Invocar aos deuses o “tempo real”

Em entrevista recente, Paula Panarra (GM da Microsoft Portugal) afirmou: “O que acontece hoje em dia é que o volume de dados que são produzidos todos os dias, quer por nós na nossa vida pessoal, quer pelas empresas na forma como operam, e aquilo que é o poder computacional que as novas tecnologias, nomeadamente na nuvem, conseguem trazer fazem com que a resolução da algoritmia possa acontecer em tempo real”*.

Em primeiro lugar, confesso que admiro o discurso particularmente assertivo dos técnicos. Além de exímios na arte da predicação, recorrem a uma poética de ‘lança em riste’ e concebem metáforas como quem trata a esfericidade do planeta por tu. É o caso da “algoritmia”. Traduzindo: os dados a que acedemos nas morfologias da rede permitem que as respostas – é essa a crença! – nos surjam em “tempo real”.

Este “tempo real”, citado por Paula Panarra, aproxima-se do conceito de “marcação” de Blumenberg (uma clareza súbita que nos imobiliza e que parece atraída por uma dada finalidade) e, em termos de impacto, não anda longe das fotogenias do cinematógrafo que se caracterizava pelo fascínio hipnótico das imagens que passaram a revisitar detalhes do quotidiano a partir do final de oitocentos. A designação “tempo real” pretende, pois, assinalar uma coexistência meio mágica entre o acontecer e o acontecimento. Trata-se, por outras palavras, de realçar a contingência em flagrante como se ela estivesse prestes a revelar-nos um segredo.

Sem ironias, tenho simpatia pela expressão “tempo real” e por quem alimenta a crença na sua quase invulnerabilidade. A expressão, com subtexto utópico, é geralmente usada para se contrapor ao tempo dito diferido. Curiosamente, o diferimento confunde-se com o modo como damos conta do mundo que nos rodeia. Cito Damásio em ‘O Sentimento de Si’: “A ideia de que a consciência chega atrasada, em relação à entidade que a inicia, é apoiada pelas experiências de Benjamim Libet sobre o tempo que um estímulo demora a tornar-se consciente. O atraso é de cerca de quinhentos milésimos de segundo.”. Ou seja, quando estou a ler este texto, existe um primeiro mapeamento do proto-si que depois se transforma em figuração ao nível da consciência nuclear e que, logo a seguir, surge na consciência biográfica, essa área de montagem em que um dado aparentemente imediato se apresenta finalmente à consciência. Convenhamos que a imagem é ainda filtrada por códigos que permitem decifrar o próprio registo da leitura (a par de outras operações que, em simultâneo, me dizem que ‘isto tudo se está a passar comigo’ e não com outrem). O tempo que passou parece realmente não existir; a sugestão de que tudo é instantâneo e sem entraves permanecerá. E é nessa sugestão que reside a fé.

De qualquer maneira, o que hoje não for considerado como “tempo real” está (e estará cada vez mais) ‘fora de jogo’. É um modo tácito de exclusão que nos cativa a angústia do dia-a-dia. E como adoramos esse ‘corre-corre’ sem um horizonte claro! Uma interminável fuga para a frente que nos mergulha involuntariamente no âmago da ‘correção’. Por outro lado, dentro do jogo do “tempo real”, acredita-se – é essa a tal crença – que tudo se assinala e incorpora no instante em que emerge, acabando este aspecto, justamente, por colocar em evidência a extrema irrealidade do “tempo real”.

O paradoxo torna-se, afinal de contas, no dom mais cativante do mito do tempo real e também naquilo que o torna francamente apelativo. Ao repetir-se até à exaustão “tempo real”, o tempo corre até o risco de se tornar capturável. E uma ilusão em era de ilusões converte-se, claro está, na mais pura das verdades dogmáticas.

O enredo do conteúdo “tempo real” é afirmativo e inebriante. Toca os sentidos e excita o domínio das certezas (a)cronológicas. De algum modo, para além do “tempo real”, já não existirá praticamente história, nem futuro. O “tempo real” ameaça impor-se como o clímax exclusivo de uma narrativa que se bastaria ao instante. Uma coexistência e uma intensidade que, um dia, não nos deixarão respirar. Para lá caminha apressadamente todo o ‘mainstream’ que nos cavalga e envolve os dias. Não é assim, minha cara Paula Panarra?

Ao convocar-se o “tempo real”, tal como dantes os poetas recorriam à invocação às musas, tudo se torna possível. Sobretudo porque mais de 40% da população mundial tem menos de 25 anos. A nova geração nasceu dentro do presente, extasiada por um imenso aquário de amnésia colectiva e sem ferramentas que lhe possibilitem um mínimo de contexto histórico ou uma projecção futura, a não ser a tecnológica que lhes garante que o futuro é já hoje. A espuma acaba por dominar o cenário, como aliás foi recentemente testemunhado pelo politólogo americano Vali Nasr a propósito do Médio Oriente: “Os protestos organizados pelas redes sociais crescem mais depressa, mas também morrem rapidamente.”*.

A espuma (ou a diluição) do quotidiano e o tempo real são, na realidade, a luz e a sombra de um mesmo apagão. Mas um apagão que não recobre a vida toda, felizmente.


*Paula Panarra. entrevista a Paulo Matos em Visão (edição de 24/12/19).
*Jorge Almeida Fernandes. ‘Que pensar das rebeliões que agitam o mundo?’ em Público (edição de 25/11/10).

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