Erótico como termómetro do esquecimento

Há dois elementos neste livro de João Paulo Cotrim, Navalha no Olho, recentemente publicado pela Nova Mymosa, que nos chamam a atenção antes de mais e que são enganadores: o título, que nos remete para o filme surrealista de Luís Bunuel e Salvador Dali, Um Cão Andaluz (1929); e o uso de algumas palavras obscenas, como são os casos de «caralho», «cona» e «cu».

A despeito disto, não se trata de um livro surrealista e nem um livro de poesia erótica e satírica. Trata-se na verdade de um livro de poesia carregado de lirismo. Muitos são os exemplos ao longo do livro. Leia-se apenas dois: o primeiro poema e o poema «Oração». O primeiro diz assim: «Pudera / o meu dia ser / uma peça só / de alegria / o teu corpo: / em que parte / me encontro / neste relâmpago?» E o segundo exemplo, diz: «Face ao / mar / desnuda-se ignorando a / terra / puxa as colunas dos joelhos / sem ajuda / aponta a mais abyssal das fossas / ao mais verde oceânico // quanto terá demorado / até afectar as marés?» (O abyssal é com y)

O que está em causa no uso do chamado «palavrão», que hoje em dia é usado tão gratuitamente, são duas coisas: por um lado, elas fazem tão parte das nossas vidas como as palavras «vinho», «mesa» e «livro» e, por outro lado, estão sendo cada vez mais esvaziadas do seu sentido. Por isso, escrever poemas com as palavras «caralho», «cona» e «cu» e fazer com que elas fujam à gravidade do banal não é fácil. Este é o primeiro desafio que o livro nos lança, o de confrontarmos, em nós, a linguagem consigo mesma. Melhor: confrontá-la com aquilo que recentemente fizemos dela, que é um enorme esquecimento. E este esquecimento do sentido das palavras, dizê-las como se nada se dissesse, não afecta apenas as palavras eróticas ou obscenas, afecta também as palavras com que fazemos política, aquelas com que somos gentis com os outros, e até as palavras com que lemos. Pois ninguém chega a um livro sem trazer consigo as suas próprias palavras.

Assim, a um primeiro embate, Cotrim usa o erótico como termómetro para medir a temperatura do esquecimento a que chegámos. Esquecimento das palavras e, adivinha-se, de nós mesmos. Leia-se o poema «Querida Escuridão»: «só às apalpadelas alcanço / despertar / essa palavra que fende saídas / de raso labirinto, / fósforos apodrecidos, nódoas acesas / cheiros gastos, tempos perdidos / não me castigues mais / e cala-me, Querida Escuridão, / com a humidade ainda farfalhuda». Corpo e linguagem alcançam neste poema a mesma densidade de esquecimento a que votamos tudo o que desprezamos, através de um contínuo exercício de vulgarização. Corpo e linguagem vulgariza-se dia a dia em nossos gestos. É preciso arrancar da vulgaridade as palavras «caralho», «cona» e «cu», assim como arrancar da vulgaridade o modo displicente com que chegamos aos corpos uns dos outros. Ainda que gratuitas, as palavras têm valor; ainda que por uma noite, um corpo é para se demorar. Leia-se o poema «Câmara Lenta, Mas Tão Lenta»: «Pouso a cabeça junto à nádega / e assisto no conforto da privança / ao bailado que o sopro coreografa / esteja a raiz no acre / esteja eu na raiz do tempo interrupto». Não é o corpo que interrompe o curso do tempo, mas a atenção que lhe prestamos, a privança, a intimidade privilegiada. Ama-se um corpo como se ama a terra, as plantas. Leia-se à página 20: «No jardim das carnais paisagens / limpo mondo debulho podo / afasto rego aparo toco / até encontrar as daninhas ilustrações / do momento mais íntimo […]». Amar os corpos implica atenção e é uma arte tão necessária quanto amar as palavras. Leia-se esta duplicidade e confluência de palavra e corpo no poema à página 18: «o que procuras tu / aí / com tanto / dedo e afinco / conservo-o eu / aqui / na ponta da língua […]». A ponta da língua é corpo e palavra. Quer a língua seja carne, quer seja espírito, ambas excitam, ambas amam.

Mas «caralho», «cona» e «cu» também surgem no livro como «falo», «vulva» e «ânus», fazendo com a nossa atenção com as palavras seja reforçada. Pois por mais que em português «cona» e «vulva» apontem na mesma direcção, não se trata do mesmo que nos vem à boca e invade o pensamento. Isto é claro para todos nós, mas os poemas de João Paulo Cotrim tornam-no mais claro. Lê-se no segundo poema do livro: «toco no ar as estrofes quebradas pelo alento / falo e vulva afinados no refrão». E, a meio do livro, à página 16, lê-se: «Como quem / se verga / à boca de obs / cena // assentas a cona no espelho dourado (em versalhes roubado) / como se isso bastasse / para construíres a cidade nova». De um para outro poema, tornam-se evidentes os diferentes sentidos das palavras. No primeiro, «falo» e «vulva» passam pelos pingos da leitura, completamente despercebidos. Onde lemos «falo» e «vulva» poderíamos ler «Romeu» e «Julieta». Leia-se: «toco no ar as estrofes quebradas pelo alento / Romeu e Julieta afinados no refrão». Já no segundo exemplo, e a despeito de «cona» aparecer sozinha, a nossa atenção levanta-se imediatamente do telemóvel como uma criança que ouve numa sala de aulas falar em sexo.

Há no livro a devolução do sentido às palavras que banalizamos e do modo como elas agem sobre nós, os corpos. À força de tanto banalizar, os corpos já não reagem às palavras e estas esqueceram-se de sim mesmas. Neste sentido, é um livro político, como todos os livros que se debatam com a falência do sentido das palavras e com a falta de acção que isso carrega. O corpo e a palavra estão, e seria realmente assustador se nos dessemos conta disso, a ficar esvaziados de sentido. Assim, foder, subentende-se, não é um exercício espiritual, mas um exercício de salvação. Este livro de João Paulo Cotrim alerta-nos para esta nossa situação através de um lirismo invejável, ao arrepio do que parecem ser os nossos dias.

Termino com o poema da página 23: «Encostando-se ao espelho / multiplicou mamas e mamilos / a substância dos ventos nos cabelos / sublinhou o gesto de braços levantados / e nisto como na minha ignorância / brotou uma carne / um medo / que ainda agora / procuro reconhecer / tão tarde».


ILUSTRAÇÃO: ANTØNIO FALCÃO
19 Out 2020

Hospitalidade (1997) – Julia Kristeva

Posso hoje dizer que vivi alguns dos melhores momentos da minha vida pessoal e profissional em solo americano.

Porém, nada me destinava a essa afeição. Escusado será dizer que, na minha Bulgária natal do pós-guerra, o Tio Sam não estava na moda: dificilmente era apreciado por distribuir leite em pó nas escolas; zombavam dele pelo seu culto à Coca-Cola, que a propaganda comunista apresentava como uma droga; odiavam-no devido à Guerra da Coreia. Quando cheguei a Paris, a guerra do Vietname estava no auge e manifestávamo-nos contra os bombardeamentos americanos. Foi então que René Girard, que me ouviu apresentar Bakhtin no seminário de Roland Barthes, me convidou para ir ensinar na Universidade de Baltimore. Não me via a colaborar com os “polícias do mundo”. E apesar do conselho fortemente dialéctico do meu mestre, Lucien Goldmann, que me dizia: “Minha pequena, o imperialismo americano deve ser tomado a partir de dentro”, francamente, não me senti com forças: fiquei em França. Estávamos em 1966. Alguns anos mais tarde, em 1972, conheci o professor Léon Roudiez, da Universidade de Columbia, no colóquio de Cerisy sobre Artaud e Bataille. Fiz a minha primeira viagem a Nova Iorque em 1973, e desde 1976 sou Permanent Visiting Professor no Departamento de Francês desta universidade – o que pode não ter ajudado na qualidade do meu inglês, mas permitiu-me encontrar muitos amigos e cúmplices nesse tão particular mundo das universidades americanas.

De toda esta experiência sobre a qual tentei escrever o essencial nas páginas do meu romance Os Samurais [1990], gostaria apenas de reter aqui duas imagens-símbolo que são inseparáveis da minha vida psíquica, e que podem dar uma ideia do meu apego aos Estados Unidos. A primeira é uma pequena foto a preto e branco, tirada por Léon Roudiez, onde me vêem a bordo de um ferry em aproximação aos arranha-céus de Manhattan; sou uma estudante e uso o cabelo comprido. Como não tenho foto da minha chegada a Paris, é este, para mim, o único e melhor vestígio do meu re-nascimento n’«o mundo livre». A segunda imagem é a do meu apartamento em Morningside Drive; com vista para o vizinho Parque de Harlem, fico lá muitas vezes quando ensino em Columbia; é inundado por esta estranha e acolhedora luz, escrevi lá páginas, a meu ver essenciais, de Histórias de Amor (1983) e de Sol Negro (1987); este apartamento continua a ser, na minha mitologia pessoal, o lugar perfeito para a solidão feliz.

Quando, com Philippe Sollers, dedicámos o n.º 71-73 da Tel Quel (Outono de 1977) a Nova Iorque, muitos leitores ficaram surpresos. Continha nada menos do que uma apologia da democracia americana, em contraponto à centralização francesa, estatal e jacobina. Na verdade, foi, e ainda é para mim, um reconhecimento do que me parece ser a primeira qualidade da civilização americana, e que explica o meu apego ao trabalho que a universidade americana me propôs (daqui em diante, devo incluir no adjectivo «americano» os seus vizinhos do Norte: o Canadá e as universidades canadianas): essa qualidade é a hospitalidade.

Chamo hospitalidade à capacidade que possuem certos seres humanos para oferecer um lar a quem não o tem ou está temporariamente privado dele. Exilada do comunismo e acolhida em França, não foi em França que experimentei tal hospitalidade, ainda que a França me tenha concedido a nacionalidade francesa, pela qual eu nunca saberia agradecer o suficiente. Cimentado pela tradição administrativa e cultural, o meu país adoptivo gera, para delas se distanciar, novidades excessivas (como as várias vanguardas artísticas, filosóficas, teóricas) que me seduziram e que fazem a sua glória no exterior; mas também violentas rejeições, quando não mesmo os ódios ferozes contra estas inovações. A América, pelo contrário, parece-me uma terra que acolhe e incentiva a enxertia – talvez em excesso. Quando a xenofobia deste velho país me fere, dou por mim a acalentar a ideia de me instalar definitivamente nos Estados Unidos, ou possivelmente no Canadá, mais europeu e francófono.

No nosso mundo moderno, não possuímos realmente uma definição positiva do que caracteriza a humanidade (não no sentido de «género humano» mas de «qualidade humana»). Contudo, somos mesmo levados a perguntar «o que é a humanidade?», mais que não seja quando nos deparamos com… «crimes contra a humanidade». A minha experiência pessoal leva-me a pensar que a definição minimalista de humanidade, o «grau zero», como diria Barthes da humanidade, é justamente a sua capacidade de hospitalidade. Além disso, os Gregos não se enganaram ao escolher a palavra ethos para designar a aptidão mais radicalmente humana, a aptidão agora designada de ética e que consiste em fazer uma escolha – a escolha entre o bem e o mal, mas também todas as outras escolhas. Ora, esta palavra ethos (donde provém ética) significa residência habitual, abrigo de animais; e como derivação desse sentido de habitat, significou progressivamente hábito, carácter, aquilo que é específico de um indivíduo, de um grupo social.

Diria, pois, que dar refúgio, acolher, abrigar, abrir a sua porta, as suas universidades, as suas editoras, mas também o seu pensamento, a sua maneira de reflectir, as suas preocupações profissionais e pessoais, à existência e ao trabalho de um estrangeiro, em suma, a hospitalidade que os americanos têm praticado comigo, é o grau zero do ethos. A América encarna para mim esta atitude moral, que se torna hoje essencial – ao mesmo tempo que problemática –, quando a migração massiva de populações torna imprescindível o acolhimento do estrangeiro, mas exige ao mesmo tempo uma legislação realista e uma moralidade adequada.

Quaisquer que sejam as suas dificuldades intrínsecas, ou mesmo os seus ostracismos relativamente aos estrangeiros, no continente americano sinto-me uma estrangeira com outros estrangeiros. E tenho a sensação de que com essa solidariedade podemos fazer algo, já que pertencemos a uma humanidade futura, e essa humanidade futura será, como nós, formada por estrangeiros que tentam entender-se.

A hospitalidade que os Americanos me ofereceram dirige-se, antes de mais, às minhas ideias, ao meu trabalho. Trouxe-lhes – e não páro de trabalhar nisso – uma memória cultural, francesa e europeia, na qual se misturam as tradições germânica, russa e francesa: Hegel e Freud, o formalismo russo, o estruturalismo francês, as vanguardas do Novo Romance e da Tel Quel. Talvez achassem que a minha personalidade de migrante fosse menos frenchy, fechada e, às vezes, arrogante ou desdenhosa, conforme o sentido que atribuem a essa palavra. E que, por intermédio da estrangeira que sou, pudessem igualmente aceder a esta cultura francesa, mas também europeia, que se mostra amiúde inacessível e ciosa da sua pureza. Seja como for, algumas das minhas pesquisas encontraram hospitalidade na América – quero dizer ressonância e desenvolvimento –, o que me encantou e encorajou sobremaneira. Por vezes, a imagem que os Americanos me devolvem surpreende-me, não me reconheço nela. Mas nunca tive nem terei a tentação de polemizar.

Porque estou convencida tratar-se de uma de duas coisas: ou essas interpretações são contra-sensos estéreis que se esgotam por si próprios – como certas recuperações militantes ou politicamente correctas – ou fazem parte da busca pessoal de homens e mulheres americanos, originais e inventivos, que absorvem o meu trabalho no seu e que, portanto, enfrentam os riscos das suas próprias obras; o que é seguramente, apesar dos mal-entendidos, uma excelente forma de praticar a hospitalidade. Não é a «enxertia» uma adopção com consequências imprevisíveis? O exacto contrário da «clonagem»?


KRISTEVA, Julia – “L’avenir d’une révolte, Paris, Calmann-Levy”, 1998, pp. 86-91
9 Set 2020

Sob o céu de Palmyra

Passara por Palmyra mas de Palmyra não saíra. Um esgaço de gente, eu, somente, a espaçar entre os doentes. Palmyra nunca ficava para trás e nós — que bem para a frente andávamos! Talvez às voltas, em círculos vários, complexas ovais, mas ali estava de novo Palmyra, sob as nossas sombras esticadas; e a noite que se aproximava; e o suão se levantava. E em Palmyra dormiria. Ali atendia o dia. A noite pertencia à lei.

Todas as noites as passei em Palmyra. Vagueei sob arcos e arcadas, grandes portas e escadas, visitei ruelas, lojas, tabernas. Conheci os donos das esquinas, os senhores dos bairros. Era, amiúde, convidado para jantar.

Conheci mulheres e elas conheceram-me, embora a nenhuma me vinculasse por me saber mera passagem.

Todos os dias saía de Palmyra e me metia ao caminho. Talvez de um forte, talvez do mar, de um porto.

Sonhava barcos no dorso do meu camelo. E comandava embalado toda uma tripulação. Pensava na cidade onde pretendia atracar. Teria ela mar ou um mero rio? Depois sentia um solavanco maior, um bramido e despertava do meu devaneio. A besta acabava de se ajoelhar, já noite crua, às portas da cidade de Palmyra, não muito longe da Fonte Eterna, de onde tantas vezes olháramos o contraluz do castelo e, num gelo súbito, tremêramos.

Estava em Palmyra e outra noite se estendia à minha frente. Um velho recolhia cacos. Interpelei-o: “Velho Mestre, apresenta-me à rainha. Ouvi que ela ordena sobre Persas e Romanos e ainda outros povos cujo nome é terrível e não se deve pronunciar”. O velho aquiesceu. Nessa noite, adormeci sossegado na taberna.

Mas outro dia espairecia e ao caminho eu me fazia. E para Leste me dirigi, para Leste indiquei o meu olhar. Desta vez fi-lo sozinho, oscilante no dorso de meu dedicado animal. E, em devaneios, sob o sol ainda tépido da manhã, o velho do nada me aparecia e me dizia ter a rainha anuído a meu tão ousado intento. E o coração pulsava desmedido sob a pele, pois já longe me julgava.

Forte bramido: meu camelo que ajoelha e eu acordo em terra de Palmyra, lá no seu largo outonal. Ali aterro em solo quente, ainda oscilante da viagem, mas quente fornalha, a escaldar, quase miragem, não fossem reais as armas que estendidas me esperavam. E, por detrás de estandartes, de homens de várias artes, soldados e generais, ministros e sicofantes; sem manobra de intenção, surge impávida a rainha.

“Dizem-me que queres sair de Palmyra e não o consegues. Todos os dias, porém, o tentas. Levas a tua magra tenda e ala pelo deserto, que preferes a esta cidade. O que pretendes de mim?”

“Que intercedas junto aos deuses que me tramam. Morfeu e a sua dama. Os deuses dos caminhos desta terra, os do deserto, os da falta de água.”

“Vai-te, homem. Sai da minha cidade. Ninguém quer ouvir o teu resmungo, a acidez da tua língua estrangeira, a rigidez desse discurso, as várias cores dos teus costumes.” E gargalhava. E assim, sob tochas, me levaram à rua e da rua ao largo e do largo às muralhas onde o meu camelo me esperava. O dia já despontava.

E montado por mim dei. Tinha finalmente a esperança, sagrada por ordem real, de me afastar de Palmyra. E tão crente, tão seguro, estava de por fim poder partir que — mal ordenei ao bicho: “Oriente!” — dei por mim logo a dormir.

Sonhava com a cidade que eu tanto desejava e via Palmyra ao fundo, chorosa e definhada. Lá para trás, ficava. Palmyra, a santificada, a da fonte sempiterna, a sempre núbil do deserto. E por toda a noite errei. Devo ter dado voltas e revoltas, ter voado da gangrena ao desespero, editado ânsias de corvos e prateleiras de ícones abandonados. Era o mundo um cemitério. Vasto, orgíaco de morte.

Acordei num bramido de joelhos. Era ainda em Palmyra onde, do pesadelo, o nobre animal me acoitava. Havia uma porta entreaberta e um guarda, que generoso acolhia: “Entra, palerma. Todas os dias…: para onde tanto vais?…”

“Tenho um encontro prometido em Samarra. Mas em Palmyra sempre me vejo e dela não consigo sair. Quando me afasto de Palmyra, logo adormeço e sonho, desemboco em devaneios e sempre por mim dou de volta, a esta mesma cidade. Tentei o chá, o café, as raízes interditas. Mas sempre os devaneios me tomam. Diz-me — tu que vês os homens e as mulheres a passar —, o que posso eu fazer?”

“Continua a tentar, rapaz. Todos dias. Mantém pronta a tua tenda. Alguma vez o camelo te levará para Oriente e te depositará ainda estremunhado no mercado de Samarra, onde cumprirás o teu encontro. Ninguém te poderá acusar de chegares atrasado ou de não teres firmemente tentado.

“Entretanto, devaneia no dorso do teu animal e pelo teu pé nas travessas desta cidade. O que poderás fazer é devanear: de dia pelo deserto e de noite pelas tabernas de Palmyra.”

O guarda, que era um crente, acrescentou ainda: “A bondade divina permitiu a miríade dos seres e das manias. Por isso, também para a tua doença haverá um lugar sob a roda do céu.”

17 Jul 2020

O Maestro

 

Contos da cidade-berço





É preciso orientar o mundo e Jeremias tem uma batuta para o fazer. Não é maestro porque não há música no Reino – a música foi proibida assim como todos os sons. É um reino de mudos por via legal. Nem voz, nem instrumentos, nem sequer choques entre seres humanos e entre seres humanos e o mundo. Porque um choque entre dois corpos, diga-se, voluntário ou involuntário, provoca sempre um som, um nefasto som naquele reino legal do silêncio. De um choque, por exemplo, entre a simples perna de um humano e uma mesa, resulta um estalido – e talvez até um imprudente murmúrio de dor. Barulho, portanto. Inaceitável.

E por isso, aquele não é apenas um Reino de impressionante mudez, é também um mundo de lentidão e tranquilidade – tudo anda lentamente, cuidadosamente. É um Reino mudo e de velocidade média baixíssima.

Todos os que foram viver para aquele reino, diga-se, estavam cansados da música, das palavras e do som em geral. Queriam silêncio. Gritaram uma única vez: quero silêncio! – e assim lhes foi concedido (como num conto de fadas meio perverso – o que pedes uma vez, furioso, ser-te-á concedido para sempre, e sem retorno). Estão, pois, esses homens e essas mulheres, na terra do silêncio. Proibido o som.

E é nesse Reino, então, que Jeremias avança com a sua bela batuta de maestro sem orquestra. A batuta serve agora para orientar os corpos – para a esquerda, para a direita – dos elementos da orquestra sem instrumentos. Jeremias, com a sua batuta, manda levantar, baixar, deitar, avançar dois passos, recuar quatro, etc., etc.

Diante dele, o grupo torna-se obediente.

É uma orquestra de posições; e também de gestos, de movimentos. O maestro Jeremias e a sua batuta apontam para um sujeito e, logo depois, um movimento decidido da batuta mostra, sem equívocos, que o maestro quer que o sujeito se levante e se mova para a direita até que Stop. A batuta imobiliza-se aí com firmeza mostrando ao elemento – desta orquestra de posições – que ele deve parar naquele exacto sítio. E assim passam aquelas pessoas as tardes. É um emprego, este, para aquelas trinta pessoas, que recebem generosamente da fortuna de Jeremias.

Todos os dias, todas as tardes, Jeremias ali tem a sua orquestra muda, disponível até que o dinheiro termine. Jeremias imagina-se a dominar uma parte do mundo. Não é o universo, mas são trinta pessoas. É um começo, pensa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

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12 Jun 2020

O segredo

 

Contos da cidade-berço

É evidente que Deus está nos doces, nenhuma dúvida sobre isso.

Conta-se isto, e claro que é uma invenção, uma ficção elevada ao quadrado, ao cubo.

A história é esta. Havia um segredo de culinária, um tão grande segredo que a mãe só o passava à filha, a uma única filha; e essa filha, mais tarde, passaria também o segredo a uma única filha, e assim por diante. E dizem que o segredo não foi transmitido em voz baixa, de boca para orelha, em distâncias mínimas. O segredo foi escrito, mas não num qualquer papel – e se alguém o rouba ou se ele desaparece? O segredo foi escrito nas costas; foi tatuado, melhor dizendo. Isso mesmo.

Era assim então que se passava. A receita culinária secreta de um alucinante doce era tatuada nas costas da filha preferida. Essa filha jurava não mostrar as costas a ninguém, nem ao marido (quando o tivesse). E sim, o segredo ali estava bem guardado, passando de geração para geração. Ninguém segredava, insistimos – a mãe passava o segredo à filha num dia decisivo. A mãe dizia: Vou mostrar-te algo que nunca mostrei a ninguém, nem ao teu pai: as minhas costas.

E a sós tirava a camisa e mostrava a tatuagem – a receita mais secreta do doce mais alucinante.

Quando a filha fazia dezoito anos, a mãe tatuava-lhe nas costas a receita e dizia-lhe: não mostres as tuas costas a ninguém. E dizia ainda: escolhe uma única pessoa a quem passarás a receita.

E assim se guarda, conta esta história ficcional, desde há muitos anos, um importante segredo de culinária.
Eis o que a mãe dizia:

Se mostrares as costas a muita gente, o segredo deixará de ser segredo. Se não mostrares as costas a ninguém, o segredo também deixará de ser segredo. O segredo só continuará a ser segredo se mostrares as costas a uma única pessoa, a uma única, a uma única pessoa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

5 Jun 2020

Como se sentar à mesa com um parente racista

Ter um parente racista com quem se tem de almoçar ou jantar, muitas vezes, por força das circunstâncias, pode ser altamente indigesto. Ainda as primeiras lascas de bacalhau estão a atravessar o esófago e já se ouviram termos como “ciganada” ou “pretalhada” e o sistema nervoso dá logo sinal ao estômago para que pare subitamente de produzir os líquidos gástricos necessários à digestão.

Sim, almoçar com um parente racista é indigesto. Mas pode também ser uma oportunidade de observar em primeira mão um dos fenómenos mais difíceis de explicar dos nossos tempos: a ascensão ao poder de personagens populistas extremas tendencialmente de direita mas sobretudo de seja-o-que-for-que-dê-votos.

O parente racista tem determinadas características passíveis de serem identificadas. Por um lado, é alguém que nunca teve problemas com quaisquer minorias étnicas mas, por outro, é alguém ávido por possuir uma opinião, um ponto de vista sobre qualquer coisa – uma identidade. Um enorme vazio existencial é preenchido com o consumo massivo de notícias. Mas só consumir, não chega. Face à crise identitária, o parente racista necessita de exibir os conhecimentos teóricos que a visualização intensiva da CMTV lhe conferiu.

Eu sei, eu sei que é demasiado batido acusar a CMTV de todos os males deste país mas esperem, eu vou oferecer uma alternativa. Permitam-me que analise o parente racista à luz do…. iluminismo. Sim, esse movimento intelectual e filosófico da Europa do séc. XIX. Um movimento de enorme relevância: desde o contrato social (Lock) até aos direitos individuais (Hobbes), passando pelos ideais de igualdade (Rosseau).

Mas pouco virado para a democracia representativa. Os iluministas acreditavam que a governação não deveria ser uma preocupação do cidadão comum. Tragam daí um Leviatã que ele trata do assunto. Voltaire sugeriu que se fizesse assim: um rei governava na mesma só que em vez de ser um rei estúpido que estava ali por descendência, punha-se a governar um rei-filósofo. Um rei filósofo, como ser intelectual e, lá está, iluminado, seria um líder exemplar – pelo que mais ninguém se precisava de preocupar com isso da política.

A fantasia de uma sociedade que naturalmente se gere de forma justa porque segue apenas o que é racional e científico e que opera através de sistemas legais baseados no mais lógico interesse mútuo, exclui sistematicamente a participação política porque é, supostamente, auto-sustentável. E, como veio apontar bem Arendt, essa participação não é apenas um direito, ela é uma fundamental experiência humana. A ideia de que o homem comum deve prestar-se exclusivamente ao desenvolvimento da economia, ocupar a sua função na sociedade através do seu trabalho define-o, não pelo que é, mas pelo que faz.

É através da discussão política e da educação cívica para a participação ativa no âmbito público que o indivíduo se define, se enquadra, reflete sobre os seus próprios valores, as suas crenças, ou seja, encontra uma identidade. Na esfera privada, o homem defende a sua sobrevivência biológica. Na esfera pública, o homem pode pôr em causa a sobrevivência por uma causa. A participação política é o espaço de afirmação e reconhecimento de uma individualidade discursiva.

O parente racista cresceu, provavelmente, numa sociedade onde a educação (se teve o privilégio de a ter) não lhe permitia qualquer tipo de pensamento crítico, muito menos lhe dava sequer a possibilidade de participação política. Á falta de uma educação para a cidadania e participação ativa em sociedade, em adulto, o seu acesso às ideias políticas foi-lhe fornecido ao jantar pelos telejornais, com as suas agendas nos condimentos.

A crise de valores, a falta de opiniões, a incompreensão do mundo levaram-no a procurar ideias de rápido consumo, simples, prontas a servir como aperitivo para um espetáculo deprimente onde o parente exibe o seu Eu com discursos de ódio e uma identidade importada das piores fontes.

Como se sentar à mesa com um parente racista? Empatizando com o objeto de estudo que ele é porque afinal, de pessoa, ele tem muito pouco.

5 Jun 2020

O primeiro avião

 

Contos da cidade-berço

Em certos mundos mais primitivos, a santidade era avaliada pela capacidade de voo. Quem subisse mais alto seria considerado mais santo. Diz-se mesmo que a história da aviação começou assim. Não por vontade de chegar ao outro lado do mundo rapidamente, não por vontade bélica ou económica, de subir para atirar bomba ou publicidade lá para baixo, mas que terá começado simplesmente devido à vontade subir assim mesmo – na vertical. O objectivo da aviação era, pois, inicialmente, o céu – e não o resto da terra.

É, neste particular, bem conhecida a história de Ícaro, que talvez tenha subido de mais -mas há ainda a história de Rodolfo, homem que construiu um avião porque queria ver Deus de perto. Isso mesmo. Ele era um mecânico do final do século XIX que acreditava que Deus estava num certo espaço concreto do universo; e que esse espaço estaria localizado num ponto acima das nuvens.

Rodolfo era crente, mas também um técnico. Tinha fé em Deus e nos motores. Construiu, assim, um avião antes de todos os outros para se aproximar de Deus. Um avião crente; um motor crente. Uma tecnologia que avança porque tem fé.

Rodolfo fez, então, sozinho, nas traseiras da casa, essa primeira engenhoca para ver Deus de perto; o primeiro avião crente.

Voltemos atrás e olhemos para toda a cena: ali está ele pronto: Rodolfo entra na máquina. Estudou tudo e não tem medo. Liga o motor e, sim, o engenho sobe. Rodolfo está, então, no ar com a sua fé e o motor que ele próprio montou. É o primeiro avião da História. Rodolfo tem um objectivo: subir o máximo possível até conseguir ver Deus de frente.

Rodolfo sobe, então, ultrapassa as nuvens, e sobe ainda. Está atento; não pára de olhar em todas as direcções. Onde está Deus? Ninguém sabe o que aconteceu a Rodolfo, mas ele nunca mais desceu.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

29 Mai 2020

Roupa de turista

Pensemos numa personagem que quer guardar todos os caminhos que faz. Guardar mesmo, fisicamente (não é guardar na memória).

E para isso deixa atrás de si, não migalhas de pão como no famoso conto de Hansel & Grettel, mas um fio, uma linha – como outras personagens clássicas fizeram.

No fundo, ele quer guardar um tempo, materializar o tempo do percurso.

Essa personagem, diga-se, tem linhas de várias cores.

Uma linha de fio azul, uma linha de fio vermelho, uma linha de fio preto, outra de fio verde, etc.

Quando está triste e percorre um certo caminho vai desenrolando um fio preto. Quando está ansioso e excitado desenrola o fio vermelho; quando está indiferente, o fio cinzento, quando está tranquilo, o fio branco.

Depois, quando regressa a casa, deposita os fios, que têm o tamanho do seu itinerário, numa caixa.
Mais tarde, meses mais tarde, no final de cada ano, esse homem pode fazer um balanço da sua vida e dos seus percursos. Pode olhar para a caixa e ver se há mais fios azuis ou vermelhos, pretos ou brancos. Que ano infeliz eu tive, pode ele dizer se a sua caixa for dominada pelos fios pretos. Que ano tranquilo eu tive, pode ele dizer se a caixa for dominada pelos fios brancos. Que ano agitado eu tive, pode ele dizer se o vermelho for a predominante.

Uma síntese do ano em cores, eis o que se conseguiria.

E pensemos num turista que guarda, de cada viagem, os fios que vai desenrolando nos caminhos; e que, com eles, com esses fios, com cores resultantes do estado anímico em que estava em cada momento, cose uma roupa. Essa roupa, feita a partir dos fios que resultaram da sua viagem, terá assim cores sentimentais, cores afectivas – e será, portanto, uma síntese da sua viagem.

Mais tarde, esse turista poderá dizer, mostrando a roupa que ele próprio fabricou:
– Eis como foram as minhas férias! A minha roupa é a minha memória em forma de tecido.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

15 Mai 2020

Almas da Estrada

Nas cidades o ser humano vai perdendo a vida diante desses animais modernos, animais de velocidade bem acima do que é humanamente suportável. Esse animal que mata pelo peso e pela velocidade, é o carro. Os perigosos animais de quatro patas deram lugar ao perigoso animal de quatro rodas.

Uma evolução, dizem (de patas para rodas).

E há também esta história que agora se inventa: Roberto, um navegante sonhador, construiu um balão para voar, um balão de ar quente; e com ele quer fazer uma viagem vertical e não horizontal; quer subir o mais acima possível e não regressar, quer abrir uma fenda no limite do céu com o seu balão de ar quente (como quem parte o telhado de uma casa com a própria cabeça). O balão é a cabeça; o céu, o telhado. 

Conta-se que Roberto teve um desgosto: alguém que amava morreu, alguém que amava foi destruído pelos dentes da velocidade desse animal de quatro rodas (a velocidade tem dentes, tem boca, tem fome, tem raiva!).

E ele quer, então, esquecer o solo e avançar para o céu. Ali está ele, então, Roberto a tripular um balão de ar quente.

Roberto leu, em tempos, que a raiz de uma figueira-brava chegava a ter, em certos locais bem hospitaleiros, cem metros de profundidade. Pois então Roberto fez isto: foi até junto dessa árvore de fundíssimas raízes, escavou e escavou e agora ali vai ele com o seu troféu enrolado: cem metros da raiz de uma árvore estão já no interior do seu balão de ar quente! Que peso tem essa raiz gigante!

Mas como quer Roberto que o seu balão suba até ao céu com essa raiz tão pesada como carga?

Roberto, no entanto, insiste, quer esquecer quem morreu, quer chegar ao céu com a maior raiz de árvore do mundo. Uma espécie de dádiva: levar ao mais alto o que está mais fundo.

Mas, claro, já era previsível, o balão não levanta voo. A raiz pesa demais.

Como não pode homenagear os mortos, subindo, Roberto decidiu deixar uma mensagem no chão, na estrada: uma alminha – um pequeno retrato que tem ao lado um bilhete onde está escrito:

Apesar de tudo, não é possível afastar as raízes do solo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

8 Mai 2020

Corpo e caminho

 

(regresso à meada de ouro – ao fio, ao itinerário dourado)

1O corpo humano, de cima para baixo não termina nos pés, mas no solo, no caminho que está por baixo. A anatomia humana é, pois, isto: em cima não termina na cabeça, mas sim no céu. Em baixo, não termina nos pés, mas sim no solo.

Um novo caminho é assim uma forma de cada homem mudar de anatomia. Muda de vida, muda de caminho.

2Todo o caminho existe enquanto chão que serve de suporte e se mantém por ali. Mas como mostrar o caminho que se fez num determinado momento?

Como transformar numa forma concreta e material o esforço de uma caminhada?

Este foi o caminho que eu fiz, diria alguém se conseguisse pegar na estrada que percorreu. Mas é difícil pôr na mão o chão inteiro.

3E a imagem é esta (numa ficção, num sonho): levas ao colo, transportas nos braços, não uma criança ou um objecto, mas o itinerário que acabaste de fazer.

Este é o caminho que fiz, aqui to deixo, ofereço-to.

E quando se faz um percurso, os pés traçam algo de novo no chão; avançar é uma forma física de iluminar; avançar é iluminar o exterior com os músculos. Um corpo que atravessa um caminho é uma luz temporária que ali vai. Respeitemos essa luz; uma forma modesta de ouro.

4Uma outra história que se conta é que num certo lugar sagrado da antiguidade, alguns caminhos, pelo meio da floresta, eram tão fortes que quem avançava por eles, durante dias, desaparecia literalmente aos poucos: desfazia-se de cima para baixo no próprio caminho; era um corpo humano que se transformava em estrada. E aquilo que assustava alguns, aqueles que pensavam em raptos e em tragédias semelhantes – os homens desaparecerem naquela estrada! – alimentava a imaginação de outros. É uma forma de oração amorosa, pensavam os segundos: transforma-se o caminhante no seu caminho¸ transforma-se o amante na coisa amada.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

24 Abr 2020

Burroughs à presidência!

Trouxe para a quarentena os livros “certos”, mas a net dispersa-me, arrasta-me numa deriva que me faz sulcar textos e autores ao arrepio do planeado.

Uma crónica do Roberto Bolaño provoca-me a vontade de reler A Revolução Electrónica, de William Burroughs, um livrinho de 1972. Como não tem mais do que sessenta páginas, baixei-o da net para o ler de imediato. As teses delirantes do autor de Refeição Nua assentam como uma luva na situação de hoje. Sobressaem três linhas de força:

– a metáfora da adição como figura de toda a forma de controle; somos dominados pelos poderes do Estado e do mercado mediante a adição induzida às drogas, ao dinheiro, ao poder, ao consumo, ao sexo, e à palavra;

– viciamo-nos nas palavras porque estas na verdade, como o sistema de que emanam, a linguagem, não nos são originariamente naturais: a linguagem é um vírus chegado de «um espaço exterior», não-humano, que nos invadiu e parasitou, tendo-nos inclusive provocado uma enfermidade viral que nos alterou a estrutura interna da garganta.

Face a essa infecção que fez brotar em nós as cordas vocais – resultado dessa simbiose entre nós e o vírus – muitos morreram mas os que sobreviveram adquiriram a linguagem;

– terceiro ponto a reter: o vírus pode ser maligno, mas como hospedeiros do vírus temos uma palavra a dizer, i.é, o seu efeito sobre nós depende também da energia que colocámos no seu “combate”, Burroughs atribuiu uma parte relevante ao papel do medo como detonador de outros vírus ou sintomas latentes no nosso corpo e que aproveitam o novo parasita para nos infernizar. Como ele o diz, se deixamos que o célebre “instinto de morte” freudiano nos persuada de que somos “uns derrotados” estamos fritos.

Estes dois últimos pontos podem-nos servir de consolo ou de alavanca.

É iniludível que o corona vai desencadear mutações no nosso sistema de vida que a prazo nos poderão ser favoráveis, desde que esta reiterada consciência do que seja a “biopolítica” reforce a urgência de nos empenharmos nas causas sociais e numa “nova aliança”, eco-ética. Esta crise, por outro lado, trouxe-nos respostas definitivas: o neo-liberalismo é o regime que menos nos defende, numa crise humanitária, e sabemos quem o representa.

Em segundo lugar, lembra-nos: as instâncias inconscientes e simbólicas tanto regem a nossa relação com o corpo como a sua saúde, eis um convite a que exorcizemos os nossos fantasmas.

Outra leitura que surpreendentemente me revelou outro tipo de contaminação – neste caso literário – e que demonstra que a virologia nos cerca, seja qual for o domínio, é a impensável ligação entre dois livros e autores aparentemente nos antípodas.

Quem à partida ousaria falar de afinidades entre Jack Kerouac e o Camilo José Cela? Pois façam o favor de ler o Pela Estrada Fora e em seguida A Cruz de Santo André. Os contactos são esmagadores e em vários pontos Cela dá um bigode a Kerouac, a começar pela voltagem da linguagem, o ritmo da escrita, mais amorfo no americano, e até – outro item desconcertante – na narração das relações sexuais entre as personagens, muito mais livre e inventiva no galego.

Kerouac escreveu Pela Estrada Fora num rolo de papel de teletipo com 36 metros de comprimento, simplesmente inserido na máquina de escrever e sem qualquer divisão de parágrafos, deixando que o papel se desenrolasse sobre o chão e tomasse o aspecto de uma estrada, A cruz de Santo André, escrito quarenta anos depois, no mais desopilante estilo paródico, começa assim: «Aqui, nestes rolos de papel de retrete (as patroas das pensões de estudantes dizem papel higiénico), marca La Condesita, escrevendo com esferográfica (…) vai ser narrada a crónica de um desmoronamento». Segundo os relatos mitológicos, Kerouac limitou-se a sentar-se e a deixar que durante 22 dias o texto fluísse, ao som duma rádio onde só passava be-bop, desfilando as suas histórias de vida, relatos verdadeiros de como se sucedia a vida estrada fora, à boleia, e como havia cruzado a América na companhia de seu louco amigo Dean e no desfrute do jazz, do álcool, das garotas, das drogas, da liberdade.

Em A Cruz… a desbunda é vivida pela coralidade das narradoras, que serão igualmente as «personagens do drama» e se vão revezando a macular com esferográfica o papel higiénico – Matilde Verdú, Clara Erbecedo, Mary Carmen, Jesusa Cascudo, Mary Boop e a sua mana Matty – e a “estrada fora” plasma-se na deambulação permanente das suas existências cruzadas, numa paisagem galega que se desdobra como os foles de uma concertina e à boleia dos seus inescapáveis apetites, vivenciados num ritmo sincopado e truculento (puro Charles Mingus) porque o desejo entra sempre com a vida «pela porta do cavalo» e foge à norma, ao planeado, à lei e à lógica do argumento. A “moral” da derrocada anunciada tange a do tempo que desgasta os corpos e enuncia-se assim: «Todas e todos nos sentimos descobridores do vício e cúmplices do vicioso, se Betty Boop tivesse sabido que o pai ia ao ginásio para ver atletas no duche, caía-lhe o céu na cabeça, se Betty Boop tivesse sabido que a mãe ia à sauna para ver mulheres nuas e às últimas filas do cinema para ouvir o sossegado arfar das masturbações recíprocas, caia-lhe o céu na cabeça, a Betty Boop também se sentia a inventora do vício; o Lucas Muñoz explicou uma noite ao violinista o que disse Baudelaire: não procures mais no meu coração, foi comido pelas feras.»

Ademais, em termos estilísticos fareja-se mais no Pela Estrada Fora o «comedimento administrativo» que em Cela… que logra com outra estaleca uma progressão narrativa não-linear.

Enfim – o que os vírus nos fazem descobrir e roça os paradoxos mais desconcertantes -, o conservador Cela torna Kerouac num seu avatar menor (não contem isto ao Trump).

Leiam e divirtam-se: há uma edição de A Cruz… que se apanha nas livrarias de fundo a dois euros.

9 Abr 2020

Lembrando outras terríveis doenças infecciosas

A tuberculose é, ainda hoje, uma das doenças infeciosas mais devastadoras. Bryson, no livro O corpo, um guia para ocupantes, lembra que nos anos 30 do século XX era quase uma sentença de morte, embora alguns doentes ainda vivessem muito tempo depois de estarem infectados. Era, para mais, uma doença dolorosa em que “o único alívio”, diz Bryson, citando Lewis Thomas, “era um fenómeno curioso perto do fim, conhecido como spes phthysica, em que o paciente ficava subitamente optimista e esperançoso, até levemente eufórico. Era o pior dos sinais”, “significava que a morte estava próxima.”

A reacção social à tuberculose no século XX, como acontece sempre, infelizmente, era muitas vezes resultado de uma mistura entre factos, medicina e puro imaginário falso. Daí, a existência de respostas hospitalares por vezes bem estranhas. Quase sempre os doentes nos sanatórios eram colocados em puro descanso; porém, noutras instituições, como no sanatório Frimley, em Inglaterra, forneciam “picaretas aos pacientes e obrigava-nos a trabalhos forçados duros e inúteis, na convicção de que isso fortaleceria os pulmões doentes.” Mas o mais habitual era, de facto, o inverso: sanatórios que isolavam, e praticamente imobilizavam, o doente, tanto a nível físico como a nível intelectual e até emocional. Em o Corpo, Guia para Ocupantescita-se um testemunho de Betty MacDonald, que relatava os seus próprios dias num sanatório, descrevendo que os “pacientes não podiam falar ou rir desnecessariamente, nem cantar”. Tinham ordens explícitas “para ficarem deitados, perfeitamente imóveis, e não podiam inclinar-se nem esticar o braço para pegar em qualquer coisa.” Imobilização intelectual e afectiva, sim, isso mesmo.
Nestes tempos feiosos, dois versos:

“Madrugarei para subornar o próximo dia,
Para que seja bondoso connosco.”
Yehuda Amijai

ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

13 Mar 2020

Pequenas notas, pequenas histórias

 

1. Europa, século XIX

“O despotismo expulso dos castelos refugiou-se nos escritórios”, diz um relatório do século XIX.
Na história da Europa do século XIX fala-se ainda de pequenos limpa-chaminés, contratados a partir dos quatro anos, dos quais se aproveitava a pequena estatura – a sua grande qualidade. Esses pequenos limpa-chaminés eram “mais baratos que uma vassoura”, diz Jean Duché, um historiador. Carlyle, cinicamente diz que o arsénico atingiria o mesmo objectivo, mas o excessivo trabalho faz o mesmo retirando o lucro possível no percurso.
Em 1842 uma lei proíbe os rapazes com menos de dez anos de trabalharem numa mina.

2. Natureza e técnica

A máquina para caçar animais selvagens fica encravada nos ramos mais espessos da densa floresta.

Um homem com um machado vai lá e corta os ramos mais espessos. A máquina foi libertada. Alguém grita de alegria. Não pode ser a máquina, pois ela não foi feita para isso. Quem grita então, quem está assim tão alegre com a libertação da máquina?

Impossível saber. De qualquer maneira, a floresta densa tem, noutros sítios, outros ramos espessos que, pacientes, aguardam a passagem da máquina de caça. Para atacarem outra vez.

3. Verdade

Tendo de manhã acordado mesmo ao lado da Verdade, o homem, depois de abrir os olhos ligeiramente, diante daquele brilho intenso e violento, fechou-os de novo, e, depois, aos poucos, ficou sonolento, aborrecido e adormeceu.

4. A doença

Num tempo de epidemias e medos, num tempo sempre duro individualmente, a terrível frase de Heidegger: “A doença não é o distúrbio de um decurso biológico, mas um acontecer histórico do homem (…)”.

Faz parte da história habitual; não é um acidente, é uma etapa; terrível etapa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

6 Mar 2020

Contra os panhonhas!

Assim que eu for primeiro-ministro despeço-me – de panhonhas estou farto!
Este tempo promove os panhonhas e o seu reverso: os objectores-da-consciência. Como Trump e Bolsonaro e o inefável presidente indiano, Narendra Modi, que incitou o integrismo hindu e incendiou o país (cf. a carta de Arundhati Roy, aqui ). Todos eles seguem o modelo do conselheiro de Trump, Roger Stone, que no documentário do Netflix, Get me Roger Stone, dá os mandamentos para chegar ao poder e mantê-lo e que se sintetizam numa pergunta: se é preciso ser infame, qual é a sua dúvida?

O problema dos panhonhas é que nunca ousam acreditar na extensão do Mal. Já o problema com o Mal, que se expande com descaro e ganas, é que sob a sua filigrana já não respira ninguém, um outro. Não que, à semelhança de outras épocas, ele não “pareça” agressivo, implacável, corrosivo. Mas de tanto ter sido transformado em reality-show não traz já o pavor indescritível de outrora.

Já não conseguimos imaginar o Mal para além da medida que consentimos, supondo que ao deixá-lo exprimir-se um pouco estamos a retirar-lhe o gás. Descrentes da realidade, ficamos reféns das imagens, achando que o vidro do plasma nos separa e protege e que a acção dos diabretes é mensurável, como os selos que se colam nas cartas endereçadas ao bem-que-nos-pariu.

Eis-nos abarrotados até ao infinito, de cabidela, de vampiros, de zombies e de espelhos que se vingam retroactivamente, de ogres & aliens, de políticos que mentem ruidosamente – com a rede de saberem que toda a gente admira um bom vigarista -, de tiranos que florescem sob o bolor dos Hannibals desta vida, de putaria baixa & escarninha – esperem, veio-me um arroto.

Ora, o problema é mais fundo – meu caro panhonha, meu hipócrita, meu igual: desapropriam-nos. Hoje, ser sacanita, mesquinho, malicioso, espertalhão, oportuno na pequena perversão, iniciar os anjos na pederastia, engessados ou não… que raio de prazer isso agora nos traz neste clima em que os massacres se sucedem em directo, em Chicago, em Nova Deli, em Cabo Delgado e se escalpar bebés é o novo divertimento?
Lady Macbeth boceja e nós, depois de todo o bem-cariado, chegámos ao Mal sem sombra, ao mal como turismo de massas – ao império da opinião a todo o transe.

No oposto disto, em carta a um amigo japonês, Kuniich Uno, escreveu Deleuze, sobre como se sucedia a sua colaboração com Guattari:

«Pouco a pouco, um conceito tomava uma existência autónoma, de modo que por vezes nós continuávamos a compreendê-lo de maneira diferente – por exemplo, nunca compreendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”. Nunca o trabalho a dois tendeu a uma uniformização, sendo mais uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma».

Raramente vimos manifesta uma liberdade tão grande quanto à própria opinião. Os dois pensadores colaboravam para poderem convergir e divergir, numa pulsação contínua, sem receio de se contradizer e sem apararem as linhas de fuga. Pelo gosto de multiplicar.

Nunca lhes passou pela cabeça a disputa ou a necessidade de domínio na relação; sem reservas, numa porosidade em acto, a aventura de penetrarem em espaços desconhecidos (os que “a resistência” do outro abria na escuta de cada um) tornou-se prioritária.

Simplificavam: a colaboração prescindia de negociações, porque o conflito estava de antemão desactivado, não havia confronto entre forças/opiniões polarizadas, não se tratava de uma disputa dialéctica, mas de estar aberto a um fluxo que faz das suas sombras matéria para fazer engrenar o pensamento na virtualização do múltiplo.

Eis um verdadeiro “encontro”: cada um deles superou um pensamento condicionado pela inércia das representações. O que acontece quando seguimos as linhas da água e à manifestação da “vontade” preferimos incarnar o “impoder”. Nos antípodas do que defende Bertrand de Jouvenel, no seu livro basilar sobre o Poder, para quem “um homem sente-se mais homem quando se impõe e faz dos outros um instrumento da sua vontade”, atitude que voltou a ser a única disseminada.

O “impoder” não é um signo de impotência mas um reforço da potência que nasce da liberdade a si mesmo. O que talvez explique que Michel Serres tenha dito de Deleuze que era o único caso que conhecia de um filósofo a quem o pensamento trouxera felicidade.

É desta grandeza humana que estamos necessitados, da qualidade de gente que se dispõe à luta para “não ter poder”.

Porém, para isso, precisamos de agir, de confiar de novo na astúcia que o outro nos traz, em vez de o vermos como estorvo. O que começa por simplificarmos.

Ontem, por exemplo, depois de uma boa sesta, acordei para a delicadeza da Sónia, que (quase com recato) me batia uma sarapitola (- ah, alegria dos esses!).

A Sónia tem seis dedos em cada mão, como os teve el-rei dom Sebastião, e é vão querer saber se isso lhe dá uma tactibilidade especial ou se será da fantasia que a sua anomalia provoca em nós, o certo é que depois de confiarmos na Sónia ficamos menos tolerantes aos homens infames.
 Tinha convidado a Sónia para almoçar, preparando-a para a sessão de nus que iríamos fazer no estúdio à tarde. E perguntou-me ela, como me vais pagar isso? Na brincadeira, olhando-lhe as mãos, respondi, E que tal uma pívia? Para surpresa minha, isso provocou-lhe um sorriso mais aberto que a calvície do Yul Brynner.

Adoro mostrar os meus dons, justificou.

Nunca lhe serei suficientemente grato, ela foi buscar o ouro a cinquenta metros de profundidade – sabe simplificar, é o que é.

À saída disse-me: Gostei, julgava que eras um panhonha!

Era, mas panhonha nunca mais, antes primeiro-ministro!

A quem não acreditar na bondade das coisas simples, lembro o aviso de Jim Harrison: (também) a morte tem para nós a inverosimilhança que terá a realidade da nossa viagem à lua para uma zebra.

5 Mar 2020

O Buda Dourado de Camilo Pessanha

Dizem que foi o primeiro funcionário público português a pedir transferência para um território onde ninguém queria viver. Mas Alberto Osório de Castro vivia há já largos anos em Timor, para onde se havia trasladado de Moçâmedes. Era primo direito e amigo de Camilo Pessanha e, tal como este, juiz e poeta, além de arqueólogo e botânico amador.

No verão de 1912, Osório de Castro passou por Macau e assistiu ao ritual matinal do despertar do poeta, como deixou escrito na página de memórias «Camilo Pessanha em Macau», publicada em 1942 na revista Atlântico. Aí descreve uma visita ao confrade na sua tebaida, isto é, a casa de Camilo à Praia Grande, onde hoje se acha um insípido hotel chinês, mais ou menos frente à chuchumeca da Solmar. Fechado no seu quarto, Camilo demorava a despertar, numa descrição do opiómano que se tornou famosa: “Diante da janela toda aberta, um Buda doirado de bronze, cujo rosto extático vagamente sorria, numa expressão de transcendente serenidade. Dois pivetes ardiam devagar ante a luz, em homenagem da terra e das almas, como depois me disse Camilo, ao Desconhecido. […] O Camilo fumava a longos haustos caladamente, e reanimava-se pouco a pouco como se o tocara vara de condão”. Por conta da legenda, é fácil prestar atenção ao ópio, e ficar por aí. Mas mais do que o causador de tantos dissabores para China, parecem-me bem mais interessantes as referências religiosas: a São Paulo e sobretudo ao curioso Buda doirado, a modos que a evidência de uma suposta adesão ao budismo. Na verdade, é uma «citação» indireta e até jocosa de Arthur Schopenhauer, que também era proprietário de uma estátua doirada de Buda, e que, de modo a alimentar o seu pensamento pessimista, fez amplo uso da versão distorcida e europeizada do Budismo que circulava à época. Junto com os pivetes ardendo em homenagem «ao [Deus] Desconhecido», são apropriações distanciadas, irónicas (tristes até, na sua descrença desolada), de elementos chineses e budistas, junto com o Deus Desconhecido, de que Paulo se fizera emissário em Atenas (Atos dos Apóstolos, 17.23). Houve quem, iludido por estes sinais inequívocos de descrença, quisesse ver em Pessanha um budista. Não entendendo a ironia, ignorando a China e ainda mais o Budismo, enredaram-se no folclore. E há mais deste budismo irónico em Camilo. Veja-se uma carta enviada a um amigo, de 1896, escrita de Mirandela após breve regresso a Portugal: “Continuo fatigadíssimo desta série de deslocações em que ando há dois meses — e que só virá a terminar daqui por cinco ou seis, outra vez no mesmo cabo do mundo. Um horror para quem está acostumado a dois anos e meio de quietação búdica.” Ironia, mais uma vez, e por vezes dolorosa, como nestoutra, de março de 1912: “Não sei se eu disse alguma vez ao Carlos Amaro que há no inferno chinês um terraço, — a torre da Amargura, — onde o condenado é levado ao cabo de cada ciclo de tormentos e de onde vê tudo o que se está passando no mundo distante e pode interessar-lhe o coração”. Para quem muito entendia da China e dos seus mundos, quer a quietação búdica quer a Torre da Amargura, às quais junto o Buda doirado, são pequenos e amargos jogos, não tanto com a China em sim, mas com uma certa visão dela.

Por um lado, Camilo Pessanha sabia que o buda schopenhauriano ou o budismo quietista-niilista eram distorções europeias de realidades asiáticas; por outro, sabia também que o seu olhar seria sempre o de um europeu descrente, de algum modo e por isso mesmo, sempre condenado às distorções.

28 Fev 2020

Duas histórias de família e uma frase  

 

1. O abutre

Um abutre é colocado num frasco, com buracos para respirar, frasco grande, da altura do animal, que é colocado na despensa, ao lado de outros frascos mais pequenos que contêm arroz, massa, sal, açúcar, etc.

A criança alimenta o animal como se alimenta um pássaro pequeno. Aquele frasco tem todos os dispositivos de uma gaiola.

O abutre foi encontrado ainda pequeno, cresceu dentro daquela gaiola em forma de frasco, gaiola transparente de vidro.

Os pais da criança sabem que o abutre, mesmo crescendo numa casa humana, não esquece os seus instintos nem aprende boas maneiras, mas a criança ainda não estudou biologia e está na idade em que não escuta os pais.

Um domingo, aproveitando a saída dos pais, a criança vai à despensa e traz com esforço o frasco para o quarto deles. A criança nem sabe que os abutres voam. Ou talvez saiba muitos outros pormenores de que nem fazemos a mínima ideia. O certo é que a criança fez o seguinte: abriu o frasco e fechou a porta deixando o abutre no quarto dos pais. Por ela, não mais abriria a porta.

Quando os pais voltassem na semana seguinte, ou talvez no mês seguinte – quem sabe ao certo quanto tempo os pais demoram a regressar – quando eles voltassem e abrissem a porta do quarto iriam ter uma surpresa – e a criança não sabia ao certo se a surpresa seria boa ou má para os pais; mas de qualquer maneira quando pensava nisso, quase de forma inconsciente, sorria.

2. A tarântula

As fêmeas das tarântulas mediterrâneas (Lycosa Tarantula) que devoram os machos depois de terem sexo com eles, geram maior número de descendentes e, cada um deles, com mais aptidão para sobreviver.

As fêmeas das Lycosa Tarantula que não devorarem o macho terão filhos mais fracos.

3. Agustina

“O casal é um organismo de uma simplicidade impressionante.”

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

28 Fev 2020

Uma fotografia

A fotografia enquanto objecto mudou irremediavelmente desde a aparição dos telemóveis com câmara. Deixou de ter custos. Deixou de ser uma actividade que exige equipamento ou disposição específicos. Transformou-se num acto trivial radicado num dispositivo cada vez mais presente.

Toda a gente tem um telemóvel com câmara, toda a gente tira selfies, toda a gente regista – com mais ou menos frequência – os seus dias. Existem até pessoas cuja profissão é documentar fotograficamente as suas vidas, numa espécie de matrioska auto-referencial em que se perde o norte magnético do que é real e do que é encenado, ficando o sujeito do registo inadvertidamente reduzido a actor de si mesmo na maior parte do tempo. Daqui a uns anos, quando o foco da atenção recair noutro epifenómeno mediático qualquer e as criaturas influenciadoras deixarem de ter palco suficiente para acomodar os seus egos, teremos pelo menos como consequência catita a ampliação do manual de diagnóstico de doenças psiquiátricas.

A consequência deste fenómeno de sublimação do objecto fotográfico é a de já ninguém ou praticamente ninguém tirar fotografias analógicas (exceptuando porventura alguns fotógrafos apostados em provar que o filme não esgotou as suas potencialidades e hipsters de toda a sorte dispostos a fazer tudo pela medalha do vintage). Além disso, e embora não faltem impressoras fotográficas, muito pouca gente imprime as fotos que tirou com o telemóvel, pelo que a arte de aborrecer pessoas ao jantar com as fotos ou os diapositivos de férias se perdeu definitivamente algures a meio da segunda década deste século.

Há uns dias descobri em arrumações umas fotos antigas do meu filho, de quando ele devia ter uns três ou quatro anos de idade. Para mim, que tenho uma memória de peixinho de aquário, encontrar fortuitamente uma fotografia em papel equivale a abrir uma fresta arqueológica sobre a vida. Aquela criança é o meu filho, não tenho dúvidas; mas é também outra coisa: é a evocação de um nexo de possibilidades que a vida se encarregou – bem ou mal – de afunilar.

O meu filho é autista. Naquela fotografia o autismo era ainda um diagnóstico a prazo. Com intervenção precoce, suplementos de toda a espécie e dedicação monástica, tudo se resolveria a tempo de ele entrar para a escola e de ser apenas mais uma criança estupidamente irritante ao lado das outras. Era nisso que eu, a mãe e a maior parte dos médicos e terapeutas acreditávamos. O autismo era um percalço desafortunado que poderíamos converter numa monótona normalidade.

O meu filho continua a ser autista. Tem dezasseis anos e está praticamente da minha altura. O autismo nele nota-se mais, luz mais. Quando ele tinha três anos o autismo era apenas uma nota de rodapé de uma criança que ainda podia ser tudo. Agora as pessoas vêem primeiro o autismo e só depois, a virar a esquina, o adolescente. Pelo que quando olho para aquela foto do Gui, a sorrir um sorriso que o futuro ainda não desbotara, a custo contenho as lágrimas. Entre o meu filho aqui e agora e aquela criança pluripotencial há um mundo de batalhas e de derrotas. Um mundo que só eu conheço na sua imensidão de percalços e de caminho às escuras, um mundo que se impõe repentinamente e que, cabendo dentro daquela fotografia, o transcende como a paisagem transcende a janela. Um mundo que já não existe e do qual sou portador para todo o sempre.

28 Fev 2020

O pacto

Nada do que é inumano nos é estranho!
– Como é?
– Ao contrário do que dizia Terêncio, a humanidade é uma raridade… e tem de ser provocada. Nós navegamos no inumano.
– Triste.
– Sobre isso não conjecturo. Apenas constato.
– E como chegaste a essa ideia?
– Nem é sequer uma ideia, é uma evidência. Chegou-me da odisseia pífia do americano Michael Hughes, que morreu na semana passada durante uma tentativa de demonstrar que a Terra é plana. Hughes, conhecido como “Mad Mike”, construiu um foguete movido a vapor, no seu jardim, com a ajuda de um amigo. E contou à imprensa que o seu objetivo era subir 1.500 metros acima do nível do mar para provar que a Terra não é redonda, mas tem “a forma de um disco voador”. Só que o foguetão explodiu-lhe nos braços… Bom, começo por discordar do Mad Mike no formato da Terra, apostaria no da pera-rocha, ou no das orelhas do defunto
Vasco Pulido Valente, esse pensador sempre alerta…
– Deixa-te de sarcasmos!
– Bizarro que o Mad Max confiasse nos conhecimentos tecnológicos do amigo, que se apoiava em informações extraídas da net, mas não confiasse nas fotografias tiradas por satélite: vês congruência nisto? A pobre criatura era acometida por dois males: o de má-fé quanto à plausibilidade do conhecimento que o mundo lhe poderia oferecer, só aceitando a “prova” que ele mesmo engendrasse; e duma enorme incapacidade de aprendizagem, dado que contrapunha às evidências o “modelo abstracto” que a cultura dos terraplanistas lhe implantou no cérebro. O Mike fugia da realidade como o diabo foge da cruz.
– Mas isso é estupidez, não é inumanidade…
– Olha que sim, as feridas que provocam aqueles que denegam a realidade e a deixam exangue, exilando-a, são incicatrizáveis. Esta crueldade é inumana… Não há crime maior do que negar à realidade o coração e o lume… É como pôr um recém-nascido a “chutar” absinto…
– Queres dizer que estamos rodeados de junkies?
– Duvidas? Quem nega com tamanha sanha a realidade torna-se junkie, terraplanista, fanático-abstracto…
– Os platónicos não negam a realidade?
– Não, estabelecem que esta esfera cá em baixo é menos perfeita que a ideal, mas não negam a esfericidade.

É uma questão de sobre-significação, de foco e detalhe… Já o Mad Mike escamava viciosamente qualquer mínima parcela da realidade para a classificar como um peixe. Se de uma pedra não obtinha escamas, jurava que era um peixe congelado há oito mil anos e chegado da Antártida, novo território de todos os delírios…

Digo-te, negar a realidade é o mecanismo entranhado de quem não se quer comprometer… E não só politicamente, a cobardia entrou em força nas artérias dos inumanos… Olha as igrejas…
– Não sei se te acompanho.
– Vai à Universal, a fé, neles, é o simulacro que permite o voyeurismo do demónio alheio. Ah, assistir ao demónio do outro a ser caçado! E nesta barretada, cobarde, o dízimo é o engendramento capitalista da dizimação da fé…
– Estás a fazer trocadilhos.
– É mais do que isso… Hoje a única subversão política que se mantém de pé encontramo-la no mito do Fausto…
– Tens cada uma!
– Olha que não! Depois do Marx só o Fausto. Ao pobre o que resta, se as narrativas da emancipação derrocaram como castelos de cartas? O que resta ao empreendedor com boas ideias, mas sem financiamento? Qual a hipótese para o talentoso, mas nascido na periferia da grande finança? Que melhor saída para o tipo que estudou e tem rasgo mas não tem cheta?
– És um hermético, sabias? Desembucha…
– A única coisa que lhes resta é vender a alma ao Diabo. O rico tem por si a herança e as leis que o protegem. Vender a alma é o expediente do corajoso contra a venda a conta-gotas do capitalismo. Por cada pobre que avance para o Pacto abate-se um operário explorado… Para quê passar por mais dificuldades? Sabes qual é a mensagem mais frequente dos anjos na Bíblia?
– Vais dizer-me…
– Levanta-te e apressa-te!
– Queres tirar o negócio a Deus!?
– Quero descapitalizá-lo, devolver-lhe a gratuidade! Hoje, a única missão é divulgar a disposição de Mefistófeles para nos restituir a dignidade…
– A alma contra a dignidade?
– Chega do quase-etéreo ideológico… Antes o carácter que a virtude. E ao fazeres o Pacto provas ao menos que és humano, é algo que já não te tiram: apegas-te ao real e a cada momento da tua finitude, antes da morte, a faceta mais áspera da realidade, ta tirar…
– Hum, conheces quem o tenha feito?
– O Brecht. Repara nesta tirada de 1926, tinha ele vinte e oito anos: «No dia em que já não restar mais nada para procurar na literatura, abandoná-la-ei. Quando queremos fazer um túnel, é preciso primeiro fazer a montanha. E se a tarefa de fazer a montanha é difícil, no fazer o túnel é que está o génio…», esta intuição não ocorre aos vinte e oito anos se não se fez o Pacto…
– O que é que tu fazias se, para além de te borrares, te aparecesse esta noite o Mefistófeles propondo-te a assinatura do contrato?
– Primeiro contratava o Iago e mandava-o entregar o mais belo casaco de vison do mundo à Melania Trump, em nome de um anónimo; para além de o pôr a forjar umas cartas de amor incandescentes da Melania para mafarrico, só para armar a confusão… o cornuto havia de deixar o mundo em paz por uns tempos… E depois comprava o Hoje Macau e aumentava cinco vezes o ordenado dos seus trabalhadores e o do seu director, para poderem finalmente montar um casino…
– E para a tua mulher nada?
– Ah, seria a croupier do casino e embutia-lha a alma no corpo, para que não pudesse vendê-la…

27 Fev 2020

A paródia religiosa

Ainda que tenha deixado o seu último romance inacabado, Angel Jesus Tornado pintou uma das maiores reflexões acerca de São Paulo no seu “Ninguém em Damasco”. Foi sempre visível ao longo da sua obra a obsessão pelas figuras marcantes da história e por um tom reflexivo na sua escrita. Apenas como exemplo, lembremos estes três livros: “Um Homem É Uma Ilha”, centrada na figura de Napoleão; “Existência”, cuja narrativa percorre o ano em que Kierkegaard rompe o seu noivado com Regine Olsen; e “Queimar o Mundo”, onde Jesus Tornado explora as tentações de ódio que assaltam o humano na sua relação com o mundo através da figura de Nero.

Mas em “Ninguém em Damasco”, Jesus Tornado transfigura-se e transfigura a sua própria ideia de prosa. Talvez a proximidade da morte seja a responsável pelo tom mais metafísico do livro ou, então, seja o próprio tema, a conversão, que assim o exija. Pois toda a conversão é metafísica. “Ninguém se torna outro sem um pé no além”, escreve Juan Mantero, historiador que é o narrador do livro. O salto para o desconhecido implica necessariamente fé, seja ela religiosa ou de outra dimensão. Em “Existência”, Jesus Tornado já havia tocado na questão do salto, imagem tão querida a Kierkegaard, mas o tom do livro mantinha-se junto às sebes, rente ao muro, sem pé no além. No decorrer do romance, Mantero descobre uma pequena passagem de São Paulo, apócrifa, que talvez nos coloque na pista certa: “A morte não é ninguém; quem um dia foi não pode deixar de ser. Morrer é apenas deixar o corpo, pois a morte não passa de tudo o que nunca foi.” Esta descrição de poder morrer e nunca atingir a morte, deixa profundas marcas no narrador do livro, ao ponto de se converter ao cristianismo. Até aí, o seu interesse por São Paulo e pela religião era estritamente “científico”. Mas no romance ficamos a saber que, mais do que o teor da passagem, a responsabilidade da conversão de Mantero se deve à sorte de ter encontrado esses pergaminhos, a que ele chama “Confissões de São Paulo”. Essa descoberta pareceu-lhe um sinal divino, como se São Paulo lhe falasse directamente, como se o tivesse escolhido. Através deste episódio de Mantero, Jesus Tornado tece longas reflexões acerca da necessidade de transformarmos coincidências em sinais, de conferir sentido ao que não tem. “O contrário da morte é Deus e morrer é encontrá-Lo.”

Muitos têm visto em Juan Mantero um alter-ego de Angel Jesus Tornado, intuindo assim uma conversão tardia por parte do autor. Talvez fosse isso mesmo que ele pretendeu que nós disséssemos. Talvez tenha entrado na morte nos enganando, ou tentando nos enganar a todos, fazendo-nos confundi-lo com Juan Mantero. Mas não acredito que contrariamente a Saulo e Mantero que se convertem ao cristianismo, Tornado tenha convertido o seu coração ao além. Mais do que ler “Ninguém em Damasco” como se um romance autobiográfico se tratasse, devemos lê-lo como uma acusação, como uma paródia religiosa. Juan Mantero é já ele mesmo uma paródia de São Paulo, e os pergaminhos encontrados, “Confissões de São Paulo”, uma paródia das Epístolas. No fundo, talvez todo o livro seja, não apenas uma paródia à religião, mas uma paródia à humanidade, na sua contínua busca de pergaminhos, de textos antigos, de palavras que nos iluminem a vida. Mas ainda assim, seria sempre uma paródia à religião. Pois a procura de sentido para a vida nas palavras é um acto religioso por excelência. Angel Jesus Tornado deixa o seu livro inacabado com a seguinte frase, escrita por Mantero: “No aeroporto de Roma, percebi que a minha vida ganhava finalmente sentido. Só quem alcança este estádio percebe que nunca esteve realmente vivo.” Tornado depois morre, não Mantero.

O tom metafísico da prosa deste seu último livro revela-se então, ele mesmo, uma paródia. O tom metafísico é a formalidade perfeita desta paródia. Sem esse tom, poderíamos ser levados a ver o livro como uma crítica, como uma reflexão séria e condenatória à religião. Assim, não. Angel Jesus Tornado entrou na morte a rir-se dela e de nós, fazendo-nos acreditar numa pseudo-conversão. Não procurou imortalizar a alma, mas imortalizou a sua gargalhada.

25 Fev 2020

Uma vida simples

A despeito de tudo quanto penso ter aprendido ao longo do titubeante percurso a que chamo “a minha vida até agora” – de certa forma bastante privilegiado por contraste com a vida dos meus pais, por exemplo – há coisas que me descubro a fazer nas quais as figuras de pai e de mãe se intersectam em mim, pequena roda dentada movendo a intemporal engrenagem do cuidado e da preocupação que em cada geração e sob diferentes roupagens transforma um ser humano banalmente autocentrado em mãe, e, com alguma sorte e mais trabalho, em pai.

Ao contrário do que imaginava na adolescência, ser mãe ou pai não é de todo fácil. E a dificuldade não reside “nas grandes questões” mediante as quais os adolescentes fazem questão de ridicularizar a geração que lhes precede. O problema, como quase sempre, não são os grandes ideais, o abstracto ou as questões morais da época. O problema é mesmo o dia-a-dia, as pequeninas coisas que conformam a teia mais ou menos segura da quotidianidade: o lugar da pasta de dentes, a conta da luz, o facto de ninguém se parecer importar com a forma como o tapete fica geometricamente desalinhado em relação à cómoda quando se passa por ele sem ter o cuidado de o endireitar depois.

Apesar dos inegáveis avanços técnicos, sociais e culturais que o império a prazo a que chamamos humanidade tem produzido, ainda ninguém nasce herdando qualquer tipo de conhecimento. A enormíssima vantagem do humano – a sua indeterminação cognoscente originária – implica, por outra parte, que cada um tem de aprender tudo outra vez: a andar, a falar, a comer com talheres, a namorar, álgebra e metafísica, a mudar uma fralda, a fazer o luto. Somos todos repetidamente principiantes. E isso nota-se quando se tem um filho: aqueles que nos precederam sentiram aquilo que estamos a sentir em cada fase do processo pelo qual se consolida paternidade ou maternidade. As mesmas inseguranças, as mesmas dúvidas, a mesma incapacidade de confessar a ocasional vontade de desistir de tudo.

É quando muito cedo pela manhã e em modo automático preparo o meu filho para o deixar na escola que mais sinto o quanto cresci enquanto pai (há outras ocasiões em que sinto precisamente o oposto, pelo que o saldo oscila entre neutro e suficiente menos, não dando lugar a qualquer assomo de orgulho). A necessidade acaba por instalar alguma disciplina nos lugares das coisas, nos gestos, na sequência dos actos. A pobre criança, que outrora tinha de acordar muito mais cedo para parecer vagamente humana ao passar pelo portão da escola tem agora a oportunidade de, acordando uma hora mais tarde, sair de casa mais compostinha. Deve ser a isso que os economistas da nossa praça chamam eficiência. Talvez me tenha tornado alemão na questão da paternidade.

Há um conto do Tolstói, chamado Padre Sérgio, no qual um clérigo tomado pelas dúvidas em relação ao comportamento adequado em terra para chegar ao céu acaba, depois de muitas atribulações particularmente gráficas, por compreender a simplicidade e a sua necessidade, a segurança da rotina, os pequenos passos indispensáveis para percorrer um caminho que ele queria atalhar num salto grandioso. A vida é muitas vezes isso mesmo: uma difícil e demorada tensão para a simplicidade.

21 Fev 2020

Letras responsáveis

Neste frenesim de palavras ocas em que o mundo se tornou, consta que os castores da América do Norte se apresentam desdentados, a neve (há quem diga que por espírito de síntese) agora só cai sobre quem tem gabardina, o próprio silêncio procura o osso perdido das origens.

Desde que se instalou este estado de coisas as conversas morrem a meio, as vacas e os filósofos ruminam mas não engolem (as vacas começaram a levitar, os filósofos enterram-se a prumo com o peso das escórias) e descobriu-se que o corona é a vingança do pangolim.

Muitos propõem remédio mas no melhor dos casos só se detectam paliativos. E só enxergo uma saída, a aventada por Simone Weil quando assegura que a pura observação pode ser transformadora desde que empreguemos devidamente a sua melhor arma: a atenção.

A solução não está no cultivo das identidades, na inquietude ou na competição performativa, na elaboração de listas de tarefas pendentes, no bombardeio com que somos emboscados pelo mercado, no deve e haver sobre crimes passados (como alguém que já só sabe revolver o lodo), na indulgência que obtemos da nossa tribo nas redes sociais: não. Mas, em voltando a subir os índices da nossa capacidade para ficar atentos, para permanecermos atentos, para finalmente nos concentrarmos no que fazemos, esta balbúrdia das velocidades contemporâneas que nos aturde e provoca sonolência atenua-se.

Só o desejo de luz produz luz, dizia a senhorita Weil, e esta para ser vista necessita de um esforço da atenção. Não se conte com o que não custa esforço. Será isto alguma vez reflectido?

Entretanto, num livro autobiográfico que acabei e que incide sobre a infância e os imediatos anos de aprendizagem, escrevi este parágrafo: «O meu pai, que começara por ser trolha, entrou como aprendiz de linotipista no Diário Popular e seguiu o ofício. Na época, consideravam-se os linotipistas os intelectuais do operariado, por incarnarem em chumbo os livros de outros; enfim, uma consideração abstracta, demasiado generalista, esse confronto com as ideias dependeria da qualidade do que haveria a digitar, seria diferente ser o tipógrafo de Carlos Oliveira ou do Augusto Abelaira ou sê-lo de um prestamista do regime. Todavia acreditava-se que por osmose ou circulação dos fluidos se vazava a sabedoria de uns para outros e o meu pai, lacónico até à medula, devia passar por muito profundo.»

Voltemos à frase sublinhada: os linotipistas/tipógrafos incarnavam em chumbo os livros de outros. As palavras moldavam-se em chumbo, dessas páginas em baixo relevo de chumbo resultavam as matrizes que seriam depois impressas, duplicadas, no papel. Havia um mano a mano com a densidade material, a cada palavra lida antecipava-a o seu peso, um grave e oblíquo labor responsável. Cada palavra antes de ser lida fora um artefacto material, era um fruto de um processo lento e de uma compactidade que, inesperadamente, tornava o pensamento profuso. Pergunto-me hoje se que isso não transmitiria à palavra uma qualidade, uma substância, um compromisso que a leveza, a rapidez, a facilidade de rasura e permuta do texto digital volatizam e desresponsabilizam; se quando a matriz da palavra tinha um peso não teríamos menos cobertas de croché.

Li há pouco tempo um ensaísta literário que dizia que a poesia portuguesa dos anos 90 se produzira contra a densidade de alguns poetas anteriores, como a Fiama Hasse Pais Brandão. De facto, e também na prosa, muito pouco hoje me parece estar à altura das densidades de A Noite e Riso, de Nuno Bragança, de Maina Mendes e Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, ou de Novas Visões do Passado, Homenagemàliteratura, ou Área Branca, de Fiama, escritos na época do chumbo ou ainda sob influência do chumbo.

Quem hoje se entregaria ao entusiasmo de ler As Quibíricas ou A Arca, de João Pedro Grabato Dias?

Que tipo de eflúvios se libertaria daquele elemento químico com que se criavam as letras da tipografia e da “arte negra” – a caixa de metal em que se justapunham as letras de chumbo, linha a linha, para a composição de cada página –, como se a toxidade do chumbo fizesse o pensamento reagir, elevando-o, contrariando o desconforto da matéria?

Escreveu a Velho da Costa em O Mapa Cor de Rosa, um dos seus livros de crónicas: «Metamorfose do tempo que faz lá fora, eu sei talvez porque me assola hoje, ou mais se atiça, a retórica da melancolia e do desânimo.

A crónica é desse género que tem encruzilhadas a biografia e a escrita – só a ficção protege, em dias assim, ou a epistolografia íntima, desatada. Mas os poetas, Senhor. Ou os cronistas de reinos, desunidos.

A senhora Amália, um supor, que vivia em Montes Velhos, ai Nena, um lembrar. Vivia e nem mal, nem bem, vivia. Bateu-lhe à porta uma cigana que trazia um menino aos peitos caídos, rilhado de um porco, disse bem, rilhado. Eu disse que a ficção defende e a crónica desabriga, e só a poesia obriga a trabalhar – juro-vos que esta história é londrina, desgostos portugueses, lá iremos».

Como é que se diz tanto em tão pouco, sem nunca descurar o ritmo, o sabor da língua, ou a riqueza de vocabulário? É muito mais do que exibir a opinião: Eu disse que a ficção defende e a crónica desabriga, e só a poesia obriga a trabalhar – é conhecimento. Como é que esta estupenda autora não tem um único livro traduzido e hoje é lida somente por uma minoria?

Atravesso a noite a reler-lhe os livros de crónicas e eis-me siderado. Eu que tanto aprendi com ela, quando escrevíamos filmes juntos, continua a ensinar-me. Havia um brio em fazer melhor, em comunicar com o máximo de recursos, e hoje faz-se da preguiça norma de decência e de uma língua de trapos chave de leitura. E, mais frívolos e desatentos, deseducamos o leitor.

20 Fev 2020

Sobre as nuvens e os mitos

 

“Cavalo velho conhece o caminho”
Provérbio chinês

Sobre as nuvens e os mitos

Vejamos o que diz a etimologia; “Origem da palavra meteoro. Do grego meteoros, literalmente “o que está no ar, o que está por cima de nós”. O plural meteora era o termo genérico para tudo o que se observava no céu, como as nuvens, os ventos, o granizo, o arco-íris, os relâmpagos, etc.”

Daí o termo meteorologia, que não é apenas a previsão dos meteoros e da sua trajectória, mas sim a previsão de todos os acontecimentos que surgirão no ar. Em suma, tudo o que não está no chão diz respeito à meteorologia.

Podemos pensar assim numa meteorologia em que a trajectória dos aviões seria incluída. Descrever-se-iam nuvens, relâmpagos, ventos nefastos, mas também as muitas trajectórias dos aviões.

Curioso notar que a meteorologia – como a descrição de tudo o que está no ar e de tudo o que está acima de nós – já perdeu toda a potência religiosa inicial. A tudo o que está no ar ou acima de nós os antigos chamavam de divino.

Podemos assim pensar num antigo boletim meteorológico em que, a cada fim do dia, se falaria da disposição do divino: como seria previsível que os deuses, que estão no ar e acima de nós, se comportassem na próxima semana.

Essa seria, então, uma arte de profetas. E, de facto, os profetas foram substituídos por análises de tendências – que sintetizam muitos números complexos, médias e etc. – e por gráficos complicados.

Os antigos profetas, esses belos cavalos velhos, quase sempre cegos, viam imagens do futuro na cabeça. A sua cegueira permitia-lhes ver o que os outros não viam. A sua cegueira era, portanto, a sua fonte de força.

Agora, os profetas cegos são substituídos por instrumentos de ver muito longe e com muito pormenor. Cada profeta foi trocado por satélites, antenas estranhas e cem mil telescópios de grande potência. Da não visão passou-se para a visão do mais pequeno pormenor da realidade.

Aliás, é tal a potência de alguns desses telescópios que estes não vêem apenas pequenas coisas afastadas no espaço, vêem também coisas afastadas no tempo. Quebraram o mundo habitual da visão, que era o do espaço. Agora, com os grandes instrumentos científicos, vê-se o tempo.

Mas sim, o mais importante é isto: o que antes era religião, mito e imaginação está transformado em boletim meteorológico. Ganhámos ciência, mas perdemos qualquer coisa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

14 Fev 2020

Sobre a beleza, dois clássicos

Dois Clássicos, um de cada lado

1Ovídio, poeta romano que nasceu em 43 ac. e terá morrido em 17/18 dc. Com Virgílio e Horácio, Ovídio forma o trio de luxo da poesia latina.

Escreveu a A arte da Amar, volumes sobre como conquistar uma mulher, como manter a amada, etc. Nada moralista, perverso até, o quanto baste.

Em Metamorfoses, uma das obras clássicas mais influentes, a que podemos aceder através da belíssima tradução de Paulo Farmhouse Alberto, na editora Cotovia, Ovídio, relatando a beleza de um rapaz, escreve:
“Nada do que eu via nele se poderia considerar humano.”

E, um pouco mais à frente, surgem estes versos impressionantes:
“Mal me apercebi disto, digo aos homens: Não sei que deus
habita neste corpo, mas neste corpo algum deus habita.”
O belo como aquilo que passado um limite se torna não-humano. Uma outra forma de crueldade, eu diria: a extrema beleza.

2Do outro lado Chuang Tse, um dos pensadores mais influentes do Oriente. São dele alguns dos textos fundadores do taoísmo. Escreve Chuang Tse em “Capítulos interiores”:

“Mao Chiang e Li Ching eram consideradas belas pelos homens. Mas se os peixes as vissem, mergulhariam até ao fundo do rio. Se os pássaros as vissem, voariam para longe. Se os veados as vissem, fugiriam para longe. Destes quatro quem reconhece a verdadeira beleza?”

A beleza como algo que pode ser analisado e compreendido por peixes, pássaros, veados e homens. Susto e paixão, consequências da beleza; assombro, desejo ou mera contemplação como acções ou reacções de humanos e animais, elementos bem terrenos.

Os homens na cidade, os veados na floresta, os peixes na água e os pássaros no ar. O que é belo não pertence ao céu ou ao divino, mas aos elementos bem concretos da natureza. E estes não estão de acordo entre si.

 

Poemas do Oriente: Susto

Não é fácil esquecer a liberdade.

Peixe desviado ontem do mar para a mesa. 

Move-se ainda.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

7 Fev 2020

Irremediavelmente moderno

Há muito pouco tempo uma amiga minha falava-me da inacreditável beleza natural dos Açores. Eu dos Açores conheço unicamente São Miguel onde estive de férias vai fazer uns vinte anos. Como quase sempre que me encontro num sítio abençoado com uma natureza deslumbrante, aborreço-me. E como quase sempre, é difícil explicar isto a qualquer pessoa que se emocione com uma cascata ou um matagal.

A verdade é que não tenho a filosofia das paisagens. Pelo menos das paisagens naturais. Raramente me acontece ficar impressionado com a beleza de um local intocado por mão humana. Faltam-me coisas: pessoas, edifícios, bulício, vida urbana. Sou irremediavelmente chato, nesse aspecto. Irremediavelmente moderno. Pelo que quando as pessoas me começam a falar das planícies verdejantes do Alentejo, do pôr-do-sol no grand canyon ou das praias com água azul-turquesa na Tailândia ou em Bali (sim, também não gosto de praia), não evito um bocejo. E as pessoas reagem como é normal as pessoas reagirem ao que consideram um despeito ou uma excentricidade: acham que as estou a ofender ou que sou maluco.

Não consigo explicar exactamente o que me aborrece na exuberância da natureza. Mas percebo que enquanto os outros vêm uma magnífica cascata, eu vejo água a cair; enquanto ficam deslumbrados com um bosque, eu vejo boa madeira para a salamandra do meu cunhado e bicheza escondida no mato só à espera que eu por lá passe para me ferroar. A natureza está cheia de coisas que nos querem mal. Levámos séculos a domesticá-la. E mesmo assim, mal temos oportunidade, queremos para lá voltar.

O facto de ter nascido na cidade não será alheio à minha indiferença pela natureza nas suas múltiplas declinações. O facto de tendencialmente gostar de pessoas – desde que não em ajuntamento – e de estas normalmente escassearem na tundra ou em praias desertas também não ajudará. Mas tendo a pensar que o maior óbice ao apego pela natureza deriva sobretudo da minha intolerância ao desconforto, coisa que sobeja nos sítios onde o ser humano não se instalou. Detesto acampar. Detesto a areia da praia nos pés. Detesto as mil e uma pecinhas das plantas e dos arbustos que se colam à roupa e à pele. Diante das maravilhas naturais sou um burguês entediado, nos meus melhores dias.

Ainda assim, não sou propriamente um apreciador de monumentos ou de edifícios. Na maior parte das vezes que viajo dispenso de bom grado o roteiro arquitectónico das cidades por onde passo. Interessa-me muito mais, na verdade, perder-me nas ruas, sentar-me numa esplanada a ver as pessoas a passar, ouvir (sobretudo quando na percebo a língua) as conversas das pessoas nos transportes públicos ou quando passeiam. As pessoas é que me interessam, sem dúvida. Provavelmente porque escrevo. Como dizia a Virginia Woolf, “o escritor é aquele que tendo aprendido o essencial sobre o carácter humano para levar adiante a vida, não deixa nunca de se interessa por ele” (ela di-lo de forma mais elegante, estou certo). É isto. A natureza pode ficar ali, ao longe, que é mais bonita assim.

7 Fev 2020