Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteTonan Quito, actor e protagonista de “Entrelinhas”: “Bem-dita a hora em que aceitei este desafio” O Centro Cultural de Macau, apresenta hoje a primeira sessão de “Entrelinhas”, na edição deste ano do Festival de Artes de Macau (FAM). Trata-se de um monólogo escrito por Tiago Rodrigues de propósito para Tónan Quito, que em entrevista ao HM fala de um texto que é muito mais sobre a amizade do que propriamente sobre o processo da escrita Vem a Macau com o “Entrelinhas”. Como se sente por apresentar esta peça num destino tão longínquo [em relação a Portugal, onde estreou em 2013]? É uma grande honra ir ao festival e sinto-me perplexo com o convite, estou muito contente por ir. Há dois anos tive a experiência de ir ao festival de teatro de Aranya, no norte da China, e agora estou também muito curioso por estar perto de uma cultura diferente e perceber como é que o espectáculo pode ecoar junto a pessoas com uma cultura e maneira de estar completamente diferente da minha, ou no local onde o espectáculo foi criado, que é Portugal. Apesar de Macau ter uma influência histórica portuguesa, e neste sentido estou ainda mais curioso para saber como é que o público irá ver este espectáculo. O público é sempre importante para todas as peças de teatro, mas nesta em particular, tratando-se de um monólogo, é importante perceber a relação com este texto, em particular? Sim. Este é um espectáculo muito próximo do público, mesmo a nível físico. Estou mesmo em frente às pessoas, só a contar uma história, que é a história deste grande falhanço que foi fazer o que era suposto ser um espectáculo. E, neste sentido, [é um espectáculo] que pede uma grande proximidade e cumplicidade com as pessoas. Normalmente faço uma versão francesa para um público francês, mas eu compreendo a língua e as reacções, há um legado comum. Mas quando vamos assim, para fora, em que falo na minha língua, e certamente alguém poderá entender o português, mas muita gente não vai aceder ao português e terá de ler legendas, há outra dificuldade, que é eu comunicar esta história. É eu a comunicar-me a mim, como actor ali, naquela noite, numa maneira de estar diferente, que vai pedir empatia, uma escuta, a atenção das pessoas para aquilo que estou a fazer. O que é que este espectáculo conta nas entrelinhas? Nas “Entrelinhas” está uma história que, cada vez mais, vou percebendo é muito mais sobre amizade do que o espectáculo de um autor que tem de escrever para um actor. Acho que é uma história que fala muito mais sobre a nossa amizade [entre Tiago Rodrigues e Tónan Quito], sobre a amizade entre duas pessoas que se descobrem nos trabalhos que vão tendo, nos encontros que vamos ter, nos encontros com a família. Portanto, invocamos uma quantidade de gente para esta história, e o espectáculo acaba por ser uma maneira de eu e o Tiago estarmos juntos, mesmo não estando. Nas entrelinhas está isto. Não é, portanto, um espectáculo focado no tal falhanço da escrita. Não, mas isso é uma coisa que ando a descobrir, e que nós dois fomos descobrindo à medida que vamos fazendo o espectáculo. Em 2013, isso estava nas entrelinhas, nós é que ainda não tínhamos percebido que estava lá. O texto foi escrito para si. Como foi o processo de preparação? Além disso, já passou algum tempo entre os tempos iniciais e esta apresentação agora no festival. Há um certo distanciamento, outro olhar sobre a peça? Não. Continuo a descobrir ainda muito sobre aquilo que a peça é, e como é que faço isto. Isto porque tive mais ou menos um mês no processo de trabalho antes da peça começar, entre a escrita do texto, ensaiar e decorá-lo. Tudo foi feito num curto espaço de tempo. Na estreia não tive muita noção do que o texto era, até porque a minha filha nasceu três dias antes e a minha cabeça estava muito mais com ela do que com o texto. Mas acaba por ser engraçado, porque hoje em dia fazer este texto é reviver aquele dia e uma maneira de estar com ela, sem estar. Mas continuo a descobrir coisas no texto. Naquela altura [2013] fiz dez espectáculos, e no ano seguinte fiz mais dez, e desde 2021 que tenho feito cerca de dez espectáculos por ano, talvez mais [com o “Entrelinhas”], e vou sempre disponível para descobrir o texto outra vez. É sempre um trabalho muito activo, o descobrir o texto com as pessoas a quem o estou a contar, além de que a própria reacção das pessoas condiciona, às vezes, a maneira como o conto. Este foi o seu primeiro monólogo. Como foi essa experiência de estar sozinho, em palco, pela primeira vez? Já tinha feito um monólogo antes, mas era falso, porque tinha um manequim com quem falava, ele é que não respondia (risos). Era uma coisa pequena, com 15 minutos. Confesso que a sensação inicial não foi muito boa, confesso. Fazer monólogos não é uma coisa que me atraia muito, mas na altura o Tiago convenceu-me a fazê-lo e partimos. Mas depois, à medida que fui fazendo, percebi que é um falso monólogo, pois estou com as pessoas a contar isto, e já não estou sozinho. Depois vou utilizando muitas pessoas para serem os meus recompositores, na medida em que os uso como personagens do texto. Então, de certa maneira, é um monólogo cheio de personagens e de um mundo que invocamos para o palco. Percebo que não estou sozinho e torno-me um bocadinho mais suportável. Porque é que não gosta tanto de fazer monólogos? Há um medo acrescido? Sente-se sozinho em palco? É, gosto de estar com pessoas e colegas, gosto de ser provocado e responder às provocações. Gosto de contracenar, da acção, da reacção, da pergunta, da resposta, e de construir colectivamente um trabalho, um espectáculo. Claro que o espectáculo é feito lado a lado com o teatro, sempre, desde o primeiro momento. [O Entrelinhas] é uma co-criação, apesar de ter sido ele [Tiago Rodrigues] a escrever e depois eu a interpretar, mas foi sempre criado a dois. Portanto não estou bem sozinho. Como é ter o Tiago Rodrigues, um encenador e dramaturgo premiado, a escrever para si? Tenho muita inveja dele (risos). Estou a brincar, acho óptimo, e desejo-lhe sempre todas as felicidades, e é muito bom poder partilhar com ele este percurso. Ele influenciou muito a minha maneira de trabalhar, não só como actor, mas a ensinar também. Foi sempre uma partilha. Claro que o facto de estar a viajar com o “Entrelinhas” é muito à custa da pessoa que é o Tiago, que, de repente, é um nome apelativo, com um tipo de trabalho que interessa. Em boa hora o Tiago meteu na cabeça que queria escrever um monólogo para mim, e bem-dita a hora em que aceitei este desafio. Ele tem mesmo este lado caótico da escrita, de deixar tudo para a última da hora? Um bocadinho. Acho que já deve estar um bocadinho melhor, mas acho que continua a deixar um bocadinho para a última, pelo menos dos últimos relatos que ouvi. Preparar um monólogo é mais difícil do que preparar uma peça? Não. A dificuldade está lá sempre. É difícil fazer uma peça porque estar com outra pessoa em cena é sempre imprevisível, pelo menos na maneira como gosto de trabalhar. Obviamente que ensaiamos, combinamos regras, habituamo-nos à maneira do outro fazer, e vou-me descobrindo através do outro. Num monólogo só dependo de mim, estou disponível para me entregar e partilhar a história com as pessoas. Correndo bem ou mal, não há nada a fazer, começamos e acabamos, sou eu que controlo tudo. Mas, se calhar, até é mais difícil por causa disso, porque a responsabilidade é toda nossa, não é partilhada. Recentemente protagonizou o filme “Soares é Fixe”, sobre as eleições presidenciais de 1986, em que interpretou o papel de Mário Soares. Como encara as diferenças de trabalhar em cinema, é mais desafiante do que em teatro? São coisas diferentes. À medida que vou fazendo mais cinema vou percebendo que são maneiras de estar muito distintas [para um actor]. [Fazer cinema] é um trabalho muito mais isolado, não temos tanto tempo de preparação uns com os outros [os actores]. É também um trabalho de espera, de paciência, para depois se concentrar em cada “take”. Para mim, que estou mais habituado a fazer teatro, às vezes pode ser mais frustrante o facto de não haver logo uma reacção imediata ao que se acabou de fazer. É um bocado parecido com os ensaios, “Vamos repetir!”, se bem que está sempre a valer. Repito ali três ou quatro vezes uma cena e, às vezes, não há muito mais tempo para experimentar porque temos que passar para a cena seguinte. [Fazer cinema] é um trabalho de condensação muito grande, até porque não sabemos muito bem o que a câmara está a captar. Não tenho assim tanta experiência quanto isso, mas fazer um protagonista é bom, no sentido em que estamos lá muito tempo, é um mergulho muito grande na questão de estarmos sempre a filmar, e o poder fazer uma construção sobre o personagem e o plano de filmagens – quando é que se filma, e o que é que se filma. Às vezes anda-se muito para trás e para a frente, e, nesse sentido, é bom o trabalho dramatúrgico que se faz, e como é que nos comportamos em cada dia para poder activar o que é necessário para cada dia e cada cena. Como se preparou para fazer de Mário Soares? Foi um bocadinho assustador, até porque tive muito pouco tempo de preparação, desde o convite até começar a filmar. Basicamente o que fiz foi ler tudo o que podia, vi muitas entrevistas dele, para perceber como se comportava. Depois não íamos fazer um trabalho em que ficava igual ao Mário Soares, não era esse o objectivo, porque para isso teríamos de ter mais dinheiro. Para fazer um trabalho de reconstituição, com grandes caracterizações [de personagens], é preciso mais dinheiro que esta produção não teve. Era miúdo [nas eleições presidenciais de 1986], andava na escola primária e lembro-me perfeitamente. Mas fiquei a saber muito mais dele [no processo de pesquisa], mas não sobre a vida pessoal, até porque isso não me interessou, na altura, para a construção [da personagem]. [O trabalho de preparação] incidia mais sobre quem era este homem político e, sobretudo, perceber nas cenas em que falava quem estava atrás dos silêncios e do que se passava. Quis tentar desvendar ou revelar um bocadinho do que estava naquela cabeça, naquela noite [das eleições de 1986]. Foi uma eleição em que era o tudo ou nada. Aquele homem podia morrer politicamente ali ou então, pronto, nascer mais uma vez como Presidente [da República], que foi o que aconteceu.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeParquímetros | Nick Lei quer notificação de multas por SMS O deputado Nick Lei considera que o Corpo de Polícia de Segurança Pública deve rever o formato de tratamento das infracções rodoviárias, a fim de incluir nas notificações por SMS as multas nos parquímetros para melhorar a rotatividade no estacionamento Nick Lei, deputado à Assembleia Legislativa (AL), interpelou o Governo quanto à necessidade de revisão, por parte do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), da forma como são tratadas as infracções rodoviárias, a fim melhorar o sistema de tratamento das multas por tempo de estacionamento excessivo. Segundo a interpelação, o deputado, ligado à comunidade de Fujian em Macau, destacou que o CPSP actualizou o formato de tratamento das infracções rodoviárias, mas excluiu as multas nos parquímetros. Essa actualização passou por uma renovação dos equipamentos para que os condutores passassem a receber SMS dez minutos após receberem uma multa. Tudo para remover os carros o mais depressa possível e, assim, escoar o fluxo de trânsito. Porém, actualmente, “o serviço de notificação por SMS das infracções rodoviárias não inclui as infracções nos parquímetros de estacionamento, havendo grande diferença em relação às restantes situações de infracções”, destacou. “Para que seja melhorado o mecanismo de notificações, e para que se aumente a rotatividade dos lugares de estacionamento na via pública, podem as autoridades pensar em incluir, no sistema de notificações por SMS, a infracção de não pagamento das tarifas de parquímetros, evitando-se assim custos sociais subsequentes?”, questionou. Meios obsoletos Além de pedir a notificação das multas por SMS, Nick Lei referiu que, no actual sistema de pagamento digital de multas por infracções rodoviárias, também ficaram de fora as infracções nos parquímetros de estacionamento. “Após o carro ser bloqueado ou removido, os donos precisam de ir ao Departamento de Trânsito pagar a multa em numerário. Será que o Governo pode incentivar as empresas a proporcionarem meios de pagamento electrónico, a fim de responder à procura da sociedade?”, sugeriu. De frisar que, no passado, o Governo justificou a exclusão das multas de estacionamento do sistema de notificações por SMS para não causar confusão nos infractores, destacando que, apesar de não informar os condutores por SMS, estes têm de cumprir a lei no que ao estacionamento diz respeito. Para Nick Lei, a ausência de avisos por SMS faz com que os condutores se esqueçam do tempo de estacionamento pago, levando a situações ilegais com consequentes bloqueios de viaturas, perdas de tempo e de dinheiro. O deputado destaca também que esta situação leva a gastos de recursos do CPSP e impede a rotatividade de lugares de estacionamento.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeGP Consumo | Retalho com 60% de gastos no primeiro mês A edição deste ano do Grande Prémio para o Consumo nas zonas comunitárias gerou, nas primeiras quatro semanas, gastos de cerca de 560 milhões de patacas, com 60 por cento do valor a ser direccionado para o sector do retalho. Governo diz ter sido registada maior adesão face ao ano passado Dados ontem divulgados pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) revelam que a edição deste ano do Grande Prémio para o consumo nas zonas comunitárias gerou, no primeiro mês de implementação, mais de 560 milhões de patacas de consumo em negócios locais, tendo sido distribuídos quase sete milhões de cupões, um total de 6,947 milhões. No que diz respeito aos sectores onde foram gastos estes cupões, destaca-se o retalho com 60 por cento dos gastos, seguindo-se a restauração com 30,6 por cento. No total, mais de 20 mil estabelecimentos comerciais, com espaço físico, no território estão abrangidos por este programa que visa incentivar o consumo local. No primeiro mês de actividade do Grande Prémio de Consumo, registaram-se 3,492 milhões de transacções qualificadas para sortear cupões. A DSEDT chama a atenção para o facto de este montante representar “um aumento de, aproximadamente, quatro por cento face às 3,356 milhões de transacções registadas no mesmo período da edição anterior”. Dos 6,947 milhões de cupões distribuídos, foram usados, no primeiro mês, mais de 118 milhões de patacas, com descontos imediatos em cartão no montante superior a 31 milhões de patacas. Maior adesão Segundo a DSEDT, a edição deste ano do Grande Prémio de Consumo registou um “aumento na taxa de utilização dos benefícios, com mais diferentes sectores beneficiados”. A taxa de utilização global, em termos de montante, “ultrapassou os 92 por cento, sendo a primeira vez que superou os 90 por cento desde o lançamento” da medida do Grande Prémio de Consumo. Para o Executivo, tais dados significam que, “com o prolongamento do prazo de utilização” da medida, “os residentes conseguem planear melhor para fazer consumo com benefícios”. Desta forma, permite-se a utilização dos cupões não apenas no retalho, mas em “outros sectores de consumo imediato como a restauração, beneficiando assim mais diferentes sectores” económicos. O Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias 2026 é da responsabilidade da DSEDT em conjunto com a Associação Comercial de Macau. Em termos gerais, deu-se “o crescimento no grau de participação dos residentes, de entusiasmo pelo consumo e de equilíbrio dos benefícios entre os diferentes sectores, em comparação com a edição anterior”. Deu-se ainda um contributo ao estímulo do “consumo local durante os fins-de-semana”. Esta actividade prolonga-se até 18 de Junho.
Andreia Sofia Silva PolíticaFunção Pública | Governo diz que horas extra estão regulamentadas Leong Weng In, directora dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP), garantiu que o cumprimento de horas extra na Administração está devidamente regulamentado, bem como o pagamento desse trabalho além do horário normal de expediente. A informação consta numa resposta a uma interpelação escrita do deputado Chan Hao Weng. “O ETAPM [Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau] estabelece normas claras sobre o regime de disponibilidade para os trabalhadores dos serviços públicos”, sendo que cada serviço deve ter uma lista mensal de pessoal que fica em regime de disponibilidade, estando estes sujeitos a um subsídio. Além disso, “os agentes das Forças e Serviços de Segurança recebem, mensalmente, uma remuneração suplementar”, tendo em conta a “natureza contínua e repentina das tarefas inerentes ao cargo”. Desta forma, a directora entende que existem “normas claras sobre a gestão do regime de disponibilidade dos trabalhadores dos serviços públicos e os respectivos subsídios e compensações”.
Andreia Sofia Silva Eventos MancheteLivro | Poemas de Maria Anna Tamagnini reeditados em Portugal Foi lançada, no último sábado, a nova edição de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus”, livro de poesia de Maria Anna Tamagnini editado em 1925 e que revela muito sobre a presença da autora a Oriente e sobre a sociedade de Macau à época. Maria Anna era esposa do Governador Tamagnini Barbosa e uma mulher pioneira no seu tempo, destaca ao HM o editor, Henrique Levy É com a chancela da N9na Poesia que acaba de ser editado, em Portugal, mais uma obra literária relacionada com Macau. Trata-se de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus”, livro de poesia de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, publicado originalmente em 1925. Maria Anna foi para Macau devido à nomeação do seu marido, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, como Governador do território, tendo aí contactado com a cultura chinesa e uma sociedade muito particular. Segundo um comunicado da editora, trata-se de “uma obra singular no panorama literário português, marcada por uma imaginação orientalista rara e por uma sensibilidade poética que distingue a sua autora”. A “recuperação e reedição” de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” justifica-se “pelo valor literário intrínseco da obra, pela singularidade da sua visão orientalista e pelo contributo que oferece para compreender as formas através das quais uma mulher escritora conseguiu afirmar a sua voz num contexto cultural marcado por fortes assimetrias de género”. Desta forma, “esta nova edição procura restituir visibilidade a uma autora injustamente marginalizada pela historiografia literária e reinscrever a sua poesia no diálogo contemporâneo sobre cruzamentos culturais, sensibilidades e tradições poéticas”. Ao HM, Henrique Levy, editor da obra e ex-residente de Macau, contou que esta edição está relacionada não só com a celebração do centenário da publicação do livro, em 2025, como se interliga ainda com outra edição, em inglês e chinês, editada pela Praia Grande Edições. A tradução ficou a cargo de Lian Zimo e Ian Watts. “A poesia de Maria Anna Tamagnini tem um interesse muito especial porque é a única poetisa orientalista portuguesa”, começou por dizer. “O livro saiu em 1925, ela morreu em 1933 e não teve oportunidade de escrever outro. Ela esteve em Macau como primeira dama e em vez de se entregar somente a obras de caridade, conviveu com filósofos e poetas chinesas, participou em tertúlias e aprendeu a língua chinesa.” O casamento com Artur Tamagnini Barbosa aconteceu muito cedo, quando Maria Anna tinha apenas 16 anos. Aos 19 anos, foi para Macau. “É importantíssimo este olhar feminino do Oriente, e este livro é muito revelador disso, sendo uma marca muito grande na literatura portuguesa”, acrescentou Henrique Levy. Vida ceifada Maria Anna Acciaioli Tamagnini nasceu em 1900, em Torres Vedras, e faleceu muito jovem por complicações de parto. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que viria a ser o seu marido, e com quem teve cinco filhos. Entre 1918–1919 e 1926–1930 viveu em Macau, nos mesmos anos de Camilo Pessanha, pelo que a sua escrita ganhou também algumas influências do Simbolismo, Parnasianismo e Orientalismo, se bem que Henrique Levy destaque “a afinidade” com a poesia de Florbela Espanca. “Não há nada que nos prove que [Maria Anna Tamagnini] tenha conhecido a poetisa, mas a poesia sim, e tinha uma grande afinidade com ela”, mas sem a componente de tristeza que os poemas de Florbela Espanca têm. Ao invés disso, encontramos “denúncia e observação do papel da mulher”. Nos poemas de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” encontramos escritos sobre a vida das mulheres, mas também “sobre os jardins, a música, a envolvência oriental que, para ela, era uma novidade”. “Todo o espanto, a organização social, as casas de ópio, sempre com uma visão um pouco crítica em relação à sociedade oriental em que se foi inserir”, acrescentou. Maria Anna Tamagnini teve o privilégio de, como mulher, ter estudado, sendo que o casamento lhe permitiu ter contacto com um novo mundo oriental. Henrique Levy destaca a empatia que Maria Anna Tamagnini teve em relação ao que lhe era desconhecido: a cultura chinesa. “Ela fazia tertúlias com intelectuais chineses, poetas e filósofos, no Palácio de Santa Sancha. Falava com eles em chinês e interessava-se muito [por esse mundo], e o que estou a dizer é muito importante, porque representa a empatia pelo outro, não é? Falamos de uma mulher que vai daqui para o Oriente, e em vez de ter tido um papel simplificado e cómodo de primeira dama, vai interessar-se por uma outra cultura, pelo outro, pela sua língua. Não só há uma aceitação, como uma busca, uma procura por ‘Onde é que eu estou, quem são estas pessoas, que cultura transportam?'”, frisou o editor. História ainda não é delas Henrique Levy considera que a forma como a história dos Descobrimentos portugueses tem sido contada deixa para segundo plano os portugueses que tentaram perceber o outro, a sua língua e cultura. Maria Anna Tamagnini é só mais um exemplo, a que se junta o do jesuíta Francisco de Pina, que aprendeu vietnamita e “fixou a língua vietnamita que se escreve hoje”, ou Bento de Góis, nascido em 1562 nos Açores e foi o primeiro europeu a percorrer o caminho terrestre da Índia para a China, através da Ásia Central. “O papel dos portugueses nem sempre foi o de Afonso de Albuquerque e de outros sanguinários. Mas o que a história faz foi limpar aqueles que tiveram outro tipo de papel e que foram ao encontro do outro, que sentiram empatia, que se tentaram integrar no outro, que não forçaram a sua língua, a religião, os hábitos culturais. Maria Anna Tamagnini não foi a única.” Reeditar “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” é também importante para dar destaque a mais uma mulher na poesia portuguesa. “Há muitas Maria Anna esquecidas na literatura portuguesa, que é altamente misógina e patriarcal. A literatura portuguesa põe praticamente a mulher de lado. Esquece-a, tanto no século XIX como XX. Mesmo no século XXI, muitas vezes, as mulheres não têm a mesma projecção, e não é só na literatura. A mulher é ostracizada em grande parte das actividades”, considerou.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaAuditoria | Sugerida fiscalização de prédios devolutos de Macau O relatório do Comissariado de Auditoria de 2025 sugere que o Executivo estude a gestão e utilização dos imóveis devolutos da RAEM, defendendo uma “dinamização activa” de soluções. Foram ainda apontadas falhas nos recursos humanos públicos O Comissariado de Auditoria (CA) sugere, no relatório de actividades relativo a 2025 divulgado na sexta-feira, que o Governo deve estudar melhores possibilidades de utilização e gestão dos imóveis devolutos da RAEM. É sugerido que “serviços e entidades públicos promovam o aproveitamento adequado dos imóveis devolutos, procedendo a um estudo e análise abrangentes do [seu] estado”, a fim de “promover o interesse público”. Devem ser elaboradas, neste contexto, “soluções viáveis para promover a adequada utilização”, destes imóveis, além de que os serviços públicos “devem rever e optimizar o mecanismo de inspecção e manutenção, estabelecendo directrizes e uma periodicidade de inspecção adequadas”. O Executivo deve assegurar, segundo o CA, “que as inspecções aos imóveis devolutos sejam realizadas em tempo útil e que as deficiências sejam detectadas prontamente”. É sugerida a realização de “registos das inspecções para monitorizar a evolução das situações identificadas”, além de dever ser feita uma “revisão global do mecanismo de manutenção vigente”. Para o CA, as casas ou edifícios devolutos “que apresentem sinais de degradação” devem ser avaliadas por “técnicos qualificados”, devendo ser adoptada pelas autoridades “uma postura proactiva e de efectiva assunção de responsabilidades, de modo a que o erário, recursos e activos públicos sejam utilizados de forma mais eficiente”. Estruturar a casa No mesmo relatório descreve-se como o volume de trabalho não está bem distribuído na Função Pública, traduzindo-se em irregularidades em matéria de recursos humanos. No ano passado foram emitidos pelo CA seis “relatórios de observação”, tendo-se concluído que “os serviços de menor dimensão apresentam uma proporção comparativamente mais elevada de pessoal de apoio”, registando, “em alguns casos, uma redução significativa do volume de actividade, decorrente da evolução social e tecnológica, a dispersão das suas funções por outros serviços, ou ainda uma elevada afinidade funcional com funções de outros serviços”. Há, portanto, o que o CA chama de “disfunções sistémicas”, com o “subaproveitamento do pessoal de apoio, aumento da duplicação de investimentos em recursos e o agravamento dos custos administrativos inerentes à articulação interdepartamental”. Assim, pede-se que o Governo faça uma “ponderação abrangente da situação”, apostando na “centralização” de serviços e a “racionalização da dotação de pessoal nos serviços com menor âmbito de atribuições”. Há ainda “diversas subunidades orgânicas que apresentam uma dotação de recursos humanos manifestamente desproporcionada face ao respectivo volume de actividade”. Na prática, o que se verifica é uma “excessiva compartimentação das funções”, que “densifica a estrutura orgânica dos serviços e onera os custos de comunicação e de gestão, com reflexos na eficiência e eficácia do seu funcionamento”. O CA verificou, na sua análise, que existe “sobreposição de funções entre subunidades orgânicas com reduzido efectivo”, pelo que se aconselha o Governo a fazer um “estudo aprofundado sobre a distribuição de competências, a estrutura orgânica e a dotação de pessoal na Administração Pública”. Deve também ser realizada “uma reapreciação da necessidade, economicidade e eficácia da criação e manutenção de subunidades orgânicas com reduzido número de efectivos”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteComércio | Martins da Cruz acha que Espanha condiciona “exclusividade de Portugal” O antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz considera que a “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade que Portugal desfrutava em Macau”, alertando para a necessidade de as autoridades portuguesas terem mais presença na RAEM Foi na palestra “Oriente e Ocidente – o Mundo em 2026”, que decorreu na sexta-feira em Lisboa, que o antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz deixou um alerta para o crescente peso que a Espanha está a ganhar no relacionamento com a China e, consequentemente, com Macau. “Em Macau e na ilha de Hengqin todas as associações e institutos que conheço tinham como objecto o comércio e relações económicas entre a China e países de língua portuguesa, e agora em todos foi acrescentado Espanha, ou países de língua espanhola”, referiu no evento promovido pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda (ANRS). “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade de que Portugal desfrutava em Macau”, acrescentou António Martins da Cruz, falando da mais recente visita oficial de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, a Portugal e Espanha. “Desde Dezembro de 1999 que há uma tradição do Chefe do Executivo de Macau vir a Lisboa na primeira viagem que faz, mas, pela primeira vez, depois de Lisboa, foi a Madrid, onde até ficou mais umas horas do que tinha estado em Lisboa.” À margem destas declarações, António Martins da Cruz disse ao HM que não acredita, porém, que haja uma grande mudança ou transição a curto prazo no relacionamento entre Macau e Portugal, com Espanha pelo meio. Mas o que é certo é que o país “passou a estar ao mesmo nível de Portugal sem nunca ter estado em Macau”, defendeu, referindo-se ao papel na administração do território e histórico que Portugal detém. “Portanto, é uma coisa que pode afectar as empresas portuguesas”, frisou o responsável, que acredita que as autoridades de Macau, com este novo cenário, “estão contentíssimas, porque é mais um interlocutor”. No caso de Portugal, o que deve fazer para contornar esta questão é “intensificar as relações e aproveitar melhor Macau como plataforma, dando mais importância a Macau, e levando lá mais membros do Governo”. António Martins da Cruz, que preside ao conselho de administração da OVIA – Oeiras Valley Investment Agency, tem sido, ele próprio, presença frequente na RAEM, declarando que vai novamente a Macau em Junho “com o secretário de Estado da Economia da Madeira”. “A Madeira interessa-se por Macau. Vou na qualidade de presidente da assembleia-geral da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira”, explicou. Aproveitar a Grande Baía António Martins da Cruz entende que “as empresas portuguesas devem aproveitar melhor a plataforma de Macau para o mercado da Grande Baía, que tem cerca de 80 milhões de habitantes e mais de 25 por cento do PIB [Produto Interno Bruto] chinês”, sendo “a zona mais rica da China”. Porém, não deixou de destacar limitações no mercado interno de Macau. “Infelizmente, chegamos a Macau e nem há distribuidores de vinho e cerveja. E não há por uma razão: há 20 anos, os macaenses faziam isso e é preciso encontrar chineses que façam isso agora. Chegamos a Macau, e além do Banco Nacional Ultramarino e de dois ou três bancos, o que há? Três ou quatro empresas só. E temos de encontrar as nossas empresas e saber aproveitar as coisas, e daí partirmos para a Grande Baía.” Não ouvir Bruxelas Na sessão de sexta-feira não faltaram algumas farpas ao posicionamento que a União Europeia (UE) tem tido no relacionamento com a China, incluindo Portugal. “Esperemos que a UE ouça mais vezes as vozes do entendimento necessário e útil com a China ao invés de alguns que chegam, às vezes, de instituições de Bruxelas, para não dizer o nome do Parlamento Europeu, que por vezes dificultam o diálogo e acordos.” António Martins da Cruz destacou que a “Europa tem, neste momento, outras preocupações e, sobretudo, uma indefinição total” em matéria de política externa. “A aproximação com a China passa por uma definição de políticas externas, mas não nos podemos esquecer do seguinte: temos 27 países na UE e, provavelmente, há seis ou sete que têm políticas externas. Os restantes têm políticas regionais”, destacou. Martins da Cruz destacou “hesitações da Europa nas relações com a China”, relatando o exemplo de 2019, quando a UE, “por proposta da Comissão Europeia, aprovou uma posição estratégica, definido a China de três maneiras: um parceiro para a cooperação económica e negociação, um competidor económico e um rival sistémico”. “Ou seja, cabe quase tudo nesta indefinição propositada”, frisou, considerando que “continuaram as hesitações” em relação à China, sem se terem definido nunca “os riscos concretos” do relacionamento com o país. Tal permite, na visão do antigo embaixador e ministro, “que cada um dos 27 Estados-membros definam, eles próprios, qual o conceito e critério de risco” neste relacionamento. António Martins da Cruz entende que o caso da Huawei e da rede 5G, e o facto de ter merecido “diferente tratamento de diferentes países europeus é exemplo de que a Europa tem concepções diferentes de risco com a China”. “Até pensamos que algumas instituições em Bruxelas se esquecem que o comércio entre a UE e a China representa 29,6 por cento do comércio global e que a Europa importa da China 500 milhões de mercadorias por ano. Para termos uma ideia, o comércio entre a Europa e a China são 2 milhões por minuto. Se estivermos duas horas fechados nesta sala, o comércio entre a Europa e a China é de 240 milhões de euros. E há muitas capitais da Europa que têm tendência a esquecer isto.” No contexto dos 27 países que fazem parte da UE, “Portugal tem todas as condições para ser o criador de dinâmicas positivas e aproveitando melhor a plataforma de Macau”, além de “facilitar investimentos chineses e reforçar as nossas linhas de comércio e de exportações para a China”. O antigo embaixador lembrou ainda o facto de Portugal ter sido “um dos poucos países da UE que assinou com a China, na última visita do Presidente Xi Jinping, um memorando sobre a participação de Portugal na Nova Rota da Seda”. Martins da Cruz realça estratégias de longo-prazo de Pequim A conferência protagonizada por António Martins da Cruz aconteceu no mesmo dia em que terminou a visita à China do presidente norte-americano Donald Trump. O antigo embaixador defendeu que serão necessários “alguns dias ou semanas para ler os sinais dos resultados dessa visita”, devendo o relacionamento entre os Estados Unidos da América (EUA) e China ser analisado “sob os prismas estratégico, político e económico”. “São duas das maiores superpotências que tentam, cada uma, ter uma zona de influência e de espaço na construção de forças armadas que sejam globais nos chamados países do Sul e nos BRICS, tendo uma influência em África, Médio Oriente e América Latina.” “É no domínio das relações económicas, sobretudo no comércio e investimento, o resultado mais positivo e visível desta cimeira em Pequim”, declarou. “Os 30 empresários americanos que foram na comitiva do Presidente e que representam as maiores empresas dos EUA e do mundo, não irão, certamente, regressar de mãos vazias”, acrescentou. Nada é novo Para Martins da Cruz, “não houve, nem em 2026 nem nos anos anteriores, nenhuma súbita crise que fosse inédita”, referindo que, no caso do conflito do Médio Oriente, “a China defende o petróleo do Irão, que representa 13 por cento do total das importações chinesas, mas tenta preservar a sua disponibilidade diplomática e as boas relações que tem com a Arábia Saudita, com os Emirados [Árabes Unidos]”. Sobre a crise no Médio Oriente ou até a posição face a Taiwan, Martins da Cruz acredita que “a China não vai, seguramente, alterar as suas posições conhecidas, porque a diplomacia chinesa tem tempo, ao contrário da generalidade das diplomacias ocidentais, que têm os quatro anos entre cada eleição”. “O caso de Taiwan que foi sublinhado por Xi Jinping só para recordar aos EUA que Taiwan está incluído no conceito de uma só China que os EUA, tal como a UE e Portugal, aceitam. É curioso, porque nós aceitamos [Portugal] o conceito de uma só China, mas depois recusamos aceitar que Taiwan faça parte da China. Sabemos muito bem que, em 1986, quando a China começou a negociar connosco a transferência de Macau, foi-nos dito claramente que a transferência de Hong Kong e de Macau era para dar um exemplo a Taiwan.” Há, no seu entender, “uma ambiguidade estratégica de Washington” dado que “pode fornecer armas a Taiwan, mas se houver um ataque, não pode ir defendê-la”. “Isto é que é ambiguidade estratégica, e parece que as pessoas têm medo de dizer isto”, rematou. Ainda em relação a Taiwan, Martins da Cruz adiantou que “até 2049 a China vai integrar” o território por se tratar “do centésimo aniversário da revolução que criou a República Popular da China”.
Andreia Sofia Silva SociedadeTribunal reduz pena a homem em caso de violência familiar O Tribunal de Segunda Instância (TSI) reduziu a pena a um homem por violência em contexto familiar contra o seu pai e filho, portador de deficiência mental e diversos problemas do foro mental. Segundo o acórdão do TSI ontem divulgado, o homem tinha sido, na primeira instância, condenado a uma pena de prisão efectiva de três anos pelos crimes de violência doméstica contra o filho e ainda de ofensa qualificada à integridade física do seu pai. Porém, após recurso do acusado, este passa a ter uma pena suspensa de dois anos de prisão. O filho deste homem nasceu em 1994 e, segundo o acórdão, a relação entre eles sempre foi “extremamente afastada e hostil”, sendo que o rapaz, “desde a infância, foi frequentemente agredido e repreendido”, tendo sofrido “maus-tratos por longo tempo”. Foi posteriormente “diagnosticado com depressão persistente, perturbações de ansiedade e transtorno de personalidade borderline, sendo portador de deficiência mental ligeira”. Registou-se um primeiro caso de agressão entre pai e filho na noite de 22 de Novembro de 2023, quando o rapaz destruiu “objectos depois de ter consumido álcool em casa”, sendo que por volta da uma da manhã o pai voltou a casa, repreendendo o filho, e aí houve uma troca de empurrões entre os dois. O TSI descreve que o homem “deu várias bofetadas e socos na cara” do filho, além de o ter “pressionado no chão, causando-lhe contusões na cara, e fracturas do osso nasal e da parede anterior do seio maxilar direito”. O rapaz precisou de “um mês para recuperar”. Mas este homem bateu também no seu pai na manhã do dia 29 de Fevereiro de 2024, em casa. O TSI descreve como o “socou na boca com o punho direito, fazendo com que os dentes na parte direita da mandíbula se soltassem e precisassem de ser extraídos com sutura”. O pai deste homem “necessitou de cinco dias para recuperar”, tendo recusado depor na audiência no Tribunal Judicial de Base (TJB). Porém, “no dia dos factos, descreveu à polícia, em pormenor, a agressão, exigindo a efectivação da responsabilidade penal”, lê-se. Sem violência doméstica O agressor apresentou recurso da decisão dizendo que o TJB decidiu a pena “apenas com base no único depoimento do seu filho, portador de deficiência mental, que tem um mau relacionamento com ele, sendo insuficiente a prova”. Além disso, argumentou que agrediu o pai “por mera negligência, pedindo a convolação do crime ou a concessão da suspensão da execução da pena”. No caso da agressão do homem ao filho, o TSI destacou “ser verdade” que o homem o “agrediu, repreendeu e maltratou por longo período de tempo desde a infância”, mas a Lei de prevenção e combate à violência doméstica entrou em vigor em 2016, “altura em que o primeiro ofendido [o rapaz] já perfazia 22 anos de anos, atingindo a maioridade”. Destaca-se que “as provas existentes eram insuficientes para comprovar que desde a entrada em vigor da referida lei, até à ocorrência dos factos, em 2023”, o homem tinha “continuado a infligir maus-tratos que constituíssem o crime” de violência doméstica, pelo que o TJB, no entender do TSI, “aplicou erradamente” dois artigos da legislação sobre violência doméstica. Desta forma, o homem recebeu a condenação de dois anos de prisão, suspensa na sua execução por um período de três anos, pela prática de dois crimes de ofensa qualificada à integridade física, retirando-se o quadro jurídico de violência doméstica.
Andreia Sofia Silva EventosStudio City cria programa de apoio para cineastas emergentes O Studio City, da operadora Melco Resorts & Entertainment, associou-se à plataforma global de curtas-metragens criativas NOWNESS para criar um programa de apoio a novos realizadores. Chama-se “Macau 8 Minutes”, está aberto a realizadores de todo o mundo e aceita candidaturas até ao dia 14 de Junho. Segundo uma nota do Studio City, o programa tem base em Macau, mas com uma perspectiva internacional, e foi concebido no passado mês de Dezembro “para assinalar o décimo aniversário do Studio City”. O objectivo é “apoiar uma nova geração de cineastas, incentivando-os a reinterpretar a cultura de Macau através de perspectivas contemporâneas e de uma linguagem cinematográfica inovadora”. O “Macau 8 Minutes” lança o desafio a novos criadores para criarem obras que combinem “o espírito da cidade e a sua expressão pessoal numa duração breve”, convidando à submissão de “propostas originais de curtas-metragens inspiradas em Macau e filmadas na cidade, explorando a sua identidade cultural única”. Serão escolhidos “três cineastas emergentes”, sendo que cada um irá receber em financiamento de 250.000 renminbis para produzir uma curta-metragem, com um máximo de oito minutos, filmada em Macau. Os candidatos devem submeter online uma proposta completa de projecto de curta-metragem através do site oficial “Macau 8 Minutes”. Um certo conceito Segundo o Studio City, há uma simbologia em torno do número oito, já que “não representa apenas uma abordagem disciplinada ao ritmo narrativo; mas também faz referência à icónica roda-gigante em forma de oito do Studio City, a Golden Reel, um símbolo único que liga imaginação e realidade e permite que a alegria se renove continuamente”. Além disso, os oito minutos incorporam “a tensão artística do cinema”, com a ideia de se poder “criar possibilidades infinitas e encanto duradouro dentro de um enquadramento limitado”. Além do montante atribuído, “o programa oferece apoio completo e integrado, permitindo que as ideias ganhem forma num contexto real”, sendo ainda convidados “três conceituados cineastas asiáticos com perspectiva internacional para formar um painel de mentores e júri, participando no aperfeiçoamento criativo e oferecendo orientação durante as filmagens dos projectos selecionados”. Será anunciada uma lista de mentores, com os quais “os jovens cineastas seleccionados poderão não apenas desenvolver os seus projectos, mas também aperfeiçoar a sua linguagem cinematográfica e abordagens criativas com maior precisão e impacto”. Por sua vez, a NOWNESS disponibiliza “gestão de produção estruturada e apoio criativo internacional”, trazendo uma “visão curatorial global e perspectiva editorial para reforçar a identidade cultural e o alcance do programa”. Os projectos seleccionados serão anunciados em meados de Julho de 2026, seguindo-se a fase de desenvolvimento criativo e produção. As três curtas-metragens concluídas vão estrear no Studio City em Dezembro deste ano.
Andreia Sofia Silva EventosFAM | Companhia de teatro de Hong Kong apresenta musical “A Noite Estrelada” O cartaz deste fim-de-semana do Festival de Artes de Macau apresenta um musical de uma das mais conceituadas companhias teatrais de Hong Kong, a Família de Actores, precedido de uma conversa com o encenador e dramaturgo, Bee Wan. Outra proposta musical para o fim-de-semana é o espectáculo “1014 – Nanyin x Jazz” O cartaz deste fim-de-semana da 36ª edição do Festival de Artes de Macau (FAM) tem tudo para atrair fãs de musicais apresentados em palco. “A Noite Estrelada” sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) hoje, às 20h, e amanhã, às 15h, revelando “inesperados laços de ternura”. A peça é produzida pela “Família de Actores, uma das “principais companhias de teatro musical de Hong Kong”, descreve a organização do festival. O público pode assistir “a uma viagem emotiva repleta de risos e lágrimas”, centrando-se na história de “um homem desiludido e uma artesã de Foshan, cujos caminhos se fundem”. “Após um mal-sucedido primeiro encontro, desenrola-se uma história que aborda laços familiares, amor e identidade cultural. Inesperadamente, um par de estatuetas de cerâmica de Shiwan revela uma ligação há muito perdida entre irmãs a viver em cidades diferentes, levando o público a reflectir sobre o significado de ‘lar'”, descreve-se ainda. O actor e cantor Hubert Wu protagoniza este musical, que “combina a tradição artística de Foshan com uma narrativa notável e melodias comoventes”. A dramaturgia está a cargo de Matthew Cheng, com encenação e adaptação de Bee Wan, que hoje dará uma palestra sobre o espectáculo, entre as 19h e 19h30, no CCM. Segundo a programação do FAM, será partilhada a “trajectória criativa” de Bee Wan nesta sessão, incluindo o facto de “A Noite Estrelada” conter “elementos culturais de Lingnan na peça”, que também integra “formas tradicionais como a cerâmica de Shiwan e ópera cantonense, num cenário de teatro musical contemporâneo”. Bee Wan é encenador residente na companhia Família de Actores e é formado pela Academia de Artes Performativas de Hong Kong. A China aqui tão perto Há mais teatro para ver este fim-de-semana no FAM. No sábado, às 19h45, e domingo, às 14h45, o pequeno auditório do CCM acolhe “1014 – Nanyin x Jazz”, pela companhia Teatro Estúdio Tang Shu-wing, tido como “um dos encenadores chineses mais dinâmicos e criativos da sua geração”, segundo o Courrier International. Os bilhetes para os espectáculos custam entre 300 e 400 patacas. Aqui revela-se a Nanyin “como uma forma de arte ancestral longínqua, cujo repertório e prática remontam a vertentes da música chinesa antiga”. Neste contexto, a Nanyin cantonense “emergiu como um estilo musical distinto, tendo prosperado no Sul da China a partir de finais da dinastia Qing”. Na mesma época, mas do outro lado do mundo, em Nova Orleães “o jazz ganhava proeminência”. “Apesar das suas raízes distintas, tanto a Nanyin como o jazz funcionam como genuínas expressões de arte popular, captando emoções através de narrativas melódicas”. Esta peça relata um pouco deste percurso musical, tendo estreado há dois anos. A história centra-se “num casal que se submete a uma experiência transformadora ao implantar um chip para apagar uma memória difícil, substituindo-a por uma agradável vivência artificial”. Acontece que “surge uma situação desestabilizadora” que leva os protagonistas a ter de solucionar o problema de uma forma diferente. A peça visa ainda “explorar a forma como gerações de artistas chineses têm expressado esperanças e incertezas através destas sonoridades”, ou seja, o Jazz e a Nanyian. Jim Hui é o dramaturgo deste projecto, enquanto que Tang Shu-wing é responsável pela encenação e direcção artística. Daniel Chu é o director musical, compositor e letrista. Os intérpretes são Yuen Siu-fai e Ashley Lin.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaSaúde | Pedida supervisão do uso de apoios em Guangdong O deputado Wong Chon Kit, ligado à área da saúde, entende que deve ser garantida a supervisão da nova medida que estende os vales de saúde da RAEM à utilização na província de Guangdong. O responsável defende um mecanismo de cooperação para o plano anunciado esta semana Wong Chon Kit, deputado à Assembleia Legislativa (AL) ligado ao sector da saúde, defende ser necessária a criação, por parte do Governo, de um mecanismo de cooperação com as autoridades do interior da China para supervisionar a utilização dos vales de saúde na província de Guangdong. Trata-se de uma medida anunciada esta semana, relativa à nova ronda do Programa de Comparticipação nos Cuidados de Saúde, que começa em Junho. Em declarações ao jornal Ou Mun, o deputado entende que a cooperação entre Macau e Guangdong deve incluir partilha de informações, inspecções em clínicas aderentes ao programa e uma operação conjunta da aplicação das leis. Devem ainda ser utilizadas tecnologias da informação a fim de prevenir infracções. O deputado, que também é dentista, argumentou que, este ano, o montante subsidiado pelo programa é de 520 milhões de patacas, devendo ser garantido um uso adequado do erário público, sendo esta uma responsabilidade fundamental do Governo. É por isso que Wong Chon Kit falou ao jornal chinês da necessidade da eficácia da supervisão entre territórios e departamentos públicos das duas regiões. Isto porque, caso haja muitas infracções ou falhas no programa, tal afecta de forma directa a credibilidade do programa, bem como o ambiente empresarial do sector da saúde. Mudança competitiva Na visão de Wong Chon Kit, uma vez que os residentes da RAEM podem começar a tratar a sua saúde nas instituições médicas de Guangdong com os vales de saúde, tal implica uma mudança de competitividade no sector, pois haverá desvio de doentes de Macau para a China. Wong Chon Kit considera, no entanto, que as clínicas de Macau mantêm algumas vantagens tendo em conta a sua localização, conveniência que proporcionam e a língua, sendo importante continuar a melhorar os serviços a fim de assegurar a continuidade destas vantagens. O deputado deixou elogios à utilização dos vales de saúde na província vizinha, algo que, no seu entender, permite a continuidade dos objectivos do programa, nomeadamente o alívio da pressão no sistema de saúde público e a promoção de parcerias público-privadas. Além disso, o legislador recordou que os médicos de Macau que participam no programa podem aceitar vales de saúde em Guangdong se trabalharem em 21 instituições médicas previstas no programa. Wong Chon Kit defende que a medida proporciona um novo meio de desenvolvimento para os médicos, sobretudo os mais jovens, dando ainda apoio às marcas da área da saúde de Macau e proporcionando-se um alargamento de serviços na zona da Grande Baía.
Andreia Sofia Silva China / ÁsiaCimeira Xi-Trump | Analista destaca a tentativa de evitar a escalada de conflitos O HM convidou o analista e especialista em assuntos da China, Jorge Tavares da Silva, a comentar a visita de Donald Trump à China. O professor da Universidade da Beira Interior entende que, nestes dias, “a China vai aproveitar a oportunidade de diálogo para cooperar, estudar a posição norte-americana e defender o seu próprio posicionamento”, sendo que esta cimeira é como as “conversas de um casal em fase de divórcio, mas que ainda precisa de falar”. Serve, sobretudo, “para acertar posições e, sobretudo, evitar a escalada de um conflito entre os dois lados”, adiantou. “Em cima da mesa estão temas como ajustamentos no domínio comercial, o acesso a terras raras e a venda de semicondutores avançados, bem como a eventual criação de um ‘conselho do comércio’ e a redução — ou pelo menos não aumento — de algumas tarifas. Os dois países procuram, acima de tudo, gerir a tensão sem a agravar, num equilíbrio cada vez mais frágil entre competição e interdependência”, considerou Jorge Tavares da Silva. Neste contexto, Trump “poderá precisar de apresentar algum resultado com impacto interno, capaz de atenuar a onda de descontentamento e reforçar a sua posição política doméstica”, defendeu. Agenda Médio Oriente Entretanto, e relativamente ao conflito no Médio Oriente, que tem gerado uma crise energética mundial e tensões no Estreito de Ormuz, “não se espera nada de substancial”. Na visão de Jorge Tavares da Silva, “parte do envolvimento dos Estados Unidos no Médio Oriente pode trazer vantagens para a China”. “Os Estados Unidos reduzem o seu envolvimento e atenção no espaço asiático, o que é favorável a Pequim. A posição chinesa deverá manter-se na sua linha habitual: defesa da paz, apelo ao fim das hostilidades e ao entendimento entre as partes, ao mesmo tempo que mantém um apoio informal ao Irão enquanto parceiro estratégico”, disse ainda. Na mesma altura da visita de Trump à China foi lançado o relatório “Achievements, Opportunities, and Prospects of China-Arab Cooperation in the New Era” [Conquistas, oportunidades e perspectivas da cooperação entre a China e os países árabes na nova era], por parte do Xinhua Institute, um “think-tank” ligado à agência Xinhua. Num comunicado divulgado esta quarta-feira a propósito deste documento, lê-se como o país pretende “construir uma comunidade China-Árabe com um futuro partilhado na nova era promovendo a cooperação em vários domínios”, isto desde que se realizou, em 2022, a primeira Cimeira China-Estados Árabes. Tendo em conta o actual desenvolvimento tecnológico, a China diz estar “a trabalhar activamente com os Estados árabes para promover projectos de cooperação emblemáticos em áreas relacionadas com a inovação”, lê-se no relatório. Fragilidades e cedências Tendo em conta outro tópico da agenda desta cimeira – a questão de Taiwan – Jorge Tavares da Silva adiantou que face à “posição relativamente fragilizada de Donald Trump nesta deslocação, em parte devido ao seu envolvimento no conflito no Irão”, poderão ocorrer “margens de cedência à China em algumas matérias”. Uma das áreas onde pode haver cedências será “a questão da venda de armamento a Taiwan, caso seja possível obter contrapartidas noutros domínios, como o acesso a terras raras, um eventual recuo ou abandono do programa nuclear iraniano, ou o aumento das compras de produtos norte-americanos”. “Trata-se, no entanto, de um quadro marcado por elevada imprevisibilidade na postura dos Estados Unidos, o que impede excluir, à partida, possíveis ajustamentos na abordagem à questão de Taiwan”, concluiu o analista.
Andreia Sofia Silva EventosConversa sobre caligrafia de Macau e Hong Kong este domingo O Barra Slow Festival prolonga-se até ao final do mês com palestras e exposições que podem ainda ser visitadas, incluindo os pavilhões em bambu da autoria de João Ó e Rita Machado e que permanecem na zona da Barra. Apesar dos principais eventos do festival deste ano já terem tido lugar, este domingo, às 15h, acontece a palestra “Traços de Tinta do Sul – Um século de coexistência da caligrafia aplicada entre Hong Kong e Macau”, com moderação do calígrafo Mok Hei Sai e apresentação de Westley Wong Chun Yat, de Hong Kong. O evento acontece no segundo andar das Oficinas Navais nº2, das 15h às 17h, servindo de complemento à exposição, “Nuvens e Fumo — Exposição de Caligrafia e Cerimónia do Chá de Mok Hei Sai”, disponível até ao final do mês, também nas Oficinas Navais. Segundo uma nota oficial, nesta palestra explora-se o tema da “estreita relação entre a caligrafia, cultura local e o desenvolvimento histórico” nos dois territórios, contando-se a história do universo da caligrafia que liga China, Macau e Hong Kong. “Desde o final da dinastia Qing até ao período da República da China, estudiosos e calígrafos foram migrando para sul, circulando entre Hong Kong e Macau, ensinando discípulos e transmitindo técnicas”, além de estabelecerem “uma estreita ligação entre os dois territórios”. Explora-se, assim, nesta sessão “a evolução histórica da ‘caligrafia aplicada’ em ambos os territórios”, além de se discutir “o valor comercial da arte da caligrafia desde o final da dinastia Qing”. Marcas documentadas Um dos pontos centrais desta sessão é o projecto de investigação desenvolvido pelo orador desde 2020, “Marcas de Tinta”, que documentou o trabalho de “diversos calígrafos que contribuíram para a cultura visual de Hong Kong”, e que resultou no livro “Marcas de Tinta de Hong Kong”. Esta obra, editada em 2024, recebeu, no ano passado, o Prémio Bienal de Publicação de Hong Kong, na categoria “Livros Ilustrados”. Os casos estudados no projecto “Marcas de Tinta” visam ainda uma reflexão “sobre estratégias futuras de preservação da história da arte pública”. Foi desenvolvido um trabalho de recolha e documentação das obras destes calígrafos que foram integradas em espaços públicos, nomeadamente “letreiros comerciais, monumentos, epitáfios, dísticos, cartões de visita e embalagens publicitárias”. Wong Chun Yat, que tem o nome artístico de Suen Yau, é também director criativo e professor convidado da Universidade Politécnica de Hong Kong. O projecto “Marcas de Tinta” recebeu apoio de entidades como a Sir David Wilson Heritage Trust e Hong Kong Design Ambassadors. Outra mostra do Barra Slow Festival que ainda pode ser vista até ao final do mês, no primeiro andar das Oficinas Navais nº2, é “From Inside Out: The Appearance of Tea Exhibition”, com trabalhos de 35 designers de Macau e China, com curadoria de Au Chon Hin e Young Huale. Apresentam-se aqui “trabalhos de mais de 50 marcas de chá”, recorrendo-se ao “minimalismo, sustentabilidade e experiência sensorial”. Aqui, o chá revela-se como um “meio que permite às pessoas abrandar o ritmo, explorando novas possibilidades no fluxo do tempo e espaço”. “A exposição mostra como o chá transcende as fronteiras físicas através da embalagem, da marca e da comunicação, evoluindo para uma forma de expressão e uma atitude de vida”, destaca a organização do festival.
Andreia Sofia Silva Grande PlanoFrancisco José Leandro e Anabela Santiago, académicos: AULP é “infra-estrutura de poder” Francisco José Leandro e Anabela Santiago estão a estudar a perspectiva geopolítica da língua portuguesa, analisando o trabalho da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Os académicos consideram que a aproximação de Macau ao mundo hispânico “não deve ser vista como ameaça ao português” São já muitos os anos de funcionamento da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Que balanço fazem da sua actividade em termos de resultados práticos para a geopolítica do português? Francisco Leandro (FL) – O balanço é claramente positivo, sobretudo se entendermos a geopolítica da língua portuguesa não apenas como promoção cultural, mas como criação de redes institucionais duradouras. A AULP tem contribuído para transformar a cooperação universitária num instrumento de diplomacia académica, aproximando instituições de ensino superior, investigadores, estudantes e decisores de diferentes países de língua portuguesa. Os resultados práticos não devem ser medidos apenas por indicadores imediatos, como eventos ou protocolos assinados. O impacto mais relevante está na consolidação de uma comunidade académica transnacional, na circulação de conhecimento, na formação de quadros e na capacidade de dar maior densidade institucional ao espaço lusófono. Nesse sentido, a AULP funciona como uma infra-estrutura de poder: discreta, mas estrutural, porque cria canais estáveis de cooperação científica, académica e diplomática. Naturalmente, há ainda desafios. Pode exemplificar? A projecção internacional do português continua dependente de maior financiamento, maior integração com políticas públicas e melhor articulação com os sectores económico, tecnológico e científico. Mas a AULP tem tido um papel consistente na passagem da lusofonia de uma ideia cultural para uma rede institucional operativa. É certo que Macau se posiciona como uma plataforma importante no contexto da AULP. Porém, a agenda política para o comércio entre a China e PLP aponta para uma crescente aproximação à língua espanhola. De que forma Macau, e também a AULP como extensão, se pode adaptar a esta nova realidade? FL – A aproximação ao espaço hispanófono não deve ser vista necessariamente como uma ameaça ao português. Pode ser vista como uma oportunidade, desde que o português não seja diluído numa lógica meramente instrumental. A questão central é saber se Macau e a AULP conseguem posicionar o português dentro de uma estratégia mais ampla de intermediação entre a China, os países de língua portuguesa e o espaço ibero-americano. Macau tem uma singularidade que não deve ser desperdiçada: é um território onde a língua portuguesa tem valor jurídico, histórico, diplomático e institucional. Essa condição permite-lhe funcionar como plataforma de ligação entre a China e a lusofonia. Perante uma maior aproximação ao espanhol, a adaptação deve passar por uma lógica de complementaridade: português, espanhol, chinês e inglês podem coexistir como línguas de circulação económica, científica e diplomática. Nesta geopolítica do português, e colocando três países numa balança, quem tem feito mais pela dinamização do idioma? Portugal, China ou Brasil? Anabela Santiago (AS) – Essa comparação só é útil se for feita com alguma nuance. Não cremos que exista uma resposta única, porque cada país tem desempenhado um papel diferente na geopolítica do português. O Brasil tem uma centralidade demográfica, cultural e mediática incontornável. É o país com maior número de falantes de português e tem uma capacidade muito significativa de projecção cultural, científica e económica. Portugal, por sua vez, tem desempenhado um papel importante na normatização, na diplomacia da língua, na política externa cultural e na articulação institucional do espaço lusófono. A China não é um país lusófono, mas tem reconhecido valor estratégico ao português, sobretudo através de Macau e da sua relação com os países de língua portuguesa. Nesse sentido, a China contribui de forma diferente: não pela pertença linguística, mas pela incorporação do português em estratégias de intermediação económica, diplomática e académica. Portanto, em vez de perguntar quem fez mais, talvez seja mais rigoroso perguntar quem tem feito o quê. O futuro do português dependerá menos da liderança isolada de um país e mais da capacidade de articular estes papéis: a escala brasileira, a estrutura diplomática portuguesa, o interesse estratégico chinês e, cada vez mais, o crescimento africano e asiático da língua. O estudo que estão a desenvolver olha para as “assimetrias históricas Norte–Sul” no que diz respeito a esta geopolítica. De que forma devem ser colmatadas, e quais as mais evidentes? AS – As assimetrias Norte-Sul são visíveis em vários planos. Desde logo, no acesso desigual a financiamento científico, infra-estruturas universitárias, redes de publicação, mobilidade académica, tecnologia, bases de dados e capacidade de internacionalização. Também existem assimetrias simbólicas: durante muito tempo, o conhecimento produzido no Norte Global foi visto como mais central, enquanto o conhecimento produzido no Sul Global foi tratado como periférico ou localizado. No espaço lusófono, isto significa que universidades africanas, timorenses ou de outros contextos do Sul Global nem sempre têm as mesmas condições para participar na produção científica internacional, mesmo quando trabalham sobre temas essenciais para o futuro da língua portuguesa. Colmatar estas assimetrias exige medidas concretas. Quais? AS – É necessário reforçar programas de mobilidade equilibrada, apoiar publicações científicas em português com padrões internacionais, financiar projectos de investigação liderados por instituições do Sul Global, promover coautorias menos hierarquizadas e valorizar conhecimento produzido a partir de diferentes realidades locais. A AULP pode ter aqui um papel importante, precisamente porque é uma rede académica transnacional. O objectivo não deve ser apenas integrar o Sul Global em estruturas já existentes, mas permitir que essas instituições também definam agendas, prioridades e critérios de relevância científica. Sendo a AULP uma associação ligada ao ensino superior, consideram que falta conexão do idioma com os diversos tecidos empresariais da Lusofonia? FL – Sim, essa conexão ainda pode e deve ser reforçada. A língua portuguesa tem sido frequentemente tratada como património cultural, académico ou diplomático, mas precisa também de ser entendida como activo económico. Uma língua ganha projecção quando está ligada a oportunidades concretas: emprego, comércio, inovação, tecnologia, formação profissional, indústrias culturais, turismo, serviços jurídicos, saúde, energia, economia azul e transição digital. Sendo a AULP uma associação ligada ao ensino superior, tem condições para aproximar universidades, empresas e instituições públicas. Essa aproximação pode passar por programas conjuntos de formação, estágios, investigação aplicada, incubadoras, redes alumni, centros de estudos empresariais lusófonos e projetos de transferência de conhecimento. O ponto essencial é este: a geopolítica do português não se consolida apenas nas universidades, nem apenas nos governos. Consolida-se quando a língua circula também nos mercados, nas empresas, na tecnologia, na inovação e nas profissões qualificadas. A AULP pode contribuir para essa ponte, formando quadros capazes de operar em contextos lusófonos e iberófonos, com competências linguísticas, interculturais e técnicas. Macau referido como um “hub híbrido de conhecimento” No passado dia 8 de Abril, Francisco José Leandro, professor associado da Universidade de Macau, e Anabela Santiago, investigadora nntegrada Centro de Estudos Internacionais do Iscte-IUL e doutorada em Políticas Públicas, apresentaram alguns detalhes do estudo que estão a desenvolver em torno da geopolítica do português, com a palestra “Abordagem multidisciplinar à geopolítica da língua portuguesa” na I Conferência Língua e Mundo, promovida pela Universidade Autónoma de Lisboa. Segundo explicaram os autores ao HM, o estudo analisa “a geopolítica da língua portuguesa enquanto variável estruturante do sistema internacional”, com foco no papel da AULP. Esta é vista como uma “infra-estrutura de poder que articula educação superior, ciência e diplomacia académica no espaço lusófono e iberófono”. A abordagem de Francisco Leandro e Anabela Santiago lança um olhar ao português “como vector de soft power estrutural, duradouro e institucionalmente mediado”. O lugar da RAEM A AULP é encarada como “actor estratégico da diplomacia académica, capaz de transformar cooperação universitária em poder institucional”, na qualidade de “rede académica transnacional”. No caso do papel de Macau nesta matéria, o território surge, segundo os académicos, como “um hub híbrido de diplomacia do conhecimento, onde a língua portuguesa funciona como recurso diplomático na projecção externa chinesa e como instrumento de intermediação académica e científica no eixo Sul–Sul”. O estudo analisa ainda “a relevância estratégica da articulação entre Lusofonia e Iberofonia, através da convergência com o espaço hispanófono, como mecanismo de ampliação do alcance institucional, científico e geocultural do português”. Desta forma, uma das conclusões é que “a projecção geopolítica da língua portuguesa depende crescentemente de redes académicas robustas, estando a AULP no centro desta arquitectura de poder linguístico no sistema internacional contemporâneo”.
Andreia Sofia Silva EventosLetras&Companhia | Peça de teatro “A Revolta dos Lusecos” este sábado A Sílaba – Associação Educativa e Literária juntou-se ao festival “Letras&Companhia” e apresenta no sábado a peça de teatro “A Revolta dos Lusecos”, escrita por Carlos Alberto Silva e interpretada por 14 crianças. A peça tem como pano de fundo o 25 de Abril e o fim do Estado Novo O universo da revolução do 25 de Abril será o ponto de partida de um evento do festival de literatura infantil “Letras&Companhia”. Trata-se da peça “A Revolta dos Lusecos”, da autoria de Carlos Alberto Silva, e que será interpretado por 14 crianças através de um trabalho de encenação da Sílaba – Associação Educativa e Literária. Segundo o programa do festival, a peça faz uma “abordagem lúdica e participativa” dos “acontecimentos marcantes do 25 de Abril de 1974”, utilizando “a narrativa literária como ferramenta de mediação histórica”. Com esta peça, os programadores do festival esperam “sensibilizar o público mais jovem para os valores da liberdade e da cidadania, transformando a leitura numa experiência viva e partilhada em palco”. A peça será apresentada no IPOR a partir das 18h. Ao HM, Susana Diniz, presidente e fundadora da Sílaba, disse que surgiu a oportunidade de apresentar esta peça em Macau dado o autor ser amigo da associação. Além disso, “A Revolta dos Lusecos” foi “o primeiro a sair na ‘Dinis Caixapiz’ em 2024”, que é “uma caixa de subscrição de livros infantis” com apoios do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Fundo de Desenvolvimento e Cooperação de Macau. Segundo Susana Diniz, esta “rede de apoio institucional ajudou a criar as condições para trazermos a peça a Macau e integrá-la neste festival, numa lógica de partilha cultural entre Portugal e Macau”. A ideia foi “tornar a aprendizagem mais fácil e mais viva” com a apresentação desta peça, cuja ideia central foi desenvolvida na Sílaba. Desta forma, “A Revolta dos Lusecos” permite à associação “representar parte de uma história recente de Portugal que é muito importante: a transição para a democracia após o Estado Novo”. “É uma oportunidade única para mostrar às crianças e aos jovens de Macau que o caminho para a democracia foi difícil, que não foi um processo automático ou inevitável, mas sim o resultado de coragem, resistência e sacrifício de muitas pessoas. Acreditamos que esta mensagem é universal e relevante para qualquer jovem, independentemente do contexto geográfico”, disse Susana Diniz. A fundadora da Sílaba acrescentou que trabalhar uma obra criada por um autor conhecido ajuda a criar “uma ponte mais directa e afectiva entre os miúdos e a história”. Missão cumprida Susana Diniz é a responsável pela encenação, com o auxílio de outros membros da associação, uma colaboração que descrever como “essencial para gerir um projecto desta dimensão”. “O espectáculo vai contar com música, imagens projectadas e os miúdos em palco, num cenário construído para a ocasião”, descreve Susana Diniz, que fala ainda no trabalho desenvolvido ao nível da adaptação do texto e preparação das crianças. Tem sido “muito gratificante ver que eles se divertem e, sobretudo, que compreendem as suas personagens”, frisou. “Quando um miúdo de 10 anos consegue explicar o que sentia um luseco em 1974, percebemos que o teatro está a cumprir a sua função: contar uma história e fazê-la viver dentro de quem a conta.”
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivros | Guerra&Paz lança duas obras sobre a China em português A editora portuguesa Guerra&Paz lançou recentemente duas obras sobre a China em português. Uma delas, na área da ficção, intitula-se “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas”, onde se encontra o “prodigioso imaginário chinês”, segundo o editor, Manuel S. Fonseca. Segue-se a “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende Acabam de ser editados, no mercado português, duas obras que ajudam a explicar um pouco como é a China – tanto a nível literário como histórico. A Guerra&Paz editou recentemente, em português, “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas”, bem como, já no campo de não-ficção, “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende. Ao HM, o editor da Guerra&Paz, Manuel S. Fonseca, conta como “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas” revela ao leitor o “prodigioso imaginário chinês”, sendo que a cultura chinesa, no seu entender, “marcou – e continuará a marcar – a história da humanidade”. Esta obra faz parte de uma colecção inaugurada pelo livro “Lendas e Contos de Fadas Japoneses”. Segundo Manuel S. Fonseca, o objectivo da editora é depois editar uma antologia de lendas e contos de fadas turcos, mas não só. “É nossa intenção publicar lendas e contos de fadas de várias origens, da Europa à Ásia, passando por outros continentes. A intenção da colecção é revisitar o imaginário infantil e tradicional de uma plêiade de países e continentes”, disse. Neste caso, foram escolhidos contos do “The Chinese Fairy Book”, organizado por R. Wilhelm, editado em 1921 pela Frederick A. Stokes Company. Manuel S. Fonseca explicou ainda que foi feito um confronto “com a vária bibliografia para chegarmos à selecção que deu lugar a esta edição, que é variada, contemplando diferentes estilos e géneros”. Com uma tradução feita a partir do inglês, pediu-se à tradutora e respectivas revisoras para “manter a linguagem encantatória típica do género [do conto], muito concreta e precisa”. “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas” contém histórias como “O Pássaro de Nove Cabeças”, “O Grande Dilúvio” ou ainda “A Rosa do Entardecer”, que encerra o livro. São 17 histórias que remetem para um imaginário muito específico que contam com ilustrações de Ilídio Vasco. A edição inglesa serviu de base à escolha das imagens, mas procurou-se “sempre ilustrar os temas de cada um dos contos, com alguma predominância com ilustrações dos séculos XVIII e XIX”. Para Manuel S. Fonseca, esta obra traz uma “mensagem de encantamento estético e lúdico” proporcionada pelo imaginário contido nestes contos. “Contornando o mistério que contos e lendas sempre terão, o outro objectivo é o de dar a conhecer a riqueza folclórica e mágica, o de abrir os leitores da Guerra&Paz – os leitores destes contos de fada do mundo – à revelação dos elementos sobrenaturais tão característicos do universo chinês.” “Há aqui fábulas de transformação, animais míticos, elementos que vêm do confucionismo, uma sabedoria que não deixa de nos passar uma mensagem a que os leitores portugueses jamais deixarão de ser sensíveis, a de que o amor, se não sempre, muitas vezes vence”, adiantou Manuel S. Fonseca. Guia histórico A Guerra&Paz colocou ainda no mercado a obra “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende, historiador e sinólogo francês especializado na história e historiografia da China antiga e medieval. Segundo a descrição da obra, trata-se de um “pequeno guia fundamental, complementado por cronologias, mapas e um glossário”, sendo um livro “essencial para os apaixonados pela China, assim como estudantes, aspirantes a sinólogos e todos aqueles que queiram saber mais sobre o Império do Meio”. Esta obra divide-se em oito capítulos, que vão desde o nascimento da escrita no país, por volta de 1200 a. c., até à queda do império sinomanchu dos Qing em 1912, já com a implementação da República. Fala-se ainda dos primeiros impérios dos Qin e dos Han (221 a. C.220 d. c.), passando pelos anos da Alta Idade Média, entre os séculos III a VII, pela dinastia Tang e depois pelas chamadas Cinco Dinastias (anos 618 a 960). O livro descreve também como era a China nos anos do império Mongol, de 1276 a 1368, passando depois para a dinastia Ming, dos anos 1368 a 1644. Segundo descrição da editora, “para cada um dos grandes períodos o autor apresenta o essencial do contexto histórico e o que é preciso reter para se compreender uma cultura rica e exuberante, destacando inúmeras curiosidades e figuras históricas, assim como as grandes obras que constituem a bagagem cultural comum da China dos dias de hoje”. Marcos do percurso Na introdução da obra “História da China Antiga e Imperial” pode ler-se que “escrever a história da China antiga e imperial significa, no fundo, olhar para um território da Ásia Oriental, para uma cultura específica – a dos Han e daqueles que se dizem seus herdeiros –, sem ignorar as que estiveram em contacto com ela, como as culturas das estepes do Norte ou as das populações das fronteiras interiores”. Mas este processo implica também “prestar atenção à forma como a história foi escrita – ou reescrita – nesta parte do mundo”. Desta forma, o livro de Damien Chaussende “tem como objectivo apresentar os grandes marcos históricos, institucionais e culturais da longa e rica história da China”, destacando o facto de “longevidade não significar imobilismo”. Bem pelo contrário. “Mesmo que o sistema imperial chinês tenha conseguido manter-se por mais de dois mil anos, cada período e cada dinastia teve as suas particularidades em termos de instituições e produções culturais. São essas singularidades que nos esforçámos por sublinhar”, pode ler-se. Na introdução do livro refere-se também que o autor quis “dar destaque aos elementos que, actualmente na China, são considerados parte da cultura geral de todos” e que proporcionam ao leitor “uma melhor compreensão das referências culturais que podem surgir, por exemplo, nos meios de comunicação social, nos discursos políticos ou, mais simplesmente, no decorrer de uma conversa”. O primeiro capítulo dá conta “dos vários berços de civilização na China”, nomeadamente o facto de “os vestígios de vida humana no território chinês” remontarem ao período do Paleolítico, com o “Homem de Yuanmou, datado de 1,7 milhões de anos”, sendo a “descoberta mais famosa” a do chamado “Homem de Pequim, que viveu há quinhentos mil anos num conjunto de cavernas em Zhoukoudian (a sul da actual Pequim)”. Descreve Damien Chaussende que “o Mesolítico é relativamente pouco conhecido devido à falta de descobertas arqueológicas”, mas o período do Neolítico “está bem representado, com berços localizados em muitas províncias da China actual, tanto no norte (bacia do rio Amarelo) como no sul (bacia do rio Yangtsé)”. Há ainda vestígios de civilizações antigas nas zonas costeiras: na actual Henan (cultura Yangshao, 5000-3000 a.c.) ou ainda em Zhejiang, com a cultura Hemudu, que remonta aos anos de 5500 a 3300 a.c. Por sua vez, existem também vestígios na vizinha província de Guangdong, com a cultura Shixia. Ainda assim, “o local retrospectivamente considerado como centro primitivo da civilização chinesa está situado na Planície Central, ou seja, na bacia inferior do rio Amarelo, em torno do rio Luo”.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeRua dos Ervanários | “Fábrica das Bifanas” serve petiscos tradicionais Era para abrir em Lisboa, mas as raízes em Macau de Ricardo Rebelo de Almeida levaram-no a trazer o negócio da “Fábrica das Bifanas” para o território. A típica bifana à moda do Porto pode ser provada na Rua dos Ervanários, mas não falta a bifana semelhante à receita da cidade de Vendas Novas, no Alentejo Turistas e locais já têm um novo espaço para provar as típicas bifanas portuguesas, seja a receita do Porto, seja a de Vendas Novas. Na “Fábrica das Bifanas”, na Rua dos Ervanários, o sabor é sempre português num negócio trazido para Macau por Ricardo Rebelo de Almeida. Ao HM, o responsável confessou que Macau nem era o destino inicial deste investimento. “A Fábrica das Bifanas foi inicialmente pensada para ser desenvolvida na zona de Carcavelos, Grande Lisboa. Mas tenho uma ligação forte a Macau, onde cresci, e circunstâncias pessoais levaram-me a permanecer no território. Nesse contexto, fez sentido concretizar aqui o projecto, que já estava estruturado, adaptando-o à realidade local. A minha ligação a Macau foi determinante na decisão de avançar com o projecto aqui”, contou. Apesar de ter trazido para Macau a receita tradicional da bifana da zona do Porto, a verdade é que a “Fábrica das Bifanas” também trouxe este petisco na sua versão mais clássica, ou seja, “mais próxima da tão apreciada bifana de Vendas Novas em termos de sabor, mas diferenciada, porque usamos o mesmo corte ultrafino da carne, o que lhe confere uma textura e experiência distintas”. Além disso, a “Fábrica” tem também pão com chouriço “pleno de sabor e servido quente, que tem sido igualmente bem recebido pelo público”. Ricardo conta que o segredo das bifanas à moda do Porto baseia-se no “corte ultrafino e forma de confecção”, sendo uma iguaria “cozinhada lentamente num molho previamente preparado, o que permite uma melhor incorporação de sabores”. O pão utilizado em todos os petiscos é sempre “proveniente de Portugal, preservando o sabor tradicional”. Feedback “muito positivo” Com a casa aberta há poucas semanas numa das zonas mais turísticas da península de Macau, Ricardo Rebelo de Almeida destaca que “o feedback [do público] tem sido muito positivo”, tendo recebido “muitos clientes locais e também um volume significativo de visitantes e turistas de várias nacionalidades”. Questionado sobre os desafios de investir no sector da restauração em Macau nesta fase, o mentor da “Fábrica das Bifanas” frisou que houve “especial preocupação com a escolha do local para a abertura do espaço”. “Sobretudo acreditámos no produto diferenciado que oferecemos”, adiantou, querendo agora “consolidar a ‘Fábrica das Bifanas’ como uma marca reconhecida localmente”, nomeadamente “reforçar a presença junto do público de Macau e visitantes”. Contudo, e “num horizonte mais longo, faz parte da visão avaliar oportunidades de crescimento, sempre de forma sustentável e alinhada com a evolução do projecto”, revelou o empresário.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteInês Cardoso, jornalista e autora de livros infantis: “A desinformação joga com emoções” Inês Cardoso embrenha-se na escrita de livros para os mais novos quando a espuma frenética dos dias do jornalismo lhe dá algum descanso. A directora do Jornal de Notícias foi convidada pelo festival “Letras&Companhia” para apresentar o livro “De Londres ao Porto numa gaivota”, que foi traduzido para chinês Vem a Macau participar no festival “Letras&Companhia”. Como se sente por vir ao território neste contexto? É a primeira vez que vou a Macau e é particularmente entusiasmante perceber o trabalho que continua a ser feito para preservar a língua portuguesa. O festival tem muitos atractivos, e é uma honra estar ao lado de pessoas como Afonso Cruz ou André Letria, porque trabalham diferentes públicos e têm um trabalho muito conceituado. Vou falar de literatura juvenil e é bom poder estar directamente com o público escolar e perceber a sua ligação à língua. Apresenta na sexta-feira o livro que lançou em 2019, “De Londres ao Porto numa gaivota”. Porquê esta obra? Tem muito a ver com a temática do festival, centrada nas cidades. Este é um livro que trabalha muito no espaço urbano, portanto transporta-nos para alguns dos espaços emblemáticos de Londres e Porto na forma como a protagonista, Sofia, que viveu no Porto, mas se mudou para Londres, vai viajando mentalmente pelos locais que a saudade, no fundo, mantém activos. Não sendo o meu livro mais recente, acabou por estar em destaque nesta edição, e graças a uma parceria entre a Porto Editora e o IPOR [Instituto Português do Oriente, co-organizador do festival], o livro vai ter uma versão em português e chinês. Trata-se de algo que vai permitir trabalhar esta questão da língua e das viagens que fazemos através dela, tal como a própria história também reflecte. Quando sai a versão em chinês do livro? Será apresentada no festival, estando disponível na Livraria Portuguesa. A saudade é um sentimento muito português, é um desafio traduzir essa palavra para outra língua? Que expectativas têm em relação à tradução? Esta é uma das reflexões que fazemos no livro. Ao tentar traduzir a palavra saudade fazemos essa abordagem, quanto à importância e centralidade que a saudade tem para nós, portugueses. Muitas vezes tem um sentido excessivamente nostálgico, mas a verdade é que nos marca muito, tanto na literatura, na música ou no nosso imaginário. O livro aborda isso, a forma como nos entendemos e como, no fundo, podemos fazer corresponder a saudade a outras expressões que outras línguas têm para traduzir esse sentimento, que, de facto, nos marca muito colectivamente. O seu livro mais recente, também de literatura infantil, “As Mãos da Avó”, foi editado no ano passado. Há algum paralelismo com a obra que apresenta no “Letras&Companhia”? É uma história que tem um ritmo um pouco mais lento, por assim dizer, tem uma escrita mais pausada. Procuro que o próprio livro trabalhe a questão da espera e da paciência. É, num certo sentido, um livro que nos leva a viajar, também a nós adultos, pelas nossas memórias de infância. Quando se fala de literatura infantil, prefiro mais falar em livros e álbuns ilustrados, porque tenho percebido que “As Mãos da Avó” é, muitas vezes, um livro que sensibiliza os adultos que se identificam com aquela experiência da neta, que aprende com as mãos da avó e que partilha momentos com ela, e que, em contacto com a natureza, vai percebendo pequenas lições que a avó lhe transmite. Vivemos tempos muito acelerados, em sociedades que valorizam muito a rapidez. A capacidade de pararmos e percebermos a importância da espera é uma reflexão que nos interessa particularmente e da qual até estamos a precisar. Como se passa do jornalismo, precisamente dessa pressa das redacções, para a literatura infantil? Esse é um dos desafios e diria até que uma das razões que explica o facto de eu publicar com longos intervalos, exactamente porque o jornalismo é tão absorvente e a realidade tem estado tão acelerada. Sinto que somos arrastados no vórtice da actualidade e temos muita dificuldade em travar, sobretudo desde a altura da pandemia. Tivemos a crise, a invasão na Ucrânia, fomos tendo outros conflitos muito centrados no Médio Oriente, mas também a própria eleição de Donald Trump trouxe uma série de alterações na geopolítica internacional. Temos avanços na inteligência artificial que nos vão lançando desafios. Ou seja, vivemos tempos que constituem desafios colectivos e que se traduzem no nível de atenção permanente por parte dos media e de alteração do trabalho nos próprios media. Somos muito afectados pela alteração dos algoritmos, das redes sociais, da entrada da inteligência artificial em campo. Há uma rapidez que deixa muito pouco espaço para a criatividade e imaginação. Quando consigo esses espaços, importantes para mim, dá-me alguma respiração neste mundo que tem estado algo distópico nos últimos tempos. E, portanto, gosto de olhar para a literatura infantil ou juvenil como um caminho para alguma descompressão e até para alguma saída deste mundo às vezes pouco empático e pouco focado. Falando da inteligência artificial, ainda é possível pôr crianças a ler um livro físico? No caso particular da leitura para a infância, e com os álbuns ilustrados, acredito que o papel vai resistir, porque é de facto único na capacidade de nos transportar para o peso que as próprias ilustrações têm. Hoje temos formatos cada vez mais criativos, com livros que trazem novas abordagens, com desdobráveis [por exemplo] e uma criatividade que tem sabido evoluir num sentido que é tão único que, de facto, não pode ser substituído por nenhum ecrã. Vou às escolas com alguma regularidade e sinto que as crianças mantêm, pelo menos na primeira infância, um grande entusiasmo com as histórias e com os livros. Gostam de os sentir. Depois temos de fazer a nossa parte. Se olharmos para os exemplos da Suécia ou Noruega, que num determinado momento foram pioneiros no digital, pelas salas de aula dentro, e agora percebem que foi um erro e estão a regular e a incentivar cada vez mais o livro e a leitura, acho que temos de ir aprendendo com essas lições. Há medidas que têm de ser adoptadas por decisores e governantes, no sentido de ir protegendo e estimulando a leitura e percebendo que ela tem um espaço próprio que não deve ser alterado, apesar da competição gerada pelo digital e pelos ecrãs. Começou no jornalismo em 1998 e actualmente é directora do Jornal de Notícias (JN). Qual a mudança mais fracturante que assistiu na profissão nos últimos anos? Temos tido muitas mudanças muito rápidas. Quando comecei já estávamos a falar nos desafios que o digital nos iria trazer, e desde então fizemos muitas experiências e continuamos sem respostas, porque a todo momento temos novos desafios. Uma das grandes dificuldades é continuar a merecer a confiança dos leitores e, no fundo, a captar a atenção no meio de tanto ruído. Diria que o grande desafio é até mais social do que dos próprios jornalistas, que têm estado muitas vezes sozinhos a defender um espaço que é, na verdade, vital para a própria democracia. No nosso caso, no JN, tivemos um momento particularmente marcante que foi ao final de 2023 e início de 2024, um momento de luta que evitou um despedimento colectivo. Houve depois uma mudança de accionistas e de propriedade no grupo [Global Media]. Esse momento, em Portugal, foi particularmente importante e significativo na reflexão que, em Portugal, estamos a fazer sobre a propriedade dos media, o financiamento e a sustentabilidade, problema que também está a ser enfrentado pela revista Visão. Do ponto de vista tecnológico, creio que vamos continuar a assistir a mudanças constantes, em que ainda não sabemos muito bem o que a inteligência artificial vai provocar, nomeadamente nesta questão da confiança das pessoas, na disseminação cada vez maior e mais eficaz da desinformação e os riscos que, no fundo, acarreta para todos nós. Quando fala que a preservação do jornalismo também parte da sociedade civil, não sente que o perigo reside no facto de as pessoas terem muita desconfiança em relação aos media e terem até um tom acusatório em relação aos jornalistas? Como se combate isso? Sim, por isso é crucial que haja capacidade para, de forma colectiva, olharmos para este tema da desinformação como um problema da democracia, e não um problema dos jornalistas. É verdade que há essa desconfiança, e parece-me que os cidadãos ainda acreditam em muitos mitos relacionados com a informação, ou seja, que através das redes sociais conseguem obter a informação sem precisar de jornalismo, que conseguem ser eles a seleccionar as fontes, ou que seguem quem querem. Não percebem que estão constantemente a ser manipulados pela própria lógica do algoritmo, pelas bolhas que vão sendo criadas na sequência do seu próprio comportamento digital. Há uma série de mecanismos subtis que são perigosos do ponto de vista individual e do ponto de vista da popularização social, em relação aos quais os cidadãos ainda não estão plenamente atentos e dos quais não estão, sequer, muitas vezes conscientes. Sabemos muito bem a quem interessa essa desinformação, quem a trabalha e quem mais [promove] a disseminação alargada de informações falsas. Sabemos os riscos a que estamos sujeitos quando as opiniões são, cada vez mais, facilmente manipuladas e orientadas, nomeadamente em períodos de eleições. Já há diversos estudos que comprovam o quanto a desinformação aumenta em períodos eleitorais. Esta é uma reflexão que, apesar dessa má imagem que os jornalistas actualmente sofrem, vai ter de ser feita colectivamente. No sábado protagoniza uma oficia de literacia digital para professores intitulada “Combater a desinformação na era da IA”. E como se combate, afinal? Temos riscos cada vez maiores e as ameaças são muitas. Diria que se combate sobretudo com muita formação. Nesta acção de formação para professores vamos abordar algumas formas de tratar o tema, nomeadamente para crianças e adolescentes já ao nível do secundário, porque é essencial que todos possamos identificar alguns sinais em vídeos, imagens ou informações partilhadas. Para que saibamos identificar quem tem funções de particular responsabilidade, e o professor é sempre alguém que tem essa responsabilidade perante a sua própria sala de aula e aqueles que estão, no fundo, entregues e confiados. O professor tem essa missão com uma maior exigência, porque pode ter um efeito multiplicador na transmissão de ferramentas que são úteis em todas as idades. Temos de estar atentos e saber como verificar a informação e, sobretudo, como não agir por impulsividade ou emotividade, que é um dos grandes problemas da desinformação. Esta joga muito com as emoções, com a confirmação de preconceitos e esse, no fundo, é o trabalho mais difícil de fazer.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteDaniel Pires, académico, sobre Camilo Pessanha: “Um homem que atraía muitas invejas” “Pairo na Luz, suspenso…” – Centenário da morte de Camilo Pessanha (1867-1926) é o nome do congresso, que se realiza hoje e amanhã na Universidade de Coimbra, para celebrar a vida e a obra do poeta. Daniel Pires, académico e editor de Pessanha, irá desvendar detalhes sobre as colecções de arte que o poeta deixou e os seus contributos a nível jurídico Apresenta hoje “O percurso cívico de Camilo Pessanha”. São muitas as valências desse civismo. Vou falar da doação que fez de peças de arte chinesa ao Estado português, e também da sua biblioteca. Também vou falar sobre a sua actividade jurídica, pois esteve ligado a vários regulamentos publicados em Macau, tendo sido ele que os fez, na sua grande maioria, e que têm a ver também com a interacção entre portugueses e chineses. Falemos das colecções doadas ao Estado português. O que encontramos nestes espólios? Uma das colecções é imensa, com mais de 300 peças de grande valor, e que foi primeiramente exposta em Macau em 1915. Depois, pouco antes de falecer, ofereceu uma segunda parte da colecção, pedindo que viesse para Coimbra, para o Museu Nacional Machado de Castro. Como descreve a relação de Camilo Pessanha com a arte chinesa? Ele era um admirador da civilização e cultura chinesas, sem dúvida, e escreveu sobre isso, embora não tenha escrito muito. Aliás, ele não escreveu muito sobre nada, mas há artigos de jornais sobre arte e língua chinesa, o mandarim, e a estética que nela está implícita. Há notícias de que logo no início da sua estada em Macau, Camilo Pessanha começou a aprender e a falar cantonense. Depois fez traduções, e era de facto um sinólogo, uma pessoa que admirava bastante a filosofia e arte milenares, os caracteres chineses, e por aí fora. Como era a relação destes intelectuais portugueses em Macau com a comunidade chinesa, numa altura em que eram muito poucos os livros que juntassem as duas línguas. Não havia, de facto, grandes meios para se estudar a civilização chinesa. Macau estava fechadíssimo e poucas coisas lá chegavam, praticamente só tinha relações com Hong Kong. Ir à China era quase impossível. Mas havia o que chamamos de sinólogos, e os dois principais eram Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes. Depois temos o aluno de Camilo Pessanha que, em termos de sinologia, suplantava tudo, o Luís Gonzaga Gomes. Além da doação de Pessanha, e que foi exposta em 1915, há uma segunda doação… Ele [Camilo Pessanha] foi convidado por um grande Governador de Macau, que depois veio a ser morto na “Noite Sangrenta”, em 1921… Carlos da Maia. Exactamente, eram grandes amigos. Carlos da Maia convidou Pessanha para expor parte da sua colecção no Palácio [do Governador], e expor 100 peças de uma variedade e ecletismo incríveis, desde vestuário passando por objectos japoneses, etnografia, linguística, com os caracteres chineses artisticamente tratados. Antes de falecer, Camilo Pessanha contactou o Governador na altura, Maia Magalhães, oferecendo a sua colecção com a condição de vir para Portugal. Entretanto, a primeira doação tinha sido recusada por vários museus, por se entenderem tratar-se de pechisbeques. Ao fim e ao cabo tratava-se de ignorância, porque a colecção é excelente mesmo. Camilo Pessanha adquiriu todas essas peças em Macau? Ele andava pelos tintins [zona de mercado de rua no Porto Interior], mas também foi a Cantão mais do que uma vez e até a Hong Kong. Mas, de facto, a base dele era mesmo Macau. Ele aprendeu chinês também com o objectivo de poder comprar melhor. Pelas contas que fiz para o livro “Camilo Pessanha – Prosador e Tradutor” ele reuniu um acervo de 370 peças. Relativamente ao trabalho jurídico de Pessanha, que legado deixou em Macau? Muito forte, quer como bom jurista, quer como, digamos, juiz substituto. Esteve ligado à promulgação de várias leis e regulamentos. Mexeu bastante em leis que vinham do tempo da monarquia e que não tinham sido mudadas. Como juiz, optou sempre pelas penas mais baixas, tendo um tom humanista. Macau gerou, ao longo da sua história, diversos intelectuais portugueses que se preocuparam com o território e não estiveram apenas de passagem. Pessanha foi dos mais importantes? Sem dúvida. Há quem diga que era abúlico, mas [Camilo Pessanha] era uma pessoa doente, o que é diferente, e tinha também alguma depressão à mistura. Nessas crises obviamente que não podia ser muito activo. Ele nunca teve muita saúde, mas quando a teve fartou-se de mexer em coisas, sempre com o objectivo de aperfeiçoar, melhorar, alterar. Só que também é preciso dizer que Macau era muito conservadora, a sociedade macaense. Nem toda a gente aceitava pessoas que não iam à missa, por exemplo. E Camilo Pessanha não ia à missa. Não. Ele teve uma educação muito católica mesmo. As duas irmãs dele chamavam-se Madalena e isso não é por acaso, não é? Mas nos anos pré-República o catolicismo foi muito forte e houve ali uma pressão fortíssima. E isso repercutiu-se na mentalidade de muitos intelectuais, muitos deles que eram inicialmente católicos e que depois se confrontaram com o compadrio que existia na alta hierarquia católica e a monarquia. Claro que nem todos seriam assim. Falo do apoio que o alto clero dava aos monárquicos, com alguma corrupção, alguns escândalos de cariz sexual também, e que foram denunciados na imprensa. Tudo isso afastou uma série de pessoas que, inicialmente, eram católicas, e terá sido o caso de Camilo Pessanha também. Estes casos ocorreram em Portugal. Sim, mas chegavam a Macau através dos jornais e… Contaminavam a opinião pública. Exactamente. Camilo Pessanha também era mal visto por consumir ópio? A doença tornava-o propenso à droga, mas não era uma coisa que não o impedia de concretizar o seu trabalho diário. Digamos que seria uma coisa que ele faria em casa [fumar ópio]. Obviamente que as pessoas mais conservadoras olhavam para isso de lado, daí terem surgido uma série de histórias sobre Pessanha da parte de pessoas extremamente conservadoras que não hesitaram em caluniá-lo e até denegri-lo. Muita gente disse que a colecção de arte chinesa dele não valia nada. Silva Mendes, por exemplo, era um inimigo de Camilo Pessanha, misturou ideologia com falta de ética e usou todos os meios possíveis para o denegrir. Chegou a sair um artigo de Silva Mendes dizendo que a poesia de Camilo Pessanha era de muita fraca qualidade. Imagine, onde ele foi tocar. Naquilo onde Camilo Pessanha é intocável é, exactamente, na poesia. Mas era um homem que atraía muitas invejas. Por ser genial, digamos assim? Sim. O meio de Macau era muitíssimo fechado. Os portugueses seriam uns mil, isto no princípio do século. Estavam ali encafuados, claustrofóbicos, numa paranóia – no sentido do termo, mesmo – relativamente à China, que estava ali ao lado, e as pessoas sabiam o que tinha acontecido ao Ferreira do Amaral [Governador assassinado em 1849]. Isso foi um trauma muito forte para os habitantes de Macau, e na época de Pessanha esse trauma ainda era visível. Quando Pessanha vai para Macau tem consciência das suas especificidades sociais e políticas? Não. Terá tido dificuldades na adaptação ao clima, e são sempre duas culturas díspares, não é? Houve a questão da língua, porque ninguém falava português, o corte radical com a família. Ele tinha problemas familiares, com um irmão que enlouqueceu. Portanto, acho que teve uma capacidade de adaptação bastante grande, porque ele chega e começa a estudar de imediato cantonês. A relação de Pessanha com a comunidade macaense era também próxima. Havia, de facto, uma interacção com a comunidade, mas não só. Houve uma interacção de Camilo Pessanha com o primeiro Presidente da República chinês. Sun Yat-sen. Exacto. Há várias fotografias dele com o Sun Yat-sen. Portanto, era bem mais republicano do que monárquico, além de maçom. Sem dúvida, Camilo Pessanha era mesmo republicano e escreveu vários textos de apoio à República. A implantação da República deu-se a 5 de Outubro [de 1910], mas em Macau não. As autoridades locais eram todas monárquicas e a transição foi difícil. O novo Governador, Eduardo Marques, só foi proclamado dias depois. Pois. Eles não cediam. O secretário do Governo era um tipo completamente monárquico, e Camilo Pessanha também desempenhou aí um papel interessante. O mesmo quando a Constituição de 1911 foi aprovada. [Ele questionou]: “E aqui, como é? Não há Constituição?”. O ensino também demorou a mudar, porque os republicanos tentaram reformar o ensino em Macau, que tinham as missões católicas, e isso foi difícil. Disse que Camilo Pessanha escreveu pouco ao longo da vida. Talvez se não fosse Ana de Castro Osório não teria sido editada “Clepsydra”. Como explica esta dispersão poética? É verdade. Mas o grande problema prende-se também um pouco com a doença do Camilo Pessanha. Ele esteve quatro anos em Portugal, de 1905 a 1909, quando foi operado a um tumor. A inspiração poética também dependia do seu estado de saúde. Na realidade a “Clepsydra” é composta por 56 poemas apenas, e também fiz uma edição de “Clepsydra” em que reuni a prosa dele, e tudo isso cabe num livro. Houve também muita coisa que ele vivenciou e não escreveu, o que foi pena. Tem a ver com o temperamento dele, era uma pessoa fechada, tímida, na realidade. Ao fim e ao cabo isso reflectiu-se na sua escrita. A partir do momento em que Pessanha vai para Macau, como ficou a sua relação com Portugal? Ele foi para Macau por duas razões. Uma delas é que se formou em Direito, e na altura os juristas, para terem uma carreira como juiz ou procurador régio, tinham de servir nas colónias. Foi o que aconteceu ao seu grande amigo, Alberto Osório de Castro, que esteve em Goa e Timor. Depois houve outro detonador, que foi o facto de ele ter pedido Ana de Castro Osório em casamento e ela não ter aceite por já estar comprometida. Depois ela desentendeu-se com o, chamemos, namorado, e há uma carta de Alberto Osório de Castro perguntando a Camilo se ainda gostava da irmã, se havia alguma perspectiva no horizonte, mas ele já estava acomodado a Macau. Tinha de ganhar dinheiro para mandar a um irmão que estava a estudar em Coimbra, e a outro que tinha enlouquecido. Nessa altura, já estava com a mãe do filho, Águia de Prata. Como olha a forma como Camilo Pessanha é recordado hoje em dia em Portugal? Digamos que está um pouco esquecido nas escolas básicas e secundárias, mas também lhe digo que não é fácil a poesia de Camilo Pessanha. Quase precisa de um guia. Mas nos meios intelectuais, digamos, não me parece que ele seja esquecido. Antes do 25 de Abril, Camilo Pessanha não era muito conhecido, e ganhou um grande impulso depois. O mesmo aconteceu com Fernando Pessoa. Só por volta da década de 1980 começaram a ser publicadas edições de “Clepsydra” e se impôs Camilo Pessanha. Digamos que, neste momento, Camilo Pessanha não é um poeta esquecido.
Andreia Sofia Silva Grande Plano ManchetePatuá | “Extinção parece ser irreversível”, conclui estudo da UPM Um estudo de três académicas da Universidade Politécnica de Macau conclui que se “mantém robusto o sentimento de pertença e orgulho macaense”. Porém, a extinção do patuá é “irreversível”, com os jovens a sentirem-se “impotentes perante a fatalidade da perda deste património” O patuá está praticamente extinto. Esta é uma das conclusões do estudo “Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau: um estudo de caso”, da autoria de Maria Gomes Fernandes, Xiaoyan Wang e Meng Ye, três académicas da Faculdade de Línguas e Tradução da Universidade Politécnica de Macau (UPM). O trabalho consta da mais recente edição da Diacrítica, revista do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, dedicada à temática “A língua portuguesa na China: ensino, literatura, cultura e tradução”. Lê-se no estudo, feito com base num inquérito à comunidade macaense, que “a extinção do patuá parece ser irreversível, não obstante os esforços de revitalização empreendidos”. “Os dados falam por si: os jovens inquiridos não falam nem transmitem esta língua aos descendentes”, é indicado. Num trabalho que olha “como os jovens macaenses se inserem social e culturalmente na sociedade de Macau”, tendo em conta que “subsistem muitas dúvidas quanto às formas de preservar a comunidade macaense da RAEM enquanto identidade cultural única”, conclui-se que “o sentimento de pertença e orgulho macaense mantém-se robusto”. Tudo graças a “hábitos e costumes associados à gastronomia, à religião católica e à língua portuguesa”, verificando-se “um elevado grau de plurilinguismo”, com a manutenção “do papel de elo entre a comunidade chinesa e portuguesa”. O português constitui, por sua vez, “um pilar fundamental que ajuda a contrariar a tendência de identidade cada vez mais fluida e hibrida, que tende a ser diluída na etnia chinesa maioritária”, destaca-se no artigo. O estudo reflecte mesmo que “a língua portuguesa continua a ser parte integrante da identidade macaense de Macau”. À questão sobre o que significa ser macaense, a maioria, 66 por cento, responde que é macaense quem é natural de Macau, enquanto que 52 por cento diz que é possível ser-se macaense, ou identificar-se como macaense, graças à “partilha dos mesmos hábitos e costumes”. As académicas recolheram recolhidos 58 inquéritos válidos, sendo que “a idade da grande maioria dos respondentes situa-se entre os 25 e 40 anos”. Foi feito um “questionário junto da comunidade macaense, com especial enfoque em jovens anónimos”, tendo sido “estabelecido um primeiro contacto através das redes sociais com ex-alunos macaenses do curso de Licenciatura em Tradução e Interpretação da Universidade Politécnica de Macau, que, por sua vez, divulgaram a ligação do Google Forms para que outros elementos da comunidade respondessem”. Patuá a desaparecer Em relação ao uso do patuá, o estudo confirma que “este crioulo se encontra, hoje, praticamente moribundo, pois 90 por cento destes jovens inquiridos não falam esta língua”. Porém, as respostas denotam uma consciencialização sobre a necessidade da sua preservação, tendo os inquiridos “a perfeita consciência de que, com o seu desaparecimento, parte da unicidade da comunidade macaense irá desaparecer também”. O estudo aponta para 93 por cento das respostas a considerar “importante preservar este crioulo”, enquanto 57 por cento acha que “a preservação passa pelo ensino”. Já 69 por cento dos participantes entende que se devem desenvolver actividades culturais para promover o patuá. Com a grande excepção de eventos como a peça de teatro anual do grupo Dóci Papiaçam di Macau, apresentada no Festival de Artes de Macau, ou de cursos organizados no Centro Científico e Cultural de Macau, têm sido poucas as iniciativas desenvolvidas. As autoras denotam que se “registam algumas manifestações culturais”, mas “que a produção literária perdeu o fulgor registado no século XX”. “Ainda que ciosos e orgulhosos da sua herança, estes jovens sentem-se algo impotentes perante a fatalidade da perda deste património”, acrescenta-se. Mais mandarim Tendo em conta a conexão com a comunidade tendo por base valores como a gastronomia ou a língua, o inquérito deixa “claro que a língua portuguesa predomina como língua de escolarização do público inquirido, e a todos os níveis de ensino”. Porém, “a língua portuguesa deixa de ser a língua forte no que respeita à educação escolar dos filhos destes jovens macaenses”, passando “a partilhar a primazia com o inglês, cantonês e mandarim, o que revela uma viragem drástica quando comparada com a geração anterior”. O inquérito não explorou mais esta questão, denotam as autoras, mas conclui-se que “o cantonês tende a ganhar terreno como língua mãe”. “Enquanto língua oficial e de prestígio, o mandarim também se vai instalando gradualmente. Particular relevo é dado ao inglês como segunda escolha para a língua de escolarização, muito provavelmente por ser língua franca internacional, mas também pelo facto de se terem instalado, nesta Região Administrativa Especial, escolas internacionais de renome nas últimas duas décadas criando, assim, uma alternativa em relação à Escola Portuguesa de Macau, permitindo o ingresso em universidades de vários países anglo-saxónicos”, pode ler-se. O inquérito aponta ainda que “o português mantém, também, uma forte oposição”, apesar de se “registar a vantagem por parte do cantonês enquanto língua de comunicação e socialização”. O português foi, “para a grande maioria, a língua veicular de Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau”, sendo que “muitos dos inquiridos têm uma actividade profissional em que a língua portuguesa é ferramenta de trabalho”. Entre dentro e fora É certo que a comunidade macaense se sente interligada pela comida, usos e costumes e ainda a língua, e a verdade é que muitos inquiridos “se identificam com o cantonês”, mas acabam sempre por serem “vistos como ‘outsiders’ aos olhos de muitos membros da etnia chinesa”. Segundo as autoras, “esta distinção também passa pelo uso da língua nas mais variadas situações do quotidiano”, já que “a língua portuguesa funciona como se de um código secreto se tratasse”. Isto porque, dos inquiridos, 43 por cento diz que falam português “para não serem entendidos pelos outros”, pelo que se pressupõe “que não existe uma vontade intrínseca de integração na comunidade maioritária e o vínculo com Portugal continua forte”, com 74 por cento “dos inquiridos a manterem o contacto com familiares e amigos”. Assim, “para estes inquiridos o uso do português é algo de natural e espontâneo, sendo que 78 por cento fala ou pensar falar em português com os seus descendentes”. Uma questão de simpatia Os participantes no questionário foram confrontados sobre o que pensam dos membros da etnia chinesa, sejam de Macau ou do continente. “Os chineses provenientes do Continente são os que mais somam características negativas. Considerados mal-educados, rudes, egoístas, antipáticos, fechados, arrogantes ou ainda estranhos. Por sua vez, embora fechados, os chineses de Macau são considerados trabalhadores e bem mais simpáticos e educados.” Porém, os macaenses e portugueses são tidos como “simpáticos, bem-educados, faladores e abertos”, tratando-se de “atributos que parecem unir as duas comunidades”. Desta forma, as autoras destacam que “a forma de estar dos macaenses se aproxima significativamente mais da portuguesa do que da chinesa”. Estas entendem que este panorama ajuda a explicar o facto de apenas “19 por cento dos inquiridos estranharem os chineses do Continente, que tiveram pouco ou nenhum contacto com a comunidade portuguesa — ao contrário dos chineses de Macau, cuja convivência com os portugueses remonta a quatro séculos de proximidade”. As académicas indicaram razões para este cenário: “A massificação do turismo proveniente da Grande China, registada nos últimos anos, com a nova política do Governo Central de concessão de vistos individuais, talvez tenha evidenciado, de forma brusca, as diferenças de hábitos e costumes entre as comunidades.” Em relação ao futuro da comunidade macaense, esta continua a ser, no actual século, “um vínculo significativo entre a comunidade chinesa e a portuguesa”, sendo que “a esmagadora maioria dos inquiridos demonstrou ter plena consciência desta mais-valia, não apenas por falar as duas línguas (69 por cento) como também por entender as duas culturas (83 por cento)”.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeAlfândega intercepta bens contrabandeados no valor de 25 milhões Os Serviços de Alfândega (SA) apanharam, nos primeiros quatro meses do ano, bens contrabandeados no valor de 25 milhões de patacas. Os dados foram divulgados por José Pou, chefe do Departamento de Gestão Operacional dos SA, no programa matinal Fórum Macau do canal chinês da Rádio Macau. José Pou revelou que no período em análise foram realizadas 30 operações de combate ao contrabando em Macau, que resultaram na acusação de 68 pessoas na sequência de 62 infracções. Os bens interceptados foram, principalmente, alimentos, grãos de prata, cosméticos, produtos electrónicos, cigarros e álcool, com um valor de 4,72 milhões de patacas. Além disso, os SA detectaram 26 situações de contrabando nas pontes-cais do Porto Interior, com bens a rondar as 21 milhões de patacas. Os SA descobriram ainda 1.309 casos nos postos fronteiriços, o que culminou na proibição de passagem da fronteira de dois carros alegadamente usados para contrabandear bens. Sinais de crise Face ao aumento dos casos de contrabando, a advogada Lai Wing Yan, sediada em Hong Kong, escreveu no portal HK01 um artigo de opinião a argumentar que Macau está a atravessar um período de mudanças económicas, com maior inflação, tendo por base o caso recente de contrabando de mais de 50 quilos de comida em marmitas. No artigo intitulado “O caso do homem de Macau que contrabandeou 51 kg de marmitas — a tragédia silenciosa das classes trabalhadoras sob o monopólio do capital”, publicado ontem, a autora descreve como “recentemente os serviços aduaneiros de Macau interceptaram, no posto fronteiriço de Hengqin, um veículo particular que transportava escondidos cerca de 51 quilos de marmitas de comida cozinhada sem inspecção sanitária”, o que revelou ser “um fenómeno de contrabando bastante invulgar”. Na visão da advogada, há que analisar “o contexto social e económico por detrás destas quase cem marmitas baratas”, que podem reflectir “a realidade dos cidadãos das classes trabalhadoras de Macau, pressionados entre a escalada do custo de vida e o monopólio do capital, sendo obrigados a fazer compromissos dolorosos para sobreviver”. Este caso de contrabando pode ser sinónimo “das dificuldades das classes mais baixas”, questionando a quem se destina esta comida. “Numa cidade onde uma refeição simples pode facilmente custar dezenas ou até mais de cem patacas, estas marmitas baratas vindas de Zhuhai — sem controlo rigoroso de temperatura ou inspecção sanitária — passaram a preencher a necessidade de trabalhadores da construção civil, empregados de limpeza e profissionais de serviços com baixos salários”. Desta forma, argumenta, “o aparecimento deste tipo de contrabando é, na verdade, uma evolução inevitável da economia paralela perante as diferenças de preços entre regiões”, uma vez que “comprar este tipo de refeições simples no continente custa menos de 20 yuans, mas em Macau pode ser vendido pelo dobro, gerando lucro”. Lai Wing Yan acredita que “se os Governos continuarem focados na aparência da prosperidade dos indicadores macroeconómicos e em medidas temporárias como vales de consumo, ignorando problemas estruturais como a desigualdade na distribuição de recursos e a dependência de uma economia pouco diversificada”, vão continuar a ocorrer fenómenos semelhantes de contrabando. Este caso “carrega o peso real da sobrevivência das classes trabalhadoras — e servem também como um duro aviso para quem governa”.
Andreia Sofia Silva EventosTeatro | Grupo Agucheiras apresenta em Lisboa “Performances com Sabor — Macau” O projecto teatral “Espaço das Agucheiras” apresenta no sábado, no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, a peça “Performances com Sabor – Macau”, uma mistura de teatro com performance inspirada nas viagens do poeta Luís de Camões Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, entre tantos outros escritos que fizeram dele o maior poeta e escritor português, foi também um grande viajante numa vida cheia de peripécias, tendo passado pelo Oriente. A pensar nessas viagens e aventuras, o grupo teatral “Espaço das Agucheiras”, que conta com a conhecida actriz portuguesa São José Lapa no grupo de criadores, desenvolveu a performance teatral “Performances com Sabor – Macau”, que se apresenta no sábado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM). Segundo explicou ao HM Inês Lapa Lopes, artista visual, actriz e encenadora ligada ao “Espaço das Agucheiras”, apresentam-se no Museu de Macau (dentro das instalações do CCCM), “três cenas espalhadas por três espaços do museu”. O público poderá ver “uma performance a que acrescentámos sabor”, com a imaginação dos encontros de Camões. Participam os actores e artistas Alexandra Sargento, Guilherme Macedo e Luís Gaspar para representar estes encontros e diálogos onde Camões é protagonista, sendo que as três cenas terão “momentos de imersão sonora”, contando-se também com “a participação do público na leitura da poesia de Camões”. Destaque para a presença da gastronomia macaense nesta iniciativa, através da vice-presidente da Casa de Macau em Lisboa, Maria João dos Santos Ferreira. A peça nasce de um “imenso engenho e fantasia sobre Macau do século XVI criado por João Paiva”, autor do texto desta performance “com o seu saber de historiador. João Paiva inspirou-se na investigação feita pela equipa desde que esta ‘Performance com Sabor – Macau’ era apenas um projecto no papel”, explicou. Inês Lapa Lopes considera que a ida de Camões para o Oriente “está envolta em muitas suposições, como convém às boas histórias”. Camões “terá embarcado em Abril de 1562 rumo ao porto de Patane numa viagem que demoraria cerca de dois meses”, embora “outros dizem não ter lá estado”. “Optamos por imaginar com os primeiros e embarcamos com Camões rumo ao destino Macau, onde poderá até ter escrito parte da sua epopeia”, acrescentou. Segundo Inês Lapa Lopes, “fazia todo o sentido que esta ‘paragem’ pelos caminhos de Camões fosse feita no Museu de Macau, cuja colecção tão bem traduz as influências mútuas entre Oriente e Ocidente”. No sábado o público poderá “deambular pelo museu para observar as belíssimas peças da colecção, que coincidem com o período em que Camões terá estado em Macau e outras tantas, mais tardias, onde se lê a influência de Portugal e dos interesses comerciais fundados nessa época”. Um ciclo de representações O “Espaço das Agucheiras” tem desenvolvido o ciclo “Performances com Sabor” inspirado nas viagens de Camões em outros destinos. Entre Setembro e Outubro do ano passado, convidaram o público a percorrer “os caminhos que o levaram a Ceuta e depois à Índia”, através de “eventos com teatro, música ao vivo, partilha poética e gastronomia trazida sempre por chefs desses lugares”. A ideia do “Espaço das Agucheiras” é, aliás, “partilhar o que terá sido a sua vida [de Camões], bem como as suas experiências degustativas”. As Agucheiras desenvolvem ainda o projecto “CAMÕES – 1524 Mares Navegas”, com apoio da República Portuguesa – Cultura, que “celebra a vida e obra deste nosso enorme poeta”. O “Espaço das Agucheiras” é uma cooperativa cultural criada em 2006 graças ao espectáculo “Sonho de uma Noite de Verão”, com encenação de São José Lapa, nas Agucheiras. A direcção do Espaço está a cargo de São José Lapa e Inês Lapa Lopes, tendo a cooperativa levado a cabo interpretações de textos de William Shakespeare, Harold Pinter, Leonardo da Vinci, Samuel Beckett, Nuno Bragança, Anton Tchekhov, Fernando Pessoa, Abel Neves, Jaime Salazar Sampaio ou Hélia Correia. Além disso, o “Espaço das Agucheiras” desenvolve “projectos com a comunidade”, como exposições, filmes, documentários e trabalho com escolas.
Andreia Sofia Silva EventosMúsica | Instrumentos musicais chineses são destaque em conferência A Universidade Nova de Lisboa e o Palácio Nacional de Mafra são os palcos escolhidos para se falar e ouvir a música chinesa e asiática. A 9.ª edição da “Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses” começou esta terça-feira e prolonga-se até sexta-feira, servindo para olhar de perto instrumentos como o gamão, o guqin ou até o Naamyam, música narrativa popular no sul da China, Macau e Hong Kong Decorre esta semana, até sexta-feira, a 9.ª edição da “Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses”, que se realiza na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e também no Palácio Nacional de Mafra. Segundo uma nota oficial sobre o evento, a conferência reúne “académicos, músicos e entusiastas da música chinesa para explorar o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses”. Trata-se de uma organização do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, sediado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a European Foundation for Chinese Music Research; os Institutos Confúcio da Universidades de Aveiro e do Minho; e a Câmara Municipal de Mafra. Também dá apoio ao evento a Fundação Jorge Álvares, “principal entidade financiadora”. Do programa constam diversas apresentações académicas sobre instrumentos musicais chineses e asiáticos, sem esquecer o universo da musicologia, promovendo-se ainda concertos e recitais. Do cartaz faz também parte a exposição multimédia “Encre de Chine – Impressions de Voyage: A visual Chronicle based on Paintings and Photographs by Christophe Deschamps: China, 1986”, com trabalhos de Christophe Deschamps. Conversas e concertos Esta terça-feira, dia de arranque do festival, foi lançado o livro “Chinese Music and Musical Instruments: Encounters in Lisbon 2016-2019”, com edição de Helen Rees, Frank Kouwenhoven e Enio de Souza, este último um dos grandes promotores do festival. Já hoje, decorrem as sessões, na Universidade Nova de Lisboa, dedicadas à “Música, Dança e Performance na China”, nomeadamente a de Hu Yile, da Universidade de Hong Kong, com o nome “Secular Spectacles in Sacred Spaces: Music, Dance and Acrobatics Performance in Chinese Buddhist Art”. Helen Rees, do Departamento de Etnomusicologia da UCLA (Universidade de California, Los Angeles), irá falar sobre a “Musical Life in Mid-20th Century Taizhou, Jiangsu Province: Recollections of a Resident”. Por sua vez, Antoinette Cheng, da Universidade de Oxford, apresenta a sessão “Blindness, Radio and the Transformation of Naamyam in Macau and Hong Kong. O festival encerra esta sexta-feira no Palácio Nacional de Mafra com um debate em torno da “Música de Outros Países Asiáticos e Ocidentais e os principais géneros”, destacando-se a apresentação, por parte de Susana Sardo, da Universidade de Aveiro, de “Fado de Goa – Post-Memory and the Recasting of Colonial Sound in Goa”. Macau ganha também destaque no cartaz neste dia, com “Macau: its Composers and Music Composed about and to the Territory”, com apresentações de John Robinson, da University fo South Florida; ou Rui Magno Pinto, do Centro de Estudos Musicais da Universidade Nova de Lisboa. O concerto de encerramento começa às 18h, no Palácio Nacional de Mafra, e conta com sonoridades de grupos de gamelão da Universidade Nova de Lisboa e “renomeados” músicos chineses e ocidentais como Deng Haiqiong, com o instrumento guzheng, e ainda Jacob Alford, com o guqin. Destacam-se as actuações de Helen Rees, Chi Li e Rão Kyao, na flauta.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeAPOMAC / 25 anos | Francisco Manhão pede apoio à demência Nos 25 anos de existência da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, o presidente da direcção, Francisco Manhão, pede mais apoios financeiros e sugere a criação de um centro de apoio à demência, bem como mudanças nas actualizações salariais dos funcionários públicos Francisco Manhão, presidente da direcção da APOMAC – Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, defende a criação de um centro de apoio à demência dado o aumento do número de casos nos últimos anos. Esta ideia foi defendida numa altura em que a APOMAC faz 25 anos de existência, celebrados hoje. “Preocupa-me o problema da demência, [doença] que tem aumentado de ano para ano”, disse ao HM. “Sugiro que o Governo possa criar um centro para cuidado e tratamento destas pessoas, porque o que muitos fazem é contratar uma empregada doméstica, o que não resolve o problema”, acrescentou. Tiago Alcântara Em época de aniversário, a APOMAC diz que gostava de ter “mais apoios” financeiros “para promover actividades”, tendo em conta que, actualmente, apenas contam com o dinheiro da Fundação Macau. A cantina tem sido um sucesso e ajuda, em parte, com as despesas. “As pessoas vêm cá comer e está na moda publicar fotografias no Facebook, e isso tem feito propaganda à nossa cantina. Temos tido muita clientela. Somos muito procurados aos fins-de-semana, ao almoço e jantar, e dá uma pequena ajuda financeira à APOMAC. Temos de depender um bocado disso”, confessou. Melhorias a fazer Francisco Manhão e Jorge Fão são a dupla de sempre na APOMAC e parece não haver, para já, outros candidatos. “Vamos envelhecendo e sentimo-nos cansados, mas ainda temos um bocado de saúde para aguentarmos esta casa. Já falámos várias vezes [com potenciais substitutos], mas ninguém se atreve a avançar. Enquanto houver alguém que resolva os problemas deles, não se preocupam. Isso é típico de Macau.” Um dos problemas que Manhão destaca é a necessidade de aumentar salários para funcionários públicos, aposentados e pensionistas de sobrevivência, “pois há três anos que não têm actualização”. Francisco Manhão defende também uma actualização do formato de pagamento. “Não é justa a forma de pagar salários por índice multiplicador. Deveriam ser pagos por cada categoria e de acordo com o salário, para que todos os funcionários públicos, sejam de classe mais baixa ou alta, tenham o mesmo aumento. O sistema está desactualizado.” Francisco Manhão parabenizou ainda o Executivo por ter aumentado em mil patacas os subsídios de velhice e de invalidez, tendo pedido ainda que as autoridades aumentos para os cheques pecuniários das actuais 10 para 11 mil patacas, incluindo os montantes do regime de previdência central, das sete mil patacas actuais para as oito mil. Este aumento seria em consonância com os montantes decididos para os subsídios de velhice e invalidez, explicou. No discurso da cerimónia de aniversário, Francisco Manhão destaca ainda outras questões dos associados da APOMAC, nomeadamente “a impossibilidade de atribuição do Número de Identificação Fiscal a pensionistas de sobrevivência de etnia chinesa”, os “atrasos verificados no pagamento e recebimento de pensões” ou a “suspensão de pensão de sobrevivência a viúvas e a deficiente motor não associado”, entre outros problemas. Com o título “Amor fraterno da APOMAC”, o discurso de Francisco Manhão remete ainda para os apoios obtidos do empresário David Chow e Edmund Ho, primeiro Chefe do Executivo da RAEM, para a criação da APOMAC e da respectiva sede.