O umbral da desordem mundial (I)

“When a political community loses the courage to name reality, it also forfeits the capacity to shape it.”

Adrian Leclerc, European Letters on Power

Avançamos para Gibraltar como o último estreito ainda livre que nos liga ao grande oceano e que, pela sua centralidade geoestratégica, deveria converter à fé até o mais céptico. Observado a partir do centro do poder europeu, o assalto israeloamericano ao Irão assume a forma de um cerco progressivo, no qual a Europa corre o risco de se ver confinada a um mar interior crescentemente condicionado.

A antiga noção de “ponte oceânica” entre territórios e rotas globais dissolve-se à medida que, de leste a oeste, se fecha uma válvula após outra. Hormuz arde, Bāb alMandab encontrase sob fogo e o Suez é atingido pelas guerras de reacção desencadeadas após o 7 de Outubro. Sobre os estreitos turcos, fronteira entre o Mar Negro como palco da disputa russo-ucraniana e um Mediterrâneo oriental em convulsão com o epicentro em Chipre, reina igualmente um silêncio inquietante.

Nem o Estreito da Sicília oferece tranquilidade, dada a presença assertiva da Turquia na margem sul, a influência russa na Cirenaica e a pressão dos conflitos permanentes entre o Sahel e o Corno de África. Mais a oeste, a situação melhora apenas marginalmente, condicionada pelas reivindicações argelinas sobre zonas marítimas adjacentes, às quais se responde com prudência devido à dependência energética europeia.

É previsível, nos próximos meses, um movimento migratório de grande escala proveniente do sudeste em direcção ao continente europeu, evocando em alguns espíritos a travessia bíblica do Mar Vermelho. O caos aproxima-se. O colapso do império marítimo americano repercute-se directamente sobre nós.

A ofensiva desencadeada a 28 de Fevereiro por Trump, actuando como aliado subordinado de Israel contra o Irão, marca o crepúsculo da talassocracia americana. Um império em declínio perde a capacidade de controlar os pontos de estrangulamento estratégicos que constituíam o sistema nervoso da sua hegemonia, agora em dissolução.

A situação representa uma humilhação particular para a Marinha dos Estados Unidos, herdeira da antiga supremacia britânica. O motim a bordo do seu maior porta-aviões, o Gerald Ford, temporariamente imobilizado após danos provocados por marinheiros exaustos depois de quase um ano de missões contínuas, revela o estado de degradação da “Armada” na qual Trump confiava para esmagar a República Islâmica.

O caos alastra pelas instituições, estruturas administrativas, órgãos de decisão, burocracias e centros de influência de Washington e pelo próprio governo federal, onde o presidente, num estilo errático, acumula vantagens pessoais enquanto fomenta conflitos internos. Chega mesmo a ameaçar com a saída da NATO, que descreve como “tigre de papel”.

A comparação com Nero torna-se inevitável. Entre as frases apócrifas atribuídas a Mark Twain, uma parece ajustar-se ao auto-afundamento do líder americano ao afirmar que “Deus criou a guerra para que os americanos aprendessem geografia.” E, acrescentar-se-ia, história. Missão falhada. Apenas uma minoria dos cidadãos dos Estados Unidos consegue localizar o Irão num mapa; muitos pensam tratar-se de um país árabe e confundem-no com o Iraque; poucos o identificam como a antiga Pérsia.

(Continua)

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