Florestas, turismo e desigualdades

Gosto da imponência das florestas tropicais, da sua esmagadora dimensão, de como são dificilmente domesticáveis à vontade das pessoas, antes impondo modestos e sistemáticos processos de adaptação e convívio com uma natureza cujo poder só muito vagamente controlamos. É nesses contactos com a brutalidade e a beleza destes magníficos ecossistemas que ainda recupero alguma esperança no futuro e na viabilidade de um planeta que consumimos desenfreadamente e destruímos cada vez mais depressa.

E no entanto, é de avião que chego a estes lugares, mais um entre milhões de viajantes na massificada indústria do turismo contemporâneo, onde em nome da “experiência” se invadem paisagens rurais e urbanas, ecossistemas sensíveis, cidades em que a facilidade da visita implica dificuldades para quem lá vive, modos de vida e culturas locais transformadas em mercadoria para consumo acelerado. As circunstanciais preocupações com a “sustentabilidade” do turismo que as entidades internacionais que regulam e promovem o sector não escondem a inviabilidade do atual processo de massificação global: as mesmas entidades que reconhecem que as viagens aéreas contribuem pelo menos com 5% para o total das emissões de CO2 no planeta, regozijam a cada ano com um novo recorde no número de passageiros internacionais.

Neste caso, foi na pequena povoação de Ubud, no centro da ilha Bali, que tive oportunidade de celebrar a entrada no novo ano, num restaurante espetacularmente integrado na paisagem da floresta, insuspeito a quem o olha ao nível do passeio, mas que se vai revelando à medida que vamos descendo no seu interior, com vistas para o rio que passa no fundo do vale e para uma variedade aparentemente infinita de árvores e flores. Ubud é um desses sinais da necessária humildade da civilização, sempre em precário equilíbrio numa permanente adaptação à incontrolável força da natureza em ambientes tropicais.

Mas Bali é também, já se sabe, um dos locais mais simbólicos da massificação turística do planeta. Sendo as praias e o entretenimento noturno nas áreas mais urbanizadas do litoral o centro dessa massificação, a impressionante diversidade paisagística e cultural da ilha oferecem uma diversidade de “experiências” a potenciais visitantes que a tornam atrativa para os mais variados públicos. Famílias completas, casais dos mais variados géneros e idades, viajantes solitários à procura de aventura, entretenimento ou conhecimento, encontram-se em Bali os mais variados tipos de turistas, das mais variadas idades e origens.

Ainda assim, a ilha está longe de estar preparada para esta afluência de visitantes, o que se nota, desde logo, na mobilidade e nos transportes, sobretudo para quem, como eu, se foi habituando aos padrões das economias mais avançadas do norte da Europa ou Japão, com uma prioridade absoluta ao transporte público e escassa utilização de transportes privados. É o contrário de Bali, onde praticamente não há transportes públicos e os automóveis e motorizadas invadem permanentemente estradas, ruas e até passeios. Será talvez mais problemática a situação dos centros urbanos do litoral, mas são também penosamente demoradas as viagens pelas congestionadas estradas do interior.

Esta insuficiência de infraestruturas nos países menos desenvolvidos faz com que as populações pobres que habitam estes países paguem mais que as populações ricas que vivem nos países mais desenvolvidos: a falta de soluções que aumentem a eficiência colectiva implica custos privados em viaturas, combustíveis, acidentes, demoras e poluição sistemática que os países mais desenvolvidos vão conseguindo evitar, ou pelo menos mitigar. Escusado será dizer, já agora, que a mobilidade em Portugal continua mais próxima dos padrões do mundo menos desenvolvido, com um privilégio sistemático ao transporte privado e manifestas insuficiências nos vários tipos de transporte público.

Em todo o caso, com ou sem infraestruturas adequadas, são turistas quem mais usufrui dos magníficos recursos de lugares como Bali: os melhores restaurantes, as melhores lojas, as melhores praias (em geral privatizadas ou com acesso difícil para quem não está instalado num hotel à beira-mar) praticamente não são utilizados pela população local. As classes médias dos países mais desenvolvidos, mesmo quando não são ricas, têm um poder de compra suficientemente alto para excluir desses inflacionados consumos os residentes locais. Na realidade, também muito disto vai acontecendo em Portugal, onde a habitação e o lazer em certas áreas das cidades mais turísticas se vão tornando proibitivos para quem lá vive. A economia da “experiência turística” vai-se fazendo muito à custa do trabalho precário e mal pago e da exclusão social, um pouco por todo o mundo.

 

 

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