Andreia Sofia Silva EventosMyLand Culture | Exposição de trabalhos da infância para ver no espaço Riverside A terceira exposição de arte infantil “Coisas de que Não Me Esqueço 2026 – Oceano de Memórias” pode ser vista na zona da Barra, espaço Riverside, até ao dia 27 de Novembro. A mostra “multissensorial e interactiva”, promovida pela associação MyLand Culture, explora as memórias daqueles que nasceram já na era digital, promovendo a criação artística sem recurso aos ecrãs Pode ser vista até ao dia 27 de Novembro a terceira edição do projecto “Things I Can’t Forget 2026 – Ocean of Memories” [Coisas de que Não Me Esqueço 2026 – Oceano de Memórias], promovida pela associação MyLand Culture. A mostra, patente no espaço Riverside, situado no número 291 da Rua do Almirante Sérgio, na Barra, explora as “memórias reais de mais de 20 jovens artistas da ‘Geração Alpha'”, ou seja, os que nasceram já na era digital, a partir de 2010. Os artistas presentes neste colectivo têm entre seis e 14 anos. Segundo um comunicado da MyLand Culture, trata-se de uma “exposição multissensorial e interactiva” que tem como tema “Oceano de Memórias”. Explora-se, através da arte, “o universo interior da ‘Geração Alpha’ – os chamados nativos digitais, nascidos a partir de 2010 e habituados à utilização constante de ecrãs e a respostas imediatas”. “Numa época em que a tecnologia digital se tornou tão natural como respirar, o projecto coloca uma questão essencial: quando a tecnologia passa para segundo plano e o ritmo da vida abranda, que memórias emergem das experiências físicas e emocionais autênticas destas crianças?”, questiona a associação. Estas obras nasceram de oficinas de arte realizadas no Verão, durante dois meses, tendo artistas e educadores acompanhado os jovens em diversas actividades. Uma delas, “A Minha Cidade! Instalação Artística dos Cinco Sentidos”, foi orientada por Dian Long; enquanto que “A Minha Vida! Pensamento e Criação de Videoarte” contou com coordenação do actor Pak Hou Wong. O público pode ver 20 obras de arte que resultam de “20 pontos de memória” diferentes, como a instalação interactiva de vídeo intitulada “Espaço do Caracol” ou ainda a instalação “Praça do Lilau”, que inclui a projecção do filme de dança “Memórias Borbulhantes”. Nesta mostra da MyLand Culture há ainda para ver a instalação interactiva “A Forma dos Sons” e “uma área de instalações sensoriais dedicada às memórias olfactivas”, é explicado. Obras em Chengdu Pal Lok Chok, fundadora da associação MyLand Culture, e também curadora deste projecto, considera que “através do olhar puro e atento destas crianças esperamos que esta viagem multissensorial desperte a criança que existe dentro de cada visitante, proporcionando uma pausa acolhedora e revigorante na rotina do quotidiano”. Uma das novidades desta mostra passa pela apresentação de algumas das obras em Chengdu no próximo ano, no Festival de Arte Infantil iSTART. Este é, segundo a MyLand Culture, “um projecto nacional de grande dimensão dedicado à educação estética nos domínios público e social”. A mostra faz-se acompanhar de diversas oficinas para o público jovem interessado na arte. Este sábado, 7, acontece a “Oficina de Leitura de Livros Ilustrados” com orientação do poeta e mentor de filosofia para crianças Daxiang Lin (Xiangjun Lin). Pretende-se analisar o livro “O Gato que Viveu um Milhão de Vidas”, sendo esta oficina pensada para crianças dos 8 aos 12 anos. Destaque ainda para a realização, no mesmo dia, da oficina “A Forma dos Sons”, com orientação de Dian Long. No dia 22 de Novembro é a vez de Mary Wong, educadora de dança, orientar a oficina “O Corpo no Momento”, pensada para crianças dos 8 aos 12 anos. Pretende-se aqui que estas crianças tomem “consciência da sua presença física e expressem, através do movimento, as memórias e imaginação sobre a vida”.
Andreia Sofia Silva SociedadeFDC | Governo aceita candidatos a cinco planos de apoio financeiro O Fundo de Desenvolvimento da Cultura (FDC) lança cinco planos de apoio financeiro com o objectivo de “promover o desenvolvimento cultural de Macau”. Segundo um comunicado do FDC, o processo de candidatura para alguns destes apoios começa hoje, nomeadamente para o “Plano de Apoio Financeiro para Estágios do Pessoal Administrativo na Área Cultural e Artística de 2027”. Para esta medida as candidaturas decorrem até ao dia 20 de Novembro, podendo concorrer “associações artístico-culturais ou empresas comerciais elegíveis de Macau”. O FDC explica que “a quota de apoio financeiro é de 80, incluindo um máximo de 70 para a categoria das associações e um máximo de 10 para a categoria dos empresários comerciais”. Na área das indústrias culturais existem três planos de apoio, nomeadamente o “Plano de Subsídio à Criação de Amostras de Design de Moda” que já vai na 14.ª edição, e cujo prazo de candidaturas também começa hoje e vai até 2 de Dezembro deste ano. Também hoje, arrancam as candidaturas para o “Plano de Apoio Financeiro para a Promoção de Marcas de Espectáculos Culturais de 2026″, com o prazo a ser estendido até 30 de Dezembro deste ano. Por sua vez, o Plano de Prémios para a Área Cinematográfica e Televisiva de 2026” aceita candidaturas de 17 de Novembro a 4 de Dezembro. Na mesma nota, é referido que o FDC decidiu melhorar o “Plano de Apoio Financeiro para a Beneficiação de Edifícios Históricos de 2026”, incluindo, assim, “projectos de segurança contra incêndios e de segurança eléctrica”. Neste caso, as candidaturas podem ser feitas até 13 de Novembro de 2026.
Andreia Sofia Silva EventosLivraria Portuguesa | Exposição de Mónica Coteriano explora mudanças de Macau Pode ser vista até 15 de Novembro a nova exposição de instalação e fotografia de Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural. Em “Monochrome”, são exploradas as profundas transformações que Macau tem atravessado nos últimos anos espelhadas em rostos e objectos, numa conjugação da memória com algum sentido de humor Mónica Coteriano, fundadora da 10 Marias – Associação Cultural, apresentou esta terça-feira “Monochrome”, uma nova exposição de instalação e fotografia patente na Livraria Portuguesa até ao dia 15 de Novembro. Segundo um comunicado, o público pode ver “uma instalação com humor sobre memória e transformação” do território. Para contar esta história, Mónica Coteriano juntou “um conjunto de obras onde são revisitadas pessoas, lugares, linguagens e hábitos de Macau, cruzando fotografia, colagem, objectos, luz e participação do público”. O território é, assim, apresentado como um “espaço de memória, mudança e algumas contradições”, tratando-se de uma exposição onde Macau é olhada “a partir de situações aparentemente simples: o rosto de quem já não se volta a ver, uma loja antiga, uma placa de rua, um jogo de damas, uma garrafa de cerveja ou a neblina que esconde a Torre de Macau”. Mónica Coteriano não pretende, com “Monochrome”, construir uma “visão monumental ou definitiva da cidade”, mas sim trazer ao público “uma narrativa feita de fragmentos”. “As obras recuperam presenças e gestos do quotidiano, confrontam as transformações urbanas e reflectem sobre as marcas deixadas por diferentes culturas, línguas e gerações. O humor e a ironia atravessam a instalação, não como simples efeitos cómicos, mas como formas de olhar para aquilo que desaparece, permanece ou se transforma”, revelam-se no mesmo comunicado. Percurso de memória A primeira etapa da mostra explora “a memória como forma de resistência à ausência”. Uma das histórias exploradas é a de um alfaiate que teve uma loja na Rua dos Mercadores. Mónica Coteriano pegou nela, recuperou “uma figura da vida quotidiana de Macau e transformou essa fotografia numa homenagem e lugar de permanência”. Esta obra em particular “preserva não apenas um rosto, mas também o seu sorriso, aberto, generoso e luminoso, que se torna o ponto de partida para uma reflexão sobre os ofícios, lojas antigas e relações discretas que compõem a memória colectiva da cidade”. Outro tema abordado em “Monochrome”, é a linguagem e herança colonial, explorados “com humor” na obra “O poder da língua já não é o que era”. Aqui coloca-se “em tensão” o lugar da língua portuguesa no território, sendo presença em “placas de ruas e nomes de lugares”. Porém, revela-se o contraste pelo facto de não ser um idioma falado no dia-a-dia em Macau. “A fotografia de um caracter chinês que significa ‘para sempre’ acrescenta uma camada irónica e poética: de um lado, uma língua histórica cuja influência já não é a mesma; do outro, uma palavra que promete uma permanência absoluta. Entre a língua viva e a língua inscrita, a peça questiona o que fica verdadeiramente na memória de uma cidade”, é explicado. Há ainda obras que “confrontam o visitante com diferentes formas de olhar”, como é o caso de “Ignora a realidade”, com “um tubo que obriga a observar através de um enquadramento estreito, no fundo do qual surge a frase que dá título à peça”. Aqui, o visitante “torna-se voyeur e vê as fotografias dos casinos a partir de uma posição simultaneamente curiosa e clandestina”. Permanecem “o brilho, o desejo, o risco e a promessa de uma realidade diferente que entram em conflito com a ordem para ignorar aquilo que está diante dos olhos”. “Ignora a realidade” coloca-nos uma questão: “se ignoramos realmente a realidade ou se apenas escolhemos cuidadosamente o que queremos ver”. Monochrome constitui “um retrato de Macau feito de presenças frágeis e persistentes”, onde o território “aparece como arquivo vivo, lugar de conflito entre o antigo e o novo”. Macau surge também como um lugar “onde as memórias pessoais se cruzam com a história colectiva”. Nesta exposição, “as obras não procuram fixar Macau numa imagem única”, revelando “uma cidade que se reinventa, que esconde e expõe, que conserva vestígios e produz novos símbolos”. Mónica Coteriano diz recorrer “ao humor, ironia e participação” para contar todas estas mudanças. O visitante é convidado “a olhar de novo para aquilo que parece familiar”. Observa-se, num jogo permanente de contrastes, “a ausência e permanência, a língua e inscrição, a realidade e ilusão, o lamento e riso”. “Monochrome” faz-nos pensar o que “ainda conseguimos reconhecer numa cidade em transformação, e que parte dessa cidade continua, afinal, a viver dentro de nós”.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteGlenn Mccartney, professor universitário: “Existem desafios ao aumento de visitantes” Docente da Universidade de Macau e especialista na área do Turismo, Glenn Mccartney foi orador da palestra “International Visitor Appeal: Putting Macao on the World Stage”, promovida ontem pela Câmara de Comércio França-Macau. Em entrevista ao HM, o académico diz ser importante “alargar o potencial de captação de turistas internacionais” O Governo tem investido recursos na promoção de Macau enquanto destino turístico para visitantes internacionais. Considera que este investimento está a produzir resultados concretos, ou é necessário fazer mais? Os visitantes internacionais representam cerca de 7 por cento do total. Falei, na minha apresentação, sobre a importância de fazer uma análise retrospectiva das últimas duas décadas, quando foram desenvolvidos esforços de marketing e promoção em mercados turísticos internacionais. A questão passa por perceber o que é preciso alterar, por exemplo, ao nível das mensagens transmitidas, dos produtos e serviços turísticos. É necessário reconhecer que nem tudo o que Macau tem para oferecer irá atrair ou despertar o interesse dos turistas internacionais. Dar a conhecer a cidade é uma coisa, conseguir motivar uma visita é outra. Como contornar esse problema de comunicação? É necessário identificar e avaliar, com estudos, os aspectos em que Macau se distingue na capacidade de atrair visitantes pela primeira vez, ou no incentivo de visitas repetidas, tendo em conta os factores que levam alguém a visitar a cidade pela primeira vez, e que podem ser diferentes daqueles que motivam quem regressa várias vezes. É, assim, importante dar prioridade às mensagens turísticas que funcionam e, em seguida, adequar recursos humanos e financeiros, a estratégia, formação e necessidades de marketing. É ainda fundamental o estudo da visibilidade e reconhecimento de Macau nos mercados turísticos internacionais que se pretende alcançar, incluindo a percepção da imagem da cidade enquanto marca turística. É importante realizar estudos junto de potenciais visitantes desses mercados para perceber o que os leva efectivamente a visitar Macau, seja por lazer ou em negócios. Esta abordagem pode fornecer dados valiosos para orientar futuras estratégias de promoção da cidade. Falei também da “comunicação integrada de marketing”, que engloba a diversidade de ferramentas e acções promocionais disponíveis. De que forma isso se relaciona com a realidade local? O desafio consiste em destacar Macau num contexto de elevada concorrência, tanto regional como internacional, marcado pela multiplicidade de destinos, imagens, mensagens e campanhas promocionais. Para isso, é necessário recorrer a abordagens criativas, como a criação de “narrativas” sobre a cidade, e avaliar os resultados alcançados. Outra ideia que abordou foi o possível aproveitamento da imagem cinematográfica de Macau para potenciar a cidade como destino turístico. Tendo em conta o número de filmes produzidos em Macau ou que utilizam a cidade como cenário, referi o sucesso do turismo cinematográfico noutros destinos, enquanto estratégia para atrair públicos internacionais. Mas também a importância de acompanhar as tendências do turismo internacional e de reagir rapidamente às mudanças. Por exemplo, o conceito de “coolcation” está em voga e atrai visitantes que procuram destinos com climas mais frios, uma tendência que Macau poderá aproveitar nos próximos meses, quando as temperaturas forem mais baixas. Sobre a internacionalização do turismo. Macau tem-se tornado, de facto, um território mais internacional, ou as coisas pouco mudaram na prática? Existem desafios ao aumento do número de visitantes internacionais, mas também há medidas concretas que podem ser tomadas para os ultrapassar. Que medidas destaca? A necessidade de definição de uma estratégia que permita concretizar os planos de Macau e mudar a perspectiva: em vez de perguntar “quantos turistas virão a Macau?”, devemos perguntar “como podemos transformar o crescimento da procura turística em visitas de maior valor, tanto em termos de despesa como de experiências, estadias mais longas, visitas repetidas e recomendações positivas de Macau através do passa-palavra electrónico (e-WOM [Electronic Word-of-Mouth])?”. No fundo, trata-se de converter o crescimento do número de visitantes em crescimento das receitas dos sectores do turismo e da hotelaria. Deve-se compreender as experiências e expectativas actuais dos visitantes de Macau, obtendo informações valiosas que contribuam para a definição de uma estratégia de atracção de turistas internacionais. Ao abordar a importância da colaboração entre sectores público e privado, referi a possibilidade de criar um grupo de reflexão dedicado ao turismo. Como iria funcionar esse grupo? Poderia reunir um pequeno grupo de pessoas com diferentes competências, conhecimentos e experiências, onde poderiam estar representantes do Governo e resorts integrados, especialistas em planeamento urbano, geógrafos, peritos em turismo, economistas, ambientalistas, líderes comunitários, operadores de transportes, profissionais da hotelaria, entre outros. A partilha de recursos e conhecimentos permitiria aumentar a eficiência e orientar melhor as acções, ou ainda ajudar a interpretar políticas públicas, aconselhar sobre a sua formulação e os seus potenciais resultados, bem como criar condições para partilhar estudos e estratégias com a comunidade e com os setores público e privado. O Governo tem demonstrado vontade de criar zonas pedonais. Considera que têm sido eficazes? Como podem ser desenvolvidas de forma sustentável e articulada com o resto do território? Tem-se discutido, em Macau, o conceito de “cidade de 15 minutos”, com um modelo de planeamento urbano que iria permitir aos residentes chegar ao trabalho ou escolas em 15 minutos. Este conceito também poderia ser aplicado aos turistas. As zonas pedonais podem, sem dúvida, desempenhar um papel importante neste modelo e beneficiar pequenas e médias empresas (PME) ao aumentar a circulação a pé. Também podem ser introduzidas iniciativas inovadoras, incluindo espaços comerciais temporários (pop-up) ou acções de promoção de eventos culturais e desportivos na cidade. Outra possibilidade seria criar espaços interactivos temporários nas zonas pedonais, envolvendo residentes e turistas em actividades que reforcem a participação comunitária e enriqueçam a experiência dos visitantes. Perante qualquer iniciativa deste género, devemos ouvir as opiniões dos interessados, testar soluções-piloto e recolher comentários e sugestões. É o que está a ser feito, por exemplo, com o actual regime de licenciamento de esplanadas em Macau. Além da restauração, as zonas pedonais podem proporcionar experiências imersivas através da decoração dos espaços, da instalação de exposições de arte e elementos culturais, da realização de espectáculos ao vivo e da articulação com grandes eventos organizados noutras partes da cidade. Também falei do desenvolvimento de uma economia nocturna e factores que podem influenciar o seu crescimento. Então, as zonas pedonais poderiam integrar esta estratégia, com a criação de mercados nocturnos, restaurantes, bares, lojas e estabelecimentos de venda de lembranças, concertos e actuações culturais ao vivo. Mas falei também, na apresentação na Câmara de Comércio, da importância de reforçar a investigação. Falta sustentação de políticas? [Importa] Fundamentar as decisões em dados concretos. Isto aplica-se à avaliação dos impactos e resultados de diferentes iniciativas turísticas, como eventos desportivos ou culturais, mas também a questões como a capacidade de carga turística, a mobilidade, os recursos humanos, a formação e as necessidades de recursos. A investigação poderia incidir sobre diferentes perfis demográficos de visitantes, distinguindo entre quem visita Macau pela primeira vez e quem regressa, procurando perceber se os turistas tencionam voltar e recomendar o destino a outras pessoas, que conteúdos publicam nas redes sociais, quais os seus padrões de despesa e como avaliam a experiência ao longo de toda a sua jornada enquanto clientes. Outro ponto fundamental é o das infra-estruturas e da acessibilidade, que deverão integrar a estratégia de atracção de visitantes internacionais, incluindo o desenvolvimento aeroportuário. Um dos desafios consiste em alargar o potencial de captação de turistas internacionais além do Aeroporto Internacional de Macau, aproveitando também as possibilidades oferecidas pela rede de aeroportos da Grande Baía, que inclui o Aeroporto Internacional de Hong Kong, o Aeroporto Internacional de Guangzhou Baiyun, o Aeroporto Internacional de Shenzhen Bao’an e o Aeroporto de Zhuhai Jinwan. [É importante pensar] na forma como se pode ter mais articulação com o sector hoteleiro de Hengqin, que poderia beneficiar a estratégia de atracção de visitantes internacionais.
Andreia Sofia Silva SociedadeBombeiros | Saídas de ambulâncias aumentam quase 7 por cento Dados do Corpo de Bombeiros (CB) ontem divulgados revelam uma subida no número de casos que obrigaram à saída de ambulâncias. Segundo um comunicado, entre os meses de Janeiro a Setembro deste ano registou-se um total de 35.895 saídas de ambulâncias, mais 2.137 casos face a igual período de 2025, um aumento de 6,33 por cento. O CB explicou que grande parte das saídas de ambulâncias se deveu a situações de “tontura, dor abdominal, dificuldades respiratórias, vómitos, febre e vários tipos de ferimentos”. Foi ainda deixado um alerta para a importância do “uso cauteloso dos serviços de primeiros socorros, a fim de deixar os recursos de primeiros socorros de emergência às pessoas com necessidade”. Em termos gerais, o CB teve mais casos: 41.998, mais 5,28 por cento em relação ao período compreendido entre Janeiro e Setembro de 2025. No tocante aos casos de incêndio, também houve um aumento: nestes meses, registaram-se 680 episódios, mais 59 casos face a 2025. Trata-se de um aumento de 9,5 por cento. “As principais causas dos incêndios deveram-se ao esquecimento de desligar os fogões, à deixa de chamas não totalmente extintas, à queima de incensos e velas/papéis votivos, ao curto-circuito das instalações eléctricas e às falhas mecânicas/de equipamentos”, é explicado. Estes cenários levaram à ocorrência de 441 casos, representando 64,85 por cento de todos os casos de incêndio.
Andreia Sofia Silva SociedadeOperação Trovoada | Quase três mil pessoas identificadas A “Operação Trovoada 2026” levou a que 2.707 pessoas tenham sido sujeitas a identificação por parte das autoridades policiais, no âmbito de acções de fiscalização feitas entre a noite do dia 24 e a madrugada do dia 25 de Outubro. Das pessoas sujeitas a identificação, 41 “foram conduzidas à Polícia para efeitos de averiguações”, sendo que cinco homens com nacionalidade chinesa estavam em excesso de permanência em Macau. Segundo um comunicado dos Serviços de Polícia Unitários, houve colaboração com autoridades das regiões vizinhas nas acções de inspecção a bares e casinos, entre outros locais, com o destacamento de 370 agentes e seis equipas cinotécnicas. Os Serviços de Alfândega (SA) utilizaram duas embarcações de patrulha, seis lanchas rápidas e a equipa de drones. Os SA interceptaram, no mesmo período, cinco embarcações e 14 pessoas, não tendo sido detectada qualquer infracção. De destacar que a primeira fase da “Operação Trovoada 2026” decorreu entre os dias 4 de Julho e 8 de Agosto, tendo sido mobilizados 8.800 agentes. Nesse período, mais de 51.489 indivíduos foram sujeitos a identificação, entre os quais 566 indivíduos que foram encaminhados aos órgãos judiciários “para efeitos de acusação por envolvimento em ilicitudes”, é referido na mesma nota. A segunda fase da “Operação Trovoada 2026” começou a 9 de Outubro.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteIA | Relatório da Web Summit prevê redução de equipas e perda de empregos O relatório “State of the Industry 2026: AI Edition” revela posições contraditórias de quase 1.500 profissionais do sector tecnológico quanto ao impacto da inteligência artificial. Se 33 por cento acredita na perda de empregos, 39 por cento prevê aumento. Mais de metade diz que a IA ajuda ao pensamento crítico No “primeiro inquérito da Web Summit” sobre os impactos da inteligência artificial (IA) no sector tecnológico, as posições de 1.455 criadores de empresas ou engenheiros de software são contraditórias face aos impactos reais da IA no mercado de trabalho. Há quem acredite na perda de empregos, mas também há quem encare a IA como uma forma de reforçar o pensamento crítico ou mesmo numa alavanca para o aumento do número de profissionais no sector no espaço de dois anos. Estas são algumas das conclusões do “State of the Industry 2026: AI Edition” [Estado da Indústria 2026: Edição IA], um documento que “revela divisão de opiniões em relação à IA”, conclui a Web Summit em comunicado. Há 42 por cento dos inquiridos a referir que a chegada da IA vai levar a uma redução de equipas nas empresas, enquanto 33 por cento acredita que a IA cortar postos de trabalho no espaço de dois anos. Porém, 39 por cento dos inquiridos acreditam que “o número de trabalhadores na sua área vai aumentar nos próximos dois anos”. Descreve a mesma nota que “as perspectivas são mais negativas no que diz respeito aos empregos de entrada”, ou seja, de primeiro acesso ao sector. Isto porque “42 por cento antecipa uma diminuição de oportunidades, percentagem que sobe para 50 por cento entre os inquiridos que ocupam cargos de topo na gestão executiva”. Por sua vez, “os estudantes constituem uma excepção, com 55 por cento a prever um aumento” de vagas. De destacar a opiniões de um consultor e director de serviços, oriundo da América Latina, que refere a “maior oportunidade da IA: acelerar processos”. Pelo contrário, o “risco” é a “perda massiva de empregos”. Outro inquirido, também da América Latina e ligado à área dos média, considera que a “maior oportunidade da IA é quebrar barreiras linguísticas e permitir que criadores e comunidades de todo o mundo se liguem, comuniquem e cresçam em tempo real”. O inquérito traz ainda perguntas sobre o volume de trabalho com a chegada da IA, e também aqui as posições são contraditórias. “A IA não está a reduzir a carga de trabalho”, aponta a Web Summit, já que “60 por cento afirma que a IA aumentou a carga de trabalho”. Porém, “20 por cento consideram que a IA reduziu” a quantidade de trabalho a produzir. É ainda explicado que “o aumento é mais expressivo nos sectores directamente ligados à IA, com destaque para a área das infra-estruturas de inteligência artificial e aprendizagem automática (IA/ML), onde chega aos 70 por cento”. Uma “visão positiva” Outros dados fazem referência à conexão entre a máquina e o humano. “A maioria tem uma visão positiva da IA, com 55 por cento a afirmar que esta reforça o seu pensamento crítico.” “O debate público sobre a IA oscila entre alertas sobre a deterioração das capacidades cognitivas, a rivalidade entre modelos de código aberto e fechado e receios de uma perda massiva de postos de trabalho, mas a realidade dos profissionais do sector tecnológico é mais complexa”, lê-se no relatório. Isto porque “a maioria afirma que a IA melhora o seu pensamento crítico, havendo quem considere que a tecnologia permite dedicar mais tempo a tarefas de maior responsabilidade”. Apenas 26 por cento considera que a IA “enfraquece” esse mesmo pensamento, enquanto 19 por cento “não identifica diferenças”. Sem referir nomes, o relatório destaca algumas das opiniões dos inquiridos. Neste ponto da manutenção, ou não, do pensamento crítico, o fundador de uma empresa na área dos serviços e consultoria, da Europa, refere que existe “um risco das pessoas confiarem demasiado na IA, colocando em causa o pensamento crítico”. Outro participante, da área de engenharia e serviços, também oriundo da Europa, destaca como a IA está a “acelerar a produção, aumentando as expectativas sobre o quanto podemos produzir”. “Mas as pessoas podem estar demasiado confiantes nessa produção, existindo também pouco tempo para rever tudo isso”, alertou. O relatório destaca como “a maioria também reconhece que a IA aumenta a carga de trabalho”, já que “muitos estimam que equipas mais pequenas terão de dar resposta a esse aumento, reduzindo oportunidades para os profissionais em início de carreira.” Neste rol de opiniões, “os engenheiros, responsáveis pelo desenvolvimento destas ferramentas, continuam a ser o grupo mais céptico”. Nidhi Naithani, vice-presidente sénior de Operações Tecnológicas da Web Summit, destaca como o estudo “deixa claro que as pessoas estão divididas quanto a um futuro com IA”. “O que mais me surpreende, embora não seja inteiramente inesperado, é o feedback da nossa comunidade de engenheiros e programadores. Aqueles que têm a responsabilidade de desenvolver processos e sistemas destinados a tornar o trabalho mais fácil e rápido são precisamente os que mais se preocupam com a segurança no emprego.” “Parece contraditório”, frisou, “mas, como os engenheiros e fundadores são, em geral, os responsáveis pelo desenvolvimento destas tecnologias e os seus primeiros utilizadores, são também quem melhor as compreende e quem acompanha de perto o seu impacto”, acrescentou Nidhi Naithani. A responsável diz ainda “compreender os receios em torno da IA”. “Não considero que devam ser ignorados os alertas relativos à perda de postos de trabalho e ao impacto social das mudanças associadas à IA. Muitos dos fundadores e directores executivos que participaram neste inquérito defendem a criação de equipas mais pequenas, capazes de fazer mais”, frisou. Nidhi Naithani alerta para o facto de “sectores importantes, como os meios de comunicação social, estarem particularmente expostos, uma vez que a IA está a transformar o ecossistema da informação”. Estão, assim, em causa “pressões crescentes que podem ter efeitos duradouros e potencialmente prejudiciais”. Questões de quantidade O inquérito realizado pela Web Summit colocou ainda questões sobre o investimento feito no sector – será muito ou pouco? Também aqui as opiniões dividem-se. “Poucos estimam um colapso do investimento em IA”, lê-se no documento, já que “apenas cerca de um em cada dez inquiridos acredita que o investimento em IA vai sofrer uma queda acentuada”. Por sua vez, “um terço [dos inquiridos] considera que o investimento é excessivo e irá abrandar, embora de forma gradual”. Além disso, “uma proporção semelhante entende que a tecnologia ainda se encontra numa fase inicial e continuará a crescer”. Os “profissionais que desenvolvem soluções de IA são os mais cépticos, pois mais de metade dos inquiridos das áreas de engenharia e desenvolvimento de produtos considera que o investimento já é demasiado elevado”, é ainda explicado. A Web Summit realiza-se em Lisboa no próximo mês, entre os dias 9 e 12 de Novembro, reunindo mais de 70 mil participantes, provenientes de mais de 100 países, incluindo 10 mil startups. Espera-se a realização de uma cimeira pensada para o sector da tecnologia da China, tida como a “maior concentração de sempre de líderes tecnológicos chineses num evento tecnológico ocidental, com representantes de empresas como a Tencent e a Xiaomi, bem como da Pony.AI e da Manus”, descreve-se na mesma nota.
Andreia Sofia Silva EventosExposição de Li Gang a partir de hoje na Ochre Space A galeria Ochre Space, em Lisboa, projecto criado pelo advogado, fotógrafo e curador João Miguel Barros, inaugura hoje, a partir das 18h30, uma nova exposição, encerrando o ciclo de três exposições sobre o Ano do Cavalo do horóscopo chinês. Desta vez, o fotógrafo em destaque é Li Gang. “Appearance and Abstraction” é a última mostra da Ochre Space deste ano e pode ser vista até ao dia 14 de Novembro. Segundo uma nota da Ochre Space, nesta exposição pode ver-se como o trabalho de Li Gang “explora as fronteiras entre a fotografia e o abstracto através de um tema inesperado: o cavalo”. “Há mais de uma década que Li Gang dedica a sua prática fotográfica aos cavalos, passando da observação das suas vidas e comportamentos para representações cada vez mais poéticas e experimentais. Em ‘Appearance and Abstraction’, esta exploração segue uma nova direcção. Em vez de fotografar os cavalos como figuras reconhecíveis, aproxima-se tanto deles que as suas formas começam a desvanecer-se”, é explicado. Neste projecto, Li Gang trabalha sobretudo entre o preto e o branco e ainda “tonalidades intermédias”, explorando “a relação entre presença e ausência, movimento e imobilidade, ocultação e revelação”. Observa-se uma “linguagem visual reúne as qualidades expressivas da arte tradicional chinesa e as possibilidades formais da abstracção ocidental”. Nas imagens de Li Gang, “os cavalos a galope transformam-se em vestígios, com os seus corpos a desvanecerem-se na paisagem envolvente”; enquanto em outras fotografias os animais “permanecem imóveis, com os corpos encostados uns aos outros até que as formas individuais dão lugar a uma única composição”. É aqui que se dá um toque quase poético, com o “branco das pelagens [dos cavalos] a fundir-se com a luz” e ainda “o negro das crinas que evoca os traços expressivos da caligrafia chinesa”. “Aquilo que, à primeira vista, poderá parecer uma imagem abstracta revela gradualmente a sua origem no mundo físico”, é acrescentado. Sombras e imagens Com esta exposição, a Ochre Space convida os visitantes a “olhar além do reconhecimento e da representação”, onde o “cavalo nunca desaparece verdadeiramente, permanecendo presente em cada curva, cada sombra e movimento, mesmo no momento em que a imagem parece transformar-se em algo completamente diferente”. Nascido em Henan, na China, em 1947, Li Gang recebeu várias distinções pelo seu trabalho, incluindo o “Prémio Estátua de Ouro da Fotografia da China”, em 2009, a mais alta distinção do país nesta área. Entre as suas publicações contam-se, em 2016, “Reincarnation” e ainda o livro que dá origem a esta mostra, “Appearance and Abstraction”, publicado em 2019. Este trabalho foi ainda distinguido em 2020 pelo projecto “The Beauty of Books in China”.
Andreia Sofia Silva EventosAlbergue SCM | Pedro Proença apresenta pinturas sobre Luís de Camões É inaugurada amanhã “Amor e Entendimento, Luís Vaz de Camões – Exposição de Pedro Proença, Comemorações do Quinto Centenário”, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia de Macau. O público pode ver uma série de 40 aguarelas influenciadas pela escrita daquele que é considerado o maior poeta português de sempre, autor de alguns dos mais belos e conhecidos poemas de amor O poeta português Luís Vaz de Camões, autor de “Os Lusíadas”, obra maior da língua portuguesa, e de muitos sonetos de amor, é protagonista da nova exposição de pintura de Pedro Proença, inaugurada amanhã, quarta-feira, dia 28, na galeria A2 do Albergue da Santa Casa da Misericórdia. “Amor e Entendimento, Luís Vaz de Camões – Exposição de Pedro Proença, Comemorações do Quinto Centenário” apresenta-se ao público a partir das 18h30, numa iniciativa do CAC – Círculo dos Amigos da Cultura de Macau. São 40 obras em aguarela onde Pedro Proença interpreta o tema “Amor e Entendimento”, numa tentativa de tradução da “sensibilidade literária numa linguagem visual”. Convida-se, assim, o público a “descobrir o encanto singular do encontro entre a literatura portuguesa e a pintura”, aponta o Albergue SCM, em comunicado. Pedro Proença cita as palavras do próprio poeta para justificar a temática. Camões escreveu um dia “E sabei que segundo o amor tiverdes / Tereis o entendimento de meus versos”, enunciando-se a “experiência necessária para entrar na ‘sua’ poesia”. “Nesta exposição é a arquitectura do amor, tão platónico quanto erótico, que nos faz mover. Mesmo quando revisito episódios dos Lusíadas, que por diversas vezes ilustrei, é a doce cor de oriental safira (Dante) que viceja contra a retórica tronitonante e os maneirismos do épico – mais esgalhada, pincelada, aguarelada, rápida”, escreve Pedro Proença. O artista assume que desde a adolescência que desenha e pinta com o “comum pincel chinês”, mesmo “quando em puro preto e branco imito, noutra escala, gravuras quinhentistas e seiscentistas”. “Nos últimos seis anos enamorei-me da aguarela e das subtilezas desta técnica. Por vezes de um só gesto saem, como por magia, coisas muito concretas, o que ainda me surpreende”, acrescenta Pedro Proença. Entre a Babilónia e o Sião Camões, poeta que viveu entre os anos de 1525 e 1580, escreveu os “Lusíadas” que não é mais do que um longo poema que conta, em verso, a Epopeia dos Descobrimentos portugueses. Mas são conhecidos muitos dos seus sonetos de amor, como o célebre “Amor é fogo que arde sem se ver”, que nos traz os contrastes e contradições deste sentimento, que pode acarretar um “contentamento descontente” ou ser uma “ferida que dói e não se sente”. Com recurso às tintas e aos pincéis, Pedro Proença transfere para a arte as interpretações destas palavras e poemas, nomeadamente do poema “Sôbolos rios que vão”, a “longa redondilha do fim da vida de Camões”, e que se apresenta na série “Babel & Sião”. “Embora não acompanhe o ‘pathos’ pessimista do poeta, sinto-me embriagado do estilo”, confessa. “Nas composições arquitectónicas aqui presentes uso o tema para compor com o descalabro, o desequilíbrio, como se o pensamento fosse émulo do mundo, entre a catástrofe e o seu contrário, num equilíbrio difícil, e, no entanto, naturalíssimo”, acrescenta o artista na sua nota. Em “Sôbolos rios que vão”, Luís Vaz de Camões olha para a sua vida passada, descrevendo como se encontrou na Babilónia e chorou sentado “as lembranças de Sião e quanto nela passei”. “Ali, o rio corrente / de meus olhos foi manado, / e, tudo bem comparado, / Babilónia ao mal presente, / Sião ao tempo passado”, descreve o poema. Nascido em Lubango, Angola, em 1962, Pedro Proença vive e trabalha actualmente em Lisboa. Começou a participar em exposições colectivas em 1981 e realizou a sua primeira exposição individual em 1984. Desde então, apresentou exposições individuais em instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian (1994), o Frankfurter Kunstverein (1988) e a Galeria Camargo Vilaça (1988), entre outras. Mais recentemente, expôs no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em 2025. Esta mostra tem entrada gratuita e está patente até ao dia 6 de Dezembro deste ano.
Andreia Sofia Silva EventosArmazém do Boi | “Ambiente sonoro” de Macau contado por Berend Strik Com que sons se faz Macau? Foi a esta pergunta que o artista holandês Berend Strik quis responder. A resposta surge agora com uma nova exposição a inaugurar hoje no Armazém do Boi, no antigo Matadouro Municipal, e intitulada “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau: Berend Strik”. Em entrevista, o artista diz, por exemplo, que o “som do cantonês é muito peculiar” O Armazém do Boi inaugura hoje, a partir das 18h30 no antigo Matadouro Municipal, três exposições que nascem de residências artísticas feitas em Macau. Uma delas é a do artista holandês Berend Strik, protagonista da mostra “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau” [Luz Roubada – Desenhando os Sons de Macau], que esteve no território durante um curto período a perceber de que sonoridades este é feito. A curadoria está a cargo de Liu Gang, tratando-se de uma mostra que traz uma panóplia de apresentações artísticas, com Zoe Tam Hio Tong a dar voz à música apresentada e Yasmijn Karhof no vídeo, num percurso desenhado entre a Santa Casa da Misericórdia de Macau e os casinos. A sinopse desta exposição revela que a “história de Macau não é apenas escrita pelos casinos modernos, mas está profundamente envolvida com narrativas de destino e escolha”. “Durante a residência no Armazém do Boi, o artista holandês Berend Strik traduziu a paisagem sonora distinta da cidade – do som dos corredores dos casinos até aos sinos do centro histórico – em quinze partituras gráficas”, revelando-se um pouco da história de Macau e das próprias línguas que fazem parte do território. Questionado, em entrevista ao HM, como o território se revela nesta mostra, Berend Strik explica que “escolher olhar para Macau pode ser comparado à história de um casal que se apaixona”. “No fundo, todas as pessoas têm a mesma estrutura: nascemos e depois morremos. E, quando morremos, já não temos nada com que nos preocupar, é simplesmente o fim. Mas enquanto estamos vivos, temos de fazer o nosso melhor para tornar possíveis coisas belas e para concretizar aquilo que desejamos. No livro ‘City of Broken Promises’ [Cidade das Promessas Quebradas], há um casal cuja história começa com o amor e se torna complicada. Entretanto, acontecem coisas extraordinárias, e vão continuar a acontecer. Macau revela-se através da história de um casal ali viveu.” Esta história acaba por contar também “a história da evolução da cidade”, numa narrativa “composta por 32 desenhos e apresentada em forma de libreto”. É aqui que Zoe Tam interpreta o libreto através do canto, “acompanhado por movimentos muito delicados”. Berend Strik considera que este projecto pode revelar Macau ao público sob uma perspectiva diferente, desde que as pessoas “dediquem tempo a apreciar a actuação de Zoe Tam e observem com atenção os trabalhos têxteis e os desenhos expostos nas duas paredes”. Isto porque, no conjunto, “o projecto transmite uma forma de estar que combina humor, beleza e experiências significativas”. Diversidade por entender Berend Strik nasceu em 1960 na Holanda, vivendo actualmente em Amesterdão. Segundo uma nota do Armazém do Boi, o seu trabalho foca-se essencialmente no “significado das imagens”, sendo que “o som e a música mantiveram-se presentes em toda a sua carreira como um tema contínuo”. Nas suas mãos as imagens são transformadas através dos tecidos e bordados, ganhando novas perspectivas e mensagens. No contacto com as sonoridades de Macau, o artista destaca como “as máquinas de jogo produzem sons por todo o lado, mas a questão está em criar um significado mais contextual para esses sons”. “O som do cantonês é muito peculiar e parece difícil de compreender. Por vezes, é intenso, agudo e alto, parece que nada é aquilo que significa. Aprender verdadeiramente a língua exige muito mais tempo”, referiu. “Sempre pensei que os sons são mais universais do que a linguagem. Basta pensar nos sons das máquinas de jogo. Escrever esses sons em inglês não significava que pudessem ser transcritos em cantonês. As línguas são muito diferentes. Pelo que percebi, não existem palavras ou sons que possam ser escritos em cantonês da mesma forma que em inglês. O cantonês tem mais tons diferentes do que o inglês. Foi assim que aprendi que, em cantonês, também é preciso ter aulas sobre os tons, para além de aprender o significado das palavras”, referiu, quando questionado sobre a paisagem sonora que encontrou na RAEM. Para Berend Strik, “a diversade cultural torna tudo ainda mais complicado”, sendo que “uma cultura complexa e diversificada precise, talvez, de mais tempo e não possa ser apressada, e essa é a parte positiva”. Neste sentido, “Macau parece precisar de mais tempo para assimilar todas essas diferenças”. A possibilidade de fazer uma residência artística em Macau surgiu depois de um projecto em Pequim. “Há cerca de 15 anos quis alargar horizontes e decidi, através de um amigo, que poderia ir para Pequim. Havia uma fábrica de madeira que tinha sido reconvertida por Sam e sua família, juntamente com a minha amiga Nina van Zinninnq Bergmann, criando-se um espaço específico para artistas no interior da fábrica. Eu fui a cobaia.” Nascia assim o “W.O.W”, um “espaço dedicado a designers, artistas e arquitectura”, onde Berend Strik conheceu Liu Gang, artista e curador deste projecto agora revelado no Armazém do Boi. Outra mostra hoje revelada é a dos artistas Gu Wenjia e Pan Zishen, intitulada “Doube Helix: Macau Folded”, com curadoria de Zhang Ting. Aqui, existe a metáfora da dupla hélice e da teoria da “dobra” de Gilles Deleuze, recursos usados para analisar as movimentações culturais em Macau. As obras dos dois artistas apresentam, assim, perspectivas de passado e de futuro, em conjugação. O tríptico de exposições encerra-se com “Love in the South — In Limbo”, de Fang Lu & Arie Kishon, com curadoria de Wang Jing. As três mostras podem ser visitadas até ao dia 24 de Novembro de forma gratuita.
Andreia Sofia Silva Grande Plano ManchetePortuguês | Directora do IPOR defende “estratégia concertada” para a Ásia Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, defende “uma estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. A ideia foi partilhada na conferência “China Sessions”, no Centro Científico e Cultural de Macau, que analisou a “Geopolítica da Língua Portuguesa a Oriente” A directora do IPOR – Instituto Português do Oriente – considera que há pontos a mudar na forma como a língua portuguesa se posiciona na Ásia em conjugação com outros idiomas. Ao falar na conferência “China Sessions – Geopolítica da Língua Portuguesa no Oriente: Desafios e Oportunidades para Portugal e para a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, acolhida pelo Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) na última quinta-feira, Patrícia Quaresma defendeu a criação de uma “estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. Essa estratégia deve envolver, na sua óptica, “Portugal, os Estados-membros da CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e Macau, aproveitando as estruturas já existentes, em vez de criar novas”. “Portugal, os restantes Estados-membros da CPLP, o IILP, as universidades, Macau e as próprias empresas actuam, muitas vezes, em paralelo. Uma estratégia comum para a língua portuguesa na Ásia ganharia escala e visibilidade se estas vontades fossem coordenadas”, justificou. Em relação a Macau, a responsável entende que o território deve posicionar-se de uma forma diferente. Patrícia Quaresma referiu a necessidade de “reconhecimento de Macau como centro regional de formação de professores de português como língua estrangeira”, mas não só. A RAEM deveria também ser o lugar preferencial para a “produção de recursos didácticos para a Ásia”. Macau deve ser “plataforma de língua e não apenas de comércio”, defendeu. “O papel de Macau como ponte entre a China e os países de língua portuguesa é reconhecido no plano económico. Importa reforçá-lo também no plano linguístico, educativo e cultural”, apontou. Patrícia Quaresma considerou que em Macau existe uma “comunidade de prática da língua, de instituições de ensino superior com oferta em português”, e ainda uma “experiência acumulada de mais de três décadas” no ensino da língua. Factores que fazem do território “um centro natural de formação, certificação e produção de recursos para toda a região”. Ao HM, a directora do IPOR destacou o que deve ser melhorado no ensino de português nas escolas locais. Deve-se apostar na “definição de um programa de PLE [português língua estrangeira] de referência para todas as instituições de ensino (por forma a uniformizar o ensino da língua portuguesa na RAEM)”. Além disso, a responsável sugere “contratações de professores com habilitação própria para o ensino de PLE, um programa de formação contínua para professores nesta área e a definição de um organismo do Governo da RAEM para monitorizar as práticas de ensino em sala de aula, são elementos que podem contribuir para que muitas falhas sejam supridas”. O papel de Timor Tendo em conta a recente entrada de Timor-Leste para a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), onde se fala português e tétum, Patrícia Quaresma acha que se deve reforçar “a cooperação com Timor-Leste no quadro da sua integração na ASEAN”. “A adesão de Timor-Leste cria uma oportunidade inédita para a língua portuguesa no Sudeste Asiático. A cooperação entre Macau e Timor-Leste, na formação de professores, na produção de materiais e no intercâmbio cultural, pode contribuir para que o português ganhe visibilidade no espaço da ASEAN, onde o IPOR já trabalha com instituições no Vietname, na Malásia e na Indonésia”, adiantou. Neste ponto, Patrícia Quaresma lembrou como, nos últimos anos, o IPOR tem conseguido expandir a sua rede na Ásia além Macau, tendo “consolidado uma rede colaborativa que envolve instituições na China, Vietname, Japão, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul, em actuação com a rede de ensino do Camões, I.P e representações diplomáticas”. Desde 2019 que existe um posto de docência em Pequim, localizado na Embaixada de Portugal em Pequim, onde são organizados cursos de português como língua estrangeira e actividades culturais. Ao enumerar uma série de propostas para a dinamização do idioma, Patrícia Quaresma acrescentou a necessidade de “investimento em recursos digitais de acesso livre que coloquem o português em pé de igualdade com outras línguas”, nomeadamente no que diz respeito às “ferramentas de aprendizagem e de tradução”. Deve ainda ser feita a “valorização da programação cultural como parte integrante da política de língua e não como dimensão acessória”. “Se a geopolítica da língua portuguesa no Oriente tem um sentido, é este: o de uma geopolítica da confiança”, frisou. “Uma língua partilhada por povos de quatro continentes, presente em Macau e agora também na ASEAN, é um recurso de diálogo que Portugal e a CPLP não podem deixar de valorizar”, disse. Língua tem de ser atractiva Patrícia Quaresma referiu no CCCM os mais recentes dados que espelham o volume de trabalho do IPOR. Em 2025, teve “mais de 3.900 formandos em mais de 100 cursos, em diferentes modalidades e níveis de competência, num total de mais de 12.000 horas de formação, com recurso a materiais didácticos próprios”. Desta forma, os dados revelam, na perspectiva de Patrícia Quaresma, que “a procura [pelo português] existe e é diversificada”. “Dizem-nos que, em Macau, o português continua a ser uma língua de cidadania, trabalho e de mobilidade”, acrescentou na sua apresentação. Os alunos do IPOR são “muito diversos”, sendo “estudantes do ensino secundário e superior, quadros da Administração pública, colaboradores de empresas e cidadãos que querem ampliar o repertório linguístico”. No rol de “desafios” anunciados, Patrícia Quaresma enumerou cinco cenários que devem sofrer melhorias, sendo que a “atractividade” da língua portuguesa é um deles. “No Oriente, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e empregabilidade. O português compete com o inglês, naturalmente, mas também com outras línguas que dispõem de recursos muito superiores, como o espanhol, o francês, o alemão, o japonês ou o coreano.” Desta forma, a directora do IPOR acredita que o português “precisa de associar factores de atractividade económica à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não ficar reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”. Patrícia Quaresma chamou ainda a atenção para a qualidade da formação de docentes. “O crescimento da oferta de português na região, particularmente na China, não foi sempre acompanhado pela formação de docentes em número e com qualificação suficientes. A formação contínua, a certificação e o acompanhamento pedagógico são condições para que esse crescimento seja sustentável”. Patrícia Quaresma acredita na “continuidade das redes”, defendendo uma “cooperação linguística” que tenha “recursos humanos, tecnológicos e financeiros estáveis, conhecimento das realidades institucionais de cada país e mecanismos de avaliação”. “Muitas iniciativas na Ásia dependem de esforços pontuais e do empenho individual de leitores e professores. Sem continuidade, perdem-se os investimentos realizados”, acrescentou. A apresentação da directora do IPOR chamou também a atenção para a chegada da inteligência artificial (IA) e “transformação digital”. “A forma como hoje se aprendem e se usam línguas está a mudar rapidamente. A presença do português nos recursos digitais e ferramentas de tradução e aprendizagem irá determinar, em boa parte, o seu peso futuro.” Desta forma, “uma língua com pouca presença digital tem menor relevância no espaço global”, rematou. A sessão de quinta-feira contou ainda com oradores como o embaixador português em Pequim, Manuel Cansado de Carvalho; João Laurentino Neves, antigo director do IPOR e actual director-executivo do IILP, ou ainda Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, entre outros. Alinhamento em curso Questionada pelo HM sobre o facto de, na China, terem sido encerrados mais de uma dezena de cursos de português em universidades no interior do país, Patrícia Quaresma considera que houve “o ajustamento a uma nova realidade”. “Na China, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e de empregabilidade. Neste momento, apesar das relações comerciais com os países de língua portuguesa ainda se manterem em valores significativos, o mercado de trabalho já não tem capacidade para absorver todos os tradutores que se formaram nos últimos anos. Por outro lado, a inevitável inteligência artificial veio contribuir para a simplificação do trabalho de tradução”, destacou. A directora do IPOR considera, portanto, que se deu “um alinhamento com o novo panorama socioeconómico da China, a que devemos prestar muita atenção e procurar combater através da associação da língua portuguesa a factores de atractividade económica, à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não fique reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”, explicou.
Andreia Sofia Silva PolíticaMetro Ligeiro | Governo diz que expandir horário exige mais análise A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) defende que a extensão dos horários do Metro Ligeiro exige “uma análise global”. Em resposta a uma interpelação escrita do deputado Nick Lei, a entidade governamental garantiu que deve ser feita “uma avaliação global tendo em consideração as reais condições de funcionamento” deste meio de transporte público. “Tendo em conta o grande volume de passageiros durante feriados e grandes eventos, a operadora já prolongou o horário de funcionamento, tendo aumentado a frequência das carruagens em função da afluência, a fim de dar resposta às necessidades de deslocação dos passageiros”, lê-se na resposta. A DSAT disse ainda que, para garantir um funcionamento mais regular do Metro Ligeiro, seria necessário “assegurar a estabilidade do sistema de carruagens, realizar diariamente, durante a noite, trabalhos de manutenção e inspecção das vias, de forma a assegurar a segurança da operação”. O deputado Nick Lei defendeu, na interpelação, que o horário do Metro Ligeiro deveria ser ajustado tendo em conta “as necessidades de deslocação de um maior número de residentes, sobretudo trabalhadores por turnos e profissionais do sector do jogo”. Pagamentos coordenados Na mesma resposta, a DSAT esclareceu que tem vindo a realizar a “substituição faseada dos acessos por equipamentos que permitem pagamentos digitais”. Assim, “com a entrada em funcionamento dos novos equipamentos, estarão reunidas condições de base para a articulação entre os sistemas de cobrança do metro ligeiro e dos restantes transportes públicos”, foi apontado. A DSAT indica que a ligação dos meios de pagamento com os autocarros “tem sido discutido activamente” por parte das operadoras de transporte, a fim de assegurar “o desenvolvimento futuro dos serviços, e respectivas medidas de optimização” das redes de transporte.
Andreia Sofia Silva EventosIPOR | Edição chinesa de “Para sempre Vilarinho da Furna!” lançada amanhã O livro “Para sempre Vilarinho da Furna” evoca, em banda desenhada, a história desta aldeia portuguesa na zona do Gerês. Da autoria de Luciana Castelli, a obra ganhou versão chinesa e é apresentada amanhã no Instituto Português do Oriente. Eis um projecto que nasceu da grande paixão de Manuel Antunes, docente e último morador da Vilarinho da Furna, pela aldeia O Instituto Português do Oriente (IPOR) acolhe amanhã, a partir das 16h, na Biblioteca Camilo Pessanha, o lançamento da edição em chinês da obra de banda desenhada, pensada para crianças, “Para Sempre Vilarinho da Furna!”. Segundo uma nota do IPOR, trata-se de uma história que dá a conhecer “às novas gerações o património, as tradições e a memória de Vilarinho da Furna, a aldeia do Gerês submersa nos anos 70”. “Com a tradução em chinês, esta mensagem ultrapassa barreiras linguísticas e aproxima crianças e famílias de Macau e de todo o universo cultural chinês”, lê-se. Da autoria de Luciana Castelli, que escreve como se fosse uma menina de dez anos a contar a história, o livro nasce da grande paixão do professor Manuel Antunes pela sua aldeia. O fundador da AFURNA – Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna – foi o último morador a sair de Vilarinho da Furna, nos anos 70. Ao HM, Manuel Antunes conta o trabalho que tem feito nos últimos anos para manter a memória desta aldeia, e que inclui a criação do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, que abriu portas em 1989. “Tive a ideia mirabolante de criar um museu etnográfico evocativo da aldeia. Pensei que seria a coisa mais normal do planeta fazer-se qualquer coisa, evocar algo, e criar um espaço que lembrasse a aldeia que desapareceu com a barragem. Lancei essa ideia em 1978 ou 1979, e demorei aí uns 20 anos até construir o museu. Sou teimoso, os meus projectos são sempre assim, demora-se 20 anos, mas realizam-se.” Manuel Antunes saiu de Vilarinho da Furna a 1 de Janeiro de 1971, a barragem foi inaugurada a 21 de Maio de 1972. O museu fez-se, em parte, com as pedras que restaram das casas. “Soube que estavam a retirar as pedras de umas casas e eu e o arquitecto João Rosado Correia, que fez o projecto do museu, fomos lá escolher umas pedras. Por mim, trazia a aldeia toda, mas trouxemos duas casas com as pedras todas numeradas.” Nessa época, Manuel Antunes estudava Filosofia e fez todo esse trabalho nas férias de Verão, já na casa da tia, moradora de uma aldeia vizinha. Desde então que com a AFURNA, fundada em 1985, faz um trabalho de divulgação da aldeia, nomeadamente junto dos seus alunos. Luciana Castelli foi aluna de Manuel Antunes e foi assim que nasceu o livro que amanhã se apresenta. Emoções à flor da pele De pedidos de apoio em pedidos de apoio, Manuel Antunes acabou por estabelecer contactos com a comunidade chinesa de Macau, o que abriu portas à apresentação da obra em Macau. “Esperamos que tenha sucesso. Vai ser muito agradável apresentar este livro na sua versão em chinês e só de pensar que as crianças chinesas de Macau vão saber a história e que as vamos pôr a contar a história de Vilarinho das Furnas, até fico emocionado”, contou. Uma das entidades apoiantes desta obra foi a OMNI Investments. Numa nota divulgada no website da empresa, refere-se que Luciana Castelli disse que este livro foi “um projecto particularmente desafiante”, já que “nunca tinha escrito para crianças”. “O resultado foi uma obra de linguagem simples, acessível e envolvente, mas profundamente rica em sentimentos, memórias e valores humanos. Através destas páginas, as novas gerações são convidadas a conhecer a história da aldeia comunitária de Vilarinho da Furna, preservando a memória colectiva de um património único da cultura portuguesa”, lê-se na mesma nota. “Para sempre Vilarinho da Furna!” ganhou uma menção honrosa no Prémio Nacional do Ambiente Fernando Pereira 2023. Coube à OMNI “o apoio e coordenação da tradução integral da obra para chinês simplificado, bem como a respectiva impressão, permitindo que a história de Vilarinho da Furna chegue a novos leitores e diferentes contextos culturais”, é ainda descrito.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLisboa | Casa de Macau é o último reduto da comida macaense Com o encerramento do restaurante Patuá, os almoços quinzenais na Casa de Macau em Lisboa tornaram-se o último reduto da comida macaense na capital portuguesa. No dia da visita do HM, o almoço foi Porco Bafassá cozinhado por Maria João Ferreira. Entre sócios e amigos há quem sonhe transformar o espaço numa espécie de restaurante Ao abrir a porta na casa cor-de-rosa na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o cheiro emana da cozinha onde todos ajudam por amor à camisola. Tem sido assim todas as quartas-feiras, a cada quinze dias, na Casa de Macau em Lisboa, lugar que passou a ser o único a servir comida verdadeiramente macaense desde que o restaurante Patuá, também em Lisboa, fechou portas. O Patuá serve ainda refeições temporariamente, mas apenas até à próxima segunda-feira, numa parceria com o bar, restaurante e sala de espectáculos Damas, numa acção intitulada “Patuá Takeover”. No dia em que o HM almoçou na Casa de Macau, o menu foi Porco Bafassá e rolinhos de massa de arroz com camarão para entrada. Pelo meio-dia a azáfama na cozinha já era muita, e apesar de a cozinheira ter sido Maria João Ferreira, membro da direcção da Casa, muitos braços ajudaram. “Não posso dizer quem me ensinou esta receita, porque é um prato feito com muita frequência nas casas macaenses. Provavelmente aprendi em Macau com a empregada chinesa que estava em nossa casa. Sempre gostei muito de cozinhar, de maneira que a pouco e pouco comecei a fazer em minha casa.” Há muito que a Casa de Macau tenta promover a gastronomia macaense. Não apenas com almoços com minchi aos sábados, como na organização de almoços semanais que contavam com a chef Justina do Rosário. A sua saída levou a direcção a decidir manter a iniciativa, para não perderem “projecção”. “A Justina foi-se embora por questões de saúde e tivemos uma quebra bastante grande. Para o assunto não morrer, decidimos, em reunião de direcção, organizar os almoços quinzenalmente e não semanalmente, como fazíamos com a Justina. Tentamos respeitar as receitas macaenses.” A Casa de Macau conseguiu aumentar o número de sócios no mandato de Carlos Piteira, de 180 para cerca de 400. “Não se pode dizer que temos um lucro grande, mas para nós é sempre positivo e temos alguma projecção.” Maria João Ferreira entende que “faz falta comida macaense” em Portugal. “Não há. Quando muito, há restaurantes a fazer minchi, mas não passa disso.” Transformar a iniciativa quinzenal da Casa de Macau numa espécie de restaurante, com apoios, “seria excelente”, confessa. “Acho que todos nós desejaríamos isso, mas não sei até que ponto se poderá concretizar, não sei se a RAEM tem interesse em financiar uma iniciativa dessas. Mas seria fantástico, é um sonho de todos nós. Gostaríamos imenso de ter um restaurante em casa de Macau.” “Conheci-os no Instagram” Pelas mesas a azáfama é muita e, pelo meio de sócios e rostos habituais da casa, há quem tenha ido almoçar para descobrir os sabores desta gastronomia de fusão. É o caso de Pedro Carneiro, que gosta de explorar o que de novo existe em Lisboa, em termos culturais. “Sempre fui interessado na cultura macaense e tenho família que vive em Macau, e quis experimentar. Já tinha algumas referências da comida macaense. Tinha alguma curiosidade para ver como é feita cá, e o tipo de eventos que se fazem.” Naquele dia, mostrou mesmo interesse em fazer-se sócio da Casa. Sendo conhecedor do restaurante Patuá, considera “fundamental” a existência destes espaços. “Há vários espaços associativos ou de restauração que estão a fechar, por diferentes razões, o que significa que qualquer comunidade ou espaço que organize eventos que permitem às comunidades estarem próximas umas das outras, é fundamental.” “Sempre fui interessado por comidas crioulas, que juntam várias culturas. É sempre engraçado ver como as técnicas, ou os ingredientes portugueses, são confeccionados de maneira híbrida com ingredientes asiáticos”, destacou. Também Gonçalo Lamy, de 19 anos, quis ir provar o Porco Bafassá e levou consigo dois amigos. O estudante da Universidade Nova de Lisboa viajou até Macau há dois anos graças a uma parceria entre a sua escola secundária e a Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes. “Gostei muito de Macau e quis experimentar estes almoços. Conheci-os no Instagram, comecei a seguir. Achei um ambiente bastante familiar e fomos muito bem-recebidos. É engraçado ver as pessoas a encontrarem-se aqui”, destacou. A voz da tradição Na televisão vê-se a TDM, o canal chinês. Pelos corredores, trocam-se dois dedos de conversa enquanto o almoço não está na mesa. No dia da reportagem, o jornalista português Ricardo Dias Felner, autor do podcast “O Homem que Comia Tudo”, e cronista do semanário Expresso, também se encontrava à mesa para descobrir aquele lugar de comida macaense genuína. Disso percebe Manuel Fernandes Rodrigues, macaense de gema e autor de diversos estudos sobre a gastronomia da sua comunidade. Sócio e participante habitual das actividades da Casa de Macau, os almoços quinzenais servem para matar saudades. “Em Lisboa não há restaurantes que façam comida macaense, e a Casa de Macau é o único sítio que conheço que faz comida genuína”, contou. “A Casa de Macau já teve workshops semanais de gastronomia. É difícil manter um restaurante por uma razão muito simples: como se vão arranjar cozinheiros? A população de Macau que reside em Portugal tem uma idade avançada e as novas gerações não se interessam tanto por esta profissão. Ser cozinheiro já não é um modo de vida.” Manuel Fernandes Rodrigues conhece as histórias que vivem no meio de sabores de cada prato. Explica-nos que a comida macaense tem origem em Malaca, que os portugueses conquistaram em 1511 e por onde passou grande parte do comércio feito na Ásia. Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam apoiar este projecto gastronómico quinzenal, para que se sirvam refeições de forma mais frequente, Manuel Fernandes Rodrigues diz que seria importante tal acontecer. “Pessoalmente, acho que sim [que deveria haver apoios]. Mas as autoridades de Macau têm as suas prioridades, e não sei se o projecto da comida de Macau está nessas prioridades. Na minha óptica, deveria estar.” O macaense entende que se deve apostar na divulgação que explicasse devidamente “o que é a comida macaense, porque não se resume apenas a receitas”. “Há muito mais, como a história dos macaenses, que têm a sua maneira de ser, e por detrás de cada receita está isso tudo.” O almoço, acompanhado com xarope de figo, fechou com gelatina de agar-agar com chocolate. “Em Macau há dois tipos de gelatina de chocolate. A versão chinesa é menos rica, porque só leva o chocolate diluído em agar-agar, e esta leva leite normal ou leite condensado, portanto, tem mais doce”, explica Maria João Ferreira. Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, também almoçou pela Casa de Macau. Ao HM, fala das dificuldades que é apoiar financeiramente estes projectos que vivem de acções voluntárias, mas que expandir os almoços quinzenais para um projecto mais regular seria importante. “Não são fáceis os financiamentos. Mesmo em Macau os financiamentos passam por um escrutínio mais rigoroso. Desde que as instituições ligadas a Macau tenham condições de estudar possibilidades de subsidiar este ou aquele projecto, porque não? Nos tempos em que nos encontramos, a boa vontade tem um preço. As coisas custam dinheiro, o tempo que se dá a isto tem o seu preço, e é fundamental que se criem condições para este projecto seja uma realidade. Caso contrário, é mais uma coisa que acaba.” Miguel de Senna Fernandes “lamenta” que o restaurante Patuá tenha fechado, assumindo que fazem falta espaços que mantenham a gastronomia macaense na comunidade. “A gastronomia macaense mantem-se nas casas. Há muitos macaenses que estão em Lisboa e seguem a sua própria comida com muito orgulho. É fundamental que se continue a pensar em termos comunitários. A Casa de Macau, por si só, não consegue fazer tudo, e é preciso boa vontade das pessoas”, concluiu.
Andreia Sofia Silva EventosColóquio internacional na UM debate papel da IA no ensino superior A Universidade de Macau (UM) acolhe a partir de hoje, e até sábado, dia 24, o colóquio internacional “A World Without Humanities – Rethinking the Role of Universities in the Age of AI” [Um Mundo sem Humanidades – Repensar o Papel das Universidades na Era da IA]. A organização está a cargo do departamento de português da UM e conta com a colaboração dos docentes Raquel Abi-Sâmara, Chen Keyi, Rivaldo Freire Tavares e Raquel de Sá. As sessões decorrem nas salas E1-UM Gallery e E22-G015. A primeira sessão começa hoje às 10h tendo como orador Zhang Longxi que irá falar sobre “IA, Subjectividade Humana e Criatividade”. No período da tarde, a partir das 14h, é vez de subir ao palco o professor da Universidade de Potsdam, Ottmar Ette, que irá falar da “Filologia na Era Digital: Sobre a Vida Longa das Humanidades”. Ligação à literatura Não faltam neste colóquio sessões sobre a conexão entre a IA e a literatura e os actos de leitura. Hoje à tarde, a partir das 16h, Raquel Abi-Sâmara, da UM, fala sobre “A Poesia Digital de André Vallias: Da Poesia Concreta aos Novos Actos de Leitura e a Questão do Humano”. De frisar que André Vallias, poeta brasileiro de 63 anos, é visto como um pioneiro na relação entre a poesia e a Internet. Raquel Abi-Sâmara regressa a esta temática no último dia da conferência, ao falar, a partir das 16h30, dos “70 Anos da Poesia Concreta e 70 Anos da IA: O ‘SonetarIA’ de André Vallias e a Máquina de Fazer-SonetosIA”. Por sua vez, amanhã, Li Li, da Universidade Politécnica de Macau aborda a questão “O que pode a Tecnologia fazer à Literatura? Navegando no Espaço Emocional da Poesia dos Heterónimos de Fernando Pessoa.” Júlio Jatobá, da UM, e Lu Shi Yi, do Instituto Português do Oriente, falam, a partir das 15h50, também esta quinta-feira, de como a IA pode impactar a leitura, com a sessão “Lendo o Humano na Era da IA: Robots e Infância na Literatura Chinesa e Portuguesa”.
Andreia Sofia Silva EventosMOIDF | Festival de documentário arranca sábado Começa este sábado, dia 24, a nona edição do Festival Internacional de Cinema Documental de Macau, que decorre até ao dia 8 de Novembro no Bona Cinema Macau. Com 22 documentários disponíveis numa iniciativa subjacente ao tema “Registar / Recordar”, o festival arranca com “A Simple Soldier”, passado no contexto da guerra da Ucrânia O Festival Internacional de Cinema Documental de Macau (MOIDF, na sigla inglesa) está de regresso a partir deste sábado, dia 24, depois de um ano de ausência. Os filmes com um cunho de realidade são exibidos até ao dia 8 de Novembro no Bona Cinema Macau, situado no empreendimento YOHO Treasure Island Resorts World Hotel. Em exibição, estarão 22 documentários locais e estrangeiros. Uma das novidades desta edição é a categoria “New Voices Competition” [Competição Novas Vozes], e que inclui a atribuição de dois prémios. De resto, há muitas histórias para ver e conhecer no MOIDF, nomeadamente com cenários de guerra pelo meio. Uma destas histórias conta-se no filme de abertura, que tem a guerra na Ucrânia como pano de fundo. Com exibição este sábado, dia 24, a partir das 16h30, “A New Soldier” é a história do fotógrafo ucraniano Artem que se alistou no exército. “Com uma câmara e espingarda nas mãos, dirigiu-se para a linha da frente para registar a vida e morte dos seus camaradas, bem como o quotidiano da vida militar. Os tiroteios eram muito mais brutais do que ele tinha imaginado. À medida que os seus companheiros de armas eram mortos um após o outro, a solidão aumentava e os sentimentos foram-se desgastando com o derramamento de sangue”, revela a sinopse do filme. O documentário volta a ser exibido no dia 1 de Novembro. “Birds of War”, exibido no domingo, também a partir das 16h30, sai da Ucrânia para a Síria, país que também foi marcado por um longo conflito. “Ao longo de treze anos de guerra, revolução e exílio, como se atravessa um céu cheio de fogo? Uma entrevista que começou durante a luta em Aleppo, em 2016, leva uma jornalista libanesa a viver em Londres a ser fotógrafa na linha da frente na Síria”, pode ler-se na sinopse. De Amílcar à Fábrica Há também filmes com um cunho de lusofonia, na categoria “A Taste of Portuguese”, nomeadamente com a exibição de “Amílcar”, de Miguel Eek, exibido dia 27. Este documentário conta a história de Amílcar Cabral, poeta e lutador anti-fascista com ligações à Guiné-Bissau e Cabo Verde. “Seguindo-se os seus poemas, escritos políticos e cartas enviadas às suas duas mulheres, o filme navega nos arquivos coloniais, em imagens da revolução e em microfilmes de 16 milímetros para reconstruir o seu diálogo interior”, revela-se na sinopse. O documento sobre um homem que foi assassinado em 1973, “quando a independência nacional estava prestes a ser atingida”, deixou um rasto de coisas por descobrir e muitos mistérios. “Uma causa que não foi atingida e cadernos que registam amor, poder e traição.” A nona edição do MOIDF traz também histórias de cariz social, como é o caso do documentário “Titicut Follies”, com uma cópia restaurada exibida também este sábado, mas às 20h30, com repetição a 6 de Novembro. O realizador, Frederick Wiseman, desenvolveu este projecto quando era professor de Direito na Universidade de Boston e depois de ter levado estudantes seus ao Hospital de Massachusetts, que albergava autores de crimes e portadores de doença mental. “Com a permissão do superintendente para filmar, [Frederick Wiseman] começou a sua carreira como realizador. Sem formação numa escola de cinema ou experiência profissional por detrás da câmara, Wiseman explorou a instituição a fundo e registou de forma muito próxima doentes e médicos, enfermeiros, guardas e assistentes sociais, registando um lado do hospital raramente visto.” No último dia do MOIDF, destaca-se a exibição de “Factory”, às 16h. A história passa-se na fábrica da Lenovo, em Wuhan, em Fevereiro de 2020, ou seja, em plena pandemia. Qi Yue era gerente da fábrica e regressou à unidade para que a produção voltasse ao normal, tendo sido implementado um sistema de controlo da pandemia. O documentário conta, portanto, o lado do gestor, “passando depois para os administradores, técnicos e operários na linha de produção”, e a forma como viveram as difíceis regras de confinamento. “No final, um veículo robótico segue um percurso algorítmico pela oficina, como uma nova espécie a observar friamente e a ouvir de soslaio as conversas humanas. Avança a uma velocidade constante e nunca diz uma palavra”, lê-se na sinopse de “Factory”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteHistória | Publicado livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles Foi recentemente publicado o livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles, advogado e irmão de Ademar e Sita Valles, assassinados em Angola no período pós-independência. Ao HM, o autor revela estar a preparar um livro sobre o caso. Em “Sombras e Luzes do Império”, Edgar Valles relata a Angola antes de 1974 Edgar Valles acaba de lançar o livro “Sombras e Luzes do Império”, com a chancela da Gradiva, que relata “episódios – uns doces, outros amargos – da vida colonial e da ‘metrópole'”. A obra transfere para o papel as vivências do advogado, com sangue goês, nascido em Angola em 1953. A “metrópole” que refere era o Portugal anterior ao 25 de Abril de 1974, quando havia um império colonial, que incluía Macau. Durante o Estado Novo, regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974, foram muitas as histórias de um império que passou por muitas crises antes de cair, incluindo 13 anos de guerra colonial. Edgar Valles diz ser uma espécie de “filho do império”, no sentido em que é “fruto do império”. “Se os portugueses não tivessem chegado a Goa, a minha família não teria ido para Angola. Por outro lado, a minha infância e adolescência, foram passados em Angola. Se não fosse esse império, não estaria em Angola, e não teria estudado em Portugal”, frisou. “Sombras e Luzes do Império” não tem cunho ideológico, nascendo de crónicas que Edgar Valles foi escrevendo na imprensa local portuguesa. “O livro não tem pretensões ideológicas, nem pedagógicas. Relata apenas experiências vividas. Isto porque considero que, hoje em dia, os jovens têm acesso a muita coisa, a redes sociais, a televisão, a tudo, mas leem muito pouco. E procurei traduzir no papel histórias de vida em que não sou o personagem central, mas apenas a pessoa que assistiu a muitas situações.” Segundo a sinopse do livro, descrevem-se “histórias verdadeiras e bem-humoradas, como o desembarque do primeiro-ministro Nehru numa praia de Benguela, que ali teria chegado de submarino e era procurado por tal infracção”. Há ainda o relato “do lutador antifascista que se julga vigiado por um casal de agentes da PIDE a partir de um automóvel, quando, afinal, estes apenas estavam a utilizar o veículo para outros fins, por sinal atentatórios da moral dominante”. O livro contém também “histórias sobre as peripécias da luta política contra o regime”. “Sombras e Luzes do Império” lança um convite ao leitor para “reflectir sobre estes relatos com a franqueza e profundidade que exigem, permitindo que as histórias contadas revelem não apenas a história de um tempo, mas também as ressonâncias que ecoam na nossa própria identidade”, descreve a mesma sinopse. Um “modo de vida diferente” O lado bom desse antigo império português era “o modo de vida”, recordou Edgar Valles. Se Portugal parecia um país sombrio, a viver numa ditadura, com separação de sexos nas escolas e baixo nível de vida, nas antigas colónias a vida tinha mais cor, apesar do regime político ser o mesmo. “Nós, tal como acontecia em Moçambique, tínhamos praia, desportos náuticos, sol. No fundo, era um modo de vida completamente diferente do que existe aqui. Éramos muito abertos, os miúdos andavam de calções, e mesmo os adultos vestiam-se de forma muito simples. Tratávamos toda a gente por tu. Chocou-me, por exemplo, quando tinha 17 anos e vim para Lisboa, para a Faculdade de Direito, o facto de as pessoas não se tratarem por tu”, frisou. Edgar Valles diz que este e outros episódios lhe causaram “impressão”. “É estranho, porque as pessoas daqui de Lisboa consideravam que nós éramos atrasados [os que vinham das colónias africanas], mas nós éramos mais avançados em muita coisa. Até tínhamos coca-cola, coisa que aqui não havia”, relata. Edgar Valles diz ter percebido, já na adolescência, que pertencia a um império que acarretava uma certa ideologia e propaganda que não batiam certo com a realidade. “Despertei para isso antes de vir para cá. Mas, no fundo, há uma luta de contrários. Por um lado, havia aquele orgulho em ser português que eu cheguei a ter, do ‘Portugal de Minho a Timor’. Isto quando tinha uns 12, 13, 14 nos. Mas depois houve a constatação de que as coisas não eram bem assim. Isso, às vezes, é doloroso.” Questionado sobre o seu sentimento de pertença, Edgar Valles diz que, quando está em Goa, sente-se goês. “Quando estou em Portugal, sinto-me português de Portugal.” Angola não entra nesta equação. As “testemunhas de Jeová” Edgar Valles chega a Lisboa em 1970 e ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, quando a luta estudantil contra o regime está ao rubro. Aderiu ao Partido Comunista Português (PCP) e abraçou a luta anti-fascista, mas nunca foi preso pela PIDE. “A minha mulher foi presa e esteve seis dias em tortura de sono, em que a pessoa tinha de ficar de pé, e se se deitasse, era pontapeada. Também era chamada tortura da estátua. Só tive uma situação [de risco de prisão], mas não foi relevante: a 5 de Outubro de 1973 fazíamos sempre uma romagem ao cemitério do Alto de S. João, a polícia carregou e prendeu uma série de pessoas, e eu estive detido umas horas. Seríamos apresentados a julgamento por actividades subversivas, mas depois deu-se o 25 de Abril”. Deixou o PCP anos depois da revolução, no contexto do assassinato da irmã, Sita Valles, aquando do movimento de 27 de Maio de 1977 em Angola, e também do irmão, Ademar Valles. Sita tinha pertencido ao PCP e quando é morta por forças ligadas ao partido angolano MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, o PCP nunca saiu em defesa da sua antiga militante e dirigente. “Saí depois em 1977, quando isso aconteceu em Angola. Na altura acreditava naquilo tudo. Aquilo é fanatismo, como as Testemunhas de Jeová. Achávamos que a revolução estava a ir por água abaixo, e que o povo deveria revoltar-se e travar o capitalismo que se estava a implantar.” A saída do PCP deu-se, precisamente, por considerar injusto o tratamento que o partido deu ao caso Sita Valles, que tinha sido uma das mais importantes dirigentes da UEC – União dos Estudantes Comunistas, quando era estudante de Medicina. Edgar Valles acha, porém, que já é tarde para que as autoridades governamentais ou entidades partidárias se pronunciem sobre o caso. “Acho que já se falou bastante. Na altura, as autoridades deveriam ter tido outro tipo de postura, agora perdeu-se um pouco a oportunidade. É algo que as autoridades consideram um caso encerrado, infelizmente.” A história de Sita Valles, e do próprio Edgar e Ademar, conta-se no livro “Sita Valles – Revolucionária, Comunista até à Morte (1955-1977)”, da jornalista Leonor Figueiredo. Novo livro a caminho A perda dos irmãos e o contexto político em que isso aconteceu será tema central de um novo livro. Sobre ele, Edgar Valles pouco quer revelar agora. “Vou escrever sobre o que aconteceu a seguir ao 25 de Abril.” Ao reviver o passado, o autor não tem dúvidas de que foi o dia mais feliz da sua vida, mas teve desilusões com tudo o que aconteceu a seguir. “Houve muitas melhorias do ponto de vista económico na sociedade portuguesa, mas há um certo sentimento de angústia pelo facto de não se ter conseguido atingir estabilidade social. Acaba por haver uma liberdade muito formal, com algum controlo, porque é difícil publicar opiniões críticas. Há um certo desencanto na sociedade actual”, considerou.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMaria Célia Lima-Hernandes, autora de “Macau – Lótus do Oriente”: “Em Macau quase tudo é híbrido” Docente da Universidade de São Paulo e aluna de pós-doutoramento e docente na Universidade de Macau, a linguista Maria Célia Lima-Hernandes queria estudar o português de Macau e acabou por escrever um livro sobre as áreas “híbridas” do território, com foco na língua e na comunidade macaense. “Macau – Lótus do Oriente” é apresentado hoje na Casa de Macau em Lisboa Como surge Macau no seu trabalho académico? Fui professora de língua portuguesa na Universidade de São Paulo. Todas as vezes que tinha de falar sobre o português em Macau, não tinha material suficiente. Então esperei que as minhas filhas crescessem para me candidatar a uma bolsa para poder fazer pesquisa em Macau [estágio de pós-doutoramento com a docente Maria José Grosso]. O único livro que havia na universidade [Universidade de São Paulo] sobre Macau era de Graciete Batalha [Dialecto Macaense] e falava da língua crioula [patuá], e não português. Quando dava aulas dizia que em Macau havia um crioulo, mas não sabia falar nada sobre o português e a sua situação. Só quando fui para Macau é que descobri o que era, de facto. Depois, comecei a frequentar o outro lado, e comecei a interessar-me pela história do entrosamento entre portugueses e chineses. Comecei a dividir o meu trabalho com o Arquivo Histórico de Macau, no Tap Seac, e a analisar certidões, assentos de nascimento, casamento e morte, de óbito, e também testamentos. Comecei a descobrir a história das meninas que foram abandonadas, ou que ficaram órfãs mesmo, na primeira década do século XX. Porque escolheu esse período para investigar? Há muitos estudos até ao final do século XIX, há muitos estudos a partir de 1920. E a documentação da primeira década desapareceu, com tufões e incêndios, e o que ficou são registos de nascimento, morte ou casamento. Comecei a investigar a partir daí. Este livro funciona como uma espécie de radiografia de Macau, da sua geografia humana. Como foi encontrar um fio condutor nesta diversidade que é Macau? Voltando a esta primeira década do século XX, Macau era um território onde se podia caminhar, e as pessoas comentavam nestes documentos históricos que a China era do outro lado. Perguntei, anos mais tarde, a macaenses o que planeavam para o futuro, agora que [a administração de] Macau tinha passado para a China. Perguntava como tinha sido percebida a entrada da China no território. As respostas deram-me outras questões, e uma delas era que a China estava a aproximar-se pela água, e ninguém percebia. Houve aterros. As pessoas não tinham esta noção. Isto aconteceu em 2015, no segundo momento da minha estadia em Macau. Mesmo na universidade, os meus alunos ajudaram-me a perceber essa percepção do espaço. Eu perguntava: “Quando estão aqui [no campus da UM em Hengqin] estão em Macau ou na China?”. Os professores, e também os portugueses, que viviam no campus; e os alunos de Macau diziam que estávamos em Macau. Mas os alunos da China diziam que ali era a China, porque tinham a mesma rede de telemóvel. Aí comecei a trabalhar na questão das fronteiras, e com os documentos recuei no tempo, descobrindo a Ilha Verde que já não era ilha, mas que as pessoas ainda chamavam assim. Tudo isso foi mudando, mas as percepções das pessoas não. Fiz entrevistas a pessoas que se dizem macaenses 100 por cento, ou seja, 50 por cento chinês, 50 por cento português. Esse é um dos grupos que trabalho neste livro. Há outros grupos de macaenses, mas esse é o mais interessante, porque é a raiz de Macau. São muito chineses e muito portugueses, defendem essas duas nacionalidades como uma só, nessa hibridez. Foi aí que surgiu a ideia da flor de lótus [para o título do livro], porque ela é híbrida. Tanto está no meio do lodo, como sobe à superfície, mostrando toda a beleza que tem. Os macaenses que se dizem 100 por cento são isso. Deu aulas em Macau em 2015, mas esteve no território antes para fazer pesquisa. Só cheguei a Macau em 2010. Fiz as entrevistas, não havia smartphones, então foi tudo feito corpo a corpo. Depois voltei ainda para pesquisar documentos no Arquivo Histórico, e regressei então em 2015. Macau já estava totalmente diferente. Fiquei a viver no campus da UM, e tive uma experiência completamente diferente. Mas voltando à questão do macaense. No livro refere que não é só uma questão de etnia, mas de “construção social”. Em que sentido? Os macaenses 100 por cento sempre tiveram o chinês dentro da família. Alguns receberam o documento oficial dentro da família, a certidão de baptismo, apenas depois da morte da parte da família portuguesa. Mantém-se ali, como filhos da herança portuguesa, mas não têm o documento, e conseguem-no não porque lutassem por ele, mas porque deveriam ser escondidos, porque ninguém queria ter uma mãe chinesa, compreende? Falamos aqui da primeira década do século XX? Sim, mas essa situação repete-se com as pessoas que entrevistei, muitos anos depois. Nessa primeira década era a situação das meninas órfãs, e analisei o caso das meninas que estavam na congregação das Canossianas, italianas. Elas recolhiam essas crianças, dando-lhe instrução e ensinando português. Eram meninas sem família? Algumas tinham família e eram entregues porque os pais queriam que fossem inseridas na sociedade. Outras eram entregues por serem bastardas, filhas de soldados portugueses que não as reconheciam. A vida era muito difícil para muitas famílias [da comunidade chinesa], por causa de guerras, tufões, doenças. Elas percebem que, com a presença portuguesa [em Macau] era necessário incluir essas meninas, para que tivessem uma história digna na sociedade. Ia passando de boca em boca, nesta comunidade, o que era ensinado e o que era necessário para se ser uma mulher macaense. Mas elas não tinham nome. Tinham o nome chinês, e depois eram sujeitas a um baptismo colectivo, e aí recebiam nomes portugueses. Inicialmente, são dados os nomes das freiras. Depois, na segunda geração de crianças, já são nomes de macaenses. Falamos então de meninas macaenses oriundas de famílias chinesas pobres e que moravam em zonas periféricas. São crianças inseridas na sociedade e que depois ganham um segundo nome, com o marido macaense ou português metropolitano. Então, logo aí, havia a construção social do macaense. Mas isso vai acontecer depois na sociedade, mesmo com chineses. Disse que entrevistou apenas um grupo de macaenses. Porquê? Interessaram-me os que foram para a Escola Comercial. Eram mais de classe média, e existia uma pobreza muito grande. Eles foram para essa escola para aprender um ofício e começar a trabalhar. O seu livro faz também uma espécie de estudo das línguas existentes em Macau, da relação entre o patuá, o português e o chinês. É uma espécie de levantamento da evolução destes idiomas no território. Na verdade, quando comecei a pesquisa, percebi que o tema não era aquele por onde tinha começado. O tema ganhou vida e outras proporções. Percebi que o tema que sempre me tinha interessado era a hibridez, e ao longo do livro percebemos que em Macau quase tudo é híbrido, e é muita coisa. Mas, obviamente, não analisei tudo. Então, o que é homogéneo em Macau? Acho que a identidade do português da metrópole é homogénea. Mesmo que os portugueses tenham casado depois com chinesas, e que ficaram em Macau até hoje, e que nem querem voltar para Portugal, têm uma identidade portuguesa muito forte. Os chineses, por outro lado, também são muito homogéneos. De todos esses cenários de hibridez em Macau, qual é, para si, o mais fascinante? O que mais me fascinou foi a forma como as duas identidades convivem. São duas coisas numa só. Quando estive em Macau agora, fui ao Cemitério [na Avenida de Sidónio Pais], identifiquei ali algumas meninas [da pesquisa dos primeiros anos do século XX]. Então o que mais me encanta é essa hibridez que não é vista, nem percebida. É a hibridez identitária, da comida misturada, da terra com a água. A língua passou a ser o que menos importava. A língua mostra, vincula, mas esconde muita coisa. Macau está num rápido processo de integração regional. Em que lugar fica esta hibridez? Que território vamos ter? É uma boa pergunta. Quando vejo os prédios a serem erguidos na Grande Baía, pergunto: “Quem vai morar ali?”. Espera-se que sejam para os reformados, então vamos tirar um grupo de pessoas de um espaço, levá-lo para outro grupo, e é uma hibridez diferente, porque vai entrando cada vez mais na China. Parece-me que quando voltar lá daqui a cinco anos, talvez a hibridez seja de chineses. Sempre houve, mas é mais escondida do que aquilo que podemos pensar. Nos levantamentos que fiz para o livro, havia uma grande mistura de chineses, mas toda ela coordenada pela China. Quem entrava, quem vinha fazer o quê em Macau. Conheci uma senhora que veio ao colo da mãe para Macau. Hoje está completamente integrada na sociedade. Então ela é chinesa de Macau? Não, macaense. Então no futuro vai ser difícil separar tudo isso, porque os macaenses 100 por cento que conheci estão a morrer e os filhos já usam inglês como língua corrente. Acho que, no futuro, vai ser chinês e inglês. No livro diz que temos de olhar para Macau “como um caleidoscópio”, porque existirem muitos condicionalismos na definição desses perfis de língua. Em que sentido? Senti que, cada vez que chegava a Macau, era como se tivesse um caleidoscópio na mão, agitasse e tivesse sempre uma nova imagem a aparecer, com mudanças muito rápidas. O discurso também mudou, e da penúltima vez que voltei, havia um debate imenso na imprensa sobre a questão do chinês e a questão da preservação do cantonês. Para um linguista não há dialectos, porque todas as formas de manifestação linguística são línguas, pela questão de sociolinguística, pelo direito de falar. E o cantonês é uma língua muito forte. Os professores já ensinam mandarim na sala de aula, mas o vigor do cantonês mantém-se, e acho que é uma tradição muito forte, é mesmo cultural. É a língua da família, e isso não se perde. Foi para Macau estudar o português no território. Encontrou as respostas que queria? Identifiquei coisas sobre as quais não vou poder avançar mais, porque tudo está a mudar rapidamente. O que acha que vai mudar mais depressa? A geografia, a mobilidade do povo. Quando sai um funcionário público macaense ou português, entra um chinês para o lugar. Haverá mais chineses que chegam para estudar e ficam. Mais chineses do exterior que ficam. Esta é uma obra emocional, que fala de pessoas que conheci.
Andreia Sofia Silva SociedadeRestauração | Marisqueira UMA quer expandir negócios na Ásia Serve apenas arroz de marisco e abriu portas nos anos 80, em Lisboa. Da Rua dos Sapateiros, com uma clientela maioritariamente chinesa, a Marisqueira UMA veio para Macau e promete abrir mais restaurantes na Ásia. Alexandre Grazina, fundador do restaurante, disse ao HM que há ideias para a Coreia do Sul e o Japão A Marisqueira UMA, que abriu portas na Rua dos Sapateiros, em Lisboa, há 38 anos, inaugurou recentemente um espaço em Macau e a Ásia continua nos planos de expansão e internacionalização deste restaurante. Segundo contou Alexandre Grazina, fundador do negócio, ao HM, Coreia do Sul e Japão fazem parte dos planos. “Abrimos aí em Macau e agora encontrámos uma outra oportunidade, vamos para o Japão ainda este ano. Já temos tudo preparado para abrir lá, mesmo em Tóquio”, contou. Mas Alexandre Grazina, que é também a alma por detrás do principal prato da casa, disse que a Coreia do Sul também faz parte dos planos. “Se pudéssemos ir mais para cima, iríamos, mas não nos deixam entrar”, ironizou. Alexandre Grazina esteve quatro meses em Macau a preparar a equipa e diz que o negócio tem corrido bem, não obstante o facto de “o macaense [os locais] não ir muito a restaurantes”. “Ali trabalhamos mais com o turismo”, disse. O espaço funciona na Rua de Fernão Mendes Pinto. O sucesso da Marisqueira UMA e a conexão à Ásia começou ainda em Lisboa. “Quando começámos a trabalhar tivemos muitos portugueses e espanhóis, mas de há uns anos para cá temos tido muitos asiáticos. Actualmente é possível que 80 por cento dos nossos clientes sejam asiáticos, e na marisqueira em Lisboa temos uma média de 300 a 400 pessoas por dia, em média.” No espaço de Lisboa um tacho de arroz de marisco, para uma pessoa, custa 19,90 euros e é servido num tacho, contendo camarão, sapateira, mexilhão, miolo de mexilhão e lula. Também é servida uma nova versão do prato com lagosta, mas para duas pessoas, e com um valor mais elevado, de quase 70 euros. Em Macau, o prato de arroz de marisco custa 195 patacas, sendo que o arroz com lagosta tem o valor de 699 patacas. Nas críticas do Google a Marisqueira UMA Macau tem uma média de 4,8 estrelas em 5. “À espera de mais” Alexandre Grazina confessou que o segredo do seu arroz de marisco, que faz sucesso nas redes sociais, é o facto de ser preparado no momento e “com amor e carinho”. “Não temos arroz já cozido, nada já feito [previamente]. Temos os tachos e fazemos [o prato] individualmente. Se são dois, faz-se dois, se são três, faz-se três. O arroz demora uns 25 a 30 minutos a fazer”, exemplificou. “A cozinha é para inventar”, adiantou. “Inventámos o arroz desta maneira, aos poucos, foi criando uma enorme fama e valeu a pena.” Sobre Macau, o fundador do restaurante confessou que “estava à espera de mais” em termos de volume de negócios. “Tem corrido mais ou menos, mas vou ser sincero: esperava um bocadinho mais. Percebi, pelo tempo em que lá estive, que o macaense não é de ir aos restaurantes comer, e aí é logo uma desvantagem.”
Andreia Sofia Silva PolíticaArbitragem | Governo quer criar centro de litígios comerciais Wong Sio Chak, secretário para a Administração e Justiça, revelou que será criado em Macau o “Centro de Resolução de Litígios Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola)”. No discurso proferido no 2º Congresso de Arbitragem Lusófona, o governante destacou também a necessidade do reforço “da capacidade jurídica em matérias que envolvam legislação do exterior”, nomeadamente nos “serviços jurídicos dos Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola) e países que participam conjuntamente na construção de ‘Uma Faixa, Uma Rota'”. Pretende-se ainda melhorar “a formação de quadros qualificados em matérias que envolvam legislação do exterior”, já que Wong Sio Chak destacou que o “ritmo crescente da ‘expansão para o exterior’ das empresas aumenta a frequência de actividades comerciais transfronteiriças”, levando à necessidade de recorrer à arbitragem. “Macau, graças às características institucionais únicas do sistema jurídico continental, à vantagem do bilinguismo sino-português e à posição de plataforma de ligação entre o Interior da China e os Países de Língua Portuguesa, dispõe de todas as condições e capacidades para se tornar numa importante plataforma de arbitragem comercial e de resolução de litígios entre a China e os Países de Língua Portuguesa (e de Língua Espanhola)”, concluiu.
Andreia Sofia Silva PolíticaAL | Chui Sai Peng na Comissão de Regimento e Mandatos Na sessão plenária de sexta-feira houve eleições para os presidentes e secretários das diversas comissões que compõem a Assembleia Legislativa (AL). Segundo um comunicado da AL, o deputado Chui Sai Peng passa a presidir a Comissão de Regimento e Mandatos, sendo adjudicado por Iau Teng Pio, com o cargo de secretário, e por Angela Leong, Wong Kit Cheng, Song Pek Kei, Ip Sio Kai e Lei Wun Kong. A primeira comissão permanente será presidida por Wong Kit Cheng, enquanto que a segunda comissão será dirigida por Ip Sio Kai. Leong Sun Iok passa a presidir à terceira comissão permanente. No que diz respeito à Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Terras e Concessões Públicas, Ella Lei será presidente; enquanto que a Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Finanças Públicas será liderada por Song Pek Kei. Ma Chi Seng preside à Comissão de Acompanhamento dos Assuntos da Administração Pública.
Andreia Sofia Silva PolíticaRua de Pequim | Deputado sugere zona pedonal coberta O deputado Vong Hou Piu sugeriu, no período de intervenções de antes da ordem do dia, que as autoridades devem “aproveitar a oportunidade da transformação trazida pela saída dos casinos-satélite para remodelar a Rua de Pequim”, transformando-a “numa rua pedonal comercial”. Vong destacou que o encerramento dos casinos-satélite, em finais de 2025, afectou negócios, mas que é importante repensar a utilização da zona. A Rua de Pequim “foi alvo, há anos, de um reordenamento do ambiente pedonal, dispondo de uma base para criar um sistema pedonal. Mas a fisionomia urbana, as instalações e distribuição de actividades comerciais continuam relativamente dispersas, não tendo sido plenamente aproveitado o potencial de comércio”. Para potenciar o uso da rua, o deputado sugeriu a “instalação de estruturas de cobertura semi-circulares” em ruas secundárias, e que tenham “valor estético e artístico, destinadas a ocultar as colunas expostas”. Além disso, deve-se eliminar “a ocupação ilegal do espaço público”; criando-se também zonas coberturas que se conjuguem “com a política de esplanadas”. Tal iria permitir “com um estilo uniforme, ligar as esplanadas dos estabelecimentos de restauração de ambos os lados, unindo as esplanadas dispersas num único espaço, transformando-as numa rua pedonal comercial a funcionar em todas as condições atmosféricas”. Nesta zona com coberturas, iriam funcionar bancas de gastronomia, “lembranças culturais e criativas e produtos de lojas de conveniência”. Para os comerciantes, devem ser estabelecidos “mecanismos transparentes de admissão, fiscalização sanitária e rotatividade”, dando-se prioridade “à participação de micro e pequenos empresários locais”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteTestamento vital | Chan Lai Kei quer mudar a lei para doenças terminais Num debate pautado por pedidos de medidas para enfrentar o envelhecimento populacional e mais apoios a idosos, o deputado Chan Lai Kei defendeu mudanças na lei para permitir as chamadas “directivas antecipadas de vontade”, ou o testamento vital, em casos de doença terminal O deputado Chan Lai Kei pede que o Governo altere a lei para permitir que uma pessoa assine a chamada “directiva antecipada de vontade” para casos de doença terminal. Numa intervenção antes da ordem do dia (IAOD) na Assembleia Legislativa (AL), o deputado diz que os Serviços de Saúde (SS) e o Instituto de Acção Social (IAS) devem “iniciar uma consulta pública e estudar a criação de um mecanismo de instruções médicas prévias adequado ao contexto social de Macau, de modo a acumular as bases para a futura revisão da legislação relevante”. O deputado cita um “um estudo académico realizado em Macau”, sem nomear o nome da instituição académica ou os autores, em que 62 por cento dos 737 residentes entrevistados disseram “que na fase final da vida dariam prioridade aos cuidados paliativos”. Porém, adiantou o deputado, nesse mesmo estudo, “cerca de metade dos inquiridos considerou que, em nenhuma circunstância, se deveria interromper o tratamento de suporte vital”. Para Chan Lai Kei, estes 50 por cento de respostas mostra como “persiste uma lacuna de conhecimento relativamente aos conceitos de cuidados no final da vida e de directivas antecipadas de vontade”. O deputado cita “outro estudo local” que refere o facto de que “mais de 73 por cento dos residentes de Macau estariam dispostos a elaborar directivas antecipadas de vontade, caso existisse um mecanismo juridicamente reconhecido”. Estas directivas serviriam, na prática, “para expressar antecipadamente a sua vontade em matéria de cuidados de saúde para quando viessem a perder a capacidade de decisão”. Desta forma, o deputado chama a atenção para o facto de a “sociedade possuir uma base de aceitação para este sistema”. Explicações necessárias O deputado referiu o projecto piloto dos SS na área de cuidados paliativos e cuidados antecipados com alguns lares de idosos subsidiados, mas, no seu entender, “trata-se apenas de uma fase piloto com âmbito de aplicação limitado”. Chan Lai Kei diz que a comunidade chinesa evita, por norma, falar da morte, existindo ainda muitas dúvidas sobre o que são, realmente, as directivas antecipadas de vontade. “Ao ouvirem falar de cuidados paliativos, muitos cidadãos interpretam-nos logo como abandono de tratamento. Sugere-se que o Governo, em conjunto com associações de idosos, lares de idosos, organizações médicas e jurídicas; e em colaboração com o Centro Hong Neng, organize palestras e workshops de fácil compreensão, partilhando casos reais dos serviços prestados pelo Centro Hong Neng”. A ideia é “explicar claramente” que “as directivas antecipadas de vontade são apenas a recusa prévia dos tratamentos de suporte vital fúteis, sendo mantidos os cuidados básicos, tais como o alívio da dor e os cuidados de enfermagem”. Olhar os idosos No debate de sexta-feira, vários deputados usaram o período de IAOD para pedir apoio à população envelhecida de Macau. Um deles foi José Chui Sai Peng, que defende o reforço “do regime jurídico sobre a acessibilidade para impulsionar o desenvolvimento da medicina e dos cuidados para idosos”. O deputado chama a atenção para o facto de a lei “Supressão de barreiras arquitectónicas”, de 1983, “está em vigor há mais de 40 anos e algumas normas não responderem às necessidades actuais da sociedade no que respeita ao ambiente acessível”. Existem ainda “discrepâncias, em termos jurídicos e práticos, face às ‘Normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras na RAEM’, publicadas nos últimos anos”. Desta forma, o deputado pede um mapeamento das necessidades, em termos de mobilidade, dos mais velhos. “Sugere-se ao Governo que proceda, primeiro, ao levantamento das necessidades espaciais nos cenários de prestação de cuidados a idosos no domicílio, cuidados diurnos na comunidade, cuidados em lares de idosos e cuidados transfronteiriços a idosos, estabelecendo, depois, níveis diferenciados”, tendo em conta as “novas zonas urbanas, habitação pública e instalações públicas”. José Chui Sai Peng também defende que as normas devem articular-se com as regiões de Hengqin e Grande Baía, para criar “condições para a prestação de cuidados transfronteiriços a idosos, encaminhamento e referência médica, e reconhecimento mútuo de serviços”. Já Si Ka Lon falou da necessidade de fomentar a chamada “economia prateada”, ligada à criação de negócios ou serviços para idosos. “Embora a escala do mercado de Macau seja relativamente reduzida, o crescimento da população idosa indica um potencial de procura interna significativa. A indústria prateada abrange vários domínios, incluindo cuidados de saúde e bem-estar, tecnologia para a terceira idade, turismo de lazer e finanças para a reforma”, explicou. Assim, o deputado ligado à comunidade de Fujian entende que esta área “não só é uma exigência inevitável para fazer face a uma sociedade envelhecida, mas também uma oportunidade crucial para promover a diversificação adequada da economia de Macau e abrir novos horizontes de mercado para as pequenas e médias empresas locais”. No debate de sexta-feira foram aprovadas, na generalidade, as propostas de lei “Regime para a regulação de determinadas actividades e eventos” e ainda a “Alteração ao Regulamento do Imposto de Consumo, aprovado pela Lei n.º 4/99/M, de 13 de Dezembro” (ver caixa). Além disso, foi apresentado o Relatório sobre a Execução do Orçamento de 2025 e Relatório de Auditoria da Conta Geral de 2025. Foi ainda feito um projecto de simples deliberação do plenário relativo ao Orçamento Privativo da Assembleia Legislativa para o ano económico de 2027. Abusos | Ho Ion Sang pede “reforço” da protecção de menores O deputado Ho Ion Sang recorreu ao período de intervenções de antes da ordem do dia para abordar o mais recente caso em que um trabalhador de uma instituição é suspeito de abusar sexualmente de um menino e de ter filmado outras crianças. O deputado pediu o “reforço da linha de defesa da protecção das crianças”, devendo as autoridades, na sua visão, “implementar a supervisão por níveis e a guarda institucionalizada de ciclo completo”. Para Ho Ion Sang, uma das soluções é “aperfeiçoar o regime de admissão e qualificação do pessoal dos lares, estabilizando as equipas profissionais”.
Andreia Sofia Silva EventosImagens para ver na galeria Ochre Space até ao dia 24 A galeria Ochre Space, em Lisboa, fundada pelo curador, fotógrafo e advogado João Miguel Barros, apresenta até ao próximo dia 24 a exposição de fotografia “Kamaitachi”, de Hosoe Eikoh. A coordenação e curadoria está a cargo do próprio João Miguel Barros, sendo este um dos mais importantes fotógrafos japoneses do período contemporâneo. Segundo o catálogo da mostra, são 13 as imagens deste fotógrafo que podem ser vistas pelo público português. “Esta exposição parte de uma pergunta simples: o que muda quando algumas fotografias de um livro passam das páginas para as paredes de uma sala? Para responder, escolhemos treze imagens de ‘Kamaitachi’ e demos-lhes uma ordem própria, inspirada na lenda que dá nome ao projecto. Explicar essa ordem obriga a começar pelo livro e pelo nome”, é explicado. “Kamaitachi” é um livro de fotografia com grande no género de dança do pós-II Guerra Mundial, intitulado “Ankoku Butoh”, também conhecido como “dança das trevas” ou “dança da escuridão”. A primeira edição aconteceu em 1969, em Tóquio, mas já várias edições posteriores da mesma obra foram realizadas. Projecto de monta Conforme explica João Miguel Barros no texto que acompanha a exposição, “antes de ser livro, ‘Kamaitachi’ foi uma viagem”, já que o fotógrafo tentou lidar com as memórias da sua saída de Tóquio em 1944, em plena II Guerra Mundial, com apenas 11 anos. “Viveu até Setembro de 1945 em Yonezawa, onde nascera, junto da família materna. Duas décadas depois escolheu Akita, terra natal de Hijikata Tatsumi, figura fundadora do ankoku butō. A memória do fotógrafo encontraria no corpo do bailarino uma experiência próxima da sua, embora vivida por outra pessoa. Em Setembro de 1965, trabalharam dois dias na aldeia de Tashiro, em plena colheita do arroz.” O termo “Kamaitachi” remete para “cortes súbitos na pele, atribuídos ao vento, sem que se veja o que os provocou”, ou ainda “o nome da criatura invisível que os provocaria, frequentemente imaginada como uma doninha de garras em forma de foice que habita o redemoinho”. “A criatura chega, fere e vai-se embora; quem a recebe encontra o corte, mas não vê o que o causou. Nesta exposição, a dobra e a ferida sugerem duas relações com o que não se vê: a página aberta revela a fotografia que ocultava; o corte é a marca de uma causa que permanece invisível”, acrescenta-se. O público pode ver 13 imagens dispostas em oito paredes com uma organização muito própria.