Literatura | Livro sobre obra de Rodrigo Leal de Carvalho apresentado amanhã

Decorre amanhã, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a apresentação da obra que olha à lupa a escrita de Rodrigo Leal de Carvalho, autor profundamente ligado a Macau. “Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra”, de Dora Gago e Anabela Freitas, pretende “relançar o debate sobre a obra romanesca” do autor, que também foi juiz

“Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra” é o nome do livro da autoria de Dora Gago e Anabela Freitas que é apresentado amanhã no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a partir das 15h. Segundo um comunicado da editora, Letras Lavadas, trata-se de uma edição que visa “redescobrir Rodrigo Leal de Carvalho” e lançar o “debate sobre a sua obra romanesca”. A apresentação estará a cargo de Ana Paula Laborinho.

Segundo a mesma nota, a obra “propõe uma revisitação crítica ao percurso literário de Rodrigo Leal de Carvalho, autor que publicou os seus oito romances já depois dos cinquenta anos e que, apesar de ter conquistado leitores atentos e o reconhecimento de vários críticos, não obteve a visibilidade mediática proporcional ao mérito da sua escrita”.

Todas as obras do autor foram editadas pela Livros do Oriente, fundada por Rogério Beltrão Coelho, destacando-se títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”. No caso do livro apresentado amanhã, Dora Gago e Anabela Freitas “analisam a recepção da sua obra e destacam a singularidade da voz literária” de Leal de Carvalho, nascido nos Açores.
Propostas aos leitores

Este livro “conduz o leitor ao universo romanesco de um escritor terceirense que mergulhou profundamente na complexidade de um território distante, transformando-o em matéria narrativa rica e envolvente”. Desta forma, o que as autoras propõem são leituras que “oferecem novas perspectivas sobre a obra do autor e incentivam a redescoberta de um nome que merece maior presença no panorama literário contemporâneo”.

Este é um livro que traz “um contributo relevante para o estudo da literatura produzida no espaço lusófono e para a valorização de um autor cuja obra continua a despertar interesse e a justificar novas abordagens críticas”, refere a editora.

Rodrigo Leal de Carvalho faleceu em Janeiro deste ano aos 93 anos, tendo sido, mais do que escritor, juiz, Procurador da República e Presidente do Tribunal de Contas de Macau. Nascido na Praia da Vitória, na ilha Terceira, Açores, em 1932, Leal de Carvalho formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura.

O juiz começou por trabalhar como delegado-interino na ilha do Pico, mas em 1959 foi para Macau, onde viria a viver boa parte da vida, com passagens por Lisboa e pelas então colónias portuguesas da Guiné, Angola e Moçambique.

Já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, Leal de Carvalho regressou mais uma vez a Macau, em 1976, como Procurador da República.

Em 1995, foi nomeado juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e, no ano seguinte, liderou a comissão que organizou as últimas eleições para a Assembleia Legislativa de Macau sob administração portuguesa. Já em 1996, tornou-se presidente do Tribunal de Contas de Macau, posto que ocupou até às vésperas da transferência da administração da região para a China, em 1999.

Foi em Macau que Leal de Carvalho se estreou como romancista, em 1993, com a publicação de “Requiem por Irina Ostrakoff”, livro que lhe valeu o prémio do Instituto Português do Oriente, no ano seguinte, e que acabou por ser traduzido para chinês, em 1999, e para búlgaro, em 2002.

Seguiram-se os romances “Os Construtores do Império” (1994), “A IV Cruzada” (1996), “Ao Serviço de Sua Majestade” (1996) e “O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999)”. Já regressado a Portugal, o juiz continuou a escrever sobre a região chinesa, nomeadamente em “A Mãe”.

Leal de Carvalho publicou ainda “O Romance de Yolanda” (2005), a história de uma macaense que aceita casar-se com um milionário filipino perseguido pela polícia para este obter nacionalidade portuguesa. O último livro do autor foi “As Rosas Brancas de Surrey” (2007). Com Lusa

22 Mai 2026

Diogo Lopes Teixeira, arquitecto e professor na USJ: “Estamos a aquecer as nossas cidades”

Arquitecto, co-fundador do atelier “Hori-zonte”, no Porto, e professor convidado na Universidade de São José, Diogo Lopes Teixeira foi considerado um dos melhores arquitectos europeus com menos de 40 anos nos “Europe 40 Under 40”. Em entrevista, chama a atenção para a importância do bambu e alerta para o excesso do ar condicionado

Qual o significado deste prémio para a sua carreira?

O prémio parte de candidatura feita em definição com os meus dois sócios. É, obviamente, importante, porque traz sempre motivação e confirma um bocadinho daquilo que estamos a tentar fazer com a nossa profissão, mais especificamente nós, como arquitectos mais ligados à área da sustentabilidade. O reconhecimento do trabalho que temos feito dá-nos motivação para continuar, para o fazer ainda melhor. É um privilégio ser reconhecido num grupo restrito de 40 arquitectos na Europa que têm feito um trabalho ligado à inovação e a alguns projectos de sustentabilidade. Mas nós damos aulas ou estamos ligados a algumas universidades, como a Universidade de São José (USJ) de Macau. Portanto, vestimos sempre a camisola em equipa, ainda que haja alguns momentos individuais.

Como tem corrido a experiência de docência na USJ?

Somos professores convidados. O primeiro contacto foi em 2024 através do professor Filipe Afonso, que é nosso colega e amigo. Tem sido uma boa experiência, e no meu caso acompanhei alunos no processo de desenhar e concorrer a um concurso que costumam fazer para desenhar um pavilhão em bambu, explorando [a utilização] de software e tecnologia. Foi um concurso aberto não apenas a pessoas de Macau, Hong Kong ou China, mas de todo o Sudeste Asiático, e o projecto ganhou.

Em termos de formação em arquitectura, os cursos são relativamente recentes. Como olha para o panorama do ensino de arquitectura no território?

A nossa experiência é muito recente, mas o que posso dizer é que, obviamente, é importante que os habitantes de Macau, que vivem a cidade todos os dias, consigam ter uma palavra sobre o seu desenvolvimento, seja num plano mais público, ao nível de infraestruturas e do urbanismo, mas também no desenho dos próprios edifícios e espaços interiores onde habitam. Nós, como escritório de arquitectura focado na sustentabilidade e no reconhecimento do local, achamos que a parte de identidade é muito importante. É preciso entender o local onde vivemos, e este tem muito a ver com o clima, os materiais disponíveis, os tipos de vida. Portanto, eles próprios são os melhores agentes da transformação da cidade. Existe uma série de talentos e arquitectos que podem ter uma palavra a dizer na transformação das cidades.

O seu trabalho foca-se na ideia da arquitectura sustentável. Como encara o uso do bambu, a sua preservação e papel em termos de sustentabilidade?

Quando comparamos com a Europa a maioria das estruturas e andaimes são feitos em bambu, e é algo que, para nós, não é concebível, porque estamos habituados às estruturas metálicas que ocupam a paisagem das cidades durante os anos em que os edifícios estão em construção. É uma pena que os andaimes em bambu não possam ser usados como uma estrutura permanente. Por exemplo, se tivermos de formular a imagem de um edifício, e se vai ser construído o andaime em bambu, porque não pensar numa forma em que este possa servir de base para, por exemplo, as varandas do edifício no futuro, ou como parte integrante da estrutura. Da nossa experiência, com o densificar das cidades e a necessidade de construir mais em altura, tecnologias e instrumentos como o bambu não são os mais apropriados, ou passam a ficar um bocado em desuso. Há também menos pessoas especializadas para o fazer. As universidades, e estes concursos, são importantes para sensibilizar as pessoas de que existe aqui um material que faz parte de uma cultura e que poderá ser introduzido, se calhar não em edifícios com grande altura e escala, mas noutros projectos.

É cada vez mais importante a arquitetura sustentável? Ainda estamos longe dos padrões ideais?

Sim, tendo em conta o objectivo que achamos que deveria existir num sector muito poluente. O sector da construção contribui cerca de 40 por cento para a emissão de gases e efeitos de estufa para atmosfera, e devia tentar olhar para aquilo que constrói uma pegada neutra, que deve ser dividida em dois parâmetros. Um deles é a energia, no sentido em que devemos pensar que os nossos edifícios são energicamente neutros e produzem energia suficiente para as necessidades em termos de manutenção, evitando-se gastos energéticos muito grandes. [Falo também] nas escolhas de sistemas de construção e materiais, que devem ser o mais neutros possível. Obviamente que o mercado não está 100 por cento preparado para isso, devendo existir legislação e apoios, ou incentivos fiscais.

Como estes apoios podiam ajudar, na prática?

No sentido em que novos materiais de base natural poderiam vir ao de cima e ser mais recorrentes no mercado. Isso ainda não acontece e há um caminho grande a fazer, porque é preciso perceber o que existe neste momento no nosso parque edificado. Há um comparativo engraçado entre a cidade de Lisboa, onde muitos edifícios não são dotados de isolamento ou de boas janelas e não têm sistemas de climatização, então há muitos ares condicionados espalhados no exterior do edifício. Esta imagem é ainda mais presente em Macau. É importante perceber que estes sistemas e as renovações que são feitas aos edifícios são prejudiciais também para o exterior.

Em que sentido?

Se colocarmos máquinas exteriores que não são bem dimensionadas ou bem feitas, ou se o projecto não for bem feito, estamos a aquecer ar exterior, ou seja, a retirar ar quente do interior das habitações e a colocá-lo no exterior. Estamos a aquecer as nossas cidades, e depois se precisamos de ir buscar ar fresco ao exterior, ele está mais quente do que deveria estar, além da poluição que já existe. Em Macau, e em muitas áreas da China, essa é uma imagem recorrente, vemos edifícios completamente cheios de máquinas de ar condicionado, e as temperaturas, bem como os níveis de humidade, são muito altos nestas localizações.

Desenvolveu dois projectos na China, um deles o “Park Greenhouse Garden”, em Xangai, e o “Taiyuan Botanical Garden”, onde decerto terá desenvolvido a ideia da arquitectura mais amiga do ambiente? Teve margem para explorar novas coisas nesta área?

Há princípios adoptados que são muito importantes e destaco dois. Houve a intenção de desenhar um edifício que fosse menos dependente de infra-estruturas exteriores e que pudesse produzir o máximo de energia possível. Portanto, é um edifício com muitos painéis solares e que consegue produzir muita energia para a sua manutenção. São projectos interessantes. Não é algo comum hoje em dia na Europa, mas são, praticamente, museus de plantas que criam atmosferas diferentes. Há um espaço dedicado a plantas suculentas, com um clima mais árido, tipo deserto, e temos um pavilhão com esse tipo de ecologia. Temos depois um pavilhão mais tropical, que já implica ter a vegetação do Sudeste Asiático, e aí conseguiu-se que o edifício fosse bastante neutro nesse aspecto. A outra questão é o facto de se situar numa zona onde foi a Expo de Xangai, muito central da cidade, mas desabitada, com muitos edifícios devolutos. Assim, este edifício [Park Greenhouse Garden] surge numa infra-estrutura existente que foi reaproveitada para introduzir um novo programa. Há esta ideia de circularidade, de aproveitar algo que estava lá, mas que não tinha função, para se adaptar e receber pessoas. Ao mesmo tempo, acompanhou-se a recriação de um parque urbano na zona. Estes dois fenómenos aproximam-se muito daquilo que gostamos de fazer, ou do que achamos que pode ser um projecto mais sustentável.

Arquitectura é mais do que construir para habitar, é preciso também ter sensibilidade para o fazer. Como define a sua profissão?

A arquitectura é o palco de muitas actividades humanas, sejam elas vividas no exterior, nas cidades. Neste aspecto, a arquitectura e o urbanismo andam de mãos dadas. Mas é também palco de muitos fenómenos importantes para a vida das outras pessoas. Portanto, a arquitectura está por todo o lado e acolhe outras dinâmicas e outras funções da vida humana com o desenho dos espaços, sejam eles museológicos, parques, zonas de conforto das pessoas com a introdução de vegetação, onde estas se sintam confortáveis, ou mesmo os próprios edifícios de habitação. Para nós, é importante sentir que temos responsabilidade de desenhar algo para as pessoas utilizarem, onde se possam sentir confortáveis, apelando ao seu bem-estar e conforto quando usam os espaços. Ao mesmo tempo, podermos também balancear isto com o conforto do nosso planeta e com os recursos limitados.

Foi fácil projectar na China? Ou foi desafiante lidar com esse mercado?

O projecto de Xangai fez parte de uma prática profissional anterior minha, quando estava num escritório de arquitectura na Áustria. Existe uma barreira cultural que é preciso compreender e também de comunicação.

Para o prémio “Europe 40 Under 40” concorreu com três projectos, o “Eco Retreat Yuma”, em Setúbal; o “Dome Next Door”, na Letónia; e “Historical Palace Office”, no Porto. Que ligações têm entre si?

São três projectos muito diferentes e que contam histórias diferentes, mas com um propósito comum. O projecto na Letónia é feito em parceria com outras pessoas que são muito próximas. A possibilidade de projectar num território que é património da UNESCO, como é Praça da Catedral de Riga, é muito interessante, porque nos permitiu utilizar materiais locais e ter uma estrutura em madeira, um material mais sustentável. [O projecto foi pensado para] ser palco de actividades que trouxesse de novo as pessoas para o centro da cidade. O centro histórico de Riga é muito bonito, mas pouco habitado pelos habitantes da cidade, sendo muito mais turístico. Criar este parque recreativo, onde as pessoas se possam encontrar, usufruir dele e ter momentos de encontro na sua própria cidade é muito importante. Tentámos recriar muito da arquitectura e património existentes através das formas geométricas dos arcos e com materiais locais. No Porto fizemos a reabilitação de um edifício, e as reabilitações enquadram-se bem na nossa filosofia. Houve um cuidado muito grande para tentar preservar e recuperar parte dos materiais existentes e dar nova vida a um edifício que estava sem função, e que tem também a integração com uma zona verde, introduzindo meios de biodiversidade. Utilizámos materiais locais e com uma baixa pegada [ecológica], como a ardósia, o que se alinha muito com os nossos pressupostos. Depois, o projecto em Setúbal é de turismo ecológico, feito num lugar muito específico e bonito. Houve bastante cuidado na maneira como intervimos no local, tentando ter o mínimo de impacto, com uma construção feita em fábrica, que chegou ao local e que foi pousada. Foi também planeada através de uma leitura muito presente do ambiente e do clima. A forma como se constrói nesta área, podendo-se construir num ambiente em que se respeita a paisagem natural existente, é quase como se o edifício desaparecesse no meio da paisagem.

22 Mai 2026

Teatro | Dóci Papiaçám di Macau apresenta sátira sobre negócios em crise

“Agora Como? (E Agora?)” é o nome da peça que os Dóci Papiaçám di Macau apresentam este fim-de-semana no Centro Cultural de Macau. Como faz parte da identidade da companhia, o espectáculo lança um olhar crítico à situação difícil do pequeno comércio local, com muito humor à mistura

“Esperança servida numa cidade em mudança.” É assim, numa espécie de mote, que começa a sinopse do novo espectáculo em patuá do grupo teatral Dóci Papiaçám di Macau apresentado este fim-de-semana, sábado e domingo, no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), integrado no cartaz do Festival de Artes de Macau (FAM). As sessões estão marcadas para sábado, às 20h, e domingo, às 15h.

A peça, da autoria de Miguel de Senna Fernandes, centra-se nas vidas de Marta e Elena, filhas “do velho Secundino”, que ficam com o restaurante do pai depois da sua morte. É então que Marta e Elena se deparam com uma economia ainda a recuperar da pandemia, mas já com números bem mais animadores dos que foram registados no pico da crise. Há turistas, mas estes não passam sempre nos bairros residenciais. Entretanto, os casinos-satélite fecharam e levaram com eles muitos dos consumidores dos pequenos negócios da cidade.

Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Ao HM, Miguel de Senna Fernandes explica que “Agora Como? (E Agora?)” não é apenas “sobre os casinos-satélite, pois são apenas uma parte da situação actual” da economia.

“Não há dúvidas de que Macau está a recuperar em termos económicos, e fala-se muito de recordes, a indústria do jogo está a recuperar lentamente em relação a antes da pandemia e também quanto ao número de turistas em Macau, que não para de crescer. Estes dois números representam muito dinheiro para Macau, e como cidadão de Macau só me posso congratular com isto, naturalmente. Mas o grande capital e os turistas vão para as zonas turísticas, e o resto? Esta é a questão.”

A peça alerta também para o crescente cenário de afastamento do consumo das lojas e restaurantes locais para o Interior da China, para onde passou a ser mais fácil viajar. Há, portanto, “a abertura dos cidadãos de Macau ao continente onde abundam sítios para consumo de qualidade”, destacou o advogado e dramaturgo. “É inevitável que haja um aumento da qualidade dos serviços e produtos [na China], com um preço muito mais baixo do que em Macau. Não há nada a fazer, e depois as rendas continuam nos mesmos valores, as condições continuam a ser as mesmas”, alertou.

“Tudo isto gera situações de alguma contradição, e se, por um lado, sou um cidadão que vê com bons olhos o facto de Macau estar a recuperar economicamente, também vejo o poder de consumo diminuído face à concorrência que vem do outro lado da fronteira”, disse ainda Miguel de Senna Fernandes.

Uma história simples

Os espectadores que acorrerem ao CCM este fim-de-semana vão poder assistir a “uma história simples”, de duas filhas que regressam a Macau vindas da Europa, de Lisboa e Madrid, e que se deparam com um “restaurante à deriva”. “Uma das filhas quer vender já, porque face a esta situação é melhor vender, sem alimentar mais algum sonho; mas a outra quer manter o espírito com que foi criado o estabelecimento, que tem muitas memórias, defendendo que o tempo não pode apagar-se assim. Este ‘giga-joga’ em torno da ideia de vender ou não é a trama de toda esta peça”, contou.

Como não podia deixar de ser, há muitas “situações hilariantes”, conforme os Dóci Papiaçám di Macau já nos habituaram. A narrativa é pontuada por “coisas do dia-a-dia, com muito absurdo”, já que se trata de uma “comédia situacional”, em que se “brinca” com “situações absurdas que às vezes encontramos e não conseguimos controlar”.

Linhas do horizonte

Há muito que o FAM é o palco principal para o trabalho desenvolvido pelos Dóci Papiaçám di Macau na preservação do patuá, e Miguel de Senna Fernandes acredita que o interesse, do público e das autoridades, não esmoreceu. “Continua a haver uma apetência pelo teatro em patuá, que todos sabem ser um teatro satírico. É, provavelmente, o único teatro de sátira social em Macau, que é bem-sucedido e que marca sempre o Festival de Artes, com todo o respeito pelos outros grupos.”

Miguel de Senna Fernandes refere que, quanto aos conteúdos, “há linhas vermelhas”, mas que nunca sentiu “que haja algum controlo” relativamente ao que pode ser escrito, dito ou interpretado em palco.

“Eu, pelo menos, nunca senti que haja algum controlo, uma espécie de censura, em que não se pode dizer isto ou aquilo. Mas, por outro lado, sei quais são as linhas vermelhas, sei que elas existem. E dentro destas linhas vamos brincando. Posso estar errado, mas penso que temos conseguido sempre a confiança do Governo para que isto não resvale para sítios indesejados.”

Porém, tudo depende do futuro e de possíveis novas linhas. “Claro que isto vai evoluir mais tarde, mas não sabemos o que vai acontecer daqui a uns anos. Depende muito de qual é a orientação do Governo Central a respeito de Macau, e quais as manifestações culturais que passam a ser permitidas. É tudo meio incógnito e, face a isto, não sei como responder, mas vamos fazendo, ano após ano, aquilo que sabemos fazer”, rematou.

O que é certo é que, actualmente, “o Instituto Cultural continua a acarinhar o teatro em patuá, que é património cultural intangível”. Este fim-de-semana estarão em palco 20 actores, três deles crianças. A grande maioria são veteranos, que asseguram os papéis principais.

21 Mai 2026

Concertos | Nick Lei pede clarificação de regras de segurança

Depois da confusão no Cotai durante o festival “K-Spark”, Nick Lei interpelou o Governo sobre a necessidade de clarificar regras de segurança no Local de Espectáculos ao Ar Livre. Além disso, defende que a futura concessão do espaço não deve olhar apenas para o lucro

O deputado Nick Lei defende a necessidade de clarificar as regras de segurança no Local de Espectáculos ao Ar Livre, tendo em conta o recente episódio de desacatos entre fãs ocorrido no “K-Spark”, festival de música pop sul-coreana (K-Pop), no início deste mês.

Recorde-se que o facto de o evento ter lugares sentados com cadeiras desdobráveis fez com que dezenas de pessoas tenham deslocado as cadeiras mais para a frente do palco, o que gerou alguns desacatos.

Na interpelação escrita, o deputado referiu algumas opiniões divulgadas nas redes sociais sobre o facto de o espectáculo revelar regras insuficientes de segurança, bem como a falta de controlo da multidão.

“Podem as autoridades elaborar regras claras sobre a utilização do espaço, bem como orientações para o comportamento dos espectadores, melhorar a gestão de segurança e a ordem”, questionou. Nick Lei pediu ainda a criação de um “mecanismo de mediação para [o registo] de bilhetes e normas para o reembolso dos bilhetes” que sejam adquiridos em diferentes regiões vizinhas, a fim de “assegurar que as actividades se realizam de forma segura e ordenada”.

Nick Lei, ligado à comunidade de Fujian, recordou que as autoridades do Interior da China possuem já regras para a realização de espectáculos de grande dimensão, como os princípios de “organizador responsável de evento com supervisão do Governo”, ou “prioridade à segurança e prevenção acima de tudo”.

Porém, e ainda que exista em Macau um regulamento para a utilização do Local de Espectáculos ao Ar Livre, Nick Lei considera que o documento não é claro quanto a regras de segurança.

Para o deputado, deve ser criado um sistema “segundo o número de participantes, fazendo-se a diferenciação, em matéria de segurança, para actividades de escala diferente”, sem esquecer a implementação de diferentes “procedimentos de apreciação e aprovação, e respostas de emergência”.

O deputado pede ainda que seja integrada a “participação de entidades profissionais na avaliação de segurança”, sendo importante a elaboração de “normas regulamentares vinculativas para garantir o sucesso da realização dos espectáculos no futuro”.

O Local de Espectáculos ao Ar Livre fica no cruzamento da Avenida do Aeroporto com a Rua de Ténis, no Cotai, entre o Grand Lisboa Palace e o Hotel Lisboeta, com uma área 94 mil metros quadrados e capacidade para mais de 50 mil pessoas. O Instituto Cultural definiu mapas que incluem a “Zona de Espectadores”, “Zona Tampão para Evacuação”, “Zona do Palco e dos Batidores” e “Zona de Espera (controlo de segurança)”.

Olhar além dos lucros

Nick Lei defende também que a filosofia quanto à futura concessão do Local de Espectáculos ao Ar Livre não deve ser puramente comercial, mas incorporar obrigações públicas além de olhar a critérios como a obtenção de lucros e o valor comercial da zona, a fim de garantir apoios à comunidade. Tais necessidades devem ficar claras no contrato de concessão, referiu.

“Pode o Governo especificar no futuro contrato os indicadores concretos, nomeadamente um número mínimo de espectáculos para fins de caridade, a cobrança mais baixa em horários específicos e a obrigatoriedade de abrir o local à comunidade em períodos em que não se realizam espectáculos”, lê-se na interpelação.

21 Mai 2026

“The Impossible Truth” apresentado na Livraria Portuguesa

É apresentado esta sexta-feira, na Livraria Portuguesa, um dos mais recentes projectos artísticos e editoriais de João Miguel Barros, advogado e fotógrafo. “The Impossible Truth” é “um livro inesperado e controverso”, que visa a celebração do 30.º aniversário “de uma das mais importantes performances artísticas da arte contemporânea chinesa”, intitulada “To Add One Meter to an Anonymous Mountain”.

Este livro nasce de uma exposição sobre esta performance que já aconteceu na galeria fundada por João Miguel Barros em Lisboa, a Ochre Space. A sessão de lançamento de “The Impossible Truth” decorre esta sexta-feira a partir das 18h, contando com moderação da curadora Margarida Saraiva.

Performance singular

“To Add One Meter to an Anonymous Mountain” foi uma performance realizada por um grupo de dez artistas chineses em Maio de 1995, nos arredores de Pequim, consistindo num “gesto radical de empilhar corpos nus para alterar a paisagem”, algo que se transformou “num símbolo da vanguarda chinesa e um marco na arte performativa”, descreve a galeria Ochre Space no seu website.

Em declarações recentes ao HM sobre esta obra, João Miguel Barros considerou estarmos perante um livro “importante no contexto da temática que aborda”, por se tratar de uma “famosa performance” sobre “o percurso de vários artistas que a fizeram durante a quase totalidade da década de 1990”.

“Considero que o livro é importante porque reúne um conjunto alargado de depoimento de artistas, curadores e professores que abordam a arte chinesa daquela época, e está muito documentado com elementos recolhidos nos Arquivos da Bienal de Veneza que documentam as grandes tensões existentes entre os artistas durante o período que antecedeu e culminou com a realização da Bienal de Veneza de 1999”, descreveu ainda.

O autor adiantou que “The Impossible Truth” tem tido “grande impacto em certos meios artísticos na China”, tratando-se de uma obra bilingue, em chinês e inglês. Destaca-se que a apresentação em Macau surge depois do lançamento do livro na Photo Shanghai, entre os dias 7 e 10 de Maio.

20 Mai 2026

Livro | “Quem rasgou os meus lençóis de linho” com apresentações até fim do mês

Depois da apresentação no festival Rota das Letras, Dora Gago, docente e escritora, continua a falar do seu mais recente romance, “Quem rasgou os meus lençóis de linho”, que foi buscar o nome à escrita de Camilo Pessanha e cuja história se passa em Macau. Até ao final do mês haverá diversas sessões de apresentação desta obra em Portugal

Créditos: Festival Rota das Letras

Na escrita simbolista de Camilo Pessanha surge o verso “Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho”, a que a autora e docente Dora Nunes Gago foi buscar inspiração para dar nome ao seu mais recente romance, editado pela Poets and Dragons Society, em Portugal.

A obra, recentemente apresentada no festival literário Rota das Letras, é da autoria da antiga docente de português da Universidade de Macau, que mantém uma estreita relação com o território. “Quem rasgou os meus lençóis de linho” continua num leque de apresentações que se estendem ao longo deste mês de Maio, em Portugal, nomeadamente dia 29 na Biblioteca Municipal Estanco Louro em São Brás de Alportel, terra natal da autora; e também no dia seguinte, com uma sessão no I Festival Literário Internacional Afro-Ibero-Americano, em Almada. Já no dia 31 deste mês, é a vez de a obra ser apresentada na Feira do Livro de Lisboa.

A Poets and Dragons Society destaca como esta obra “não se organiza em torno de uma história, mas de uma experiência”, nomeadamente “a de uma consciência que se fragmenta, se recompõe e volta a ceder, num movimento contínuo entre lucidez e delírio”.

Desta forma, “o livro instala-se, desde o início, nesse território instável onde a memória não é apenas um arquivo, mas uma força activa, em que o passado regressa não como uma personagem e uma mera recordação”.

Não é só a presença de Camilo Pessanha que se denota na obra, mas da própria Macau, instalando-se no romance “uma atmosfera de deslocação”, lê-se na nota da editora.

“A protagonista regressa a Macau não como quem volta a casa, mas como quem atravessa um limiar. Esse regresso, marcado pela precariedade e pelo cansaço de uma vida falhada em múltiplas frentes, não é uma recuperação do passado, mas antes a sua reabertura. Como se o tempo não fosse linear, mas um campo de forças onde tudo regressa, deformado, insistente, impossível de encerrar.”

Vivências cruzadas

Há três figuras femininas centrais em “Quem rasgou os meus lençóis de linho”, de nomes Ana, Jenny e Kate, que vagueiam por entre um “espaço simultaneamente geográfico e psíquico”.

A história centra-se no regresso de Ana a Macau, depois de uma vida “atravessada pela perda, doença mental e toxicodependência”. No território a Oriente Ana busca alguma tranquilidade, cruzando-se depois com Jenny, trabalhadora filipina, e Kate, uma jornalista americana que também regressa a Macau por um motivo bastante pessoal: o de “resgatar uma paixão obsessiva”.

Segundo a editora, estas três mulheres, “mais do que personagens autónomas, funcionam como variações de uma mesma condição”, verificando-se cenários psicológicos de “consciência ferida” ou a “pulsão obsessiva, a recusa do tempo e a perda” de Kate, por exemplo. Há aqui “um tríptico que actua numa tensão permanente” criado por Dora Nunes Gago.

Para a editora, este é “um romance exigente e por vezes desconfortável, mas também profundamente necessário”, ou ainda um livro “que recusa a facilidade e aposta numa forma de verdade que só a literatura, na sua dimensão mais arriscada, pode alcançar”.

Dora Nunes Gago editou ainda recentemente, juntamente com Anabela Freitas, o livro “Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra”, com a chancela de Letras Lavadas, que faz a análise da obra do magistrado natural dos Açores que passou por Macau e que também se dedicou às letras, editando todos os seus romances com a Livros do Oriente.

“Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra” será apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) no próximo dia 23 de Maio. A sessão, que começa às 15h, conta com apresentação de Ana Paula Laborinho.

20 Mai 2026

“Autocarros de lazer” | Deputados defendem medida permanente

Os deputados Angela Leong e Ma Chi Seng defendem que a recente medida do Governo dos “Autocarros de Lazer” deveria ser permanente.

Numa intervenção antes da ordem do dia, os deputados defendem que o Governo “pode aperfeiçoar o plano à medida que houver resultados e com base nas experiências de funcionamento”, além de “considerar romper com as limitações ‘sazonais e de fim-de-semana’, no sentido de promover o funcionamento regular e com base temática”.

Angela Leong e Ma Chi Seng defendem ainda a ideia de “transformar os autocarros de ‘lazer’ de curta duração em ‘locomotivas’ para impulsionar, a longo prazo, a economia”, explorando “itinerários peculiares com base nas histórias de Macau”, aproveitando o “teor cultural dos templos, promover o Festival do Dragão Embriagado, as crenças e costumes da Deusa A-Má e de de Na Tcha, entre outros grandes eventos culturais”.

Museus | Lam Fat Iam pede “planeamento estratégico”

O deputado Lam Fat Iam defendeu ontem, no hemiciclo, que faz falta ao território “um planeamento mais estratégico” no que diz respeito a espaços museológicos e culturais. No entender do deputado, “Macau não carece de museus nem de actividades”, mas sim de uma “estratégia de desenvolvimento mais abrangente e de uma implementação institucional mais eficaz”.

Lam Fat Iam pede que se passe de um “desenvolvimento centrado em museus individuais para a construção de um sistema diversificado”, com mais exposições que tenham um cariz internacional.

“Macau é pequena, mas os seus recursos culturais não são poucos, pois abrangem temáticas diversas como a navegação, comunicações, bombeiros, religião, literatura, as artes, a educação, a beneficência, a guerra contra a agressão, a medicina, a ciência e a tecnologia. Se for possível integrar estes recursos, os mesmos vão poder sustentar uma melhoria qualitativa dos museus locais e ser um importante suporte para promover a construção de uma ‘Macau cultural'”, considerou.

20 Mai 2026

IA | Leong Pou U pede orientações e diálogo com trabalhadores

O deputado Leong Pou U recorreu ao período de intervenções antes da ordem do dia no hemiciclo para sugerir maior diálogo entre Governo, associações e trabalhadores como reacção à chegada da inteligência artificial (IA) ao mercado de trabalho.

“Sugiro ao Governo que se articule estreitamente com o 15º Plano Quinquenal do país e que, no âmbito do 3º Plano Quinquenal da RAEM, e tendo em conta a realidade de Macau, estude e defina orientações para a aplicação da IA em Macau.”

A ideia, segundo o deputado, é que possam ser “aperfeiçoados os respectivos diplomas legais, assegurando que a tecnologia IA possa ser aplicada e desenvolvida de forma saudável e ordenada” no território. Leong Pou U acredita que, no futuro, o “núcleo’ do trabalho civil vai passar da ‘execução repetitiva das tarefas’ para o ‘controlo da IA'”, com aqueles que criam conteúdo a passarem a ser “supervisores e analistas” do que a IA vai produzir.

Assim, o deputado defende que “Governo, empresas e associações de trabalhadores reforcem o diálogo social”, promovendo “formação sobre a aplicação da IA, nomeadamente para os sectores que podem ter mais riscos no uso de aplicações de IA, por forma a apoiar os trabalhadores a adaptarem-se às mudanças da nova era”.

20 Mai 2026

Saúde | Wong Kit Cheng pede estudo sobre recursos humanos

A deputada Wong Kit Cheng defende que o Governo deve elaborar “um estudo sobre o planeamento dos recursos humanos na área da saúde”, criando um “mecanismo de avaliação periódica das necessidades de pessoal de enfermagem em diferentes áreas profissionais, especialidades médicas e serviços de saúde comunitária”.

Para Wong Kit Cheng, continuam a faltar enfermeiros em Macau, devendo ser estabelecida “uma meta progressiva para a proporção de enfermeiros por mil habitantes nos próximos cinco anos”.

Desta forma, “estudantes de enfermagem e futuros diplomados podem preparar-se atempadamente para o seu percurso profissional”, enquanto “instituições de ensino superior e sector podem colaborar e aperfeiçoar os currículos e programas de formação especializada”.

Wong Kit Cheng pede ainda que seja feita uma “ponderação” sobre “currículos universitários e a organização dos estágios clínicos, evitando a sobreposição entre o estágio durante o período de estudos e o requisito de seis meses de estágio após a graduação”.

20 Mai 2026

Deputados exigem elevação da eficiência da Função Pública

O mais recente relatório de actividades do Comissariado de Auditoria (CA), que dá conta de má distribuição de trabalho e recursos humanos na Administração, levou ontem alguns deputados a pedirem maior eficiência no período de intervenções antes da ordem do dia.

Chan Hao Weng pediu às autoridades para “encararem as situações caóticas na gestão da Administração Pública e as dificuldades de trabalho dos docentes da linha da frente”.

O deputado entende que se deve “simplificar e eliminar os procedimentos desnecessários de autorização, para elevar a eficiência e facilitar a vida aos cidadãos”, ou ainda “optimizar o mecanismo de avaliação do desempenho do pessoal de chefia”.

Para Chan Hao Weng, “o mecanismo de avaliação do pessoal de direcção e chefia não passa de mera formalidade”, sendo “superficial, ignorando a eficácia e reputação junto dos cidadãos”. Existe, no seu entender, “falta de responsabilização” entre funcionários públicos, acabando por se “pressionar o pessoal da linha da frente e os problemas nunca são resolvidos”. O deputado entende que se devem “efectuar alterações a partir do nível superior, não se devendo criticar o pessoal da linha da frente”, chamando a atenção para o excesso de burocracia com que os docentes têm de lidar.

“Quanto às dificuldades dos funcionários públicos e professores, o problema não está na linha da frente, mas sim na gestão do superior: falta de rigor, acção e responsabilização. Peço ao Governo que ouça as vozes de todos, afira responsabilidades das chefias, corrija falhas, simplifique o fluxograma, alivie a carga da linha da frente e melhore a qualidade dos serviços públicos e da educação em Macau”, disse.

Docentes burocratas

Também o deputado Nick Lei chamou a atenção para os problemas analisados pelo CA, alertando para o facto de “os dirigentes dos serviços terem a responsabilidade indeclinável de acompanhar e resolver seriamente o problema, por forma a evitar a repetição dos mesmos erros”.

Nick Lei considera que devem ser divulgados “os resultados da correcção” dos problemas, “com vista a elevar a transparência da acção governativa”.

O deputado referiu uma das questões apontadas pelo CA, no que diz respeito “ao lançamento de novos projectos e serviços públicos”. Chama-se a atenção para o facto de o Executivo dever “adoptar novas soluções técnicas” que satisfaçam “requisitos básicos como a necessidade, viabilidade e a relação custo-benefício”, olhando ainda “os benefícios gerais da sociedade”.

Desta forma, Nick Lei entende que “há falta de razoabilidade e rigor na implementação dos trabalhos por parte dos serviços públicos, o que contraria o princípio da governação científica”.

20 Mai 2026

Nova lei possibilita criação de hospitais de dia para turistas

Os deputados aprovaram ontem, na especialidade, a proposta de lei relativa à “actividade das instituições privadas prestadoras de cuidados de saúde” que vem regular, entre outras matérias, a criação de hospitais de dia no território.

Vários deputados questionaram de que forma isso se pode coadunar com o sector do turismo e também com os serviços médicos já disponibilizados, tanto a nível público como privado. Ip Sio Kai disse que esta matéria diz respeito a “competências que não têm só a ver com os Serviços de Saúde”, destacando a necessidade de investimento para criar mais hospitais de dia em Macau.

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, declarou que “atrair investimento é um trabalho entre serviços” públicos, sendo que a proposta de lei ontem votada “permite a criação de hospitais de dia, existindo legislação suficiente e adequada”. “Temos recursos em termos de resorts, vantagens e atractivos para o exterior, e em conjugação com esses elementos conseguimos ter um destino adequado para esses tratamentos”, frisou.

Por sua vez, o deputado Leong Sun Iok argumentou que “Macau é uma cidade turística com vantagens geográficas” e questionou “como vai o Governo potenciar estas vantagens em conjugação com os recursos de turismo, a fim de criar um ambiente favorável para esta indústria”.

Já Song Pek Kei disse que os responsáveis do sector da saúde “estão preocupados quanto ao desenvolvimento do mercado privado”. A deputada entende que há “um desequilíbrio, porque muitas pessoas utilizam o hospital público [Centro Hospitalar Conde de São Januário] e o seu funcionamento enfrenta desafios, causando um conflito entre o sector público e privado”. “Há serviços especializados que podem ser realizados nos hospitais de dia e a população preocupa-se com a concorrência desleal”, disse.

Resultados a caminho

O Lam declarou que não existem motivos para preocupações, porque haverá “mecanismos estendidos aos hospitais de dia”, incluindo serviços de “telemedicina, terapias avançadas e serviços médicos de proximidade”. “Foi alargada a capacidade para dar mais prioridade ao sector”, adiantou a secretária. “Há uma complementaridade entre os dois sectores. No ano passado, fizemos um estudo sobre a complementaridade entre hospitais público e privado e vamos divulgar os resultados à sociedade e ao sector em causa. No hospital Macau Union, enquanto complexo hospitalar público, a meta é elevar os serviços médicos e curar doenças, e o hospital de dia é para ter determinadas especialidades”, explicou.

Relativamente à criação de Macau como destino de turismo de saúde, O Lam adiantou que “temos as nossas vantagens, e com a criação de hospitais de dia, também com o Macau Union, conseguimos ter uma maior plataforma para o sector”. “Entre o Macau Union e os hospitais de dia pode haver uma cooperação e vantagens para os dois”, disse, referindo que o Governo “aproveita da melhor forma as vantagens para incentivar o turismo e medicina, tendo a plataforma com os países lusófonos e da Ásia-Pacífico”, rematou.

20 Mai 2026

Tecnologia | Chui Sai Peng defende criação local de “robô polícia”

Chui Sai Peng acha que as forças policiais devem apostar mais nas novas tecnologias, sobretudo inteligência artificial, para criar um “robô polícia” com “características de Macau”. Enquanto isso, Leong Sun Iok alerta para os perigos da introdução de croupiers-robôs nos casinos

A ideia de criar em Macau um “robô polícia”, numa fusão entre as forças de segurança e as novas tecnologias, foi uma ideia defendida pelo deputado José Chui Sai Peng na sessão plenária de ontem da Assembleia Legislativa (AL), no período de intervenções antes da ordem do dia. “Tendo como referência as experiências positivas dos primeiros anos [de existência] da ‘mascote do trânsito’, que aconselhava os peões a atravessar legalmente as ruas, se for possível integrar mais tecnologia da Inteligência artificial e criar um ‘robô̂ polícia’ com características de Macau, tal elevará a eficácia da governação”, defendeu.

Mais concretamente, Chui Sai Peng citou o exemplo de cidades do Interior da China no uso da IA para “policiamento inteligente”, com recurso a “robôs-polícias de trânsito” no controlo do tráfego, na manutenção da ordem e no apoio turístico.

Chui Sai Peng entende que “Macau precisa de aprofundar a aplicação de cenários de inteligência artificial e tecnologia robótica, especialmente ao nível dos serviços públicos e gestão urbana”. Assim, para criar o “robô polícia”, poderiam ser convidados, pelas autoridades, “designers locais e operadores das indústrias culturais e criativas para participar no design de um ‘robô polícia’ com características próprias de Macau”.

Podem ainda, no entender do deputado, ser utilizadas “forças policiais inteligentes”, a fim de Macau poder integrar “o desenvolvimento nacional” e adoptar os exemplos de utilização de tecnologia que se verificam no interior da China.

Chui Sai Peng pede que sejam introduzidos “recursos financeiros para apoiar a investigação e desenvolvimento tecnológico”, em prol da “transformação de resultados e promoção de um ecossistema com orientação política e a participação da indústria”, em que haja “suporte académico e científico e ainda aplicação prática [de estudos e medidas]”.

Cartas na mesa

A recente realização em Macau da G2E Asia, uma das mais importantes feiras do sector do jogo, e o debate em torno do uso da IA e tecnologia nesta área, levou o deputado Leong Sun Iok a alertar, na AL, para os perigos do futuro uso de robôs nos casinos.

“Compreende-se que o desenvolvimento da IA é uma tendência geral que pode melhorar a vida humana e promover o desenvolvimento económico e social”, tendo também “desafios negativos”, como a necessidade de “reestruturação da estrutura da mão-de-obra, [questões de] ética social, a privacidade e a segurança, entre outros problemas estruturais de longo alcance”, alertou.

Leong Sun Iok citou dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos para indicam que até 2025 existiam em Macau cerca de 24 mil croupiers. Desta forma, a possibilidade de introdução de robôs para estas funções “vai afectar dezenas de milhares de famílias”. “É de salientar que, há vários anos, o sector promoveu a introdução de ‘croupiers robôs’, o que suscitou reacções dos trabalhadores, que manifestaram junto das associações sindicais a sua ‘preocupação’ e ‘oposição’, tendo o Governo respondido atempadamente a essa questão, dando confiança aos funcionários”, destacou.

Leong Sun Iok pede que o Executivo “continue a ter como objectivo a estabilidade social e a garantia da qualidade de vida da população, e encare seriamente os impactos estruturais provocados pela tecnologia”, devendo “manter restrições” à introdução de “‘croupiers-robôs’ pelas concessionarias do jogo, para garantir que estas funções são assumidas por trabalhadores locais, assegurando efectivamente o direito dos trabalhadores locais ao emprego no sector do jogo”.

20 Mai 2026

Tonan Quito, actor e protagonista de “Entrelinhas”: “Bem-dita a hora em que aceitei este desafio”

O Centro Cultural de Macau, apresenta hoje a primeira sessão de “Entrelinhas”, na edição deste ano do Festival de Artes de Macau (FAM). Trata-se de um monólogo escrito por Tiago Rodrigues de propósito para Tónan Quito, que em entrevista ao HM fala de um texto que é muito mais sobre a amizade do que propriamente sobre o processo da escrita

Vem a Macau com o “Entrelinhas”. Como se sente por apresentar esta peça num destino tão longínquo [em relação a Portugal, onde estreou em 2013]?

É uma grande honra ir ao festival e sinto-me perplexo com o convite, estou muito contente por ir. Há dois anos tive a experiência de ir ao festival de teatro de Aranya, no norte da China, e agora estou também muito curioso por estar perto de uma cultura diferente e perceber como é que o espectáculo pode ecoar junto a pessoas com uma cultura e maneira de estar completamente diferente da minha, ou no local onde o espectáculo foi criado, que é Portugal. Apesar de Macau ter uma influência histórica portuguesa, e neste sentido estou ainda mais curioso para saber como é que o público irá ver este espectáculo.

O público é sempre importante para todas as peças de teatro, mas nesta em particular, tratando-se de um monólogo, é importante perceber a relação com este texto, em particular?

Sim. Este é um espectáculo muito próximo do público, mesmo a nível físico. Estou mesmo em frente às pessoas, só a contar uma história, que é a história deste grande falhanço que foi fazer o que era suposto ser um espectáculo. E, neste sentido, [é um espectáculo] que pede uma grande proximidade e cumplicidade com as pessoas. Normalmente faço uma versão francesa para um público francês, mas eu compreendo a língua e as reacções, há um legado comum. Mas quando vamos assim, para fora, em que falo na minha língua, e certamente alguém poderá entender o português, mas muita gente não vai aceder ao português e terá de ler legendas, há outra dificuldade, que é eu comunicar esta história. É eu a comunicar-me a mim, como actor ali, naquela noite, numa maneira de estar diferente, que vai pedir empatia, uma escuta, a atenção das pessoas para aquilo que estou a fazer.

O que é que este espectáculo conta nas entrelinhas?

Nas “Entrelinhas” está uma história que, cada vez mais, vou percebendo é muito mais sobre amizade do que o espectáculo de um autor que tem de escrever para um actor. Acho que é uma história que fala muito mais sobre a nossa amizade [entre Tiago Rodrigues e Tónan Quito], sobre a amizade entre duas pessoas que se descobrem nos trabalhos que vão tendo, nos encontros que vamos ter, nos encontros com a família. Portanto, invocamos uma quantidade de gente para esta história, e o espectáculo acaba por ser uma maneira de eu e o Tiago estarmos juntos, mesmo não estando. Nas entrelinhas está isto.

Não é, portanto, um espectáculo focado no tal falhanço da escrita.

Não, mas isso é uma coisa que ando a descobrir, e que nós dois fomos descobrindo à medida que vamos fazendo o espectáculo. Em 2013, isso estava nas entrelinhas, nós é que ainda não tínhamos percebido que estava lá.

O texto foi escrito para si. Como foi o processo de preparação? Além disso, já passou algum tempo entre os tempos iniciais e esta apresentação agora no festival. Há um certo distanciamento, outro olhar sobre a peça?

Não. Continuo a descobrir ainda muito sobre aquilo que a peça é, e como é que faço isto. Isto porque tive mais ou menos um mês no processo de trabalho antes da peça começar, entre a escrita do texto, ensaiar e decorá-lo. Tudo foi feito num curto espaço de tempo. Na estreia não tive muita noção do que o texto era, até porque a minha filha nasceu três dias antes e a minha cabeça estava muito mais com ela do que com o texto. Mas acaba por ser engraçado, porque hoje em dia fazer este texto é reviver aquele dia e uma maneira de estar com ela, sem estar. Mas continuo a descobrir coisas no texto. Naquela altura [2013] fiz dez espectáculos, e no ano seguinte fiz mais dez, e desde 2021 que tenho feito cerca de dez espectáculos por ano, talvez mais [com o “Entrelinhas”], e vou sempre disponível para descobrir o texto outra vez. É sempre um trabalho muito activo, o descobrir o texto com as pessoas a quem o estou a contar, além de que a própria reacção das pessoas condiciona, às vezes, a maneira como o conto.

Este foi o seu primeiro monólogo. Como foi essa experiência de estar sozinho, em palco, pela primeira vez?

Já tinha feito um monólogo antes, mas era falso, porque tinha um manequim com quem falava, ele é que não respondia (risos). Era uma coisa pequena, com 15 minutos. Confesso que a sensação inicial não foi muito boa, confesso. Fazer monólogos não é uma coisa que me atraia muito, mas na altura o Tiago convenceu-me a fazê-lo e partimos. Mas depois, à medida que fui fazendo, percebi que é um falso monólogo, pois estou com as pessoas a contar isto, e já não estou sozinho. Depois vou utilizando muitas pessoas para serem os meus recompositores, na medida em que os uso como personagens do texto. Então, de certa maneira, é um monólogo cheio de personagens e de um mundo que invocamos para o palco. Percebo que não estou sozinho e torno-me um bocadinho mais suportável.

Porque é que não gosta tanto de fazer monólogos? Há um medo acrescido? Sente-se sozinho em palco?

É, gosto de estar com pessoas e colegas, gosto de ser provocado e responder às provocações. Gosto de contracenar, da acção, da reacção, da pergunta, da resposta, e de construir colectivamente um trabalho, um espectáculo. Claro que o espectáculo é feito lado a lado com o teatro, sempre, desde o primeiro momento. [O Entrelinhas] é uma co-criação, apesar de ter sido ele [Tiago Rodrigues] a escrever e depois eu a interpretar, mas foi sempre criado a dois. Portanto não estou bem sozinho.

Como é ter o Tiago Rodrigues, um encenador e dramaturgo premiado, a escrever para si?

Tenho muita inveja dele (risos). Estou a brincar, acho óptimo, e desejo-lhe sempre todas as felicidades, e é muito bom poder partilhar com ele este percurso. Ele influenciou muito a minha maneira de trabalhar, não só como actor, mas a ensinar também. Foi sempre uma partilha. Claro que o facto de estar a viajar com o “Entrelinhas” é muito à custa da pessoa que é o Tiago, que, de repente, é um nome apelativo, com um tipo de trabalho que interessa. Em boa hora o Tiago meteu na cabeça que queria escrever um monólogo para mim, e bem-dita a hora em que aceitei este desafio.

Ele tem mesmo este lado caótico da escrita, de deixar tudo para a última da hora?

Um bocadinho. Acho que já deve estar um bocadinho melhor, mas acho que continua a deixar um bocadinho para a última, pelo menos dos últimos relatos que ouvi.

Preparar um monólogo é mais difícil do que preparar uma peça?

Não. A dificuldade está lá sempre. É difícil fazer uma peça porque estar com outra pessoa em cena é sempre imprevisível, pelo menos na maneira como gosto de trabalhar. Obviamente que ensaiamos, combinamos regras, habituamo-nos à maneira do outro fazer, e vou-me descobrindo através do outro. Num monólogo só dependo de mim, estou disponível para me entregar e partilhar a história com as pessoas. Correndo bem ou mal, não há nada a fazer, começamos e acabamos, sou eu que controlo tudo. Mas, se calhar, até é mais difícil por causa disso, porque a responsabilidade é toda nossa, não é partilhada.

Recentemente protagonizou o filme “Soares é Fixe”, sobre as eleições presidenciais de 1986, em que interpretou o papel de Mário Soares. Como encara as diferenças de trabalhar em cinema, é mais desafiante do que em teatro?

São coisas diferentes. À medida que vou fazendo mais cinema vou percebendo que são maneiras de estar muito distintas [para um actor]. [Fazer cinema] é um trabalho muito mais isolado, não temos tanto tempo de preparação uns com os outros [os actores]. É também um trabalho de espera, de paciência, para depois se concentrar em cada “take”. Para mim, que estou mais habituado a fazer teatro, às vezes pode ser mais frustrante o facto de não haver logo uma reacção imediata ao que se acabou de fazer. É um bocado parecido com os ensaios, “Vamos repetir!”, se bem que está sempre a valer. Repito ali três ou quatro vezes uma cena e, às vezes, não há muito mais tempo para experimentar porque temos que passar para a cena seguinte. [Fazer cinema] é um trabalho de condensação muito grande, até porque não sabemos muito bem o que a câmara está a captar. Não tenho assim tanta experiência quanto isso, mas fazer um protagonista é bom, no sentido em que estamos lá muito tempo, é um mergulho muito grande na questão de estarmos sempre a filmar, e o poder fazer uma construção sobre o personagem e o plano de filmagens – quando é que se filma, e o que é que se filma. Às vezes anda-se muito para trás e para a frente, e, nesse sentido, é bom o trabalho dramatúrgico que se faz, e como é que nos comportamos em cada dia para poder activar o que é necessário para cada dia e cada cena.

Como se preparou para fazer de Mário Soares?

Foi um bocadinho assustador, até porque tive muito pouco tempo de preparação, desde o convite até começar a filmar. Basicamente o que fiz foi ler tudo o que podia, vi muitas entrevistas dele, para perceber como se comportava. Depois não íamos fazer um trabalho em que ficava igual ao Mário Soares, não era esse o objectivo, porque para isso teríamos de ter mais dinheiro. Para fazer um trabalho de reconstituição, com grandes caracterizações [de personagens], é preciso mais dinheiro que esta produção não teve. Era miúdo [nas eleições presidenciais de 1986], andava na escola primária e lembro-me perfeitamente. Mas fiquei a saber muito mais dele [no processo de pesquisa], mas não sobre a vida pessoal, até porque isso não me interessou, na altura, para a construção [da personagem]. [O trabalho de preparação] incidia mais sobre quem era este homem político e, sobretudo, perceber nas cenas em que falava quem estava atrás dos silêncios e do que se passava. Quis tentar desvendar ou revelar um bocadinho do que estava naquela cabeça, naquela noite [das eleições de 1986]. Foi uma eleição em que era o tudo ou nada. Aquele homem podia morrer politicamente ali ou então, pronto, nascer mais uma vez como Presidente [da República], que foi o que aconteceu.

19 Mai 2026

Parquímetros | Nick Lei quer notificação de multas por SMS

O deputado Nick Lei considera que o Corpo de Polícia de Segurança Pública deve rever o formato de tratamento das infracções rodoviárias, a fim de incluir nas notificações por SMS as multas nos parquímetros para melhorar a rotatividade no estacionamento

Nick Lei, deputado à Assembleia Legislativa (AL), interpelou o Governo quanto à necessidade de revisão, por parte do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP), da forma como são tratadas as infracções rodoviárias, a fim melhorar o sistema de tratamento das multas por tempo de estacionamento excessivo.

Segundo a interpelação, o deputado, ligado à comunidade de Fujian em Macau, destacou que o CPSP actualizou o formato de tratamento das infracções rodoviárias, mas excluiu as multas nos parquímetros. Essa actualização passou por uma renovação dos equipamentos para que os condutores passassem a receber SMS dez minutos após receberem uma multa. Tudo para remover os carros o mais depressa possível e, assim, escoar o fluxo de trânsito.

Porém, actualmente, “o serviço de notificação por SMS das infracções rodoviárias não inclui as infracções nos parquímetros de estacionamento, havendo grande diferença em relação às restantes situações de infracções”, destacou.

“Para que seja melhorado o mecanismo de notificações, e para que se aumente a rotatividade dos lugares de estacionamento na via pública, podem as autoridades pensar em incluir, no sistema de notificações por SMS, a infracção de não pagamento das tarifas de parquímetros, evitando-se assim custos sociais subsequentes?”, questionou.

Meios obsoletos

Além de pedir a notificação das multas por SMS, Nick Lei referiu que, no actual sistema de pagamento digital de multas por infracções rodoviárias, também ficaram de fora as infracções nos parquímetros de estacionamento.

“Após o carro ser bloqueado ou removido, os donos precisam de ir ao Departamento de Trânsito pagar a multa em numerário. Será que o Governo pode incentivar as empresas a proporcionarem meios de pagamento electrónico, a fim de responder à procura da sociedade?”, sugeriu.

De frisar que, no passado, o Governo justificou a exclusão das multas de estacionamento do sistema de notificações por SMS para não causar confusão nos infractores, destacando que, apesar de não informar os condutores por SMS, estes têm de cumprir a lei no que ao estacionamento diz respeito.

Para Nick Lei, a ausência de avisos por SMS faz com que os condutores se esqueçam do tempo de estacionamento pago, levando a situações ilegais com consequentes bloqueios de viaturas, perdas de tempo e de dinheiro. O deputado destaca também que esta situação leva a gastos de recursos do CPSP e impede a rotatividade de lugares de estacionamento.

19 Mai 2026

GP Consumo | Retalho com 60% de gastos no primeiro mês

A edição deste ano do Grande Prémio para o Consumo nas zonas comunitárias gerou, nas primeiras quatro semanas, gastos de cerca de 560 milhões de patacas, com 60 por cento do valor a ser direccionado para o sector do retalho. Governo diz ter sido registada maior adesão face ao ano passado

Dados ontem divulgados pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) revelam que a edição deste ano do Grande Prémio para o consumo nas zonas comunitárias gerou, no primeiro mês de implementação, mais de 560 milhões de patacas de consumo em negócios locais, tendo sido distribuídos quase sete milhões de cupões, um total de 6,947 milhões.

No que diz respeito aos sectores onde foram gastos estes cupões, destaca-se o retalho com 60 por cento dos gastos, seguindo-se a restauração com 30,6 por cento. No total, mais de 20 mil estabelecimentos comerciais, com espaço físico, no território estão abrangidos por este programa que visa incentivar o consumo local.

No primeiro mês de actividade do Grande Prémio de Consumo, registaram-se 3,492 milhões de transacções qualificadas para sortear cupões. A DSEDT chama a atenção para o facto de este montante representar “um aumento de, aproximadamente, quatro por cento face às 3,356 milhões de transacções registadas no mesmo período da edição anterior”.

Dos 6,947 milhões de cupões distribuídos, foram usados, no primeiro mês, mais de 118 milhões de patacas, com descontos imediatos em cartão no montante superior a 31 milhões de patacas.

Maior adesão

Segundo a DSEDT, a edição deste ano do Grande Prémio de Consumo registou um “aumento na taxa de utilização dos benefícios, com mais diferentes sectores beneficiados”. A taxa de utilização global, em termos de montante, “ultrapassou os 92 por cento, sendo a primeira vez que superou os 90 por cento desde o lançamento” da medida do Grande Prémio de Consumo.

Para o Executivo, tais dados significam que, “com o prolongamento do prazo de utilização” da medida, “os residentes conseguem planear melhor para fazer consumo com benefícios”. Desta forma, permite-se a utilização dos cupões não apenas no retalho, mas em “outros sectores de consumo imediato como a restauração, beneficiando assim mais diferentes sectores” económicos.

O Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias 2026 é da responsabilidade da DSEDT em conjunto com a Associação Comercial de Macau. Em termos gerais, deu-se “o crescimento no grau de participação dos residentes, de entusiasmo pelo consumo e de equilíbrio dos benefícios entre os diferentes sectores, em comparação com a edição anterior”.

Deu-se ainda um contributo ao estímulo do “consumo local durante os fins-de-semana”. Esta actividade prolonga-se até 18 de Junho.

19 Mai 2026

Função Pública | Governo diz que horas extra estão regulamentadas

Leong Weng In, directora dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP), garantiu que o cumprimento de horas extra na Administração está devidamente regulamentado, bem como o pagamento desse trabalho além do horário normal de expediente. A informação consta numa resposta a uma interpelação escrita do deputado Chan Hao Weng.

“O ETAPM [Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau] estabelece normas claras sobre o regime de disponibilidade para os trabalhadores dos serviços públicos”, sendo que cada serviço deve ter uma lista mensal de pessoal que fica em regime de disponibilidade, estando estes sujeitos a um subsídio.

Além disso, “os agentes das Forças e Serviços de Segurança recebem, mensalmente, uma remuneração suplementar”, tendo em conta a “natureza contínua e repentina das tarefas inerentes ao cargo”. Desta forma, a directora entende que existem “normas claras sobre a gestão do regime de disponibilidade dos trabalhadores dos serviços públicos e os respectivos subsídios e compensações”.

19 Mai 2026

Livro | Poemas de Maria Anna Tamagnini reeditados em Portugal

Foi lançada, no último sábado, a nova edição de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus”, livro de poesia de Maria Anna Tamagnini editado em 1925 e que revela muito sobre a presença da autora a Oriente e sobre a sociedade de Macau à época. Maria Anna era esposa do Governador Tamagnini Barbosa e uma mulher pioneira no seu tempo, destaca ao HM o editor, Henrique Levy

É com a chancela da N9na Poesia que acaba de ser editado, em Portugal, mais uma obra literária relacionada com Macau. Trata-se de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus”, livro de poesia de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, publicado originalmente em 1925. Maria Anna foi para Macau devido à nomeação do seu marido, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, como Governador do território, tendo aí contactado com a cultura chinesa e uma sociedade muito particular.

Segundo um comunicado da editora, trata-se de “uma obra singular no panorama literário português, marcada por uma imaginação orientalista rara e por uma sensibilidade poética que distingue a sua autora”.

A “recuperação e reedição” de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” justifica-se “pelo valor literário intrínseco da obra, pela singularidade da sua visão orientalista e pelo contributo que oferece para compreender as formas através das quais uma mulher escritora conseguiu afirmar a sua voz num contexto cultural marcado por fortes assimetrias de género”.

Desta forma, “esta nova edição procura restituir visibilidade a uma autora injustamente marginalizada pela historiografia literária e reinscrever a sua poesia no diálogo contemporâneo sobre cruzamentos culturais, sensibilidades e tradições poéticas”.

Ao HM, Henrique Levy, editor da obra e ex-residente de Macau, contou que esta edição está relacionada não só com a celebração do centenário da publicação do livro, em 2025, como se interliga ainda com outra edição, em inglês e chinês, editada pela Praia Grande Edições. A tradução ficou a cargo de Lian Zimo e Ian Watts.

“A poesia de Maria Anna Tamagnini tem um interesse muito especial porque é a única poetisa orientalista portuguesa”, começou por dizer. “O livro saiu em 1925, ela morreu em 1933 e não teve oportunidade de escrever outro. Ela esteve em Macau como primeira dama e em vez de se entregar somente a obras de caridade, conviveu com filósofos e poetas chinesas, participou em tertúlias e aprendeu a língua chinesa.”

O casamento com Artur Tamagnini Barbosa aconteceu muito cedo, quando Maria Anna tinha apenas 16 anos. Aos 19 anos, foi para Macau. “É importantíssimo este olhar feminino do Oriente, e este livro é muito revelador disso, sendo uma marca muito grande na literatura portuguesa”, acrescentou Henrique Levy.

Vida ceifada

Maria Anna Acciaioli Tamagnini nasceu em 1900, em Torres Vedras, e faleceu muito jovem por complicações de parto. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que viria a ser o seu marido, e com quem teve cinco filhos. Entre 1918–1919 e 1926–1930 viveu em Macau, nos mesmos anos de Camilo Pessanha, pelo que a sua escrita ganhou também algumas influências do Simbolismo, Parnasianismo e Orientalismo, se bem que Henrique Levy destaque “a afinidade” com a poesia de Florbela Espanca.

“Não há nada que nos prove que [Maria Anna Tamagnini] tenha conhecido a poetisa, mas a poesia sim, e tinha uma grande afinidade com ela”, mas sem a componente de tristeza que os poemas de Florbela Espanca têm. Ao invés disso, encontramos “denúncia e observação do papel da mulher”.

Nos poemas de “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” encontramos escritos sobre a vida das mulheres, mas também “sobre os jardins, a música, a envolvência oriental que, para ela, era uma novidade”. “Todo o espanto, a organização social, as casas de ópio, sempre com uma visão um pouco crítica em relação à sociedade oriental em que se foi inserir”, acrescentou.

Maria Anna Tamagnini teve o privilégio de, como mulher, ter estudado, sendo que o casamento lhe permitiu ter contacto com um novo mundo oriental. Henrique Levy destaca a empatia que Maria Anna Tamagnini teve em relação ao que lhe era desconhecido: a cultura chinesa.

“Ela fazia tertúlias com intelectuais chineses, poetas e filósofos, no Palácio de Santa Sancha. Falava com eles em chinês e interessava-se muito [por esse mundo], e o que estou a dizer é muito importante, porque representa a empatia pelo outro, não é? Falamos de uma mulher que vai daqui para o Oriente, e em vez de ter tido um papel simplificado e cómodo de primeira dama, vai interessar-se por uma outra cultura, pelo outro, pela sua língua. Não só há uma aceitação, como uma busca, uma procura por ‘Onde é que eu estou, quem são estas pessoas, que cultura transportam?'”, frisou o editor.

História ainda não é delas

Henrique Levy considera que a forma como a história dos Descobrimentos portugueses tem sido contada deixa para segundo plano os portugueses que tentaram perceber o outro, a sua língua e cultura. Maria Anna Tamagnini é só mais um exemplo, a que se junta o do jesuíta Francisco de Pina, que aprendeu vietnamita e “fixou a língua vietnamita que se escreve hoje”, ou Bento de Góis, nascido em 1562 nos Açores e foi o primeiro europeu a percorrer o caminho terrestre da Índia para a China, através da Ásia Central.

“O papel dos portugueses nem sempre foi o de Afonso de Albuquerque e de outros sanguinários. Mas o que a história faz foi limpar aqueles que tiveram outro tipo de papel e que foram ao encontro do outro, que sentiram empatia, que se tentaram integrar no outro, que não forçaram a sua língua, a religião, os hábitos culturais. Maria Anna Tamagnini não foi a única.”

Reeditar “Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus” é também importante para dar destaque a mais uma mulher na poesia portuguesa. “Há muitas Maria Anna esquecidas na literatura portuguesa, que é altamente misógina e patriarcal. A literatura portuguesa põe praticamente a mulher de lado. Esquece-a, tanto no século XIX como XX. Mesmo no século XXI, muitas vezes, as mulheres não têm a mesma projecção, e não é só na literatura. A mulher é ostracizada em grande parte das actividades”, considerou.

18 Mai 2026

Auditoria | Sugerida fiscalização de prédios devolutos de Macau

O relatório do Comissariado de Auditoria de 2025 sugere que o Executivo estude a gestão e utilização dos imóveis devolutos da RAEM, defendendo uma “dinamização activa” de soluções. Foram ainda apontadas falhas nos recursos humanos públicos

O Comissariado de Auditoria (CA) sugere, no relatório de actividades relativo a 2025 divulgado na sexta-feira, que o Governo deve estudar melhores possibilidades de utilização e gestão dos imóveis devolutos da RAEM. É sugerido que “serviços e entidades públicos promovam o aproveitamento adequado dos imóveis devolutos, procedendo a um estudo e análise abrangentes do [seu] estado”, a fim de “promover o interesse público”.

Devem ser elaboradas, neste contexto, “soluções viáveis para promover a adequada utilização”, destes imóveis, além de que os serviços públicos “devem rever e optimizar o mecanismo de inspecção e manutenção, estabelecendo directrizes e uma periodicidade de inspecção adequadas”.

O Executivo deve assegurar, segundo o CA, “que as inspecções aos imóveis devolutos sejam realizadas em tempo útil e que as deficiências sejam detectadas prontamente”. É sugerida a realização de “registos das inspecções para monitorizar a evolução das situações identificadas”, além de dever ser feita uma “revisão global do mecanismo de manutenção vigente”.

Para o CA, as casas ou edifícios devolutos “que apresentem sinais de degradação” devem ser avaliadas por “técnicos qualificados”, devendo ser adoptada pelas autoridades “uma postura proactiva e de efectiva assunção de responsabilidades, de modo a que o erário, recursos e activos públicos sejam utilizados de forma mais eficiente”.

Estruturar a casa

No mesmo relatório descreve-se como o volume de trabalho não está bem distribuído na Função Pública, traduzindo-se em irregularidades em matéria de recursos humanos.

No ano passado foram emitidos pelo CA seis “relatórios de observação”, tendo-se concluído que “os serviços de menor dimensão apresentam uma proporção comparativamente mais elevada de pessoal de apoio”, registando, “em alguns casos, uma redução significativa do volume de actividade, decorrente da evolução social e tecnológica, a dispersão das suas funções por outros serviços, ou ainda uma elevada afinidade funcional com funções de outros serviços”.

Há, portanto, o que o CA chama de “disfunções sistémicas”, com o “subaproveitamento do pessoal de apoio, aumento da duplicação de investimentos em recursos e o agravamento dos custos administrativos inerentes à articulação interdepartamental”.

Assim, pede-se que o Governo faça uma “ponderação abrangente da situação”, apostando na “centralização” de serviços e a “racionalização da dotação de pessoal nos serviços com menor âmbito de atribuições”.

Há ainda “diversas subunidades orgânicas que apresentam uma dotação de recursos humanos manifestamente desproporcionada face ao respectivo volume de actividade”. Na prática, o que se verifica é uma “excessiva compartimentação das funções”, que “densifica a estrutura orgânica dos serviços e onera os custos de comunicação e de gestão, com reflexos na eficiência e eficácia do seu funcionamento”.

O CA verificou, na sua análise, que existe “sobreposição de funções entre subunidades orgânicas com reduzido efectivo”, pelo que se aconselha o Governo a fazer um “estudo aprofundado sobre a distribuição de competências, a estrutura orgânica e a dotação de pessoal na Administração Pública”. Deve também ser realizada “uma reapreciação da necessidade, economicidade e eficácia da criação e manutenção de subunidades orgânicas com reduzido número de efectivos”.

18 Mai 2026

Comércio | Martins da Cruz acha que Espanha condiciona “exclusividade de Portugal”

O antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz considera que a “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade que Portugal desfrutava em Macau”, alertando para a necessidade de as autoridades portuguesas terem mais presença na RAEM

Foi na palestra “Oriente e Ocidente – o Mundo em 2026”, que decorreu na sexta-feira em Lisboa, que o antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz deixou um alerta para o crescente peso que a Espanha está a ganhar no relacionamento com a China e, consequentemente, com Macau.

“Em Macau e na ilha de Hengqin todas as associações e institutos que conheço tinham como objecto o comércio e relações económicas entre a China e países de língua portuguesa, e agora em todos foi acrescentado Espanha, ou países de língua espanhola”, referiu no evento promovido pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda (ANRS).

“Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade de que Portugal desfrutava em Macau”, acrescentou António Martins da Cruz, falando da mais recente visita oficial de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, a Portugal e Espanha.

“Desde Dezembro de 1999 que há uma tradição do Chefe do Executivo de Macau vir a Lisboa na primeira viagem que faz, mas, pela primeira vez, depois de Lisboa, foi a Madrid, onde até ficou mais umas horas do que tinha estado em Lisboa.”

À margem destas declarações, António Martins da Cruz disse ao HM que não acredita, porém, que haja uma grande mudança ou transição a curto prazo no relacionamento entre Macau e Portugal, com Espanha pelo meio. Mas o que é certo é que o país “passou a estar ao mesmo nível de Portugal sem nunca ter estado em Macau”, defendeu, referindo-se ao papel na administração do território e histórico que Portugal detém.

“Portanto, é uma coisa que pode afectar as empresas portuguesas”, frisou o responsável, que acredita que as autoridades de Macau, com este novo cenário, “estão contentíssimas, porque é mais um interlocutor”. No caso de Portugal, o que deve fazer para contornar esta questão é “intensificar as relações e aproveitar melhor Macau como plataforma, dando mais importância a Macau, e levando lá mais membros do Governo”.

António Martins da Cruz, que preside ao conselho de administração da OVIA – Oeiras Valley Investment Agency, tem sido, ele próprio, presença frequente na RAEM, declarando que vai novamente a Macau em Junho “com o secretário de Estado da Economia da Madeira”. “A Madeira interessa-se por Macau. Vou na qualidade de presidente da assembleia-geral da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira”, explicou.

Aproveitar a Grande Baía

António Martins da Cruz entende que “as empresas portuguesas devem aproveitar melhor a plataforma de Macau para o mercado da Grande Baía, que tem cerca de 80 milhões de habitantes e mais de 25 por cento do PIB [Produto Interno Bruto] chinês”, sendo “a zona mais rica da China”.

Porém, não deixou de destacar limitações no mercado interno de Macau. “Infelizmente, chegamos a Macau e nem há distribuidores de vinho e cerveja. E não há por uma razão: há 20 anos, os macaenses faziam isso e é preciso encontrar chineses que façam isso agora. Chegamos a Macau, e além do Banco Nacional Ultramarino e de dois ou três bancos, o que há? Três ou quatro empresas só. E temos de encontrar as nossas empresas e saber aproveitar as coisas, e daí partirmos para a Grande Baía.”

Não ouvir Bruxelas

Na sessão de sexta-feira não faltaram algumas farpas ao posicionamento que a União Europeia (UE) tem tido no relacionamento com a China, incluindo Portugal. “Esperemos que a UE ouça mais vezes as vozes do entendimento necessário e útil com a China ao invés de alguns que chegam, às vezes, de instituições de Bruxelas, para não dizer o nome do Parlamento Europeu, que por vezes dificultam o diálogo e acordos.”

António Martins da Cruz destacou que a “Europa tem, neste momento, outras preocupações e, sobretudo, uma indefinição total” em matéria de política externa. “A aproximação com a China passa por uma definição de políticas externas, mas não nos podemos esquecer do seguinte: temos 27 países na UE e, provavelmente, há seis ou sete que têm políticas externas. Os restantes têm políticas regionais”, destacou.

Martins da Cruz destacou “hesitações da Europa nas relações com a China”, relatando o exemplo de 2019, quando a UE, “por proposta da Comissão Europeia, aprovou uma posição estratégica, definido a China de três maneiras: um parceiro para a cooperação económica e negociação, um competidor económico e um rival sistémico”. “Ou seja, cabe quase tudo nesta indefinição propositada”, frisou, considerando que “continuaram as hesitações” em relação à China, sem se terem definido nunca “os riscos concretos” do relacionamento com o país.

Tal permite, na visão do antigo embaixador e ministro, “que cada um dos 27 Estados-membros definam, eles próprios, qual o conceito e critério de risco” neste relacionamento.

António Martins da Cruz entende que o caso da Huawei e da rede 5G, e o facto de ter merecido “diferente tratamento de diferentes países europeus é exemplo de que a Europa tem concepções diferentes de risco com a China”. “Até pensamos que algumas instituições em Bruxelas se esquecem que o comércio entre a UE e a China representa 29,6 por cento do comércio global e que a Europa importa da China 500 milhões de mercadorias por ano. Para termos uma ideia, o comércio entre a Europa e a China são 2 milhões por minuto. Se estivermos duas horas fechados nesta sala, o comércio entre a Europa e a China é de 240 milhões de euros. E há muitas capitais da Europa que têm tendência a esquecer isto.”

No contexto dos 27 países que fazem parte da UE, “Portugal tem todas as condições para ser o criador de dinâmicas positivas e aproveitando melhor a plataforma de Macau”, além de “facilitar investimentos chineses e reforçar as nossas linhas de comércio e de exportações para a China”.

O antigo embaixador lembrou ainda o facto de Portugal ter sido “um dos poucos países da UE que assinou com a China, na última visita do Presidente Xi Jinping, um memorando sobre a participação de Portugal na Nova Rota da Seda”.

Martins da Cruz realça estratégias de longo-prazo de Pequim

A conferência protagonizada por António Martins da Cruz aconteceu no mesmo dia em que terminou a visita à China do presidente norte-americano Donald Trump. O antigo embaixador defendeu que serão necessários “alguns dias ou semanas para ler os sinais dos resultados dessa visita”, devendo o relacionamento entre os Estados Unidos da América (EUA) e China ser analisado “sob os prismas estratégico, político e económico”.

“São duas das maiores superpotências que tentam, cada uma, ter uma zona de influência e de espaço na construção de forças armadas que sejam globais nos chamados países do Sul e nos BRICS, tendo uma influência em África, Médio Oriente e América Latina.”

“É no domínio das relações económicas, sobretudo no comércio e investimento, o resultado mais positivo e visível desta cimeira em Pequim”, declarou. “Os 30 empresários americanos que foram na comitiva do Presidente e que representam as maiores empresas dos EUA e do mundo, não irão, certamente, regressar de mãos vazias”, acrescentou.

Nada é novo

Para Martins da Cruz, “não houve, nem em 2026 nem nos anos anteriores, nenhuma súbita crise que fosse inédita”, referindo que, no caso do conflito do Médio Oriente, “a China defende o petróleo do Irão, que representa 13 por cento do total das importações chinesas, mas tenta preservar a sua disponibilidade diplomática e as boas relações que tem com a Arábia Saudita, com os Emirados [Árabes Unidos]”.

Sobre a crise no Médio Oriente ou até a posição face a Taiwan, Martins da Cruz acredita que “a China não vai, seguramente, alterar as suas posições conhecidas, porque a diplomacia chinesa tem tempo, ao contrário da generalidade das diplomacias ocidentais, que têm os quatro anos entre cada eleição”.

“O caso de Taiwan que foi sublinhado por Xi Jinping só para recordar aos EUA que Taiwan está incluído no conceito de uma só China que os EUA, tal como a UE e Portugal, aceitam. É curioso, porque nós aceitamos [Portugal] o conceito de uma só China, mas depois recusamos aceitar que Taiwan faça parte da China. Sabemos muito bem que, em 1986, quando a China começou a negociar connosco a transferência de Macau, foi-nos dito claramente que a transferência de Hong Kong e de Macau era para dar um exemplo a Taiwan.”

Há, no seu entender, “uma ambiguidade estratégica de Washington” dado que “pode fornecer armas a Taiwan, mas se houver um ataque, não pode ir defendê-la”. “Isto é que é ambiguidade estratégica, e parece que as pessoas têm medo de dizer isto”, rematou.

Ainda em relação a Taiwan, Martins da Cruz adiantou que “até 2049 a China vai integrar” o território por se tratar “do centésimo aniversário da revolução que criou a República Popular da China”.

18 Mai 2026

Tribunal reduz pena a homem em caso de violência familiar

O Tribunal de Segunda Instância (TSI) reduziu a pena a um homem por violência em contexto familiar contra o seu pai e filho, portador de deficiência mental e diversos problemas do foro mental. Segundo o acórdão do TSI ontem divulgado, o homem tinha sido, na primeira instância, condenado a uma pena de prisão efectiva de três anos pelos crimes de violência doméstica contra o filho e ainda de ofensa qualificada à integridade física do seu pai. Porém, após recurso do acusado, este passa a ter uma pena suspensa de dois anos de prisão.

O filho deste homem nasceu em 1994 e, segundo o acórdão, a relação entre eles sempre foi “extremamente afastada e hostil”, sendo que o rapaz, “desde a infância, foi frequentemente agredido e repreendido”, tendo sofrido “maus-tratos por longo tempo”. Foi posteriormente “diagnosticado com depressão persistente, perturbações de ansiedade e transtorno de personalidade borderline, sendo portador de deficiência mental ligeira”.

Registou-se um primeiro caso de agressão entre pai e filho na noite de 22 de Novembro de 2023, quando o rapaz destruiu “objectos depois de ter consumido álcool em casa”, sendo que por volta da uma da manhã o pai voltou a casa, repreendendo o filho, e aí houve uma troca de empurrões entre os dois.

O TSI descreve que o homem “deu várias bofetadas e socos na cara” do filho, além de o ter “pressionado no chão, causando-lhe contusões na cara, e fracturas do osso nasal e da parede anterior do seio maxilar direito”. O rapaz precisou de “um mês para recuperar”.

Mas este homem bateu também no seu pai na manhã do dia 29 de Fevereiro de 2024, em casa. O TSI descreve como o “socou na boca com o punho direito, fazendo com que os dentes na parte direita da mandíbula se soltassem e precisassem de ser extraídos com sutura”.

O pai deste homem “necessitou de cinco dias para recuperar”, tendo recusado depor na audiência no Tribunal Judicial de Base (TJB). Porém, “no dia dos factos, descreveu à polícia, em pormenor, a agressão, exigindo a efectivação da responsabilidade penal”, lê-se.

Sem violência doméstica

O agressor apresentou recurso da decisão dizendo que o TJB decidiu a pena “apenas com base no único depoimento do seu filho, portador de deficiência mental, que tem um mau relacionamento com ele, sendo insuficiente a prova”. Além disso, argumentou que agrediu o pai “por mera negligência, pedindo a convolação do crime ou a concessão da suspensão da execução da pena”.

No caso da agressão do homem ao filho, o TSI destacou “ser verdade” que o homem o “agrediu, repreendeu e maltratou por longo período de tempo desde a infância”, mas a Lei de prevenção e combate à violência doméstica entrou em vigor em 2016, “altura em que o primeiro ofendido [o rapaz] já perfazia 22 anos de anos, atingindo a maioridade”.

Destaca-se que “as provas existentes eram insuficientes para comprovar que desde a entrada em vigor da referida lei, até à ocorrência dos factos, em 2023”, o homem tinha “continuado a infligir maus-tratos que constituíssem o crime” de violência doméstica, pelo que o TJB, no entender do TSI, “aplicou erradamente” dois artigos da legislação sobre violência doméstica.

Desta forma, o homem recebeu a condenação de dois anos de prisão, suspensa na sua execução por um período de três anos, pela prática de dois crimes de ofensa qualificada à integridade física, retirando-se o quadro jurídico de violência doméstica.

15 Mai 2026

Studio City cria programa de apoio para cineastas emergentes

O Studio City, da operadora Melco Resorts & Entertainment, associou-se à plataforma global de curtas-metragens criativas NOWNESS para criar um programa de apoio a novos realizadores. Chama-se “Macau 8 Minutes”, está aberto a realizadores de todo o mundo e aceita candidaturas até ao dia 14 de Junho.

Segundo uma nota do Studio City, o programa tem base em Macau, mas com uma perspectiva internacional, e foi concebido no passado mês de Dezembro “para assinalar o décimo aniversário do Studio City”. O objectivo é “apoiar uma nova geração de cineastas, incentivando-os a reinterpretar a cultura de Macau através de perspectivas contemporâneas e de uma linguagem cinematográfica inovadora”.

O “Macau 8 Minutes” lança o desafio a novos criadores para criarem obras que combinem “o espírito da cidade e a sua expressão pessoal numa duração breve”, convidando à submissão de “propostas originais de curtas-metragens inspiradas em Macau e filmadas na cidade, explorando a sua identidade cultural única”.

Serão escolhidos “três cineastas emergentes”, sendo que cada um irá receber em financiamento de 250.000 renminbis para produzir uma curta-metragem, com um máximo de oito minutos, filmada em Macau. Os candidatos devem submeter online uma proposta completa de projecto de curta-metragem através do site oficial “Macau 8 Minutes”.

Um certo conceito

Segundo o Studio City, há uma simbologia em torno do número oito, já que “não representa apenas uma abordagem disciplinada ao ritmo narrativo; mas também faz referência à icónica roda-gigante em forma de oito do Studio City, a Golden Reel, um símbolo único que liga imaginação e realidade e permite que a alegria se renove continuamente”.

Além disso, os oito minutos incorporam “a tensão artística do cinema”, com a ideia de se poder “criar possibilidades infinitas e encanto duradouro dentro de um enquadramento limitado”.

Além do montante atribuído, “o programa oferece apoio completo e integrado, permitindo que as ideias ganhem forma num contexto real”, sendo ainda convidados “três conceituados cineastas asiáticos com perspectiva internacional para formar um painel de mentores e júri, participando no aperfeiçoamento criativo e oferecendo orientação durante as filmagens dos projectos selecionados”.

Será anunciada uma lista de mentores, com os quais “os jovens cineastas seleccionados poderão não apenas desenvolver os seus projectos, mas também aperfeiçoar a sua linguagem cinematográfica e abordagens criativas com maior precisão e impacto”.

Por sua vez, a NOWNESS disponibiliza “gestão de produção estruturada e apoio criativo internacional”, trazendo uma “visão curatorial global e perspectiva editorial para reforçar a identidade cultural e o alcance do programa”.

Os projectos seleccionados serão anunciados em meados de Julho de 2026, seguindo-se a fase de desenvolvimento criativo e produção. As três curtas-metragens concluídas vão estrear no Studio City em Dezembro deste ano.

15 Mai 2026

FAM | Companhia de teatro de Hong Kong apresenta musical “A Noite Estrelada”

O cartaz deste fim-de-semana do Festival de Artes de Macau apresenta um musical de uma das mais conceituadas companhias teatrais de Hong Kong, a Família de Actores, precedido de uma conversa com o encenador e dramaturgo, Bee Wan. Outra proposta musical para o fim-de-semana é o espectáculo “1014 – Nanyin x Jazz”

O cartaz deste fim-de-semana da 36ª edição do Festival de Artes de Macau (FAM) tem tudo para atrair fãs de musicais apresentados em palco. “A Noite Estrelada” sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) hoje, às 20h, e amanhã, às 15h, revelando “inesperados laços de ternura”. A peça é produzida pela “Família de Actores, uma das “principais companhias de teatro musical de Hong Kong”, descreve a organização do festival.

O público pode assistir “a uma viagem emotiva repleta de risos e lágrimas”, centrando-se na história de “um homem desiludido e uma artesã de Foshan, cujos caminhos se fundem”.

“Após um mal-sucedido primeiro encontro, desenrola-se uma história que aborda laços familiares, amor e identidade cultural. Inesperadamente, um par de estatuetas de cerâmica de Shiwan revela uma ligação há muito perdida entre irmãs a viver em cidades diferentes, levando o público a reflectir sobre o significado de ‘lar'”, descreve-se ainda.

O actor e cantor Hubert Wu protagoniza este musical, que “combina a tradição artística de Foshan com uma narrativa notável e melodias comoventes”. A dramaturgia está a cargo de Matthew Cheng, com encenação e adaptação de Bee Wan, que hoje dará uma palestra sobre o espectáculo, entre as 19h e 19h30, no CCM.

Segundo a programação do FAM, será partilhada a “trajectória criativa” de Bee Wan nesta sessão, incluindo o facto de “A Noite Estrelada” conter “elementos culturais de Lingnan na peça”, que também integra “formas tradicionais como a cerâmica de Shiwan e ópera cantonense, num cenário de teatro musical contemporâneo”. Bee Wan é encenador residente na companhia Família de Actores e é formado pela Academia de Artes Performativas de Hong Kong.

A China aqui tão perto

Há mais teatro para ver este fim-de-semana no FAM. No sábado, às 19h45, e domingo, às 14h45, o pequeno auditório do CCM acolhe “1014 – Nanyin x Jazz”, pela companhia Teatro Estúdio Tang Shu-wing, tido como “um dos encenadores chineses mais dinâmicos e criativos da sua geração”, segundo o Courrier International. Os bilhetes para os espectáculos custam entre 300 e 400 patacas.

Aqui revela-se a Nanyin “como uma forma de arte ancestral longínqua, cujo repertório e prática remontam a vertentes da música chinesa antiga”. Neste contexto, a Nanyin cantonense “emergiu como um estilo musical distinto, tendo prosperado no Sul da China a partir de finais da dinastia Qing”. Na mesma época, mas do outro lado do mundo, em Nova Orleães “o jazz ganhava proeminência”.

“Apesar das suas raízes distintas, tanto a Nanyin como o jazz funcionam como genuínas expressões de arte popular, captando emoções através de narrativas melódicas”.

Esta peça relata um pouco deste percurso musical, tendo estreado há dois anos. A história centra-se “num casal que se submete a uma experiência transformadora ao implantar um chip para apagar uma memória difícil, substituindo-a por uma agradável vivência artificial”. Acontece que “surge uma situação desestabilizadora” que leva os protagonistas a ter de solucionar o problema de uma forma diferente. A peça visa ainda “explorar a forma como gerações de artistas chineses têm expressado esperanças e incertezas através destas sonoridades”, ou seja, o Jazz e a Nanyian.

Jim Hui é o dramaturgo deste projecto, enquanto que Tang Shu-wing é responsável pela encenação e direcção artística. Daniel Chu é o director musical, compositor e letrista. Os intérpretes são Yuen Siu-fai e Ashley Lin.

15 Mai 2026

Saúde | Pedida supervisão do uso de apoios em Guangdong

O deputado Wong Chon Kit, ligado à área da saúde, entende que deve ser garantida a supervisão da nova medida que estende os vales de saúde da RAEM à utilização na província de Guangdong. O responsável defende um mecanismo de cooperação para o plano anunciado esta semana

Wong Chon Kit, deputado à Assembleia Legislativa (AL) ligado ao sector da saúde, defende ser necessária a criação, por parte do Governo, de um mecanismo de cooperação com as autoridades do interior da China para supervisionar a utilização dos vales de saúde na província de Guangdong. Trata-se de uma medida anunciada esta semana, relativa à nova ronda do Programa de Comparticipação nos Cuidados de Saúde, que começa em Junho.

Em declarações ao jornal Ou Mun, o deputado entende que a cooperação entre Macau e Guangdong deve incluir partilha de informações, inspecções em clínicas aderentes ao programa e uma operação conjunta da aplicação das leis. Devem ainda ser utilizadas tecnologias da informação a fim de prevenir infracções.

O deputado, que também é dentista, argumentou que, este ano, o montante subsidiado pelo programa é de 520 milhões de patacas, devendo ser garantido um uso adequado do erário público, sendo esta uma responsabilidade fundamental do Governo. É por isso que Wong Chon Kit falou ao jornal chinês da necessidade da eficácia da supervisão entre territórios e departamentos públicos das duas regiões. Isto porque, caso haja muitas infracções ou falhas no programa, tal afecta de forma directa a credibilidade do programa, bem como o ambiente empresarial do sector da saúde.

Mudança competitiva

Na visão de Wong Chon Kit, uma vez que os residentes da RAEM podem começar a tratar a sua saúde nas instituições médicas de Guangdong com os vales de saúde, tal implica uma mudança de competitividade no sector, pois haverá desvio de doentes de Macau para a China.

Wong Chon Kit considera, no entanto, que as clínicas de Macau mantêm algumas vantagens tendo em conta a sua localização, conveniência que proporcionam e a língua, sendo importante continuar a melhorar os serviços a fim de assegurar a continuidade destas vantagens.

O deputado deixou elogios à utilização dos vales de saúde na província vizinha, algo que, no seu entender, permite a continuidade dos objectivos do programa, nomeadamente o alívio da pressão no sistema de saúde público e a promoção de parcerias público-privadas.

Além disso, o legislador recordou que os médicos de Macau que participam no programa podem aceitar vales de saúde em Guangdong se trabalharem em 21 instituições médicas previstas no programa. Wong Chon Kit defende que a medida proporciona um novo meio de desenvolvimento para os médicos, sobretudo os mais jovens, dando ainda apoio às marcas da área da saúde de Macau e proporcionando-se um alargamento de serviços na zona da Grande Baía.

15 Mai 2026

Cimeira Xi-Trump | Analista destaca a tentativa de evitar a escalada de conflitos

O HM convidou o analista e especialista em assuntos da China, Jorge Tavares da Silva, a comentar a visita de Donald Trump à China. O professor da Universidade da Beira Interior entende que, nestes dias, “a China vai aproveitar a oportunidade de diálogo para cooperar, estudar a posição norte-americana e defender o seu próprio posicionamento”, sendo que esta cimeira é como as “conversas de um casal em fase de divórcio, mas que ainda precisa de falar”. Serve, sobretudo, “para acertar posições e, sobretudo, evitar a escalada de um conflito entre os dois lados”, adiantou.

“Em cima da mesa estão temas como ajustamentos no domínio comercial, o acesso a terras raras e a venda de semicondutores avançados, bem como a eventual criação de um ‘conselho do comércio’ e a redução — ou pelo menos não aumento — de algumas tarifas. Os dois países procuram, acima de tudo, gerir a tensão sem a agravar, num equilíbrio cada vez mais frágil entre competição e interdependência”, considerou Jorge Tavares da Silva.

Neste contexto, Trump “poderá precisar de apresentar algum resultado com impacto interno, capaz de atenuar a onda de descontentamento e reforçar a sua posição política doméstica”, defendeu.

Agenda Médio Oriente

Entretanto, e relativamente ao conflito no Médio Oriente, que tem gerado uma crise energética mundial e tensões no Estreito de Ormuz, “não se espera nada de substancial”. Na visão de Jorge Tavares da Silva, “parte do envolvimento dos Estados Unidos no Médio Oriente pode trazer vantagens para a China”.

“Os Estados Unidos reduzem o seu envolvimento e atenção no espaço asiático, o que é favorável a Pequim. A posição chinesa deverá manter-se na sua linha habitual: defesa da paz, apelo ao fim das hostilidades e ao entendimento entre as partes, ao mesmo tempo que mantém um apoio informal ao Irão enquanto parceiro estratégico”, disse ainda.

Na mesma altura da visita de Trump à China foi lançado o relatório “Achievements, Opportunities, and Prospects of China-Arab Cooperation in the New Era” [Conquistas, oportunidades e perspectivas da cooperação entre a China e os países árabes na nova era], por parte do Xinhua Institute, um “think-tank” ligado à agência Xinhua.

Num comunicado divulgado esta quarta-feira a propósito deste documento, lê-se como o país pretende “construir uma comunidade China-Árabe com um futuro partilhado na nova era promovendo a cooperação em vários domínios”, isto desde que se realizou, em 2022, a primeira Cimeira China-Estados Árabes.

Tendo em conta o actual desenvolvimento tecnológico, a China diz estar “a trabalhar activamente com os Estados árabes para promover projectos de cooperação emblemáticos em áreas relacionadas com a inovação”, lê-se no relatório.

Fragilidades e cedências

Tendo em conta outro tópico da agenda desta cimeira – a questão de Taiwan – Jorge Tavares da Silva adiantou que face à “posição relativamente fragilizada de Donald Trump nesta deslocação, em parte devido ao seu envolvimento no conflito no Irão”, poderão ocorrer “margens de cedência à China em algumas matérias”.

Uma das áreas onde pode haver cedências será “a questão da venda de armamento a Taiwan, caso seja possível obter contrapartidas noutros domínios, como o acesso a terras raras, um eventual recuo ou abandono do programa nuclear iraniano, ou o aumento das compras de produtos norte-americanos”.

“Trata-se, no entanto, de um quadro marcado por elevada imprevisibilidade na postura dos Estados Unidos, o que impede excluir, à partida, possíveis ajustamentos na abordagem à questão de Taiwan”, concluiu o analista.

15 Mai 2026