Sónia Sénica, académica: “Uma nova ordem multipolar”

Sónia Sénica, docente de Relações Internacionais, considera que a diplomacia mundial se define com três poderes, liderados pelo crescimento da China, a Rússia e o declínio da América. O HM conversou com a autora de “Ordem Tripolar – O Mundo dos Três Grandes Poderes” na última edição da Feira do Livro de Lisboa

Defende que o mundo tem hoje uma ordem tripartida dominada pelos Estados Unidos da América (EUA), China e Rússia. Como serão os relacionamentos com Pequim daqui a diante?

Percebemos que, sob liderança de Xi Jinping, há uma grande influência de Pequim para o que é uma nova ordem multipolar, que é algo que advoga, como sabemos. Mas, como refiro no livro, essa dimensão de multipolaridade cria uma espécie de eixo antagónico, sobretudo ao Ocidente, pela liderança norte-americana, independentemente da tentativa de normalização de agendas, ou de concertação de alguns posicionamentos com encontros oficiais, cimeiras ou ataques diplomáticos. Recentemente ficou muito claro que houve verdadeiramente uma corrida a Pequim. Até mesmo da parte do actual Presidente norte-americano, Donald Trump, houve a necessidade de articular as dinâmicas de cooperação e conflitualidade que estavam em curso, sobretudo a mais preocupante nesta altura para ele, que seria a do Médio Oriente e, em certa medida, contar com uma espécie de condescendência, de posicionamento favorável no que era a pacificação da região.

Tendo em conta o discurso político e a agenda de Pequim, o conceito de “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”, parece que existe uma espécie de ordem mundial paralela. A China tem, por exemplo, o Fórum Boao, considerado o Davos da Ásia.

Sim. Em bom rigor, o que pretende Xi Jinping? Há duas dimensões: por um lado, a reunificação de Taiwan e a sua afirmação em termos regionais no Indo-Pacífico, e depois uma espécie de propagação da influência pela via da dimensão económica, com a “Belt and Road Initiative”; mas menos no quadro daquilo que é a dimensão de responsabilização enquanto grande poder. Ou seja, [a China] não quer e não está, do meu ponto de vista, claramente favorável a uma intervenção permanente militarizada ou de pacificação de mediação em várias dimensões. Exactamente como aquela percepção de excepcionalismo por parte dos EUA, uma linha estruturante, sobretudo desde o fim da Guerra Fria, em que [o país] emerge no quadro da unipolaridade e assume o papel de única potência internacional. Na época até se falava de ser o polícia do mundo. Mas há outra coisa importante, que Xi Jinping reiteradamente parece advogar, e que, em certa medida, parece curioso.

O quê?

Se, por um lado, [a China] cria esse multilateralismo alternativo ao Ocidente, sob influência sino-russa, como sabemos, e em concertação com os povos, por outro lado continua a defender o sistema onusiano [da Organização das Nações Unidas]. E porquê? [Por causa] da questão importante do direito de veto no Conselho de Segurança, onde a Rússia e China consideram que conseguem, de alguma forma, criar uma espécie de constrangimento ao Ocidente, [seja] aos EUA ou países europeus. Isto no que concerne a tomadas de posição condenatórias ou mais assertivas relativamente às suas posições e acções externas. Há um paradigma, também interessante, que mudou recentemente desde a invasão na Ucrânia, segundo analistas militares: de que os grandes poderes já não precisam apenas da força convencional para impor os seus interesses.

Quais as alternativas?

Têm de recorrer à guerra híbrida, diversificar alianças, contar com outros actores, por exemplo, dentro do Sul Global, nas dimensões económicas, diplomáticas. Isso acaba por criar uma espécie de sinergia global e uma mudança substantiva de como se faz política externa.

Porque o Sul Global é tão importante para a China? Temos a questão da língua portuguesa, de África, e também da língua espanhola, cuja importância é crescente.

Talvez por três ordens de razões. A primeira, que é notória, que é expandir a sua influência pela via económica. Há aqui uma dependência muito clara dos países que beneficiam com o investimento chinês, com a concertação de parcerias [com a China] enquanto parceiro comercial; de infra-estruturas que obviamente são criadas por via chinesa nesses países. África é muito substantiva nessa dimensão. Mas parece-me que é mais do que isso: é criar, de facto, uma espécie de política internacional mais inclusiva. A forma de cooperar da China, e na abordagem ao Sul Global, é uma espécie de percepção da igualdade. Não importa como a liderança chegou, se por via legítima ou não, ou por guerrilhas muitas vezes, ou convulsões sociais. Importa quem lá está naquele momento e de que forma podemos gerar benefícios comuns.

Muito se tem falado se a China é, ou não, uma verdadeira potência. Defende, no livro, que “a sua liderança política não parece ter assumido ainda a vontade de ocupar em pleno esse papel”. Em que sentido?

No sentido em que eu referi há pouco. Xi Jinping tem objectivos concretos, que é estender a influência chinesa na dimensão económica, porque é útil também para a economia chinesa. Estas dinâmicas de conflitualidade estão a pôr em risco e em causa cadeias de abastecimento, interesses, a economia interna. Sabemos que [a economia interna] tem sido uma forma de apaziguar também possíveis convulsões e criar uma espécie de diáspora que consiga também investir fora, com empresários e tudo isso. Acaba-se por criar uma espécie de quase expansão da China numa outra forma. Não agressiva, não invasiva territorialmente.

Através da cultura, por exemplo.

Exactamente, da propagação da cultura, da defesa daquilo que é a língua chinesa fora do território nacional, de criar sempre essa ligação entre a diáspora e o seu território. Tentando manter uma concertação, cooperação ou integração pacífica, e apelando à paz. É curioso, tendo em conta que o objectivo será, mais cedo ou mais tarde, a reunificação de Taiwan, idealmente de forma pacífica, mas, não sendo possível, recorrendo a outros mecanismos.

No seu entender será até 2049, quando chega ao fim do período de 50 anos no contexto da transição de poderes de Macau.

Creio que Xi Jinping tem isso decidido na sua cabeça há muito tempo. Não o esconde. Aliás, foi a primeira coisa [que afirmou], foi uma restrição unilateral que assumiu mal recebeu o presidente Trump. Está tudo certo, excepto esta parte.

Na última visita do Presidente norte-americano, ou na anterior?

Nesta. É um assunto tabu, e isso ficou claro. O posicionamento norte-americano [sobre a questão de Taiwan] nem era necessário ser ouvido naquele momento, porque se trata de um assunto interpretado por Xi Jinping como sendo uma questão doméstica, com outros contornos. Portanto, do meu ponto de vista, há um cronograma. Há quem advogue a questão de 2049 e, para ser simbólico, é o marco de uma liderança que conseguiu a reunificação de Taiwan com a China continental. Mas talvez estas questões actuais, como a monitorização das posições norte-americanas, dos seus parceiros, quer na Ucrânia ou no Médio Oriente, podem levar ao acelerar desta tomada de decisão, ou desta acção política, diplomática ou de estratégica militar que Xi Jinping vai ter de tomar.

Como será a relação com os Estados Unidos se o “Trumpismo” continuar com outras figuras?

Sob a liderança de Donald Trump, há claramente um propósito de articulação de agendas ou de relação com as grandes lideranças e homens fortes, e são todos os que refiro no livro “Ordem Tripolar”. O próprio Trump tenta, em certa medida, imputar algumas dimensões de lideranças de homens fortes, em que ele decide e toma, até, as rédeas do processo com uma só tomada de decisão, mas também de comunicação política. Muitas vezes sabemos o que vai ser decidido pelo próprio [Trump] mesmo antes da rede diplomática ou das próprias forças armadas. Isso tem traços de alguma dimensão de liderança centralizada e personalizada, que é uma característica de Xi e de Putin. Parece-me que, num primeiro ponto, haverá tentativas de concertação onde for possível, mas também de divergência. Certamente que existem posicionamentos que verdadeiramente não são todos iguais. E vai haver muito pragmatismo consoante o ciclo, o evento ou a tomada de posição. Uma tentativa de ajustar consoante as necessidades de parte a parte.

Os três grandes

Nesta obra recentemente editada pela Planeta, Sónia Sénica fala da “ascensão da China, o regresso da Rússia a uma lógica de confronto directo com o Ocidente e a percepção global de declínio norte-americano”, o que abre “caminho a uma nova ordem mundial”, que é “tripolar, incerta e desafiante”, lê-se na sinopse. A docente e analista de política traça “um retrato inquietante do mundo em transformação”, sendo esta uma “uma obra indispensável para entender o que está em jogo nesta transição geopolítica, em que a democracia liberal é posta à prova e na qual a Europa procura, ainda, o seu lugar”, é acrescentado.

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