Andreia Sofia Silva EventosLetras&Companhia | Peça de teatro “A Revolta dos Lusecos” este sábado A Sílaba – Associação Educativa e Literária juntou-se ao festival “Letras&Companhia” e apresenta no sábado a peça de teatro “A Revolta dos Lusecos”, escrita por Carlos Alberto Silva e interpretada por 14 crianças. A peça tem como pano de fundo o 25 de Abril e o fim do Estado Novo O universo da revolução do 25 de Abril será o ponto de partida de um evento do festival de literatura infantil “Letras&Companhia”. Trata-se da peça “A Revolta dos Lusecos”, da autoria de Carlos Alberto Silva, e que será interpretado por 14 crianças através de um trabalho de encenação da Sílaba – Associação Educativa e Literária. Segundo o programa do festival, a peça faz uma “abordagem lúdica e participativa” dos “acontecimentos marcantes do 25 de Abril de 1974”, utilizando “a narrativa literária como ferramenta de mediação histórica”. Com esta peça, os programadores do festival esperam “sensibilizar o público mais jovem para os valores da liberdade e da cidadania, transformando a leitura numa experiência viva e partilhada em palco”. A peça será apresentada no IPOR a partir das 18h. Ao HM, Susana Diniz, presidente e fundadora da Sílaba, disse que surgiu a oportunidade de apresentar esta peça em Macau dado o autor ser amigo da associação. Além disso, “A Revolta dos Lusecos” foi “o primeiro a sair na ‘Dinis Caixapiz’ em 2024”, que é “uma caixa de subscrição de livros infantis” com apoios do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Fundo de Desenvolvimento e Cooperação de Macau. Segundo Susana Diniz, esta “rede de apoio institucional ajudou a criar as condições para trazermos a peça a Macau e integrá-la neste festival, numa lógica de partilha cultural entre Portugal e Macau”. A ideia foi “tornar a aprendizagem mais fácil e mais viva” com a apresentação desta peça, cuja ideia central foi desenvolvida na Sílaba. Desta forma, “A Revolta dos Lusecos” permite à associação “representar parte de uma história recente de Portugal que é muito importante: a transição para a democracia após o Estado Novo”. “É uma oportunidade única para mostrar às crianças e aos jovens de Macau que o caminho para a democracia foi difícil, que não foi um processo automático ou inevitável, mas sim o resultado de coragem, resistência e sacrifício de muitas pessoas. Acreditamos que esta mensagem é universal e relevante para qualquer jovem, independentemente do contexto geográfico”, disse Susana Diniz. A fundadora da Sílaba acrescentou que trabalhar uma obra criada por um autor conhecido ajuda a criar “uma ponte mais directa e afectiva entre os miúdos e a história”. Missão cumprida Susana Diniz é a responsável pela encenação, com o auxílio de outros membros da associação, uma colaboração que descrever como “essencial para gerir um projecto desta dimensão”. “O espectáculo vai contar com música, imagens projectadas e os miúdos em palco, num cenário construído para a ocasião”, descreve Susana Diniz, que fala ainda no trabalho desenvolvido ao nível da adaptação do texto e preparação das crianças. Tem sido “muito gratificante ver que eles se divertem e, sobretudo, que compreendem as suas personagens”, frisou. “Quando um miúdo de 10 anos consegue explicar o que sentia um luseco em 1974, percebemos que o teatro está a cumprir a sua função: contar uma história e fazê-la viver dentro de quem a conta.”
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLivros | Guerra&Paz lança duas obras sobre a China em português A editora portuguesa Guerra&Paz lançou recentemente duas obras sobre a China em português. Uma delas, na área da ficção, intitula-se “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas”, onde se encontra o “prodigioso imaginário chinês”, segundo o editor, Manuel S. Fonseca. Segue-se a “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende Acabam de ser editados, no mercado português, duas obras que ajudam a explicar um pouco como é a China – tanto a nível literário como histórico. A Guerra&Paz editou recentemente, em português, “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas”, bem como, já no campo de não-ficção, “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende. Ao HM, o editor da Guerra&Paz, Manuel S. Fonseca, conta como “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas” revela ao leitor o “prodigioso imaginário chinês”, sendo que a cultura chinesa, no seu entender, “marcou – e continuará a marcar – a história da humanidade”. Esta obra faz parte de uma colecção inaugurada pelo livro “Lendas e Contos de Fadas Japoneses”. Segundo Manuel S. Fonseca, o objectivo da editora é depois editar uma antologia de lendas e contos de fadas turcos, mas não só. “É nossa intenção publicar lendas e contos de fadas de várias origens, da Europa à Ásia, passando por outros continentes. A intenção da colecção é revisitar o imaginário infantil e tradicional de uma plêiade de países e continentes”, disse. Neste caso, foram escolhidos contos do “The Chinese Fairy Book”, organizado por R. Wilhelm, editado em 1921 pela Frederick A. Stokes Company. Manuel S. Fonseca explicou ainda que foi feito um confronto “com a vária bibliografia para chegarmos à selecção que deu lugar a esta edição, que é variada, contemplando diferentes estilos e géneros”. Com uma tradução feita a partir do inglês, pediu-se à tradutora e respectivas revisoras para “manter a linguagem encantatória típica do género [do conto], muito concreta e precisa”. “A Magia da China – Lendas e Contos de Fadas” contém histórias como “O Pássaro de Nove Cabeças”, “O Grande Dilúvio” ou ainda “A Rosa do Entardecer”, que encerra o livro. São 17 histórias que remetem para um imaginário muito específico que contam com ilustrações de Ilídio Vasco. A edição inglesa serviu de base à escolha das imagens, mas procurou-se “sempre ilustrar os temas de cada um dos contos, com alguma predominância com ilustrações dos séculos XVIII e XIX”. Para Manuel S. Fonseca, esta obra traz uma “mensagem de encantamento estético e lúdico” proporcionada pelo imaginário contido nestes contos. “Contornando o mistério que contos e lendas sempre terão, o outro objectivo é o de dar a conhecer a riqueza folclórica e mágica, o de abrir os leitores da Guerra&Paz – os leitores destes contos de fada do mundo – à revelação dos elementos sobrenaturais tão característicos do universo chinês.” “Há aqui fábulas de transformação, animais míticos, elementos que vêm do confucionismo, uma sabedoria que não deixa de nos passar uma mensagem a que os leitores portugueses jamais deixarão de ser sensíveis, a de que o amor, se não sempre, muitas vezes vence”, adiantou Manuel S. Fonseca. Guia histórico A Guerra&Paz colocou ainda no mercado a obra “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende, historiador e sinólogo francês especializado na história e historiografia da China antiga e medieval. Segundo a descrição da obra, trata-se de um “pequeno guia fundamental, complementado por cronologias, mapas e um glossário”, sendo um livro “essencial para os apaixonados pela China, assim como estudantes, aspirantes a sinólogos e todos aqueles que queiram saber mais sobre o Império do Meio”. Esta obra divide-se em oito capítulos, que vão desde o nascimento da escrita no país, por volta de 1200 a. c., até à queda do império sinomanchu dos Qing em 1912, já com a implementação da República. Fala-se ainda dos primeiros impérios dos Qin e dos Han (221 a. C.220 d. c.), passando pelos anos da Alta Idade Média, entre os séculos III a VII, pela dinastia Tang e depois pelas chamadas Cinco Dinastias (anos 618 a 960). O livro descreve também como era a China nos anos do império Mongol, de 1276 a 1368, passando depois para a dinastia Ming, dos anos 1368 a 1644. Segundo descrição da editora, “para cada um dos grandes períodos o autor apresenta o essencial do contexto histórico e o que é preciso reter para se compreender uma cultura rica e exuberante, destacando inúmeras curiosidades e figuras históricas, assim como as grandes obras que constituem a bagagem cultural comum da China dos dias de hoje”. Marcos do percurso Na introdução da obra “História da China Antiga e Imperial” pode ler-se que “escrever a história da China antiga e imperial significa, no fundo, olhar para um território da Ásia Oriental, para uma cultura específica – a dos Han e daqueles que se dizem seus herdeiros –, sem ignorar as que estiveram em contacto com ela, como as culturas das estepes do Norte ou as das populações das fronteiras interiores”. Mas este processo implica também “prestar atenção à forma como a história foi escrita – ou reescrita – nesta parte do mundo”. Desta forma, o livro de Damien Chaussende “tem como objectivo apresentar os grandes marcos históricos, institucionais e culturais da longa e rica história da China”, destacando o facto de “longevidade não significar imobilismo”. Bem pelo contrário. “Mesmo que o sistema imperial chinês tenha conseguido manter-se por mais de dois mil anos, cada período e cada dinastia teve as suas particularidades em termos de instituições e produções culturais. São essas singularidades que nos esforçámos por sublinhar”, pode ler-se. Na introdução do livro refere-se também que o autor quis “dar destaque aos elementos que, actualmente na China, são considerados parte da cultura geral de todos” e que proporcionam ao leitor “uma melhor compreensão das referências culturais que podem surgir, por exemplo, nos meios de comunicação social, nos discursos políticos ou, mais simplesmente, no decorrer de uma conversa”. O primeiro capítulo dá conta “dos vários berços de civilização na China”, nomeadamente o facto de “os vestígios de vida humana no território chinês” remontarem ao período do Paleolítico, com o “Homem de Yuanmou, datado de 1,7 milhões de anos”, sendo a “descoberta mais famosa” a do chamado “Homem de Pequim, que viveu há quinhentos mil anos num conjunto de cavernas em Zhoukoudian (a sul da actual Pequim)”. Descreve Damien Chaussende que “o Mesolítico é relativamente pouco conhecido devido à falta de descobertas arqueológicas”, mas o período do Neolítico “está bem representado, com berços localizados em muitas províncias da China actual, tanto no norte (bacia do rio Amarelo) como no sul (bacia do rio Yangtsé)”. Há ainda vestígios de civilizações antigas nas zonas costeiras: na actual Henan (cultura Yangshao, 5000-3000 a.c.) ou ainda em Zhejiang, com a cultura Hemudu, que remonta aos anos de 5500 a 3300 a.c. Por sua vez, existem também vestígios na vizinha província de Guangdong, com a cultura Shixia. Ainda assim, “o local retrospectivamente considerado como centro primitivo da civilização chinesa está situado na Planície Central, ou seja, na bacia inferior do rio Amarelo, em torno do rio Luo”.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeRua dos Ervanários | “Fábrica das Bifanas” serve petiscos tradicionais Era para abrir em Lisboa, mas as raízes em Macau de Ricardo Rebelo de Almeida levaram-no a trazer o negócio da “Fábrica das Bifanas” para o território. A típica bifana à moda do Porto pode ser provada na Rua dos Ervanários, mas não falta a bifana semelhante à receita da cidade de Vendas Novas, no Alentejo Turistas e locais já têm um novo espaço para provar as típicas bifanas portuguesas, seja a receita do Porto, seja a de Vendas Novas. Na “Fábrica das Bifanas”, na Rua dos Ervanários, o sabor é sempre português num negócio trazido para Macau por Ricardo Rebelo de Almeida. Ao HM, o responsável confessou que Macau nem era o destino inicial deste investimento. “A Fábrica das Bifanas foi inicialmente pensada para ser desenvolvida na zona de Carcavelos, Grande Lisboa. Mas tenho uma ligação forte a Macau, onde cresci, e circunstâncias pessoais levaram-me a permanecer no território. Nesse contexto, fez sentido concretizar aqui o projecto, que já estava estruturado, adaptando-o à realidade local. A minha ligação a Macau foi determinante na decisão de avançar com o projecto aqui”, contou. Apesar de ter trazido para Macau a receita tradicional da bifana da zona do Porto, a verdade é que a “Fábrica das Bifanas” também trouxe este petisco na sua versão mais clássica, ou seja, “mais próxima da tão apreciada bifana de Vendas Novas em termos de sabor, mas diferenciada, porque usamos o mesmo corte ultrafino da carne, o que lhe confere uma textura e experiência distintas”. Além disso, a “Fábrica” tem também pão com chouriço “pleno de sabor e servido quente, que tem sido igualmente bem recebido pelo público”. Ricardo conta que o segredo das bifanas à moda do Porto baseia-se no “corte ultrafino e forma de confecção”, sendo uma iguaria “cozinhada lentamente num molho previamente preparado, o que permite uma melhor incorporação de sabores”. O pão utilizado em todos os petiscos é sempre “proveniente de Portugal, preservando o sabor tradicional”. Feedback “muito positivo” Com a casa aberta há poucas semanas numa das zonas mais turísticas da península de Macau, Ricardo Rebelo de Almeida destaca que “o feedback [do público] tem sido muito positivo”, tendo recebido “muitos clientes locais e também um volume significativo de visitantes e turistas de várias nacionalidades”. Questionado sobre os desafios de investir no sector da restauração em Macau nesta fase, o mentor da “Fábrica das Bifanas” frisou que houve “especial preocupação com a escolha do local para a abertura do espaço”. “Sobretudo acreditámos no produto diferenciado que oferecemos”, adiantou, querendo agora “consolidar a ‘Fábrica das Bifanas’ como uma marca reconhecida localmente”, nomeadamente “reforçar a presença junto do público de Macau e visitantes”. Contudo, e “num horizonte mais longo, faz parte da visão avaliar oportunidades de crescimento, sempre de forma sustentável e alinhada com a evolução do projecto”, revelou o empresário.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteInês Cardoso, jornalista e autora de livros infantis: “A desinformação joga com emoções” Inês Cardoso embrenha-se na escrita de livros para os mais novos quando a espuma frenética dos dias do jornalismo lhe dá algum descanso. A directora do Jornal de Notícias foi convidada pelo festival “Letras&Companhia” para apresentar o livro “De Londres ao Porto numa gaivota”, que foi traduzido para chinês Vem a Macau participar no festival “Letras&Companhia”. Como se sente por vir ao território neste contexto? É a primeira vez que vou a Macau e é particularmente entusiasmante perceber o trabalho que continua a ser feito para preservar a língua portuguesa. O festival tem muitos atractivos, e é uma honra estar ao lado de pessoas como Afonso Cruz ou André Letria, porque trabalham diferentes públicos e têm um trabalho muito conceituado. Vou falar de literatura juvenil e é bom poder estar directamente com o público escolar e perceber a sua ligação à língua. Apresenta na sexta-feira o livro que lançou em 2019, “De Londres ao Porto numa gaivota”. Porquê esta obra? Tem muito a ver com a temática do festival, centrada nas cidades. Este é um livro que trabalha muito no espaço urbano, portanto transporta-nos para alguns dos espaços emblemáticos de Londres e Porto na forma como a protagonista, Sofia, que viveu no Porto, mas se mudou para Londres, vai viajando mentalmente pelos locais que a saudade, no fundo, mantém activos. Não sendo o meu livro mais recente, acabou por estar em destaque nesta edição, e graças a uma parceria entre a Porto Editora e o IPOR [Instituto Português do Oriente, co-organizador do festival], o livro vai ter uma versão em português e chinês. Trata-se de algo que vai permitir trabalhar esta questão da língua e das viagens que fazemos através dela, tal como a própria história também reflecte. Quando sai a versão em chinês do livro? Será apresentada no festival, estando disponível na Livraria Portuguesa. A saudade é um sentimento muito português, é um desafio traduzir essa palavra para outra língua? Que expectativas têm em relação à tradução? Esta é uma das reflexões que fazemos no livro. Ao tentar traduzir a palavra saudade fazemos essa abordagem, quanto à importância e centralidade que a saudade tem para nós, portugueses. Muitas vezes tem um sentido excessivamente nostálgico, mas a verdade é que nos marca muito, tanto na literatura, na música ou no nosso imaginário. O livro aborda isso, a forma como nos entendemos e como, no fundo, podemos fazer corresponder a saudade a outras expressões que outras línguas têm para traduzir esse sentimento, que, de facto, nos marca muito colectivamente. O seu livro mais recente, também de literatura infantil, “As Mãos da Avó”, foi editado no ano passado. Há algum paralelismo com a obra que apresenta no “Letras&Companhia”? É uma história que tem um ritmo um pouco mais lento, por assim dizer, tem uma escrita mais pausada. Procuro que o próprio livro trabalhe a questão da espera e da paciência. É, num certo sentido, um livro que nos leva a viajar, também a nós adultos, pelas nossas memórias de infância. Quando se fala de literatura infantil, prefiro mais falar em livros e álbuns ilustrados, porque tenho percebido que “As Mãos da Avó” é, muitas vezes, um livro que sensibiliza os adultos que se identificam com aquela experiência da neta, que aprende com as mãos da avó e que partilha momentos com ela, e que, em contacto com a natureza, vai percebendo pequenas lições que a avó lhe transmite. Vivemos tempos muito acelerados, em sociedades que valorizam muito a rapidez. A capacidade de pararmos e percebermos a importância da espera é uma reflexão que nos interessa particularmente e da qual até estamos a precisar. Como se passa do jornalismo, precisamente dessa pressa das redacções, para a literatura infantil? Esse é um dos desafios e diria até que uma das razões que explica o facto de eu publicar com longos intervalos, exactamente porque o jornalismo é tão absorvente e a realidade tem estado tão acelerada. Sinto que somos arrastados no vórtice da actualidade e temos muita dificuldade em travar, sobretudo desde a altura da pandemia. Tivemos a crise, a invasão na Ucrânia, fomos tendo outros conflitos muito centrados no Médio Oriente, mas também a própria eleição de Donald Trump trouxe uma série de alterações na geopolítica internacional. Temos avanços na inteligência artificial que nos vão lançando desafios. Ou seja, vivemos tempos que constituem desafios colectivos e que se traduzem no nível de atenção permanente por parte dos media e de alteração do trabalho nos próprios media. Somos muito afectados pela alteração dos algoritmos, das redes sociais, da entrada da inteligência artificial em campo. Há uma rapidez que deixa muito pouco espaço para a criatividade e imaginação. Quando consigo esses espaços, importantes para mim, dá-me alguma respiração neste mundo que tem estado algo distópico nos últimos tempos. E, portanto, gosto de olhar para a literatura infantil ou juvenil como um caminho para alguma descompressão e até para alguma saída deste mundo às vezes pouco empático e pouco focado. Falando da inteligência artificial, ainda é possível pôr crianças a ler um livro físico? No caso particular da leitura para a infância, e com os álbuns ilustrados, acredito que o papel vai resistir, porque é de facto único na capacidade de nos transportar para o peso que as próprias ilustrações têm. Hoje temos formatos cada vez mais criativos, com livros que trazem novas abordagens, com desdobráveis [por exemplo] e uma criatividade que tem sabido evoluir num sentido que é tão único que, de facto, não pode ser substituído por nenhum ecrã. Vou às escolas com alguma regularidade e sinto que as crianças mantêm, pelo menos na primeira infância, um grande entusiasmo com as histórias e com os livros. Gostam de os sentir. Depois temos de fazer a nossa parte. Se olharmos para os exemplos da Suécia ou Noruega, que num determinado momento foram pioneiros no digital, pelas salas de aula dentro, e agora percebem que foi um erro e estão a regular e a incentivar cada vez mais o livro e a leitura, acho que temos de ir aprendendo com essas lições. Há medidas que têm de ser adoptadas por decisores e governantes, no sentido de ir protegendo e estimulando a leitura e percebendo que ela tem um espaço próprio que não deve ser alterado, apesar da competição gerada pelo digital e pelos ecrãs. Começou no jornalismo em 1998 e actualmente é directora do Jornal de Notícias (JN). Qual a mudança mais fracturante que assistiu na profissão nos últimos anos? Temos tido muitas mudanças muito rápidas. Quando comecei já estávamos a falar nos desafios que o digital nos iria trazer, e desde então fizemos muitas experiências e continuamos sem respostas, porque a todo momento temos novos desafios. Uma das grandes dificuldades é continuar a merecer a confiança dos leitores e, no fundo, a captar a atenção no meio de tanto ruído. Diria que o grande desafio é até mais social do que dos próprios jornalistas, que têm estado muitas vezes sozinhos a defender um espaço que é, na verdade, vital para a própria democracia. No nosso caso, no JN, tivemos um momento particularmente marcante que foi ao final de 2023 e início de 2024, um momento de luta que evitou um despedimento colectivo. Houve depois uma mudança de accionistas e de propriedade no grupo [Global Media]. Esse momento, em Portugal, foi particularmente importante e significativo na reflexão que, em Portugal, estamos a fazer sobre a propriedade dos media, o financiamento e a sustentabilidade, problema que também está a ser enfrentado pela revista Visão. Do ponto de vista tecnológico, creio que vamos continuar a assistir a mudanças constantes, em que ainda não sabemos muito bem o que a inteligência artificial vai provocar, nomeadamente nesta questão da confiança das pessoas, na disseminação cada vez maior e mais eficaz da desinformação e os riscos que, no fundo, acarreta para todos nós. Quando fala que a preservação do jornalismo também parte da sociedade civil, não sente que o perigo reside no facto de as pessoas terem muita desconfiança em relação aos media e terem até um tom acusatório em relação aos jornalistas? Como se combate isso? Sim, por isso é crucial que haja capacidade para, de forma colectiva, olharmos para este tema da desinformação como um problema da democracia, e não um problema dos jornalistas. É verdade que há essa desconfiança, e parece-me que os cidadãos ainda acreditam em muitos mitos relacionados com a informação, ou seja, que através das redes sociais conseguem obter a informação sem precisar de jornalismo, que conseguem ser eles a seleccionar as fontes, ou que seguem quem querem. Não percebem que estão constantemente a ser manipulados pela própria lógica do algoritmo, pelas bolhas que vão sendo criadas na sequência do seu próprio comportamento digital. Há uma série de mecanismos subtis que são perigosos do ponto de vista individual e do ponto de vista da popularização social, em relação aos quais os cidadãos ainda não estão plenamente atentos e dos quais não estão, sequer, muitas vezes conscientes. Sabemos muito bem a quem interessa essa desinformação, quem a trabalha e quem mais [promove] a disseminação alargada de informações falsas. Sabemos os riscos a que estamos sujeitos quando as opiniões são, cada vez mais, facilmente manipuladas e orientadas, nomeadamente em períodos de eleições. Já há diversos estudos que comprovam o quanto a desinformação aumenta em períodos eleitorais. Esta é uma reflexão que, apesar dessa má imagem que os jornalistas actualmente sofrem, vai ter de ser feita colectivamente. No sábado protagoniza uma oficia de literacia digital para professores intitulada “Combater a desinformação na era da IA”. E como se combate, afinal? Temos riscos cada vez maiores e as ameaças são muitas. Diria que se combate sobretudo com muita formação. Nesta acção de formação para professores vamos abordar algumas formas de tratar o tema, nomeadamente para crianças e adolescentes já ao nível do secundário, porque é essencial que todos possamos identificar alguns sinais em vídeos, imagens ou informações partilhadas. Para que saibamos identificar quem tem funções de particular responsabilidade, e o professor é sempre alguém que tem essa responsabilidade perante a sua própria sala de aula e aqueles que estão, no fundo, entregues e confiados. O professor tem essa missão com uma maior exigência, porque pode ter um efeito multiplicador na transmissão de ferramentas que são úteis em todas as idades. Temos de estar atentos e saber como verificar a informação e, sobretudo, como não agir por impulsividade ou emotividade, que é um dos grandes problemas da desinformação. Esta joga muito com as emoções, com a confirmação de preconceitos e esse, no fundo, é o trabalho mais difícil de fazer.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteDaniel Pires, académico, sobre Camilo Pessanha: “Um homem que atraía muitas invejas” “Pairo na Luz, suspenso…” – Centenário da morte de Camilo Pessanha (1867-1926) é o nome do congresso, que se realiza hoje e amanhã na Universidade de Coimbra, para celebrar a vida e a obra do poeta. Daniel Pires, académico e editor de Pessanha, irá desvendar detalhes sobre as colecções de arte que o poeta deixou e os seus contributos a nível jurídico Apresenta hoje “O percurso cívico de Camilo Pessanha”. São muitas as valências desse civismo. Vou falar da doação que fez de peças de arte chinesa ao Estado português, e também da sua biblioteca. Também vou falar sobre a sua actividade jurídica, pois esteve ligado a vários regulamentos publicados em Macau, tendo sido ele que os fez, na sua grande maioria, e que têm a ver também com a interacção entre portugueses e chineses. Falemos das colecções doadas ao Estado português. O que encontramos nestes espólios? Uma das colecções é imensa, com mais de 300 peças de grande valor, e que foi primeiramente exposta em Macau em 1915. Depois, pouco antes de falecer, ofereceu uma segunda parte da colecção, pedindo que viesse para Coimbra, para o Museu Nacional Machado de Castro. Como descreve a relação de Camilo Pessanha com a arte chinesa? Ele era um admirador da civilização e cultura chinesas, sem dúvida, e escreveu sobre isso, embora não tenha escrito muito. Aliás, ele não escreveu muito sobre nada, mas há artigos de jornais sobre arte e língua chinesa, o mandarim, e a estética que nela está implícita. Há notícias de que logo no início da sua estada em Macau, Camilo Pessanha começou a aprender e a falar cantonense. Depois fez traduções, e era de facto um sinólogo, uma pessoa que admirava bastante a filosofia e arte milenares, os caracteres chineses, e por aí fora. Como era a relação destes intelectuais portugueses em Macau com a comunidade chinesa, numa altura em que eram muito poucos os livros que juntassem as duas línguas. Não havia, de facto, grandes meios para se estudar a civilização chinesa. Macau estava fechadíssimo e poucas coisas lá chegavam, praticamente só tinha relações com Hong Kong. Ir à China era quase impossível. Mas havia o que chamamos de sinólogos, e os dois principais eram Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes. Depois temos o aluno de Camilo Pessanha que, em termos de sinologia, suplantava tudo, o Luís Gonzaga Gomes. Além da doação de Pessanha, e que foi exposta em 1915, há uma segunda doação… Ele [Camilo Pessanha] foi convidado por um grande Governador de Macau, que depois veio a ser morto na “Noite Sangrenta”, em 1921… Carlos da Maia. Exactamente, eram grandes amigos. Carlos da Maia convidou Pessanha para expor parte da sua colecção no Palácio [do Governador], e expor 100 peças de uma variedade e ecletismo incríveis, desde vestuário passando por objectos japoneses, etnografia, linguística, com os caracteres chineses artisticamente tratados. Antes de falecer, Camilo Pessanha contactou o Governador na altura, Maia Magalhães, oferecendo a sua colecção com a condição de vir para Portugal. Entretanto, a primeira doação tinha sido recusada por vários museus, por se entenderem tratar-se de pechisbeques. Ao fim e ao cabo tratava-se de ignorância, porque a colecção é excelente mesmo. Camilo Pessanha adquiriu todas essas peças em Macau? Ele andava pelos tintins [zona de mercado de rua no Porto Interior], mas também foi a Cantão mais do que uma vez e até a Hong Kong. Mas, de facto, a base dele era mesmo Macau. Ele aprendeu chinês também com o objectivo de poder comprar melhor. Pelas contas que fiz para o livro “Camilo Pessanha – Prosador e Tradutor” ele reuniu um acervo de 370 peças. Relativamente ao trabalho jurídico de Pessanha, que legado deixou em Macau? Muito forte, quer como bom jurista, quer como, digamos, juiz substituto. Esteve ligado à promulgação de várias leis e regulamentos. Mexeu bastante em leis que vinham do tempo da monarquia e que não tinham sido mudadas. Como juiz, optou sempre pelas penas mais baixas, tendo um tom humanista. Macau gerou, ao longo da sua história, diversos intelectuais portugueses que se preocuparam com o território e não estiveram apenas de passagem. Pessanha foi dos mais importantes? Sem dúvida. Há quem diga que era abúlico, mas [Camilo Pessanha] era uma pessoa doente, o que é diferente, e tinha também alguma depressão à mistura. Nessas crises obviamente que não podia ser muito activo. Ele nunca teve muita saúde, mas quando a teve fartou-se de mexer em coisas, sempre com o objectivo de aperfeiçoar, melhorar, alterar. Só que também é preciso dizer que Macau era muito conservadora, a sociedade macaense. Nem toda a gente aceitava pessoas que não iam à missa, por exemplo. E Camilo Pessanha não ia à missa. Não. Ele teve uma educação muito católica mesmo. As duas irmãs dele chamavam-se Madalena e isso não é por acaso, não é? Mas nos anos pré-República o catolicismo foi muito forte e houve ali uma pressão fortíssima. E isso repercutiu-se na mentalidade de muitos intelectuais, muitos deles que eram inicialmente católicos e que depois se confrontaram com o compadrio que existia na alta hierarquia católica e a monarquia. Claro que nem todos seriam assim. Falo do apoio que o alto clero dava aos monárquicos, com alguma corrupção, alguns escândalos de cariz sexual também, e que foram denunciados na imprensa. Tudo isso afastou uma série de pessoas que, inicialmente, eram católicas, e terá sido o caso de Camilo Pessanha também. Estes casos ocorreram em Portugal. Sim, mas chegavam a Macau através dos jornais e… Contaminavam a opinião pública. Exactamente. Camilo Pessanha também era mal visto por consumir ópio? A doença tornava-o propenso à droga, mas não era uma coisa que não o impedia de concretizar o seu trabalho diário. Digamos que seria uma coisa que ele faria em casa [fumar ópio]. Obviamente que as pessoas mais conservadoras olhavam para isso de lado, daí terem surgido uma série de histórias sobre Pessanha da parte de pessoas extremamente conservadoras que não hesitaram em caluniá-lo e até denegri-lo. Muita gente disse que a colecção de arte chinesa dele não valia nada. Silva Mendes, por exemplo, era um inimigo de Camilo Pessanha, misturou ideologia com falta de ética e usou todos os meios possíveis para o denegrir. Chegou a sair um artigo de Silva Mendes dizendo que a poesia de Camilo Pessanha era de muita fraca qualidade. Imagine, onde ele foi tocar. Naquilo onde Camilo Pessanha é intocável é, exactamente, na poesia. Mas era um homem que atraía muitas invejas. Por ser genial, digamos assim? Sim. O meio de Macau era muitíssimo fechado. Os portugueses seriam uns mil, isto no princípio do século. Estavam ali encafuados, claustrofóbicos, numa paranóia – no sentido do termo, mesmo – relativamente à China, que estava ali ao lado, e as pessoas sabiam o que tinha acontecido ao Ferreira do Amaral [Governador assassinado em 1849]. Isso foi um trauma muito forte para os habitantes de Macau, e na época de Pessanha esse trauma ainda era visível. Quando Pessanha vai para Macau tem consciência das suas especificidades sociais e políticas? Não. Terá tido dificuldades na adaptação ao clima, e são sempre duas culturas díspares, não é? Houve a questão da língua, porque ninguém falava português, o corte radical com a família. Ele tinha problemas familiares, com um irmão que enlouqueceu. Portanto, acho que teve uma capacidade de adaptação bastante grande, porque ele chega e começa a estudar de imediato cantonês. A relação de Pessanha com a comunidade macaense era também próxima. Havia, de facto, uma interacção com a comunidade, mas não só. Houve uma interacção de Camilo Pessanha com o primeiro Presidente da República chinês. Sun Yat-sen. Exacto. Há várias fotografias dele com o Sun Yat-sen. Portanto, era bem mais republicano do que monárquico, além de maçom. Sem dúvida, Camilo Pessanha era mesmo republicano e escreveu vários textos de apoio à República. A implantação da República deu-se a 5 de Outubro [de 1910], mas em Macau não. As autoridades locais eram todas monárquicas e a transição foi difícil. O novo Governador, Eduardo Marques, só foi proclamado dias depois. Pois. Eles não cediam. O secretário do Governo era um tipo completamente monárquico, e Camilo Pessanha também desempenhou aí um papel interessante. O mesmo quando a Constituição de 1911 foi aprovada. [Ele questionou]: “E aqui, como é? Não há Constituição?”. O ensino também demorou a mudar, porque os republicanos tentaram reformar o ensino em Macau, que tinham as missões católicas, e isso foi difícil. Disse que Camilo Pessanha escreveu pouco ao longo da vida. Talvez se não fosse Ana de Castro Osório não teria sido editada “Clepsydra”. Como explica esta dispersão poética? É verdade. Mas o grande problema prende-se também um pouco com a doença do Camilo Pessanha. Ele esteve quatro anos em Portugal, de 1905 a 1909, quando foi operado a um tumor. A inspiração poética também dependia do seu estado de saúde. Na realidade a “Clepsydra” é composta por 56 poemas apenas, e também fiz uma edição de “Clepsydra” em que reuni a prosa dele, e tudo isso cabe num livro. Houve também muita coisa que ele vivenciou e não escreveu, o que foi pena. Tem a ver com o temperamento dele, era uma pessoa fechada, tímida, na realidade. Ao fim e ao cabo isso reflectiu-se na sua escrita. A partir do momento em que Pessanha vai para Macau, como ficou a sua relação com Portugal? Ele foi para Macau por duas razões. Uma delas é que se formou em Direito, e na altura os juristas, para terem uma carreira como juiz ou procurador régio, tinham de servir nas colónias. Foi o que aconteceu ao seu grande amigo, Alberto Osório de Castro, que esteve em Goa e Timor. Depois houve outro detonador, que foi o facto de ele ter pedido Ana de Castro Osório em casamento e ela não ter aceite por já estar comprometida. Depois ela desentendeu-se com o, chamemos, namorado, e há uma carta de Alberto Osório de Castro perguntando a Camilo se ainda gostava da irmã, se havia alguma perspectiva no horizonte, mas ele já estava acomodado a Macau. Tinha de ganhar dinheiro para mandar a um irmão que estava a estudar em Coimbra, e a outro que tinha enlouquecido. Nessa altura, já estava com a mãe do filho, Águia de Prata. Como olha a forma como Camilo Pessanha é recordado hoje em dia em Portugal? Digamos que está um pouco esquecido nas escolas básicas e secundárias, mas também lhe digo que não é fácil a poesia de Camilo Pessanha. Quase precisa de um guia. Mas nos meios intelectuais, digamos, não me parece que ele seja esquecido. Antes do 25 de Abril, Camilo Pessanha não era muito conhecido, e ganhou um grande impulso depois. O mesmo aconteceu com Fernando Pessoa. Só por volta da década de 1980 começaram a ser publicadas edições de “Clepsydra” e se impôs Camilo Pessanha. Digamos que, neste momento, Camilo Pessanha não é um poeta esquecido.
Andreia Sofia Silva Grande Plano ManchetePatuá | “Extinção parece ser irreversível”, conclui estudo da UPM Um estudo de três académicas da Universidade Politécnica de Macau conclui que se “mantém robusto o sentimento de pertença e orgulho macaense”. Porém, a extinção do patuá é “irreversível”, com os jovens a sentirem-se “impotentes perante a fatalidade da perda deste património” O patuá está praticamente extinto. Esta é uma das conclusões do estudo “Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau: um estudo de caso”, da autoria de Maria Gomes Fernandes, Xiaoyan Wang e Meng Ye, três académicas da Faculdade de Línguas e Tradução da Universidade Politécnica de Macau (UPM). O trabalho consta da mais recente edição da Diacrítica, revista do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, dedicada à temática “A língua portuguesa na China: ensino, literatura, cultura e tradução”. Lê-se no estudo, feito com base num inquérito à comunidade macaense, que “a extinção do patuá parece ser irreversível, não obstante os esforços de revitalização empreendidos”. “Os dados falam por si: os jovens inquiridos não falam nem transmitem esta língua aos descendentes”, é indicado. Num trabalho que olha “como os jovens macaenses se inserem social e culturalmente na sociedade de Macau”, tendo em conta que “subsistem muitas dúvidas quanto às formas de preservar a comunidade macaense da RAEM enquanto identidade cultural única”, conclui-se que “o sentimento de pertença e orgulho macaense mantém-se robusto”. Tudo graças a “hábitos e costumes associados à gastronomia, à religião católica e à língua portuguesa”, verificando-se “um elevado grau de plurilinguismo”, com a manutenção “do papel de elo entre a comunidade chinesa e portuguesa”. O português constitui, por sua vez, “um pilar fundamental que ajuda a contrariar a tendência de identidade cada vez mais fluida e hibrida, que tende a ser diluída na etnia chinesa maioritária”, destaca-se no artigo. O estudo reflecte mesmo que “a língua portuguesa continua a ser parte integrante da identidade macaense de Macau”. À questão sobre o que significa ser macaense, a maioria, 66 por cento, responde que é macaense quem é natural de Macau, enquanto que 52 por cento diz que é possível ser-se macaense, ou identificar-se como macaense, graças à “partilha dos mesmos hábitos e costumes”. As académicas recolheram recolhidos 58 inquéritos válidos, sendo que “a idade da grande maioria dos respondentes situa-se entre os 25 e 40 anos”. Foi feito um “questionário junto da comunidade macaense, com especial enfoque em jovens anónimos”, tendo sido “estabelecido um primeiro contacto através das redes sociais com ex-alunos macaenses do curso de Licenciatura em Tradução e Interpretação da Universidade Politécnica de Macau, que, por sua vez, divulgaram a ligação do Google Forms para que outros elementos da comunidade respondessem”. Patuá a desaparecer Em relação ao uso do patuá, o estudo confirma que “este crioulo se encontra, hoje, praticamente moribundo, pois 90 por cento destes jovens inquiridos não falam esta língua”. Porém, as respostas denotam uma consciencialização sobre a necessidade da sua preservação, tendo os inquiridos “a perfeita consciência de que, com o seu desaparecimento, parte da unicidade da comunidade macaense irá desaparecer também”. O estudo aponta para 93 por cento das respostas a considerar “importante preservar este crioulo”, enquanto 57 por cento acha que “a preservação passa pelo ensino”. Já 69 por cento dos participantes entende que se devem desenvolver actividades culturais para promover o patuá. Com a grande excepção de eventos como a peça de teatro anual do grupo Dóci Papiaçam di Macau, apresentada no Festival de Artes de Macau, ou de cursos organizados no Centro Científico e Cultural de Macau, têm sido poucas as iniciativas desenvolvidas. As autoras denotam que se “registam algumas manifestações culturais”, mas “que a produção literária perdeu o fulgor registado no século XX”. “Ainda que ciosos e orgulhosos da sua herança, estes jovens sentem-se algo impotentes perante a fatalidade da perda deste património”, acrescenta-se. Mais mandarim Tendo em conta a conexão com a comunidade tendo por base valores como a gastronomia ou a língua, o inquérito deixa “claro que a língua portuguesa predomina como língua de escolarização do público inquirido, e a todos os níveis de ensino”. Porém, “a língua portuguesa deixa de ser a língua forte no que respeita à educação escolar dos filhos destes jovens macaenses”, passando “a partilhar a primazia com o inglês, cantonês e mandarim, o que revela uma viragem drástica quando comparada com a geração anterior”. O inquérito não explorou mais esta questão, denotam as autoras, mas conclui-se que “o cantonês tende a ganhar terreno como língua mãe”. “Enquanto língua oficial e de prestígio, o mandarim também se vai instalando gradualmente. Particular relevo é dado ao inglês como segunda escolha para a língua de escolarização, muito provavelmente por ser língua franca internacional, mas também pelo facto de se terem instalado, nesta Região Administrativa Especial, escolas internacionais de renome nas últimas duas décadas criando, assim, uma alternativa em relação à Escola Portuguesa de Macau, permitindo o ingresso em universidades de vários países anglo-saxónicos”, pode ler-se. O inquérito aponta ainda que “o português mantém, também, uma forte oposição”, apesar de se “registar a vantagem por parte do cantonês enquanto língua de comunicação e socialização”. O português foi, “para a grande maioria, a língua veicular de Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau”, sendo que “muitos dos inquiridos têm uma actividade profissional em que a língua portuguesa é ferramenta de trabalho”. Entre dentro e fora É certo que a comunidade macaense se sente interligada pela comida, usos e costumes e ainda a língua, e a verdade é que muitos inquiridos “se identificam com o cantonês”, mas acabam sempre por serem “vistos como ‘outsiders’ aos olhos de muitos membros da etnia chinesa”. Segundo as autoras, “esta distinção também passa pelo uso da língua nas mais variadas situações do quotidiano”, já que “a língua portuguesa funciona como se de um código secreto se tratasse”. Isto porque, dos inquiridos, 43 por cento diz que falam português “para não serem entendidos pelos outros”, pelo que se pressupõe “que não existe uma vontade intrínseca de integração na comunidade maioritária e o vínculo com Portugal continua forte”, com 74 por cento “dos inquiridos a manterem o contacto com familiares e amigos”. Assim, “para estes inquiridos o uso do português é algo de natural e espontâneo, sendo que 78 por cento fala ou pensar falar em português com os seus descendentes”. Uma questão de simpatia Os participantes no questionário foram confrontados sobre o que pensam dos membros da etnia chinesa, sejam de Macau ou do continente. “Os chineses provenientes do Continente são os que mais somam características negativas. Considerados mal-educados, rudes, egoístas, antipáticos, fechados, arrogantes ou ainda estranhos. Por sua vez, embora fechados, os chineses de Macau são considerados trabalhadores e bem mais simpáticos e educados.” Porém, os macaenses e portugueses são tidos como “simpáticos, bem-educados, faladores e abertos”, tratando-se de “atributos que parecem unir as duas comunidades”. Desta forma, as autoras destacam que “a forma de estar dos macaenses se aproxima significativamente mais da portuguesa do que da chinesa”. Estas entendem que este panorama ajuda a explicar o facto de apenas “19 por cento dos inquiridos estranharem os chineses do Continente, que tiveram pouco ou nenhum contacto com a comunidade portuguesa — ao contrário dos chineses de Macau, cuja convivência com os portugueses remonta a quatro séculos de proximidade”. As académicas indicaram razões para este cenário: “A massificação do turismo proveniente da Grande China, registada nos últimos anos, com a nova política do Governo Central de concessão de vistos individuais, talvez tenha evidenciado, de forma brusca, as diferenças de hábitos e costumes entre as comunidades.” Em relação ao futuro da comunidade macaense, esta continua a ser, no actual século, “um vínculo significativo entre a comunidade chinesa e a portuguesa”, sendo que “a esmagadora maioria dos inquiridos demonstrou ter plena consciência desta mais-valia, não apenas por falar as duas línguas (69 por cento) como também por entender as duas culturas (83 por cento)”.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeAlfândega intercepta bens contrabandeados no valor de 25 milhões Os Serviços de Alfândega (SA) apanharam, nos primeiros quatro meses do ano, bens contrabandeados no valor de 25 milhões de patacas. Os dados foram divulgados por José Pou, chefe do Departamento de Gestão Operacional dos SA, no programa matinal Fórum Macau do canal chinês da Rádio Macau. José Pou revelou que no período em análise foram realizadas 30 operações de combate ao contrabando em Macau, que resultaram na acusação de 68 pessoas na sequência de 62 infracções. Os bens interceptados foram, principalmente, alimentos, grãos de prata, cosméticos, produtos electrónicos, cigarros e álcool, com um valor de 4,72 milhões de patacas. Além disso, os SA detectaram 26 situações de contrabando nas pontes-cais do Porto Interior, com bens a rondar as 21 milhões de patacas. Os SA descobriram ainda 1.309 casos nos postos fronteiriços, o que culminou na proibição de passagem da fronteira de dois carros alegadamente usados para contrabandear bens. Sinais de crise Face ao aumento dos casos de contrabando, a advogada Lai Wing Yan, sediada em Hong Kong, escreveu no portal HK01 um artigo de opinião a argumentar que Macau está a atravessar um período de mudanças económicas, com maior inflação, tendo por base o caso recente de contrabando de mais de 50 quilos de comida em marmitas. No artigo intitulado “O caso do homem de Macau que contrabandeou 51 kg de marmitas — a tragédia silenciosa das classes trabalhadoras sob o monopólio do capital”, publicado ontem, a autora descreve como “recentemente os serviços aduaneiros de Macau interceptaram, no posto fronteiriço de Hengqin, um veículo particular que transportava escondidos cerca de 51 quilos de marmitas de comida cozinhada sem inspecção sanitária”, o que revelou ser “um fenómeno de contrabando bastante invulgar”. Na visão da advogada, há que analisar “o contexto social e económico por detrás destas quase cem marmitas baratas”, que podem reflectir “a realidade dos cidadãos das classes trabalhadoras de Macau, pressionados entre a escalada do custo de vida e o monopólio do capital, sendo obrigados a fazer compromissos dolorosos para sobreviver”. Este caso de contrabando pode ser sinónimo “das dificuldades das classes mais baixas”, questionando a quem se destina esta comida. “Numa cidade onde uma refeição simples pode facilmente custar dezenas ou até mais de cem patacas, estas marmitas baratas vindas de Zhuhai — sem controlo rigoroso de temperatura ou inspecção sanitária — passaram a preencher a necessidade de trabalhadores da construção civil, empregados de limpeza e profissionais de serviços com baixos salários”. Desta forma, argumenta, “o aparecimento deste tipo de contrabando é, na verdade, uma evolução inevitável da economia paralela perante as diferenças de preços entre regiões”, uma vez que “comprar este tipo de refeições simples no continente custa menos de 20 yuans, mas em Macau pode ser vendido pelo dobro, gerando lucro”. Lai Wing Yan acredita que “se os Governos continuarem focados na aparência da prosperidade dos indicadores macroeconómicos e em medidas temporárias como vales de consumo, ignorando problemas estruturais como a desigualdade na distribuição de recursos e a dependência de uma economia pouco diversificada”, vão continuar a ocorrer fenómenos semelhantes de contrabando. Este caso “carrega o peso real da sobrevivência das classes trabalhadoras — e servem também como um duro aviso para quem governa”.
Andreia Sofia Silva EventosTeatro | Grupo Agucheiras apresenta em Lisboa “Performances com Sabor — Macau” O projecto teatral “Espaço das Agucheiras” apresenta no sábado, no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, a peça “Performances com Sabor – Macau”, uma mistura de teatro com performance inspirada nas viagens do poeta Luís de Camões Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas, entre tantos outros escritos que fizeram dele o maior poeta e escritor português, foi também um grande viajante numa vida cheia de peripécias, tendo passado pelo Oriente. A pensar nessas viagens e aventuras, o grupo teatral “Espaço das Agucheiras”, que conta com a conhecida actriz portuguesa São José Lapa no grupo de criadores, desenvolveu a performance teatral “Performances com Sabor – Macau”, que se apresenta no sábado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM). Segundo explicou ao HM Inês Lapa Lopes, artista visual, actriz e encenadora ligada ao “Espaço das Agucheiras”, apresentam-se no Museu de Macau (dentro das instalações do CCCM), “três cenas espalhadas por três espaços do museu”. O público poderá ver “uma performance a que acrescentámos sabor”, com a imaginação dos encontros de Camões. Participam os actores e artistas Alexandra Sargento, Guilherme Macedo e Luís Gaspar para representar estes encontros e diálogos onde Camões é protagonista, sendo que as três cenas terão “momentos de imersão sonora”, contando-se também com “a participação do público na leitura da poesia de Camões”. Destaque para a presença da gastronomia macaense nesta iniciativa, através da vice-presidente da Casa de Macau em Lisboa, Maria João dos Santos Ferreira. A peça nasce de um “imenso engenho e fantasia sobre Macau do século XVI criado por João Paiva”, autor do texto desta performance “com o seu saber de historiador. João Paiva inspirou-se na investigação feita pela equipa desde que esta ‘Performance com Sabor – Macau’ era apenas um projecto no papel”, explicou. Inês Lapa Lopes considera que a ida de Camões para o Oriente “está envolta em muitas suposições, como convém às boas histórias”. Camões “terá embarcado em Abril de 1562 rumo ao porto de Patane numa viagem que demoraria cerca de dois meses”, embora “outros dizem não ter lá estado”. “Optamos por imaginar com os primeiros e embarcamos com Camões rumo ao destino Macau, onde poderá até ter escrito parte da sua epopeia”, acrescentou. Segundo Inês Lapa Lopes, “fazia todo o sentido que esta ‘paragem’ pelos caminhos de Camões fosse feita no Museu de Macau, cuja colecção tão bem traduz as influências mútuas entre Oriente e Ocidente”. No sábado o público poderá “deambular pelo museu para observar as belíssimas peças da colecção, que coincidem com o período em que Camões terá estado em Macau e outras tantas, mais tardias, onde se lê a influência de Portugal e dos interesses comerciais fundados nessa época”. Um ciclo de representações O “Espaço das Agucheiras” tem desenvolvido o ciclo “Performances com Sabor” inspirado nas viagens de Camões em outros destinos. Entre Setembro e Outubro do ano passado, convidaram o público a percorrer “os caminhos que o levaram a Ceuta e depois à Índia”, através de “eventos com teatro, música ao vivo, partilha poética e gastronomia trazida sempre por chefs desses lugares”. A ideia do “Espaço das Agucheiras” é, aliás, “partilhar o que terá sido a sua vida [de Camões], bem como as suas experiências degustativas”. As Agucheiras desenvolvem ainda o projecto “CAMÕES – 1524 Mares Navegas”, com apoio da República Portuguesa – Cultura, que “celebra a vida e obra deste nosso enorme poeta”. O “Espaço das Agucheiras” é uma cooperativa cultural criada em 2006 graças ao espectáculo “Sonho de uma Noite de Verão”, com encenação de São José Lapa, nas Agucheiras. A direcção do Espaço está a cargo de São José Lapa e Inês Lapa Lopes, tendo a cooperativa levado a cabo interpretações de textos de William Shakespeare, Harold Pinter, Leonardo da Vinci, Samuel Beckett, Nuno Bragança, Anton Tchekhov, Fernando Pessoa, Abel Neves, Jaime Salazar Sampaio ou Hélia Correia. Além disso, o “Espaço das Agucheiras” desenvolve “projectos com a comunidade”, como exposições, filmes, documentários e trabalho com escolas.
Andreia Sofia Silva EventosMúsica | Instrumentos musicais chineses são destaque em conferência A Universidade Nova de Lisboa e o Palácio Nacional de Mafra são os palcos escolhidos para se falar e ouvir a música chinesa e asiática. A 9.ª edição da “Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses” começou esta terça-feira e prolonga-se até sexta-feira, servindo para olhar de perto instrumentos como o gamão, o guqin ou até o Naamyam, música narrativa popular no sul da China, Macau e Hong Kong Decorre esta semana, até sexta-feira, a 9.ª edição da “Conferência de Lisboa: Música e Instrumentos Musicais Chineses”, que se realiza na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e também no Palácio Nacional de Mafra. Segundo uma nota oficial sobre o evento, a conferência reúne “académicos, músicos e entusiastas da música chinesa para explorar o rico património cultural e as tradições em constante mudança associadas aos instrumentos musicais chineses”. Trata-se de uma organização do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, sediado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a European Foundation for Chinese Music Research; os Institutos Confúcio da Universidades de Aveiro e do Minho; e a Câmara Municipal de Mafra. Também dá apoio ao evento a Fundação Jorge Álvares, “principal entidade financiadora”. Do programa constam diversas apresentações académicas sobre instrumentos musicais chineses e asiáticos, sem esquecer o universo da musicologia, promovendo-se ainda concertos e recitais. Do cartaz faz também parte a exposição multimédia “Encre de Chine – Impressions de Voyage: A visual Chronicle based on Paintings and Photographs by Christophe Deschamps: China, 1986”, com trabalhos de Christophe Deschamps. Conversas e concertos Esta terça-feira, dia de arranque do festival, foi lançado o livro “Chinese Music and Musical Instruments: Encounters in Lisbon 2016-2019”, com edição de Helen Rees, Frank Kouwenhoven e Enio de Souza, este último um dos grandes promotores do festival. Já hoje, decorrem as sessões, na Universidade Nova de Lisboa, dedicadas à “Música, Dança e Performance na China”, nomeadamente a de Hu Yile, da Universidade de Hong Kong, com o nome “Secular Spectacles in Sacred Spaces: Music, Dance and Acrobatics Performance in Chinese Buddhist Art”. Helen Rees, do Departamento de Etnomusicologia da UCLA (Universidade de California, Los Angeles), irá falar sobre a “Musical Life in Mid-20th Century Taizhou, Jiangsu Province: Recollections of a Resident”. Por sua vez, Antoinette Cheng, da Universidade de Oxford, apresenta a sessão “Blindness, Radio and the Transformation of Naamyam in Macau and Hong Kong. O festival encerra esta sexta-feira no Palácio Nacional de Mafra com um debate em torno da “Música de Outros Países Asiáticos e Ocidentais e os principais géneros”, destacando-se a apresentação, por parte de Susana Sardo, da Universidade de Aveiro, de “Fado de Goa – Post-Memory and the Recasting of Colonial Sound in Goa”. Macau ganha também destaque no cartaz neste dia, com “Macau: its Composers and Music Composed about and to the Territory”, com apresentações de John Robinson, da University fo South Florida; ou Rui Magno Pinto, do Centro de Estudos Musicais da Universidade Nova de Lisboa. O concerto de encerramento começa às 18h, no Palácio Nacional de Mafra, e conta com sonoridades de grupos de gamelão da Universidade Nova de Lisboa e “renomeados” músicos chineses e ocidentais como Deng Haiqiong, com o instrumento guzheng, e ainda Jacob Alford, com o guqin. Destacam-se as actuações de Helen Rees, Chi Li e Rão Kyao, na flauta.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeAPOMAC / 25 anos | Francisco Manhão pede apoio à demência Nos 25 anos de existência da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, o presidente da direcção, Francisco Manhão, pede mais apoios financeiros e sugere a criação de um centro de apoio à demência, bem como mudanças nas actualizações salariais dos funcionários públicos Francisco Manhão, presidente da direcção da APOMAC – Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, defende a criação de um centro de apoio à demência dado o aumento do número de casos nos últimos anos. Esta ideia foi defendida numa altura em que a APOMAC faz 25 anos de existência, celebrados hoje. “Preocupa-me o problema da demência, [doença] que tem aumentado de ano para ano”, disse ao HM. “Sugiro que o Governo possa criar um centro para cuidado e tratamento destas pessoas, porque o que muitos fazem é contratar uma empregada doméstica, o que não resolve o problema”, acrescentou. Tiago Alcântara Em época de aniversário, a APOMAC diz que gostava de ter “mais apoios” financeiros “para promover actividades”, tendo em conta que, actualmente, apenas contam com o dinheiro da Fundação Macau. A cantina tem sido um sucesso e ajuda, em parte, com as despesas. “As pessoas vêm cá comer e está na moda publicar fotografias no Facebook, e isso tem feito propaganda à nossa cantina. Temos tido muita clientela. Somos muito procurados aos fins-de-semana, ao almoço e jantar, e dá uma pequena ajuda financeira à APOMAC. Temos de depender um bocado disso”, confessou. Melhorias a fazer Francisco Manhão e Jorge Fão são a dupla de sempre na APOMAC e parece não haver, para já, outros candidatos. “Vamos envelhecendo e sentimo-nos cansados, mas ainda temos um bocado de saúde para aguentarmos esta casa. Já falámos várias vezes [com potenciais substitutos], mas ninguém se atreve a avançar. Enquanto houver alguém que resolva os problemas deles, não se preocupam. Isso é típico de Macau.” Um dos problemas que Manhão destaca é a necessidade de aumentar salários para funcionários públicos, aposentados e pensionistas de sobrevivência, “pois há três anos que não têm actualização”. Francisco Manhão defende também uma actualização do formato de pagamento. “Não é justa a forma de pagar salários por índice multiplicador. Deveriam ser pagos por cada categoria e de acordo com o salário, para que todos os funcionários públicos, sejam de classe mais baixa ou alta, tenham o mesmo aumento. O sistema está desactualizado.” Francisco Manhão parabenizou ainda o Executivo por ter aumentado em mil patacas os subsídios de velhice e de invalidez, tendo pedido ainda que as autoridades aumentos para os cheques pecuniários das actuais 10 para 11 mil patacas, incluindo os montantes do regime de previdência central, das sete mil patacas actuais para as oito mil. Este aumento seria em consonância com os montantes decididos para os subsídios de velhice e invalidez, explicou. No discurso da cerimónia de aniversário, Francisco Manhão destaca ainda outras questões dos associados da APOMAC, nomeadamente “a impossibilidade de atribuição do Número de Identificação Fiscal a pensionistas de sobrevivência de etnia chinesa”, os “atrasos verificados no pagamento e recebimento de pensões” ou a “suspensão de pensão de sobrevivência a viúvas e a deficiente motor não associado”, entre outros problemas. Com o título “Amor fraterno da APOMAC”, o discurso de Francisco Manhão remete ainda para os apoios obtidos do empresário David Chow e Edmund Ho, primeiro Chefe do Executivo da RAEM, para a criação da APOMAC e da respectiva sede.
Andreia Sofia Silva Grande PlanoHistória | Catálogo revela documentos e objectos das relações luso-chinesas “Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro” é um catálogo bilingue que revela pedaços da história das relações comerciais entre Portugal e China, com registos, documentos e imagens de objectos. Macau também assume papel de destaque na obra lançada na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau Um prato com músicos chineses em trajes europeus, um excerto de uma carta sobre a oficina mecânica em Pequim do jesuíta Tomás Pereira, ou um inventário da sacristia de São Roque com peças chinesas. Estes são alguns dos documentos ou objectos que ajudam a contar a história comercial entre a China e Portugal estabelecida a partir de meados do século XVI, quando os portugueses desembarcaram na China, e, sobretudo, quando os missionários lá chegaram no final do mesmo século. Tudo isto consta no catálogo “Papéis e peças entre a China e Portugal – Testemunhos passados de uma relação com presente e futuro”, lançado na segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e editado pela Húmus. Não faltam ainda, no catálogo, o Dicionário romano-sínico ou uma carta de Álvaro Semedo, jesuíta, “dando novas da China”. Este é o resultado de um trabalho conjunto de muitas instituições do ensino superior portuguesas e chinesas, como o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa (UL), o Centro de Estudos Clássicos da UL, a Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin. O trabalho foi desenvolvido por uma vasta equipa, onde constam nomes como Wang Jincheng na autoria, ao lado de Arnaldo do Espírito Santo; ou Isabel Murta Pina, do CCCM, e Cristina Costa Gomes na coordenação científica, entre outros. O catálogo tem ainda ligação ao projecto “Res Sinicae – Base digital de fontes documentais em latim e em português sobre a China (séculos XVI – XVIII)”. O catálogo está dividido em quatro áreas onde se podem descobrir mais detalhes sobre estes objectos ou documentos, nomeadamente “Língua e Cultura”, “Ciência, Tecnologia e Arte”, “Comércio” e “Diplomacia”. Alexandra Curvelo, professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa e especialista na área da História da Arte, responsável pela apresentação da obra, descreveu-a como um “livro-catálogo”. A obra “apresenta testemunhos dos intercâmbios chineses e portugueses durante os períodos das dinastias Ming e Qing, alguns deles revelados pela primeira vez”. O leitor tem, assim, acesso “a documentação de tipologia muito variada”, que pretende “sublinhar as interacções passadas, que se mantém no presente e que já se projectam no futuro”. Alguns dos documentos e objectos presentes no catálogo “pertencem ao acervo de arquivos, bibliotecas e museus portugueses de vários países europeus, bem como do Brasil”. A edição em chinês e português dará a conhecer “também ao público chinês um corpo histórico de enorme relevância”, afirma Alexandra Curvelo. Pretende-se ainda que o livro “tenha uma divulgação alargada, não sendo apenas circunscrita, ou dirigida, a um público restrito ou especialista”. Aprendizes de chinês Alexandra Curvelo destacou também o capítulo dedicado à língua e cultura, que remete para o “início da chegada dos missionários jesuítas à China e do estabelecimento de uma missão, logo em 1582, tendo começado por aprender o chinês regularmente, ou mais correctamente o Guanhua, o mandarim, língua franca num império marcado pela riqueza e pela diversidade linguística”. Era um idioma que, neste tempo, “os europeus cedo associaram ao latim, a língua internacional das elites intelectuais europeias”. Depressa os jesuítas começaram a desenvolver “inúmeros instrumentos linguísticos para organizar a aprendizagem da língua”, ou seja, o chinês, nomeadamente dicionários. Alexandra Curvelo destacou que o “mais antigo dicionário português-chinês sobrevivente remonta à década de 1580”. Houve ainda, “no campo da matemática, astronomia, geografia, mecânica, relojoaria, hidráulica e artilharia”, uma “verdadeira interacção entre duas culturas científicas, pautadas pela curiosidade, novidade e adaptação”. Alexandra Curvelo destacou o nome de Matteo Ricci entre tantos outros missionários que “fazem parte de uma constelação extraordinária de jesuítas que disseminaram a ciência, tecnologia e arte europeias na China”, dado que “alguns instrumentos começaram a ser produzidos na China, como foi o caso dos relógios mecânicos, com uma dimensão estética também associada”. A professora catedrática em História de Arte destacou, do catálogo, “Excerto da Carta sobre Relógios”, um documento da autoria de Gabriel de Magalhães e que data de 1667, escrito em Pequim. O autor trabalhou no fabrico de relógios mecânicos, entre outras peças, e Alexandra Curvelo considera “curioso” o facto de “se ter designado a si próprio como serralheiro”. “Este mestre de mecânica, que estava à frente da oficina da residência jesuíta, designa-se a si próprio como serralheiro. Esta oficina viria a ser herdada por outro nome maior da presença jesuíta na China, Tomás Pereira, que projectou e construiu um impressionante conjunto de instrumentos musicais e que, por sua vez, se autodenominava de artífice. Ou seja, não se classificavam a si próprios como artistas, o que é um dado muito interessante.” Tratava-se tão somente de fazerem “a valorização da técnica e da mão”, sendo esta a dimensão [do saber técnico], para Alexandra Curvelo, “que está presente também na missão [jesuíta] para o Japão”. O lugar de Macau No terceiro capítulo do livro espelham-se peças e papéis que revelam a intensa ligação entre Portugal e a China na área do comércio, onde Macau não poderia deixar de ter um lugar de destaque. Aqui importa referir o documento sem data, mas que se acredita ter sido escrito no século XVIII por Jorge da Silva, e que consta na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Intitula-se “Relação da importância de Macau no comércio asiático” e, segundo a autora da análise a este documento, Cristina Costa Gomes, “não se conhecem dados em concreto” sobre Jorge da Silva. Porém, trata-se de um papel “que assume particular relevância porque atesta a importância da cidade portuária de Macau no comércio asiático durante o século XVII, que facilmente se explica pela sua localização geográfica estratégica”. Alexandra Curvelo acrescentou também a importância do comércio de cerâmica nestes anos. “Num mundo conectado por intensas trocas comerciais, como era o mundo asiático, onde os mercadores chineses participavam activamente, estabeleceram-se contactos com os portugueses por via também das comunidades mercantes chinesas espalhadas pela Ásia e sobretudo nos portos do Sudeste Asiático. A porcelana chinesa cedo se torna uma das principais mercadorias exportadas para o continente europeu e com um impacto duradouro.” Além disso, deu-se, a partir de 1557, e já com a presença crescente dos portugueses em Macau, o “acesso directo a uma série de mercadorias, como a porcelana, mas também os têxteis, que têm um papel determinante, objectos lacados”, o que coloca os portugueses “numa posição favorável, seja em termos do mercado interno chinês, seja na entrada noutras rotas, designadamente com o Japão e rotas que ligavam este território ao Sudeste Asiático”. Alexandra Curvelo apontou também a “resiliência de Macau frente a uma série de conjunturas desvaloráveis, que lhe permitiu manter-se como plataforma essencial do comércio marítimo intercontinental do mundo moderno”. O comércio com a China de “mercadorias antigas e mais recentes, pôs-se no gosto e consumo das elites europeias, dando origem a novos hábitos de sociabilidade na Europa e processos interessantes de transferência cultural”, como a criação da “primeira sociedade de consumo na Europa”. Porém, “a China já a tinha há bastante mais tempo”, frisou Alexandra Curvelo. Em “Papéis e peças entre a China e Portugal” não faltam ainda documentos como “listas de cargas de navios que dão eco a negociações e transacções, lembrando que o comércio pressupõe sempre o estabelecimento de relações e redes, tanto formais como informais”. Arnaldo do Espírito Santo, co-autor do livro, vincou que a obra “é mais um fruto do passado e presente com futuro, com bons auspícios de outras colaborações”.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeIPOR | Agenda para este ano com mais de 100 cursos Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, diz que a instituição “retomou os números de 2019, mas com uma dinâmica diferente” e que actualmente tem “mais público jovem”. Além do festival “Letras&Companhia”, que começa hoje, o IPOR tem na agenda deste ano uma centena de cursos O Instituto Português do Oriente (IPOR) está bem e recomenda-se. Ao HM, a directora, Patrícia Quaresma, falou da centena de cursos que está programada para este ano, do facto de ter recuperado os números pré-pandemia, em termos de alunos, e de ter professores suficientes. “Nos últimos anos registou-se uma alteração no público-alvo e no tipo de formações que organizamos”, começou por dizer. “Estamos com mais público jovem, a colaborar mais com a DSEDJ [Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude] e as universidades, na formação de professores e em programas de cursos para fins específicos.” Segundo a directora do IPOR, “após um período de quebra, retomamos os números de 2019, mas com uma dinâmica diferente”, sendo que, actualmente, as instalações do IPOR “têm espaço suficiente para acolher as turmas dos cursos que promovemos”. Porém, “a dinâmica” passa também pela crescente realização de acções de formação fora das instalações do IPOR, disse. “No que diz respeito ao corpo docente do nosso Centro de Língua, estamos neste momento com 16 professores em Macau e um em Pequim, número suficiente para responder aos mais de 100 cursos que temos na agenda para 2026”, adiantou. O IPOR foi uma das entidades que, na recente visita do Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, a Lisboa, assinou um protocolo com a Universidade de Coimbra e a DSEDJ para que os estudantes possam continuar os estudos superiores em Coimbra, podendo inscrever-se em licenciaturas e mestrados. Mas já anteriormente o IPOR assinou acordos com a Universidade do Porto e Universidade da Beira Interior. Todos eles permitem “facilitar e enquadrar o acesso e a frequência, por parte de estudantes da RAEM, com estatuto de estudante internacional, a ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciado e de mestre”. “Ao IPOR compete receber as candidaturas dos estudantes, organizar os seus processos e leccionar um curso preparatório de língua portuguesa com a duração de 300 horas. No final do curso, os alunos que atingirem, no mínimo, o nível A2 de proficiência, prosseguem para a universidade em Portugal, onde continuarão mais um ano de aprendizagem de língua, podendo, nalguns casos frequentar, mas sem avaliação, algumas das cadeiras da licenciatura ou mestrado em que foram admitidos, a qual terá início apenas no ano lectivo seguinte. Desta forma, iniciam o ciclo de estudos com uma consistente proficiência em língua portuguesa, idealmente o nível B2, e completamente integrados na vida académica, cultural e social do país”, explicou. Festival envolvente O HM conversou com Patrícia Quaresma a propósito da realização de mais uma edição do Festival “Letras&Companhia”, que começa hoje e que traz nomes de escritores portugueses como Inês Cardoso e Afonso Cruz, e muitas actividades para pais e filhos. “O festival tem procurado envolver as instituições de ensino em todas as actividades, e este ano decidimos reforçar esta participação realizando a cerimónia de abertura na Escola Portuguesa de Macau e convidando a Escola Sun Wah para fazer um espectáculo na abertura do Letras&Companhia com os vencedores do Quarto Concurso de Canto Lusofonia promovido pela escola”, explicou. O festival colabora também, este ano, com a empresa local CESL-Ásia. “Queremos que o Letras&Companhia se torne num marco das memórias dos mais pequenos e das famílias. Procuramos acima de tudo que o festival possa proporcionar bons momentos em português e que, por sua vez, consiga estimular a criatividade, o imaginário e, principalmente, o interesse pela leitura e pelos livros”, acrescentou a directora do IPOR. Patrícia Quaresma diz notar “uma evolução muito positiva” na adesão do público. “Sentimos que o festival já faz parte das agendas das famílias e da comunidade e por isso, procuramos inovar e constituir um programa com novos elementos e actividades.” Um dos exemplos, nesta edição, é a parceria com o Festival de cinema de Lisboa “Monstra”. “O festival procura promover o livro e a leitura, trazendo para o público não apenas um conjunto de publicações de autores dos países de língua portuguesa, mas também através da edição de traduções para chinês de algumas destas publicações. O IPOR tem publicado e apresentado pelo menos uma nova edição em língua chinesa, procurando assim alargar o alcance da literatura, da leitura e dos livros destes autores ao público não falante de língua portuguesa”, rematou.
Andreia Sofia Silva PolíticaPersonalidades políticas pedem que jovens desenvolvam o país Ontem assinalou-se o 4 de Maio de 1919, data associada ao movimento anti-imperialista em Pequim contra o Tratado de Versalhes, marco histórico que motivou várias personalidades políticas locais a pedir a intervenção dos mais novos no desenvolvimento do país. Lam Lon Wai, deputado e presidente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), apontou que a elaboração do 3º Plano Quinquenal da RAEM deve herdar o espírito do 4 de Maio, e levar os jovens a conhecer as estratégias nacionais em termos económicos e a participar na governança social. Lam Lon Wai disse ainda que o país tem destacado os quadros qualificados como força motriz principal e que a FAOM vai incentivar os jovens de Macau a participar no 3º Plano Quinquenal da RAEM. Lam Lon Wai destacou também a realização de mais acções de intercâmbio com parques industriais na Grande Baía e Hengqin, pensadas para jovens. Oportunidades para apanhar Calvin Chui, chefe do conselho de juventude da Associação Comercial de Macau, defendeu que os jovens de Macau devem ser responsáveis, resistentes e ter vontade de lutar. Por sua vez, o vice-presidente da União Geral das Associações dos Moradores de Macau (UGAMM), Tang Man Kei, recordou que o movimento do 4 de Maio tem como valores o patriotismo, progresso, democracia e ciência, que os jovens de Macau devem promover. O responsável disse que a UGAMM vai continuar a ouvir os jovens e responder aos seus pedidos, criando uma plataforma mais ampla de apoio aos estudos, emprego, compra de casa e empreendedorismo. A Associação da Construção Conjunta de um Bom Lar, liderada pelas deputadas Wong Kit Cheng e Loi I Weng, defende que os jovens devem estar atentos às políticas e oportunidades na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin. Wong Kit Cheng sugeriu ainda a elaboração de um estudo sobre a previsão dos recursos humanos para a zona de Hengqin, para estabelecer uma base de dados dos quadros qualificados existentes, para que jovens e empresas possam conhecer as oportunidades disponíveis.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteJosé Ferreira Pinto, docente | Na época da “tirania dos números” Docente na Universidade Cidade de Macau, José Ferreira Pinto acaba de editar, na Amazon, a obra “Arithmocracy: When Numbers Rule and Judgment Disappears”, sobre o poder crescente dos números sobre relações interpessoais. A “aritmocracia” veio, definitivamente, para ficar e é difícil reagir ou encontrar alternativas mais humanas, diz o autor Porque razão decidiu escrever sobre esta “obsessão métrica”? Como profissional académico e consultor, testemunhei uma transformação profunda nas organizações, com a substituição progressiva do julgamento humano pela tirania dos números. A “obsessão métrica” não é simplesmente o uso de dados, mas a elevação da medição a uma posição de domínio organizacional que, paradoxalmente, mina os próprios resultados que a medição pretendia melhorar. É como quando o médico passa mais tempo a documentar do que a curar. A “aritmocracia” não é sobre ter métricas – é sobre as métricas nos terem a nós. Desde a industrialização que os números, no sentido das horas de trabalho, ou contagem da produção, dominam a vida humana. Com a chegada dos meios digitais e, sobretudo, da Inteligência Artificial (IA), podemos ter uma nova fase desta “obsessão métrica”? Charlie Chaplin, em “Modern Times” (1936), profetizou este fenómeno, mostrando como sistemas desenhados para optimizar performance podem produzir situações absurdas, alienação e estupidez sistémica. Com a IA e meios digitais, entramos numa fase exponencialmente mais intensa. Como? A fase industrial, de Chaplin, tinha medição manual, localizada e visível, em que o cronómetro de Taylor media movimento. Aí, o trabalhador via a medição acontecer. Mas na fase digital há a mediação automática, ubíqua e invisível, em que os algoritmos medem cada clique, pausa e desvio sem que nos apercebamos. A IA não reduz a burocracia – torna-se a arma definitiva da “aritmocracia”. O que Chaplin satirizou como loucura mecânica, nós normalizámos como “gestão data-driven”. Hoje a máquina não apenas mede, mas também decide. E quando os algoritmos decidem, a responsabilidade moral dissolve-se: “foi o algoritmo que determinou.” De onde vem o conceito de “aritmocracia”? Tem uma genealogia fascinante, nomeadamente uma raiz histórica em Charles Kinglsey (1850), que cunhou este conceito para criticar a redução da democracia a uma mera contagem de votos: “A ‘democracy’ of mere numbers is no democracy, but a mere brute ‘arithmocracy’.” Há ainda um paralelo histórico com o período da dinastia Qing, na China, (221-206 a.C.), e a revitalização moderna com Anthony Tasgal, um estratega de comunicação, que reintroduziu o termo para descrever “a obsessão com números e medição, a crença numa espécie de infalibilidade divina nos números.” O que faço, no livro, é partir de uma observação sobre disfunção organizacional para uma teoria sobre como os sistemas métricos se tornam regimes de poder, e também porque a resistência individual parece fútil. Como funcionava o sistema de governança por quantificação na dinastia Qing? Esta dinastia oferece um paralelo histórico fascinante e instrutivo – talvez o exemplo pré-moderno mais sofisticado de governança através de quantificação sistemática. O sistema Qin antecipa, com notável precisão, os mecanismos da “aritmocracia” moderna. A filosofia Legista que fundamentou a Dinastia Qin representou uma revolução no pensamento político chinês. Ao contrário do Confucionismo, que enfatizava a virtude moral dos governantes, o Legismo propunha que o Estado deveria operar através de leis fixas e incentivos mensuráveis, nomeadamente com o “Registo Doméstico Sistemático”. Pela primeira vez na história chinesa, cada família foi catalogada, registada e tornada “legível” ao poder central. Este sistema não era meramente administrativo, mas epistemológico. Transformava populações em unidades contáveis que podiam ser taxadas, recrutadas e controladas com precisão sem precedentes. Havia depois o “Sistema de Mérito Quantificado”, em que o status social deixou de ser hereditário para ser determinado por realizações mensuráveis. Por exemplo, os soldados subiam de patente com base em “contagem de cabeças” – o número literal de inimigos mortos em batalha. [Publicou-se também] “O Livro do Senhor Shang”, um texto que articulou uma visão de statecraft [arte de governar] onde recompensas e punições eram calibradas matematicamente a resultados mensuráveis, eliminando a “confusão” introduzida por considerações morais. Deu-se ainda uma estandardização radical, em que pesos, medidas, largura de eixos de carruagens, escrita, moeda, tudo foi uniformizado. Isso tornou o vasto território “legível” à autoridade central, permitindo a administração à distância através de categorias universais. Contudo, a dinastia implodiu apenas 15 anos após a sua fundação – um dos colapsos mais rápidos na história imperial chinesa. Porquê? Deu-se a fragilidade sistémica, com um regime construído inteiramente em métricas abstratas, sem atenção à legitimidade moral ou sensibilidade a condições locais, revelando-se profundamente frágil. Quando uma revolta começou entre trabalhadores recrutados que chegaram atrasados aos seus postos – enfrentando a execução por falhar uma métrica temporal – o império inteiro desmoronou. As regras eram tão rígidas que nenhum contexto importava – e quando as pessoas deixaram de acreditar nas regras, não havia mais nada a sustentar o sistema. Como o historiador Mark Edward Lewis observou, Qin demonstrou que “o poder que flui de cima através de métricas é mais eficiente que o poder que emerge de baixo através de consenso – mas também é infinitamente mais frágil.” Que semelhanças podem ser encontradas com a actualidade? Em ambos [os períodos] se promete a eficiência através de uma quantificação universal, ou ambos tratam a diversidade humana como legível através de categorias estandardizadas. Além disso, privilegiam o controlo central sobre conhecimento local, transformando o julgamento moral em cálculo técnico. Defende-se que o termo “aritmocracia” não é “uma conspiração, mas um padrão emergente onde o sistema de medição, designado como ferramentas, se torna mestre”. Também entende que a forma como pensamos está a mudar. De que forma? A “aritmocracia” opera através do que Mary Douglas chamou “pensamento institucional”, em que sistemas métricos não apenas constrangem comportamento, mas fornecem as categorias cognitivas através das quais processamos experiência. Há três mecanismos de transformação cognitiva, através da naturalização das métricas, em que estas se apresentam não como escolhas institucionais, mas como descrições da realidade. Há ainda a ideia de que “o dashboard [painel de controlo] mostra”, que se torna equivalente a “a realidade é”; as alternativas tornam-se impensáveis. Há ainda uma amnésia institucional, em que as organizações esquecem o que não medem – um hospital que mede o “tempo de espera”, mas não a “compaixão” [para com os doentes], gradualmente esquece que compaixão importa. Há depois a ideia de captura de valor, de Thi Nguyen, em que valores ricos e subtis das pessoas encontram versões simplificadas e quantificadas no ambiente. Ou seja, as versões simplificadas assumem o controlo. Dou um exemplo concreto: um médico que trabalhou 20 anos num sistema de 15 minutos por consulta eventualmente perde a capacidade de diagnóstico profundo. Não por má vontade, mas por atrofia cognitiva – as capacidades que não praticamos, perdemos. Traz casos concretos para esta obra, oriundas de “histórias da academia, sistema de saúde, Governo, educação e hotelaria”. São sistemas métricos que não “apenas nos moldam, mas como reformulam a forma de pensar”. Os casos que o livro documenta são de cinco domínios, e um deles é a academia, em que há a “tirania do h-index”, com académicos a optimizar citações em vez de [garantir] o impacto intelectual [do trabalho produzido]. Há um jogo de rankings, em que as universidades manipulam métricas, encorajando-se candidaturas para rejeitar ou inflacionar rácios professor-aluno. Ainda na área da educação, apresento o “PISA Panic” [pânico ou pressão em torno dos resultados dos testes PISA], pois ministros copiam sistemas de topo em rankings sem questionarem se as métricas PISA capturam o que importa. Há depois a gamificação infantil, com crianças de sete anos a competir por “pontos de leitura”, escolhendo livros por valor de pontos, e não por interesse. [Falo ainda] dos modelos de valor acrescentado, em que professores são avaliados por pontuações de testes, independentemente de contexto. Na área do turismo, que exemplos apresenta? Nos resorts integrados há uma tensão entre a lógica do “gaming”, com controlo e métricas precisas, e a experiência. Há ainda uma gestão de receitas, com sistemas que maximizam a receita de quartos a curto prazo, ao mesmo tempo que potencialmente danificam relações com clientes a longo prazo através [da ideia] da percepção de injustiça nos preços. Há ainda uma inércia activa, quando os resorts que enfrentam desafios competitivos respondem medindo mais intensivamente, analisando mais profundamente, otimizando mais agressivamente, numa actividade sem adaptação. O livro fala da resistência individual à “aritmocracia”. De que forma pode ocorrer? Argumenta-se que resistência individual é largamente fútil – o problema é sistémico. Mas o livro documenta estratégias coletivas emergentes, nomeadamente a existência de métricas democráticas. [Há o caso da cidade de] Porto Alegre, em que os cidadãos deliberam que resultados importam e como medir. Há ainda o exemplo de cooperativas de trabalhadores, em que os empregados estabelecem métricas de performance. Temos ainda o caso da integração narrativa, em que se podem combinar “dashboards” quantitativos com histórias de pacientes, com a ideia de que os números mostram “o quê” e as narrativas explicam “o porquê”. Há depois actos individuais de coragem, como o médico que fecha o computador portátil para realmente ouvir [o doente] ou ainda o gestor que suspende a avaliação métrica para entender o que os empregados realmente precisam. Estes não mudam sistemas sozinhos, mas criam fissuras no edifício “aritmocrático”. Que conclusões retirou desta obra? A “aritmocracia” não representa meramente uma mudança técnica nos sistemas de gestão, sendo uma transformação na própria natureza da agência humana e da autoridade epistémica, na forma como conhecemos o que nos rodeia. Quando um médico experiente enfrenta um paciente cuja condição não se enquadra nos protocolos algorítmicos, o sistema não reconhece [este caso], [reconhecendo apenas] desvios mensuráveis de padrões estatísticos. O médico pode saber que este caso particular requer uma abordagem diferente, mas esse conhecimento não é quantificável, não pode ser inserido numa folha de cálculo, não gera métricas reportáveis. Aos olhos do sistema, não existe. O que se perde não é apenas autonomia profissional, mas a capacidade de responder à singularidade de cada situação humana. Mais profundamente perturbador é o que a “aritmocracia” faz à categoria de pessoa, quando algoritmos de contratação classificam candidatos por “pontuação de adequação”, ou quando plataformas digitais calculam o “valor vitalício do cliente”. Este é um problema da transformação de pessoas em pontos de dados, tratando-as como objectos mensuráveis em vez de sujeitos que se auto-interpretam. A vida humana caracteriza-se por uma pluralidade irredutível de valores que não podem ser reduzidos a uma escala comum de medição. Na prática, os valores que resistem à quantificação tornam-se progressivamente invisíveis e depois indefensáveis. É docente na área do turismo, porquê enveredar por esta área do discurso métrico e do raciocínio em torno dele? Por exemplo, de que forma este domínio do discurso métrico influencia o turismo e as respectivas políticas de gestão? A minha motivação para investigar a aritmocracia emerge da confluência entre a minha posição profissional e os interesses académicos que têm orientado o meu percurso intelectual. Como docente a tempo inteiro na Faculdade de Negócios da Universidade Cidade de Macau, encontro-me numa posição privilegiada para observar e analisar uma ampla diversidade de contextos organizacionais e sistemas de gestão subjacentes. Esta experiência proporciona-me acesso directo às dinâmicas através das quais diferentes tipos de negócios – desde pequenas empresas locais a grandes corporações multinacionais – implementam, resistem ou são transformados por lógicas quantitativas de tomada de decisão. O contacto quotidiano com estudantes que se preparam para entrar nestas realidades organizacionais, bem como com gestores e profissionais que navegam as suas complexidades, permite-me compreender não apenas as estruturas formais da aritmocracia, mas também as suas manifestações vividas e as causas profundas que a sustentam. Esta investigação conecta-se de forma particularmente significativa com o núcleo da minha tese de doutoramento, que se centrou na resiliência aos níveis individual e organizacional. Há uma relação entre a aritmocracia e esta resiliência? A relação entre aritmocracia e resiliência revela-se fundamental de múltiplas formas. Por um lado, sistemas aritmocráticos prometem aumentar a resiliência organizacional através de monitorização contínua, detecção precoce de desvios e resposta baseada em dados. Por outro lado, a própria rigidez destes sistemas pode minar as capacidades adaptativas que constituem uma resiliência genuína – a capacidade de responder criativamente ao inesperado, de mobilizar conhecimento tácito em situações ambíguas, de manter coerência de propósito mesmo quando métricas específicas se tornam temporariamente desfavoráveis. A nível individual, a resiliência dos profissionais confrontados com pressões aritmocráticas torna-se uma questão crítica: como mantêm integridade profissional e bem-estar psicológico quando o seu trabalho é reduzido a indicadores de desempenho? Esta intersecção entre os mecanismos de controlo quantitativo e as capacidades humanas e organizacionais de persistir, adaptar-se e prosperar sob condições de pressão constitui um território conceptual que liga organicamente o meu trabalho anterior a esta investigação presente, permitindo-me explorar como sistemas de governação numérica tanto facilitam quanto constrangem a resiliência em múltiplos níveis de análise. Porquê editar o livro em formato kindle na Amazon? Teve dificuldades em chegar a uma editora? A escolha da auto-publicação em formato Kindle foi deliberada e estratégica, por três razões: a velocidade, pois o livro aborda um fenómeno em rápida aceleração. O processo editorial tradicional, de 12 a 18 meses, tornaria o conteúdo desactualizado. Há depois a questão do alcance global, pois a Amazon permite distribuição imediata em mais de 190 países, essencial para um fenómeno global. Há ainda uma ironia intencional, no sentido do poder do uso de ferramentas da aritmocracia, como os algoritmos da Amazon e as métricas de vendas para criticamente a examinar. É trabalhar dentro do sistema enquanto o questionamos. Quanto às editoras tradicionais, não procurei [nenhuma] activamente. A academia tem os seus próprios rituais de publicação, com sistemas de revisão por pares ou editoras universitárias, mas este livro é, deliberadamente, transdisciplinar – combina antropologia institucional, filosofia, estudos de caso de negócios, crítica de tecnologia. Essa hibridez é difícil de encaixar nas categorias editoriais convencionais.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteJacob Fordham, académico: “Estudo a história dos primeiros macaenses” Jacob Fordham, académico ligado à London School of Economics, está a ultimar um livro que analisa o papel dos tradutores no comércio entre portugueses e chineses em Macau. No âmbito das Conferências da Primavera, no Centro Científico e Cultural de Macau, o investigador apresentou a palestra “Chinese-Portuguese Linguists, Corruption, and Office: a Late Ming Chinese Debate”. Ao HM, diz que os “linguistas” eram “essenciais para gerir relações com chineses” Tem analisado arquivos chineses, ingleses e portugueses sobre o comércio no sul da China. Falamos de um período intenso de negociações, com muitos interesses em jogo? Fiz o doutoramento em Estudos Asiáticos e do Médio Oriente na Universidade de Oxford, investigando a história dos “linguistas” ou “jurubaças” [termo atribuído a chineses cristãos nascidos em Macau] do delta do Rio das Pérolas nos séculos XVI e XVII. Eram tradutores e intérpretes, mas, ao contrário do que esperamos hoje — que os tradutores sejam neutros e discretos — estavam também activamente envolvidos nas relações entre chineses e estrangeiros como negociadores e intermediários. Estudei teoria da tradução, mas fiquei um pouco insatisfeito com a análise de textos traduzidos como forma de estudar a tradução no passado. Porquê? Porque a tradução não é apenas linguística; é um acto social realizado por pessoas num contexto específico, e queria escrever sobre essas pessoas. Por isso, passei da teoria da tradução para a história. Mas voltando a esse período histórico em Macau… Foi, de facto, um período de negociações intensas e de luta pela sobrevivência para a recém-estabelecida cidade de Macau. Não se tratava apenas de um encontro entre duas culturas separadas, mas de um constante vai-e-vem, um contacto que gerou novas formas de pensar a relação entre Estado e comércio, entre chineses e estrangeiros, e assim por diante. Tentei revelar algumas dessas formas de pensamento através da lente dos “linguistas”, que estavam no centro dessas negociações. Na sua apresentação, no Centro Científico e Cultural de Macau, falou do caso de Paulo Neretti [falante de português que esteve envolvido no comércio entre Macau e o Japão no século XVII] e das percepções de Zhang e Chen [figuras chinesas envolvidas no comércio] sobre o seu papel como “linguistas”, especialmente em relação ao poder político e comercial e à busca de lucro. Como encontrou a figura de Paulo Neretti e qual a sua importância? Paulo Neretti foi uma descoberta casual que acabou por ser fascinante. Encontrei-o quando procurava material sobre as primeiras viagens inglesas ao sul da China. Na Biblioteca Bodleian, em Oxford, existe o diário de um mercador inglês que participou na primeira expedição comercial inglesa a chegar a Macau e Cantão, e que lidou com este “linguista” bilingue, Paulo Neretti. A partir daí, segui o rasto arquivístico pelo mundo para descobrir quem ele era exactamente. Descobri que, na verdade, era chinês de nascimento, mas foi criado em Macau na casa de um nobre florentino chamado Orazio Neretti, que se estabeleceu na cidade e chegou a servir como enviado a Nagasaki. Esse agregado incluía outros intérpretes bilingues com ligações até à Coreia e ao Japão. Paulo Neretti teve uma vida extraordinária, sendo eventualmente assassinado em sua casa pouco depois de regressar de um encontro com o imperador Shunzhi, onde actuara como intérprete de uma embaixada holandesa. Foi ele quem me colocou no caminho de estudar os “linguistas” e abriu uma janela para um mundo raramente preservado nos arquivos. Macau foi um porto comercial muito importante no sul da China a partir de meados do século XVI. Como descreveria a relação entre mercadores e tradutores, ou “linguistas” nesse período? Uma relação próxima, com convergência de interesses? Eram completamente dependentes uns dos outros. Na verdade, os “linguistas” pertenciam normalmente à casa de um mercador, criados desde o nascimento a falar ambas as línguas. A ligação aos mercadores dava-lhes acesso a uma actividade potencialmente muito lucrativa; e, para os mercadores — que não falavam muito chinês —, os “linguistas” eram essenciais para gerir as relações com os chineses. Mais especificamente sobre a comunidade macaense, participou activamente nesses jogos de poder em nome da administração portuguesa, ou também da chinesa? Pode dar exemplos? Este foi o período inicial em que aquilo a que chamamos comunidade macaense estava a formar-se. Muitos dos “linguistas” que estudei tinham origens étnicas mistas ou biculturais, o que lhes permitia ser bilingues em português e chinês. Curiosamente, o termo “jurubaça” passou a ser usado não só no sentido de intérprete, mas também como classificativo étnico para chineses cristãos nascidos em Macau, devido à forte associação com essa profissão. Portanto, aquilo que estudo é, na verdade, uma história dos primeiros macaenses. Como descreveria a perspectiva das autoridades chinesas sobre este tipo de comportamento, especialmente em relação a lucro, poder e Estado? Seriam conceitos muito diferentes dos europeus? O que me chamou a atenção ao ler fontes chinesas e europeias foi que todos enfrentavam o mesmo problema: a comercialização trazia oportunidades e perigos. Por um lado, os “linguistas”, vindos de famílias mercantis, eram motivados pelo lucro, e isso podia ser aproveitado pelos oficiais para gerir relações com estrangeiros. Por outro lado, era arriscado, pois significava delegar o controlo da fronteira. Hoje vemos a tradução como algo neutro, mas eles encaravam-na como uma actividade com interesses próprios. Em vez de perguntarem “como traduzem os tradutores?”, perguntavam “por que traduzem?”. Ou seja, qual era a sua motivação? Nas fontes europeias, fala-se da “honestidade” e “coragem” dos tradutores; nas chinesas, da sua “orientação para o bem público” ou “interesse próprio”. Assim, o mesmo problema era pensado de formas diferentes em tradições intelectuais distintas. Podemos concluir que, em termos de corrupção e jogos de poder, as autoridades chinesas estavam conscientes dessas situações e as permitiam para benefício próprio, nomeadamente em Macau? Sem dúvida que estavam conscientes e faziam uso disso. Hoje, o termo “corrupção” tem uma conotação totalmente negativa, mas alguns oficiais chineses da época viam isto como uma oportunidade. O uso das “línguas” motivado pelo lucro permitia ao Estado expandir a sua influência além das suas capacidades directas. Quanto a Hong Kong, surgiu muito mais tarde, quando os “linguistas” já tinham perdido importância e eram essencialmente funcionários aduaneiros. Este sistema de gestão de fronteira, delegado a intermediários semi-estatais e semi-comerciais, foi bastante específico dos séculos XVI e XVII. O que revelam estes casos sobre a presença portuguesa e britânica no sul da China e o comércio da época? Estes debates ajudam a compreender como eram as relações entre a China e os países europeus na época moderna. Muitas vezes, essas relações são vistas de forma negativa, com a ideia de que a China era fechada, xenófoba e imutável. Mas estes casos mostram que isso não é verdade. A forma de pensar era diferente da nossa. Que investigação pretende desenvolver no pós-doutoramento? Estou a escrever um livro baseado nesta investigação, que está quase concluído. Espero que esse livro mostre uma história mais humana e que vá além dos estereótipos de uma China passiva e estática. Também podemos aprender com eles sobre o papel de intermediários informais em zonas de fronteira hoje. Estou também a iniciar um novo projecto sobre as relações entre Macau e Malaca, bem como com o mundo malaio em geral.
Andreia Sofia Silva EventosCotai | Restaurante de José Avillez no “100 Top Tables 2026” O restaurante Mesa by José Avillez, no Grand Lisboa Palace, e que tem como chef executivo Herlander Fernandes, consta na mais recente lista dos 100 melhores restaurantes do jornal South China Morning Post, o “100 Top Tables 2026”. Ao lado do Mesa, descrito como um “espaço elegante que oferece clássicos portugueses ao mais alto nível”, surgem nomes habituais como o The Eight ou Robuchon au Dôme Já é conhecida a mais recente lista “100 Top Tables 2026” do jornal em língua inglesa de Hong Kong South China Morning Post (SCMP), e Macau leva para esta contagem um punhado de restaurantes, na maioria de comida cantonense. Há, porém, um único restaurante de comida portuguesa: o Mesa by José Avillez, que funciona no empreendimento Grand Lisboa Palace, no Cotai, mais concretamente no Hotel Karl Lagerfeld, e que tem como chef executivo Herlander Fernandes. O restaurante abriu em Maio de 2023 e é descrito nesta edição do “100 Top Tables 2026” como um “espaço elegante que oferece clássicos portugueses ao mais alto nível”. “Se a comida portuguesa em Macau é obrigatória, poucos lugares a executam melhor do que o Mesa, onde José Avillez apresenta uma visão refinada e contemporânea da sua cozinha de origem. A elegante sala de jantar — concebida pelo falecido ícone da moda Karl Lagerfeld — destaca-se por um dramático tecto estrelado em LED que transforma o ambiente do dia para a noite”, pode ler-se. Esta lista do SCMP destaca ainda que Herlander Fernandes “lidera uma equipa que equilibra sabores clássicos com um toque moderno, oferecendo pratos como o leitão crocante de assinatura, o rico arroz de marisco com caviar e o popular pastel de bacalhau como entrada”. É também referido o “imaginativo” “One of the Three Little Pigs” para sobremesa, considerada uma criação divertida com bolachas de bolota, gelado com infusão de presunto curado e caramelo de tutano”, e que para o júri “revela o lado mais criativo da cozinha”. Ainda dentro do universo da Sociedade de Jogos de Macau (SJM), operadora de jogo a que pertence o Grand Lisboa Palace e o hotel Karl Lagerfeld, há mais dois restaurantes na lista: o The Eight e Robuchou au Dôme, ambos no hotel Grand Lisboa, na península. O que é chinês é bom No rol de restaurantes onde se podem degustar grandes refeições com a promessa de qualidade e requinte constam seis em empreendimentos da Melco: o Alain Ducasse no Morpheus, DIVA, Jade Dragon, Pearl Dragon, Yí e Ying. Segundo um comunicado da operadora de jogo, esta inclusão no “Top 100” prova “o compromisso contínuo da Melco no apoio ao estatuto de Macau como Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO”. Este guia é publicado anualmente e revela o melhor da alta gastronomia não apenas em Macau, como em Hong Kong. No caso da Melco, distinguiu-se “a elegância contemporânea francesa do Alain Ducasse” no Morpheus” bem como “os inovadores sabores regionais chineses do Yí”, sem esquecer “as sofisticadas tradições cantonesas do Jade Dragon e do Ying”. Lawrence Ho, presidente e CEO da Melco Resorts & Entertainment, felicitou “as nossas talentosas equipas culinárias e de alimentos e bebidas pela sua dedicação incansável à excelência”. No caso da Galaxy, são cinco os restaurantes no “100 Top Tables”, como é o caso do Feng Wei Ju, 8½ Otto e Mezzo BOMBANA, Lai Heen, Sushi Kissho by Miyakawa e Teppanyaki Shou. “A inclusão de vários restaurantes do Galaxy Macau, abrangendo as tradições culinárias chinesa, italiana e japonesa, reflecte a capacidade deste premiado resort de luxo para reunir talento de classe mundial, mestria refinada e hospitalidade irrepreensível num único destino”, lê-se ainda. Já a operadora MGM colocou dois espaços gastronómicos na lista: o Imperial Court, situado no MGM MACAU, e o Five Foot Road, no MGM COTAI, sendo esta uma repetição no guia, à semelhança de outros restaurantes aqui citados. Esta é já a 14ª edição do guia do SCMP, sendo “amplamente considerado como um dos guias gastronómicos mais conceituados de Hong Kong e Macau”, tendo ainda por júri “críticos gastronómicos e especialistas do sector”, explica a MGM. Se o Imperial Court revela o melhor da culinária tradicional Lingnan Guangfu, com o chefe executivo Homan Tsui, o Five Foot Road “inspira-se na cultura dos grandes banquetes das mansões de Chengdu durante a era republicana, oferecendo uma experiência de alta cozinha de Sichuan imersiva que enfatiza o ritual, a profundidade e a complexidade de sabores”, descreve a operadora de jogo. O seu subchefe executivo é Yang Dengquan e tem mais de 40 anos de experiência, fazendo “interpretações refinadas de pratos clássicos, incluindo o tradicional Ninho de Andorinha Estufado com Frango Picado e Clara de Ovo em Caldo”, é descrito. Também o Wynn levou quatro restaurantes para a lista do SCMP, nomeadamente o Chef Tam’s Seasons e o Mizumi, no Wynn Palace, juntamente com o Wing Lei e Drunken Fish, no empreendimento Wynn Macau. A operadora de jogo teve ainda direito a uma estreia, com o Wing Lei Bar, também no Wynn Palace.
Andreia Sofia Silva EventosFestival K-Spark estreia em Macau com concerto de G-Dragon É já este sábado, 2 de Maio, que o cantor sul-coreano de K-Pop G-Dragon, considerado como o “Rei do K-Pop” actua em Macau no âmbito do festival de música K-Spark, na Zona de Espectáculos ao Ar Livre, no Cotai. O espectáculo será o mote para G-Dragon apresentar o seu mais recente álbum, editado no ano passado, “Übermensch”. G-Dragon é também membro integrante da “boys band” Big Bang, com a qual actuou recentemente no festival de música Coachella. G-Dragon, de nome Kwon Ji-yong, alinha também nas sonoridades rapp, compõe e produz canções, sendo um dos mais conhecidos nomes da pop coreana com sucesso em todo o mundo. A ligação aos Big Bang surgiu em 2006, tendo produzido grandes sucessos como “Heartbreaker” ou “Crooked”. “Übermensch” é o terceiro álbum de estúdio de G-Dragon, um trabalho discográfico que deu origem a um documentário sobre a digressão com o mesmo nome, em que “cada som, cada respiração e cada instante que redefine o seu legado irrompe no grande ecrã”, lê-se na sinopse do filme, que esteve nas salas de cinema no ano passado. Nesta película, os fãs ou simplesmente curiosos deste fenómeno do K-pop podem sentir “a energia bruta, o fogo, a magia irrepetível captada ao vivo e liberta no grande ecrã”. Regresso a Macau De frisar que esta não é a primeira vez que G-Dragon actua em Macau, já que no ano passado, em Junho, foi a vez da Galaxy Arena acolher dois concertos do cantor, também com a tourné criada no âmbito do lançamento deste terceiro disco. O primeiro concerto da digressão aconteceu no Goyang Stadium, Coreia do Sul, tendo Macau sido a quinta paragem depois dos espectáculos em algumas cidades no Japão. A passagem de G-Dragon pelo território gerou alguma polémica por terem sido encontrados trabalhadores ilegais em postos de venda do concerto, levando mesmo alguns deputados a criticarem o sucedido na Assembleia Legislativa. No festival K-Spark deste sábado espera-se ainda actuações de outros grupos coreanos, como é o caso de Daesung, P1Harmony, Kiss Of Life e KiiiKiii. A organização destaca “um design de palco único e combinação de artistas” que promete fazer as delícias dos fãs. A mais recente edição deste festival ocorreu na Malásia, em Janeiro deste ano, também com a actuação de G-Dragon e de nomes como Hwasa, Itzy, Dpr Ian, Dolla e 3P. A Zona de Espectáculos ao Ar Livre foi inaugurada em 2024 e tem capacidade para mais de 50 mil pessoas.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteLiteratura | Beltrão Coelho lamenta falta de visibilidade de Leal de Carvalho Rodrigo Leal de Carvalho, juiz e escritor falecido em Janeiro aos 93 anos, “foi sempre preterido em termos oficiais” em Macau, segundo Rogério Beltrão Coelho, que publicou a maioria das obras de Leal de Carvalho com a Livros do Oriente. Num colóquio online, Beltrão Coelho denunciou a dificuldade de criar, ou manter presentes, livros de Macau em Portugal Decorreu na terça-feira o “Congresso de Homenagem a Rodrigo Leal de Carvalho”, juiz do Supremo Tribunal de Justiça e escritor recentemente falecido, aos 93 anos. O evento, online, foi promovido no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, ligado a dois centros de investigação da Universidade Nova de Lisboa. Na sessão, Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente e responsável por grande parte da edição dos romances de Leal de Carvalho, destacou o facto de ser quase “a primeira vez, em 15 anos de actividade ligada ao autor, que o editor é chamado a participar” e a falar sobre a obra deste autor que viveu em Macau no âmbito da sua actividade jurídica, mas sobre o qual deixou obra literária importante. Rogério Beltrão Coelho, que editou, com a Livros do Oriente, títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”, destacou que este romance daria “um filme extraordinário”, mas essa ideia “nunca foi sugerida por ninguém, nem pelos serviços oficiais, que nunca fizeram a abordagem para esse projecto”. Beltrão Coelho lamenta mesmo que o Instituto Cultural (IC) não tenha dado a devida atenção a Leal de Carvalho e que se tenha imiscuído, muitas vezes, nas tarefas que cabe ao editor de um escritor. “Houve, durante uns 15 anos, uma oposição sistemática dos serviços públicos, que queriam chamar a si uma actividade que, à partida, pode ser oficial com algumas condições, como é o caso da Imprensa Oficial, mas que em Macau tem uma componente comercial e de divulgação que os serviços públicos não podem fazer. E o doutor Leal de Carvalho foi sempre preterido em termos oficiais durante os anos em que esteve em Macau. Respeitavam-no, ninguém dizia que não era bom [escritor], mas foi sempre preterido. Ainda bem que se está agora a falar nele, e a ser reavivado”, disse. O fundador da Livros do Oriente diz ter “sofrido por não dar a Rodrigo Leal de Carvalho a posição que ele, de facto, merecia”. “Fizemos [Livros do Oriente] tudo o que estava ao nosso alcance, e deu até certo ponto, mas não deu tudo o que gostaria que tivesse dado”, acrescentou. Beltrão Coelho referiu os tempos em que o IC, nos anos 80, “produzia livros sem revisão prévia” que, “depois de impressos, e com gralhas, iam para o lixo e faziam-se outros, porque havia dinheiro”. “Portanto, o Instituto Cultural não estava vocacionado para ser editor, mas para regular a actividade, criar condições para as editoras produzirem, criar prémios literários. Mas chamava a si tudo isso [tarefas do editor], inclusivamente as feiras do livro fora de Macau, em que o Instituto Cultural ia sem convidar ninguém.” Nas palavras de Rogério Beltrão Coelho, que falou na apresentação “As publicações de Rodrigo Leal de Carvalho em Macau”, a Livros do Oriente “foi, seguramente, a editora que produziu, sem exagero, 90 por cento da ficção de Macau nos anos 90 e que tem mais de 14 autores de ficção e 9 de poesia editados”. Ainda sobre a ligação do IC com editores e livreiros, Beltrão Coelho recorda que nem sempre beneficiaram da divulgação da literatura que se fazia no território, pois “de cada vez que alguém chegava a Macau e perguntava o que se passava em termos literários, o caminho indicado era apenas um [o próprio IC]”, e que “nunca ninguém foi encaminhado para a Livros do Oriente”. Uma “ligação visceral” Foi em 1992 que Beltrão Coelho travou contacto com Rodrigo Leal de Carvalho, quando este foi colocado em Macau, sendo um “dos mais discretos magistrados” do território, no papel de Procurador-geral Adjunto. Foi aí que o editor teve conhecimento da escrita de “Requiem por Irina Ostrakoff”, editado em Janeiro de 1993. Leal de Carvalho ainda pensou em usar um pseudónimo, mas foi o seu nome verdadeiro que foi dado à estampa. “Estávamos perante o que se poderia classificar de romance histórico, romance-saga ou romance psicológico, no qual eram intersectados acontecimentos históricos ocorridos nos espaços geográficos onde os protagonistas iam vivendo entre as décadas de 20 e 50 do século XX. Tudo com uma rara qualidade literária cuja publicação se impunha”, disse Beltrão Coelho. “Requiem por Irina Ostrakoff” foi um sucesso, com três edições, “uma situação excepcional em Macau”, e foi “a única obra de ficção distinguida em 1994 com um galardão literário – o prémio IPOR [Instituto Português do Oriente] – nos últimos 25 anos de administração do território”. Beltrão Coelho recordou a “ligação profunda e visceral a Macau” que Leal de Carvalho manteve nos sete livros seguintes editados por si. “Inteligentemente, e felizmente para nós, leitores, é sempre uma ligação apaixonada e irónica, sem deixar de exercer suficientemente a crítica a Macau, às suas gentes e etnias. Macau é a dama pela qual luta e sofre, numa adesão total quase carnal. A tudo isso se pode acrescentar uma extraordinária capacidade de recriar ambientes e passá-los vivos, quase interactivos, usando uma linguagem moderna para quem o lê, o que não acontece só com Macau”, recordou. Beltrão Coelho lembrou ainda a personalidade de Leal de Carvalho, um autor “teimoso” com algumas escolhas e ideias, e que, no território, “cedo engajou a simpatia das elites, e não só, de Macau, passando a figura omnipresente nas actividades culturais do território”, embora fosse “formal e discreto como entendia ser exigência do seu estatuto”. “Ninguém alguma vez imaginou que pudesse ser autor de uma obra como ‘Irina’, não pela qualidade da escrita, que se podia adivinhar pela muito elevada cultura que lhe se conhecia, mas pelo comportamento conservador, reservado e até tímido.” Foi também destacada a edição de “As Rosas Brancas do Surrey”, em Dezembro de 2007, livro que começou a ser publicado em formato folhetim no jornal Ponto Final em 2005. Um “percurso inédito” Para Rogério Beltrão Coelho, “toda a obra de Leal de Carvalho fez um percurso inédito em Macau”, com títulos “a serem, quase sempre, os mais procurados no que se refere à literatura de Macau e que, durante os anos 90, antes do colapso das grandes distribuidoras em Portugal, estiveram acessíveis nas livrarias do país” e até na Feira do Livro de Lisboa. Beltrão Coelho deixou no ar a possibilidade de Rodrigo Leal de Carvalho ser “o mais importante escritor que se refere ao Extremo Oriente, na senda de William Somerset Maugham, Joseph Conrad ou Rudyard Kipling”, sem desprimor para autores como Maria Ondina Braga ou Venceslau de Morais. Quem o leu, de Macau, e “os macaenses liam-no muito”, encontraram nos seus livros “as histórias que eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas, embora de forma ficcionada”. “Mas sabiam quem eram os personagens – alguns deles extremamente irónicos, sobretudo nas críticas que fazia à incapacidade da administração portuguesa que ‘reinava’ em Macau”. “Era um homem notável e, sobretudo, com uma educação e delicadeza… só tinha amigos e admiradores em Macau”, frisou. O fim da livraria Ainda sobre a dificuldade de distribuição, ou da existência, de obras sobre Macau em Portugal, Rogério Beltrão Coelho lamentou o encerramento, no período da covid-19, da livraria que funcionava na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, e que anualmente se fazia representar na Feira do Livro de Lisboa. “Tínhamos uma livraria na delegação de Macau e a primeira coisa que se fez foi acabar com isso. Não havendo livros em mais lado nenhum, encaminhavam-se as pessoas para aquele sítio. Hoje não há nenhum local com livros de Macau, e como é um tema que não é muito generalista, as livrarias não aceitam [as obras]. Não é fácil [a distribuição]”, salientou. Beltrão Coelho destacou que em 1999, aquando da transferência da administração portuguesa de Macau para a China, a Livros do Oriente propôs oferecer dois exemplares de cada uma das edições às bibliotecas portuguesas, o que aconteceu. “Verificou-se, e hoje verifica-se dez vezes mais, que as bibliotecas recusavam porque não era tema que lhes interessasse, ou não tinham espaço”. Além disso, fazer reedições “não é fácil” por não haver “mercado”. O fundador da Livros do Oriente deixou a sugestão de digitalizar algumas obras e colocá-las na Biblioteca Nacional. O congresso desta terça-feira contou ainda com a apresentação do livro “Dois Olhares sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho”, edição deste ano de Dora Nunes Gago e Anabela Freitas. Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, falou do lugar da mulher nas obras do romancista, enquanto que o tradutor David Brookshaw protagonizou a apresentação “Macau como destino, Macau como lugar de passagem. As ironias do destino na obra de Rodrigo Leal de Carvalho.” Mónica Simas, Dora Nunes Gago e Ana Paula Laborinho foram outras intervenientes no congresso.
Andreia Sofia Silva PolíticaAcidentes de trabalho | Deputado alerta para casos graves O deputado Leong Pou U afirmou ontem que continuam a ocorrer com frequência em Macau acidentes de trabalho graves, apesar da ” situação geral dos acidentes de trabalho” ter conhecido “melhorias”. Na intervenção antes da ordem do dia durante o plenário de ontem da Assembleia Legislativa, o deputado disse que em 2025 se registaram “nove mortes em acidentes de trabalho, mais quatro do que em 2024”, além de que, em Março deste ano, se registou “um acidente de trabalho fatal no Porto Interior”. No seu entender, falta “aperfeiçoar a legislação sobre a segurança e saúde ocupacional nos diversos sectores”, bem como o “reforçar inspecções e acções de sensibilização”. Relativamente à chegada da época dos tufões, Leong Pou U chama a atenção para a previsão de cinco a oito tempestades, “número normal ou ligeiramente acima da média”, pelo que são necessárias regras para dias de chuva intensa, mesmo sem sinal 8 de tufão. “As autoridades devem reavaliar, oportunamente, a eficácia desta orientação, alargando a sua aplicação a diferentes tipos de fenómenos meteorológicos extremos, a fim de melhor proteger a segurança dos trabalhadores de todos os sectores”, rematou. Leong Pou U lembrou também que o “Regime jurídico da reparação por danos emergentes de acidentes de trabalho e doenças profissionais” vigora há 30 anos, defendendo “a sua revisão atempada”.
Andreia Sofia Silva PolíticaArtes | Pedida política concertada no sector O deputado Lam Fat Iam recorreu ontem ao período de Intervenções Antes da Ordem do Dia (IAOD), no debate no hemiciclo, para pedir uma maior concertação do sector artístico, com o “aperfeiçoamento da implementação das políticas” e promoção “do desenvolvimento do sector de colecção de obras artísticas em Macau”. “O Governo já reconheceu que o desenvolvimento da indústria cultural não pode continuar a ser feito de forma fragmentada, devendo entrar numa fase de planeamento mais prospectivo e sistemático”, disse, alertando para o facto de o território “carecer de plataformas de transacção estáveis e com dimensão adequada”, ao nível de galerias de artes, leiloeiras e feiras de arte. Lam Fat Iam lamenta também que “serviços complementares especializados, como a autenticação, a avaliação, a conservação e restauro, os seguros, o armazenamento e a logística, ainda não estejam ainda desenvolvidos”, o que faz com que “as obras dos artistas locais tenham, regra geral, dificuldades em entrar no mercado de colecções”. Porém, o deputado entende que Macau “não está desprovido de condições para desenvolver o sector de colecção de obras artísticas”, sugerindo a combinação “da colecção de obras artísticas com o turismo, as convenções e exposições, a hotelaria e o consumo de luxo”. Na intervenção, foi ainda pedido o “acelerar do desenvolvimento de plataformas de mercado para colmatar as lacunas na cadeia industrial” e mais apoios a “galerias profissionais, casas de leilões, feiras de arte e plataformas de transacção”. Deve também ser reforçada “a ligação entre os artistas locais e o mercado”.
Andreia Sofia Silva PolíticaDeputados aproveitam “boleia” do 1º de Maio para apontar falhas ao mercado laboral O facto de amanhã se celebrar o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, na sexta-feira, foi o mote para alguns deputados frisarem ontem na Assembleia Legislativa (AL) algumas das lacunas existentes no mercado laboral. O deputado Leong Sun Iok citou o mais recente relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre as “Tendências Sociais e do Emprego 2026”, relativamente aos “desafios que persistem” mesmo com a estabilidade “da taxa de desemprego global”. O deputado chama também a atenção para os alertas incluídos no documento: a influência “de diferentes níveis das novas tecnologias, como a inteligência artificial generativa” e o “rápido envelhecimento da força laboral”. Para Leong Sun Iok o documento “reflecte, em certa medida, a realidade de Macau”, chamando a atenção para o facto de, no ano passado, se terem registado 2.300 residentes desempregados com idades entre os 25 e os 34 anos, “mais 300 pessoas em termos anuais”. “Uma parte dos jovens enfrenta um ‘desajuste de competências'”, enquanto “o número de residentes desempregados com mais de 55 anos mantém-se em torno de 1100”. Assim, o deputado dos Operários sugeriu a “coordenação entre políticas, empresas e escolas em resposta às necessidades concretas do mercado”, a fim de “eliminar obstáculos ao emprego e reduzir o desemprego juvenil” e “suprir a falta de capacidade técnica em Macau”. Leong Sun Iok diz que foi com “grande satisfação” que encarou “o aumento das férias anuais remuneradas e da licença de maternidade”, mas falta “a garantia efectiva do direito ao descanso e às férias dos prestadores de cuidados familiares”. Mais estudos Já a deputada Loi I Weng, com a intervenção “Reforçar a protecção dos direitos laborais das mulheres e construir um ambiente de emprego favorável à natalidade”, afirmou que “a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho em Macau continua a aumentar”. Porém, “muitas ainda enfrentam certas dificuldades relacionadas com a maternidade e a criação dos filhos, nomeadamente as reduzidas licenças de maternidade e licença parental”, bem como “dificuldades de reinserção profissional após a licença”. Para a deputada, estes aspectos são entraves ao aumento da taxa de natalidade no território, pedindo “o prolongamento da licença de maternidade remunerada” até 90 dias, bem como “o aumento do número de dias de subsídio” pago aos empregadores, tornando esta “uma medida permanente, para aliviar os encargos das Pequenas e Médias Empresas”. Loi I Weng pede ainda prioridade “à extensão da licença de paternidade paga” e a implementação “da licença parental, licença para consultas pré-natal e intervalos para amamentação”. Foi também sugerida a realização “de um estudo sobre a criação de um fundo especial para as políticas de apoio às famílias que apoie as empresas na implementação de práticas nesta vertente”, com recurso a “obrigações legais e subsídios”.
Andreia Sofia Silva PolíticaLei que regula uso de áreas marítimas aprovada na generalidade O hemiciclo aprovou ontem, na generalidade, a proposta de lei do uso de áreas marítimas, que regula a utilização de uma área de 85 quilómetros quadrados, oitos anos depois da entrada em vigor da Lei de Bases de Gestão das Áreas Marítimas, em 2018. Leong Sun Iok foi um dos deputados que colocou questões, nomeadamente quanto ao uso de espaços como a Doca dos Pescadores, Clube Náutico ou Cais 16. “Que utilizadores teremos nas áreas marítimas da RAEM? Trata-se de uma área pequena, com 85 quilómetros quadrados, e não há muito espaço para o desenvolvimento da navegação ou actividade piscatória. Como podemos desenvolver os recursos que temos?”, questionou. O deputado alertou para a importância de políticas que garantam “que a sociedade utiliza estes recursos marítimos”, bem como a “protecção ambiental e da fauna marítima”. Já Nick Lei destacou que as zonas marítimas constituem “um importante recurso que contribui para a diversificação da economia e desenvolvimento sustentável de Macau”. O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, disse que seis zonas estão a ser alvo de planeamento, e que “os trabalhos estão a ser desenvolvidos e a grande maioria dos casos já foi resolvida”. Raymond Tam disse, por exemplo, que a regulação das palafitas de Coloane inclui-se neste diploma, enquanto diversos organismos públicos vão coordenar-se em matérias como protecção ambiental ou o melhor uso destes espaços. Licenças e concursos Na nota justificativa da proposta de lei, que vai agora ser analisada na especialidade pelos deputados, o Governo propõe que “as áreas marítimas pertencem ao domínio público, cabendo ao Governo da RAEM o exercício do poder de gestão das áreas marítimas”, pelo que “o uso das áreas marítimas por entidades privadas está sujeito a autorização prévia da RAEM”. O uso privado pode ser feito através de concessão por concurso público, existindo excepções para a realização de concursos; ou através de autorização de uso temporário. As concessões são atribuídas para um prazo entre dois e 15 anos, podendo a sua extensão ser feita por cinco anos. Não é permitido adquirir zonas marítimas por usucapião. O Executivo pretende garantir “o aproveitamento racional e sustentável das áreas marítimas”, estabelecendo-se, desta forma, “as obrigações a assumir e normas a observar pelos titulares do direito de uso das áreas marítimas”. Definem-se “normas de fiscalização” dessas áreas e “um regime sancionatório”, com multas a definir consoante o tamanho da área marítima e o tipo de infracção cometida. Os valores podem ir, no caso de infracções administrativas, de 5.000 a 500.000 patacas. Os privados que ganhem a concessão destes espaços devem apresentar à Direcção dos Serviços para os Assuntos Marítimos e da Água “informações do estudo justificativo do uso das áreas”, lê-se na nota justificativa do diploma. Recorde-se que os 85 quilómetros quadrados de zonas marítimas foram incluídos no Mapa da Divisão Administrativa da RAEM, promulgado por decreto pelo Conselho de Estado do país. A sessão plenária de ontem serviu também para aprovar, na especialidade, o Regime Jurídico da Construção Urbana e ainda a Lei da Publicidade.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaCrise energética | Deputados exigem medidas para travar preços dos combustíveis A criação de fundos de apoios, subsídios permanentes ao sector dos transportes e mercadorias e a aposta em energias verdes foram algumas das ideias que Kevin Ho e Song Pek Kei sugeriram ontem ao Executivo para contornar a subida de preço dos combustíveis A guerra no Irão e no Médio Oriente tem provocado uma escalada de preços a nível global, e também Macau enfrenta o risco de aumento dos preços da energia e dos produtos em termos gerais. A pensar nesta questão, dois deputados recorreram ontem ao período de intervenções antes da ordem do dia para pedir ao Executivo medidas concretas de apoio ao sector da logística e transportes. Um deles foi o empresário Kevin Ho, que pediu “medidas de curto prazo para atribuição de subsídios de combustíveis, prestando apoio directo e preciso ao sector dos transportes e da logística”, além de, no seu entender, ser necessário “reforçar a fiscalização dos preços dos combustíveis”. O deputado eleito pela via indirecta pede também a criação de um “mecanismo de sobretaxa de combustível nos transportes públicos, cobrando uma sobretaxa provisória quando o preço do petróleo ultrapassar o limite definido, com a respectiva suspensão automática quando o preço do petróleo descer”. Tudo para “aliviar a pressão sobre os custos do sector”. “Se o lucro exceder o limite autorizado, o montante excedente deve ser ‘devolvido’ através da redução das tarifas dos serviços de transportes, o que vai ajudar as operadoras a enfrentar o impacto do preço do petróleo e salvaguardar os interesses dos passageiros”, indicou Kevin Ho. O deputado sugeriu também “criação de um fundo para estabilizar os preços dos combustíveis no sector dos transportes e logística”, tendo em conta os preços praticados nos mercados internacionais. Assim, a ideia é que as autoridades possam recorrer “a meios institucionalizados para fazer face às flutuações drásticas do mercado energético internacional”. Aposta no hidrogénio Também a deputada Song Pek Kei, ligada à comunidade de Fujian, falou da crise energética que pode impactar Macau, sugerindo a elaboração de políticas em prol de energias limpas. “A generalização dos veículos movidos a energia eléctrica é cada vez mais rápida, mas representa menos de dez por cento do número total de veículos motorizados, uma percentagem relativamente baixa”, alertou. Assim, as autoridades devem “lançar políticas de apoio mais atractivas para incentivar as empresas e os residentes a substituir veículos movidos a novas fontes de energia”, bem como “acelerar o aperfeiçoamento da rede de infra-estruturas de carregamento e de troca de energia eléctrica”. Song Pek Kei pediu também celeridade no “lançamento de planos de estudo sobre a aplicação da energia de hidrogénio, a fim de elevar a fiabilidade e a segurança do fornecimento de energia”. Também Kevin Ho falou da importância do uso de “combustíveis fósseis para electrificação”, a fim de “reduzir a dependência externa”, devendo ser investidos “mais recursos” e criar “incentivos políticos que impulsionem o desenvolvimento das energias verdes”. Por seu turno, Ella Lei realçou a “preocupação persistente da sociedade” face ao que chama de “subidas rápidas e descidas lentas” nos preços dos combustíveis. No leque de sugestões, a deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau falou na necessidade de reforço da “supervisão do abastecimento e formação de preços dos produtos petrolíferos”, com um mecanismo de ajuste “razoável e transparente”. A deputada defende que o Executivo deve “continuar a estudar e propor a introdução da Gasolina Sem Chumbo 95 nos terrenos destinados aos novos postos de abastecimento de combustível”, bem como “introduzir mais fontes de energia”, nomeadamente o reforço da “promoção do desenvolvimento dos novos meios de transporte”, entre outras medidas.
Andreia Sofia Silva EventosConcerto | Grupo EXO actua no Galaxy a 22 e 23 de Maio “EXO Planet #6 EXhOrizon (Macau)” é o nome do espectáculo, em dose dupla, que o Galaxy Arena traz aos fãs da “boys-band” sul coreana. Os EXO actuam nos dias 22 e 23 de Maio no território, mostrando porque são um dos grupos mais famosos do meio. Juntos desde 2012, o álbum de estreia revelou-se um sucesso instantâneo A Coreia do Sul é um país pródigo em colocar no mercado musical novos talentos, sobretudo ligados à música pop e em grupos de jovens rapazes e raparigas com rostos perfeitos, numa verdadeira indústria. O K-Pop, ou pop coreano, já é conhecido em todo o mundo, com legiões de fãs em vários países, e os EXO enquadram-se, definitivamente, num dos grandes nomes a reter deste universo da música coreana. Os fãs de Macau terão a oportunidade de os ouvir, incluindo o público que os pode ouvir pela primeira vez, em dois concertos no Galaxy Arena agendados para os dias 22 e 23 de Maio. A estreia dos EXO deu-se em 2012, sendo conhecidos pelas suas performances em palco cheias de coreografias capazes de encantar o público. O seu primeiro álbum de estúdio vendeu mais de um milhão de cópias, sendo que o conceito por detrás da banda é que cada membro tem uma espécie de “super-poder” dentro de um “universo” muito concreto. No Galaxy Arena, a audiência poderá ver e ouvir “um novo capítulo” deste universo EXO, que “tem como tema o ‘Horizonte’, simbolizando um novo começo”, descreve-se na apresentação oficial do espectáculo. Novo álbum na estrada Inicialmente, os EXO eram formados por 12 rapazes, mas actualmente são nove os que fazem parte do grupo: Xiumin, Suho, Lay, Baekyun, Chen, Chanyeol, D.O., Kai e Sehun. Além de cantarem em coreano, também o fazem em mandarim e japonês, decerto a pensar chegar a um público mais vasto e a outros mercados discográficos da Ásia. Os EXO acabam também de lançar um novo álbum, que decerto poderá ser ouvido no Galaxy Arena. Trata-se de “REVERXE – The 8th Album”, que inclui faixas como “Crown”, que deu origem a um videoclip filmado numa casa antiga, cheio de adrenalina e efeitos especiais; “Back it Up”, “Crazy”, “Suffocate”, “Moolight Shadows”, “Back Pocket”, “Touch & Go”, “Flatline” e “I’m Home”, também uma canção escolhida para a produção de um videoclip. O último álbum de estúdio lançado pelo grupo aconteceu em 2023, intitulando-se “EXIST – The 7th Album”. Na plataforma digital Spotify, os EXO têm mais de seis milhões de ouvintes por mês. Numa crítica ao disco de Robin Murray, para a plataforma ClashMusic, lê-se que “REVERXE” é um bom regresso da banda às grandes canções. Trata-se de um regresso dos EXO “em plena forma”, tratando-se de um trabalho discográfico que “combina as habilidades individuais dos membros para criar algo inovador”, lê-se no artigo. “Crown”, a faixa que deu origem ao single de lançamento, é descrito como um “um tema pop cativante com um toque verdadeiramente ousado”. Citados no artigo da ClashMusic, os EXO explicaram a escolha desta canção, o que a tornou “especialmente significativa”. “É uma canção que personifica quem somos como EXO — e, em última análise, os EXO-Ls são a nossa coroa. Estamos orgulhosos e felizes por sermos os EXO, e agora só queremos aproveitar este momento com os nossos fãs e criar memórias duradouras juntos”, pode ler-se.