IIM | Inaugurada exposição “Padrões de Macau 2.0”, de Eva Bucho

O Instituto Internacional de Macau (IIM) acolhe, a partir de hoje, mais uma exposição integrada no cartaz das celebrações de “Junho – Mês de Portugal 2026”. Trata-se de “Padrões de Macau 2.0”, da autoria de Eva Bucho, uma extensão de trabalhos já expostos em 2024 e que, desta vez, inclui os padrões e ornamentos encontrados na Taipa e em Coloane

Eva Bucho regressou ao seu projecto “Padrões de Macau”, realizado e apresentado ao público em 2024, estendendo a sua pesquisa às ilhas de Taipa e Coloane. “Padrões de Macau 2.0” é o resultado desse trabalho, com a exposição a ser inaugurada hoje no Instituto Internacional de Macau (IIM) a partir das 18h.

A autora do projecto quis explorar todos os padrões culturais presentes em portas, janelas, pavimentos e demais ornamentos, revelando traços patrimoniais e arquitectónicos muito particulares de uma mistura de vivências e culturas. Estes padrões revelam-se em fotografias, tratando-se de um novo trabalho editorial mais completo sobre o que se pode encontrar no território, contou Eva Bucho ao HM.

“Mantivemos a maior parte dos padrões e acrescentámos alguns novos às freguesias existentes, dando oportunidade a quem não adquiriu a primeira edição de ficar a conhecer este projecto. Mas a grande novidade é que expandimos o conceito e agora temos uma edição completa com padrões de Macau, Taipa e Coloane. Lanço também uma colecção de merchandise — assim, os padrões saem do livro e ganham nova vida”, disse.

O objectivo foi manter “a identidade central” do projecto, mas melhorando “a experiência e alcance”. Para Eva Bucho, estes padrões contam “a história de um território híbrido e único”, e de como Macau sempre foi “um espaço de grande interesse visual, onde o diferente se encontra sem se anular”.

“O mais bonito é que, mesmo sendo património, estes padrões continuam vivos — nas ruas, nos mercados, nos azulejos das lojas antigas. O meu projecto tenta tornar esse olhar mais consciente e duradouro, ajudando-nos a olhar melhor à nossa volta e a dar mais valor ao que existe e vemos todos os dias”, acrescentou.

Longo processo

Eva Bucho recolhe estes padrões há muitos anos, e fá-lo porque “são testemunhas silenciosas da identidade única de Macau”.

“Muitas vezes, passamos por eles todos os dias sem os ver realmente — nas portas, nos azulejos, nas fachadas dos edifícios antigos. O meu objectivo é tirá-los do esquecimento quotidiano e dar-lhes um novo lugar de destaque, num formato editorial que os preserve e celebre”, disse a responsável pelo projecto.

Em relação ao processo de selecção, foram escolhidos “os que tinham mais força visual, história cultural e também os que estão a desaparecer”, verificando-se, em “Padrões de Macau 2.0”, “um olhar pessoal e duradouro sobre o que nos rodeia”.

Eva Bucho voltou a padrões fotografados há dez anos, aos quais quis voltar, por exemplo, e que já desapareceram. Assim, esta recolha é também como uma preservação de algo tão único e, muitas vezes, esquecido.

“Há também outros, em portas, cujas portas mudaram de cor desde a primeira edição. Cada padrão que se perde ou se altera é um pequeno silêncio na memória visual do território — e é por isso que este projecto continua a fazer sentido.”

Eva Bucho gostava de fazer uma terceira edição de “Padrões de Macau”, sendo que o “olhar” que deu origem às duas primeiras edições “não se esgotou”. A autora nota ainda um sentimento de perda face a padrões que têm desaparecido à conta das constantes renovações e mudanças no território.

“Há sempre novos padrões para descobrir, novos detalhes em fachadas esquecidas, novas cores em portas antigas. Além disso, desde 2016 que venho a perder padrões que gostaria de ter registado — e essa urgência mantém-se. Por isso, sim, há sempre espaço para novas edições, se houver novo material significativo a acrescentar — novos padrões, novas histórias, ou um novo olhar sobre o que já foi registado.” Acima de tudo, “o caderno de campo continua aberto, e Macau continua a surpreender”, resume.

A mostra de fotografia fica patente até ao dia 31 de Julho. Hoje, no IIM, é também apresentado o quinto volume de “Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente”, de António Aresta, bem como os últimos cinco volumes das crónicas de Jorge Rangel, presidente do IIM. Estes volumes dizem respeito à obra “Falar de Nós – Acontecimentos, Personalidades, Instituições, Diáspora, Legado e Futuro”.

18 Jun 2026

Sónia Sénica, académica: “Uma nova ordem multipolar”

Sónia Sénica, docente de Relações Internacionais, considera que a diplomacia mundial se define com três poderes, liderados pelo crescimento da China, a Rússia e o declínio da América. O HM conversou com a autora de “Ordem Tripolar – O Mundo dos Três Grandes Poderes” na última edição da Feira do Livro de Lisboa

Defende que o mundo tem hoje uma ordem tripartida dominada pelos Estados Unidos da América (EUA), China e Rússia. Como serão os relacionamentos com Pequim daqui a diante?

Percebemos que, sob liderança de Xi Jinping, há uma grande influência de Pequim para o que é uma nova ordem multipolar, que é algo que advoga, como sabemos. Mas, como refiro no livro, essa dimensão de multipolaridade cria uma espécie de eixo antagónico, sobretudo ao Ocidente, pela liderança norte-americana, independentemente da tentativa de normalização de agendas, ou de concertação de alguns posicionamentos com encontros oficiais, cimeiras ou ataques diplomáticos. Recentemente ficou muito claro que houve verdadeiramente uma corrida a Pequim. Até mesmo da parte do actual Presidente norte-americano, Donald Trump, houve a necessidade de articular as dinâmicas de cooperação e conflitualidade que estavam em curso, sobretudo a mais preocupante nesta altura para ele, que seria a do Médio Oriente e, em certa medida, contar com uma espécie de condescendência, de posicionamento favorável no que era a pacificação da região.

Tendo em conta o discurso político e a agenda de Pequim, o conceito de “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”, parece que existe uma espécie de ordem mundial paralela. A China tem, por exemplo, o Fórum Boao, considerado o Davos da Ásia.

Sim. Em bom rigor, o que pretende Xi Jinping? Há duas dimensões: por um lado, a reunificação de Taiwan e a sua afirmação em termos regionais no Indo-Pacífico, e depois uma espécie de propagação da influência pela via da dimensão económica, com a “Belt and Road Initiative”; mas menos no quadro daquilo que é a dimensão de responsabilização enquanto grande poder. Ou seja, [a China] não quer e não está, do meu ponto de vista, claramente favorável a uma intervenção permanente militarizada ou de pacificação de mediação em várias dimensões. Exactamente como aquela percepção de excepcionalismo por parte dos EUA, uma linha estruturante, sobretudo desde o fim da Guerra Fria, em que [o país] emerge no quadro da unipolaridade e assume o papel de única potência internacional. Na época até se falava de ser o polícia do mundo. Mas há outra coisa importante, que Xi Jinping reiteradamente parece advogar, e que, em certa medida, parece curioso.

O quê?

Se, por um lado, [a China] cria esse multilateralismo alternativo ao Ocidente, sob influência sino-russa, como sabemos, e em concertação com os povos, por outro lado continua a defender o sistema onusiano [da Organização das Nações Unidas]. E porquê? [Por causa] da questão importante do direito de veto no Conselho de Segurança, onde a Rússia e China consideram que conseguem, de alguma forma, criar uma espécie de constrangimento ao Ocidente, [seja] aos EUA ou países europeus. Isto no que concerne a tomadas de posição condenatórias ou mais assertivas relativamente às suas posições e acções externas. Há um paradigma, também interessante, que mudou recentemente desde a invasão na Ucrânia, segundo analistas militares: de que os grandes poderes já não precisam apenas da força convencional para impor os seus interesses.

Quais as alternativas?

Têm de recorrer à guerra híbrida, diversificar alianças, contar com outros actores, por exemplo, dentro do Sul Global, nas dimensões económicas, diplomáticas. Isso acaba por criar uma espécie de sinergia global e uma mudança substantiva de como se faz política externa.

Porque o Sul Global é tão importante para a China? Temos a questão da língua portuguesa, de África, e também da língua espanhola, cuja importância é crescente.

Talvez por três ordens de razões. A primeira, que é notória, que é expandir a sua influência pela via económica. Há aqui uma dependência muito clara dos países que beneficiam com o investimento chinês, com a concertação de parcerias [com a China] enquanto parceiro comercial; de infra-estruturas que obviamente são criadas por via chinesa nesses países. África é muito substantiva nessa dimensão. Mas parece-me que é mais do que isso: é criar, de facto, uma espécie de política internacional mais inclusiva. A forma de cooperar da China, e na abordagem ao Sul Global, é uma espécie de percepção da igualdade. Não importa como a liderança chegou, se por via legítima ou não, ou por guerrilhas muitas vezes, ou convulsões sociais. Importa quem lá está naquele momento e de que forma podemos gerar benefícios comuns.

Muito se tem falado se a China é, ou não, uma verdadeira potência. Defende, no livro, que “a sua liderança política não parece ter assumido ainda a vontade de ocupar em pleno esse papel”. Em que sentido?

No sentido em que eu referi há pouco. Xi Jinping tem objectivos concretos, que é estender a influência chinesa na dimensão económica, porque é útil também para a economia chinesa. Estas dinâmicas de conflitualidade estão a pôr em risco e em causa cadeias de abastecimento, interesses, a economia interna. Sabemos que [a economia interna] tem sido uma forma de apaziguar também possíveis convulsões e criar uma espécie de diáspora que consiga também investir fora, com empresários e tudo isso. Acaba-se por criar uma espécie de quase expansão da China numa outra forma. Não agressiva, não invasiva territorialmente.

Através da cultura, por exemplo.

Exactamente, da propagação da cultura, da defesa daquilo que é a língua chinesa fora do território nacional, de criar sempre essa ligação entre a diáspora e o seu território. Tentando manter uma concertação, cooperação ou integração pacífica, e apelando à paz. É curioso, tendo em conta que o objectivo será, mais cedo ou mais tarde, a reunificação de Taiwan, idealmente de forma pacífica, mas, não sendo possível, recorrendo a outros mecanismos.

No seu entender será até 2049, quando chega ao fim do período de 50 anos no contexto da transição de poderes de Macau.

Creio que Xi Jinping tem isso decidido na sua cabeça há muito tempo. Não o esconde. Aliás, foi a primeira coisa [que afirmou], foi uma restrição unilateral que assumiu mal recebeu o presidente Trump. Está tudo certo, excepto esta parte.

Na última visita do Presidente norte-americano, ou na anterior?

Nesta. É um assunto tabu, e isso ficou claro. O posicionamento norte-americano [sobre a questão de Taiwan] nem era necessário ser ouvido naquele momento, porque se trata de um assunto interpretado por Xi Jinping como sendo uma questão doméstica, com outros contornos. Portanto, do meu ponto de vista, há um cronograma. Há quem advogue a questão de 2049 e, para ser simbólico, é o marco de uma liderança que conseguiu a reunificação de Taiwan com a China continental. Mas talvez estas questões actuais, como a monitorização das posições norte-americanas, dos seus parceiros, quer na Ucrânia ou no Médio Oriente, podem levar ao acelerar desta tomada de decisão, ou desta acção política, diplomática ou de estratégica militar que Xi Jinping vai ter de tomar.

Como será a relação com os Estados Unidos se o “Trumpismo” continuar com outras figuras?

Sob a liderança de Donald Trump, há claramente um propósito de articulação de agendas ou de relação com as grandes lideranças e homens fortes, e são todos os que refiro no livro “Ordem Tripolar”. O próprio Trump tenta, em certa medida, imputar algumas dimensões de lideranças de homens fortes, em que ele decide e toma, até, as rédeas do processo com uma só tomada de decisão, mas também de comunicação política. Muitas vezes sabemos o que vai ser decidido pelo próprio [Trump] mesmo antes da rede diplomática ou das próprias forças armadas. Isso tem traços de alguma dimensão de liderança centralizada e personalizada, que é uma característica de Xi e de Putin. Parece-me que, num primeiro ponto, haverá tentativas de concertação onde for possível, mas também de divergência. Certamente que existem posicionamentos que verdadeiramente não são todos iguais. E vai haver muito pragmatismo consoante o ciclo, o evento ou a tomada de posição. Uma tentativa de ajustar consoante as necessidades de parte a parte.

Os três grandes

Nesta obra recentemente editada pela Planeta, Sónia Sénica fala da “ascensão da China, o regresso da Rússia a uma lógica de confronto directo com o Ocidente e a percepção global de declínio norte-americano”, o que abre “caminho a uma nova ordem mundial”, que é “tripolar, incerta e desafiante”, lê-se na sinopse. A docente e analista de política traça “um retrato inquietante do mundo em transformação”, sendo esta uma “uma obra indispensável para entender o que está em jogo nesta transição geopolítica, em que a democracia liberal é posta à prova e na qual a Europa procura, ainda, o seu lugar”, é acrescentado.

18 Jun 2026

Festival LGBTQ+ com filmes nos cinemas Emperor este fim-de-semana

Há cinema para ver este fim-de-semana ligado ao universo LGBTQ+ no âmbito do Festival Internacional de Cinema Queer de Macau (MIQFF, na sigla inglesa), que decorre até ao dia 27 deste mês, com as sessões a terem lugar nos cinemas Emperor.

Esta quinta-feira, às 20h, pode ser visto pela segunda vez o filme de estreia, “Cyclone”, do realizador Philip Yung, que conta a história de uma mulher trans da China continental que viaja até Hong Kong para fazer uma cirurgia de redesignação sexual.

“Rosebush Pruning”, de Karim Ainouz, é a escolha para sábado, às 23h40. Classificado em Macau como pornografia e, portanto, recomendado para maiores de 18 anos, este filme revela os traços peculiares de uma família americana rica que vive na Catalunha, numa espécie de isolamento, procurando o amor e validação uns nos outros. Porém, segundo a sinopse oficial do filme, a chegada de alguém de fora a esse núcleo faz com que surjam tensões familiares e o rompimento de laços de sangue que existiam até então.

Segundo a Lusa, o filme surge no website da Berlinale como uma “sátira negra”; no Festival de Cinema de Sydney como “comédia e filme LGBTQIA+” e no ‘site’ especializado de cinema IMDB como “comédia negra, thriller e drama”. Jay Sun, director do festival, não quis comentar a decisão das autoridades de classificar este filme como pornografia, dizendo “ser inapropriado comentar”, uma vez que “a classificação é da competência do Instituto Cultural” (IC). Além disso, o festival não esteve “envolvido no processo”, adiantou.

Romances no ar

Também este sábado, mas na sessão das 17h15, pode ser visto “Iván & Hadoum”, do realizador Ian de la Rosa. Eis uma história passada em Espanha entre Iván, um trabalhador transgénero, e Hadoum, um trabalhador marroquino que acaba de chegar ao país. Este filme = retrata não apenas diferenças culturais nos relacionamentos como a vida dos trabalhadores migrantes e os meandros do amor e do desejo.

Por sua vez, “Trial of Hein” é exibido no domingo, às 20h, um trabalho do realizador Kai Stanicke. Também no domingo, às 17h15, é exibido “Saccharine”, de Natalie Erika James, um filme que explora um universo negro, de terror e, ao mesmo tempo, de desejos inerentes ao universo “Queer”. Já no sábado, apresenta-se a película “Away”, de Gerard Oms.

Esta sexta-feira, o festival exibe ainda “To Dance is to Resist”, uma história em torno dos bailarinos ucranianos Jay e Vol’demar, ligados ao universo escondido da cena “Queer” da cidade de Kyiv. Desde 2022, e sobretudo desde o conflito entre a Rússia e Ucrânia, que o realizador Julian Lautenbacher tem acompanhado este par, revelando as possibilidades de manter a arte e a vivência “Queer” num mundo virado do avesso.

17 Jun 2026

Governo promete incentivos fiscais para renovação urbana

Sam Hou Fai prometeu ontem que a renovação urbana tomará um outro rumo e que estão a ser pensados mais incentivos fiscais, e não só, para que os proprietários se sintam atraídos a renovar os prédios mais antigos.

“Vamos fazer trabalho [de revisão] da legislação do reordenamento [urbano] para termos um maior suporte legal, e incentivos fiscais que possam atrair e facilitar a maior participação e envolvimento dos visados”, disse o Chefe do Executivo em resposta aos deputados.

O debate começou, precisamente, pela renovação urbana, com os deputados a chamarem a atenção para a existência de muitas edifícios degradados. Ella Lei disse que “há cerca de cinco mil edifícios com mais de 30 anos, e muitos representam um risco”. A deputada alertou ainda para o facto de muitos residentes dizerem que, “mesmo querendo fazer obras de reparação, existem problemas complexos, como procedimentos morosos ou a faltam de assembleias de condomínio”. Desta forma, Ella Lei frisou que “a sociedade espera mais acções do Governo”, pedindo um “planeamento global integrado com a questão comunitária”.

Sam Hou Fai respondeu que o Executivo pretende “utilizar as habitações temporária e para troca, ampliar as suas funções em benefício dos visados e para a renovação urbana”, bem como “incentivar os proprietários a envolverem-se mais na reparação das suas fracções e edifícios”.

O Chefe do Executivo adiantou que a ideia é estabelecer uma janela temporal em que “a cada cinco ou dez anos, quando haja deterioração dos edifícios, eles [donos] possam trabalhar no sentido da sua reparação e manutenção, com o apoio do Fundo de Reparação Predial”.

A aposta de renovação passa também pelos edifícios baixos, nomeadamente de classe P e M, “com mais de 30 anos”. “Oferecemos medidas que aliciem os donos a aderir à manutenção e reparação” dos prédios, rematou Sam Hou Fai.

Um novo modelo

O governante prometeu trabalhar em prol de uma “maior resiliência urbana”, apostando “numa atitude pragmática e assumindo uma atitude liderança”. Sam Hou Fai disse que a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana irá liderar todo o processo de renovação “após aprovação de obras e definição de planos”, defendendo também “potenciar o papel da Macau Renovação Urbana”.

Sam Hou Fai anunciou ainda o lançamento de “um novo modelo de paradigma de trabalho no âmbito da renovação urbana, com modelos de reabilitação por quarteirões”.

17 Jun 2026

Anunciada reconversão do sistema educativo a pensar na IA

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou ontem que haverá uma reconversão de todo o sistema educativo, desde o ensino técnico-profissional ao ensino superior, a pensar na Inteligência Artificial (IA) e na necessidade de novos conteúdos e formatos. “Vamos implementar a educação em IA em todas as fases de educação e melhorar os cursos técnico-profissionais nas escolas, e no ano lectivo de 2025-2026 12 escolas já administraram cursos nesta matéria”, começou por dizer o governante.

“No ensino superior vamos aditar cursos de IA, na área do Direito ou gestão digital, e fazer com que as instituições do ensino superior possam organizar micro cursos para esse efeito”, acrescentou.

Sam Hou Fai, que foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) fazer um balanço dos seis meses de Governo, respondeu, assim, às muitas perguntas colocadas pelos deputados sobre a necessidade de apoios ao emprego dos jovens e dos residentes.

Ngan Iek Hang disse que “os recém-graduados esperam maior diversificação dos postos de trabalho em cargos de base e médios nas indústrias emergentes”, enquanto Lam Lon Wai destacou que “o que mais preocupa os residentes continua a ser o emprego”.

“Muitos jovens são licenciados, mas não têm experiência, enquanto alguns trabalhadores de meia idade temem que as suas competências fiquem desactualizadas”, indicou o deputado dos Operários. Lam Lon Wai lembrou que “muitos cursos não correspondem às necessidades de mercado”.

Chan Hao Weng disse mesmo que “os resultados da transformação de indústrias continuam a não beneficiar os residentes”.

Estudo a caminho

Ainda em matéria de emprego e trabalhadores não-residentes (TNR), Sam Hou Fai revelou que será divulgado, “ainda este ano”, o relatório do estudo encomendado pelo Governo sobre a necessidade de quadros qualificados no futuro, nomeadamente sobre “as indústrias mais populares, como a educação e área jurídica”.

Face a dados no apoio ao emprego, o Chefe do Executivo referiu que entre os meses de Janeiro a Abril deste ano, houve 40 sessões de apoio a 3.370 residentes.

Sobre os TNR, ficou a promessa de “ajustar o número de quotas em conformidade com o desenvolvimento da RAEM”. Até Abril deste ano Macau tinha 182.815 TNR, dos quais cerca de 147 mil não tinham qualquer profissionalização. Apenas 6.887 TNR têm formação ou são qualificados, trabalhando no território 28.683 não-residentes que fazem trabalho doméstico, “o que representa um grande número”, disse o Chefe do Executivo.

Sam Hou Fai concluiu, assim, que “70 por cento dos TNR não profissionais fazem trabalhos que requerem força física, na área da segurança e das limpezas”.

UTM | Extintos cinco cursos

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, aprovou a extinção de cinco cursos de diploma da Universidade de Turismo de Macau.

Segundo a informação do Boletim Oficial, vão ser extintos os cursos de diploma de Gestão de Empresas Turísticas, curso de diploma de Gestão do Património Cultural, curso de diploma de Gestão Hoteleira, curso de diploma de Gestão e Programação de Eventos e curso de diploma de Gestão de Venda Turística e de Promoção de Marketing.

Todos estes cursos tinham uma duração de dois anos e foram aprovados a partir de 2010. Como parte da extinção, a Universidade de Turismo de Macau garante que os actuais alunos não são afectados e que serão conservados os registos académicos dos alunos que frequentaram as formações que vão ser descontinuadas.

17 Jun 2026

Emprego | Sam Hou Fai diz que houve “melhoria eficaz”

Não obstante as críticas apontadas pelos deputados sobre as dificuldades do emprego jovem e necessidade de actualização de cursos tendo em conta o mercado laboral, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, considera que houve “uma melhoria eficaz da situação de emprego dos residentes”, referindo que até Maio deste ano foram apoiados 4.572 residentes na busca de trabalho.

O governante destacou também que “a percentagem de trabalhadores locais em cargos de gestão de nível médio e superior nas empresas de lazer é de 89,6 por cento”. Em relação à devolução do imposto profissional pago, beneficiam da medida “cerca de 169 mil contribuintes, num montante total de 1,04 mil milhões de patacas”, disse.

Zona de Cooperação | Registados mais de quatro mil candidatos

O Chefe do Executivo destacou no discurso de balanço da acção governativa que se registou “um número recorde de 4.550 candidatos jovens de Macau” ao concurso de recrutamento para funções públicas na Zona de Cooperação de Guangdong e Macau em Hengqin, em regime de pessoal contratado.

Além disso, entre Abril e Julho deste ano, houve duas fases de destacamento de funcionários públicos, levando “um total de 20 trabalhadores dos serviços públicos de Macau para exercer funções na Comissão Executiva da Zona de Cooperação”.

Função Pública | Reforma não elimina postos de trabalho

Sam Hou Fai garantiu ontem que a reforma da Administração Pública “não é para eliminar unidades de trabalho, mas para melhorar a eficácia”. “Durante a reforma vamos fazer com que alguns postos sofram alterações, e algumas pessoas que trabalham num serviço passem para outro”, disse.

O Chefe do Executivo destacou que, até ao início deste mês, foram reestruturados seis serviços, “resultando na redução de uma unidade ao nível de direção de serviços e de seis cargos de direcção, sete departamentos, 31 divisões, três sectores e quatro secções, com uma redução total de 324 vagas no quadro de pessoal”. Além disso, desde a implementação do regime de mobilidade, em Março de 2023, até início deste mês, registaram-se 386 casos de transferência ou destacamento de trabalhadores.

17 Jun 2026

Cooperação | Sam Hou Fai diz que “mercado espanhol tem dimensão enorme”

O Chefe do Executivo, destacou no debate de ontem, na Assembleia Legislativa, que “o mercado espanhol tem uma dimensão enorme em termos económicos e de estrutura demográfica”. O governante anunciou que o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola “está a estudar a criação de instituições no México e em outros países estrangeiros”, para fomento da cooperação económica

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) com um discurso muito optimista sobre o panorama da economia local e os resultados da Zona de Cooperação de Guangdong e Macau em Hengqin.

Referindo-se à última visita realizada a Portugal e Espanha, em Abril deste ano, Sam Hou Fai voltou a destacar os países de língua espanhola como importantes parceiros, referindo, em resposta aos deputados, que “o mercado espanhol tem uma dimensão enorme em termos económicos e de estrutura demográfica”, existindo necessidade de “aperfeiçoar esta rede” e “consolidar os resultados obtidos na visita”.

Relativamente ao Instituto de Promoção do Comércio e Investimento (IPIM), Sam Hou Fai anunciou que “vai reforçar o papel orientador nos investimentos”. Já o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola (CECPS) está a “estudar a criação de instituições no México e outros países estrangeiros”, sendo que, este mês e no próximo “haverá visitas ao Brasil, Argentina e Moçambique” realizadas pelo IPIM.

Relativamente ao CECPS, Sam Hou Fai referiu que “o número de projectos de investimento e financiamento aumentou para 58, e o montante total do Fundo [Fundo de Desenvolvimento Económico e Comercial entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola] atingiu os 30.000 milhões de renminbis “.

Os contratos assinados chegaram ao valor acumulado de 8.138.000 milhões de renminbis até Junho deste ano, “tendo atraído 173 empresas para se estabelecer na Zona [de Cooperação]”, referiu.

Ainda no que diz respeito à Zona de Cooperação em Hengqin, o Chefe do Executivo falou do “alcance de resultados importantes e faseados”, com “os principais indicadores económicos a manterem uma tendência positiva”.

Assim, no primeiro trimestre deste ano “o Produto Interno Bruto da Zona de Cooperação atingiu 14.273.000 milhões de renminbis, apresentando um aumento homólogo de 5,5 por cento”.

Alerta PME

Vários deputados colocaram questões sobre a sobrevivência das Pequenas e Médias Empresas (PME) locais, mas Sam Hou Fai apenas referiu que o Governo “está muito atento à situação das PME”, tendo vindo “a lançar muitos programas de apoio para dinamizar o comércio comunitário e canalizar o fluxo de pessoas, a fim de dinamizar a economia a nível local”.

No seu discurso, Sam Hou Fai frisou o lançamento “dos serviços de apoio à digitalização de PME de 2026 e do plano de valorização inteligente do sector de restauração de Macau”, sempre com o objectivo de “aliviar os custos de financiamento das empresas e apoiar a modernização e transformação”.

Subsídios para espanhol

O Chefe do Governo afirmou ontem que está a ser ponderado o financiamento de exames de certificação de língua espanhola, de modo a responder às necessidades de “desenvolvimento social”. Sam Hou Fai indicou que na segunda metade deste ano o Governo irá adicionar uma nova lista de subsídios “alinhados com as necessidades de desenvolvimento nacional e social de Macau”, com a inclusão da “certificação em espanhol” nessa lista entre as opções “em análise”.

“Estamos a aumentar os montantes dos prémios para determinadas certificações profissionais, em função dos custos associados à realização desses exames”, disse. Actualmente, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau é a única universidade com uma licenciatura em espanhol do território, e a única onde é possível realizar o exame para obter uma certificação oficial de proficiência em espanhol do Instituto Cervantes.

17 Jun 2026

10 de Junho | David Mourão-Ferreira recordado hoje no IPOR

Faz hoje 30 anos que faleceu o poeta português David Mourão-Ferreira, e que agora é recordado numa palestra intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, na Biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente. Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam uma sessão pensada no âmbito das comemorações do 10 de Junho

“E por vezes as noites duram meses / E por vezes os meses oceanos / E por vezes os braços que apertamos / nunca mais são os mesmos.” É assim que começa um dos poemas mais conhecidos de David Mourão-Ferreira, poeta português contemporâneo falecido há exactamente 30 anos e que hoje é recordado numa palestra que decorre na biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente (IPOR), a partir das 18h30.

Os académicos e docentes Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam a sessão intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, que visa recordar “o especial contributo de David Mourão-Ferreira para as letras nacionais”, disse ao HM Pedro D’Alte.

O poema com que este texto se inicia, “E por vezes”, é, para Pedro D’Alte, “dos mais belíssimos poemas portugueses o que, por si, já diz muito da capacidade estética do autor”. Mas como recorda o responsável, Mourão-Ferreira não foi apenas poeta, tendo também escrito em prosa e exercendo crítica literária.

“David Mourão-Ferreira foi letrista para Amália Rodrigues, escrevendo fados icónicos que, hoje, são transversais tanto ao gosto popular como das elites. Tem a particularidade de ser um teórico, professor académico, conhecedor literário. Este conhecimento é plasmado nas suas composições, mesmo que aparentemente simples.”

Pedro D’Alte destaca que, na obra do poeta, “são relevantes as inúmeras referências intertextuais e os diálogos profundos com outros autores de renome”. “Numa perspectiva mais pessoal, é singular o ascendente sensorial na representação do erotismo e, também, de enaltecer a quantidade e a qualidade da produção e a incursão em diferentes esferas de produção que perpassam a música, a poesia e a estética romanesca”, acrescenta.

A sessão de hoje no IPOR “irá centrar-se na presença do Amor, do Erotismo, da figura feminina, e dos aspectos mais exploratórios deste ascendente sensorial” nos poemas deste autor.

Será dada “primazia a ‘Antologias Poéticas’, organizadas pelo próprio autor em vida, ou organizadas por outros teóricos já após o seu falecimento”, fazendo-se depois o cruzamento com uma “esfera narrativa”, com edições como “Os amantes e outros contos” ou “As quatro estações”.

Pedro D’Alte anunciou que no próximo ano deverá ser celebrado o centenário do nascimento do poeta português, pelo que a sessão de hoje não pretende “esgotar nem ampliar em demasia os conteúdos sobre este autor, de modo a não sobrecarregar o nosso público de Macau com demasiados tópicos ou linhas de leitura”.

Escrever “contra-corrente”

Pedro D’Alte recorda que David Mourão-Ferreira “não foi um autor estático”, mas sim “errático e, por vezes, em contra-corrente”.

“Basta lembrar-se o quão desafiante e contrária foi, para os poderes instalados e para a sua própria vida pessoal, a produção de letras para o fado, determinadas capas nas suas obras ou a maneira explícita como o Erótico se assume eixo central em determinadas composições. Creio que, neste sentido, David Mourão-Ferreira nos relembra a história e o sentido de ser-se português, pelo menos no seu viés mais salutar e celebrado”, defende o co-orador e organizador da sessão de hoje.

O poeta recusou “o conforto e o fácil e, em oposição, [procurou] a insurgência, a inquietação, o favorecimento e o prevalecimento da descoberta de novos caminhos, do êxtase e do gosto pela vida, do uso do tempo pessoal para a construção de um nome maior, nas mais diferentes esferas”.

David Mourão-Ferreira é, assim, mais um dos “bons nomes que Portugal tem para celebrar neste 10 de Junho”, remata Pedro D’Alte, que é pós-doutorado em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta e professor da Universidade Politécnica de Macau. Lia D’Alte é, por sua vez, mestre em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta e colaboradora da Escola Portuguesa de Macau.

16 Jun 2026

Taipa | Recuperação de terrenos leva a infestação de ratos

Um conjunto de terrenos recuperados junto ao empreendimento Nova Grand, em frente ao Parque Central da Taipa, levou a uma infestação de ratos, segundo relatos de residentes nas redes sociais. O Instituto para os Assuntos Municipais promete resolver o assunto

Vários residentes da Taipa queixam-se que a recuperação de terrenos junto ao empreendimento Nova Grand, em frente ao Parque Central da Taipa, levou a uma infestação de roedores. Segundo noticiou o jornal Ou Mun, as queixas dos moradores surgiram nas redes sociais, com publicações de vídeos onde se vê um grupo de ratos num dos terrenos.

“Actualmente, há muitos ratos na Taipa, nos terrenos recuperados junto ao Nova Grand. Quando é que o Governo pode prestar atenção a este assunto? Há muitas escolas nas proximidades, como a Escola Pui Tou, Escola Secundaria Pui Va, Escola das Nações e Escola dos Moradores de Macau. O Governo deve limpar a relva ou colocar um piso de cimento para que os residentes façam ali exercício. A relva está, actualmente, cheia de pragas e tenho medo que haja uma infestação na Taipa”, lê-se numa das publicações.

O jornal Ou Mun entrevistou alguns residentes que afirmam que os ratos andam frequentemente pelos terrenos já desocupados, queixando-se de que muitos invadiram as suas casas, entrando pelas frestas das portas ou pelos canos.

Um responsável de uma escola situada nas imediações, que não quis ser identificado, revelou que a instituição de ensino está a prestar muita atenção ao caso e se for necessário vai adoptar medidas em coordenação com as autoridades. O responsável afirmou também que outro problema grave é o panorama de infestação de mosquitos, e pediu o reforço dos trabalhos do Governo para a sua eliminação.

Promessas do IAM

Na mesma notícia, lê-se que o vice-presidente da Associação Promotora para o Desenvolvimento da Comunidade da Taipa, Lam Ka Chun, disse ter contactado o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) para o organismo acompanhar o caso. O dirigente associativo afirmou ter informado o IAM assim que soube da situação dos ratos, para que haja o menor impacto possível.

Entretanto, o IAM já terá enviado funcionários ao local para o tratamento e colocação de ratoeiras. Lam Ka Chun, também membro do Conselho Consultivo para os Assuntos Municipais do IAM, defendeu uma maior inspecção e gestão dos terrenos recuperados e vazios, nomeadamente através da organização corrente da recolha do lixo e corte de relva, a fim de prevenir a infestação de mosquitos e roedores.

16 Jun 2026

Espanhol | Língua ganha peso no ensino em Macau seguindo o rumo político

Em Macau, o espanhol ocupa um lugar secundário no sistema de ensino, sendo a MUST a única universidade com um curso na área. Com o crescente peso do idioma nos discursos políticos, qual deve ser a estratégia face ao português? Carlos André diz que a prevalência do português não invalida a aposta noutras línguas

É recente a presença, no discurso político oficial e agenda governativa, da conexão entre Macau e os países de língua espanhola. Em Abril deste ano o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, deslocou-se a Portugal para a primeira visita oficial do seu mandato, mas também passou por Madrid.

Neste contexto, o HM quis perceber se existe uma estratégia ou política pensada, por parte das autoridades, caso a procura pelo ensino do espanhol seja cada vez mais uma realidade, e de que forma se pode conjugar com a forte presença do português como língua oficial.

Da parte da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), a resposta revela que não há, para já, uma estratégia definida, existindo, sim, um acompanhamento da oferta formativa. “A DSEDJ tem vindo a impulsionar, nas instituições de ensino superior, a formação de quadros qualificados profissionais que respondam às necessidades do País e que potenciem as vantagens próprias de Macau”, começa por dizer a resposta escrita enviada ao HM.

Além disso, a direcção de serviços quer “promover o desenvolvimento da internacionalização do ensino superior de Macau”, recordando que, “além da expansão da cooperação com os países de língua portuguesa, as instituições de ensino superior locais têm desenvolvido um intercâmbio e cooperação com países de língua espanhola, em consonância com o seu próprio desenvolvimento”.

Desta forma, a DSEDJ destaca como a Universidade de Macau (UM), Universidade Politécnica de Macau (UPM), Universidade de Turismo de Macau, Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST na sigla em inglês), a Universidade da Cidade de Macau e a Universidade de São José (USJ) “estabeleceram mecanismos de intercâmbio e cooperação com instituições de ensino superior de países de língua espanhola, tais como Espanha, México, Argentina, Colômbia e Peru”.

Os acordos abrangem “diversas áreas, nomeadamente a formação de quadros qualificados, o intercâmbio de estudantes, programas de intercâmbio de Verão para estudantes, intercâmbio académico e projectos de investigação científica conjunta”.

O facto de o espanhol ser disciplina opcional em muitas destas instituições do ensino superior acaba por “apoiar o Governo da RAEM nas vertentes de cooperação com os países de língua espanhola”. É ainda referido o caso concreto da MUST, onde funciona o único centro de exames DELE [Diploma de Español como Lengua Extranjera, ou Diploma de Espanhol como Língua Estrangeira], em Macau. Tal proporciona, segundo o Governo, “uma plataforma conveniente para os estudantes que aprendem espanhol”.

Ainda segundo a DSEDJ, as restantes opções de ensino do espanhol estão abrangidas por aquilo que é oferecido pelo Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo. Oferece-se, aqui, “cursos de educação contínua de língua espanhola, proporcionando vias de aprendizagem para os residentes que pretendam elevar as suas competências pessoais”.

O HM questionou a DSEDJ quanto à possibilidade de serem criados mais cursos de espanhol e como isso poderia “ser integrado nas actuais políticas relativas à língua portuguesa”, mas não foi dada uma resposta concreta neste sentido.

Espanhol desde 2012

O espanhol é ensinado em Macau em contexto de aprendizagem contínua e também como disciplina opcional no ensino superior. Um dos exemplos é o da USJ, que abre no dia 29 de Junho (com finalização a 11 de Julho deste ano), o nível 1 do “Curso Intensivo de Língua Espanhola”, para a obtenção do nível elementar A1, em que a língua utilizada é o mandarim “complementado com o espanhol”. Segundo a informação disponibilizada no website sobre os cursos de aprendizagem contínua, não é possível utilizar o subsídio do Programa de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento Contínuo da DSEDJ.

O HM consultou o website oficial do programa, relativo à oferta actual de cursos na área de línguas e tradução, não tendo encontrado nenhuma oferta formativa em espanhol: a aposta faz-se em línguas como o coreano, japonês, mandarim, português e inglês.

A MUST é a única universidade a ter licenciatura em espanhol do território, além de também ter cursos opcionais. A instituição de ensino superior “oferece os únicos cursos de licenciatura em espanhol em Hong Kong e Macau, incluindo uma licenciatura lançada em 2012 e um mestrado lançado em 2019, com mais de 200 alunos matriculados”, descreve ao HM.

Além disso, a MUST é a única instituição de Macau que disponibiliza o exame DELE, que nasceu de um acordo assinado em 2018 entre a universidade e o Instituto Cervantes de Pequim. A MUST diz que são realizadas duas sessões de exames DELE por ano, em Abril e Novembro, “com uma média de cerca de 50 a 60 candidatos por ano”.

A MUST acrescenta ter vários “acordos de intercâmbio e cooperação de longo prazo e estáveis com várias universidades em Espanha e na América Latina”, com a realização de cursos de verão e programas de intercâmbio. “Antes de o Governo da RAEM identificar, de forma explícita, a ‘expansão da cooperação com os países de língua espanhola’ como uma direcção de desenvolvimento estratégica, a MUST já tinha estabelecido e desenvolvido o programa de Espanhol e expandido a cooperação com Espanha e países da América Latina falantes de espanhol”, é acrescentado.

A MUST vai lançar um novo programa de doutoramento em “Estudos Latino-Americanos”, descrito como “o primeiro programa orientado para a investigação em Macau focado nos estudos da região latino-americana, abrangendo tanto os países de língua espanhola como os de língua portuguesa da América Latina”.

Desta forma, a universidade “irá apoiar os esforços do Governo da RAEM para actuar como um ‘conector de precisão’, prestando serviços de think tank e cultivando talentos de alto nível”, lê-se na resposta ao HM.

300 alunos em três anos

Do lado da UM, foram assinados, em Abril e no contexto da visita de Sam Hou Fai à Península Ibérica, acordos de cooperação com a Universidade de Barcelona, por exemplo, na área de intercâmbio de estudantes, reforço da “cooperação em disciplinas académicas fundamentais, tais como as ciências da informação e as ciências biomédicas”, descreve um comunicado emitido em Abril.

A UM visitou também a Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), a Universidade Rey Juan Carlos e a Universidade Politécnica de Madrid.

O HM questionou a UM sobre resultados práticos destas parcerias, e se há planos para mais acordos no futuro. “Espera-se que os acordos assinados produzam resultados concretos, incluindo o reforço dos intercâmbios de estudantes, uma colaboração académica mais profunda e uma rede alargada de parcerias de investigação com universidades espanholas”, foi referido.

A UM promete ainda “lançar novas iniciativas de intercâmbio de estudantes”, estando “em curso uma colaboração bem-sucedida de intercâmbio de estudantes com a Universidade de Barcelona”. Assim, prevê-se que “a mobilidade dos estudantes aumente nos próximos anos”.

No universo da UM o espanhol é ensinado no âmbito do Departamento de Português, já que ambas “são línguas intimamente relacionadas que partilham uma longa história”, possuindo “muitas semelhanças linguísticas”.

Nos últimos três anos “mais de 300 estudantes aprenderam espanhol na UM”, sendo que “as decisões relativas à abertura de novos níveis ou turmas, bem como à contratação de mais docentes, dependerão da procura por parte dos estudantes”, aponta a instituição de ensino. Essa é uma intenção expressa: “a UM tem o prazer de reforçar ainda mais a cooperação e expandir a sua oferta de cursos de espanhol em resposta ao crescente interesse”, é referido.

Tendo em conta a crescente presença do universo espanhol na agenda política, a UM afirma que “a expansão da cooperação com os países de língua espanhola é uma prioridade estratégica de desenvolvimento para o Governo da RAEM”. “Nos próximos cinco anos, a UM alinhar-se-á estreitamente com as iniciativas do Governo”, foi indicado, e que “os países de língua espanhola são identificados como uma região prioritária para a cooperação”.

A UPM foi também questionada sobre esta matéria, mas até ao fecho da edição não foi recebida resposta.

No caso da Escola Portuguesa de Macau (EPM), o espanhol foi uma língua disponibilizada como actividade extra-curricular no ano lectivo passado (2024-2025), confirmou ao HM Filipe Regêncio Figueiredo, presidente da Associação de Pais da EPM. Inscreveram-se apenas seis alunos. “A portaria que regula o programa não tem o espanhol, ou outra língua, além do inglês e francês como possibilidade, pelo que, para fazer parte do currículo, o diploma teria de ser alterado “, adiantou.

Uma não invalida outra

Carlos André, professor coordenador honorário da UPM, conhece bem os cantos à casa no que à presença do português em Macau e na China diz respeito. Ao HM, o antigo director do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa salienta a que a ligação histórica e presença da língua portuguesa na RAEM não invalida a aposta noutros idiomas.

Foto: Gonçalo Lobo Pinheiro

“A presença de outras línguas não é e não pode ser uma ameaça. É, isso sim, um enriquecimento”, declara. “Se a realidade se alterar (e todos os dias se altera) temos de aprender a viver com ela como ela é. As autoridades, obviamente, devem ter consciência disso. Não está em causa a construção de muralhas contra línguas que o mercado nos traz. Seria um erro e, além disso, inútil”, acrescentou, falando das “realidades distintas” entre as duas línguas.

“O português é língua oficial e tem em Macau raízes com séculos, alicerçadas num diálogo intercultural que é consensualmente reconhecido e aceite. O espanhol poderá vir a ser em Macau uma língua de negócios, como outras o são igualmente ou podem vir a ser”, disse.

Carlos André recorda que “o espanhol é uma das línguas mais faladas do mundo, muito mais falada que o português, e negar essa realidade seria um disparate”. Porém, assume: “deixemos cada língua no lugar que lhe cabe e não confundamos realidades que não podem ser confundidas”.
Cabe ao mercado e à procura definir a abertura, ou não, de mais cursos e contratações de docentes. “Se o espanhol, no quotidiano do território, do ponto de vista do mercado ou dos mercados, vier a alcançar uma dimensão que justifique a sua presença no ensino superior, é natural que isso aconteça. A universidade não pode fechar os olhos à realidade que a envolve. O mesmo se dirá se isso se passar a outros níveis. Macau, território que tem no seu ADN o interculturalismo, não pode combater uma língua e uma cultura só por serem diferentes”, rematou.

16 Jun 2026

EPM | Ministro convidou Neto Valente a continuar na Fundação

O ministro da Educação, Ciência e Tecnologia de Portugal, Fernando Alexandre, incentivou Jorge Neto Valente a continuar à frente da Fundação da Escola Portuguesa de Macau (FEPM) depois do caso em que Acácio de Brito foi recolocado na Escola Portuguesa de Luanda, após ter renovado contrato com a EPM.

Quem o confirmou foi Amélia António, presidente da Casa de Portugal em Macau, em declarações à TDM Rádio Macau. “A reacção que o senhor ministro teve foi tentar convencer o doutor Neto Valente a permanecer no cargo, [dizendo] que contava com a disponibilidade e trabalho dele”, disse a também membro do Conselho de Curadores da FEPM.

Amélia António acrescentou que este convite, “depois de se fazer uma coisa destas [a saída de Acácio de Brito depois da decisão da FEPM], cai muito mal”. “Não sei se estará [Neto Valente] nessa disposição ou não [para aceitar a permanência no cargo]. Foi [um acto] muito deselegante e desagradável”, considerou Amélia António, referindo-se à posição de Fernando Alexandre sobre a saída de Acácio de Brito da direcção da EPM. Recorde-se que este anúncio foi feito aquando das celebrações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, que contou com a presença de uma comitiva do Governo português.

Preocupação com Setembro

Nas mesmas declarações, Amélia António revelou ainda estar preocupada com o arranque do novo ano lectivo na EPM, tendo em conta que, para ter um novo director, é necessário que este cumpra os requisitos exigidos pelo Governo da RAEM.

“A nomeação de um novo director obedece a regras que, no espaço de tempo que temos, é praticamente impossível de cumprir”, disse, referindo-se à obrigatoriedade de ter o curso de directores da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude.

A responsável falou das “burocracias” e dificuldades que se enfrentam para garantir um novo director para a escola. “Temo muito pelo início de um novo ano lectivo, estou seriamente preocupada”, acrescentou.

Recorde-se que um dos nomes apontados para substituir Acácio de Brito é o de João Miguel Gonçalves, director-geral dos Estabelecimentos Escolares de Portugal até ao próximo dia 1 de Julho.

15 Jun 2026

Luís Bernardino, professor universitário: “A CPLP tem de se dar a conhecer à China”

É já esta quarta-feira que Luís Bernardino, professor universitário e analista de relações internacionais, protagoniza mais um evento do programa “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”: uma conferência sobre os 30 anos da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em entrevista, Luís Bernardino defende uma maior presença da China neste organismo

Que balanço faz dos 30 anos de existência da CPLP?

Podemos dizer que a CPLP correspondeu, em muitos dos aspectos, aquilo que se esperava de uma organização ligada à língua, cultura e à história da lusofonia. Portanto, conseguiu manter os nove países da lusofonia integrados numa dinâmica relacionada com estas matérias basilares, e que estiveram na origem, em 1996, da CPLP. Mas houve outras áreas de cooperação dinamizadas ao longo destes 30 anos, e existem, actualmente, quase 30 áreas da cooperação criadas. Algumas, obviamente, com mais sucesso, outras menos. Mas a CPLP é ainda uma organização jovem a procurar encontrar o seu espaço geopolítico e geoestratégico. Está a procurar, dentro da própria organização, o seu espaço em termos de política externa para cada um dos Estados-membros. É preciso encontrar, dentro de cada um dos Estados-membros, aquilo que a CPLP representa, e essa é uma reflexão que é preciso fazer constantemente.

Em 30 anos, o que terá falhado mais na CPLP?

Há duas matérias em que não se pode dizer que a CPLP tenha falhado, mas podia ter alcançado outro tipo de estrutura. Uma delas é a maior aproximação em termos de cooperação bi-multilateral em contextos regionais onde os Estados-membros estejam integrados. Falo, por exemplo, de África, onde temos várias organizações que têm a língua portuguesa como língua de trabalho, como, por exemplo, a União Africana. Poderia haver espaço para que a CPLP se afirmasse nestes contextos regionais e saísse daquela que é a linha dos países, em linha de uma cooperação bilateral, para entrar numa cooperação multilateral alargada ao que seriam esses espaços [regionais]. Estou a lembrar-me também do MERCOSUL, da União Europeia, da ASEAN. Há depois uma segunda dimensão, interna, em que a CPLP precisa de ganhar mais espaço nas próprias sociedades. Vamos ao Brasil e a maior parte das pessoas não sabem o que é a CPLP, por exemplo. É preciso um reforço da identidade da CPLP dentro dos espaços nacionais. Estas duas dimensões estão associadas ao que se espera da CPLP num futuro próxima, que é melhorar a sua efectividade como organização, em serviço da sociedade e, em termos externos, aproximar-se cada vez mais de organizações [regionais] onde há espaço de ligação, muito por via da língua portuguesa.

O mundo da diplomacia e relações internacionais parece estar a mudar muito depressa. Como pode a CPLP posicionar-se no contexto dos actuais conflitos?

Concordo inteiramente. As relações internacionais são complexas, num mundo que está a viver um grande turbilhão, com as questões do multilateralismo, da segurança global, do acesso a recursos. Há uma dinâmica muito grande em matéria de geopolítica e geoestratégia global e isso obriga a que organizações como a CPLP tenham uma visão de futuro. A CPLP tem de ser uma organização com “soft power”, com um carácter linguista, de história, cultura, concertação diplomática. [A CPLP] não é um mecanismo de “hard power” que vai ter forças armadas, impor uma ordem económica ou obrigar Estados a adoptarem determinadas regras. Mas o poder da diplomacia, que assenta também na língua, dá à CPLP uma responsabilidade acrescida e espaço para fazer coisas e melhorar a relação com novos actores. Recordo que temos 30 Estados com o Estatuto de Observador Associado [na CPLP]. O que fazemos com esses países, o que queremos deles? O que é que isso representa em termos de geopolítica global, e por que é que não está a China ou os EUA? Esse é, de facto, o desafio de tornar a CPLP mais geopolítica e geostratégica neste mundo em grande revolução.

Defende, então, um maior posicionamento da China na CPLP. Isso não iria desvirtuar os objectivos iniciais com que foi criada?

Vou à China falar sobre isso, numa intervenção na Universidade de Beijing e depois na embaixada [portuguesa, em Pequim]. A China, sendo uma potência global, obviamente que tem de estar atenta às dinâmicas regionais de multilateralidade que estão em cima da mesa. E se a língua portuguesa tem um espaço dentro do contexto académico chinês, porque é que a CPLP não terá? Ou seja, haverá múltiplas oportunidades para que a CPLP seja dada a conhecer e para que seja um veículo do ensino da língua, cultura. Não vejo que haja uma desvirtualização, mas sim um conjunto de oportunidades. Penso que, neste momento, a China teria interesse em olhar para a CPLP de outra forma, e a CPLP também teria de reflectir sobre qual o posicionamento que quer ter em relação à China. Penso que negar o acesso à China, ou impedir que possa interagir com a CPLP, é algo que não passa pela cabeça de ninguém. É preciso alterar o paradigma e perceber como é que cada país e organização pode contribuir, e de que forma podemos cooperar estrategicamente. Essas são as grandes questões que levo a Macau e à China nos próximos dias.

A China tem exportado o ensino do mandarim, mas também tem promovido o ensino da língua portuguesa. Essa poderia ser, então, uma das vias para a cooperação com a CPLP.

Exactamente. Se estamos nessa dimensão, porque é que a CPLP não percebe essa conjuntura e não pode criar uma oportunidade para que haja eventos em que a China possa ser convidada, eventualmente através de Macau. Temos o Fórum Macau, [entidade] que está muito próxima do que é a CPLP. Não podemos afastar-nos da dinâmica que estamos a ver à nossa frente. E a CPLP não pode ser uma organização fechada aos nove membros que têm a língua portuguesa como estrutura para a sua constituição. A CPLP tem de se dar a conhecer à China, e o que vou fazer agora com esta conferência, a título pessoal [é exemplo disso]. Mas esta é uma gota no oceano de oportunidades do que se pode fazer, e a CPLP pode ser mais pró-activa, utilizando Macau.

E a China, precisa da CPLP?

A China, como potência global, tem de se ligar a outros países e regiões, e estar presente. Tem de se ligar ao multilateralismo. De que forma é que a China pode interagir com a CPLP? Organizando conferências, colocando a temática da CPLP nos currículos académicos em universidades da China, dando bolsas a alunos chineses para estagiarem na CPLP em Portugal. Há uma panóplia de situações nas quais a China pode estar interessada. Não sabemos se isso pode demorar mais ou menos tempo, se é fácil ou difícil, porque nunca tentámos. É isso que levo para esta minha reflexão [em Macau e Pequim], perceber como é que, nestes 30 anos, a CPLP pode valorizar a relação com Macau e a China. Tenho a certeza que estamos [CPLP] mais próximos em termos de história, língua e cultura de Macau do que estamos da Índia, ou Ucrânia, ou França, que são observadores associados.

E como é que Macau poderia ter outro papel no contexto da CPLP?

Na minha perspectiva, a ligação natural entre a China continental e a CPLP poderá ser por via de uma infra-estrutura que pode existir em Macau relacionada com a CPLP. Dei o exemplo do Fórum Macau – imaginemos que é criada uma estrutura onde haja um delegado da CPLP em Macau para responder a determinados requisitos ou cruzar determinada informação. Tem de ser encontrada uma visão estratégica para que haja um posicionamento claro do que é a vontade dos Estados e do que a organização pode fazer. Macau tem mais a ver com a CPLP do que a maior parte dos países da CPLP. Vamos a Macau e vemos numa cultura lusófona bem definida, e, se calhar, vamos ao norte do Brasil e não vemos nada. Vamos à Guiné Equatorial e não vemos mesmo nada. Macau está muito acima daquilo que é a cultura, a língua, a expressão da lusofonia, e não pode só ser membro pela circunstância política de não ser um Estado. Se o fosse, já seria membro da CPLP, mas é, de facto, um elo de ligação e um elemento muito próximo de ambas as partes, da China e da CPLP.

Na conferência desta quarta-feira fala também da actuação da CPLP em matéria de Defesa. Já disse que a entidade não pode ter “hard power”, mas o que pode ser feito, nessa área, que não foi feito nestes 30 anos?

Em 30 áreas de cooperação há melhores e piores [em termos de actuação]. Mas a cooperação em matéria de Defesa é daquelas que usamos sempre como um bom exemplo. Fez-se muita coisa que contribuiu para um intercâmbio, como a criação de estruturas e de reunião. A arquitectura da Defesa, nas suas várias componentes, é hoje muito sólida, através de reuniões que são feitas. O centro de análise estratégica da CPLP está em Maputo. O que se faz em matéria de Defesa tem um âmbito mais ligado à cooperação do que com a preparação de operações ou algo ligado a essa dimensão. Não existem forças armadas, mas o que se faz em termos de cooperação é apoiar a construção da componente de Defesa e forças armadas de cada um dos Estados membros.

Conferência no IIM

A conferência protagonizada por Luís Bernardino intitula-se “30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – Dinâmicas da Cooperação da Defesa” e tem lugar esta quarta-feira, dia 17, a partir das 17h30 no Instituto Internacional de Macau (IIM).

Luís Bernardino é professor universitário e coronel, na reserva, do Exército português, sendo especialista em assuntos de Segurança e Defesa. Tem escrito e investigado sobre a CPLP. A sessão no IIM será moderada por Jorge Rangel, presidente. O IIM é membro da Comissão Temática da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da CPLP.

A CPLP nasceu em Lisboa a 17 de Julho de 1996, na presença dos Presidentes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. O objectivo era unir estes países em torno de uma organização internacional tendo a língua portuguesa como denominador comum. Timor-Leste integrou a CPLP em Julho de 2003 e a Guiné Equatorial em Julho de 2014.

15 Jun 2026

Wondera | Festival dedicado ao bem-estar acontece este fim-de-semana na Barra

A primeira edição do “Wondera – Festival de Bem-estar e Cultura de Macau” tem hora marcada para acontecer este fim-de-semana nos Estaleiros Navais n.º 1 e 2 na zona da Barra. Há sessões de arte terapia, Ioga, gastronomia e workshops para quem quer ter experiências saudáveis ligadas ao corpo e à mente

Os Estaleiros Navais n.º 1 e 2 da Barra, na península de Macau, já estão a postos para receber a primeira edição do “Wondera – Festival de Bem-estar e Cultura de Macau”, que, como o nome indica, traz actividades relacionadas com o bem-estar interior e do corpo, sem esquecer iniciativas ligadas à cultura, prática desportiva e workshops.

Embora hoje tenha lugar uma sessão, entre as 11h e as 18h, sobre como comunicar com minerais, intitulada “Mineral Communication – A Crystal Dialogue Workshop”, a verdade é que a abertura do festival se faz oficialmente amanhã às 15h, na zona exterior do Estaleiro Naval n.º1.

Os participantes podem desfrutar de mais de 32 programas relacionados com o bem-estar físico, mental e espiritual, bem como 42 bancas de mercado locais, explica a organização, em comunicado. Haverá ainda palestras e música ao vivo.

O evento conta com cinco zonas, nomeadamente o “Healiverse Market”, que junta 42 bancas de negócios e produtos locais ligados às áreas do bem-estar, artesanato e gastronomia; a zona “Sonic Tribe”, onde se disponibilizam “banhos sonoros, sessões com taças tibetanas e experiências de atenção plena acompanhadas por café, saqué e chá”.

O público poderá também assistir à “Astra Tribe”, onde se apresentam palestras sobre a área do bem-estar, enquanto na “Pulse Tribe” haverá sessões de Ioga, Fitness e actuações de música ao vivo. Por sua vez, na “HeART Tribe” disponibilizam-se “sessões de transcrição do Sutra do Coração” e também actividades ligadas à arte como forma de terapia para problemas do foro psicológico.

Segundo uma nota da organização, o “Wondera Festival” tem a temática central ligada à ideia de que “tudo é cura”, visando apresentar propostas de cura alternativa e “actividades que ultrapassam os formatos tradicionais”, a fim de criar “uma cultura do bem-estar enraizada em Macau”.

“No período pós-pandemia a procura global por experiências de bem-estar tem crescido rapidamente, com mais pessoas a darem prioridade ao equilíbrio interior e à saúde mental. Como cidade onde as tradições orientais e ocidentais se encontram, Macau possui condições naturais para o florescimento de uma cultura de bem-estar dinâmica”, considera a organização.

O “Wondera Festival” coincide com o Dia Global do Bem-Estar e o Dia Internacional do Ioga, ambos celebrados em Junho, pelo que pretende transformar-se numa “plataforma acessível, acolhedora e positiva para a promoção da cultura do bem-estar, assente nos valores da descoberta, cura, criatividade, ligação humana e identidade local”, descreve a mesma nota.

Exercícios de existência

Amanhã, sábado, terão lugar actividades relacionadas, por exemplo, com as áreas da numerologia ou da limpeza espiritual de espaços, como é o caso da actividade “Five Senses Sound Bath Space”, com Fefe Chan, entre as 14h e as 14h30. Entre as 13h30 e as 14h30, decorre a sessão “Healing Living Room: Collective OH Card Exploration”; enquanto que entre as 15h30 e as 17h30, na área “Astra Tribe”, acontece a sessão “Numerology – Space Floristry: Your Home Energy Floral Arrangement Workshop”. Este workshop “alia uma leitura personalizada de numerologia à criação prática de arranjos florais, permitindo aos participantes criar um vaso personalizado destinado a potenciar a sua sorte”, é explicado.

O público pode ainda participar na “Noite dos Escritores”, com a escritora Galilee Ma, com sessões de “escrita cronometrada e motivação entre pares”, para potenciar a expressão escrita dos participantes. Esta sessão acontece no domingo entre as 19h e as 22h na zona “Pulse Tribe” no Estaleiro Naval n.º2.

Por sua vez, a realizadora Harriet Wong e Chon Cheng lideram a actividade “The Uncertainty Practice – A Play on Love, Freedom and Responsability”, que não é mais do que “um diálogo situado na intersecção entre teatro e psicologia, explorando temas como o amor, a liberdade e a responsabilidade”. Esta sessão acontece amanhã entre as 15h45 e as 17h.

Na música, destaca-se a actuação de Daniel, artista sonoro, com o evento “EMC:EMI – Electromagnetic compatibilities and interferences”, que acontece entre as 20h e 21h no Estaleiro Naval n.º2, na zona “Pulse Tribe”. Aqui, o artista recorre a “interferências magnéticas entre as máquinas como uma metáfora”, conectando “sinais electrónicos, sensores e ondas sonoras de rádio para explorar uma alegoria sonora da harmonia e discórdia nas relações humanas”.

O festival é organizado pelas entidades Oneness Space, CYCA Macao e Long Fung Drama Club. A participação nas actividades faz-se através de inscrição prévia através de um formulário disponível nas redes sociais ou de um código QR, funcionando este sistema por ordem de chegada. O “Wondera Festival” realiza-se entre as 10h e as 22h, sendo que a zona do mercado estará aberta entre as 12h e as 21h.

12 Jun 2026

10 de Junho | Galeria Amagao apresenta obras de Raquel Gralheiro

A pintora portuguesa Raquel Gralheiro está de regresso às exposições na RAEM com a mostra “Pop lá”, depois de ter exposto, em 2018, “My Chinese Zodiac” e “Pop Pin”, dois anos depois. A exposição, inaugurada amanhã na galeria Amagao, integra a programação do “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”

A galeria Amagao acolhe, a partir de amanhã, uma exposição da pintora Raquel Gralheiro que se intitula “Pop lá”. A cerimónia tem lugar partir das 18h30, no Artyzen Grand Lapa, onde está situada a galeria, que desta forma se junta às celebrações de “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”, em jeito de comemoração do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das comunidades portuguesas. O trabalho de curadoria está a cargo de Lina Ramadas, co-fundadora da Amagao, em colaboração com o artista e designer Victor Hugo Marreiros. A exposição está patente ao público até ao dia 2 de Agosto.

“Pop lá” é a terceira mostra de Raquel Gralheiro no território, depois de ter protagonizado, em 2018, “My Chinese Zodiac”, que teve lugar na Santa Casa da Misericórdia de Macau; e “Pop Pin”, apresentada em 2020. Destaque ainda para o facto de Raquel Gralheiro ter levado também “My Chinese Zodiac” [O Meu Zodíaco Chinês], em 2019, ao Nanjing Fine Art University Museum, na China.

O escritor Valter Hugo Mãe descreve Raquel Gralheiro como “uma artista irónica que trabalha no limiar do bom gosto para analisar a relação entre arte e decoração”, e que as suas “telas, excessivas e provocadoras, são sempre um meio de representar a figura como um elemento que contrasta com vários padrões, como se alguém vivesse no papel de parede, no padrão do sofá, no cartaz”.

Nesta mostra em Macau há uma procura permanente pelo equilíbrio entre Oriente e Ocidente, conforme descreve a sinopse da exposição, no programa de “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”. “Entre o cá e o lá, entre o Oriente e o Ocidente, a minha pintura afirma-se como uma linguagem visual pop que cruza distâncias, fundindo imaginários num diálogo vibrante de cor e memória”, revela a própria pintora.

A Amagao descreve como no conjunto de trabalhos, “através de uma série de pinturas cativantes, Raquel Gralheiro explora encontros culturais, as histórias do quotidiano e a atmosfera única de Macau, criando um mundo onde a realidade e a fantasia se cruzam”.

Desta forma, convidam-se os “amantes da arte, entusiastas da cultura, residentes e visitantes a celebrar a rica herança portuguesa que continua a moldar a identidade única de Macau”, de que esta mostra é exemplo.

Pintar galos

Raquel Gralheiro, que vive e trabalha no Porto, levou “O Meu Zodíaco Chinês” no âmbito da primeira Bienal dedicada à arte no feminino, intitulada ARTEFM 2018. A artista plástica formou-se em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tendo a figura feminina como tema central das suas obras.

Em entrevista ao Jornal Tribuna de Macau, Raquel Gralheiro levantou um pouco do véu sobre a forma como a figura feminina foi ganhando predominância nas suas criações. “Nem sempre pintei mulheres, também tenho pinturas com homens, mas ultimamente tem aparecido sempre a figura feminina, talvez porque é a minha condição. Só sei ser mulher e estar no mundo como mulher”, adiantou.

Valter Hugo Mãe, no texto que escreveu sobre a artista, diz que Raquel Gralheiro “empreende uma exploração extrema do corpo e do imaginário femininos enquanto bastião do desejo e da sofisticação”, parecendo “aludir ao luxo, dada a noção invariável de requinte, ao mesmo tempo que remete, fatalmente, para o erotismo, conferindo poder às figuras e definindo para elas uma personalidade muito específica que irá confrontar os estereótipos há muito enraizados na sociedade”.

Em 2020, o trabalho de Raquel Gralheiro esteve presente em Macau novamente integrada na “Exposição das Obras Artísticas de Portugal, Timor-Leste e Macau”, ligada à 12.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa.

Segundo uma nota oficial sobre a exposição “Pop Pin”, Raquel Gralheiro revelou toda a sua alegria natural “numa exploração extrema do corpo feminino e do imaginário”, num “misto figurativo e realista que, por vezes, chega a lembrar a Pop Art”, movimento artístico que teve Andy Warhol como um dos artistas mais exemplificativos.

Integrados na exposição “Pop lá”, a pintora irá conduzir workshops de pintura, intitulados “Galo Painting Workshop”, no sábado e domingo na Amagao, entre as 15h e as 18h. O preço para participar nos workshops é 400 patacas.

11 Jun 2026

BIR | Pedido regresso à “tradicional relação privilegiada no campo laboral”

Alexandre Leitão, cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, defendeu ontem o regresso da “tradicional relação privilegiada no campo laboral”, referindo-se à atribuição de BIR a portugueses. Na recepção à comunidade portuguesa a propósito do 10 de Junho, o cônsul diz existirem condições para se fazer, este ano, uma nova reunião da Comissão Mista

Em mais um 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas celebrado no território, desta vez com uma recepção à comunidade portuguesa na Escola Portuguesa de Macau (EPM), foi deixado um alerta sobre a necessidade de agilizar a atribuição de residência a cidadãos portugueses por parte das autoridades da RAEM. Quem o fez, foi Alexandre Leitão, cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong.

“Em Macau há seis universidades com uma notoriedade crescente, e nelas trabalham com competência e seriedade professores portugueses que trazem uma mais valia evidente à RAEM, como acontece em todo o mundo. Os nossos interesses, incluindo o objectivo comum de diversificar as nossas economias, têm muito a ganhar em recuperar a tradicional relação privilegiada no campo laboral”, destacou. Em concreto, “numa evolução das regras de admissão e permanência, que torna a RAEM mais atractiva para os portugueses que aqui desejam trabalhar, estudar e viver”, acrescentou o cônsul.

O representante português não esqueceu o facto de o discurso político oficial destacar, precisamente, a necessidade de quadros qualificados. Alexandre Leitão referiu a “secção 1, capítulo 33, do 3.º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Sócio-económico da RAEM”, que diz respeito “à criação de condições favoráveis para a captação de quadros qualificados de língua portuguesa”.

Alexandre Leitão lembrou ainda o facto de Portugal atribuir residência a qualquer residente de Macau. “Se um residente de Macau quiser trabalhar, investir ou viver de rendimentos em Portugal, pode apresentar no Consulado um pedido de visto e, se tiver a documentação adequada, terá rapidamente uma autorização de residência que lhe confere o acesso a bens e serviços públicos em condições idênticas às dos cidadãos nacionais”, disse. O cônsul destacou que, neste cenário, “a reciprocidade faz todo o sentido”.

Importância no Fórum

Nas relações entre Macau e Portugal não existe ainda nova data para a realização da reunião da Comissão Mista Portugal-RAEM, e da recente visita de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo, à Península Ibérica também nada foi anunciado.

Porém, Alexandre Leitão destacou a possibilidade de os dirigentes poderem reunir este ano. “Estão criadas as condições institucionais para retomarmos a Comissão Mista este ano e nela passar em revista o estado do nosso relacionamento, os nossos interesses e preocupações e, sobretudo, alcançarmos acordos sobre matérias práticas”, disse.

Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, esteve presente na recepção e discursou parcialmente em português. Não comentou em concreto a questão da atribuição de residência, mas disse esperar que “os portugueses que residem em Macau e os macaenses continuem a participar activamente nos diversos assuntos de Macau”.

O Chefe do Executivo referiu que as “comunidades portuguesa e macaense, enquanto parte integrante e relevante da sociedade plural de Macau, têm desempenhado um papel importante e positivo na harmonia, estabilidade e prosperidade” do território.

Sem comentar a data da nova reunião da Comissão Mista, Sam Hou Fai preferiu destacar a realização, em 2027, da 7.ª Conferência Ministerial do Fórum Macau no território. “Portugal tem apoiado Macau no desempenho do seu papel de ‘interlocutor de precisão’ entre a China e os países de língua portuguesa. Esperamos que Portugal continue a prestar esse apoio firme, contribuindo com a sua sabedoria e esforços para o sucesso da 7ª Conferência Ministerial”, rematou.

Ministro destacou crescente cooperação com a China

Para a cerimónia de recepção à comunidade portuguesa a propósito do 10 de Junho, Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Tecnologia de Portugal, levou grandes nomes da literatura portuguesa, e não apenas o de Luís de Camões. Citou José Toletino de Mendonça e Jorge de Sena, lembrando que este último escreveu: que um país “não é só a terra com que se identifica a gente que vive nela e nasce nela”, sendo “isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou”.

Sobre a comunidade portuguesa de Macau, o ministro quis deixar um “sincero reconhecimento”, frisando “a excelência, dinamismo e capacidade empreendedora que têm sido fundamentais para estreitar laços entre Portugal e a China, contribuindo, igualmente, para afirmar e prestigiar o nome de Portugal no sul da China”.

Fernando Alexandre deixou ainda vários números que confirmam a crescente relação que Portugal e a China têm mantido nos últimos anos, com Macau a desempenhar o seu papel de ponte. O ministro destacou o panorama da expansão do mandarim em Portugal, já ensinado em várias escolas públicas, sendo que no actual ano lectivo “o número de alunos abrangidos pelo ensino do mandarim aumentou significativamente (mais 73 por cento) face ao ano anterior, envolvendo 24 turmas e mais de 370 alunos”.

No ensino superior, e desde 2022, “foram submetidos mais de 700 pedidos de reconhecimento de graus académicos chineses em Portugal, reflectindo o aumento da mobilidade e das ligações entre os dois sistemas de ensino superior”. O programa “Erasmus+” originou 59 mobilidades entre a China e Portugal desde 2021, incluindo 21 mobilidades ligadas a Macau.

Fernando Alexandre lembrou também como, desde 1990, “foram apoiados mais de 100 projectos conjuntos de investigação através de sete programas de cooperação científica”, além de que, entre os anos de 2014 e 2025, “a Fundação para a Ciência e a Tecnologia apoiou 88 projectos de I&D [Investigação e Desenvolvimento] com a participação de instituições chinesas”.

O que existe hoje, fruto destes dados, é “uma rede crescente de laboratórios conjuntos, centros de investigação e plataformas colaborativas entre universidades e centros de investigação dos dois países”, frisou o governante.

Acordo feliz

Fernando Alexandre não deixou de recordar que se celebram, este ano, “os 27 anos da retrocessão da soberania de Macau para a República Popular da China”, declarando como “a Declaração Conjunta LusoChinesa de 1987 e o modo equilibrado como Portugal e a República Popular da China desenharam conjuntamente um estatuto de autonomia para a região, no pleno respeito pelo princípio ‘um país, dois sistemas’, constitui um dos alicerces fundamentais da relação bilateral e a confiança mútua”.

O ministro afirmou que a Escola Portuguesa de Macau “constitui um dos mais visíveis e duradouros símbolos da cooperação educativa entre Portugal e Macau”, tendo hoje “mais de 800 alunos provenientes de múltiplas origens culturais e linguísticas”.

Regista-se, na instituição de ensino, “um crescimento contínuo da procura”, tendo esta um “papel essencial na promoção da língua portuguesa e no reforço dos laços entre Portugal e a República Popular da China”, rematou o ministro da Educação.

11 Jun 2026

Pintura | Os regressos e reflexões de Anabela Canas em exposição em Lisboa

“São Rosas e Dias Líquidos – Arquivo e Redundância” é a nova exposição de Anabela Canas, pintora, docente e ex-residente de Macau, patente até Julho na Universidade Nova de Lisboa. Nesta mostra, Anabela Canas conjuga obras antigas e novas, procurando encontrar um ponto de reflexão sobre o presente

Anabela Canas, antiga docente de Artes em Macau, actualmente a dar aulas na escola António Arroio, em Lisboa, e pintora, está de regresso às exposições com a mostra “São Rosas e Dias Líquidos – Arquivo e Redundância”, patente até ao dia 23 de Julho na Sala de Exposições da Biblioteca da NOVA FCT, Universidade Nova de Lisboa, no campus do Monte da Caparica.

A artista faz um exercício retrospectivo que é, em simultâneo, uma reflexão sobre o tempo presente, colocando quadros mais antigos, nomeadamente de 2018, em conjugação com novas pinturas. Há muita água nestes quadros, bem como representações da natureza e figuras, mas o convite à reflexão sobre os tais dias líquidos vai muito além do que pode ver a olho nu. “Esta exposição tem dois conjuntos de trabalhos, embora façam parte da mesma série, sendo que o primeiro, mais antigo, é de 2018, de uma exposição que fiz, e retomei acrescentando trabalhos mais recentes”, conta a pintora ao HM.

Esta mostra anterior também se chamava “São Rosas e Dias Líquidos” e, segundo a artista, tinha a ver “com a questão da impermanência”, tal como a nova exposição. “Na altura, havia um diálogo entre um conjunto de telas que são paisagens, mais ou menos abastractas, mas que têm referências muito óbvias à água, céu, nuvens, portanto, a parte etérea da paisagem.”

Estas imagens entram “em diálogo com outra série [de trabalhos], mais figurativa, e que tinha a ver com temáticas clássicas de museu, digamos assim. Tem sempre a ver com esse diálogo e a nossa reacção à impermanência, aquela noção já tão explorada pela filosofia de que tudo passa e tudo volta, até os ritmos da natureza que nunca são iguais exactamente”.

Anabela Canas foi buscar referências à filosofia, nomeadamente ao filósofo e sociólogo polaco Zygmunt Bauman, quanto à ideia de modernidade líquida. A artista destaca “a época de maior virtualidade, a todos os níveis”, em que vivemos, e como as coisas se modificam, inclusivamente “os ritmos da natureza”. “Tudo volta e nunca é exactamente igual”, referiu.

“Bauman falou da modernidade líquida e foi uma coincidência, pois quando comecei a estudar este tema encontrei uma referência a ele e li sobre isso. De facto, diz-me muito esta sensação de que tudo nos ultrapassa porque nada se consegue agarrar. Hoje em dia vivemos muito mais esta noção de que tudo é mais virtual”, explicou.

Regressos e realidades

Anabela Canas voltou a 2018 tal como voltaria a um outro tempo, a outros quadros, algo comum no seu processo criativo. “Muitas vezes retomo temas que explorei noutras alturas, e não o faço com a intenção de voltar a fazer um projecto com eles, mas porque tenho essa vontade de revisitar. É como revisitar lugares que gostamos, e isso acontece pelo puro prazer de voltar a mergulhar naquele imaginário.”

É aqui que vem ao de cima a ideia de redundância, do regresso a uma mesma realidade ou temática, com a certeza de que “as coisas nunca saem iguais obviamente, mas são um bocadinho como os dias e as noites: podem ser muito parecidos, mas nunca são iguais”.

“Quando voltamos a um lugar conhecido que gostamos, ou não, e sobretudo lugares afectivos, também vemos sempre coisas diferentes, e é a isso que chamo de redundância. Muitas vezes ponho-me a trabalhar só porque sim, pelo puro prazer e vontade de fazer as coisas e o prazer de voltar àqueles lugares. As coisas nunca saem iguais e há sempre uma evolução qualquer”, explicou ainda sobre a criação em torno desta mostra.

Há, portanto, nesta exposição de Anabela Canas um regresso a algumas temáticas, neste caso “espaços, paisagens bastante etéreas, com elementos mais volantes como o ar, nuvens e a água que está sempre a passar”. Neste processo de regressos, Anabela Canas confessa que o seu trabalho como artista “inclui, às vezes, a descoberta, a tentativa e o erro, o acaso, a exploração do aleatório”, existindo “sempre surpresas e novas coisas que vão surgindo”.

Relativamente à ideia de “Rosas” presente no título, diz respeito a um quadro presente na mostra, com papoilas, mas também à tradicional história do “Milagre das Rosas”, quando a Rainha Santa Isabel, ou Isabel de Aragão, respondeu ao esposo, o Rei D. Dinis: “São Rosas, senhor!”, quando, na verdade, distribuía pão aos mais desfavorecidos.

“O D. Dinis dizia que não podia dar pães aos pobres, e ela disse ‘São rosas, senhor!’, e afinal não eram rosas, tinham sido pães antes. Isto [a referência à palavra ‘Rosas’ no título] é uma brincadeira sobre as papoilas [do quadro na exposição], porque a realidade nunca é exactamente como é.”

Por outro lado, os dias líquidos, também presentes na exposição, são uma alusão ao quotidiano que “não se pode prender com as mãos”, ou seja, a realidade que está além do alcance e controlo e vai mudando. “Uma pessoa põe a mão, tenta apanhar a água e apenas por um instante consegue retê-la, porque ela foge”, disse Anabela Canas.

Citado pelo catálogo da exposição, José Moura, comissário para as actividades culturais do campus da NOVA FCT, referiu que “a obra de Anabela Canas abre-se como um espaço de sensibilidade, onde a matéria inserida em paisagens, recriadas, está em constante transformação”.

“Nesta exposição, cada obra transmite tensão entre gesto e intenção, presença e memória, como se cada forma guardasse vestígios de outras anteriores. Por isso, o seu trabalho aproxima-se da ideia de arquivo: um lugar onde a memória surge em camadas, feita de repetições, desvios e reaparições (… benvindas as redundâncias, que aqui não são desnecessárias)”, descreveu.

Desta forma, adiantou José Moura, “o olhar do espectador é conduzido por percursos onde a repetição revela diferença, e onde o mesmo nunca é exatamente igual”.

10 Jun 2026

Governo pondera proibir tabaco perto das Ruínas e Portas do Cerco

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, disse ontem no hemiciclo que poderão ser criadas zonas de proibição de fumo perto das Ruínas de São Paulo ou Portas do Cerco, tendo em conta o grande volume de pessoas que passa nesses locais. Esta ideia foi deixada durante o debate sobre a votação, na generalidade, da proposta de lei do regime de prevenção e controlo do tabagismo, que data de 2011. A proposta foi aprovada por unanimidade, seguindo agora para análise na especialidade.

“Além das medidas que estamos a implementar no parque dr. Carlos D’Assumpção [de controlo do tabagismo], estamos a ponderar criar uma zona [sem fumo] nas proximidades das Ruínas de São Paulo e Portas do Cerco. São essas duas zonas onde vamos ponderar criar áreas onde é proibido fumar”, foi referido.

Na proposta de lei, lê-se que é proibido fumar “em qualquer outra área ao ar livre de utilização colectiva onde a proibição de fumar seja determinada por despacho do Chefe do Executivo”.

O Lam lembrou que a zona de fumo criada entre o parque dr. Carlos D’Assumpção e a Rua de Londres, no NAPE, desde Maio, “foi muito bem acolhida pela sociedade”, tendo o Governo recebido opiniões “de que o ambiente de negócios não foi afectado e a fisionomia das ruas melhorou”.

Ainda assim, a secretária garantiu que “para a criação de áreas onde é proibido fumar exige várias ponderações, a situação da disposição das pessoas e se há consenso na sociedade”.

Deputados aplaudem

Vários deputados aplaudiram as medidas de controlo do tabagismo adoptadas até à data, destacando esta nova medida de proibir o tabaco em zonas onde se concentram muitas pessoas.

Ella Lei questionou se o Executivo “tem algum plano, após a entrada em vigor da proposta de lei, de aumentar a proibição [do fumo] em sítios onde haja concentração de pessoas, e não apenas na proximidade de escolas e creches”, incluindo “praças e postos fronteiriços”.

O deputado Nick Lei lembrou também outra medida proposta pelo Governo nesta legislação, que é a posse de câmaras portatéis por parte dos agentes de fiscalização dos Serviços de Saúde. “Preocupa-me as condições de trabalho dos trabalhadores da linha da frente. Estes vão passar a dispor de mais meios electrónicos para lidar com casos em que haja confrontos físicos. No passado houve trabalhadores insultados ou agredidos fisicamente”, disse. O Lam destacou que as câmaras serão usadas apenas em casos de emergência.

10 Jun 2026

Deputados pedem melhorias no controlo da segurança rodoviária

Dois deputados utilizaram ontem o período de intervenções antes da ordem do dia (IAOD) para pedir ao Governo mudanças no planeamento do trânsito, tendo em conta o recente atropelamento que vitimou uma criança de dez anos, num caso que chamou a atenção da sociedade.

Para o deputado Chao Hao Weng, é fundamental que sejam instalados “equipamentos de redução da velocidade, sinalização luminosa e de alerta visual nas escolas, nas zonas habitacionais e nos principais cruzamentos de passadeiras, para reforçar a protecção dos peões”. Devem ainda ser “agravadas as penas” no tocante ao trânsito e obrigatoriedade de cedência de passagem a peões nas passadeiras, além do deputado sugerir o reforço “da execução da lei”.

Pede-se, assim, que o Governo “reveja, de forma global, o plano de segurança rodoviária”, a fim de dar “prioridade aos peões e à segurança, colmatando as lacunas de fiscalização e assegurando aos cidadãos uma via segura e desobstruída”.

O acidente, ocorrido na Avenida do Conselheiro Borja, zona norte da península, representa, para o deputado, um exemplo das “falhas significativas no mecanismo de segurança das passadeiras, na fiscalização do dever de cedência de passagem aos peões e na protecção das zonas adjacentes a escolas em Macau”.

Revisão precisa-se

Também Loi I Weng pediu medidas ao Governo para melhorar a segurança rodoviária. A deputada citou dados relativos ao primeiro trimestre deste ano, que mostram como “os casos de desrespeito pelo sinal vermelho aumentaram mais de 100 por cento”, além de que “não se registou uma melhoria significativa no incumprimento das regras de trânsito por peões”.

Desta forma, a deputada pede o regresso do processo de revisão da Lei do Trânsito Rodoviário, “incorporando as infracções” num novo sistema de pontos da carta de condução, tal como “a não cedência de passagem a peões nas passadeiras, o desrespeito pelo sinal vermelho e a utilização do telemóvel durante a condução”.

A deputada fala do caso da Avenida do Doutor Rodrigo Rodrigues como um dos locais onde ocorrem mais acidentes, sugerindo “a vigilância automática com câmaras electrónicas nos cruzamentos de modo a colmatar as lacunas de supervisão durante a noite e em períodos de menor afluência”.

10 Jun 2026

Lei laboral | Deputados pedem aumento da licença de paternidade

Foi ontem aprovada, na generalidade, a nova proposta de lei laboral que apresenta um aumento dos dias de licença de maternidade de 70 para 90 dias, subsídios às empresas e mais dias de férias anuais. Porém, vários deputados exigiram ao Governo começar a ponderar aumentar também os dias de licença de paternidade

A Assembleia Legislativa (AL) aprovou ontem, na generalidade, a proposta de revisão da lei laboral que traz um aumento dos dias de licença de maternidade dos actuais 70, no sector privado, para 90; a atribuição de subsídios às pequenas e médias empresas (PME) para apoiar o pagamento de salários às grávidas em licença e ainda o aumento dos dias de férias anuais.

Porém, vários deputados entendem que é preciso as autoridades fazerem mais, nomeadamente aumentar a licença de paternidade.

“A proposta de lei não se refere à licença de paternidade, e, de facto, são matérias complementares. Pode-se ponderar o aditamento dos dias de paternidade, para que os pais e maridos possam prestar mais cuidados às suas mulheres?”, questionou Nick Lei.

O deputado destacou também alguns resultados da consulta pública sobre este assunto, pois cerca de “80 por cento [dos participantes] não está de acordo” com a proposta do Executivo, pedindo mais dias de licença de maternidade.

“Espero que o Governo pondere sobre o aumento do número dos dias de licença de maternidade, e também a capacidade das PME”, disse.

Também a deputada Ella Lei alertou para a necessidade de “aumentar as faltas por licença de paternidade dos cinco para sete dias”, já que Macau se encontra “numa era de baixa taxa de natalidade”.

“A alteração da lei é simples e passa [a licença de maternidade] de 70 para 90 dias, mas temos de pensar nas faltas por licença de paternidade e na protecção dos postos de trabalho das mulheres, pois há situações em que as grávidas podem ser despedidas”, alertou.

Cenários distintos

Tendo em conta que ainda não foi escolhido o novo secretário para a Economia e Finanças, quem respondeu aos deputados e apresentou a proposta de lei foi o chefe de gabinete de Tai Kin Ip, antigo secretário.

Lo Chi Fai declarou, sobre o aumento dos dias da licença de paternidade, que “esta é uma proposta sobre a qual temos de encontrar grande consenso junto da sociedade”. “Tendo em conta o actual desenvolvimento sócioeconómico, numa próxima fase poderemos rever esta parte. Nesta consulta pública estivemos mais empenhados na [revisão] da licença de maternidade, para ser igual à das mulheres na Função Pública”, acrescentou.

Em relação ao subsídio atribuído às PME, será permanente graças à elaboração futura de um novo regulamento administrativo. “Há que prolongar o actual regulamento e vamos elaborar um novo [diploma] para o subsídio, porque vamos subsidiar as PME através do erário público”, disse o chefe de gabinete.

Lo Chi Fai disse ainda, sobre a licença de maternidade, que há vários cenários no sector privado. “Entre as partes pode sempre haver um acordo para mais de 90 dias, até 98 dias”, prazo que chegou a ser proposto por algumas opiniões no processo de consulta pública.

“Isso reflecte também a responsabilidade da parte da entidade patronal, e podemos pressupor que, devido à diferente dimensão das empresas, as regalias e condições podem ser diferentes”, rematou o responsável.

10 Jun 2026

Ambiente | Mais de dois quilos de resíduos produzidos per capita em 2025

O “Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025”, divulgado ontem pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental, indica que no ano passado foram produzidos em Macau 2,3 quilos de resíduos per capita. Governo diz que qualidade do ar melhorou e número de veículos eléctricos aumentou

Num ano em que o território recebeu mais de 40 milhões de turistas, a produção de resíduos aumentou, ainda que ligeiramente. É o que revela o mais recente relatório sobre a situação ambiental em Macau, o “Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025”, produzido pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA).

Em 2025, “a quantidade de resíduos sólidos urbanos produzidos foi de 532.053 toneladas, o que representa um aumento de 1 por cento em relação a 2024”. Já “a quantidade de resíduos sólidos urbanos per capita foi de 2,13 quilos por dia”.

A DSPA indica que “embora a população de Macau seja relativamente reduzida, a intensidade do turismo é elevada”, pelo que estas “características únicas da estrutura sócio-económica” levam a uma grande produção de resíduos sólidos urbanos, sendo sempre superior à “quantidade normal produzida pela população local”.

A DSPA diz ter lançado, neste contexto, “um estudo sobre a gestão de resíduos sólidos”, com o objectivo de “implementar políticas e linhas orientadoras de ‘redução de resíduos a partir da fonte, e a transformação de resíduos em recursos'”. Porém, o relatório não apresenta dados sobre este estudo.

Dar vida ao que é velho

No tocante à reciclagem, a DSPA também fala em melhorias, tendo-se registado, em 2025, uma taxa de recolha de resíduos recicláveis “de cerca de 21,1 por cento”. “A quantidade total dos vários tipos de resíduos recicláveis recolhidos pelo Governo subiu para 6,9 por cento em termos anuais”, descreve o Governo, relatando que, em termos de peso, “os resíduos recicláveis com maior quantidade recolhida, em 2025, foram, por ordem decrescente, o papel, equipamentos electrónicos e eléctricos, o vidro e o plástico”.

São divulgados números concretos para cada um destes itens, verificando-se que “as latas de alumínio ou ferro, o plástico e o vidro registaram os maiores aumentos em termos anuais”, 19,9; 15,4 e 9,3 por cento, respectivamente.

Centro de resíduos em 2027

Ainda relativamente às políticas de reciclagem, o Executivo promete “continuar a alargar a rede de reciclagem junto da comunidade”, para “incentivar a recolha selectiva”. No ano passado foram criados dois novos Centros Ambientais Alegria situados na Avenida Marginal do Lam Mau e na Avenida de Venceslau de Morais, somando aos mais de quatro mil pontos de recolha no território.

Segundo a DSPA, estes pontos incluem “serviços de recolha abrangem o papel, plástico, metal, garrafas de vidro, resíduos alimentares, equipamentos electrónicos e eléctricos, pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes e roupas usadas”.

O Governo menciona também o projecto de construção do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, cuja conclusão deverá acontecer em 2027. A ideia é que, após a inauguração, “funcione em coordenação com o programa de reciclagem centralizado nos resíduos alimentares provenientes da indústria e comércio, com vista a aumentar a taxa de recuperação de recursos”.

Pretende-se também “continuar a expandir e aperfeiçoar a rede comunitária de recolha de resíduos recicláveis, com o intuito de aumentar a conveniência da prática da reciclagem de materiais recicláveis por parte dos cidadãos”.

Um ar que se respira

Outro indicador ambiental avaliado neste relatório é a qualidade do ar no território, descrevendo a DSPA que “nos últimos anos têm vindo a diminuir as concentrações médias anuais de poluentes atmosféricos”, bem como “o volume de emissão de gases com efeito de estufa”, que “registou uma queda em comparação a 2024”.

No caso da emissão das partículas PM10 [partículas em suspensão no ar com diâmetro igual ou inferior a dez micrómetros, inaláveis e com impacto na saúde humana], houve uma diminuição anual de 3,5 por cento em termos de concentração média anual na atmosfera. Destaque também para a quebra de 2,3 por cento nas emissões de PM2,5 e de 1,7 por cento nas partículas NO2 [dióxido de nitrogénio].

Por sua vez, aumentou em 2,3 por cento a emissão de S02 [dióxido de enxofre] e 2,4 por cento de 03 [ozono] entre 2024 e 2025, sendo que no caso das partículas CO [monóxido de carbono], as emissões “mantiveram-se praticamente inalteradas”, descreve-se.

A DSPA considera que “de modo geral a qualidade de ar em Macau tem continuado a melhorar”, descrevendo como estas emissões sofreram uma grande redução em comparação há dez anos. Assim, em relação a 2016, as concentrações médias anuais de PM 2,5 reduziram 32,9 por cento, enquanto que no caso das PM10 a quebra foi de 17,6 por cento.

A maior quebra regista-se no dióxido de enxofre, com menos 45 por cento, bem como a redução de 29,2 por cento no dióxido de nitrogénio. Já no que diz respeito ao dióxido de carbono a redução foi de 25 por cento em dez anos.

Aponta a DSPA que “em termos anuais a maioria das emissões de poluentes atmosféricos diminuiu”, enquanto que “as emissões de GEE [Gases com Efeitos de Estufa] diminuíra 1,8 por cento”. Destaca-se também “que a percentagem de dias em que os níveis de qualidade do ar foram classificados de ‘Bom’ ou ‘Moderado’ nas seis estações de monitorização da qualidade do ar de Macau chegou aos 90 por cento”.

É referido no relatório que, à “excepção das estações [de medição da qualidade do ar] do Conselheiro Ferreira de Almeida e Toi San, as concentrações médias anuais de dióxido de azoto (NO2) foram inferiores ao valor padrão”, por exemplo.

A DSPA aponta ainda que “os transportes terrestres e marítimos, a construção civil e a incineração de resíduos foram as principais fontes de emissão de poluentes atmosféricos”.

Enquanto isso, a principal fonte de emissão de NH3 [amoníaco] deveu-se ao tratamento de águas residuais, enquanto os solventes orgânicos constituíram a principal fonte de emissão de COVNM [Compostos Orgânicos Voláteis Não Metânicos].

Neste contexto, o relatório dá conta que a DSPA tem procurado limitar “a importação de produtos que excedam o limite do teor de compostos orgânicos voláteis”, além de regulamentar “a gestão da recuperação de vapores nos postos de abastecimento de combustíveis e nos depósitos de combustíveis”.

Mais ligados à ficha

A DSPA destaca no documento ontem divulgado como as políticas de promoção do uso de veículos eléctricos parecem estar a gerar resultado, já que “o número de veículos eléctricos tem vindo continuamente a aumentar nos últimos anos”. No ano passado, “o número de veículos eléctricos em Macau era de 16.339, o que representa um aumento de 34,6 por cento relativamente ao ano anterior”, pode ler-se.

No que diz respeito ao total de novos veículos registados em 2025, “a proporção de veículos eléctricos em relação aos automóveis ligeiros aumentou de cerca de 4 por cento em 2019 para 38,5 por cento”. Já o “número de ciclomotores e motociclos eléctricos aumentou cerca de 16 vezes comparativamente ao ano anterior ao do lançamento do plano de apoio financeiro, em 2022”. Revela-se que a “percentagem de residentes que optaram por motociclos eléctricos no momento da compra de motociclos aumentou de cerca de 2 para 36,8 por cento”. Tal “demonstra que o trabalho do Governo da RAEM na promoção de veículos eléctricos já produziu algum efeito”.

Sobre os postos de carregamento deste tipo de carros e motas, havia no fim de 2025 “mais de 3.400 lugares de carregamento eléctrico na maioria dos parques de estacionamento e em vias públicas”, tendo sido instalados “armários de baterias de motociclos eléctricos para troca em oito parques de estacionamento públicos e em quatro vias ou bairros”.

O relatório não ignora os dados da temperatura e precipitação, sinais do impacto das alterações climáticas. No ano passado, a temperatura média em Macau foi de 23,2º, mais 0,4º do valor médio registado entre 1991 e 2020.

Além disso, “o número de dias de tempo muito quente foi de 37 dias, o que representa um aumento de 5,7 dias em relação ao valor médio climático”, descreve a DSPA, enquanto que “o número de dias de tempo muito frio foi de 27 dias, menos 12,1 dias do que o valor médio climático”.

9 Jun 2026

10 de Junho | Clube Militar serve comida mirandesa de Lídia Brás

Começa hoje mais uma iniciativa – desta vez gastronómica – do programa “Junho – Mês de Portugal na RAEM”. Trata-se do “Festival de Gastronomia e Vinhos de Portugal – Primavera 2026”, no Clube Militar de Macau, onde se pode provar os pratos de Lídia Brás e do seu assistente, Fernando Araújo

Lídia Brás é uma cozinheira de mão-cheia e será ela a protagonista do já habitual festival de gastronomia que o Clube Militar acolhe todos os anos. Nesta edição do “Festival de Gastronomia e Vinhos de Portugal – Primavera 2026”, integrante do cartaz de celebrações de “Junho – Mês de Portugal na RAEM”, espera-se comida transmontana genuína e alguns dos melhores vinhos portugueses. Na cozinha de Lídia estará também Fernando Araújo como seu assistente. O evento começa hoje e termina dia 15.

Numa nota do Clube Militar, descreve-se como este evento celebra também os 156 anos de existência desta entidade, “uma das mais antigas associações sociais de Macau”. O sentimento por receberem um evento ligado à cultura portuguesa é de felicidade e honra, destaca a nota assinada pelo presidente da direcção, Ambrose So.

O festival em causa “já tem uma tradição de mais de duas décadas no nosso Clube, coincidido, desde 2015, com a celebração do ‘Mês de Portugal na RAEM’. Sentimo-nos muito honrados pela integração nas actividades da celebração” organizada por diversas entidades, nomeadamente o Consulado-geral de Portugal na RAEM.

Mais do que experimentar comida portuguesa, este festival traz a Macau a verdadeira comida transmontana de Miranda do Douro, de onde é natural Lídia Brás, que foi, até há bem pouco tempo, chef de cozinha no restaurante Stramuntana, em Vila Nova de Gaia. “Stramuntana” quer dizer Transmontana em mirandês, um dos dialectos falados no país e que apresenta uma ligação com o espanhol, nomeadamente da zona da Galiza.

Nas redes sociais do restaurante lê-se que o Stramuntana “pretende representar o verdadeiro espírito transmontano; começando pelo nome em mirandês e passando por toda a cozinha de conforto aqui praticada”. Lídia anunciou nas redes sociais, em Março deste ano, que iria deixar a liderança do restaurante e abraçar novos projectos.

“Informo que, a partir deste momento, deixo de ter qualquer vínculo profissional, colaboração ou ligação aos projetos Stramuntana e Proua. Foi um percurso ao qual me entreguei com dedicação, responsabilidade e respeito, e pelo qual guardo gratidão por tudo o que foi construído ao longo desse caminho”, escreveu. A chef acrescentou ainda que iria iniciar “uma nova etapa na Bondlair”. Fernando Araújo continua à frente do projecto Stramuntana.

Lídia e Fernando são um casal que está junto na vida e na cozinha, transmitindo “a paixão das raízes transmontanas de Lídia em que o minhoto Fernando se integra perfeitamente”. Fernando, por sua vez, traz também para a cozinha o seu “conhecimento aprofundado e alargado sobre vinhos”. Associado à cozinha, juntam-se elementos desta região portuguesa como os caretos de Podence, gaitas-de-foles, cabaças, referências ao poeta Miguel Torga, nascido em São Martinho da Anta, em Trás-os-Montes.

Aposta desde 2006

Lídia Brás nasceu em Miranda do Douro e faz, no seu restaurante e também neste festival no Clube Militar, uma elegia à sua terra. Formou-se em Artes, mas depressa percebeu que a sua vida passaria pelos tachos e por transmitir a cultura do lugar onde nasceu.

O Clube Militar, na mesma nota, descreve como o trabalho de Lídia “preserva a autenticidade, sazonalidade e características da cozinha portuguesa, por vezes com um toque pessoal de inovação”, investigando ainda o “receituário Transmontano ancestral, ligado maioritariamente a tradições de festas populares, comidas do campo e rituais específicos daquela região”.

Fernando Araújo nasceu em Vila Nova de Gaia, mas tem raízes minhotas em Adaúfe. “Herdou desde cedo o palato apurado e o gosto pelo saber-fazer da gastronomia nortenha: os peixes e mariscos do litoral, os enchidos tradicionais e os pratos ricos de carne da terra”, é descrito.

Bem mais a Sul de Portugal, no “Alentejo profundo”, Fernando Araújo “aprofundou o conhecimento sobre a riqueza da gastronomia nacional, absorvendo tradições, sabores e técnicas que marcariam o seu percurso profissional”. O primeiro negócio do casal na área da gastronomia abriu portas em 2006, tendo-se iniciado “um percurso de crescimento contínuo na restauração e no universo vínico”.

No “Stramuntana” apresenta-se muita comida de tacho e feita em tradicionais panelas ao lume, como antigamente, prometendo-se o mesmo sabor no festival acolhido pelo Clube Militar. São as “memórias gastronómicas que existem em cada um de nós”, como as “comidinhas de conforto que nos remetem à infância e que, por mais simples que sejam, são sempre especiais, porque nos fazem lembrar de pessoas e de momentos”, lê-se na página de Facebook do restaurante. Na mesma publicação, apresenta-se a versão em mirandês: “Eisisten, an cada un de nós, las mimórias gastronómicas; las comidinhas de cunfuorto que mos remeten a l’anfáncia. Por mais simples que séian, son siempre speciales porque mos fázen lhembrar de pessonas i de momientos.”

NOTA: Notícia editada online com a nova informação de que Lídia Brás deixou o projecto Stramuntana este ano.

8 Jun 2026

CCCM | “China tem ainda dificuldade em seduzir”, diz ex-ministro

Nuno Severiano Teixeira, professor e antigo ministro, defende que a China ainda não é uma potência global na área do “soft power”, porque “consegue conquistar, mas ainda tem dificuldade em seduzir”. A ideia foi avançada durante a apresentação do livro “Is China a Global Power?”, de Francisco José Leandro

Será a China uma verdadeira potência global nas vertentes militar, económica e do chamado “soft power”, ou seja, na capacidade de influência de outros países por uma via mais branda? O novo livro de Francisco José Leandro, “Is China a Global Power? The Three Great Walls of the Middle Kingdom” afirma que o país tem um maior poderio militar e tecnológico a nível global, o que confere o estatuto de potência, mais do que pela via negocial com outros países, ou na arte de influenciar de forma plena as relações internacionais.

A obra, editada pela Palgrave Macmillian no ano passado, foi apresentada na semana passada no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), tendo sido comentada por Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na área da Ciência Política e Relações Internacionais e antigo Ministro da Administração Interna e Ministro da Defesa Nacional.

Na sessão, Severiano Teixeira indicou que a China ” está ainda longe de atingir” esse estatuto de potência global” ‘no soft power’. “No que diz respeito aos aspectos culturais e da vida imaterial, ainda não atingiu o seu objectivo. Usando a expressão de Joseph Nye, se no ‘hard power’ a China o atingiu, no ‘soft power está ainda longe de o atingir. Ou seja, a China consegue conquistar, mas tem ainda dificuldades em seduzir”, acrescentou.

A obra de Francisco José Leandro, professor na Universidade de Macau (UM), apresenta a metáfora da muralha para descrever as várias vertentes em que a China demonstra o seu poder, seja a nível militar, cultural, económico ou de negociação diplomática, da chamada “governança global”. Segundo explicou Nuno Severiano Teixeira, “em cada uma destas muralhas o ponto em que a China se encontra é diferente”, sendo que a nível económico e tecnológico, o país “atingiu o seu objectivo de ser uma potência global “.

Neste contexto, o docente da UM disse “ter quase a certeza que os próximos cinco a dez anos vão ser surpreendentes do ponto de vista da evolução tecnológica e económica”. Estes dois aspectos estão, aliás, interligados num dos capítulos do livro, estando em causa “uma estratégia financeira com vários níveis de governação”.

Francisco José Leandro apresentou vários exemplos de como a China tem evoluído em termos tecnológicos, o que lhe pode conferir o estatuto de potência global neste domínio. Relativamente ao sistema europeu de satélites, “a China não teve acesso e criou o seu sistema, que é um dos melhores do mundo”. Depois há a aposta no Espaço: “temos uma estação internacional e depois temos a estação chinesa, exactamente porque à China não foi dada essa possibilidade”.

“Em termos de capacidades militares, a China já ultrapassou, em muito, o número de activos [face a outros países]”, declarou o académico, referindo que “a China foi a potência que mais satélites colocou no espaço em 2012”, apresentando-se “uma taxa de sucesso impressionante comparativamente às agências europeia e americana”.

Outra visão

Nuno Severiano Teixeira declarou como a China tem hoje “uma visão alternativa para a ordem internacional em que vivemos”, podendo-se questionar se o país “é um consumidor das regras, das normas internacionais, ou se é um produtor” de normas; ou se é “capaz de legitimar, do ponto de vista internacional, essa visão ou não”.

A obra de Francisco José Leandro destaca como Pequim não domina ainda o mundo a nível da chamada governança global. Conforme disse Nuno Severiano Teixeira, “a China não é ainda um grande arquitecto, mas um grande artesão que está, a pouco e pouco, a mudar”. “Diria que, depois de ler o livro, que a China é quase uma potência global, está muito perto de o ser, disso não há dúvidas nenhumas”, assumiu. Isto numa altura em que existe “numa ordem internacional complexa e muito inútil”, disse Nuno Severiano Teixeira, que defendeu que a China tem aproveitado para desenvolver algumas áreas tendo em conta as últimas políticas norte-americanas, nomeadamente “as asneiras que o Presidente Trump está a fazer com as universidades americanas”.

A China capta talentos, desenvolve o conhecimento científico, “mas não encontrou ainda o seu Hollywood”, disse o professor, numa referência à aposta que os Estados Unidos fizeram na indústria cinematográfica para se expandir e que, é hoje, das mais importantes do mundo.

Muralhas imaginárias

“Is China a Global Power?” nasce das provas de agregação que Francisco José Leandro fez no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, sob o tema “Contemporary China”, em 2022. O livro traz reflexões em torno de quatro temas, nomeadamente as três “muralhas” do “acesso tecnológico e económico”, que permitem o acesso do país ao poder material; a muralha do “acesso cultural e intangível”, que levam ao “poder intangível” e ainda a muralha “do acesso político e governança global”, que permite o “poder da governação” a Pequim. O livro faz ainda a “avaliação da capacidade de poder abrangente da China”, com recurso a “observações no terreno em que o autor argumenta que a China possui uma visão e ambição globais, posicionando-se como uma quase-potência global”, descreve-se numa sinopse divulgada pelo ISCTE.

Tiago Vasconcelos, outro dos oradores da sessão do CCCM, e docente nas áreas de Estratégia e Geopolítica, destacou que a obra deixa a reflexão sobre se as três muralhas “são as que a China tem de construir para se proteger ou controlar os fluxos de ideias, pessoas, capitais, bens e serviços, ou as suas fronteiras, um pouco à maneira da grande muralha original”; ou se, pelo contrário, “são muralhas que a China teve de derrubar ou ultrapassar, para se tornar, ou ser percebida como potência global”, isto “se já o for?”.

“No domínio material do poder o autor presta atenção à importância global da China nas questões económicas, incluindo as que respeitam a competição tecnológica entre a China e os Estados Unidos da América. A questão que aqui se invoca é que se a China já ultrapassou esta grande muralha, que dificulta o acesso de novos entrantes ao patamar do poder económico e tecnológico de classe global”, questiona o académico.

Desta forma, “a conclusão [do livro], é que actualmente a China já é reconhecida como uma potência económica global”. Porém, Tiago Vasconcelos acrescentou que, ao nível “das questões culturais globais” e do “domínio intangível do poder”, a China é ainda, segundo o livro, “uma potência predominantemente interregional”.

Um certo receio

Tiago Vasconcelos disse ainda ser importante evitar “categorizações simplistas” para avaliar “um fenómeno tão complexo como é o crescimento do poder da China”. Porém, o analista considerou ser “bastante natural a preocupação com as possíveis consequências de um fenómeno tão potencialmente transformador da política mundial como é a ascensão da China, e isto é inegável”.

Em “Is China a Global Power?”, Francisco José Leandro “observa como em certas áreas o poder crescente da China tem precipitado narrativas de securização”, com o fomento de “medo nas elites e no público em geral”, por estar em causa “um fenómeno realmente novo para a maior parte das pessoas vivas, mas que alimenta, por vezes, populismos que perturbam processos de decisão”, adiantou Tiago Vasconcelos.

8 Jun 2026

Zhuhai | Novo espaço do LMA abre em Wanzai

A Live Music Association, espaço de música ao vivo que funcionou durante vários anos na Avenida do Coronel Mesquita, terá agora nova morada do outro lado da fronteira, em Wanzai, Zhuhai. O acesso mais fácil para lá chegar é através do Terminal Marítimo de Passageiros do Porto Interior, na Ponte 16.

O anúncio da reabertura do espaço foi feito ontem na página de Facebook do LMA, com a mensagem “New LMA open in China now!” [Novo LMA abre na China!]. O primeiro concerto está agendado para o dia 13 deste mês, a partir das 21h, com a actuação dos “Fusion Rock Power Project” com os músicos Chung e Ka Hou.

Vincent Cheang, responsável pelo projecto do LMA, disse ao HM que o novo espaço em Wanzai “combina actuações ao vivo com o estúdio de arte pessoal”. “O espaço apenas estará aberto ao público para concertos, e irá funcionar como antes”, isto quando o LMA tinha portas abertas em Macau.

Recorde-se que o LMA começou por suspender temporariamente a actividade, encerrando depois de forma definitiva, no período da covid-19. Vincent Cheang contou que o novo LMA “está instalado numa antiga fábrica de cassetes e CDs”, “um local profundamente ligado à música”, motivo que cativou o responsável pelo espaço.

A abertura do lado de lá da fronteira aconteceu devido a alguns entraves em Macau relacionados com a lei do ruído. “As actuais leis de ruído de Macau são demasiado rigorosas, e os cidadãos abusam do mecanismo de reclamação. Então, para nós, é quase impossível encontrar um local em Macau que não resulte na apresentação de mais reclamações.”

Vincent Cheang diz querer “continuar a missão de promover a música independente num local que seja próximo de Macau”, uma proximidade que seja “conveniente para bandas, produtores musicais, DJs e o público”.

4 Jun 2026

Guilherme Pegado e Ernesto Gherzi – Os seus contributos para a meteorologia em Macau

Vem este texto a propósito de duas figuras históricas que percorreram caminhos ligados à Meteorologia em Macau. Trata-se de Professor Guilherme José António Dias Pegado (1803-1885), ilustre macaense pioneiro da Meteorologia de Estado em Portugal, professor de Física e Matemática na Universidade de Coimbra e na Escola Politécnica de Lisboa. Foi também o primeiro diretor do então designado “Observatório do Infante D. Luiz”, em Lisboa.

O padre italiano Ernesto Gherzi (1886-1973), conhecido como “Pai dos Tufões” e autor de trabalhos científicos nas áreas da Meteorologia e da Geofísica, adquiriu a sua formação científica dentro da Companhia de Jesus e em institutos europeus. Não chegaram a ser contemporâneos, mas as obras de ambos contribuíram para o desenvolvimento da Meteorologia em Macau. Guilherme Pegado nasceu em 23 de maio de 1803, na freguesia de São Lourenço, e faleceu também em Macau, em 22 de outubro de 1885. Ernesto Gherzi nasceu em 8 de agosto de 1886, em Sanremo, Itália, e faleceu em 6 de dezembro de 1973, em Saint-Jerôme, Montreal, no Canadá.

Tal como Ernesto Gherzi, que é conhecido como “Pai dos Tufões”, Guilherme Pegado pode ser considerado como o “Pai da Meteorologia” no nosso país, na medida em que foi fundador da Meteorologia de Estado em Portugal e territórios ultramarinos sob administração portuguesa, incluindo Macau, onde foi grande impulsionador das práticas meteorológicas segundo as normas internacionais.

É em grande parte graças a este eminente macaense que a estação meteorológica localizada junto à sede dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau (SMG), na Taipa Grande, foi designada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) “Estação Meteorológica Centenária”. Apesar de ser relativamente recente, pois começou a funcionar quando se deu a mudança da sede dos SMG da Fortaleza do Monte para a Taipa Grande, em 1996, a OMM considerou que se cumpriram os rigorosos critérios para essa classificação, entre os quais observação sem interrupção durante pelo menos cem anos, independentemente de ter mudado de um local para outro relativamente próximo.

Na realidade, as estações meteorológicas em Macau mudaram várias vezes de local. O primeiro observatório meteorológico, ainda sem instalações próprias, foi criado em 1861, no então chamado Hospital Militar. As observações eram feitas duas vezes por dia sob a responsabilidade do Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906), médico cirurgião luso-indiano, então chefe dos Serviços de Saúde do território. Os instrumentos eram devidamente aferidos na Escola Politécnica de Lisboa. No entanto, foi só a partir de 1881 que se passaram a fazer oficialmente observações com continuidade, por pessoal da Marinha, na Capitania dos Portos. Mais tarde o observatório mudou várias vezes de local: para uma dependência da Ermida da Nossa Senhora da Penha (1900); Colina de S. Jerónimo, em pavilhões das antigas dependências do Hospital do Conde de S. Januário (1904); Fortaleza do Monte (1966) e Taipa Grande (1996).

Foi sob proposta de Guilherme Pegado que se deu início à construção de uma infraestrutura de observação meteorológica em Portugal, que veio a designar-se por “Observatório Meteorológico anexo à Escola Politécnica”, como consequência da aplicação do estabelecido na portaria governamental publicada em 2 de agosto de 1853. O Observatório, instalado no atual Jardim Botânico, adjacente à antiga Escola Politécnica de Lisboa, veio posteriormente a ser referido sucessivamente como “Observatório Meteorológico de Lisboa” e “Observatório do Infante D. Luiz”, em homenagem ao infante que viria a ser rei de Portugal e que nutria grande interesse pela ciência e pela Marinha. Começou a funcionar regularmente, sob a direção do cientista macaense, em 1 de outubro de 1854, seguindo as regras estabelecidas internacionalmente.

Guilherme Pegado foi nomeado pelo Ministério da Marinha, em 1853, diretor científico das observações meteorológicas a bordo de navios. Divulgou em Portugal os critérios estabelecidos na “Conferência Marítima de Bruxelas” que se realizou em agosto, estendendo-se por setembro de 1853, para a uniformização das observações meteorológicas no mar. Os navios portugueses iniciaram essa prática na viagem de Lisboa para Macau da corveta D. João I, em 1853, passando-se a registar várias vezes por dia observações meteorológicas a bordo. Foi também seguindo as suas instruções que se iniciou a instalação das primeiras estruturas meteorológicas em Macau.

Guilherme Pegado, além de cientista e professor universitário, foi também deputado às Cortes pelo círculo de Macau durante várias legislaturas.

No que se refere ao Padre Ernesto Gherzi, este cientista desempenhou as funções de diretor do Observatório de Zikavei, de1930 a 1949. Foi impedido de voltar a Xangai depois de participar numa missão às Filipinas, onde participou num congresso científico em Manila. Após uma breve estada em Hong Kong, optou por aceitar o convite das autoridades portuguesas para trabalhar na área da Meteorologia, em Macau, onde permaneceu de 1950 a 1954.

Na sequência da lei que criou oficialmente os serviços meteorológicos nos antigos territórios ultramarinos portugueses, em 1950, foi criado o Serviço Meteorológico de Macau (SMM), que anteriormente era designado simplesmente por Observatório Meteorológico. Durante dois anos o Padre Ernesto Gherzi deu forte apoio ao meteorologista português Manuel Tomás Ferreira Cabrita, que permaneceu em Macau, de 1951 a 1955, como o primeiro diretor do SMM. Apesar da lei que criou este Serviço tivesse sido promulgada em 1950, o SMM só entrou oficialmente em funcionamento em março de 1952. Foi adquirido novo equipamento e estabelecida a ligação à rede meteorológica mundial, o que permitiu o intercâmbio de informação com Manila e Hong Kong.

Por iniciativa do Padre Gherzi tiveram início outras atividades nunca antes exercidas em Macau, como a observação da ionosfera. Segundo Gherzi, a observação de perturbações radioelétricas na ionosfera constituía uma boa ferramenta para a previsão da aproximação de tufões. A sua experiência como diretor do Observatório de Zikavei durante cerca de vinte anos, onde dirigiu um eficaz serviço de alerta de tufões, contribuiu grandemente para a melhoria da previsão do tempo associado a estas tempestades. Foi durante a sua estada em Macau que o Padre Gherzi escreveu o livro “Meteorology of China”, considerado um clássico, com a colaboração de Manuel Cabrita, publicado em 1951 pela Imprensa Nacional de Macau.

É de salientar o interessante trabalho da historiadora britânica Priscilla Mary Roberts, no que se refere à investigação sobre o padre italiano e o seu contributo para o serviço de Meteorologia em Macau.

Sobre este assunto a historiadora apresentou na sede da Fundação Rui Cunha, em 5 de novembro de 2025, a palestra intitulada “The Father of Typhoons – Ernesto Gherzi and the Macao Meteorological Service, 1950-1954”. Fica aqui a sugestão àquela Fundação, que tanto tem contribuído para a divulgação de assuntos relacionados com Macau, que coloque na sua agenda algo de semelhante no que se refere a Guilherme Pegado.

4 Jun 2026