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Horta seca, 15 Maio

Há muito que deixei de ser dono da agenda. Fico quedo a mirar o animal indomável, a afastar-se da minha vontade, a rir dos meus desejos, a desprezar as minhas necessidades. Faz-se bruta de granito, mas esperneia como potro, rasga que nem tigre, apaga-se qual camaleão. Em resultado, levo ao limite a paciência de uns e outros, esbanjo oportunidades, falho com estrondo, descumpro, atiro guloseimas ao monstro da ansiedade dos autores e, pior, saboreio talvez menos o âmago do instante. Por acaso, a vida não quer ser arrumada. Por acaso, preciso arrumar a minha vida.

Horta Seca, 16 Maio

Reparem bem: no fundo negro, boiando por entre linhas brancas, estão quatro figuras reduzidas ao mínimo denominador comum de cabeça, par de mãos, dois pés. Por timidez, André [da Loba] não se incluiu na capa deste «No Precipício Era o Verbo», ideia da qual passou a fazer parte ao trazer a ilustração na vez de voz ou instrumento. (Nota a desenvolver no futuro: Da Loba vem compondo, até nos trabalhos que resultam de encomendas, uma gramática sensível de formas e cores, um corpus de formas que vai muito para além da prática sanguínea da ilustração). Acrescentou maravilhoso hibridismo ao projecto de poesia dita em palco, com coreografia de silêncios e afinamentos, sempre com o contrabaixo do Carlos [Barretto] a fazer de cenário, mas que intervém, que comentta, toma corpo de actor. Na preciosa companhia da Dulce [Cruz], André ouviu cada voz, perseguiu o contrabaixo, abriu as entranhas a cada verso, dos densos e dos soltos, navalha e nuvem: «há sangue arterial no abate diário do sol» (ilustração correspondente em grande). Aos momentos, um por um, aplicou cadências, desenvolveu imagens elegantes que prolongam o dito, o sussurrado, o cantado, o gritado. Interpretam e criam. Os quatro ventos confluem e empurram os bailarinos que percorrem as subtilezas da cor, omnipresente em contrabaixo contínuo. Esta sucessão delicada e enérgica de palavras e imagens, antes do cd que acrescenta o som e a voz, não reproduz nem comenta o espectáculo, até agora a forma cabal de sentir a experiência, antes o amplia e reflecte. Bailarinos que dizem e tocam ao espelho. Este livro fez-se tão mais que isso!

Convento da Trindade, Lisboa, 17 Maio

Dou uma saltada ao Festival do Clube de Criativos, uma festa do engenho mais ou menos aplicado. Éramos recebidos pelo jornal «Anúncios Classificados», afinal exposição portátil que recolhe «grande seleção de anúncios ilustrados pelos melhores artistas portugueses (1895-1960)», feita pelo Jorge [Silva] a partir da sua inesgotável colecção, e que continuará, em breve e de outros modos, a suscitar exclamações de surpresa ou raiva. Sendo o algoritmo, resulta refrescante este flic-flac à rectaguarda. Mas o assunto era deliciosamente apresentado, não sem nostalgia, na exposição comissariada pelo Ricardo [Henriques], «Os clientes que gostaram deste produto também gostaram de…». Se os «meandros algorítmicos da comunicação estão a transformar os computadores em pequenos ditadores que dizem às marcas como vender e às pessoas como comprar», porque não recuperar a «informatável natureza da criação». E vimos «menos html e mais pincel» no painel de azulejos da Susana [Carvalhinhos] e no jingle do Tiago [Albuquerque]. Até ao terraço dos encontros e das cervejas à borla (ai, Lisboa dos ais), ainda aconteceram experiências do ver com as fotos red&blue do Sal [Nunkachov] ou, na Ilustra33, toda dedicada a cartazes, o do João [Maio Pinto] para o Sabotage, cuja abstração me toca. Aliás, por acaso, o Carlos [Guerreiro] atirou-me aos olhos o mais recente caderninho do exuberante projecto «Chapéu» (www.chapeushamuitos.com), cuja capa luxuriante, orgânica, barroca pertence ao João. It’s Alive. Por vezes, os jardins dão-se onde menos se espera.

Guilherme Cossoul, Lisboa, 18 Maio

Hesito entre preocupar-me ou celebrar. Tem acontecido muito, por estes dias, o pensamento em voz alta atirar-me para o modo fascínio do espectáculo. Voltou a acontecer no tardio lançamento, acolhido pelo Reverso 3, da tradução do mano António [Castro Caeiro] das «Odes Olímpicas», de Píndaro, com a marcante apresentação de José Pedro Serra, pelo que disse e no como disse. O encontrão começou antes, logo ao jantar, e entrou noite dentro com conversa e poemas ditos, nem sei mesmo se, ali na circunstância, outros nados e logo regados. Riso e comoção dançaram por ali até altas horas. Defendamo-nos: talvez a ventania que perpassa tenha apenas a ver com a Grécia antiga, que o ofício seja de incorpóreas arqueologias, não se aplicando ao que queremos para os nossos dias, quotidiano triste do olhar para tudo sempre da mesma maneira. A ideia de destino, refrão de fado, sulco marcado no para além do tempo e do qual nenhum humano se poderia afastar sem atrair a fúria divina não passa, afinal, de confortável falsidade. Para o grego, uma afinação de acasos pode resultar num destino, naquele destino, um destino só nosso. Precisamos, para tanto, de extrema atenção ao que nos surja. Ora, a poesia ajuda a ler cada momento, por banal que seja. O poeta tem a festa como dever ético, que a celebração define o perfil do herói, enquanto fornece acessos, vias, escapatórias. Se para tudo se pode encontrar sentido, não há absurdo na Grécia Antiga. Nas ilhas não havia becos sem saída. Se até o mar se faz horizonte… Depois, temos que amar o nosso próprio destino. Por um instante, achei que vivia.

Horta Seca, Lisboa, 19 Maio

Curiosa convenção, esta que manda apagar as editoras nas notas biográficas de um escritor. Não creio que o leitor médio, essa figura mítica, habitante dos lugares comuns e presa dos marqueteiros, mesmo em época de marcas, seja tocado com profundidade pelo nome das casas editoras. Mas não será informação de relevo incluir a singela coordenada? Qual será a razão: cá em casa não se fala dos outros? O leitor confunde-se se souber que há mais do que uma? Será demasiado intelectual? Tem pouca importância quem fez do texto um livro? Perde-se o recado simples ao futuro: este título nasceu ou recolheu-se, inventou-se ou recriou-se no lugar tal feito de papel e letras. Vem isto a propósito de ter tropeçado em outro praticante do apagamento, tão mais estranho por ser revista literária e pertencer a editora de referência: «Granta».

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