Invocar aos deuses o “tempo real”

Em entrevista recente, Paula Panarra (GM da Microsoft Portugal) afirmou: “O que acontece hoje em dia é que o volume de dados que são produzidos todos os dias, quer por nós na nossa vida pessoal, quer pelas empresas na forma como operam, e aquilo que é o poder computacional que as novas tecnologias, nomeadamente na nuvem, conseguem trazer fazem com que a resolução da algoritmia possa acontecer em tempo real”*.

Em primeiro lugar, confesso que admiro o discurso particularmente assertivo dos técnicos. Além de exímios na arte da predicação, recorrem a uma poética de ‘lança em riste’ e concebem metáforas como quem trata a esfericidade do planeta por tu. É o caso da “algoritmia”. Traduzindo: os dados a que acedemos nas morfologias da rede permitem que as respostas – é essa a crença! – nos surjam em “tempo real”.

Este “tempo real”, citado por Paula Panarra, aproxima-se do conceito de “marcação” de Blumenberg (uma clareza súbita que nos imobiliza e que parece atraída por uma dada finalidade) e, em termos de impacto, não anda longe das fotogenias do cinematógrafo que se caracterizava pelo fascínio hipnótico das imagens que passaram a revisitar detalhes do quotidiano a partir do final de oitocentos. A designação “tempo real” pretende, pois, assinalar uma coexistência meio mágica entre o acontecer e o acontecimento. Trata-se, por outras palavras, de realçar a contingência em flagrante como se ela estivesse prestes a revelar-nos um segredo.

Sem ironias, tenho simpatia pela expressão “tempo real” e por quem alimenta a crença na sua quase invulnerabilidade. A expressão, com subtexto utópico, é geralmente usada para se contrapor ao tempo dito diferido. Curiosamente, o diferimento confunde-se com o modo como damos conta do mundo que nos rodeia. Cito Damásio em ‘O Sentimento de Si’: “A ideia de que a consciência chega atrasada, em relação à entidade que a inicia, é apoiada pelas experiências de Benjamim Libet sobre o tempo que um estímulo demora a tornar-se consciente. O atraso é de cerca de quinhentos milésimos de segundo.”. Ou seja, quando estou a ler este texto, existe um primeiro mapeamento do proto-si que depois se transforma em figuração ao nível da consciência nuclear e que, logo a seguir, surge na consciência biográfica, essa área de montagem em que um dado aparentemente imediato se apresenta finalmente à consciência. Convenhamos que a imagem é ainda filtrada por códigos que permitem decifrar o próprio registo da leitura (a par de outras operações que, em simultâneo, me dizem que ‘isto tudo se está a passar comigo’ e não com outrem). O tempo que passou parece realmente não existir; a sugestão de que tudo é instantâneo e sem entraves permanecerá. E é nessa sugestão que reside a fé.

De qualquer maneira, o que hoje não for considerado como “tempo real” está (e estará cada vez mais) ‘fora de jogo’. É um modo tácito de exclusão que nos cativa a angústia do dia-a-dia. E como adoramos esse ‘corre-corre’ sem um horizonte claro! Uma interminável fuga para a frente que nos mergulha involuntariamente no âmago da ‘correção’. Por outro lado, dentro do jogo do “tempo real”, acredita-se – é essa a tal crença – que tudo se assinala e incorpora no instante em que emerge, acabando este aspecto, justamente, por colocar em evidência a extrema irrealidade do “tempo real”.

O paradoxo torna-se, afinal de contas, no dom mais cativante do mito do tempo real e também naquilo que o torna francamente apelativo. Ao repetir-se até à exaustão “tempo real”, o tempo corre até o risco de se tornar capturável. E uma ilusão em era de ilusões converte-se, claro está, na mais pura das verdades dogmáticas.

O enredo do conteúdo “tempo real” é afirmativo e inebriante. Toca os sentidos e excita o domínio das certezas (a)cronológicas. De algum modo, para além do “tempo real”, já não existirá praticamente história, nem futuro. O “tempo real” ameaça impor-se como o clímax exclusivo de uma narrativa que se bastaria ao instante. Uma coexistência e uma intensidade que, um dia, não nos deixarão respirar. Para lá caminha apressadamente todo o ‘mainstream’ que nos cavalga e envolve os dias. Não é assim, minha cara Paula Panarra?

Ao convocar-se o “tempo real”, tal como dantes os poetas recorriam à invocação às musas, tudo se torna possível. Sobretudo porque mais de 40% da população mundial tem menos de 25 anos. A nova geração nasceu dentro do presente, extasiada por um imenso aquário de amnésia colectiva e sem ferramentas que lhe possibilitem um mínimo de contexto histórico ou uma projecção futura, a não ser a tecnológica que lhes garante que o futuro é já hoje. A espuma acaba por dominar o cenário, como aliás foi recentemente testemunhado pelo politólogo americano Vali Nasr a propósito do Médio Oriente: “Os protestos organizados pelas redes sociais crescem mais depressa, mas também morrem rapidamente.”*.

A espuma (ou a diluição) do quotidiano e o tempo real são, na realidade, a luz e a sombra de um mesmo apagão. Mas um apagão que não recobre a vida toda, felizmente.


*Paula Panarra. entrevista a Paulo Matos em Visão (edição de 24/12/19).
*Jorge Almeida Fernandes. ‘Que pensar das rebeliões que agitam o mundo?’ em Público (edição de 25/11/10).

24 Jan 2020

É sempre a primeira vez

As palavras vinham esparsas. Mas ele sabia que era uma espécie de amor, aquilo que sentia, um amor pelas coisas boas, e aguardava a transmissão. Sabia ainda que não havia rede e que nada o iria sustentar na queda, se ela existisse. As palavras chegavam sem sentido. Avulsas. “Circo”. Ele teria ouvido: “Vem ter ao circo”. Vindo assim, sem convicção, num fragor que despontara de parte nenhuma. Quem? Como? Quando? Porquê? Nada. Não havia esclarecimento. O fio terminava ali. Sem novelo.

Na sua cabeça só havia campo. Lugar vago. Livre. Uma configuração não alinhada com planície, mas sob a forma de colinas que se desenvolviam sem feição e sem regras. Como se dentro delas o respirar da terra, para cima e para baixo, as tivesse deixado assim, desviadas da sua existência. Desmanchadas, esquecidas, tumorais. Com vegetação disforme a preencher o demorado espaço. Alguns arbustos, árvores sem fruto e sementes que não se agarravam ao chão, que ficavam ali, sem enleio. Forma solta de pensar. Na expectativa de que a imagem das colinas se desvanecesse e que daí surgisse a vastidão e a solução para a soma dos seus infortúnios. A planura.

“Circo!”

Não um substantivo, mas um verbo. Eu circo, tu circas. Por baixo, matéria oca. Vazio. Indefinição. A terra seca. Um quase silêncio. O seu corpo em tumulto, cheio de sede de metamorfismo e clarividência, a aguardar as ordens da transmissão. As palavras que não vinham. E isso, sabia-o, era o prenúncio de coisas más, de tudo aquilo que não queria repetir. O seu corpo feito em colina, ali deixado, sem gema, sem força para suportar o passado que se avistava. Não era a queda, nem o circo, que temia, mas a sombra já vivida da desilusão.

Nem era à retaguarda que o torcer do relógio aludia, porque os instantes prosseguiam bem aconchegados na sua torrente, desaguando oportunidades que sem transigência era necessário ocupar. A hora e a sua ponta, apinhadas de resíduos de outras cronografias, a demandar recomposição. O estridente refrão. Uma nova cena. Claquete! A luz da alvorada a repetir-se, inscrevendo histórias similares com o corpo embutido como protagonista. Dia após dia. Uma narrativa desconhecida para viver. Sobre o que iria versar o novo enredo, seria sobre uma pequenina aldeia no campo? Era preciso transpor o despertar para alcançar a feição da nova presença. A vã promessa de um vocábulo ao acordar. O foco. Luzes! A dor faminta de existência que brotava sem ser notada. Retirava pronomes. Retirava preposições. Retirava-se.

Não se é gente, não há valor, nesta obediência. Na ordem da escrita. O génio não raia. Tudo é invisibilidade. Tanto e nada disso importa. Agora. Aqui. Depois. É sempre a primeira vez. Inicia-se amanhã? O pretenso texto, a pretensa crónica?

Hoje. Agora. Aqui. Este momento rigoroso que não existe e que não chega a ser abordado. É uma ocasião que descende de outra, que leva a um inexperto enlace, onde o tempo se dilata. Decorria o intervalo passado e já se sucede uma nova reticência. Um tempo de ninguém. Demarcações verbais. Ele circa.

A intermitência onde nada acontece. Alguma coisa desliza e se incrementa. Um braço que aperta. Uma noite. Será já dia? Fecha-se uma porta, abre-se outra. Vozes que reclamam. Vento que passa. Leva os sussurros de um momento para o outro. Os odores, os nervos, os gritos. De um flanco, nada, porque tudo se foi. Do outro, igual, porque ainda nada surgiu. Não há vez na derradeira obscuridade que antecede a palavra inicial, que se espera límpida. O primeiro passo, na mão que avança. Pede-se que integre uma frase, para que mais à frente nutra um sentido. Algures. Algures muito mais à frente. Acolá.

Não se é gente, não há valor, nesta obediência. Na ordem da escrita. O génio não raia. Tudo é invisibilidade. Tanto e nada disso importa. Agora. Aqui. Depois. É sempre a primeira vez. Inicia-se amanhã? O pretenso texto, a pretensa crónica? Um homem assente na fachada do seu desentendimento. Uma coluna dórica. Com uma tragédia grega a esmoer-se por dentro. De mãos largas, a desenhar a linha do momento preciso, contra as regras do que já se afixou. O friso, a arquitrave, o capitel. Desastres. Veículos de pernas para o ar. Aí sabe-se que vai existir uma história para contar, uma história das boas. E no outro dia, mais uma. No espaço. O momento da alvorada repete-se. Além.

E uma espécie de amor.

Ele. Ainda a aguardar a transmissão, ponderava em contínuo sobre o “Circo” e o seu entendimento. Quem lhe terá dito, de onde terá surgido a alusão? Colava memórias que inventassem itinerários. Subterfúgios isolados. Talvez se tratasse de um monólogo. Uma cena desconexa num enredo de curta duração. A criação de um plano. Uma cama ao fundo da sala. Seria um quarto, seria o fim da noite? Um candeeiro de pé alto. Um tapete. Roupa espalhada no chão. Colinas. As sementes que se desprenderam e recomeçaram a raiar descendência. A querer apontar para o génio. Para o sabor do ânimo. “Vem!”, disseram-lhe. Os dedos visíveis. O ar que passa.

Lembra-se de coisas para contar, sobre os homens que viu. Figuras desagregadas, perdidas do seu domínio. Árvores que jamais darão fruto. Mas nada disso terá importância que se faça notar. Ou fome de dor. Não quis ir, ao circo, é o único elemento que reconhece. A solitária certeza que considera. O indefeso NÓS. Nós não circamos. E aqui vai. A história de um fim sem princípio e sem novelo, que na inocência da manhã trará outra realidade. Outro mundo. Um novo sol. Outra vinda. Que continua por contar. Para que possa dizer e indicar o sentido do caminho por percorrer. O famigerado termo. Em exclamação. Quantos são? Quantos se alinham? Quantos gritam?

Numa espécie de amor, o silêncio impera. O amor pelas coisas boas. Dissipado. As colinas não deram lugar à planície. Em seu lugar, surgiu a cidade. Onde se circa. A queda que levanta a palavra que não cai. Nem o remoer da urbe se ouve lá fora. Nem as frestas de outra vida. Apenas a resposta muda, sem boca, sem corpo. Sem gente. Nada mais do que um papel. E uma caneta. Até aqui.

A noite cai. Levanta-se o dia. O dia exacto.

  BANDA SONORA 

23 Mai 2019

Diários

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Camões. Não Pode Tirar-me as Esperanças. In “Sonetos”

A inquietação provoca a insónia. Noite longa não dormida. Depois, ao longo do dia: inquietação, ansiedade, angústia, preocupação. O corpo tenso, enervado. Não se consegue estar sentado. Tenta-se ler em voz alta pela casa toda. Dá-se um esforço tremendo à procura da concentração. Que métodos os monges Zen terão desenvolvido para poderem concentrar-se?

Perda de acuidade de atenção. De novo a tensão. Não há nunca nestes dias relaxamento descontraído. Um diário pessoal não pode ser apenas uma agenda das coisas que têm de ser tratadas pela nossa acção nem uma acta de coisas tratadas. Uma agenda pessoal virtual ou no papel não tem apontadas as nossas maiores preocupações. É para não esquecer, claro, que apontamos na agenda o que há para fazer: marcações de consultas, encontros mais variados profissionais e pessoais. Não marcamos tudo. De resto, podemos falhar a encontros ou consultas que estão marcados na agenda, como podemos não nos esquecer do que não marcamos, porque está tão presente que não carece de marcação. Há uma agenda pessoal a partir da qual, depois há agendas virtuais e físicas. O lance diário traz consigo as preocupações presentes que vêm dos últimos dias ou das últimas semanas, meses ou até anos e décadas do passado. Distribuem-se não apenas num só dia, mas por vários dias, semanas, meses, semestres ou como podemos organizar o nosso ano, que pode ser lectivo, civil ou religioso ou só assim como quem não quer a coisa.

Podemos também não ter nada para fazer e ter dias de lazer, fins-de-semana prolongados, feriados ou férias. Durante esses períodos de tempo da vida há uma espécie de suspensão de quem somos enquanto somos o que fazemos. Há um intervalo de tempo, uma pausa, uma paragem em que o dia-a-dia vem da agenda do tempo de lazer. Ir às compras, ir à praia, ir para o campo, ler, ouvir música, ver o pôr do sol. Diferente de exercer funções ou cargos, realizar tarefas, cumprir prazos. Mas o lance diário começou antes do próprio dia ou da hora quando começam as consultas ou os encontros ou as outras marcações. Tudo começa antes do seu início com uma antecipação que pode ser de meses, que é quando marcamos as coisas, às vezes só na nossa cabeça. A lembrança é para memória futura. É agora que marco coisas para a tarde, quando é de manhã, para amanhã, fim de semana desta semana ou para as próprias semanas. Hoje, está já a ser vivido como o resultado de intenções gizadas que se projectaram para um futuro que agora é realizado. Somos o resultado do projecto de intenções que nos lançam para o dia de hoje, que começou lento ou rápido, com o pequeno almoço, a vinda para o local de trabalho, o início do exercício de funções. Trazemos connosco também o resultado por mais provisório que seja dos últimos meses: pessoas com quem vivemos e existimos, trabalho realizado. Hoje é já diferente do dia do calendário no ano passado, eventualmente no mesmo local e à mesma hora. Hoje é o resultado de um lance que se pode ter aberto num qualquer dia de Verão do ano passado ou de há muitos anos, muitas décadas, antes mesmo de compreendermos bem quem somos ou o que fazemos ou quais são as verdadeiras intenções da vida para nós. Hoje, abre também um futuro intencional que configura várias possibilidades ainda só em intenção, mas já com a abertura à possibilidade real e efectiva do possível que é possível, diferente de um sonho que se desfaça como uma vaga apaga desenhos na areia. O nosso diário teria de ser de uma natureza diferente de uma mera recensão das coisas que fizemos ou que poderíamos ter feito. Encontros a que fomos. Encontros a que faltamos. Consultas marcadas e em que estivemos presentes ou as que faltamos. Aulas dadas e tidas. Aulas faltadas. Espectáculos a que assistimos e aqueles a que não assistimos. Mas a nossa agenda teria de ser no condicional. O que poderíamos ter feito e não fizemos. O que não poderíamos ter feito e foi o que fizemos. O que poderíamos ter sido e não fomos o que não deveríamos ter sido e acabamos por ser. A possibilidade de inflexão. A possível reversão do que parece estar destinado e, tão petrificado que não muda nunca. É como se houvesse uma intenção por vida. Cada pessoa tem de lidar com a sua aspiração. Somos o desejo que é como quem diz a falta que sentimos de algo ou de alguém. Somos o desejo de nós próprios que é como quem, então, pode dizer a falta que sentimos de nós próprios, a carestia de um si que não foi e que não pode ser já ou ainda pode ser. Cada pessoa é esse trajecto de uma estrela cadente, como dizia Platão, atirada para o cimo em direcção ao alto e a riscar o céu. A antecipação do que está para ser e por ser e a que damos início não é nossa por assim dizer. Desde sempre já lidamos com essa antecipação. A antecipação que está envolvida com desejo, ânsia, intenção, esperança, futuro é excêntrica. É ela que nos visa a nós. Nós somos concebidos no anterior desta concepção prévia e meramente formal de que há um futuro e que temos de ser esse futuro, num ter de fazer, ter de agir, ter de ser. A antecipação usa-nos para se expressar através de nós no mundo, na vida, com outros, connosco. A cada instante exprimimos sempre na coreografia da existência a nossa relação intrínseca com a intenção constitutiva do nosso ponto de vista e estamos já a caminho, na direcção do que achamos é nós próprios, num modo de ser que nos é de feição, a chegar até nós. Também, é certo, sentimos que estamos puxados como pela corrente forte de um rio na direcção inversa àquela para que queríamos ir e que nos esforçamos por atingir. A antecipação preocupa não por este ou aquele conteúdo que exerce pressão sobre nós, as ralações do dia a dia, a preocupação com os outros de quem cuidados, nós que somos preocupação para os outros e que nos preocupamos com o ser uma preocupação para os outros.

A antecipação não é apenas para o dia de hoje ou para o curto ou médio prazo, nem é para o longo, longuíssimo prazo, do que está para haver sem sequer percebermos bem como, porque se encontra na linha do horizonte do tempo para lá do qual não haverá mais tempo. A antecipação que preocupa arromba essa linha do horizonte, esse espaço temporal abobado, catapulta-nos para um tempo a haver sem que percebamos bem como será a sua vivência, algo de para sempre.

Podemos esquecer-nos das nossas acções, não nos lembrarmos do que fizemos no dia de hoje, mas cada uma das nossas acções é inscrita, quando feita, no tempo passado em que coincidimos com a eternidade do passado e, por isso, é já indelevelmente conteúdo da vida, do mundo. Cada uma das nossas acções inscreve um conteúdo no presente que não será também nunca apagado da nossa vida. Requereu tempo para ser, para cair no mundo, para ser conteúdo da minha vida, intersectar vidas que connosco fazem a trama do tempo.

26 Abr 2019

Aquecimento global

Ameio desta semana a neve e o frio chegaram com persistência a Sapporo: as temperaturas desceram até perto dos 10 graus negativos e as ruas a tornaram-se brancas e silenciosas, com muito menos carros e os respectivos sons abafados e absorvidos pelo suave manto branco que cobre o asfalto das estradas e também o cimento dos passeios. Seria coisa normal se acontecesse bastante mais cedo: normalmente os primeiros nevões chegam em meados de Outubro e as temperaturas negativas instalam-se no início de Novembro, assim ficando por largos meses, até uma tardia Primavera cujos sinais não são visíveis antes do final de Abril.

Sapporo, com quase dois milhões de habitantes, é a maior cidade de Hokkaido, uma ilha no norte do Japão, com uma área semelhante à de Portugal e uma geografia muito particular: ainda que a latitude seja semelhante à da França (Sapporo está a 43 graus norte e Bordéus está a 44 graus norte), é a região mais a sul do planeta onde se fazem sentir os efeitos dos ventos e correntes marítimas do Ártico. O resultado é um longo e intenso Inverno, com a neve a ocupar a cidade de Sapporo por quase seis meses e a permanecer ainda mais tempo nas zonas de montanha. Aliás, a região é destino privilegiado de praticantes de ski e outros desportos invernais e Sapporo já acolheu Jogos Olímpicos de Inverno (em 1972), preparando-se agora para nova candidatura.

Com uma ocupação tardia pela população japonesa, que chegou a este território de clima hostil em finais do século XIX, Sapporo é uma cidade moderna, com vias e avenidas largas, onde não se encontram as ruas estreitas e os encantos da tradição arquitectónica do Japão antigo, e que se tornou uma das maiores metrópoles do país (é hoje a quinta maior cidade do Japão). Essa modernidade e as adversas condições climatéricas obrigam a uma impressionante infraestrutura urbana que inclui, por exemplo, longos passeios subterrâneos a ligar várias zonas do centro da cidade sem que seja necessário caminhar ao ar livre. Igualmente impressionante é o funcionamento do aeroporto internacional, que além das ligações directas às maiores cidades da Ásia, oferece 32(!) voos diários para Tóquio (a ligação com maior frequência no mundo), sem que os quase 6 meses de neve (e ocasionais ventanias) afectem significativamente as operações.

Em tempo de aceleradas transformações climatéricas no planeta – cuja emergência é uma vez mais reiterada na cimeira das Nações Unidas sobre o Clima que se realiza por estes dias na cidade polaca de Katowice – é nos polos que são mais evidentes os sinais da mudança. Exemplos bastantes conhecidos são os dos canais navegáveis nos mares da região do Ártico, cujos períodos de navegabilidade têm vindo a aumentar sistematicamente, em alguns casos passando de duas ou três semanas no pico do verão para quatro ou cinco meses.

Ainda assim – apesar dos apelos e declarações que assinalam a agenda mediática em ocasiões como a realização das cimeiras do clima (António Guterres declarou mesmo que este é o maior problema da humanidade actualmente) – nem sempre parecem sensatas as reacções ao fenómeno: na realidade, o alargamento do período de navegabilidade de partes significativas do Ártico está a ser usado para aumentar o tráfego marítimo e intensificar a exploração de recursos (como o gás natural e o petróleo), sempre com licenças (e eventual apoio) governamental e frequentemente com suporte científico, envolvendo Universidades e centros de investigação que, mais do que procurar estratégias de mitigação de impactos negativos, se dedicam à exploração de novas oportunidades comerciais e de financiamento. O capitalismo, já se sabe, é um sistema particularmente hábil na transformação de crises em oportunidades.

As declarações e documentos que se vão apresentando na cimeira do clima mostram que pouco caminho se fez para contrariar a tendência do aquecimento global: as medidas vão-se revelando insuficientes e, na realidade, está longe de se ter concretizado o que se acordou em Paris em 2015. Pior do que isso, parte dos países que subscreveram o acordo expressaram a intenção de o abandonar, na sequência das mudanças nas respectivas lideranças políticas (Estados Unidos e Brasil, pelo menos), e alegando que a maior urgência é preservar empregos. Já o aquecimento do planeta, vai fazendo o seu caminho, implacável. Não sei se o atípico Inverno que estou a viver em Hokkaido é fruto dessa alteração lenta e estrutural do clima na Terra ou apenas o fruto de circunstâncias ocasionais. Em todo o caso, tamanha transformação não deixa de ser impressionante e intimidativa, mesmo que torne muito menos desconfortáveis os longos meses de neve e frio nestas paragens.

7 Dez 2018

Make Portugal Great Again

Portugueses e portuguesas, trabalhadores e desempregados, ricos e pobres, irmãos e irmãs.

Passamos por um período histórico particularmente difícil. Leio o desespero na vossa cara, aqui e agora, mas também nas caras de tantos homens e mulheres que vejo todos os dias, a caminho dos seus empregos, vagueando na ilusão de terem um rumo para a vida. Como vocês, também eu fingi anos a fio perceber o mundo e o meu lugar nele. Como vocês, também eu pus uma máscara com a qual me apresentava, feliz e optimista, aos meus colegas de trabalho, à minha família, aos meus amigos. Mas, como vocês, também eu carregava no coração um peso ao qual não sabia dar nome ou cara. Um peso que me consumia todos os dias. Um peso que me fazia desejar o dia em que a morte, finalmente, me libertasse desta obrigação incompreensível de estar vivo. E, no entanto, como vocês, sorria.

Procurava atenuar este peso assistindo a programas de televisão. Vendo a bola com amigos. Bebendo e falando com amigos. As nossas conversas, como as vossas, iam sempre dar ao mesmo ponto, por muitas voltas que déssemos. Sentíamo-nos abandonados. Pelos políticos nos quais nos habituámos a votar vezes em conta. Pelos empresários que sempre disseram que a riqueza deles seria a nossa. Pelas pessoas a quem entregámos a nossa fidelidade e amizade à espera de que nos fossem recíprocas. Por aqueles que tinham poder sobre nós. E toda a gente parecia ter poder sobre nós.

Anos a fio assistimos a este desastre em câmara lenta: desemprego ou trabalho precário para quase todos, riqueza apenas para alguns; uma justiça para a classe média, outra para os ricos e impunidade para os marginais; suborno, corrupção, compadrio e gatunagem por parte daqueles que foram eleitos para cumprir a vontade do povo. Na verdade, só cumprem a pequeníssima e mesquinha vontade deles: da esquerda à direita, não passam de corruptos que compram votos e poder distribuindo o nosso dinheiro. Para eles, somos apenas os agrilhoados dóceis cuja manipulação se tornou tão fácil que já nem precisam de nos agradar aqui e ali. Habituaram-se à nossa passividade e à nossa complacência. Contam com elas. Alimentam-se delas.

Um dia, porém, depois de ter chegado ao fundo do poço da minha desgraça, estando vivo apenas de nome, sem nunca realmente o estar, vi claramente que o problema não era eu. Que, a despeito de tudo quanto nos repetem todos os dias como um mantra, não somos a areia na engrenagem do progresso desejado. Não somos nós os culpados pela baixa produtividade, pela criminalidade alarmante, pela corrupção nas empresas e no estado, pela imigração que nos tira o trabalho e nos desvirtua a paisagem social, pela fraqueza que acomete os braços e pernas deste povo que outrora conquistou um país aos árabes e deu mais de meio mundo ao mundo. Não somos nós. São eles. São eles que estatizaram a sociedade, que destruíram a família e o seu sentido, que impõem agendas marginais que apenas servem para fazer implodir a coesão social e disfarçar a cobardia que têm de tomar decisões verdadeiramente importantes. São eles que reescrevem a história para que nos envergonhemos dela ao invés de nos orgulharmos dela, são eles que manipulam a comunicação social e que impedem que a verdade veja a luz do dia nas páginas dos jornais, são eles que entregam o país e os portugueses que nele habitam à Europa, aos chineses das multinacionais e dos fundos de investimento, aos terroristas islâmicos que se aproveitam das nossas fronteiras abertas e nos colonizam às claras. São eles, são a cruz no boletim de voto, a cara no cartaz numa rotunda, as frases batidas que lhes ouvimos desde sempre como se fossem transmitidas hereditariamente. São os nossos políticos.

No Partido pela Verdade Democrática, não vos pedimos sequer para que votem em nós nas próximas eleições. Rogamo-vos, isso sim, que não votem naqueles que nos andam a enganar desde sempre. Votem em alguém que tenha como prioridade Portugal e o Povo Português. Votem em alguém que fale com vocês, que trabalham e contribuem, e não com os párias da sociedade que tantos nomes têm e nenhum benefício social trazem. Qualquer que ele seja e a despeito das mentiras e do medo que vos tentem influir. Votem na esperança. Precisamos de refazer esta sociedade e este destino. Precisamos cumprir Portugal.

19 Nov 2018

A questão da sustentabilidade (III)

“Sustainability, ensuring the future of life on Earth, is an infinite game, the endless expression of generosity on behalf of all.”
“Drawdown: The Most Comprehensive Plan Ever Proposed to Reverse Global Warming” – Paul Hawken and Tom Steyer

Quando a fabricante de mobiliário Herman Miller, reconhecida pela sua inovação em móveis de interiores, soluções para ambientes de assistência médica, tecnologias e serviços relacionados, com sede em Michigan nos Estados Unidos e fábricas na China, Itália e Reino Unido, bem como escritórios de vendas, revendedores licenciados e clientes em mais de cem países, examinou a composição da sua cadeira de escritório líder do mercado, encontrou mais de duzentos componentes.

A “McDonough Braungart Design Chemistry (MBDC)”, foi fundada em 1995 pelo arquitecto William McDonough e pelo químico Dr. Michael Braungart, que defende  abordagens infalivelmente engenhosas do “berço ao berço”, trabalhando com empresas para projectar intencionalmente produtos que eliminem o conceito de resíduos, usam energia alternativa, valorizam a água limpa e celebram diversidade há mais de vinte anos, sendo grandes defensores da sustentabilidade, e que inspeccionaram a mesma cadeira, descobrindo que os duzentos componentes continham mais de oitocentos compostos químicos.

Ainda que o uso de diversos materiais seja uma prática padrão da indústria, as matérias-primas a essa escala confunde a sustentabilidade. A Herman Miller aproveitou esse conhecimento para o projecto subsequente da sua premiada cadeira “Mirra”, cuja composição de materiais é dramaticamente simplificada, sendo 96 por cento reciclável, mostrando como qualquer empresa deve começar a repensar as suas escolhas de materiais e sabemos que várias empresas usam conjuntos de materiais para eliminar componentes ambientalmente suspeitos das suas cadeias de fornecimentos.

Tais agregados vão desde uma simples lista de produtos químicos proibidos enviados aos fornecedores de uma empresa até protocolos sofisticados que exigem análises laboratoriais das matérias-primas de um produto. O processo de triagem exige que as empresas consigam informações detalhadas dos seus fornecedores sobre os componentes químicos dos seus produtos e avaliem o seu impacto na saúde humana e ambiente. Os materiais suspeitos são assinalados para eliminação.

Os conjuntos de materiais podem ser bastante restritivos, como o faz a gigante química suíça Ciba-Geigy que compreendeu na década de 1990, quando os mil e seiscentos corantes químicos da Ciba passaram por uma inspecção da MBDC e apenas dezasseis foram aprovados no teste. Os testes de materiais tóxicos eliminam os materiais perigosos, ao invés de seleccionar os melhores. Tentar eliminar de forma crescente os resíduos e as toxinas, seja por meio de ecoeficiência ou triagem, é um caminho muito lento.

Os líderes empresariais podem encontrar a solução substituindo a análise pela acção. As empresas podem avançar directamente para uma acção parcimoniosa, indo além dos critérios tradicionais de fornecimento, como o desempenho e a estética. A segunda regra da biosfera fornece dois critérios adicionais, um físico e outro económico. Os materiais devem ser fisicamente capazes de ser reciclados e nem todos os materiais o são. O Nylon 6 na carpete da Shaw, por exemplo, pode ser reciclado, mas o seu parente mais próximo, Nylon 6,6 não pode e ambos são usados na indústria de carpetes, mas apenas o primeiro é transformado em fibra de carpete de alto valor agregado.

O Nylon 6,6, se for reciclado, é fundido para uso em produtos de valor muito mais baixo, como caixas de plástico e madeira, apenas constituindo uma parte do seu trajecto para a deposição. A reciclagem de materiais deve ser rentável. É mais barato comprar novas matérias-primas no mercado ou usar materiais reprocessados? Se os materiais recuperados forem mais baratos ter-se-á encontrado um vencedor virtuoso e por exemplo, até 75 por cento do aço e mais de 50 por cento do alumínio são reciclados, principalmente, porque é necessária apenas uma fracção da energia para produzir metal virgem.

A terceira regra é repensar o projecto. Quando os engenheiros enfrentam um novo desafio de projecto, geralmente questionam qual será o melhor material para a aplicação que idealizam, mas com uma combinação de materiais limitada, a pergunta é sobre qual o projecto que atenderá às especificações dos produtos que possuem, e será usando os materiais existentes ou como se pode projectar um novo produto fidedigno feito a partir de materiais exíguos?

Integrar esse tipo de pensamento ao projecto de um produto significa começar pelo fim. É de considerar que para tornar o trabalho de reciclagem virtuoso, os líderes empresariais devem planear desde o início do projecto até ao final da vida útil do produto. As bactérias, na natureza, reciclam a carcaça de um coelho porque tem muita energia e valor nutritivo. Os líderes empresariais ambientalmente conscientes, em contraste, tentam minimizar os materiais nos seus produtos em nome da ecoeficiência, fazendo sentido se os produtos forem reciclados ou depositados, quando os clientes pretendem substituí-los no final do seu ciclo de vida útil, mas pode ser pérfido se estiverem a tentar recuperar os materiais economicamente.

Um enorme problema de desperdício no mundo ocidental é a carpete usada. As carpetes usadas geralmente são depositadas em depósitos de resíduos ou queimadas em incineradores. A Polyamid 2000 AG desenvolveu um processo para reciclar carpetes de poliamida (PA). A central da Polyamid 2000 AG utilizou, pela primeira vez na produção industrial, a tecnologia da inovadora de decomposição para reciclar carpetes, ou seja produzir PA, a partir da contida na fibra da carpete, pela extracção de monómero. As unidades de produção têm todos os componentes de produção necessários para separar a PA da matéria-prima da carpete usada, e não tratada para processar a PA, em um material sintético comercializável.

Assim, a história da Polyamid 2000 AG é importante, pois tinha quase cinco mil milhões de quilos de resíduos de carpetes usadas a serem depositados em aterros anualmente, e menos de 5 por cento para serem recicladas na década de 1990, sendo os fabricantes de carpetes criticados pelas Organizações não Governamentais e autoridades governamentais. A indústria, em resposta às críticas, voltou-se para a monstruosa instalação da Polyamid 2000 AG, instalada em uma fábrica da era comunista na antiga Alemanha Oriental na cidade de Premnitz, que foi projectada para reciclar a fibra de nylon das carpetes usadas.

A fibra facial era atraente porque constituía a parte mais valiosa de uma carpete e podia ser alterada quimicamente e transformada em material renovado, tão bom como o novo, e como o processo consumia menos energia do que fabricar nylon a partir de reservas de matérias-primas, também era de esperar que fosse rentável. As instalações da Polyamid 2000 AG eram uma maravilha industrial, contando com uma de linha de fabricação altamente eficiente.

As carpetes usadas eram limpas, analisadas e levadas em transportadores aéreos para equipamentos químicos que alteravam a fibra em matérias-primas. Esperava-se que a instalação extraísse cerca de dez milhões de quilos do novo Nylon 6 de mais de cento e cinquenta milhões de quilos de carpetes usadas anualmente, mas inesperadamente encerrou a laboração passado três anos. O espanto foi geral e todos se interrogaram de como tinha sido possível que uma solução verde demasiado promissora falhasse de forma espectacular?

Os especialistas em PA, atribuíram ao facto do conteúdo de nylon nas carpetes usadas europeias ser menor que o esperado e diminuir anualmente. As carpetes americanas eram fabricadas com 45 por cento de fibra de nylon, e os fabricantes de carpetes europeus reduziram o conteúdo de nylon para 25 por cento. Tal economizou matérias-primas, mas tornou economicamente inviável recolher e reciclar carpetes usadas. A estratégia ambiental bem-intencionada levou à interrupção de actividade da Polyamid 2000 AG.

Os fabricantes podem evitar o mesmo destino usando ciclos e devem projectar o valor de recuperação desde o início do processo. A quarta regra magna é pensar em economias de escala. É de entender que uma paleta parcimoniosa e um processo virtuoso de reciclagem podem estabelecer plataformas sustentáveis para séries integrais de produtos. A empresa americana Patagonia, tem por lema construir o melhor produto, não causando danos desnecessários e usando os negócios para inspirar e implementar soluções para a crise ambiental e que se dedica fundamentalmente, à venda por retalho de equipamentos para actividades ao ar livre.

A Patagonia tem uma longa história de inovação para reduzir o impacto ambiental, desde o uso de garrafas de refrigerantes recicladas em casacos desde 1993 até à mudança para 100 por cento de algodão orgânico em 1996. O programa “Common Threads Garment Recycling (CTGR)”, lançado no Outono de 2005, marca o pilar mais recente da história de inovação ambiental da empresa. Através desse programa de reciclagem a Patagonia tem vido a coleccionar peças de vestuário desgastadas e usadas dos clientes, a fim de as reciclar em novo poliéster, o polímero quimicamente conhecido como “tereftalato de polietileno (PET na sigla em língua inglesa)” que é usado para fabricar novos fios de filamentos.

O programa CTGR que usa o sistema de reciclagem de fibra-para-fibra denominado de “EcoCircle”, em parceria com a Teijin, uma fabricante japonesa de tecidos. A Teijin recicla virtuosamente a roupa interior da marca “Capilene”, da Patagonia, em fibras de poliéster de segunda geração, que esta reutiliza nas roupas da época seguinte. A Patagonia estendeu a plataforma além da roupa interior, incluindo roupas de lã. À medida que outras empresas a acompanham, incentivando materiais padrão e sistemas de produção cíclicos para produtos novos e existentes, fomentam as economias de escopo e escala que geram lucratividade operacional duradoura e seguem as regras da biosfera para aumentar a economia de custos.

É necessário, em primeiro lugar, simplificar um conjunto de materiais por questões de sustentabilidade que reduz a complexidade da cadeia de fornecimentos, reduz o número de fornecedores, gera descontos por volume e melhora o serviço destes à medida que mais negócios lhes são enviados. A Interface Fabric, por exemplo, economiza trezentos mil dólares por ano, apenas com a simplificação do conjunto de matérias-primas. Em segundo lugar, as empresas podem descobrir que as economias de custos surgem da virtuosa reciclagem de materiais. Por exemplo, os custos de energia da Patagonia para reciclar os materiais das suas roupas interiores são de 76 por cento menos.

Para tornar o trabalho de reciclagem virtuoso, os líderes empresariais devem planear desde o início do projecto até ao final da vida útil do produto. As bactérias, na natureza, reciclam a carcaça de um coelho porque tem muita energia e valor nutritivo. Os líderes empresariais ambientalmente conscientes, em contraste, tentam minimizar os materiais nos seus produtos.

A Shaw Industries descobriu que a virtuosa reciclagem do Nylon 6 requer 20 por cento menos energia e 50 por cento menos água do que a produção normal exige, e como expande o seu processo de produção verticalmente integrado para novos produtos, pode alargar os investimentos e vantagens de processamento sobre o aumento da produção. A empresa tinha anunciado, em 2006, a ampliação da sua plataforma de carpetes, o que representa 70 por cento de todo o mercado de carpetes. A alavancagem de uma plataforma de produtos sustentáveis pode criar vantagens competitivas de longo prazo e as economias não são automáticas uniformes nas empresas, pois exigem mudanças disruptivas e investimentos baseados na visão de um futuro mais verde.

A rentabilidade final depende de quão efectivamente as empresas executam as regras da biosfera que é uma fonte provável de diferenciação competitiva no futuro. Em terceiro lugar há que repensar a relação comprador-fornecedor. As empresas terão que gerir o período de transição, pois um produto vai de 100 por cento de materiais virgens a quase 100 por cento de materiais virtualmente reciclados, o que exigirá encontrar formas de recuperar com lucro os produtos instalados nas residências, garagens e prédios de escritórios dos clientes e colocá-los de volta ao processo de produção. Seguir as regras da biosfera irá mudar radicalmente o tradicional relacionamento comprador-fornecedor, pois os clientes passarão a desempenhar um papel duplo como compradores dos produtos e fornecedores da empresa, dos seus bens intermediários, adicionando um novo conceito ao aforismo de ficar próximo dos seus clientes.

Tal exigirá que os líderes empresariais repensem o fornecimento, marketing, vendas e o serviço, como por exemplo, o de prever os suprimentos futuros de bens intermediários quando a taxa de retorno está atrelada à próxima decisão de compra dos clientes e que depende em parte do ciclo de vida do produto. A Patagonia pode esperar que as matérias-primas recicladas retornem à empresa em cerca de dezoito meses. A Shaw, no entanto, tem que esperar de três a sete anos para que o ciclo de vida da carpete siga o seu curso.

As empresas precisarão de antecipar as taxas de retorno e podem mesmo gerir os ciclos de vida dos produtos, talvez fornecendo incentivos para que os clientes actualizem prematuramente para o modelo mais novo. Tal como na biosfera, a obsolescência planeada de forma virtuosa tornar-se-á um requisito de sustentabilidade. Os líderes empresariais também enfrentarão a complexa questão da logística oposta, levando o produto usado de volta à fábrica para reprocessamento. Algumas empresas estão a apresentar soluções inteligentes. No mundo da Patagonia, por exemplo, latas usadas transformam-se em caixas de correio e a empresa pede aos clientes que devolvam as suas roupas interiores usadas ou as deixem em lojas de vendas a retalho.

Esta não é uma opção para as carpetes Shaw e torna-se importante alinhar a colecta do produto usado com a entrega de novos, para ter a certeza de que os camiões estão repletos, saindo e voltando para a fábrica. Os líderes empresariais podem ver o esforço necessário para gerir a obsolescência planeada e a logística reversa como um desincentivo à adopção das regras da biosfera, o que seria pura miopia. As empresas gastam grandes quantias de dinheiro em propaganda e marketing para persuadir os clientes a contratarem, pelo que existe um valor em cada cliente que telefone para a empresa a dizer que gostaria que recolhesse o seu produto usado.

O astuto vendedor veria como uma liderança de vendas muito forte. Se, por meio da obsolescência planeada, uma empresa pudesse converter uma percentagem dos seus clientes em compradores fiéis, poderia obter ganhos financeiros importantes. E, apesar dos seus críticos, a obsolescência planeada também pode produzir ganhos ambientais. Os ciclos de produtos mais rápidos trarão produtos da próxima geração que geralmente apresentam um desempenho melhor e são ambientalmente superiores aos seus predecessores.

É de considerar por exemplo, que um refrigerador é 75 por cento mais eficiente em energia do que há duas décadas, custando 50 por cento menos. A aplicação das regras da biosfera pode reencarnar rapidamente os materiais em produtos mais eficientes, aumentando ainda mais os ganhos de sustentabilidade. A sustentabilidade é o melhor segredo da natureza. Ao reutilizar os mesmos materiais em um ciclo sempre crescente de desenvolvimento evolutivo, a biosfera sustentou o planeta Terra por milhares de milhões de anos e com sorte, se forem seguidas as regras da biosfera pode ajudar a sustentar negócios de muitos milhares de milhões de dólares.

3 Nov 2018

Inshalla

Os gregos achavam que o passado estava à nossa frente, porque dele nos podíamos lembrar como vida passada. Achavam, pelo contrário, que o futuro estava nas nossas costas. Era como se andássemos de costas para o futuro. O caudal do passado aumenta a cada dia. O Afluxo do tempo futuro é cada vez menor, ténue, até ao estrangulamento e asfixia do sentido. A memória refere-se a uma percepção passada. Platão fez da reconstituição da vida uma anamnese: uma lembrança da representação do que temos sem o vermos. Todos os protagonistas das nossas vidas: mãe, pai, irmão, amigos, amada, a banda sonora das nossas vidas, a nossa cinemateca, os sítios onde vamos e fomos, ginásios, cervejarias, igrejas e hospitais, a casa dos avós, tudo é como se tivesse sido projectado outrora num tempo pré-natal. O passado tem peso. Tem tanto peso que mal nascemos somos já velhos o suficiente para morrermos ou como dizia Santo Agostinho: “começas a morrer quando sais do ventre da tua mãe”. O presente é a actualidade complexa que desactualiza o passado, tempos idos: é o que é, é por onde vamos indo. Estafa. Não temos já o que fomos, nem quem tivemos, meus queridos. Agora, temos de nos reinventar. É sempre difícil. Mas chegam auroras. Chegam.

E o futuro? Como temos uma antevisão, uma previsão do futuro?

Os antigos achavam que a esperança era uma velha vestida de princesa ou então um sonho cheio de promessas. Na verdade, não trazia nada a não ser a morte sem a possibilidade do presente. Quem vive cheio de esperança, mesmo da vida eterna, esquece-se de viver. A vida está cheia de gente que veio à existência, a atravessou, dela saiu e, hoje, está morta para sempre. Mas também não é o desespero nem a desesperança. O horror nasce das paredes da nossa casa vazia de gente. O horror não tem rosto. Não é a gadanha nem a dor. O horror escorre da humidade fria das paredes das nossas casas.

O futuro é outra coisa. Está presente logo na primeira vez de todas as primeiras vezes. Para haver contagem tem de haver as segundas e as terceiras vezes, mas também a última vez. Nós acordamos para a vida com a hora da nossa morte. Tudo o que é o mais antigo nas nossas vidas não passou. Pode ser esquecido mas não passou. Está à nossa espera na hora da nossa morte. O tempo não é do presente para o futuro. Vem sempre do futuro para o presente e depois para o passado e para o esquecimento. Toda a duração tem esta qualidade. É do limite temporal do fim que pensamos o presente sem o pensarmos. O jogo a partir do seu fim onde decorre. A aula, a viagem, o encontro. O encontro total da vida é pensado a partir do seu fim. Tem de ser no limite irreversível do fim que pensamos o presente.

Mesmo que vivêssemos eternamente seria sempre a perder.

Sem a possibilidade radical da perda não poderíamos viver a pensar no céu azul nem na linha do horizonte.

26 Out 2018

Paul Chan Wai Chi explica saída da Associação Novo Macau: “Em 2017 já pensava sair”

Depois de meio século dedicados à Associação Novo Macau, chegou a altura de Paul Chan Wai Chi abraçar outros desafios. Para já, o ex-deputado vai dar primazia à fé que professa, o catolicismo. Em entrevista de balanço de actividade política, Paul Chan Wai Chi analisa a história do movimento pró-democrata em Macau, recorda os momentos mais complicados e analisa o significado da eleição de Sulu Sou

Deixa a Novo Macau depois de 25 anos ligado à associação. Que balanço faz?
Entrei na Novo Macau na altura em que Ng Kuok Cheong se candidatava às eleições (legislativas) e eu auxiliava a sua candidatura. Depois de Ng Kuok Choeng ser eleito, a Novo Macau empenhou-se em apoiar os seus trabalhos. Com o desenvolvimento social, a Novo Macau tornou-se progressivamente numa associação. Na altura em que me tornei presidente, a natureza política foi intensificada na sequência da necessidade social e do desenvolvimento da associação. Em 2009, ano em que fui eleito como deputado, salientei a importância de conseguir captar jovens para a Novo Macau para suceder nos trabalhos e desenvolver a associação. Por isso, em 2013 avançámos com uma lista (às eleições legislativas) constituída pelos membros jovens, mas falhou, o que foi lamentável. Depois das eleições houve mudanças nos corpos dirigentes da associação. Foi um período difícil. Até ao ano das eleições de 2017, que era decisivo para a Novo Macau, já pensava em sair da associação para fazer outro trabalho, tendo em conta que sou católico e que deveria ter feito melhor alguns serviços para a igreja. Entretanto, como Ng Kuok Cheong decidiu constituir uma outra lista independente da Novo Macau, senti a necessidade de avançar e acabei por ser o segundo candidato da lista (da Novo Macau) para apoiar Sulu Sulu e a Novo Macau para poder desenvolver-se. Nos passados 25 anos, consegui ajudar associação no seu crescimento e desenvolvimento. A minha missão está completa e agora é oportuno iniciar o meu trabalho na outra área. Como já acabaram as eleições, agora é a altura para me dedicar totalmente a Deus, por isso, decidi investir mais tempo na igreja.

Vai ter saudades da Novo Macau? Quais são as memórias mais fortes vai ter da associação?
Considero que nós, enquanto pessoas que tentam impulsionar o avanço social, andamos todos no mesmo caminho. Mas há pessoas que andam a um ritmo diferente das outras. No entanto, basta termos o mesmo objectivo, somos iguais, mantemos comunicação e ajudamos os outros. Quanto à memória mais forte, tinha no passado um ideal que não chegou a ser realizado. Era transformar a Associação Novo Macau num grupo político. Em Macau não há partido político. Mas defendo que a política em Macau deve avançar, passo a passo, nessa direcção e não deve ser baseada na cultura das associações. Quando era presidente (da Novo Macau) e deputado na AL queria atingir esse objectivo. Mas, se calhar por causa do ritmo do desenvolvimento de Macau, não aconteceu o que esperava. Em Hong Kong há, por exemplo, o partido cívico e o partido democrático. Em Macau não há. Isso é uma questão de tempo. Acredito que com o desenvolvimento de Macau e a consciência da população a amadurecer progressivamente, vai haver cada vez mais pessoas atentas à política e com vontade de participar nas actividades políticas. Esse são os elementos para surgir uma associação com natureza política.

Pode-nos contar um bocadinho da história do movimento pro-democrata em Macau?
Com base no meu conhecimento, o início está ligado à Associação de Amizade liderada por Alexandre Ho. Depois da revolução dos cravos em 1974 em Portugal, Macau passou a ter eleições nas assembleias, sendo assim os chineses, especialmente os que não estavam nas associações, tinham mais canais para participar na política. Alexandre Ho foi pioneiro na promoção da participação popular na política e fez a milagre de conseguir eleger três pessoas na AL. Em seguida, na sequência da mudança do sistema político de Portugal, a AL desenvolveu-se no sentido democrático e foi aumentado o número de deputados directos. Em 1991 ou em 1992, não tenho a certeza, houve eleições suplementares para dois lugares de deputados directos. Primeiro foi Alexandre Ho que agregou alguns candidatos. Os jovens antes de 4 de Junho de 1989 começaram a tomar atenção ao futuro da China e às mudanças em Macau. Na altura, os jovens realizavam actividades alusivas ao 4 de Maio para discutir os assuntos. Até 4 de Junho, houve algumas mudanças no panorama político, e os mais jovens eram da opinião de que se precisava de continuar a valorizar o desenvolvimento da democracia. A participação na política era o meio, por excelência, para actuar na sociedade. Por isso, Ng Kuok Cheong decidiu candidatar-se às eleições suplementares mas não teve sucesso. Até às eleições legislativas em 1992, Ng Kuok Cheong criou a Novo Macau com outras pessoas e conseguiu um lugar na AL. Depois, Au Kam San entrou na Câmara Municipal do Leal Senado. Com o esforço e dedicação dos mais novos a Novo Macau cresceu.

FOTO: Sofia Mota

A associação cresce como um esforço colectivo…
Posso dizer que com várias pessoas a participar houve mudança saudável na sociedade. Au Kam San entrou na AL em 2001. Nesta altura, a Novo Macau tornou-se uma das associações fomentadores da democracia, enquanto que no panorama associativo também houve reajustamentos ao progresso social. As outras associações também se transformaram, algumas passaram a ter mais membros jovens e fizeram muitos trabalhos para as classes sociais mais carecidas. O desenvolvimento da democracia em Macau para mim está a ser cada mais florescente. As eleições legislativas são eventos políticos que produzem vários novos talentos. Tenho uma posição optimista em relação ao futuro da democracia. No entanto, com a mudança social, tanto as oportunidades como os desafios são igualmente enormes para as pessoas, sobretudo se conseguirem enfrentar a onda e atingir o topo da onda. Isso é um grande desafio. No passado tivemos três deputados da Novo Macau na AL, um resultado brilhante. No entanto, tínhamos de avançar e arranjar alguém para suceder nos trabalhos, por isso fomentei a realização de actividades para formar talentos nos assuntos políticos e sociais. Sulu Sou disse que conheceu a Novo Macau através dessas actividades. Acho que esse tipo de acções podem atrair os jovens, dando-lhes oportunidades. Se se acreditar nos jovens e no sistema da associação, vai ser produzido um efeito de desenvolvimento mútuo. Isso é um desafio que as associações vão enfrentar no que diz respeito ao seu crescimento. Entre os anos 2013 e 2017, a Novo Macau enfrentava estes desafios mas sinto que agora já ultrapassámos essas dificuldades. Quanto ao futuro desenvolvimento da democracia em Macau, tendo em conta que não há eleições para os membros aos órgãos municipais, espero que o Governo tome uma atitude aberta para que os conselhos consultivos e os órgãos municipais tenham alto grau de representatividade. Tal é relevante para o desenvolvimento de Macau. Se as associações conseguem insistir no seu lema e os políticos tiverem como orientação máxima as suas intenções iniciais, o futuro será optimista.

Quando saíram da associação históricos como Au Kam San e Ng Kuok Cheong, você ficou. Como foi este momento de ruptura para a associação?
Au Kam San saiu primeiro da Novo Macau. Nas eleições legislativas em 2017, Ng Kuok Cheong ainda era membro da associação. Apesar de lhe perguntar se ia ficar e empenhar-se com os mais jovens da associação, acabou por se candidatar na outra lista. Isso é lamentável e de certeza que teve um impacto na Novo Macau. Quer seja no caso da saída de Au Kam San ou no caso da decisão de Ng Kuok Cheong de não se candidatar com a Novo Macau, tivemos de fazer o nosso melhor para evitar uma influência negativa. As pessoas têm os seus objectivos. O que podemos fazer é respeitar as suas decisões. O período mais difícil da associação já passou. A eleição de Sulu Sou como deputado em 2017 é a prova de que a cooperação entre os membros da Novo Macau vai conseguir obter apoios dos cidadãos. Apesar de Sulu Sou ficar com função de deputado suspensa por estar envolvido em outro caso, acredito que Macau é uma sociedade regulamentada por leis. Finalmente, o caso está resolvido, Sulu Sou regressou à AL, marcando tal o início de uma nova fase.

Apesar da saída de Au Kam San e da decisão de Ng Kuok Cheong, continuou a ficar na Novo Macau. Porquê?
Desde que saí da AL em 2013, continuei na Novo Macau. Por um lado, precisava de reflectir sobre o sucesso e as falhas nas eleições, por outro lado, precisava de fazer os trabalhos da nova direcção. Desde a saída de Au Kam San até às eleições em 2017, nunca pensei em sair da Novo Macau. Na altura, a associação necessitava de uma pessoa com experiência para enfrentar as questões com que se deparava. Em 2017 decidi ficar para ultrapassar o último desafio, que é conseguir um lugar na AL em prol do desenvolvimento da Novo Macau. Isso também é importante para a sociedade de Macau, porque acredito que o território precisa de associações diferentes como a nossa. Mas isso depende da decisão dos cidadãos e dos eleitores. Os factos apontam para a evidência de que os cidadãos e os eleitores apoiam as ideias da Novo Macau. Estou satisfeito com isso. Fiquei para enfrentar os desafios da Novo Macau juntamente com os outros membros. Agora que foram ultrapassados chegou a altura de me empenhar nos meus próprios assuntos, nomeadamente, o religioso, sem causar influência à associação.

Qual é o papel de Sulu Sou? Considera que representa a salvação da Novo Macau?
É injusto, quer para Sulu Sou, quer para a Novo Macau, dizer que ele representa a salvação da associação. Nós, enquanto candidatos da lista Associação do Novo Progresso de Macau, assinámos um documento de compromisso com as ideias da Novo Macau e que vamos aceitar a fiscalização da associação. Qualquer indivíduo que aceite os requisitos pode ser candidato. Ao longo dos anos os trabalhos da Novo Macau não foram feitos só por duas ou três pessoas, mas sim por um grupo maior. Se Sulu Sou não entrasse na Novo Macau, ou se não se candidatasse pela lista da Novo Macau, seria eleito? Isso é incerto. Mas a Novo Macau, como uma associação experiente na participação em eleições durante vários anos, tem capacidade para conseguir um lugar merecido na AL. Poderia ser Sulu Sou, Paul Chan Wai Chi ou Scott Chiang. Qualquer pessoa tem a possibilidade de ser eleito como primeiro candidato na lista. Relativamente à disputa por lugares cimeiros na ordem dos candidatos da lista, a ideia era responsabilizar os jovens. Em Hong Kong já se tem feito isso há anos. Algumas associações em Macau tiveram uma atitude semelhante. Por exemplo, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau e a Federação das Associações dos Operários de Macau. As associações e os deputados estão naturalmente ligados. Não é adequado dizer que alguém salva outrem. As associações e os deputados progridem e declinam em conjunto.

Fala de Xi Jinping no artigo escreveu para o HM e refere que a China precisa de se renovar. Como é que o país o pode fazer?
Em primeiro lugar, o presidente Xi Jinping avançou com a ideia do sonho de rejuvenescimento do povo chinês. É de esperar que a China daqui a alguns anos consiga ser uma sociedade moderadamente próspera. Para mim, este sonho não só influencia profundamente o país, mas também pode produzir efeitos positivos no mundo inteiro. “A renovação e a abertura não podem voltar para atrás”, isso foi dito por Deng Xiaoping. Como é que se garante que se avança pelo caminho certo? Sobre esta questão acho que cada cidadão chinês pode contribuir com o seu esforço, devendo ter o mesmo sonho, que pertence à China e ao mundo. Assim poderemos participar em paz na comunidade internacional, minimizando os conflitos. No entanto, na sua prática, é óbvio que se vão enfrentar riscos e desafios. Por isso, acho necessário que sejam feitos esforços em conjunto para atingir o objectivo. Acredito que quando seguimos por um bom caminho, no final vamos chegar ao destino. Mas para isso temos de envidar esforços e não podemos esperar pela vinda de felicidade.

Quais são os maiores desafios de Xi Jinping?
Existem dificuldades em cada fase. A renovação e a abertura da China trouxeram prosperidade económica, assim como alguns problemas. Como é que se unem as ideias e se juntam as forças para ultrapassar as dificuldades, isso é importante. A China tem agora melhor capacidade de gestão do país, apesar de estar a enfrentar problemas quer seja no plano exterior quer seja no plano interno. A China deve melhorar no âmbito político, social e económico. Seguindo a esta directriz, neste sentido as dificuldades vão ser resolvidas. Se se empenhar pelo interesse próprio, vai no final sofrer da consequência.

Acha que as limitações à liberdade que se registam no continente estão cada vez mais presentes em Macau?
Lembro-me que CY Leung, quando era membro do Conselho Consultivo da Lei Básica de Hong Kong, disse em Macau que “o futuro é brilhante, o caminho é com curvas”. Isso foi bem dito. No caminho do progresso é óbvio que se vão encontrar obstáculos. Às vezes podem mesmo acontecer recuos. O mais importante é insistir e saber seguir o caminho certo. Em Macau muitas pessoas dizem que as leis estão desactualizadas e depois, na revisão das leis, (o Governo) quer reforçar-se na monitorização e melhorar a segurança na cidade devido ao número elevado de turistas. Para isso, foram instaladas câmaras de videovigilância nas ruas. É verdade que precisamos de legislação para que a sociedade seja regulamentada. Mas isso não quer dizer que seja adequado elaborar uma quantidade excessiva de leis.

Nos últimos vinte anos desde 1999 quais são os aspectos que se pode melhorar quanto ao desenvolvimento do sistema político para que no próximo mandato o Governo se possa operar mudança. Mas qual é o momento oportuno, acho que em primeiro lugar a sociedade deve ter conhecimento e fomentá-lo em conjunto. Uma posição construtiva é melhor do que só criticar os outros. Os chineses valorizam o paz. Macau tem uma característica em termos da fusão de culturas. Nós tratamos bem desta questão. Além disso, com o avanço da Grande Baía, precisamos de ideias inovadoras. Não se deve passar sempre a responsabilidade ao Governo. Não pergunte o que o país pode fazer por si, mas pergunte a si próprio o que fez pelo país.

Acha que o movimento independentista de Hong Kong influenciou as medidas que o Governo está a implementar em Macau?
A ideia da independência de Hong Kong está relacionada com o sentimento de pertença dos jovens. Quer seja em Macau ou em Hong Kong, não há nenhuma condição para a independência. Por isso, a independência de Hong Kong não é uma situação realista. Mas por que razão é que o tema foi tão falado. Isso tem a ver com vários factores. Em prol de Macau, ou de Hong Kong precisamos de fazer o melhor para eliminar estes factores. Na altura da transferência de soberania estava preocupado com a forma como se podiam manter as características de Macau sob o sistema de “Um País, Dois Sistemas”. Para Hong Kong, é igual. Caso consiga manter as características, os residentes em Macau não precisam de se preocupar com as situações que ocorreram em Hong Kong. O Estado deu, de facto, liberdade à gestão (da região). Mas é lamentável que o assunto sobre as eleições universais não tenha sido bem tratado entre Hong Kong e a China. Tal circunstância causou conflitos na sociedade. Para mim, deve-se pensar em como obter equilíbrio na relação entre grupos diferentes de residentes.

18 Jul 2018

Decisão I

A partir de determinada altura, deixamos de ter aniversários. Fazemos anos todos os dias. Ficámos, de algum modo, à espera. O que era para nós um projecto vital pode ficar hipotecado. Não tanto relativamente à promessa que temos com a vida, seja nós a fazê-la, seja a vida a fazê-la a nós. Mais relativamente ao meio que escolhemos para ser quem somos. Há muita gente que não terá tido essa possibilidade. Mas eu conheço muita gente que teve. Há alturas em que parece que ficamos desavindos com amigos. Sem sabermos bem por quê. Acontece. A resposta imediata de parte a parte resolve a situação. Não ficam ressentimentos. Voltamos a estar como se não houvessem mal entendidos. Os entusiasmos passados lentamente se tornam cruzes que temos de carregar. Todas as nossas decisões tomadas de ânimo leve ou difíceis abrem horizontes temporais que podem ser de longo prazo. Mesmo que achemos que foram acertadas no momento da escolha, a partir de determinada altura na vida, pensamos o que teria sido se não as tivéssemos tomado. Podemos pensar que não havia alternativa, mas o resultado que é esta vida, a única que temos, parece, se não, negativo, pelo menos difícil. O modo de vermos as coisas pode ter sido o do ultimato. A decisão podia ter parecido inevitável. Mas pensamos sempre se não poderíamos ter esperado mais um dia, se não poderíamos ter visto “melhor” as consequências das nossas acções: do sim e do não. De algum modo, parece que podemos ter cedido a tentações: a do prazer a que dissemos sim e à da fuga ao sofrimento a que dissemos não. Sabermos, ainda assim, se não foi uma decisão motivada por princípios “patológicos” como Kant lhes chamava: por um lado, a cedência à promessa do prazer, por que nos decidimos como se não houvesse amanhã. Por outro, a fuga à ameaça de sofrimento como se só houvesse um amanhã sem alternativa, difícil de suportar. Em ambos os casos vemos a promessa como o que vai ficar para sempre. Tudo será como é agora no presente. Todo o prazer será bom e cada vez mais frequente e intenso. Por outro lado, todo o sofrimento é visto no presente como a ameaça não anulável de um futuro onde só haverá condenação sem redenção. A racionalidade promete a possibilidade de um escrúpulo da não cedência à primeira dificuldade ou facilidade. Mas como podemos percorrer as nossas vidas na fantasia da imaginação para ver o que efectivamente vai acontecer se ficarmos ou se formos, se partirmos ou insistirmos, se mudarmos ou ficarmos na mesma? É a racionalidade que transcende o prazer e o sofrimento, a promessa e a ameaça, a abertura possível a uma escolha que vai contra todo o prazer e tolera todo o sofrimento, que anula o vigor de promessas e ameaças como futuros aparentes e falsos? E esta elucubração sobre a possibilidade da racionalidade aparece por quê? Pode ela modificar o passado ou antecipar boas resoluções para o futuro? Posso eu ficar sossegado ao ver em retrospectiva as decisões passadas como boas decisões e que tudo estaria pior se tivesse optado pela outra alternativa? E no futuro, poderei eu decidir fora do âmbito do prazer ou do sofrimento e perceber que as coisas já acabaram e eu não sabia ou ainda não acabaram e eu também não sei? Nenhum sossego vem, contudo. Tudo é inquietação, porque achamos que somos o resultado da única alternativa possível. As coisas que fazemos por prazer admitem a abstenção. As que não fazemos por sofrimento admitem a motivação. Em qualquer dos casos, há alturas em que achamos que todas as nossas decisões tomaram o curso errado. Mas a aparência de resolução desta possibilidade cai por terra, quando se multiplicam as decisões no âmbito de todas as frentes da vida.

Tudo é inquietação, porque achamos que somos o resultado da única alternativa possível. As coisas que fazemos por prazer admitem a abstenção. As que não fazemos por sofrimento admitem a motivação.

Só podemos ter uma vida e com ela há uma possibilidade infinita de vida que corre paralela a esta vida. Mas é só na nossa imaginação. Viver todas as vidas de todos os amores possíveis, viver em todos os países que vivemos, ter todos os trabalhos que gostaríamos ter tido, viver todas as aventuras possíveis. E, contudo, só há isto que podemos viver. Mesmo que nos multipliquemos não seremos artistas, sacerdotes, amantes ou lá o que pudemos ter sido e ser. Amamos muitas coisas na realidade e na imaginação, mas haverá um único verdadeiro amor? Porque achamos que é um único o verdadeiro amor e que é o amor a motivação intrínseca para sermos quem somos. Há amores infelizes e amores felizes, amores que dão prazer e outros que são duríssimos. Há assim as pessoas das nossas vidas e as relações que com elas temos e as actividade a que nos dedicamos e que nos definem. Mas que seremos sem essas pessoas todas? O que seremos sem as atividades que são as nossas vidas? O que seremos sem conteúdos? Posso ser sem biografia? Posso ser sem o conteúdo dos dias como se fosse uma tábua rasa de tudo sem nada? E poderíamos viver na indecisão? A não decisão tem consequências também. A angústia invalida até o horizonte em que as possibilidades de decisão ocorrem.

8 Jun 2018

Diagnósticos II

O presente, a eficácia da actualidade, a sua forma acesso positiva: a sensação ou a percepção e negativa: imperceptibilidade foram, por isso, desde sempre, privilegiadas. O passado e a forma específica do seu acesso: lembrança ou esquecimento, e o futuro na sua antecipação, previsão e predição ou imprevisibilidade, incapacidade de predição, ausência de antecipação são realidades e formas de acesso consideradas degenerativas por comparação com o presente e a percepção. O passado não é já realidade. O futuro não é ainda realidade. Lembrança e antecipação são formas de acesso que dão para horizontes sem realidade. A realidade é classicamente expressa pelo indicativo. O modo do passado e do futuro é diferente. Não estamos a falar gramaticalmente.

Um dos paradoxos do acesso, contudo, é que a lembrança que ressuscita o passado havido ou imaginado ocorre num dado presente. É “agora” que me lembro da situação A, B e C. É “agora” que eu estou lá a assistir e até mesmo a intervir nesse passado. É também “agora” que tenho acesso directo ao futuro, numa antecipação que nem o põe em causa. “Agora” que marco na agenda um encontro, uma consulta médica, uma ida a um sítio. Eu estou já lá “agora” nesse futuro X, Y ou Z e, contudo, não saio do regime não anulável do presente. Podemos perceber que é assim com fantasias, ficções, imaginações, com as mais diversas formas de acesso. Abrem-se mundos a partir de um acesso que se constitui num momento presente e que se estende numa duração. Enquanto se vive essa extensão temporal, somos catapultados para o passado, para o presente, para um outro tempo, um outro mundo, um outro horizonte erigido pelas nossas fantasias, imaginações, encenações e ficções.

Não são apenas mundos abertos, paisagens em tudo absolutamente semelhantes à do mundo real. Lembro-me de estar em Schauinsland e ver a paisagem da montanha alemã estender-se por encostas e vales “pintadas” de branco de neve, tudo a perder de vista. Lembro-me “agora” neste dia de Março, como se apagasse a realidade do quarto, o tampo da mesa, tudo na proximidade da redondeza onde estou inserido. Deixo de estar sentado e passo a estar de pé, abandono o presente e recuo no tempo décadas, mudo de roupa, de companhia. De facto, a complexidade dos conteúdos da percepção não é completamente apagada. Ouço os carros na ponte 25 de Abril, sinto o cheiro do pão torrado, a TV está ligada numa outra sala. Mas tenho presente as mãos na estrutura metálica gelada da torre de onde vejo estender-se a paisagem até ao fundo lá longe do horizonte.

É agora que antecipo deslizante a tarde do dia de hoje, os aniversários de amigos que se aproximam com as respectivas comemorações, o fim de Março e o início de Abril. O futuro é um plano de fundo volumoso, de onde se perfilam como vultos as realidades a haver das marcações efectivamente feitas nas agendas virtuais ou mentais da nossa existência. Equaciono já sem me deter nessa possibilidade nas futuras férias grandes, onde irei, se irei. Nesse lapso de tempo estou todo eu em Agosto, numa realidade temporal que galgou muitos meses. E regresso ao presente, sem regressar necessariamente aos conteúdos reais do presente.

O cursor do acesso abre mundos com paisagens mais ou menos extensas, mais ou menos fechadas, no interior ou no exterior, para sítios onde estive ou para sítios onde poderei estar. Pode invocar também sentimentos, estados de espírito que hão-de estruturar o modo como estarei, estive e estou. A fantasia encena possibilidades sem tempo específico. Podem ser compreendidas a acontecer já no presente e são o conteúdo específico do “agora” que me faz evadir do conteúdo específico do soalho do meu quarto, da luminosidade da manhã crua das 11h34 minutos do dia de hoje. Pode ser uma retrospectiva do passado vivido ou uma antecipação que “vê” em prospecto o futuro sem saber se terá lugar ou não.

Mas é a possibilidade que compreende o passado. Como tudo poderia ter sido e não foi. O que nunca poderia ter acontecido e foi mesmo o que aconteceu. O sentido do passado é possibilidade na sua versão positiva e negativa. É a possibilidade que constitui o nosso presente. O que fizemos acontecer o que fomos, o que nos tornamos, o que somos tudo está lá traz, não só no que fizemos acontecer mas no que esquecemos. O que ficou para traz não nos assola apenas no presente. Está à nossa espera na hora da nossa morte. É a estranheza do passado na vida humana o não ter passado. O passado é ter sido. O ter sido é também não ter sido. Quer tivéssemos sido que não, o que foi está a actuar sobre nós a partir futuro. Cada instante vivido é projectado em lançamento temporal para o fim do tempo.

O futuro é pura possibilidade em aberto, com probabilidades e improváveis. É de onde vem o tempo. Desde sempre o futuro se abriu e começou a contar em modo decrescente o tempo que já não temos para viver, as possibilidades que são obliteradas, a compreensão do maciço que se aproxima com o seu fim. O afluxo de tempo diminui com as suas possibilidades e o caudal do tempo passado aumenta com as suas possibilidades perdidas. O futuro é também a possibilidade do impossível, a possibilidade simples da impossibilidade.

O presente afinal está ensanduichado entre duas realidades que não são já e não são ainda mas enquanto realidades. O humano existe num horizonte em que o que o afecta são as possibilidades. Como gostaria de ser-se, o que gostaríamos que tivesse acontecido. O presente é apenas testemunha do impossível porque a sua estrutura é de todo em todo realidade. O que é não é compatível com o que pode ser. Estranhamento a realidade confronta-nos com o que é e o que é é isso mesmo: a possibilidade de conviver sem possibilidades, pelo menos durante algum tempo. E assim resistir.

5 Abr 2018

Análise / Xi Jinping | O grande passo atrás

A proposta de alteração da constituição chinesa, nomeadamente a remoção do limite de dois mandatos para presidente e vice-presidente, feita pelo Partido Comunista Chinês e ainda não aprovada, constitui um passo atrás na História, um golpe profundo nas aspirações “científicas” do regime e um abrir de uma caixa de Pandora de onde poderão sair malefícios dispostos a afectar o mundo.

Não foi por acaso que Deng Xiaoping introduziu esta norma, até aí e ainda hoje inexistente no dito “mundo socialista”. A China acordava do pesadelo da Revolução Cultural, na certeza de que seguir a vontade de um só homem podia conduzir o país ao descalabro. Sabiamente, Deng compreendera que a libertação das forças produtivas implicava também uma mudança significativa na estrutura do poder, de modo a que não se criassem as condições para uma repetição da História que, sabemos desde Marx, acontece primeiro como tragédia e depois como farsa.

Ora se a Revolução Cultural representa uma trágica repetição da História, nomeadamente da violenta ascensão da dinastia Qin e da destruição cultural subsequente, o regresso da China a um tenaz comando centralista e providencialista provavelmente desenrolar-se-á como farsa, sob a luz dos holofotes mediáticos, numa teatralidade já obsoleta, que não seduzirá gente esclarecida.

Isto porque confiar na existência de homens providenciais é tique de um mundo antigo, enraizado na superstição e no alívio da submissão, distante da pretensão de cientificidade que o PCC gosta de utilizar no seu discurso e na definição dos seus objectivos. Na verdade, trata-se de uma desgraça, velha como o mundo, áspera como balas e de consequências funestas. Existe aqui algo de religioso neste pensamento que, no século XXI, deveria estar totalmente afastado, erradicado, sanitizado, dos meandros do poder. Até porque o culto da personalidade, por muito que agrade às informes massas, deve ser mantido nos limiares das revistas de famosos, na medida em que roça o ridículo numa mente esclarecida, contemporânea e, sobretudo, escaldada pelo “carisma” de alguns personagens do século XX.

Trata-se, no limite, de algo exorcizado por Deng Xiaoping, cuja sabedoria proporcionou à China o lugar que hoje ocupa no plano internacional e impulsionou o crescimento interno que espanta o mundo. Infelizmente, agora prevê-se o regresso de um certo infantilismo de cariz popular, insuportável a olhos lúcidos e a ouvidos educados, na medida em que desvenda o aspecto teatral do relacionamento do poder com as massas populares. Xi Jinping, que se apressou a classificar de “nihilismo histórico” o pensamento filosófico finissecular europeu (pós-moderno), não deveria precisar de importar os valores escatológicos do Ocidente (judaico-cristãos) para justificar um Mandato do Céu.

A China implementava o discurso do “governo científico”, mais assente na máquina do Partido do que na benevolência e sapiência de um só homem. E com esta postura distinguia-se de outros países ditos comunistas ou pós-comunistas. Inaugurava, para gáudio de alguma esquerda, um novo sistema de transferência de poder em ambiente autoritário, que garantia alguma alternância, luta política, portanto, satisfação. Sem perder mão das rédeas, nem deixar de picar o cavalo na direcção pretendida e apresentando tremendos resultados económico-sociais. Tudo isto sem recorrer ao abstruso culto da personalidade ou mesmo evitando-o como Maomé evitava o toicinho, pois lembrava-se ainda na pele dos efeitos maléficos de tal sorte.

Resta equacionar, sobretudo pelos actuais líderes chineses, se esse extraordinário desenvolvimento económico-social não foi precisamente consequência do novo ordenamento político e motivado pela constitucional e inevitável sucessão: do mesmo modo que as forças produtivas se libertavam no mercado e na sociedade, também as forças políticas prosperavam no interior do PCC e o horizonte certo de mudança não só motivava a criatividade como pacificava a mecânica dos desejos. Ao impor a alternância, a constituição pacificava as facções excluídas dos lugares cimeiros, porque instituía a possibilidade de ascensão. Neste sentido, a alteração constitucional parece um passo pouco inteligente, pelo qual o PCC se extirpa dessa dinâmica que o manteve a flutuar à tona da sociedade chinesa, sem contestações de maior, durante os anos rebeldes da transformação.

Xi Jinping, seguindo um famoso texto de 1937 de Mao Zedong (“Sobre a contradição”, no qual o fundador da RPC recusa a síntese hegeliana e funda o materialismo histórico sínico), identificou a actual contradição do socialismo com características chinesas: o fosso aberto entre ricos e pobres, alimentado pela crescente corrupção. E, de forma brilhante, entendendo que aí residia a salvação do Partido face ao crescente descontentamento popular, iniciou uma gigantesca campanha anti-corrupção, ganhando num golpe a aprovação das massas e a capacidade de eliminar indesejáveis.

Por outro lado, implementou uma internacionalização estruturada da China, através da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota (que representa a primeira medida de carácter planetário até hoje concebida e implementada) e da modernização radical do Exército de Libertação Popular, que manteve sob o controlo estrito do Partido, agora capaz de defender as aspirações chinesas no Mar do Sul. Assim, a China surgiu no planeta como a única superpotência com capacidade e vontade para desenvolver uma cooperação mundial de benefício comum, preocupada com o meio ambiente (apesar de ser o segundo maior poluidor) e criadora de conceitos globais, como a “comunidade de futuro comum”, algo que os americanos não se preocuparam em fazer e do qual se distanciam, num exercício de arrogância que deixa descalço o ocidente perante a investida oriental, armada de dinheiro e de valores globais.

Mas, ao entrar no que o PCC define como “nova era”, com esta alteração constitucional, a China arrisca-se a dar um passo atrás, ainda que simbólico, ao deificar um governante. Deng previra este perigo e exorcizara-o constitucionalmente. Deste modo, a China arrisca-se a reproduzir, pelo menos para o mundo, uma nova dinastia semelhante à que governa a Coreia do Norte, hoje alvo da chacota de muitos chineses, que a classificam de “monarquia absoluta”. Tal não abonará a favor da sua imagem global como constituirá um rude golpe nos que viam nas alterações introduzidas no PCC um eventual modelo de para outros regimes de partido único. Pensamos, por exemplo, nalgumas ditaduras africanas e na influência benéfica que a comparação com a China poderia, eventualmente, produzir.

Contudo, tudo indica que o passo está dado e a constituição será alterada, abrindo caminho à eternização de Xi e dos seus aliados na cadeira do comando. O futuro dirá se não se trata de um tiro no pé, mais motivado pela uma arrogância infantil de quem sente um extremo poder antes sonegado, porque, sejamos francos, só uma mentalidade de criança aceita a existência de homens providenciais.

Ao negar a extensão do poder além de dois mandatos, a constituição chinesa sabiamente evitava o infantilismo político, cujas trágicas consequências estão bem documentadas pela História. Um grande político deve ter a consciência da necessidade de se retirar da cena pública, sob pena de se transformar (a si e, sobretudo, aos que gravitam à sua volta) naquilo que procurava combater. Já sem falar das maleitas sociais provocados pela inércia que decorre de tal situação, entre as quais a corrupção desempenhará papel preponderante. De facto, podemos imaginar que, à imagem do presidente, outros postos do PCC nas províncias ganharão um estatuto idêntico, eternizando os mesmos no poder, com as consequências conhecidas.

Esperemos que, em 2023, independentemente das mudanças constitucionais, Xi Jinping mostre que é um grande líder e tenha a sabedoria de escolher reformar-se, dando a outros o seu lugar. Para bem da China e do mundo.

27 Fev 2018

O ano do cão danado

O novo ano chinês, que começou em Fevereiro, está sob a influência do signo do Cão. Sou cristão e, como tal, não me interesso minimamente por previsões astrológicas. Mas, se atentarmos nos diversos incidentes ocorridos recentemente, podemos facilmente adivinhar que este vai ser um ano turbulento.

Em primeiro lugar, o mercado bolsista sofreu uma depressão a nível global em Fevereiro, provocando uma queda no Índex Hang Seng de Hong Kong superior a 3000 pontos. Este desaire foi seguido de uma tragédia. Um acidente com um autocarro provocou 19 vítimas mortais. Em Macau, o Comissariado contra a Corrupção emitiu o relatório da investigação sobre o projecto de construção num terreno situado no Alto de Coloane, onde se refere a possibilidade de ter havido administração imprópria ou, mesmo, ilegalidade respeitante à concessão do terreno. O relatório foi entregue ao Ministério Público, enquanto o público aguarda por mais notícias relativas ao desenrolar do processo. Só uma investigação mais aprofundada poderá revelar a verdade e libertar as pessoas da suspeita de conluio entre representantes do Governo e empresários com interesses na concessão do terreno.

Acredito em Deus, creio que a verdade não teme o confronto e estou confiante que o mal nunca prevalece sobre o bem. E também acredito em relações profundas. A corrida às acções e a especulação estabeleceram preços recorde dos títulos a nível mundial. Mas os analistas de mercado não contaram às pessoas toda a verdade e limitaram-se a encorajar os pequenos investidores a apostar na bolsa, provocando-lhes enormes prejuízos. Mas voltando ao acidente em Hong Kong, é absolutamente ridículo verificar que algumas pessoas atribuem as culpas ao movimento “Occupy Central”. Se prestarmos atenção às notícias, compreendemos que esta tragédia não pode ser dissociada da exploração dos trabalhadores numa sociedade capitalista. Os motoristas são tratados com muito pouco respeito. Os requisitos para exercer a profissão não apresentam qualquer exigência. A transportadora só se preocupa com o lucro e negligencia as possíveis consequências de um serviço de má qualidade. Era só uma questão de tempo até acontecer uma fatalidade.

Quanto ao projecto de construção no Alto de Coloane, cheguei a encarregar-me da inquirição deste caso quando fui deputado na Assembleia de Legislativa. Nessa altura, os representantes do Governo indiciados alegaram que os documentos da concessão do terreno estavam escritos em português e recusaram-se a responder às minhas perguntas. Durante os últimos anos, muitas pessoas tentaram aprofundar este caso. Acredito que se acabará por provar que as dúvidas que sempre alimentei sobre este assunto tinham razão de ser.

Não há fumo sem fogo, mas o preço tem de ser pago por quem ateia o incêndio e não pelos inocentes. 2018 poderá ser o ano em que os “vilões” de Hong Kong e de Macau virão a revelar a sua verdadeira natureza. Nos últimos anos, soube-se que funcionários superiores da China continental foram castigados por corrupção. É uma consequência do alastramento deste problema nos tempos que correm. Sob a liderança do Presidente Xi, desenvolveu-se uma luta cerrada à corrupção e os resultados são promissores. Acredito que após a conclusão dos congressos do CNP e da CCPPC, que terão lugar em Março, e que serão marcados por algumas mudanças individuais, o Governo central terá mais disponibilidade para prestar atenção aos assuntos de Hong Kong e de Macau.

Enquanto melhor amigo do Homem, a principal tarefa do cão é guardar o dono e os seus bens. Um cão que abana a cauda a qualquer estranho pode ser muito simpático, mas não convém ao seu dono. Macau precisa de mais do que um cão feroz para defender os interesses do seu povo e impedir que seja roubado pelos corruptos. Quer se trate do Comissariado contra a Corrupção, a comunicação social ou o público em geral, todos têm de cumprir o seu papel e guardar Macau das investidas malignas.

No ano do cão, espero que trilhemos a senda do combate à corrupção e lutemos pela manutenção da paz.

2018 poderá ser o ano em que os “vilões” de Hong Kong e de Macau virão a revelar a sua verdadeira natureza.

23 Fev 2018

Ambiente | Estudo revela que um quarto do planeta pode transformar-se num deserto

Um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change concluiu que 25 por cento da superfície terrestre pode-se tornar desértica se o aquecimento global se situar nos 2º Celsius, ou seja, o limite estabelecido no Acordo de Paris. Entretanto, na China começou a ser cobrado um imposto ambiental, dirigido a empresas poluidoras

O Acordo de Paris foi um marco histórico que uniu quase todos os países em torno de uma questão que ganha contornos existenciais: as alterações climáticas. No final de 2015, quando se realizou a cimeira na capital francesa, parte da comunidade científica criticou o acordo por ser pouco ambicioso em termos de metas propostas. Isto apesar dos aplausos originados pela vitória política que foi o consenso mundial numa matéria que implica mudanças profundas nas economias.

2018 arrancou com uma sombria previsão científica. Um estudo realizado por um conjunto de universidades, onde se inclui a Universidade de Ciência e Tecnologia de Shenzhen, concluiu que pelo menos um quarto da superfície terrestre ficará “consideravelmente” mais seca, mesmo que seja atingido o objectivo de manter o aquecimento global abaixo dos 2º Celsius. Ou seja, o limite previsto no Acordo de Paris. No documento os estados outorgantes comprometeram-se a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2º Celsius em relação à era pré-industrial. Foi também estabelecido que a comunidade internacional que se uniu em torno da luta contra as alterações climáticas continuaria os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5º Celsius.

No entanto, o planeta ainda está em direcção a um aumento global da temperatura de 3° Celsius.

Meio grau

Segundo o estudo, publicado na revista Nature Climate Change, um quarto do planeta, afectando mais de 25 por cento da população mundial, viverá num estado de crescente desertificação se a temperatura terrestre aumentar 2º Celsius.

Porém, as conclusões da equipa que reuniu académicos também da Universidade de East Anglia, em Inglaterra, apontam um número que poderá fazer toda a diferença daqui a três ou quatro décadas. Se o aumento da temperatura global for de 1,5º C, isso iria reduzir significativamente o número de regiões do planeta afectados por este processo de seca progressiva. Para avaliar este fenómenos é feita uma medição combinada dos valores de precipitação com a evaporação.

Se o alvo de 1,5° C fosse atingido, “partes do sul da Europa, África do Sul, América Central, costa australiana e sudeste da Ásia (áreas que acolhem hoje mais de 20 por cento da população mundial) evitariam uma aridez significativa”, disse um dos autores do estudo, Su-Jong Jeong, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Shenzhen.

Os cientistas que conduziram o estudo basearam-se em projecções de vários modelos climáticos. Segundo os resultados apurados pelo estudo, com um aumento das temperaturas de 2° C, entre 24 a 32 por cento da superfície da Terra ficaria mais seca do que actualmente, situação que poderá verificar-se entre 2052 e 2070.

No entanto, se o objectivo de 1,5° C fosse atingido, apenas 8 a 10 por cento da terra ficarão mais secos, disse Su-Jong Jeong.

À medida que os territórios se tornam mais secos, a degradação dos solos e a desertificação aceleram, assim como a perda de biodiversidade, incluindo as plantas e as árvores necessárias para absorver o dióxido de carbono, responsável pelas mudanças climáticas.

Este processo aumenta também os fenómenos de secas e incêndios.

Alerta Guterres

Olhando para o mapa do mundo, de acordo com as projecções avançadas pela equipa responsável pelo estudo as regiões mais afectadas pela desertificação são áreas já a braços com algumas dificuldades socioeconómicas. “A aridificação é uma ameaça séria, principalmente pelo impacto crítico ao nível da agricultura, qualidade de água e biodiversidade”, comentou um dos principais autores, Chang-Eui Park em comunicado.

O estudo publicado na Nature Climate Change baseou-se na análise de 27 modelos de clima global e na forma como a aridificação do planeta seria afectada à medida que as temperaturas vão subindo. Neste aspecto importa salientar que uma vasta maioria dos cientistas climáticos concordam que a evolução das temperaturas é o factor responsável pelas crescentes secas e desertificações em curso no Brasil, ao longo do Mediterrâneo e na Austrália.

Em Nova Iorque, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou uma série de alertas aos líderes mundiais durante a mensagem de Ano Novo. “No primeiro dia do ano de 2018, não vou lançar um novo apelo. Vou emitir um alerta ao mundo”, começou por dizer Guterres. Depois de se mostrar bastante preocupado, o secretário-geral das Nações Unidas referiu que “as alterações climáticas avançam mais rapidamente” do que os esforços para as enfrentar.

Já em Novembro passado, António Guterres adjectivou os desafios ambientais como a “ameaça definidora dos nossos tempos”.

Durante a reunião anual das Nações Unidas para endereçar as alterações climáticas, o secretário-geral apontou como exemplo a Índia e a China que apesar do rápido crescimento económico se posicionam para se tornarem líderes na produção de energia solar. Guterres acrescentou ainda que Índia e China têm feito um trabalho meritório no incentivo ao mercado de carbono, onde empresas podem trocar créditos de emissões por incentivos para tornar as suas operações mais amigas do ambiente.

Caso chinês

Este ano, o Natal na costa leste dos Estados Unidos foi particularmente fria. Algo que inspirou Donald Trump a escrever um tweet onde voltou a confundir meteorologia com climatologia. O Presidente norte-americano disse que “talvez se possa usar um pouco do velho aquecimento global” para combater as temperaturas baixas record que congelaram Nova Iorque. Curiosamente, um dos efeitos do aquecimento global é precisamente a ocorrência mais frequente de fenómenos atmosféricos extremos. Importa recordar que Donald Trump considera as alterações climáticas uma conspiração chinesa.

Entretanto, a China começou na segunda-feira a cobrar um imposto ambiental. Trata-se da primeira medida fiscal adoptada por Pequim para combater a poluição, uma das principais fontes de descontentamento popular no país.

A Lei Fiscal de Protecção Ambiental, que se destina a empresas e instituições públicas que descarreguem poluentes directamente para o ambiente, estipula que o imposto será pago pelas companhias que produzam poluição sonora, atmosférica e resíduos sólidos, abrangendo também a contaminação da água.

O Governo Central vai fixar o limite máximo a ser cobrado, permitindo às autoridades locais determinar o valor exacto a cobrar. Importa realçar que esta medida não afecta particulares.

Segundo estimativas citadas pela imprensa oficial, com o novo imposto o Governo chinês poderá arrecadar anualmente mais de 50 mil milhões de yuan.

A implementação deste imposto é mais uma das medidas promovidas por Pequim para endereçar as preocupações ambientais da população. Aliás, a poluição é responsável por milhões de mortes prematuras todos os anos na China, tendo-se tornado, nos últimos anos, uma das principais fontes de descontentamento popular, a par da corrupção e das crescentes desigualdades sociais.

Entre Janeiro e Novembro de 2017, Pequim investigou mais de 35.600 violações das leis e regulações de protecção ambiental, um esforço de fiscalização que representa um aumento superior a 100 por cento, em termos homólogos.

3 Jan 2018

O Segundo Renascimento

Talvez esta reflexão pudesse começar com “era uma vez”. Porém, a história da China é demasiado longa e neste caso interessa-me revisitar o seu passado recente, quando por volta de 1977 Deng Xiaoping tornou ao poder, consolidando-o desta vez. O ex-estudante em França, agora solidamente sentado na cadeira do poder, trazia em si um olhar pragmático para a sua China. Para trás ficavam os dogmas e excessos da Revolução Cultural.

Deng queria uma China moderna, passo a passo. Primeiro permitiu que os camponeses viessem vender os seus produtos nas cidades. Com o crédito alcançado por esse sucesso, o pragmatismo desenvolve-se. Uns anos mais, diria que “o socialismo não significa pobreza”. Isso recorda-me quando, ainda nos finais do anos 70, para chegar a Guangzhou, tive de atravessar de jangada quatro ou cinco braços de rio. Hoje a viagem faz-se de comboio rápido.

Deng, fazendo uso de máximas chinesas, definiu as primeiras medidas de abertura interna que conduziriam à emergência de uma economia socialista de mercado. Nesse pragmatismo, em que o socialismo fica salvaguardado, afirmou que não lhe importava que um gato fosse branco ou preto, mas sim que caçasse ratos.

Citam-se frases deste líder da abertura da R.P. da China. Premonitoriamente afirmou:”quando os nossos milhares de estudantes regressarem a casa, irão assistir à transformação do País”. Crítico, comentou que “os jovens quadros sobem de helicóptero. Precisam de subir passo a passo”. Afirmaria também “procura a verdade nos factos”.

A China do século XIX trazia a todos os patriotas más recordações. Era preciso consolidar uma política de firmeza quanto ao território chinês. Deng Xiaoping formula a sua máxima de “Um País, dois Sistemas” com o intuito de, pacificamente e através de acordos, retomar os territórios de Hong Kong e de Macau, recebendo estes a classificação de “Segundo Sistema”. O intuito era de que, através de um fenómeno de capilaridade, e no período de meio século, o desenvolvimento das Regiões Administrativas Especiais pudesse contaminar o continente.

Não foi porém preciso, porque o pragmatismo de Deng virou-se para o interior onde aos poucos nascia um mercado produtor e consumidor interno.

Nas últimas décadas a prosperidade bateu à porta de muitos. Em 2002 a classe média era de apenas 3 por cento, mas uma década depois, em 2012, já correspondia a 31 por cento, ou seja, 420 milhões!!!

Se as assimetrias ainda existem, não estarão esquecidas e a solução vem com a emergência dos novos heróis, os milionários e bilionários chineses, homens como Wang Jianlin (31.3 mil milhões USD), Jack Ma (28.3 mil milhões USD) no topo de uma lista dos vinte mais ricos cuja mais baixa fortuna é de 6.3 mil milhões de USD.

É assim que, com visão a longo prazo, uma característica do Primeiro Sistema, os milionários se tornam também nos motores de desenvolvimento do País, em sintonia com o Estado.

Deng é já uma memória reverenciada. As novas lideranças seguem o trajecto. A afirmação política como potência internacional é importante. Em 2008 as Olimpíadas são o cenário ideal para uma dessas afirmações.

Zhang Yimou encena um espectáculo belíssimo de abertura que ficou na minha e terá ficado na memória de muitos.

Os tempos de Li Ning já vão longe. A afirmação da R.P. da China é total. 51 medalhas de ouro, 21 de prata e 28 de bronze.

A velocidade de transformação da China é enorme. A economia, nos anos 1990, tinha chegado a um crescimento inaudito de dois dígitos. O mundo assustava-se.

Aliás, a China actual tem mostrado, à semelhança do Renascimento dos Tang (618-904), uma ampla abertura ao exterior.

É assim que, tal como Deng regressou de França, milhares de quadros foram estudar na Europa Ocidental, municiando-se, bebendo do Ocidente, imperativo para a globalização, muito provavelmente inteiramente apoiados pelo Estado Chinês.

Mas se a excelência da apresentação e dos resultados olímpicos foram uma incontornável afirmação política que já vinha sendo preparada desde os tempos de Li Ning, cada vez com maior excelência, é fundamental que Macau aprenda não apenas com a China mas com o mundo, sem medo, sem preconceitos, porque os quadros locais estão longe de terem capacidades e abertura ao mundo, que só poderão adquirir lá fora. Mas, mais do que isso, é importante que o Governo de Macau lhes suporte por inteiro estudos de especialização e de línguas estrangeiras no exterior, e que estes se integrem , sem se acolherem na companhia de colegas, o que seria refúgio indesejável.

Os grandes projectos internos de arquitectura na China decorrem de concursos ou convites internacionais sem que se tenha de concessionar a arquitectos chineses, só porque sim.

Que o digam Siza Vieira, arquitecto Português prémio Pritzker, com o seu edifício sobre a água na cidade de Huai’an, província de Jinan.

Nunca a excelência, venha de onde vier, constitui um erro. Os líderes chineses sabem-no.

O desenvolvimento da China está em todo o lado e faz empalidecer as R.A.Especiais.

Com efeito, em Guangzhou, o Guangzhou Evergrande Taobao, verdadeiro gigante do futebol, assinou há anos com o Real Madrid um protocolo para se criar a maior academia de futebol do mundo, desporto tanto do agrado de Xi Jingping. E eis que, assim, em mais de 75 campos, se planeiam desde já as estrelas de amanhã, enquanto a importação de técnicos se faz descomplexadamente, porque um dos paradigmas do conhecimento é o reconhecimento das próprias limitações. A busca da excelência é total, e a Evergrande aliada à Tao Bao são um colosso financeiro. Trabalha-se, como se imagina, para o médio prazo.

No campo das Artes, há uma cidade que me tocou profundamente. Trata-se da histórica cidade de Hangzhou, próxima de Xangai, mas possuidora de uma Academia de Arte que mostra bem o nível de abertura cultural, cultura que se estende ao modus vivendi.

E desta Academia, sediada numa cidade conhecida pelo seu lago ocidental, o Shi Wu, pela sua placidez, pela proibição das buzinas dos automóveis, respira-se um ambiente propício a tudo o que é reflexão, estudo, criação. Tê-la visitado, constituiu para mim uma experiência enriquecedora da existência de outros mundos que não precisam da nossa circunstância, e que produzem coisas brilhantes.

E a cidadania é tudo isto, é a busca permanente da excelência que só existe com a abertura das mentes, com o recurso a quem sabe em alternativa à ignorância – esse não saber que não se sabe – independentemente da sua situação ou origem, para que se possam formular projectos credíveis para que a R.A.E.M. possa corresponder às expectativas que a Mãe Pátria tem, quando fala de diversificação, que não se fará nunca sem um suporte cultural, que urge ser dado aos quadros locais.

E porque a expressão cultural e artística são o espelho da vida de uma sociedade, aqui se deixam alguns exemplos provenientes de Hangzhou.

UM OUTRO RENASCIMENTO

Sendo o homem uma circunstância, perceber-se-á que o ambiente envolvente é de extrema importância, condicionador ou potenciador do desenvolvimento humano.

Mas para que tudo isto se realize com o nível de excelência que a R.P. da China nos habituou é preciso que se insira também no movimento integrador da Grande Baía traçado pelo Presidente Xi Jingping. Agora que o crescimento interno é uma realidade em contínua consolidação, Xi Jingping volta-se para o exterior, formulando pela política da Faixa e da Rota – a Faixa económica da Rota da Seda do século XXI – que propõe ao mundo em geral e aos países emergentes em particular, o usufruto da cooperação e do usufruto das vantagens da conectividade.

Curiosamente Portugal, país dito periférico, mas o mais antigo da Europa, tem vindo a erguer-se através de grandes personalidades, desde António Damásio, neurocientista autor do “Erro de Descartes” e director do Brain and Creative Institute da Universidade da Califórnia até Horta Osório, o salvador do Lloyds Bank, ou o recém-falecido Belmiro de Azevedo, que estimulava os seus subordinados a terem as suas próprias empresas. Do primeiro Secretário-Geral das Nações Unidas unânimemente eleito, António Guterres, até ao Presidente da República Portuguesa que está em todo o lado, conferindo com a sua presença a atenção aos mais necessitados, enquanto o Ministro das Finanças Mário Centeno, recém-eleito Presidente do Eurogrupo por unanimidade à segunda volta. Há ainda Cristiano Ronaldo, cinco vezes o melhor jogador do mundo e José Mourinho, o treinador especial e tantos outros que brilham por vários continentes, e diversos campeões mundiais, além de artistas, de Júlio Pomar a Paula Rego, provenientes de um país pequeno que é o primeiro destino turístico da Europa.

Por causa da memória portuguesa, Macau foi designado, como Plataforma para os países Lusófonos. A grande China não tem complexos com a história de Macau. Os grandes líderes caracterizam-se pela visão ampla e assim, o legado da portugalidade em Macau, os seus elementos conjugadores deveriam ser ainda mais valorizados pela sua inimitável singularidade.

É e será sempre através das capacidades de conjugação e articulação cultural que se procederá à transformação das mentalidades, sobretudo para quem precisa de substituír certezas por dúvidas. E a partir delas procurar a exigência em desfavor da ignorância, a excelência em alternativa à mediocridade.

Todo o desenvolvimento requer um trajecto. E todo o trajecto um ideário, uma linha de pensamento coerente, fundamentada, a curto e médio-prazo, expressa com os pés bem assentes na terra.

Numa cidade multi-milionária como a R.A.E.M., super-excedentária, apenas a excelência faz sentido, não a má tradução, por exemplo, para o termo “talentos”. É que qualquer tradutor (universalmente tradutore-traditore)precisa de vivenciar a cultura da língua que procura interpretar, porque é na interpretação que a tradução se clarifica. E sem verdadeira interpretação não há comunicação fiel.

É assim que em todo este contexto, emerge a consciência de que a fantástica biblioteca do distrito cultural de Binhai, em Tianjin ameaça tornar-se uma vulgaridade na China, à medida que o País progride cultural e civilizacionalmente neste novo Renascimento.

O meu receio porém é que, em certos lugares, a vulgaridade seja a pouca importância que certos protagonistas dão a bibliotecas, quanto mais à cultura ou a distritos culturais…

11 Dez 2017

O planeta Eaarth

“If we don’t go back, we will go down. Whoever denies it has to go to the scientists and ask them. They speak very clearly, scientists are precise. Then they decide and history will judge those decisions. Man is a stupid and hard-headed being (a stern warning to climate change deniers).”
Pope Francis

As implicações políticas, económicas e sociais a longo prazo da desestabilização climática são preocupantes. O tempo indicará se o “Acordo de Paris” aprovado a 12 de Dezembro de 2015, e negociado durante a 21.ª sessão anual da “Conferência das Partes (COP 21 na sigla inglesa) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (CQNUAC)” e “11.ª sessão da Conferência das Partes”, enquanto, “Reunião das Partes no Protocolo de Quioto (CMP 11 na sigla inglesa)” é o início de um sério esforço global para evitar o pior que poderá acontecer ao planeta e à humanidade.

O nosso clima e outros sistemas terrestres não alcançarão um novo equilíbrio durante muito tempo e a Terra pode tornar-se um planeta diferente, que o ambientalista americano Bill McKibben chama de “Eaarth”, com um clima mais quente e incerto. Os números são assustadores. A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, em Março de 2016, passou o limite de 402 partes por milhão (ppm), o que significa um aumento de 42 por cento em relação ao nível pré-industrial.

O total de outros gases de captura de calor medidos em unidades equivalentes de dióxido de carbono é talvez superior entre 50 a 70 ppm. A temperatura da Terra, como resultado, é maior em um grau Celsius, com talvez outro meio grau de aquecimento no percurso, devido ao atraso entre o que sai dos nossos tubos de escape e das chaminés e os efeitos climáticos resultantes das alterações climáticas que experimentamos. É possível ter sorte de cobrir os níveis de CO2 em 450 ppm, para manter o aquecimento de dois graus Celsius, e andar nos bicos dos pés com sucesso, à volta do retorno do ciclo de carbono, que poderia desencadear alterações catastróficas. Todavia, temos todos os motivos para agirmos com prudência, moralidade e instinto de sobrevivência para atingir e superar esses alvos o mais rápido possível.

A humanidade está a aprender que o sistema climático é complexo e não-linear, isto é, imprevisível e totalmente implacável do erro humano e do atraso diário. Foram geradas mudanças muito grandes na atmosfera da Terra com uma duração medida em séculos e milénios, mas as nossas instituições, organizações, sistemas de governança, economias e pensamento estão voltados para o curto prazo, medido em anos e algumas décadas. O outro lado da equação está a capacidade tecnológica em rápido crescimento para impulsionar as economias americana e globais por uma combinação de maior eficiência energética e energia renovável em várias formas. Existem aqui boas razões para um optimismo sóbrio, mas o caminho pela frente não será fácil.

A física da energia e as leis da termodinâmica são inamovíveis, assim como os factos obscuros do retorno energético do investimento e da densidade da energia. O base da energia do mundo moderno foi construída sobre combustíveis fósseis altamente concentrados, transportáveis e relativamente baratos. A energia renovável nas suas diversas formas é difusa, mais difícil de se concentrar, dispendiosa, com menor densidade e retorno no investimento. A demografia e o comportamento humano também agravam as dificuldades colocadas pela física.

A população mundial era de sete mil e quinhentos milhões de pessoas em Abril de 2017, a caminho de um apogeu de talvez onze mil milhões de pessoas. As nossas expectativas materiais e necessidades de mobilidade são maiores do que nunca e continuam a crescer. Existem boas razões para acreditar que superamos a capacidade de suporte da Terra e contra este cenário, as possibilidades de conseguir travar as piores situações resultantes das alterações climáticas são de 50 por cento. Existe sempre a perspectiva de que nenhuma pessoa sã entrará em um carro com a possibilidade de ocorrer um acidente fatal. É de considerar que algumas das mudanças ocorrerão, para que o mundo sinta o que podem ser os perigosos anos do caos climático.

O principal olhar não é sobre a transformação tecnológica, mas sobre as mudanças mais profundas de governança, economia, educação e outras que estão subjacentes à presente situação e sua solução. As mudanças de “hardware” e “software” são necessárias, mas nenhuma é suficiente e ambas devem ser recalibradas para um horizonte mais largo. Os nossos problemas são compostos, porque as alterações climáticas são apenas uma das várias ameaças inter-relacionadas ao nosso futuro comum. É de considerar que cada uma dessas ameaças é global, permanente e sintomática de falhas mais profundas, incorporadas nos nossos sistemas de governança, política, economia, ciências, dados demográficos e culturais, e que juntas representam uma crise do sistema que se prolongará por séculos.

O Papa Francisco na sua Enciclica “Laudato Si”, afirma que não somos confrontados com crises separadas, mas sim com uma crise complexa que é social e ambiental. Será dificil acreditar que estamos destinados a destruir a Terra pelo fogo, calor, ou tecnologia usada de forma incontrolável e disruptiva. Mas, se existir um futuro mais feliz, o que certamente acontecerá, devemos agir com generosidade, prudência, energia e entender de forma inteligente que somos apenas uma parte de um sistema global inter-relacionado. Será necessário actuar de forma eficaz e justa, pelo que devemos ser governados por instituições democráticas responsáveis, transparentes e robustas; e para agir de forma sustentável, devemos viver e trabalhar dentro dos limites dos sistemas naturais a longo prazo, ou seja, devemos aprender e encontrar um modelo que inclua estruturas humanas de economia, governança, educação, tecnologia, sociedade, cultura e comportamentos incorporados na ecosfera do ar, terra, águas, outras espécies e ciclos biogeoquímicos complexos.

O problema é que não somos muito bons na solução de problemas de sistemas que são grandes ou podem durar por um período largo. Primeiro negamos o problema e colocamos de lado; e, quando finalmente somos forçados a agir, tendemos a ignorar as causas estruturais subjacentes e mover pequenas peças marginais que muitas vezes têm efeitos imprevisíveis e contra-intuitivos. Por estes e outros motivos, as mudanças necessárias provavelmente começarão em bairros, cidades, estados, regiões e redes de cidadãos globais, devendo iniciar em uma escala capaz de ser gerida eficazmente e de forma compreensível por um processo de tentativa e erro, devendo paralelamente em catadupa mudar os sistemas maiores de governança e economia. É de aceitar que na actual conjuntura mudará tudo, como diz a jornalista, escritora e activista canadense, Naomi Klein, incluindo a nossa economia, hábitos de consumo, expectativas, governança, distribuição de riqueza e a prática da democracia.

O cientista de ciências da computação e escritor inglês, James Martin, no seu livro “The Meaning of the 21st Century “, expressa a crença de que precisamos de outra revolução, que implemente a gestão desejável, leis, controlos, protocolos, metodologias e governança de meios. O economista ecológico americano, Herman Daly, acredita que as mudanças necessárias exigirão algo como o arrependimento e a conversão. É de acreditar que ambas e muito mais serão necessárias para navegar nos perigosos anos do futuro e uma sociedade sustentável, decente, equitativa e de densidade real não pode existir por muito tempo, como uma ilha em um sistema global governado por ameaças, violência e a perspectiva de guerra nuclear. Algum dia acontecerá algo de horrivelmente errado. Enquanto isso, o sistema de conflitos poderá sugar e destruir tudo, desperdiçar pessoas e recursos valiosos, secar a prática da democracia, corromper os serviços de comunicações e obscurecerá a nossa consciência acerca de melhores possibilidades.

O hábito da violência predispõe-nos a pensar na natureza como algo meramente a ser conquistada. É de entender que não pode haver economia e harmonia lentas e justas entre humanos e sistemas naturais em uma sociedade governada pelo medo, ameaças, violência e guerra. Uma casa tão dividida não subsistirá. O movimento ambiental, desde o inicio, esteve ocupado a lutar contra a poluição, preservando o deserto e os rios férteis e que ofereciam paisagens deslumbrantes, travando todo o tipo de situações más ou prejudiciais. Era em grande medida um movimento agrário. As cidades eram principalmente negligenciadas ou tratadas como uma reflexão tardia. Todavia, o herói americano, David Crockett, sabia que um futuro humano decente seria essencialmente urbano. Mais de metade da população mundial vive em cidades e continua a crescer essa percentagem. As cidades geram 70 por cento das emissões de CO2 em todo o mundo, bem como a maioria de outros impactos ambientais e políticas de inovação, revelando o quanto as cidades são importantes.

Onde a maioria dos outros viu apenas apenas o feio, crime, poluição e o alargamento desordenado, David Crockett e os primeiros pioneiros do urbanismo verde viram possibilidades e oportunidades. As cidades podem ser educativas com aquários, museus, centros naturais e universidades, e abranger uma vida cívica robusta que inclua espaços ao ar livre para debates públicos, leituras de poesia e arte. Os municipios podem promover a convivência autorizando cafés e arte de rua, teatros e locais de música, incluir jardins urbanos e terraços verdes, misturar o urbano com o rural, às vezes com um toque de região selvagem, introduzir pistas de bicicleta, trilhas para caminhadas e trânsito ferroviário ligeiro, que proporcione mobilidade sem poluição e congestionamento automóvel.

As cidades podem ser limpas, verdes, seguras, educativas, emocionantes e excitantes incubadoras de conquistas e criatividade humanas e com políticas bem orientadas e incentivos adequados, podem reduzir uma grande parte as emissões de CO2 do mundo. Os primeiros urbanistas verdes que rapidamente entenderam a cultura de massas, deram-se conta que criar cidades verdes requer uma estrutura intelectual e política diferente. As cidades são as mais complicadas e complexas criações humanas. As suas patologias, incluindo o crime, poluição, expansão e congestionamento de trânsito têm muitas causas, entre elas a fragmentação das funções por zona e a falha em contar com a totalidade do organismo que deve ser alimentado, regado, servido de esgotos, informado, entretido, transportado e empregue, em particular, o seu enorme volume de resíduos aéreos sob forma de partículas, sólidos e lodo, que deve ser descartado, limpo e reciclado, permitindo o movimento de um grande número de pessoas e quantidades maciças de alimentos e bens diariamente.

As cidades, dada toda a sua vitalidade e potencial dependem de cadeias de suprimentos longas e vulneráveis. Qualquer falha no sistema de suprimento de alimentos, água e electricidade causaria o caos em questão de horas e a falha total em apenas alguns dias. Existem outrass ameaças e muitas cidades costeiras enfrentam a certeza do aumento dos níveis das águas dos oceanos e furiosas e enormes tempestades como foi o caso do tufão Hato, que assolou o Sul da China, entre 23 e 24 de Agosto de 2017 e o furacão Irma as Caraíbas e a costa leste dos Estados Unidos, entre 6 e 10 de Setembro de 2017, como fruto das alterações climáticas e consequente aquecimento global, cuja tendência é de piorar, apesar da existência do “Acordo de Paris”, que entrou em vigor a 4 de Novembro de 2016, mas que muitos dos países signatários não cumprirão por falta de meios ou vontade política.

As cidades continentais médias serão expostas a secas prolongadas e maiores e mais tempestades e tornados. As cidades também são alvos fáceis para os detentores de qualquer tipo de fraqueza e sempre serão vulneráveis a grupos de ódio, seitas religiosas, terroristas e perturbadoras, o que não é algo pequeno em um mundo onde o meio tecnológico para causar estragos letais tem sido amplamente disperso. As cidades são sistemas complexos e dispersos.

O seu futuro depende em larga medida do nosso entendimento de como trabalha o complexo sistema, como torná-las mais resilientes em uma multitude de situações e como desenhar as novas políticas, leis e incentivos económicos para torná-las mais limpas, verdes e seguras. O estudo do comportamento de sistemas complexos tem uma longa história. As décadas do pós-guerra entre 1950 e 1980, foi a grande era para a teoria dos sistemas, pois tendo como fundamento os avanços nas comunicações, pesquisa operacional e cibernética da II Guerra Mundial vários cientistas escreveram persuasivamente sobre o poder da análise de sistemas. Os benefícios eram muitos. O pensamento sistémico permitia erceber os padrões que se conectam de formas diferentes e detectar a lógica contra-intuitiva e uma importante realidade enganosa, criando análises, planos e políticas mais coerentes e efectivas.

Os benefícios reais da teoria dos sistemas, no entanto, foram evidentes em computadores e tecnologias de comunicação, que, por sua vez, foram baseados em avanços na teoria da informação e na cibernética durante a II Guerra Mundial. As actividades, em muitas latitudes com confiança caminharam sem perturbações. Apesar da lógica inerente ao pensamento sistémico, os governos, bem como as fundações, universidades e organizações sem fins lucrativos, ainda funcionam, principalmente, decompondo os problemas nas suas partes e trabalhando cada uma isoladamente. A separação de instituições, departamentos e organizações especializadas em energia, solos, alimentos, ar, água, vida selvagem, economia, finanças, regulamentos de construção, política urbana, tecnologia, saúde e transportes existe como se cada uma não estivesse relacionado às demais.

Os resultados, não são surpreendentes, pois muitas das vezes são contraproducentes, excessivamente caros, arriscados, desastrosos e irónicos. A modelagem de sistemas, por exemplo, ajuda a entender as causas das mudanças climáticas rápidas, os casos de falhas sistémicas do governo, a formulação de políticas e a economia evitando um vazio no muito que poderá ser feito e os consequentes prejuízos. A teoria dos sistemas, em suma, ainda não teve o seu momento copernicano e as razões estão ironicamente incorporadas na revolução científica. O atraso no seu estudo e implementação só vêm causar graves prejuízos, em particular, na compreensão, prevenção e minimização dos graves fenómenos naturais resultantes das alterações climáticas.

14 Set 2017

Identidade

O farol não é um farol como cada uma destas palavras não é palavra. Sabemo-lo desde Magritte. Mas o farol que ilumina a minha cidade deveria iluminar a minha cidade e proteger os barcos dos escolhos e dos tapetes de lodo, nas margens amarronadas do Delta das Pérolas. Infelizmente, isso não acontece porque deixou de acontecer. O farol gira, volta após volta, mas não ilumina: o seu estreito fio não chega ao mar, ainda menos ao coração dos homens. Esbarra em prédios, entra janelas adentro, grandes bolas de luz percorrem apartamentos.

Onde pára a luz do meu farol? Por que esquinas te perdestes, em que espelhos te miraste, estreito fio de luz? Vi-te nos olhos de alguém, mas foi um relance, um clarão repentino, daqueles que é suposto iluminarem a vida e depois se extinguem entre duas aspirações. Pois é. Basta uma distracção, um outro brilho que passa, o fumo de um automóvel nas narinas e logo o estreito fio de luz se esvai e vai por certo a essa terra onde repousarão os faróis obsoletos, perto de outros elefantes. Será ilha ou mera península?

Por onde andas, meu estreito fio de luz? Perdi-te tantas vezes por estas ruas, nas travessas, em falsos becos. Talvez por isso perdeste importância e a tua luz esmoreceu e outras luzes ávidas tomaram o teu lugar. São às cores, embasbacam mais. Haverá mais gente que as prefira ou até adore a complexidade das grinaldas, dos buquês casamenteiros, o alarido dos led, dos néons, de todas essas luzes de sabão. Qual era o encanto, afinal, daquele estreito fio de luz, a rodopiar sem descanso, enquanto a noite cobria o mundo? Era sinal de protecção, uma varinha de condão sobre a cidade? Talvez… quem sabe… Por vezes duvidávamos… seria verdade aquela luz? Doutras acreditávamos sem pudor, invocávamos o perdão no selo de uma garrafa e, sob a luz, cidade aos pés, havia quem fizesse o sinal da cruz.

A história, essa, é ateia. Ateia e teocida. Quantos altares não derrubámos? Quantas estátuas não decapitámos? Quantos guerreiros não emasculámos? Ninguém quer saber.

O que dizer dos faróis, gesto técnico sobre o mar? Pela vida e contra a sorte, tentativa de luz a tactear na escuridão, sinal de gente, talvez calor, talvez a morte.

Qualquer coisa, meu bom farol, tu me indicavas. Assim, no fim de todas as noites, antes do dia te apagar, e isso tinha mais a ver comigo do que com a cidade à minha volta. Era a mim que remetia o teu estreito fio. Era pela minha janela que os teus círculos de luz entravam, sem respeito nem licença. Volteavam-me a sala, o quarto e saíam, talvez furiosos de não encontrarem o mar.

Era este o meu farol, além da história, do sangue e do engenho. Dizem-me lá continuar às voltas a luz… Dizem-me tudo estar na mesma… que os espelhos funcionam como sempre, que se acende ao crepúsculo e se extingue na aurora.

Mas o farol não é um farol como como cada uma destas palavras não é palavra. Nenhuma delas me interpreta ou representa ou interpreta ou representa qualquer coisa. São inúteis, por vezes graciosas, doutras pesadas, mas inúteis. Nenhuma delas me devolverá o farol.

Procuro na fogueira a cinza certa. Está longe, num canto empoeirado da memória e, cinza nas mãos cerradas, digo as palavras. Abro cuidadosamente a mão. Nem rosa nem farol assomam. Há uns riscos, admito, sublinhados pela cinza, de leitura amarga e fruste. Mas nada mais. Nada mais.

Onde paras, meu estreito fio de luz? Quanto podes tu, quanto pode essa estrada iniciante, se na tua ausência o coração desatina?

Não podes nada. E eu cesso de existir. Amanhã acordarei morto. Levantar-me-ei, sacudirei as estrelas da roupa e tudo será radicalmente diferente.

26 Jul 2017

O problema dos clones

Um destes dias jantei com uma amiga, a Inês, e, a páginas tantas, ela confessa-me a sua relutância em ser teletransportada. “O teletransporte, a existir”, assegura-me, “não funcionaria como vemos nos filmes de ficção científica”. “E isso quer dizer o quê?” Pergunto. “Nos filmes de ficção científica”, prossegue, “o teletransporte é equivalente a mover água de um sítio para outro, ou seja, a matéria que estava de um lado é transferida para outro lado através de um meio adequado para o efeito.” De facto, pensei, é também assim que eu concebo o teletransporte, enquanto possibilidade de um futuro por acontecer. “O teletransporte assemelha-se muito mais a uma cópia, na verdade. O sujeito está do lado de cá, passa por uma espécie de scanner que o lê e, do lado de lá, é reconstruído. Mas não é a mesma matéria que passa de um lado para o outro, é como se o resultado do transporte fosse, na verdade, uma versão dois de ti próprio, um clone.”

Um clone. Se nos focarmos no processo leitura e recriação, tal como a Inês mo descreveu e que corresponde, de resto, ao modo como a física quântica o teoriza, é difícil não pensarmos nas implicações que uma tecnologia deste tipo teria ao nível daquilo que postulamos ser a identidade. Mesmo que não seja possível termos – como de resto não o parece ser, pois a leitura quântica é de carácter destrutivo –, num determinado instante, dois sujeitos exactamente iguais coexistindo – mesmo que por fracções de segundo –, ficam algumas dúvidas inquietantes.

Cada teletransporte corresponderia, na verdade, a uma espécie de suicídio. O sujeito – ao contrário do que acontece, por exemplo, num elevador, no qual a pessoa que entra e que sai é a mesma – entraria num compartimento e, no processo, seria destruído para poder ser reconstruído noutro local. De certo modo, isto reconfortava a Inês. Era garantia de não poderem existir, em simultâneo, duas criaturas absolutamente idênticas. Mas a questão da recriação criava outros problemas, nomeadamente a questão das versões.

A Inês não estava de todo confortável com o facto de cada transporte ser uma espécie de progressão aritmética de versões de si própria. Afinal, e mesmo sem a possibilidade de existir outro eu para além de mim, pela natureza específica do processo, o sujeito tinha forçosamente notícia de a sua existência corresponder, na verdade, a uma recriação de um original que já não era ele. Para mim, no entanto, este pensamento não era inquietante. Para existir um clone, insistia, tem de existir um original. Se o original é destruído no processo de cópia, a questão não se põe.

Da nossa discordância acerca da natureza filosófica do teletransporte passámos para outro tipo de considerações. “Imagina”, sugeri-lhe, “que o processo de leitura não era destrutivo. Imagina que te conduziam para dentro de uma sala, completamente às escuras, e que te clonavam. Imagina que o processo era instantâneo e que, quando acendiam as luzes, estavam dezenas de sujeitos exactamente iguais a ti, da roupa às memórias, do corpo à capacidade de se auto-nomearem. Haveria alguma forma de podermos distinguir, com certeza, o original dos clones? Mais importante ainda, haveria alguma forma de o original saber que o era?”. Ficámos o resto da noite nisto. Talvez a quantidade de passos dados dentro da sala pudesse ajudar o sujeito a determinar em que posição estava quando se deu a clonagem. Se, de algum modo e sem se mexer, estivesse numa posição inteiramente diferente da distância que imaginava ter percorrido, saberia com certeza que não era o original. Mas era fácil ultrapassar isso. Se o sujeito fosse de cadeira de rodas, teria uma notícia muito mais difusa da distância percorrida. Ou se a sala fosse antecedida por um corredor extenso que dificultasse a leitura da distância às cegas. O facto, indesmentível, é que todos os sujeitos pensariam ser o original e que todos eles nutririam, mesmo não o verbalizando, a mesma dúvida: e se eu for meramente uma cópia?

Não conseguimos resolver o paradoxo. Nem sei se tem resolução. Mas temos de jantar juntos mais vezes.

14 Mar 2017

O longínquo futuro sustentável

“Most people in the world today have an immediate and intuitive sense of the urgent need to build a sustainable future. The stories that carry the message may be about pollution alerts or the bans on driving and closed beaches that result from them, or about hunger and famine, growing health problems such as asthma and allergies, unsafe drinking water, ’greenhouses gases’ and the threat of global warming and rising ocean levels, the destruction of the world’s forests and the expansion of its deserts, the disappearance of species, the large-scale death of fish and birds caused by oil spills and pollution, or about forest fires, floods, dust storms, droughts and other so-called ’natural’ disasters.”
“United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization – Educating for a Sustainable Future” – UNESCO (1997)

A fotografia tirada pelo astronauta William Anders durante a missão Apollo 8 à Lua, em 24 de Dezembro de 1968, permite-nos ter a certeza de que os recursos da Terra são limitados, carecendo de resposta o estudo, acerca de qual será o seu significado para a humanidade, durante o século que vivemos, e se poderemos prever quais serão os acontecimentos históricos existentes, que sofrerão um processo de alargamento ou reversão, e se iremos desfrutar de um estado permanente de capitalismo liberal, irradiando o pico da nossa civilização nos séculos vindouros, bem como o tipo de mundo que os nossos descendentes vão herdar.

É difícil acreditar conscientemente na mudança da nossa natureza de forma a adequá-la à individualidade de cada um, podendo existir um erro de pensamento, pois talvez pudéssemo-nos tornar criaturas dóceis, modestas, com pequenos egos e desejos, cultivando humildemente pequenas áreas de terreno e facilmente dissuadidos de procriar um grande número de crianças. O escritor alemão Kurt Vonnegut, sugeriu no seu romance “Galapagos”, publicado em 1985, que podíamos evoluir para mamíferos aquáticos peludos com cabeças aerodinâmicas, cérebros menores e mais simples e uma propensão para peixes.

É de duvidar que tal aconteça nessa linha de sugestão, pois o nosso esforço para a reprodução em quantidades cada vez maiores mais em uns locais que em outros, sustenta o nosso sucesso como espécie e historicamente permitiu-nos reconstruir as nossas comunidades rapidamente após um surto de fome ou praga. Além disso, a ambição pessoal é parte da nossa natureza e sempre existirão pessoas que vão querer dominar outras, sendo de suspeitar que uma proporção significativa da população vai continuar a ser atraída por essas pessoas de destorcida personalidade, quer sexualmente, como socialmente, forçando a uma maior competição dentro da comunidade, e mesmo que houvesse algum acordo político internacional que moderasse o nosso comportamento, logo seria minado ou derrubado.

É um facto sem margem para dúvidas, que os seres humanos não gostam de ser humilhados por sistemas, regras e limitações. Adoramos escutar os que se libertam da restrição e da opressão. A nossa paixão pela liberdade é intrínseca ao espírito humano, pois somos como a República de Veneza; condenados porque não podemos suportar o pensamento de ser algo diferente do que somos. O petróleo de entre todos os recursos é o que está configurado para reduzir a sua oferta e existência. O petróleo como bem escasso e não renovável é talvez o mais importante que conforma a mente das pessoas, pois sustenta as nossas vidas, desde a alimentação e transportes à lei e ordem, defesa e recreação, sendo certo que terminará em algum momento do actual século ou milénio. É apenas uma questão de tempo. As reservas actuais e comprovadas representam cerca de cinquenta vezes o consumo mundial anual, mas esse índice está sujeito a flutuações consideráveis que podem ser alargadas, à medida que forem encontrados mais campos petrolíferos.

As reservas comprovadas totais foram significativamente maiores em 2012 do que em 2000 e alternativamente, poderão diminuir à medida que o aumento da população e da industrialização consumissem essas reservas mais rapidamente. As reservas de petróleo existentes e a descobrir podem prolongar a sua existência por mais cinquenta ou setenta anos, mas mais importante, é que os fornecimentos de petróleo deixarão de atender à procura mundial em algum momento, e muito provavelmente na vida dos nossos filhos. O mesmo acontecerá com gás natural, do qual depende a produção de fertilizantes. As jazidas de gás natural existentes representam cerca de sessenta vezes o consumo mundial anual, que aumenta anualmente em 2 a 3 por cento.

O gás de xisto alargou muito essas reservas e provavelmente as estenderá ainda mais, mas essa energia extra começou a ser vendida a baixo custo. Poder-se-ia acreditar que os governos procurassem racionalizar esta herança inesperada, de forma a durar o tempo suficiente, para que seja possível encontrar e produzir fontes alternativas e viáveis de energia aos combustíveis fósseis. A Fábula de Esopo: A cigarra e a formiga, em que esta trabalha duramente todo o verão preparando-se para o início do inverno, enquanto a cigarra apenas canta ao sol e não tem nada para viver quando a estação muda, mostra o que acontece com aqueles que não conseguem proteger-se contra futuras faltas, pelo que os preguiçosos sempre colherão o que merecem.

Apenas os ditadores planeiam para um milhar de anos e nessa perspectiva, abre-se diante de nós uma série de possibilidades, sendo que numa extremidade do espectro está o futuro sustentável e dentro deste cenário, descobrimos como produzir toda a nossa energia e fertilizantes a partir de fontes sustentáveis, para que a sociedade possa continuar a existir, como sempre aconteceu, e no outro extremo do espectro está a “crise universal”, ou seja, uma calamidade de proporções maiores que a da “Peste Negra”, pandemia, que durante o século XIV matou cerca de setenta e cinco milhões de pessoas, e que será o resultado de uma falha mundial, em substituir os combustíveis fósseis antes de começarem a esgotar-se.

O problema é de que ambas as extremidades do espectro envolvem a sociedade tornando-se mais hierárquica e menos liberal. Se começarmos por considerar o tipo de resultado mais suave que é o futuro sustentável, que não sendo ficção, permite imaginar uma realidade futura em que cada quinta com geradores hidroeléctricos nos seus riachos nas encostas, painéis solares nos seus campos e turbinas eólicas que elevam nas colinas, as casas e edifícios industriais em todas as cidades brilhando com células fotovoltaicas nas suas paredes e telhados, e as casas rurais com uma caldeira de biomassa. Moinhos de vento enormes no mar aproveitam o poder da brisa do mar, e a cada onda, enormes pistões alojados em túneis nos penhascos conduzem a energia para a rede de distribuição aérea convencional a nível nacional.

As aeronaves voam com biocombustíveis, o que acontece já com a United Airlines, cujo modelo Boeing 737 está a voar na rota Los Angeles – São Francisco, desde 2015, com 30 por cento de biocombustíveis derivado de fezes e gorduras animais. Os tractores e as máquinas agrícolas usam biodiesel à base de soja, como acontece por exemplo, no Brasil. As carrinhas eléctricas levam grãos e animais para os mercados urbanos, de onde são transportados por comboios eléctricos para os seus locais de abate e processamento. Mas mesmo neste estado harmonioso, haverá uma concorrência muito maior por recursos, em particular, haverá uma luta inflexível sobre o solo.

Imaginemos o Reino Unido como um exemplo, e supormos que investimos significativamente em energia solar, eólica e hídrica nas próximas décadas, para que em 2050 possamos produzir toda a nossa electricidade a partir dessas fontes. Trata-se de uma enorme suposição; no entanto, por razões de argumentação, suponhamos que seja possível. Na verdade, vamos ainda mais longe e imaginemos que pelo tempo que o petróleo leva a atingir um ponto de crise, não apenas satisfazemos todas as nossas necessidades de electricidade, mas também, geramos tanta electricidade a partir de fontes renováveis que podemos reduzir o consumo de petróleo, gás e carvão pela metade, que ainda deixaria o problema de substituir a restante metade da energia derivada dos combustíveis fósseis. Todas as formas de biocombustível actualmente em experiência, incluindo a colza, várias nozes, algas, milho e beterraba precisam de terras.

O cálculo para satisfazer apenas metade da procura de transporte rodoviário do Reino Unido em termos de diesel e gasolina, mostra que seria necessário o uso exclusivo de 11,3 milhões de hectares, ou seja, quase 87 por cento da área total do país, representando muito mais que todas as terras agrícolas disponíveis, não incluindo as necessidades de transporte não rodoviário, a produção industrial e de plásticos, máquinas agrícolas e combustível para aviação e também, não tendo em conta o aumento da procura à medida que a população cresce. Ainda que se possa defender a construção de várias dezenas de centrais nucleares, mesmo que fosse politicamente e ambientalmente aceitável, seria apenas uma solução temporária.

As reservas mundiais de urânio são cem vezes menores que o consumo mundial anual, e à medida que o carvão, gás e o petróleo diminuem, a probabilidade é da sua procura aumentar drasticamente, mas que não ultrapassará o petróleo por muitas décadas. Assim, a longo prazo, o futuro sustentável não só requer níveis astronomicamente elevados de investimento em electricidade a partir de fontes renováveis, mas também uma quantidade incrivelmente grande de terras agrícolas a serem dedicadas à produção de biodiesel, bioetanol ou algum outro combustível novo, criando uma tensão entre a produção de alimentos e combustíveis, que já é politicamente explosiva em alguns países duramente pressionados. O crescimento da população e a consequente necessidade de construir cada vez mais habitações, contribuem para essa competição por terra. As cidades, vilas, aldeias e infra-estrutura urbana representam 10,6 por cento da superfície do Reino Unido.

Os bosques, orlas costeiras, dunas e estuários, lagos de água doce, rios, montanhas, e charnecas representam mais 15,9 por cento da superfície do país. Os restantes 73,5 por cento são terras agrícolas, existindo por consequência muito espaço para a construção de novas habitações. No entanto, actualmente, todas as terras agrícolas produzem apenas cerca de 59 por cento das necessidades alimentares totais dos ingleses, ou seja são apenas 72 por cento auto-suficientes, para os alimentos que são vendidos no seu mercado interno. Isso significa que até mesmo as colheitas que tiveram em abundância, como o trigo, cevada, aveia, sementes de linho e colza, não são produzidas em quantidades que permitam reduzir a produção. Tiveram um excedente de trigo em 2008, colhendo 10 por cento a mais do que necessitavam.

O inverso aconteceu em 2012, pois tiveram uma colheita pobre, tendo importado mais do que exportaram. O Reino Unido não é auto-suficiente em carne e construir em terras agrícolas, pode fornecer telhados para as pessoas, mas não vai ajudá-las a alimentarem-se a longo prazo. Os que discordam sempre poderiam argumentar que construir habitações ajudaria a alimentá-los, criando rendimento que permitiria comprar excedentes de outros países. Tal ideia só pode ser uma estratégia de curto prazo, pois sempre que uma parcela de terra é usada para habitação, deixa de ser produtiva para alimentos ou combustível.

Se supusermos que se tinha de entregar uma pequena porção da terra agrícola para ser desenvolvida como habitação todos os anos, em um montante equivalente ao aumento da população actual, e considerando que a terreno cultivado valia cerca de vinte mil libras por hectare, e que a terreno para construção valia um milhão de libras ou mais por hectare, dependendo do local, o balanço patrimonial é assim melhorado em novecentas e oitenta mil libras por hectare de terra de cultivo, e este dinheiro extra nutre a economia, apoiando empregos e aumentando lucros. Agora, suponhamos que os ingleses continuam com tal prática até ao final do século.

A taxa actual de crescimento da população é de 0,76 por cento por ano e quase duplicará em 2100, atingindo cerca de cento e quatro milhões de pessoas e prover habitações, postos de trabalho e infra-estrutura para mais cinquenta milhões de pessoas exigiria que cerca de 6,8 por cento do país fosse desenvolvido, dependendo do uso que puderem dar aos locais previamente desenvolvidos, o que representa 9 por cento das terras agrícolas produtivas no Reino Unido, sugerindo que a produção doméstica total seria 9 por cento menos do que os níveis actuais, a menos que os terrenos restantes fossem cultivados de forma mais intensiva. Mas esses terrenos de cultivo teriam que alimentar um número significativamente maior de bocas e ao invés de satisfazer 72 por cento das necessidades alimentares domésticas, as terras agrícolas reduzidas só poderiam alimentar 33 por cento.

Os ingleses seriam dependentes de alimentos de origem estrangeira. E aí reside o problema, pois dois terços das nações do mundo têm populações a crescer mais rapidamente que o Reino Unido, pois a média mundial actual é de 1,2 por cento anual. Todos estes países estão ocupados a transformar terras agrícolas em habitações para venda, afastando gradualmente a sua capacidade de produzir alimentos suficientes para as próprias populações, muito menos criando excedente necessário para a exportação.

O volume total de culturas de base oferecidas para venda nos mercados internacionais atingirá um máximo em algum momento e, em seguida, começará a diminuir rapidamente. Os preços irão subir em todo o mundo e, inevitavelmente, menos pessoas serão capazes de os comprar. As organizações de ajuda internacional e instituições de caridade serão pressionadas a não gastar o seu dinheiro alimentando vítimas da fome no exterior, mas a aliviar a pobreza nos seus países.

Além disso, o modelo actual não leva em consideração as enormes quantidades de terra necessárias para a criação de electricidade e produção de biocombustíveis, e sem grandes extensões de terra consagradas a essas formas de energia, não haverá cultivo, e nenhum progresso em direcção a um futuro sustentável. A situação imaginada para o Reino Unido poderá bem acontecer em apenas oitenta e três anos.

1 Mar 2017

Previsão por anos de nascimento no Galo de Fogo

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Ano emocionalmente complicado, por trazer muitos riscos, que devem ser evitados. Requer um grande esforço pessoal e exige que se saia da zona de conforto, pois refugiando-se aí, será um ano difícil, com desapontamentos e conflitos.

Os quatro signos com melhores previsões para este ano, Galo de Fogo, serão os bafejados pela sorte Búfalo, Tigre, Rato e Serpente. Já os nativos dos signos de Galo, Coelho, Rato e Cão vão ter um ano de grandes mudanças, por se encontrarem num ano Fan Tai Sui, contra o Tai Sui (Deus do Ano), logo podem enfrentar mais problemas, mas há duas diferentes direcções mediante como se encaram as situações. Se forem lidadas positivamente… O caso dos nativos do signo Rato, encontrando-se contra o Tai Sui (Po Tai Sui), mesmo assim não há com que se preocuparem pois têm cinco estrelas da sorte a ajudar nas mudanças e estas, ao contrário do ano passado, vão ser muito positivas.

GALO

Crescer. Só pelo amor, a sua vida fará sentido e encontrará uma direcção. Será um ano de mudanças difíceis por se encontrar contra o Tai Sui.

Para os nativos nascidos em:
1945 – Terá uma vida agradável, sem necessidade de se preocupar com nada e apenas tomar cuidado para não sofrer nenhuma queda.

1957 – O seu pensar traz uma agudeza inteligente, o que lhe permitirá uma posição importante e ser respeitado, tanto socialmente como no trabalho. Por isso, a sua carreira e os proveitos estarão no topo, mas tenha cuidado e não se esqueça da sua cara-metade. Faça planos, pois é bom ano para criar um negócio.

1969 – Se estiver na via cultural e artística terá um ano promissor e com hipóteses de ganhar coisas boas.

1981 – Com a carreia e o dinheiro numa fase estacionária, emocionalmente vai atrair os outros.

1993 – É promissora a sua vida material, mas facilmente lhe pode acontecer um acidente e para conquistar boa energia, celebre com uma grande festa o seu Aniversário.

2005 – Gosta de pensar e é criativo. Terá que ter cuidado ao usar objectos cortantes. O seu sentido de contradição é próprio da idade e dá continuidade ao conhecido por conflito de gerações.

CÃO

Esperar. Não importa trovoada, vento ou chuva, Sol no seu coração é suficiente. É um ano para esquecer.

Para os nativos nascidos em:
1946 – Continuará a ter uma posição que lhe aufere grande respeito. Não necessita de se preocupar com o quotidiano, que não lhe trará problemas, mas cautela com a saúde.

1958 – Vai ser um ano muito activo e com muitos suportes. Aconselha-se aos seres masculinos fazerem uma Festa de Aniversário.

1970 – Com diferentes vias para desenvolver o seu trabalho, tenha cuidado com a saúde e com as lâminas. Faça uma Festa de Aniversário.

1982 – Apresente-se com um bom trabalho e assim a sua posição será confirmada.

1994 – Um ano normal, mas com grande actividade social. Cuidado com os acidentes de viação. Melhor estudar mais.

PORCO

Retornar. O Céu e Terra não são fáceis de mudar, mude-se a si. Será um ano difícil.

Para os nativos nascidos em:
1947 – Com boas relações sociais, terá muitas ideias e sorte nos negócios. Precisa de fazer uma Festa de Aniversário e cuidar da saúde do seu parceiro conjugal.

1959 – Para quem trabalha em assuntos culturais e criativos será um bom ano, materialmente promissor.

1971 – Contará com a estrela da sorte Lu Shen, que trará um bom rendimento e boas relações públicas. Mas terá também uma má estrela Qi Sha e por isso, hipóteses de se magoar, ou ser mal entendido.

1983 – Será um ano estável, sem grandes problemas.

1995 – Ano para se deliciar com divertimentos, mas evite entrar em confronto com os outros.

RATO

Contentamento. Ouça o coração e o mundo mudará. É um bom ano.

Para os nativos nascidos em:
1948 – Tire prazer com a sua existência e cultive uma nova actividade pessoal.

1960 – Boa hipótese de ser promovida/o no trabalho, logo, ganhará mais, mas, não se esqueça da saúde.

1972 – Serão bafejados na carreira e nos rendimentos auferidos pelo trabalho.

1984 – Trabalhando muito, conseguirá boas criações, mas demasiadas relações poderão trazer algo de errado; tenha atenção, não se canse em demasia.

1996 – Pessoas importantes o ajudarão e terá um ano muito criativo; tente algo de novo, negócio ou noutra área de trabalho, pois terá bons resultados.

BÚFALO

Imenso. Encontrando-se no cume, imagina-se a continuar a subir a montanha. Quando está no sopé, imagina-se a nadar no oceano. Juntando os dois, aparece a Sabedoria. Ano promissor.

Para o nativo nascido em:
1949 – A mente estará limpa e os pensamentos fluem-lhe. Ano materialmente rico.

1961 – Estará no topo quanto à carreira e amor. Terá a estrela da sorte Lu Shen a ajudar na sua carreira, o que o levará a chegar a uma nova etapa e por isso, auferir um bom salário.

1973 – Cairá dinheiro nos seus bolsos devido à sua sorte, mas não se esqueça que, no jogo é preciso sempre saber parar.

1985 – O trabalhar árduo levará a ser promovido e para o sexo feminino, cuidado com os acidentes.

1997 – Estudando bem terá reconhecimento dos mais velhos, que admirarão as suas ideias e criações e assim, brilhantemente se prepara.

TIGRE

Florescente. Não seja o número 1, seja Único. Viver coloca-o a voar. Ano muito favorável.

Para os nativos nascidos em:
1938 – Muitas pessoas irão tomar conta de si, não se preocupe com nada mais.

1950 – O seu poder e posição crescerão e muita gente o respeita.

1962 – Coloque no seu coração a carreira e conseguirá tudo o que deseja.

1974 – Muito criativo, mas cansado do trabalho; cuidado com a saúde.

1986 – Muitos planos para este ano e com bastante suporte e apoios; por isso pode investir de uma só vez em todos os lados.

1998 – Será protegido pelos pais, estudará muito bem e de repente, passará a falar muito bem.

COELHO

Espera. Com boa sorte, avance, mas com azar, fique quieto. Vai deixar algo e o novo tomará lugar ao velho. Ano não muito favorável.

Para os nativos nascidos em:
1939 – Continua com uma mente clara e muita gente irá tomar conta de si.

1951 – A estrela da sorte Lu Shen ajudá-lo-á na carreira e por isso, receberá um bom ordenado. Terá uma vida social e emocional activa, o que o expõe e leva as pessoas a falar sobre si, bem ou mal, criando bastante ruído. Assim, quando decidir realizar algo, tome cuidado para não deixar a cauda de fora. Tome atenção à sua saúde.

1963 – Receberá um dinheiro extra. Use este ano para desenvolver um novo projecto, que lhe poderá abrir uma nova porta.

1975 – Com árduo trabalho conseguirá o que precisa, não abuse das horas extras pois precisa de pensar na sua saúde.

1987 – Terá imensas ideias e uma activa vida social; o Deus do Ano (Tai Soi) pode colocá-lo numa nova situação.

1999 – Terá riqueza material e será um bom estudante. Realize uma grande festa de Aniversário para evitar problemas.

DRAGÃO

Paz. Quando olha desde o cume, nada lhe retira a vista; abrindo o seu coração sente a pulsação, sendo daí que provem o Bom ou o Mau. É um bom ano.

Para os nativos nascidos em:
1928 – Muitas pessoas irão tomar conta de si, não se preocupe com nada mais.

1940 – Respeitado pelas pessoas, não realize difíceis e árduos trabalhos.

1952 – Um bom ano para dinheiro e pode ter a sua carreira num novo patamar.

1964 – Apresente as suas habilidades para chefiar a sua carreira; é o centro do grupo.

1976 – É o ano apropriado para criar um novo negócio, pois conta com bastantes suportes; os seres masculinos necessitam de fazer uma festa de aniversário para precaver desastres. Cuidado com a cana do nariz.

1988 – Estude e será promovido pelo seu chefe, o que lhe trará riqueza material.

SERPENTE

Prestígio. Desconstrua a sua imagem para encontrar a verdadeira. Vai ser um excelente ano.

Para os nativos nascidos em:
1941 – A boa estrela Lu Shen significa ter um bom rendimento e boas relações públicas. Cuide da sua vida emocional e não misture os sentimentos.

1953 – Terá dinheiro extra e variados investimentos dar-lhe-ão muitos proveitos.

1965 – Fará um muito bom planeamento e contará com uma boa qualificação para o realizar.

1977 – Com bastantes suportes, será muito criativo na sua carreira e de todos os nativos de Serpente, é quem conseguirá alcançar mais proveitos materiais; festeje o seu Aniversário e convide todos os familiares.

1989 – Muita gente tomará conta de si, não importa no estudo, ou no trabalho, mostrar-se-á em boa forma. Especialmente se trabalhar em arte, ou assuntos culturais, conseguirá fazer uma boa obra; ano que terá muitas coisas boas para comer.

2001 – Rico materialmente é ano para se apaixonar, mas não entre de cabeça na relação pois ainda tem muito para viver e experimentar.

CAVALO

Emocionante. É vencedor se não pensar no que ganha, ou no que perde.

Para os nativos nascidos em:
1942 – Tem a estrela da sorte Zheng Cai, que o ajuda pelo trabalho a ganhar dinheiro. Vida segura e respeitável, assim como um tranquilo desenvolvimento.

1954 – Trabalhará duramente para criar um novo patamar, mas terá de cuidar da saúde, especialmente evitando noitadas.

1966 – Vai ter um novo desenvolvimento na carreira. Uma boa relação suporta-o, com uma vida social rica.

1978 – Muita gente o suportará, estude bem e o Amor é maior que o Céu.

1990 – Faça grande publicidade a si mesmo, pois terá muitos aplausos. Muito cuidado ao praticar desportos radicais. Será conveniente celebrar o seu Aniversário com uma festa.

CABRA

Tranquilo. O valor de uma pessoa não está conectado com o quanto tem, ou ganha, mas, quanto não gasta. Ano sem grandes problemas.

Para os nativos nascidos em:
1943 – Bons rendimentos, tendo os outros a tomar conta de si. Vida estável e sem problemas.

1955 – Grande criatividade e de riqueza material, pois contará com um bom desenvolvimento nos negócios.

1967 – Um grande poder dá-lhe suporte, conseguindo ser promovido. Mas este ano poderá ver um familiar passar desta vida e por isso, deverá fazer uma festa de Aniversário para, pelas boas energias reunidas, evitar que tal aconteça.

1979 – É bom desenvolver o seu talento nas artes e cultura, o que lhe trará novos caminhos e rendimentos, assim como boas refeições.

1991 – Pensará apenas em fazer amizades e ficar apaixonado, mas a mente estará contra tudo o que lhe é proposto, o chamado espírito de contradição produto do denominado conflito de gerações, próprio da idade e que serve para se questionar e ao colocar em causa algo, permite pensar sobre isso.

MACACO

Florescente. Aceite as mudanças e não se prenda com pormenores. Ano razoável.

Para os nativos nascidos em:
1932 – Este idoso macaco é rico e com a sua posição, imensas pessoas continuam a respeitá-lo. Não se esqueça de fazer exames à saúde.

1944 – Criativo, continuará a trabalhar arduamente, mas não até se sentir exausto e tome cuidado para não misturar as suas emoções. Se for solteiro, parabéns, pois terá uma nova relação sentimental.

1956 – Um novo patamar espera por si, com a ajuda dos seus colegas e amigos. Irá criar uma nova actividade/negócio.

1968 – Mostre talento e terá diferentes hipóteses no seu desenvolvimento.

1980 – Com boa apresentação, será promovido e terá um salário mais elevado. Tornar-se-á famoso na sua área, apenas precisando de ter cuidado para evitar acidentes; por isso, guie com cuidado.

1992 – Conseguirá o emprego perfeito como vem desejando.
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Neste artigo seguimos as previsões feitas por Lei Koi Meng (Edward Li).
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10 Fev 2017

Perspectivas para o Ano do Galo                      

Em primeiro lugar, quero desejar a todos saúde e prosperidade para este Ano do Galo. Os antigos chineses acreditavam desde tempos ancestrais que o galo possuía cinco virtudes, o dom da literatura, faculdades militares, bravura, benevolência e fiabilidade. Mas, hoje em dia, raras são as pessoas possuidoras destas virtudes. Na minha opinião, a atribuição destas virtudes ao galo era uma forma de satirizar a desumanidade do Homem. Desde o regresso à soberania chinesa, Macau e Hong Kong passaram por muitas mudanças, no entanto do ponto de vista político não se registaram quaisquer progressos. Espero que as alterações a este nível se comecem a manifestar a partir da segunda metade do Ano do Galo!

Em 2012 Henry Tang Ying-yen e Leung Chun Ying foram candidatos às eleições para Chefe do Executivo de Hong Kong. Mas só devido à actuação dos grupos de pressão pró-China, o candidato eleito conseguiu evitar a embaraçosa situação de ser escolhido para o cargo com menos de 50% dos votos. Depois de Leung Chun Ying ter assumido o poder a expensas alheias, não tentou unificar as várias facções do campo pró-regime, originadas pelas eleições. Em vez disso, manteve uma governação nepotista, autocrática e de estilo ditatorial que ainda criou mais cisões na sociedade de Hong Kong. Se olharmos para as reformas constitucionais teremos de salientar que, embora a Decisão de 31 de Agosto de 2014 (o método para seleccionar do Chefe do Executivo no 4º mandato em 2012, que se mantém em vigor para o 5º mandato de 2017) tenha sido tomada pelo Governo Central da China, Leung Chun Ying não se esforçou por apresentar ao poder central uma proposta que reflectisse a vontade da opinião pública de Hong Kong quanto a esta matéria. Limitou-se a curvar-se perante os pontos de vista dos membros do Governo Central e ignorou o sentimento das pessoas de Hong Kong. Daqui resultou o insucesso da reforma constitucional na mobilização das consciências políticas locais. E na sequência destes acontecimentos, Leung Chun Ying não tentou sequer pacificar a população depois das forças policiais terem lançado gás lacrimogéneo sobre manifestantes. Optou, em vez disso, por levantar a questão “da independência de Hong Kong” e por enfatizar os problemas internos da cidade agitando o fantasma da cisão nacional (da China). Quis eliminar todas as forças de oposição, servindo o Governo Central e criando condições para a sua reeleição. Podemos afirmar que a recente decisão que tomou de retirar a candidatura à reeleição foi resultado de procedimentos errados da sua parte. Se o resultado do próximo escrutínio para a eleição do Chefe do Executivo não for determinado pela livre vontade dos membros da Comissão Eleitoral de Hong Kong, mas sim pela manipulação de bastidores, que deu lugar à eleição do antigo Secretário da Administração, não irá haver paz na cidade. Resta-nos saber se o Governo Central terá aprendido a lição das eleições de 2012 e, se será ou não capaz de se abster de interferir no processo eleitoral de 2017. Disso irão depender a estabilidade e a prosperidade futuras de Hong Kong.

Em Macau a Comissão dos Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa já está oficialmente constituída e terá um papel determinante para garantir que as eleições venham a ser justas e transparentes, mas para isso terá de se empenhar num combate eficaz à corrupção eleitoral. Comparado com Hong Kong, Macau é politicamente mais imaturo, já que a classe dirigente e os políticos em geral não se empenharam na educação cívica das populações, o que resultou na apatia política das gerações mais jovens. A implementação dos 15 anos de educação gratuita apenas conseguiu garantir 15 anos de escolaridade, mas falhou o objectivo de levar os jovens a absorver os princípios nos quais a educação se sustenta. O desenvolvimento anormal do conceito de ecologia política em Macau levou a uma deformação social. As próximas eleições de Setembro para a Assembleia Legislativa irão determinar o destino da cidade, através do uso do direito de voto. Se esta campanha continuar a ser dominada pelas más práticas de suborno, (oferta de refeições e mantimentos), ou benefícios (viagens, presentes, compensações monetárias), Macau irá a caminho da perdição.

A economia determina as condições de sobrevivência dos povos, mas a política deve dominar a economia. Se os macaenses quiserem alterar o status quo, devem deixar de se queixar e tomar medidas que lhes permitam conduzir a mudança. Terão de participar activamente na discussão dos temas de interesse social, aprender a distinguir o verdadeiro do falso e votar pelo futuro de Macau.

3 Fev 2017

Kung Hei Fat Choi | Olá mundo cruel!

O primeiro dia do Ano Novo Lunar na China ocorre a 28 de Janeiro de 2017 mas o início do ano, sob a égide do Galo, um dos 12 animais que representam os ramos terrestres, terá início no Princípio da Primavera (Lichun). Devido aos ajustamentos do calendário solar, este ano acontece a 3 de Fevereiro. Neste artigo, seguimos as previsões de Lei Koi Meng (Edward Li).

No zodíaco chinês, o Galo (no quotidiano chamado em mandarim Ji, 鸡) denomina-se nos ramos terrestres You (酉) e este ano está conectado com o caule celeste Ding (丁), o Elemento Fogo. O nome do ano é Ding You (丁酉, em cantonense Ting Yao), Tímido Galo ou Galo Solitário que, no ciclo de 60 anos, (60 Jia Zi, 六十甲子) corresponde ao número 34.

Como o ramo terrestre You é sempre metal e o caule celeste corresponde este ano a Ding, o Elemento Fogo, encontra-se portanto o metal por baixo do fogo, que desta vez é yin, ao contrário do fogo yang do ano que está a terminar.

Ano emocionalmente complicado, por trazer muitos riscos, que devem ser evitados, requer um grande esforço pessoal e exige que se saia da zona de conforto pois, refugiando-se aí, será um ano difícil, com desapontamentos e conflitos.

O Tai Soi (o Deus de cada um dos 60 anos do ciclo) deste ano lunar de 2017 é Tang Jie, capitão da dinastia Tang.

Galo

Máxima para o ano: Só pelo amor, a sua vida fará sentido e encontrará uma direcção.
• A palavra que definia o Galo em 2016 era Cansado, já para este ano é Crescer. Os nativos de Galo, como se encontram no ano do seu signo, tem um ano Fai Tai Soi, isto é, contra o Tai Soi. Galo com galo leva à luta entre galos. Tem o seu coração aprisionado, mas contará com duas estrelas da sorte: Jin Gui, a estrela do Cofre Dourado, que trará sorte em assuntos financeiros e acumulação de ganhos, e a estrela Jiang Xing (General) está ligada à autoridade e ao poder. Tendo o quarto ou escritório virados para Oeste evite permanecer neles.
Carreira: Se trabalha por conta de outrem, com a ajuda da estrela da sorte do General vai ser promovido e obter um melhor salário. Se é patrão contará com uma boa cooperação dos seus empregados e um grande apoio dos seus parceiros, ou sócios. É promissor criar o seu próprio empreendimento.
Amor: Com o coração aprisionado, não é bom ano para as relações conjugais, ou encontrar um parceiro. Estando a carreira em franco progresso, nela se vai envolvendo e tenderá a esquecer a família, o que poderá levar à linha vermelha. Tente não se deixar invadir por essa possível relação complicada, pois irá atrapalhar a sua carreira, bem como a relação em causa. É um ano para a carreira, não perca tempo a encontrar um parceiro amoroso.
Saúde: Com o ano contra o Tai Soi, estará também sobre a influência de duas más estrelas, Jian Feng (Fio da Lâmina da Espada), operação clínica, e Fu Shi (Corpo Morto), que representa morte, que poderá ocorrer por desastre, principalmente para os nativos que nasceram no Outono e Inverno. Nos meses de Abril, Maio, Agosto e Setembro precisa de ter mais cuidado e, por isso, sugere-se no início do ano ir ao Templo oferecer sacrifícios a Tai Soi.
Dinheiro: Ano de desenvolvimento, de revolução e de mudança. Vai atingir um novo estádio na sua carreira, pelo que será bafejado com mais dinheiro. Mas note que, como é um ano bastante emotivo, o dinheiro não lhe trará Felicidade e precisará de se enriquecer pelo espírito.

Cão

Máxima para o ano: Não importa trovoada, vento ou chuva. Sol no seu coração é suficiente.
• A palavra deste ano para os nativos de Cão é Esperar. Não vai conseguir encontrar um caminho para seguir. Não terá estrelas da sorte para o ajudar. Mesmo sem saber, provocará problemas, tanto a si como aos outros. Deverá ter paciência, observar, mas não tomar nenhuma acção.
Carreira: Este ano a sua mente não está clara e sente-se sem grande energia. Sem ideias, facilmente segue as dos outros e, por isso, comete erros. Aprecie a sua liberdade. Se faz alguma coisa é mau, por isso mantenha-se quieto. Menos é mais.
Amor: Sem grande apoio para o amor, não tome iniciativas, espere que elas surjam. Faça amizades, mas não espere encontrar a sua cara-metade.
Saúde: Devido à má estrela Bing Fu (Sinal de Doença) vai sentir uma tristeza e pressão dentro de si. Tenho cuidado para resolver esse modo de estar, vá correr, saia e divirta-se. É conveniente fazer um exame clínico. Não coloque altas as expectativas, a vida simples é o caminho da Felicidade. Relaxe e estude mais. Cuidado ao sair para o exterior.
Dinheiro: Ano para esperar. Ninguém o pode ajudar, apenas você sozinho vai tratar de si. É fácil ser magoado pelos seus colegas de trabalho e amigos. É um ano de trabalho para ganhar o salário, mas nada mais conseguirá. Boa saúde e segurança é o objectivo do ano.

Porco

Máxima para o ano: Céu e Terra não são fáceis de mudar, mude-se a si mesmo.
• A palavra para este ano é Retornar. Os nativos de porco esti- veram na mó-de-cima, mas este ano o sentido é inverso. Por isso, deve o caminho ser feito passo a passo e, como não vai ter ajuda, irá andar e trabalhar sozinho.
Carreira: Tem apenas uma estrela da sorte, Tian Yi Gui Ren, ligada à criatividade. Traz uma elevada expectativa/aspiração mas à sua volta ninguém o ajuda e, sem ela, correcto tempo, correcto lugar e um bom parceiro, não terá hipóteses. Por isso, entre os factos e os desejos há um grande fosso, encontrando-se estes muito separados. Não pense prosseguir sempre para a frente; com um passo atrás consegue uma melhor visão e com clareza percebe o que à frente se encontra. Por isso, este ano não poderá fechar-se em si: deverá abrir a sua mente, o seu coração e pedir ajuda aos outros. Se cortar pela raiz o problema, quando ele ainda está no início, este resolve-se. Terá quatro más estrelas: a estrela Tian Gou, que o levará a facilmente criar conflitos, representa acidentes, gastos monetários imprevisíveis, alguém o engana ou casa assaltada; a estrela Diao Ke, que se relaciona com a morte de um familiar; a estrela Qiu Yu, que levará a ter problemas com a justiça, por isso, quando assinar algum documento deve ter muito cuidado; e a estrela Po Sui que se refere a uma separação. Assim, cada passo é dado sobre uma camada na de gelo, pronto a quebrar.
Amor: A vaga emocional é grande. Os casais devem ser pacientes entre eles, pois uma pequena discussão pode aumentar e levar à separação. Para as pessoas singulares, a quinta e a décima segunda Lua são bons meses para desenvolver as relações; mas não tenha pressa, nem force para que aconteçam: siga o destino como ele é apresentado.
Saúde: Com tantas más estrelas, que o colocam sob grande pressão, controle as suas emoções, relaxe mais, viaje mais e trabalhe menos. Coloque-se fora do centro da crise. Durma mais, estude mais, faça mais exercício físico e espere pelo momento certo.
Dinheiro: Se não tiver grandes expectativas, poderá ter boas surpresas.

Rato

Máxima para o ano: Ouça o coração e o mundo mudará.
• A palavra para os nativos é Alegria, Contentamento. É nativo de um dos quatro bafejados animais do zodíaco chinês deste ano e contará com a protecção de cinco estrelas da sorte.
Carreira: Tem três estrelas da sorte: Tian De e Fu Xing, estre- las protectoras que lhe limparão o caminho, assim como Fu De, que lhe trará riqueza material e protecção. Protegido por estas três estrelas, terá a ajuda de muita gente e boas relações com quem à sua volta se encontra. Ainda não terminou de pensar e já as coisas estão feitas! Assim, este ano basta seguir os seus planos, que facilmente os atingirá. Importante é a acção e não só falar.
Amor: Contará aqui também com duas estrelas da sorte. A auspiciosa superestrela Tian Xi (Celeste Virtude), que transforma pequenos infortúnios em bons acontecimentos e que, ampliada pela Xian Chi, propicia o casamento e boas relações com todas as pessoas. Um bom ano para casar. Para os solteiros, deve usar as horas entre as 5 e as 7 da tarde e conseguirá o que pretende. Se já for casado/a poderá ter um lho/a.
Saúde: Cuidado com pequenos acidentes, como cair. Não fale muito, pois poderá criar discussões. As mulheres grávidas devem tomar cuidado e os homens com problemas de próstata. Nas- cidos em 1960 e 1984 poderão necessitar de fazer uma cirurgia. Não abuse da bebida e comida.
Dinheiro: Terá ajuda de alguém no trabalho e, quanto mais se esforçar, mais vai ganhar.

Búfalo

Máxima para o ano: Encontrando-se no cume, imagina-se a continuar a subir a montanha. Quando está no sopé, imagina-se a nadar no oceano. Juntando os dois, surge a Sabedoria.
• A palavra para este ano é Imenso. O Galo e Búfalo combinam- -se muito bem, por isso terá dupla Felicidade. É nativo de um dos quatro animais, dos doze do zodíaco chinês, para quem este ano será promissor.
Carreira: Terá cinco estrelas da sorte a ajudar. A Jin Gui (Cofre Dourado) traz sorte em assuntos nanceiros e acumulação de ganhos e, em conjunto com Jiang Xing (General) e Ba Zhuo (Oito Assentos), ligadas à carreira e poder, leva a que ninguém o pare. Não importa qual seja o seu desejo, conseguirá sempre atingir o que pretende. Vai ser ajudado por imensas pessoas importantes e conseguirá encontrar um parceiro para cooperar. A sua posição tornar-se-á mais alta e com isso, mais pessoas o respeitarão. Já as outras duas estrelas da sorte, Tian Jie e Jie Shen, ajudarão a resolver os problemas. Se quiser vento, terá vento; se quiser chuva, terá chuva.
Amor: Terá um ano com uma vida emocionante e muita gente gostará de si. Mas com a má estrela Bai Hu (Tigre Branco), sobre- tudo a parte feminina, deverá ter muito cuidado para não se apaixo- nar por pessoas casadas, devendo transferir essa relação para uma amizade e daí, com apoio, tirar proveitos. Não perca tempo com ciúmes, só lhe criam problemas.
Saúde: Atenção! Está sobre a influência de duas más estrelas: Bai Hu e Xue Ren (Fio da lâmina com sangue). Por vezes não terá uma mente clara e nesses momentos poderá facilmente sofrer acidentes. Deve no início do ano ir ao templo oferecer sacrifícios ao Tai Soi. Quando não se sentir contente ou precisar de ajuda, procure as pessoas amigas nativas de Rato, Galo e Serpente.
Dinheiro: Um bom ano para bater um novo recorde na carreira, logo o dinheiro também virá com abundância.

Tigre

Máxima para o ano: Não seja o número 1, seja Único. Viver coloca-o a voar.
• A palavra do ano é Florescer. Sem grandes ondas no passado ano, neste é um dos quatro ani- mais que se encontram no topo. Cumprimente-se a si mesmo.
Carreira: Com quatro estrelas da sorte, Zi Wei e Long De, que representam conquistar poder e ser promovido, coloca o tigre com asas, sendo por isso muito bom ano para a carreira. Como gosta de criar novos negócios, terá grande apoio e a sua posi- ção social subirá três degraus, progredirá na carreira, tornar-se-á famoso e rico. As outras duas estrelas da sorte são Ci Guan (Perfeitas palavras) e Guo Yin Gui Ren (Carimbo do país, poderoso), que fazem quando falar ser logo reconhecido e aceite, por isso terá rápido apoio dos outros. Aja pela sua especial via. Mas terá também duas más estrelas, Tian E (Catástrofes provenientes do Céu) e Bao Bai (Perdedor, falhar) o que quer dizer que, por vezes, ocorrerão algumas mudanças que não poderá controlar. Signi ca isso dever projectar planos de longo prazo e escutar mais ideias. Quanto mais pressa, menos velocidade.
Amor: Mesmo sendo este ano a sua carreira o principal ponto, haverá tempo para se dedicar à família. Os solteiros devem lembrar-se que a segunda, a sexta e a décima segunda Lua lhes dará hipóteses de encontrar a sua cara-metade.
Saúde: Não trabalhe exces- sivamente fora de horas e so- bre stress. Para os nascidos em 1950, 1974 e 2010, cuidado pois estão sobre a ameaça de uma lâmina, isto é, uma provável ope- ração cirúrgica. No Outono e Inverno coma mais carneiro, que o tornará mais calmo e relaxado.
Dinheiro: Trabalhando mais, mais recebe.

Coelho

Máxima para o ano: Se estiver com boa sorte, avance, mas com azar, que quieto.
• A palavra para este ano é Espera. O Coelho, animal no lugar oposto a Galo, para este ano encontra-se também ele contra o Tai Soi (Chong Tai Soi, que signi ca mudança e ir contra), assim vai deixar algo e o novo tomará lugar ao velho. Se tiver o seu quarto, ou escritório, virado a Oeste evite aí permanecer.
Carreira: A estrela da sorte Tai Ji Gui Ren signi ca que haverá alguém a ajudá-lo. Como ano de mudança, para bom ou mal só depende como o encara. Assim, seguindo as mudanças, poderá tentar reorganizar a sua companhia, mudar de casa, decorá-la de novo, emigrar, mudar de emprego… O caminho é de árduo trabalho, mas mudar é melhor que car quieto. As más estrelas são Da Hao (gastar uma fortuna) e Yue Kong (mês va- zio), significando que as mudanças lhe levarão imenso dinheiro e terá decisões muito difíceis. Quando as coisas estão fora da sua possibilidade, que de fora. Importante é manter o que tem e, na mudança, encontrar uma nova direcção.
Amor: Grandes ondas na parte emocional, por isso deverá ter muito cuidado. Os casais terão entre eles de ter muita paciência, transformando os grandes problemas em pequenos, senão o divórcio. Se quiser reparar a relação, faça-o na sexta e décima primeira Lua. Os solteiros devem gozar a sua liberdade, pois não é ano destinado a encontrar parceiro.
Saúde: O Galo, com direcção Oeste, representa metal e o Coelho, cuja direcção é Leste, representa madeira, por isso este ano o metal corta a madeira. Assim, precisa no início do ano ir ao templo fazer sacrifícios ao Tai Soi. O oitavo mês é o mais peri- goso. Quem nasceu no Outono e Inverno deverá ter muito cuidado com o fígado, mãos e pés. Se for condutor de veículos deverá tomar redobradas precauções.
Dinheiro: Ano de mudança. Para o bem ou para o mal só depende como o avalia e da sua decisão. Importante é a saúde e não o dinheiro, por isso mantenha-se em segurança.

Dragão

Máxima para o ano: Quando olha desde o cume, nada lhe reti- ra a vista; abrindo o seu coração sente a pulsação, sendo daí que provem o Bem ou o Mal.
• A palavra para este ano é Paz. Como combina com Galo (Liu He, seis que combinam em cooperação e em paz), este ano para os nativos do Dragão é como estar sentado num barco a pescar, em segurança, paz e sem problemas.
Carreira: Muitas pessoas cooperam e apoiam. As estrelas da sorte Yue De e Di Jie podem ajudá-lo a resolver problemas, transportá-lo de uma posição perigosa para uma segura e colocá-lo num lugar de onde pode seguir em frente. Vai chegar a um novo patamar.
Amor: Duas estrelas da sorte, Xian Chi e Yue De, combinam-se e tornam este um bom ano para casar ou para o nascimento de uma criança. Realize uma se- gunda lua-de-mel. Aos solteiros, usem o seu fogo para captar a pessoa certa.
Saúde: Sem grandes problemas, apenas não deve trabalhar intensamente e ficar nervoso. Relaxe, abra o seu coração e fale mais com as pessoas. Os nascidos em 1940 e 2000 facilmente terão acidentes, por isso, tenha cuidado quando sair de casa.
Dinheiro: É um ano para transformar os seus inimigos em amigos. Com a Paz conseguirá mais e use a bondade para ter harmonia, o que lhe trará dinheiro e felicidade.

Serpente

Máxima para o ano: Desconstrua a sua imagem para encontrar
a verdadeira.
• A palavra para este ano é Prestígio. Em ano de Galo, serpente é um dos três animais que com ele estão em harmonia (San He, três que se combinam). É também um dos quatro animais que este ano se encontram no topo.
Carreira: As quatro estrelas da sorte – San Tai (Ter o Carimbo) e Jiang Xing (Estrela do General, ligada à carreira, autoridade e ao poder) – colocam-no a dominar, numa muito importante posição, com poder de decidir e de chefiar os seus subordinados. Já as estrelas da sorte, Jin Gui (Cofre Dourado, que traz sorte em assuntos nanceiros e acumulação de ganhos, logo todo o dinheiro vem parar à frente da porta) e Di Jie (Resolve o problema e previne desastres) levam a um desenvolvimento tão rápido que logo atinge o topo. Precisa de não ser impetuoso e acalmar-se, só assim pode manter a sua boa sorte por longo tempo. Mas com as más es- trelas, Wu Gui (Cinco fantasmas, que representa as pessoas que nas suas costas lhe fazem mal) e Guan Fu, deve tomar muito cuidado e não colocar como garantia a sua palavra.
Amor: Ano de boas relações. Os solteiros, na quinta e nona Lua, terão grandes possibilidades de encontrar a pessoa certa, mas com um ano tão bom na sua carreira, coloque essas boas relações viradas para o seu trabalho.
Saúde: Sem grandes problemas, apenas necessita de se preocupar com as suas impetuosas emoções. Tenha calma e não entre em competições.
Dinheiro: Excelente momento para ganhar dinheiro e fazer bons investimentos, pois terá múltiplas e diferentes maneiras de o conseguir. Deve lembrar-se que cooperação e paz criam tudo o que pretende e necessita.

Cavalo

Máxima para o ano: É vencedor se não pensar no que ganha
ou no que perde.
• A palavra para este ano é Emoção. Terá duas grandes estrelas
da sorte para o ajudar emocionalmente, por isso se tiver suficientes amigos e interiormente estiver estável, não quererá saber de nada mais.
Carreira: A superestrela da sorte Tai Yin (a Lua, que reverte ocorrências negativas em positivas, pois em paz combina bem yin e yang) permite-lhe criar um negócio com um seu colega de sexo oposto. A estrela da sorte Hong Luan (Sorte no Amor) representa, para os homens, a sua esposa ser a sua Riqueza e, para as mulheres, o marido ser o seu Poder. Assim, com um bom casamento terá uma vida fácil e feliz, e aliadas com a estrela Tian Chu (Cozinha do Céu), uma comida saborosa. Por isso, goze a vida e não se preocupe com o restante.
Amor: Com as duas boas es- trelas Tai Yin e Hong Luan não perca a hipótese deste ano casar ou pelo menos encontrar a sua cara-metade. Para os casados, será um ano de grande harmonia.
Saúde: Cuidado com o útero, bexiga e próstata, especialmente para os nascidos em 1954 e 1990. No sexto e décimo primeiro mês tenha muita atenção pois está propenso a ter acidentes. Sendo um ano animado, cheio de convívios sociais, não abuse da comida e bebida e especialmente da vida nocturna. Importante é fazer exercício físico.
Dinheiro: Com uma relação harmoniosa terá abundância, mas não é ano de pensar em fazer dinheiro. Goze a sua liberdade com amigos e tire prazer da vida.

Cabra

Máxima para o ano: O valor de umas pessoas não está conec- tado com o quanto tem ou ganha, mas quanto não gasta.
• A palavra para este ano é Sereno/Tranquilo. Terá um enorme espaço para fazer o que deseja, sem exteriores problemas.
Carreira: A estrela da sorte An Lu (Dinheiro Sombra) significa que conseguirá muito dinheiro fora das suas expectativas e ninguém vai saber que o tem. Já a estrela da sorte Hong Yan (Sorte no Amor) promove uma vida emocionante e socialmente feliz. É um ano relaxante, em que poderá fazer tudo o que quiser. Mas deve contar com a má estrela Qiu Yu (Aprisionado), pois será o seu inimigo ao bloquear-se dentro de si. Abra o coração e liberte-se, sentir-se-á livre.
Amor: Ano para se apaixonar e casar. Os casais estão como peixes dentro de água. As boas relações com os amigos permitem-lhe uma boa cooperação. Sensível às emoções, este ano elas não o irão abalar.
Saúde: É melhor fazer exames clínicos para detectar e prevenir problemas de coração e no sistem sanguíneo. Tenha especiais cuidados com problemas nos membros inferiores, que o afectarão no andar. Controle as emoções e não se feche; saia de casa, encontre-se com amigos ou família, e com eles desabafe as suas tristezas, verá o Sol brilhar.
Dinheiro: Pode fazer tudo o que deseja, pois conseguirá tudo o que aspira e, mesmo sem prestar atenção, consegue ganhar. Ano de dinheiro e amor. Não precisa de perguntar o que os outros pensam de si, viva sem receio e par- tilhe os seus proveitos.

Macaco

Máxima para o ano: Aceite as mudanças, rejeite ser picuinhas e hipercrítico.
• A palavra para este ano é Florescente. Pode passar todo este ano com um sorriso na boca. Terá uma activa vida social, de boas relações com pessoas diferentes. O seu desenvolvimento segue a sua vontade.
Carreira: A superestrela da sorte Tai Yang (Sol) torna-o mui- to activo e encantador, o que poderá ajudar a não ter problemas no emprego. Se o seu sócio for do sexo oposto combina muito melhor. Já a estrela da sorte Xian Chi, propiciadora do casamento e de boas relações entre as pessoas, permite cooperar com diferentes pro ssões e poderá mostrar o seu talento como chefe. Agarre esta hipótese para tentar criar grupos de diferentes áreas pro ssionais e coloque-se como maestro. Mas terá duas más estrelas, Hui Qi (Energia Suja) e Tian Kong (Va- zio Céu), o que significa não dever tomar decisões, pois quando alcança esse objectivo, logo tomará outra decisão e assim quererá mais e mais.
Amor: As duas estrelas da sorte, Tai Yang e Xian Chi, tornam o amor maior que o Céu. O amor dá-lhe uma grande confiança e é bom ano para casar, ter lhos e tornar-se chefe. Use a sua facilidade de falar e comunicar para criar boas relações, que o ajudarão a encontrar importantes apoios. Mas, cuidado, não misture amor com outras relações, pois tal só lhe trará problemas.
Saúde: Atenção ao seu aparelho reprodutor, útero, bexiga, próstata e pele. Os nascidos em 1944, 1980 e 2004 deverão tomar cuidado para tentar evitar os acidentes. Uma activa vida social faz esquecer a sua saudável vida regrada. Não crie discussões, pois estas só trazem problemas e, com uma pacífica actuação, soluciona-os.
Dinheiro: É ano para realizar os desejos há muito tempo aguardados. O Amor dá a hipótese de o dinheiro ir chegando até si. Não precisa de trabalhar duramente, pois conseguirá o que deseja, harmonia e Amor. A carreira poderá atingir o apogeu.

28 Jan 2017

A China no Ano do Galo

“Chinese economy is faced with downward pressure as many other countries are now. However, China’s 1.3 billion population has offered a giant market with various buffer zones for the world’s economy and enormous consumption demands for its recovery. China imports goods worth $3.2 million from other countries in every 1 minute; and one in every 10 products exported around the world is bought by China. Just imagine, if every Chinese person buys products or service worth $100 from your country, $130 billion are generated in bilateral trade.”
CIPG Digital Media Center, January 17, 2016

O Ano Novo Chinês começará, tendo como regente o Galo, a 28 de Janeiro de 2017 e terminará a 15 de Fevereiro de 2018, marcando o final do ano do Macaco. O Galo é o signo da madrugada e do despertar. O triunfo e o êxito só aparecerão após muito trabalho e paciência. Assim, neste novo Ano Novo Chinês que se aproxima, a economia chinesa adaptou-se a uma nova normalidade em 2016, caracterizada pelo excesso de preocupações relativas ao crescimento do PIB, reforma estrutural dirigida à oferta, política monetária e ao Renmimbi (RMB), entre muitas outros factos e situações.

O próximo Ano Novo Chinês está a poucos dias de se iniciar e a grande questão é a de saber fundamentalmente, como será o desempenho da economia chinesa, existindo desde logo seis sectores que merecem a máxima atenção. Apesar da pressão descendente, o crescimento económico da China estabilizou-se em 6,7 por cento nos três primeiros trimestres de 2016, desmentindo os rumores de uma dura aterragem.

Os políticos chineses, em 2017, vão continuar a dar prioridade à estabilidade, dado que o Partido Comunista da China irá realizar o seu XIX Congresso Nacional, em Pequim, durante a segunda metade do ano. Os economistas prevêem um pouso suave da economia chinesa, e assinalam que a política fiscal pro-activa continuará a desempenhar um papel positivo. O sólido crescimento da China será garantido, quer por um forte potencial de crescimento, como por políticas de controlo macroeconómico.

O crescimento do investimento imobiliário e as vendas diminuirão, mas o efeito negativo será compensado pelo investimento em infra-estruturas. A Conferência Central de Trabalho Económico tem realizado a pesquisa do progresso, mantendo a estabilidade, que é o tema principal do trabalho económico, comprometendo-se a estimular um progresso significativo na reforma estrutural direccionada à oferta. É de crer que a China melhorará o seu sistema económico básico, e acelerará as reformas para delegar competências e optimizar os serviços.

É de crescente importância a reforma estrutural dirigida à oferta e as políticas de controlo macroeconómico, sendo que o crescimento estável da China não poderá ser conseguido sem reformas, que nunca terão sucesso se não forem controladas. Observando a partir de uma perspectiva global, a vantagem da China reside na sua ampla margem de manobra para realizar as necessárias reformas. A China espera realizar reformas fundamentais em empresas públicas, tributação, finanças, solo, urbanização, segurança social, educação ecológica e abertura.

A política monetária da China será prudente e neutral de acordo com a Conferência Central de Trabalho Económico. É pouco provável que no Ano do Galo, haja uma flexibilização monetária significativa e a política monetária poderá mudar, deixando de apoiar tão drasticamente o crescimento para evitar riscos. É de esperar que o banco central opte por instrumentos, tais como acordos de recompra e facilidades em empréstimos a médio prazo, para garantir a liquidez e evitar um crescimento excessivo do crédito.

A política monetária da China será determinada pelo objectivo de crescimento económico anual do governo, sendo de esperar uma crescente inflação, a subida das taxas de juros nos Estados Unidos e um yuan mais fraco, o que reduzirá o espaço para a flexibilização. O RMB tem registado agudas desvalorizações desde Outubro de 2016, causando preocupações no mercado. Todavia, é de descartar a possibilidade de quedas persistentes, e acreditar que a China pode gerir o impacto, mesmo se ocorrerem alterações nas taxas de câmbio maiores que o esperado.

É de considerar que não existe precedente para um país com o maior superavit em conta corrente no mundo, uma taxa excepcional de crescimento do PIB, abundantes reservas internacionais e restrições de capital, venha a sofrer uma depreciação significativa da sua moeda. O sólido progresso económico da China determina que o RMB irá manter a sua robustez contra outras moedas, considerando a recente debilidade, como uma correcção da excessiva valorização anterior.

É de esperar que o RMB termine a série de perdas na primeira metade do ano. O sector imobiliário, sendo um factor crucial do investimento em activos fixos, irá ser vigiado de perto pelo seu efeito no crescimento económico. O mesmo deveria acontecer em Macau onde as flutuações de carácter especulativo têm sido díspares, com um aumento geral de 32 por cento nos preços por metro quadrado das casas em Dezembro de 2016, quando comparado com o mesmo mês de 2015.

A China contará com regras mais severas para a compra de casas a fim de travar a especulação e a revisão do aumento de preços, pelo que a venda de propriedades crescerá a ritmo menor. Todavia, é de esperar que a urbanização da China apoie a procura de casas e mantenha um sólido crescimento do mercado. O principal órgão legislativo da China aprovará uma discutida lei de imposto sobre imóveis que fará aumentar o custo da especulação. É provável que o governo continue com as políticas imobiliárias diferenciadas para lidar com a divergência do mercado, entre as grandes e as mais pequenas cidades.

A economia mundial enfrenta uma lenta recuperação, com uma população em envelhecimento e uma larga diferença de riqueza, entre outros obstáculos a longo prazo. A China, por contaste, ainda que viva uma desaceleração, registou um invejável crescimento entre 6,5 e 7 por cento e continua a ser um poderoso motor a nível global, e neste contexto, o mundo depende cada vez mais da China para fazer face aos obstáculos que se apresentarão.

A China, apesar das invectivas de Donald Trump, terá um papel ainda maior no impulso da globalização. Tal como as maiores economias do mundo, os laços económicos entre a China e os Estados Unidos, merecem maior atenção, pois é provável que a decisão de Donald Trump de apelidar a China como manipulador de moeda e impor grandes tarifas alfandegárias contra os seus produtos, venha a criar uma enorme incerteza e a gerar efeitos negativos.

A nível global há que relembrar que nos princípios desta década, a corrente central de pensamento nos países centrais e em outros grandes actores internacionais, imaginava a consolidação de uma nova ordem internacional, assente sobre três pilares básicos. A hegemonia dos Estados Unidos apoiaria a paz internacional e o contínuo avanço da democracia liberal. O modelo de sucesso de integração continental, seria a contribuição da União Europeia (UE), o que poderia, eventualmente, ser imitado em outros locais.

A Rússia em declínio, uniria forças com a China, que continua a crescer, reconhecendo ambas as vantagens oferecidas aos seus países, em serem parte deste mundo concebido pelas potências ocidentais. Mas vai começar o mandato presidencial de Donald Trump, e a sua declarada intenção, é de que os Estados Unidos abandonem muito do seu esforço global e se concentrem em resolver os problemas de fronteira. Esse é o sentimento dominante na maioria dos americanos.

A Europa parece estar à deriva. A UE golpeada pelo Brexit, o destino do euro e os milhões de imigrantes que chegam, fez perder de vista boa parte do projecto original e não há nada de novo, que enriqueça e substitua a actual versão. Quanto à Rússia está demonstrada a sua política de ingerência e ocupação, pela invasão da Crimeia e no Médio Oriente.

A China não pertence ao Tratado Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), assinado em Auckland, a 4 de Fevereiro de 2016, e do qual fazem parte os Estados Unidos, Japão, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Peru, Malásia, México, Nova Zelândia, Singapura e Vietname, representando cerca de 40 por cento do PIB mundial, um terço das exportações mundiais e abarca um mercado de oitocentos milhões de pessoas, e apesar dessa ausência avança para impor o seu domínio sobre os mares que a rodeiam, e têm deixado bem claro que não aceita a estratégia americana, e que a pode desafiar com sucesso. Esta mudança não aconteceu de um dia para o outro, pois existiam muitos sinais que a prediziam, ainda que quase sempre aconteçam despercebidos.

A crise financeira global de 2007-2008 que ainda faz sentir os seus efeitos, revelou fraquezas e limitações do actual modelo capitalista. A UE teve a sua sacudidela com a crise do euro e da zona euro. A China nunca deixou de crescer e assumir maiores parcelas no comércio e poder mundial. A novidade agora é um novo tipo de nacionalismo. A “América Primeiro” promete um recuo da globalização e uma concentração no isolacionismo.

A Rússia, com uma economia fraca, mas ainda com poderosos recursos militares, e quer uma desforra do “Império dos Czares”, depois da humilhação sofrida após a queda da União Soviética. A China, o “Império do Meio”, a maior economia do mundo até o século XVII, quer ressuscitar e deixar para trás a humilhação de ocupações sucessivas do seu território durante mais de cem anos. Todas estas nações, até agora actores de segundo plano, procuram definir um novo modelo de relações internacionais que, obviamente, seja mais favorável aos seus interesses nacionais do que o actual.

O Ano do Galo irá assistir ao enterro da velha ordem e à exigência de uma nova, que especialmente considere o novo estatuto da China como uma superpotência global, sendo que em futuro próximo, este novo mundo multipolar terá que encontrar um novo equilíbrio.

25 Jan 2017

Expectativas para 2017

As eleições para a Assembleia Legislativa terão lugar em Setembro de 2017. Com a aproximação deste acto eleitoral a população poderá vir a ser mobilizada pelo Governo para manifestações de apoio. As palavras e as acções dos políticos e, eventuais incidentes em que venham a estar implicados, passarão a estar na ordem do dia. Mas, acima de tudo, aparecerão muitos indivíduos a reclamar por justiça para o povo e a bater-se pela democracia e pelo bem-estar social, utilizando fundos do Governo para conquistar votos para si próprios.

Neste contexto, os macaenses devem encarar esta questão de forma racional não se deixando influenciar pelos interesses envolvidos. Quando andam todos atrás de proveitos pessoais, a sociedade sofre com isso e também o nosso futuro.

Há pouco tempo o Governo implementou medidas para regular a circulação automóvel, como o aumento substancial das multas a veículos que estacionam em locais não permitidos durante muito tempo. Esta medida foi muito mal recebida pelo público e houve quem chegasse a propor a organização de manifestações de protesto. Estes aumentos de multas, e taxas de parqueamento, já tinham sido propostos pelo Governo há alguns anos atrás no âmbito das políticas de transportes terrestres. Mas na altura os críticos ultrapassaram largamente os apoiantes. Na verdade, se os condutores em vez de estacionarem em locais proibidos deixarem os carros nos parques, não serão penalizados pela nova legislação. Mas como não existem locais suficientes para parqueamento legal que satisfaçam as necessidades dos cidadãos, o que irá acontecer se não se tomarem as medidas adequadas?

Têm também sido tópicos de discussão os actos de omissão e as arbitrariedades por parte de funcionários do Governo. Há pouco tempo, o marco de fronteira do Templo de Lin Kai, da área de San Kio, tornou-se outro assunto polémico. O marco, uma pedra de pequenas dimensões, estava colocado desde há muitos anos junto a uma casa antiga, adjacente ao Templo, e quem por ali passava mal dava pela sua existência. A antiga casa foi recentemente demolida e no mesmo lugar foi construído um prédio novo. O local onde o marco está colocado tornou-se subitamente o sítio de passagem para que entra e sai das lojas do andar térreo do novo edifício. Por causa disso houve quem sugerisse que o marco deveria ser deslocado para outro lugar. Felizmente, esta sugestão não vingou e o marco continua onde sempre esteve, sem ter sido obrigado a “emigrar” à força.

Talvez haja quem defenda que não é nada por aí além deslocar a pedra alguns metros para a direita. Mas se aceitarmos esta ideia, então a “Lei de Salvaguarda do Património Cultural” de Macau pode ser considerada letra morta. Se a deslocação da pedra fosse encarada como uma coisa de somenos, não haveria razão para o empreiteiro não a ter mudado de sítio quando construiu o edifício. E de facto isto não aconteceu porque o marco está protegido pela “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”, já que é parte integrante do Templo de Lin Kai, considerado património cultural, ao abrigo da protecção estatutária, e não pode ser removido nem deslocado. Para deslocar o marco, serão necessários procedimentos estatutários governamentais ou de uma associação abalizada para o efeito. Quem cometer uma transgressão terá de enfrentar a punição estipulada por lei. Afinal de contas, em Macau ainda impera o estado de direito.

A minha expectativa para 2017 é que Macau se torne em pleno sentido uma sociedade regida pelos princípios do estado de direito, onde todos os cidadãos respeitem a lei e a acção do Governo siga o mesmo exemplo. Quanto aos candidatos a deputados para a Assembleia Legislativa, desejo que para além de virem a ser “fazedores” de leis, também as defendam e não se limitem a ser políticos cuja única preocupação seja a de conquistar votos.

6 Jan 2017

O ano da máscara

Previsões fazem os bruxos ou, na melhor e mais enigmática das hipóteses, o Yi Jing. Da minha parte, teríeis cassandricas opções, pois que a paisagem não inspira discursos belos e ainda menos idílios. Mas tal não será caso para grandes desesperos. Aliás, a malta de hoje não é de desesperar. A coisa sagra-se mais em deixar andar o comboio e aproveitar o deslizar da carruagem, sem mesmo reparar por quais carris se rola ou se enrola ao deslizar.

É assim o mundo e podia ser pior, rezaria o Dr. Pangloss* se rezar lhe ajuntasse vantagem, nesse exacto mundo que ele percepciona e não noutro, lamentavelmente, oculto a olhares burgessos. E assim continuaremos em 2017, não muito diferente de 1917, à excepção de uma revolução cujo desfecho resultou na morte das revoluções.

Andámos muito desde então. Para a frente e também para trás. Muito se liquidou: algumas coisas bem, outras não. Há uma cegueira cíclica nesta humanidade indecisa: o extermínio de pessoas e de livros. Aos últimos, hoje, não é preciso queimá-los. Eles encarregam-se disso.

E é neste espírito, imerso e paradoxal, que vos proponho em 2017 o adensar da máscara, o aumentar da distância em relação ao outro, a construção de muros entre nós e esse México que por aí anda. E esses mexicanos que o paguem. Sejamos realmente a trampa que estamos mortinhos por ser. Provavelmente alguém nos dará razão.

Propaguemos um outro email, ainda nosso mas não totalmente, domínio do nosso ego virtual e não realmente implicado no que verdadeiramente pensamos ou sentimos. Máscara. Máscara por trás de máscara. Máscara. Máscara pintada, retocada, maquilhada; máscara exultada. Máscara gigante ou máscara anã. Máscara matrioska. Sem sobressaltos por detrás da máscara da máscara. Máscara adamascada ou em tule. Não importa: em caso algum a pele se vislumbra.

Não ousamos outro modelo, outra via, que não a via das máscaras. Impotentes ou guerreiros, vagabundos ou burgueses, sedentos ou esfomeados, 2017 exigirá a mascarada, nos melhores momentos a mascarilha. Fingiremos ser; actividade que praticamos sem remorso e quantas vezes sem presunção.

E o que fica, perguntais, quando já manso no lar ousais a máscara tirar e por debaixo outro careto vos pergunta sem cessar o que fazer do abismo que mesmo num sono sem fundo arrogante se interpõe? Nada. Talvez viver.

Viver assim… ausente, no meio do nevoeiro. Sem cão, sem estrela, sem ideias de permeio. Só tactear: ser alheio, afastado das formas, dos verdadeiros corpos, dos verdadeiros copos, das orações; nada agarrar, passar fantasma, roçagar. Viver de exílio, mestre da saudade e da cidade interdita a contemporâneas efabulações. Preferir o nevoeiro às luzes rançosas. Escolher o tenebroso, a jugular impenitente, sempre a saltar à nossa frente, a deixar-se abocanhar, plena de vida, pujante de amor, ou não fôra ela natureza e mãe e tudo.

E o sabor do nosso sangue, interdito e intermitente, que tanto se ergue em tempestades como repousa ignorante e parvo em colos de além-fronteiras, onde o sossego nos maquilha de rosa e cor-de-vinho de Bordéus, alucinada cor de mantos e desmedidas cortinas.

Estaremos menos sós. A solidão é tão impossível como o convívio. As máscaras encontrar-se-ão. Dar-se-ão bailes, cruzeiros, manifestações de massas. Espectáculos de rua, mariposas, ajuntamentos. Serão breves como os dentes. Retornaremos ao sonho porque não há mais nenhum lugar para ir. O mundo encontra-se, francamente, esgotado. Nessas horas frágeis encontraremos o ano. 2017. Como poderia ser qualquer outro: os sonhos não conhecem o tempo, apenas se alimentam de espirais. Nós, omnívoros, comemos tudo.

Um Bom Ano para os uns e para os outros.

*Personagem de Voltaire para quem vivemos sempre no melhor dos mundos e da bajulação aos poderosos havemos de usufruir alguma vantagem.

4 Jan 2017