Um regresso e um ponto de ponto de partida

Parto do sul ocidental da Europa e regresso ao norte oriental da Ásia onde tenho vivido nos últimos anos, com a notícia de ter escapado a terramoto de imponente magnitude, que deixou a cidade às escuras durante dias, com muito restritos serviços de transporte terrestre e aéreo, limitações no abastecimento de alimentos frescos e brusca necessidade de drásticas poupanças energéticas. Durante dias subiram-se degraus de escadarias de prédios com elevadores desligados, comprou-se pouco em lojas mal iluminadas, andou-se a pé e aumentaram as bicicletas em movimento pelas ruas, encerraram serviços, a cidade viveu uma obscura quase-paralisia que por acaso não testemunhei.

Não sendo raros os terramotos em território Japonês, estes ocorrem normalmente muito mais a sul, onde a confluência de 4 placas tectónicas coloca em permanente risco sísmico a zona central da costa leste do país, deixando a ilha onde vivo, Hokkaido, relativamente protegida mas nem por isso imune. Chego passados mais de dez dias sobre o imponente abalo e já são quase nulos os impactos sobre a vida quotidiana: a minha casa estava em ordem e nem sequer houve objectos caídos das estantes, não há danos na cidade, os transportes funcionam normalmente, os serviços reabriram, os supermercados voltaram à normalidade do abastecimento alimentar, a iluminação pública e dos espaços comerciais retomou a intensidade e os néons, ecrãs de vídeo e outra parafernália sonora e luminosa que animam o entretenimento nocturno do bairro de Susukino retomaram o seu sistemático ruído.

Nota-se ainda assim uma súbita transformação: o centro de Sapporo, que nos últimos anos se foi tornando cada vez mais um espaço de convergência para passeios, afazeres e entretenimento da população local e de uma crescente multidão oriunda de diversos países asiáticos, com acrescido poder de compra e maior disponibilidade para também usufruir dos prazeres do turismo e da descoberta de novos lugares, está subitamente despovoado: quase um milhão de visitantes (uns 5% do total de turistas esperados este ano) cancelaram as suas viagens após a notícia do terramoto, deixado a cidade outra vez entregue aos seus residentes e expondo com cristalina clareza a volatilidade – e eventualmente a limitada racionalidade – dos fluxos turísticos globais.

Lembrei-me de Lisboa e do Algarve, onde tinha passado as últimas duas semanas. No Setembro algarvio ainda as praias e os espaços públicos tinham a sua lotação bastante preenchida por turistas mas já as estatísticas mostravam que tinham sido menos os visitantes este ano, com a relativa pacificação nos territórios do Sul do Mediterrâneo a revelar a vulnerabilidade das economias dependentes dos erráticos movimentos turísticos. Em Lisboa, pelo contrário, o centro da cidade parece ter-se tornado parque temático permanente para visitantes ocasionais e quase não se ouve falar português entre as multidões que passeiam pelas ruas da Baixa, aparentemente indiferentes ao facto de viajarem para ver e conviver com outros turistas, cada vez mais à margem de uma população local tendencialmente afastada para zonas periféricas da cidade.

Não é como turista que faço esta viagem de regresso desde as terras de longos estios no sul da Europa para lugares de longos Invernos no norte do Japão, mas não deixo de observar como o turismo, a sua massificação ou as súbitas oscilações nos seus movimentos, transformam drasticamente a vida nas cidades contemporâneas, um pouco por todo o mundo, num processo que seguramente irá acelerar enquanto as economias do sul da Ásia continuarem a crescer e a fortalecer novas classes médias com o rendimento suficiente e a curiosidade necessária para participar nestes fluxos de descoberta de novos lugares. Este é, em todo o caso, assunto que me manterá entretido durante mais uns anos, no meu ofício quotidiano de investigador da economia turismo. E este regresso à Ásia é, também, um ponto de partida: para um contacto que espero regular e entretido com os leitores do Hoje Macau.

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