Mattie Do, primeira e única mulher realizadora do Laos: “Vivenciei a morte em primeira mão”

A história da ligação de Mattie Do com o cinema é tudo menos comum. A ex-professora de ballet deixou Los Angeles para regressar ao Laos por questões familiares, mas acabou a fazer filmes. A única e primeira mulher a fazer cinema neste país do sudeste asiático esteve na última edição do Festival Internacional de Cinema de Macau a apresentar “The Long Walk”, um filme que começou a ser feito no território

 

Qual a sensação de estar neste festival com o seu filme, tendo em conta que o projecto nasceu em Macau? Como foi esse processo?

É uma grande emoção. É tão bom estar de volta. Eu e a minha equipa rimo-nos quando aqui chegámos por sentimos este lugar como nosso, como se estivéssemos em casa, porque nós estivemos aqui na primeira edição. Lembro-me de ver as dores de crescimento deste festival desde o dia em que começou e tem sido incrível porque quando falámos do filme, e é um filme algo conceptual e complicado, as pessoas diziam sempre “isso é um filme de loucos, não sei como é que será feito”. Depois disso conhecemos muitos parceiros enquanto aqui estivemos e no momento em que terminámos a produção eles queriam que o nosso projecto fizesse parte do festival. Eu vim literalmente da selva e em dez dias estava em Macau a mostrar clips da fase de produção. Tinha escaldões e o aspecto de um animal qualquer acabado de chegar da selva. E agora estou aqui no tapete vermelho. Depois de terminarmos o filme, acabámos por ser seleccionados para estar no festival, por isso este sítio é muito familiar para nós e estão todos muito contentes por nos receber outra vez.

Pode falar-nos mais de “The Long Walk”?

Há muitos elementos deste filme que vieram da minha vida real. Perdi (para um cancro) a minha mãe quando tinha 25 anos e ela morreu em minha casa. Ela estava connosco e a forma como retrato a morte no geral é muito feia, nada romantizada, porque vivenciei a morte em primeira mão. Também passei pela morte do meu cão, que morreu há dois ou três anos depois de o mandarmos abater, porque ele já estava muito velho e tinha uma doença terminal. Isso afectou muito a minha vida. Vivi com muita tristeza, e com muito arrependimento acerca daquilo que podia ter feito de diferente e, na verdade, o meu cão já tinha 17 anos, e a minha mãe tinha um cancro de nível 4, portanto não havia nada que pudéssemos ter feito. Mas são coisas que ficam contigo e acabas sempre por pensar “se tivéssemos ido ao médico mais cedo” ou “se eu pudesse mudar algo”, mas não é possível. Não podemos mudar o tempo e foi por isso fiz este filme, de certa forma para lidar com a minha dor e com a minha perda. Outro aspecto, o de ser deixado para trás, não é apenas o facto de sentir que eu fui deixada para trás pela minha mãe e pelo meu cão, mas que o próprio Laos foi deixado para trás. O Laos é um país com mais de 450 anos de história mas muitos de nós, eu incluída, vivemos em ruas onde a estrada é de terra batida. A nossa cultura é muitas vezes esquecida e o mundo muitas vezes nem se apercebe que existimos. Mas quando nos visitam, muita gente age como se fosse a nossa salvação e dizem-nos o que precisamos de fazer para resolver todos os nossos problemas. Obviamente que muitos aspectos melhoraram, mas muitas vezes sinto alguma repulsa pelo estado de desenvolvimento do Laos que acaba por lentamente entrar novamente num estado de entropia… e é isto o filme.

Porquê filmes de terror?

Adoro o género. Cresci a ver filmes de terror, mas não foram assim tantos. A dada altura tornei-me bailarina e por isso não tinha muito tempo para ver filmes. No entanto, todas as histórias dos bailados pendiam para aí também. “Giselle” tinha fantasmas, “Le Coirsaire” é um thriller com piratas. Por isso estas sempre foram as minhas influências. Gosto de terror, mas também acho que é mais divertido. Não podemos levar-nos demasiado a sério, somos realizadores, fazemos filmes, não salvamos vidas como os médicos ou educamos as futuras gerações como os professores. Quero divertir-me quando faço um filme, mas, ao mesmo tempo, se quiser passar uma mensagem, esta é uma forma maravilhosa de ser bastante séria, porque através do terror posso exagerar os elementos e as pessoas podem ver uma versão exagerada daquilo que pode vir a acontecer. Não temos de ser tão sérios, podemos ser mais arrojados, podemos passar uma mensagem para o público que é, digamos, “escalada”.

Quais os principais desafios com os quais se deparou no processo de produção e filmagens?

Toda a minha vida senti dificuldades a fazer filmes (risos). Temos de encontrar sempre soluções independentemente do que aconteça. Como realizadora não tenho muito acesso a coisas que os outros realizadores têm no resto do mundo, porque no Laos não existe uma indústria cinematográfica muito desenvolvida, não temos profissionais qualificados, não temos sequer actores. O actor mais velho do filme é talvez o mais experiente, todos os outros são pessoas normais que encontrei nas aldeias. Mas as dificuldades, para mim, não são desafios, pois tenho de lidar com elas diariamente. E se é um problema então não deveria fazer filmes, de todo. Para mim os desafios sempre foram a norma, e as soluções são sempre algo criativo. Tenho uma forma muito própria de trabalhar, sou muito próxima da minha equipa e conheço todos pelo primeiro nome. Para mim o mais importante, não importa o orçamento que tenha, é ter esta intimidade com a equipa e depois fazer histórias interessantes. Isto porque a única razão pela qual sou realizadora é para contar histórias que nunca foram reveladas antes, não percebo porque é que as pessoas reciclam histórias vezes sem conta. Estou farta disso!

Porque decidiu voltar ao Laos depois de viver em Los Angeles, e como foi a sua entrada na indústria do cinema?

Não decidi fazer filmes, de todo. Simplesmente aconteceu. Foi uma reviravolta! (risos). O que aconteceu é que regressei ao Laos para cuidar do meu pai, que estava numa relação turbulenta. Não era uma artista na altura, era professora de ballet, e toda a minha família estava ocupada com aquilo que chamam de trabalhos a sério, e professora de ballet não o era. Conhecemos um grupo de pessoas que nos pediram para escrever a história de um filme, e o meu marido disse “claro que sim, porque sou escritor”, e foi assim que me tornei realizadora.

Qual a importância de ser a primeira e única mulher do Laos a fazer cinema? Isso pode encorajar outras pessoas a fazer o mesmo?

Literalmente a minha carreira como professora de ballet levou-me a fazer filmes, e na verdade estabeleci um passo importante na indústria de cinema do Laos. Espero que a minha história leve mais mulheres a fazer cinema e também para mim o mais importante é que posso contar histórias com uma perspectiva feminina.  Uma das razões pelas quais gosto de fazer os meus filmes é porque são histórias de raparigas.

Como olha para o cinema asiático que se faz actualmente?

Estou muito interessada na nova geração de cinema. Sinto mesmo que estou numa nova marca de cinema, porque surgi do nada quando conheci os meus amigos asiáticos que são também novos realizadores. É tudo muito rock and Roll comigo, e adoro isso. Por um tempo, quando comecei a fazer filmes, senti que havia uma forte percepção do que é o cinema asiático e do que deveria ser. Havia a ideia de que para estar num festival de cinema asiático tínhamos de fazer um determinado tipo de filme, e eu sempre odiei isso.

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