paradoxos. O querer e não querer e o querer não querer ou o querer querer. Tornando-nos irreconhecíveis aos outros, no indeterminado momento em que lhes parecera reconhecer-nos e logo desconhecer. Talvez haja que manter a ilusão. Um certo olhar.

Mesmo quando o dia é uma correria mas de repente fica com uma textura fina de calma e eternidade. Como se tudo se silenciasse a fruir um momento. Poderia ser esse brilho ainda tímido de sol de primavera e vizinhança de fim de tarde. Ou pode não ser nada de especial, mas algo que simplesmente acontece.

Está bem. Vieste então desinquietar-me e eu encontro uma pertinência difusa e quase impalpável de tão subtil nas tuas razões que não sei. Sei o efeito. Ou antes a forma, depois, somente depois, o efeito. Mas é o efeito em mim. Esse pavor de não entender, que me persegue como monstro papão da infância já com a insónia pontual que haveria, depois, de se tornar personagem de casa. Sem convite, mas amiga estranha e a quem se instituiu o direito de vir depois, mesmo sem chamamento. Lá longe era o vulto do roupão pendurado atrás da porta, um ser de contornos sombrios a apelar um olhar incauto de um sono que de súbito não vinha. Os murmúrios da casa em respiração que dizem natural e saudável. E que se não existisse seria como viver uma casa morta de si. Mas é estranho.

A casa range. É a verdade que me incomoda os passos que sempre quis silenciosos. O universo já é ruidoso por demais.

Depois penso como ser feliz. O futuro a deus pertence, diz-se, mesmo que não tocados de uma fé que não temos mas no assumir simples de que é algo susceptível de tantas variáveis que não podemos controlar, que melhor é não termos essa ilusão de o saber. Mas como sobreviver até lá, é a tarefa humana que me ocupa todos os dias. A de não perder paisagens imaginadas, também.

Como não nos deixarmos tocar de melancolia e pessimismo sem ignorar a realidade humana e a sua inalcançável mas presente e férrea subjectividade. Plena de oxidações corrosivas e dolorosas de variações cromáticas. Mas adaptável, flexível e sempre sujeita a viajar de um extremo a outro.

Deixarmo-nos abundantemente embriagar pelo possível. Pela beleza do possível ou simplesmente pelo belo existente nas coisas. As coisas, um gesto bom, uma carícia sincera. Um elogio à vida como ela é ou como ela se pode construir. Ver. E não como deveria ser e se oferecer. Uma certa forma de ilusão. Como a arte.
O copo meio cheio, afinal.

8 Jun 2021