Dead line

Santa Bárbara, Lisboa, podendo bem ser (uma) Cidade do México, 31 Janeiro, que talvez seja 1 de Novembro

 

A morte está na ordem do dia. Sepultada na campa rasa de lugares comuns, que o chão vai ficando empapado com esta imorredoura opinião miudinha, parece ser a influencer da moda. Uma aparência de importância, portanto, que desaprendemos, com bastante higiene, de com ela lidar. Nunca o soubemos fazer à maneira mexicana ou de New Orleans, mas ainda assim houve tempos em que nos entrava casa dentro, família dentro, olhos e ouvidos dentro. O rito está entregue a estranhos, talvez até o luto.

Aqui há atrasado, em plena primeira vaga do atraso de vida, estava em rica conversa dançante com o querido Manuel [San Payo] à roda dessa linhagem arrepiante da Dance Macabre, e memória puxa desenho (é dele o retrato da dansa ansiada que vai na página), verso puxa música e tombamos no samba. Podia lá ser de outro modo, ainda que haja bandas sonoras para cada gosto e outros tantos desgostos. A gama de tambores, o agogô e o repique, o chocalho e o reco reco, o pandeiro e, sobretudo, a cuíca. Os instrumentos ritmistas parecem ter sido arrancados ao corpo humano, pelo que a batida minimal e circular vem bombada do coração às mãos para ribombar na pele antes de se desfazer em sangue na melodia e na voz. Ou então são mas é do quotidiano, restos de lixo sujeitos à afinação dos que sofrem rindo. Ou vice-versa, que daria bom tema. Interessa-me para o caso este que se evola de episódio concreto às alturas do mais aplicável genérico, o de género humaníssimo. Nasce da vida do lutador-bailarino baiano, Besouro Cordão de Ouro, que canta, via Elis Regina, Baden Powell e Paulo César Pinheiro (versão comovente aqui: https://youtu.be/7-KFwAaEC90), o desejo de ser enterrado no quinhão natal, regresso ao útero, portanto. «Quando eu morrer, me enterre na Lapinha/ Quando eu morrer, me enterre na Lapinha/ Calça, culote, palitó almofadinha/ Calça, culote, palitó almofadinha». Isto não ia lá sem sabedoria de arrastar o pé para ganhar balanço e voar. Mais que a culote, comove-me a almofadinha, suavidade de colo para a cabeça. «Vai meu lamento vai contar/ Toda tristeza de viver/ Ai a verdade sempre trai/ E às vezes traz um mal a mais/ Ai, só me fez dilacerar/ Ver tanta gente se entregar/ Mas não me conformei/ Indo contra lei/ Sei que não me arrependi». O lamento que se erga e vá à vidinha da narração cantada, que me deixe ficar aqui a bater copo na mesa, talvez dançando com a amiga do peito tristeza. «Sai minha mágoa, sai de mim/ Há tanto coração ruim/ Ai, é tão desesperador/ O amor perder do desamor// Ah, tanto erro eu vi, lutei/ E como perdedor gritei/ Que eu sou um homem só/ Sem saber mudar/ Nunca mais vou lastimar». Um homem só, despojado de mágoa e tristeza. Homem de um pedido só.

Amanhã será o Jorge Dias de Deus, hoje foi o António Cordeiro e pouco antes o Carlos Antunes. Relâmpago e tenho sala feita campo santo. Não diria que macabramente dançam, mas está instalada a cavaqueira. Uma imagem puxa poema, as partículas um céu estrelado, a página de jornal o saxofone, o pó da pedra um jardim, e por aí fora. O Richard Sala está divertido a sacar esboços para a ilustração final, ou talvez esteja só à procura de clássicos do terror. O Ernesto Cardenal está indignadíssimo, cheio de memórias à sua volta, e o Carlos com ele. Começaram um manifesto qualquer, não tenho a certeza. A pobreza incomoda para além da vida. O Cordeiro, cansado de vilões e de casacos de cabedal, concorda e propõe-se encenar algo em torno das raízes. O Eduardo Lourenço levantou os olhos mal ouviu a palavra, sorriu e escapou-se-lhe uma ideia sobre fronteira e outra sobre a incerteza. A Maria Velho da Costa, a pensar em rap, discute Deus com o Lee Konitz, provocando toques de inveja ao ensimesmado Harold Budd. Nisto o Cruzeiro Seixas pergunta alto e com sotaque angolano acerca dos padrões nas samakakas. O Melo e Castro ajeitou os óculos e continuou a acrescentar poemactos ao Cara lha mas. Se há obra inacabada é essa das colunas.

A Maria de Sousa traduziu e acrescentou um ponto, mas o John Le Carré topou-a. Não havia mistério que lhe escapasse, achava ele que não dominava a física quântica. O Cutileiro voltou a perguntar se ela não queria posar. O Nikias Skapinakis também não se importava. Quem ria muito era o Dias de Deus, talvez não tanto por causa da astrofísica, nem por causa dos trocadilhos com o nome. O Rubem Fonseca tinha uma receita de feijoada para afinar com o João Ubaldo Ribeiro, que era morto mais antigo e entrou de penetra. O Robert Fisk não pára de falar de oliveiras e carvalhos com o Gonçalo Ribeiro Telles, que bem tentou puxar as novas traduções do T. E. Lawrence para o terreno. O Vicente Jorge Silva deu um encontrão ao Sean Connery, que só estava ali a parecer que tinha saído de um filme. Andava à procura, aos gritos, do Maradona, não se via em lado nenhum, devia ter ido lá dentro. O Manuel Resende, via-se que divertidíssimo, não queria que me pusesse a dizer em voz alta «Os Mal Armados»: «Aqui estamos no tempo dos mal armados/ Em hotéis internacionais de todo o mundo/ Historiadores à la minuta enquanto outros/ Fazem história de improviso//Camarada coração bomba metalo-mecânica de pontas/ eriçadas/ Camarada peixe camarada pássaro camarada cartaz camarada/ São Tiago do Chile//Ali onde se ergueram apenas umas palavras/ Ergueu-se o exército de calá-las// Os mortos já estão mortos/ Empurram a terra até ao inferno». Não acaba assim, o poema, mas estes dias talvez eles nos estejam a empurrar para o inferno. No fundo, só queria que um camarada me ensinasse a tocar cuíca.

3 Fev 2021

Cinzas

Quem é este? Ele chama-se Devorador de Milhões, quando está
na colina de Unet.
se alguém o percorre, que se acautele para não cair sobre as facas!
Ele chama-se o Violento, é o guarda da porta do Ocidente.
in Livro dos Mortos do Antigo Egipto

 

E a morte terá por fim o seu domínio sobrepondo-se ao abandono a que tentámos reduzi-la. Um tempo que a disfarçou em emaranhados silêncios, encruzilhadas que a subestimaram com os depósitos excrementícios da novela de má qualidade das vidas, que ela, mesmo empilhada, incinerada, esquecida e escondida, é a mais precisa das fontes, que a seu lado, toda a expansão se reduz a uma gigantesca avaria mecânica. Mas sim, a morte é sempre triste, a condição é trágica, a vida demasiado curta para contemplar tanto definitivo, mas impressionantemente há coisas piores, como o não saber lidar com ela por não haver vida que se consinta a ser vivida, só existida, assistida… estamos em viagem de cruzeiro esquecendo por completo a Barca. São os tempos em que as crianças nunca foram a um enterro e queremos delas sempre outras coisas e mais, por isso as doutrinamos ao ponto da sujeição, da utilização, em aglomerados de insanidade sempre com temor injectado nas veias para o caso de perguntarem algum dia por aquelas coisas essenciais. Uma sociedade de argumentistas saberá a um tempo ponderar a propósito daquilo que a diminui face ao corpo vital das provas, por isso se reveste de uma higiene que a imortalize e de uma segurança que lhe permita um certo elo de perenidade.

E eis-nos no caminho mais temível que é o do sorvedor das cinzas: quando nos tiram os corpos para as incenerações num lustral nazismo sem mácula que nos faz acreditar até em goelas necromânticas que se escondem mesmo por detrás das câmaras de extinção. Esperamos acabrunhados para que tudo esteja reduzido a pó, e que a natureza emocional de cada um impluda para níveis de relativismo programado. Tudo isto é tido como uma prática normal e desejável para a não expansão de corpos na Terra por decomposição em profundida, ela, que continua cada vez mais pequena para um enxame de gentes cuja felicidade as espera logo ali ao virar da esquina. E as pobres pessoas bem-intencionadas lá andam a acompanhar o vazio ardente de um momento que se evapora mas também lhes inspira alguns súbitos galanteios à vida. Toda a litania fúnebre se desfaz, e as carpideiras, esses abençoados seres que evocavam o tamanho da nossa dor, tão esquecidas foram que se inverteram os cânticos. A morte não gosta disto, e como tal, foi precipitando a nossa demanda, temos só números e poucas vozes por parte daqueles por ela visitados, o que faz ultrapassar em muito o que é expectável. – Sem querer entrámos no domínio da Besta com a plumagem de lindos Cordeiros, amigos de Lobos, em marcha para a liquidação total.

Das cinzas, alguns já fizeram anéis para continuarem com os seus defuntos entre os dedos, e algumas ainda foram espalhadas pelas reservas dos vivos, debaixo das árvores, ou em torrões de açúcar embalsamados com lúgubres indicações por cima, isto dá-se naquele reino da desflorestação em série e no domínio anatómico da sexualidade intrusiva, e nesse fim de mundo de grande superficialidade, abrir uma cova tornou-se um esforço de tal ordem gigantesco que exige argumentos capazes de revirar as tripas do centro planetário. A diferença face ao nazismo primeiro é que não há aproveitamento comercial de outro material orgânico, muito embora o negócio da queima seja bastante lucrativo: a pira funerária está lá para não permitir que se ocupe espaço na terra- a terra- esse elemento abrasivo e lento que ao invés de nos ceder sempre nos resiste… terra, excrementícia anatomia cinzelada pelas nossas cinzas que até fará brilhar os caminhos vulcânicos.

O plano da organização da morte dita sempre a composição das leis sociais, ela acompanha o fluxo das circunstâncias, como o tempo da implantação dos cemitérios públicos a grande medida social das Luzes, democratizando-a e banindo pragas, hoje, é-nos filtrada pela desmesura negacionista e pela falta de um período chamado luto que nada mais é que a salutar época de saber integrar um processo doloroso. Ela surge-nos em muitos contextos pela culpa, relembrando-nos a todo o instante que o mundo está repleto de assassinos involuntários, ou não, mas nunca afirmando que se morreu. Falece, fenece … É! Para o que não se pode dizer todo o eufemismo serve até aos seus sinónimos. Por culpa ou não, nós sempre morremos, pois que somos mortais. Deve haver um culpado para tal condição?! Talvez… talvez não… e neste interregno construamos, isso sim, o direito a ter uma alma, intacta, firme, em altos voos, enquanto o corpo carregado de desamor se encaminhe para um espaço protector. Nesse invólucro habitou uma centelha imortal que não esquecerá a sua antiga casa, só que nesta habitação de poeiras corremos o risco de retrocesso até à primeira ovulação da Terra.

Bom lembrar aquilo que nos define como espécie, a noção do mistério da morte, e que os primeiros altares do mundo foram todos em seu nome. Naquelas pedras erguia-se uma certa evolução de que hoje tanto nos orgulhamos. Por isso, a não podemos esconder.

Só que
Tu
Subiste ao Céu
Atravessaste as águas celestes,
Estás associado às estrelas,
e na Barca te aclamamos.
23 Nov 2020

Da orfandade

Já passa da meia-noite em Lisboa. Um céu limpo, uma temperatura a rondar os 30º C no preciso momento em que vos escrevo. Que bonito, viva a vida, viva o clima, viva Portugal!
Deixem-me então falar de morte e de perda.

Esperaríeis outra coisa deste refilão perene e ainda por cima que considera o clima até aos 21ºc um valor civilizacional? Espero que não. Ainda assim e para quem tenha esperança que eu mude de ideias, favor enviar donativos para o fundo não-governamental Façam Do Guedes Um Optimista Sem Limites e Sem Ar Condicionado. Agradeço mas não prometo resultados.

A perda então, se me dão licença. Estes últimos dias vivi a infelicidade de ter alguém a partir e sentir a profunda impotência a que estes tempos nos obrigam. Percebi, faca no osso. Um ente querido, irmã preferida do meu Pai, decidiu partir, calmamente e sem surpresas. Mas são sempre os vivos, os vivos. Eu sei o suficiente de canções para vos garantir em coro com o senhor Berman, que fez questão de expressar no seu testamento musical: « All the suffering gets done by the ones we leave behind». Mais truísmos, senhor cronista? Pois chamam-lhe truísmos por várias razões e nenhuma delas é por ser mentira.

De maneira que a estranheza é maior. Podemos habituar-nos, até mesmo estar preparados para a morte, o que nem sequer é o meu caso. Mas ninguém está preparado para a ausência da despedida, a impossibilidade física de acenar a quem amamos. Entendam: vi-me obrigado a procurar coroas de flores e outros aparatos fúnebres através deste modo virtual pelo qual muitos me lêem. Não consegui nem nunca conseguirei sossegar um Pai octogenário que não compreende nem quer compreender estes tempos. E eu percebo porque sou e serei assim e mesmo sem pandemias esta necessidade é eterna.

A perda, amigos. Isto sim, a orfandade. . .órfãos de quê? Eu digo o que acho: de afectos, do toque. A família não chega. Na verdade a perda atinge-nos de todas as formas: amigos, amores, lembranças, civilizações, modos de estar. Eu próprio construí a minha visão do mundo com a perda como centro (e mais exactamente através das maneiras de a evitar ou atenuar) e agora mesmo, ao reler esta frase, acho-a desnecessária e quase vaidosa. Mas é verdadeira.

Ao refugiar-me como de costume no que li e acredito, não posso ajudar ninguém. Algures nesta noite quente o meu Pai ainda chora, órfão que ficou. E o que me angustia é que eu sei que o dia chegará em que o mesmo me irá acontecer, se nada interromper a naturalidade da vida ou da morte. Mas deixem-me dizer adeus, deixem-me ser órfão de coração inteiro. Só assim voltarei à vida.

3 Jun 2020

Mulher encontrada morta em casa com cadáveres dos cães

O corpo de uma mulher de 51 anos foi encontrado em casa pelos familiares e Corpo de Bombeiros. Além da residente, que apresentava alguns ossos deslocados do corpo, estavam ainda na fracção habitacional os cadáveres de dois cães, que viviam com a falecida.

Segundo as informações disponibilizadas pelas autoridades, o corpo da residente foi encontrado após o filho da mulher, assim como a irmã, terem tentado fazer uma visita ao domicílio da falecida. Como ninguém abriu a porta do apartamento no Edifício Chun Hei Garden, e se sentia um cheiro intenso, foram chamados ao local os bombeiros, assim como um homem especializado na abertura de fechaduras.

Quando entraram na unidade, os familiares e as autoridades foram surpreendidos por dois ossos humanos espalhados pela casa e o corpo da mulher. Também foram encontrados os corpos dos animais, que segundo as autoridades terão morrido à fome. Por esse motivo, a PJ foi chamada ao local para fazer uma investigação às condições da morte. Os resultados da análise preliminar apontam para que a residente estivesse morta há vários dias.
À polícia, a irmã admitiu que não tinha entrado em contacto com a falecida após o Ano Novo Chinês, ou seja nos finais de Janeiro. Quanto à situação do filho não foram avançados pormenores. O HM entrou em contacto com a PJ para saber mais detalhes sobre se o filho vivia em Macau e quanto tempo tinha estado sem contactar a mãe, mas a PJ afirmou que tal informação não estava disponível.

“Caso único”

Ao HM, o secretário-geral da Cáritas Macau, Paul Pun, considerou a situação um “caso único”, devido à idade da mulher. “As situações de isolamento social acontecem com pessoas idosas, a quem conseguimos indicar o que devem fazer para serem ajudadas. Mas as pessoas com esta idade [51 anos] têm normalmente encontros com amigos, ex-colegas de escola, trabalho… E também saem à rua para fazer várias tarefas, como neste caso seria expectável que fosse à rua passear os cães. Por isso estamos a falar de um caso único”, afirmou Paul Pun.

Por outro lado, o facto de a mulher ter família em Macau, pelo menos a irmã, levou o secretário-geral da Cáritas Macau a colocar a hipótese de a mulher falecida ter tendência para se isolar.

Paul Pun apelou para que haja um maior sentido de comunidade e de preocupação na sociedade. “Face ao impacto da pandemia, já fui questionado por várias pessoas sobre o que podemos fazer para contribuir para ultrapassar a situação. Por isso, encorajo a comunidade que se preocupe não só com os familiares, mas também com os vizinhos e com as pessoas com quem se deparam todos os dias”, sublinhou. “É expectável que com cortes nos salários haja pessoas a passar dificuldades e podemos todos estar mais atentos e oferecer ajuda a quem sentimos que precisa”, concluiu.

6 Mai 2020

Contra os panhonhas!

Assim que eu for primeiro-ministro despeço-me – de panhonhas estou farto!
Este tempo promove os panhonhas e o seu reverso: os objectores-da-consciência. Como Trump e Bolsonaro e o inefável presidente indiano, Narendra Modi, que incitou o integrismo hindu e incendiou o país (cf. a carta de Arundhati Roy, aqui ). Todos eles seguem o modelo do conselheiro de Trump, Roger Stone, que no documentário do Netflix, Get me Roger Stone, dá os mandamentos para chegar ao poder e mantê-lo e que se sintetizam numa pergunta: se é preciso ser infame, qual é a sua dúvida?

O problema dos panhonhas é que nunca ousam acreditar na extensão do Mal. Já o problema com o Mal, que se expande com descaro e ganas, é que sob a sua filigrana já não respira ninguém, um outro. Não que, à semelhança de outras épocas, ele não “pareça” agressivo, implacável, corrosivo. Mas de tanto ter sido transformado em reality-show não traz já o pavor indescritível de outrora.

Já não conseguimos imaginar o Mal para além da medida que consentimos, supondo que ao deixá-lo exprimir-se um pouco estamos a retirar-lhe o gás. Descrentes da realidade, ficamos reféns das imagens, achando que o vidro do plasma nos separa e protege e que a acção dos diabretes é mensurável, como os selos que se colam nas cartas endereçadas ao bem-que-nos-pariu.

Eis-nos abarrotados até ao infinito, de cabidela, de vampiros, de zombies e de espelhos que se vingam retroactivamente, de ogres & aliens, de políticos que mentem ruidosamente – com a rede de saberem que toda a gente admira um bom vigarista -, de tiranos que florescem sob o bolor dos Hannibals desta vida, de putaria baixa & escarninha – esperem, veio-me um arroto.

Ora, o problema é mais fundo – meu caro panhonha, meu hipócrita, meu igual: desapropriam-nos. Hoje, ser sacanita, mesquinho, malicioso, espertalhão, oportuno na pequena perversão, iniciar os anjos na pederastia, engessados ou não… que raio de prazer isso agora nos traz neste clima em que os massacres se sucedem em directo, em Chicago, em Nova Deli, em Cabo Delgado e se escalpar bebés é o novo divertimento?
Lady Macbeth boceja e nós, depois de todo o bem-cariado, chegámos ao Mal sem sombra, ao mal como turismo de massas – ao império da opinião a todo o transe.

No oposto disto, em carta a um amigo japonês, Kuniich Uno, escreveu Deleuze, sobre como se sucedia a sua colaboração com Guattari:

«Pouco a pouco, um conceito tomava uma existência autónoma, de modo que por vezes nós continuávamos a compreendê-lo de maneira diferente – por exemplo, nunca compreendemos da mesma maneira o “corpo sem órgãos”. Nunca o trabalho a dois tendeu a uma uniformização, sendo mais uma proliferação, uma acumulação de bifurcações, um rizoma».

Raramente vimos manifesta uma liberdade tão grande quanto à própria opinião. Os dois pensadores colaboravam para poderem convergir e divergir, numa pulsação contínua, sem receio de se contradizer e sem apararem as linhas de fuga. Pelo gosto de multiplicar.

Nunca lhes passou pela cabeça a disputa ou a necessidade de domínio na relação; sem reservas, numa porosidade em acto, a aventura de penetrarem em espaços desconhecidos (os que “a resistência” do outro abria na escuta de cada um) tornou-se prioritária.

Simplificavam: a colaboração prescindia de negociações, porque o conflito estava de antemão desactivado, não havia confronto entre forças/opiniões polarizadas, não se tratava de uma disputa dialéctica, mas de estar aberto a um fluxo que faz das suas sombras matéria para fazer engrenar o pensamento na virtualização do múltiplo.

Eis um verdadeiro “encontro”: cada um deles superou um pensamento condicionado pela inércia das representações. O que acontece quando seguimos as linhas da água e à manifestação da “vontade” preferimos incarnar o “impoder”. Nos antípodas do que defende Bertrand de Jouvenel, no seu livro basilar sobre o Poder, para quem “um homem sente-se mais homem quando se impõe e faz dos outros um instrumento da sua vontade”, atitude que voltou a ser a única disseminada.

O “impoder” não é um signo de impotência mas um reforço da potência que nasce da liberdade a si mesmo. O que talvez explique que Michel Serres tenha dito de Deleuze que era o único caso que conhecia de um filósofo a quem o pensamento trouxera felicidade.

É desta grandeza humana que estamos necessitados, da qualidade de gente que se dispõe à luta para “não ter poder”.

Porém, para isso, precisamos de agir, de confiar de novo na astúcia que o outro nos traz, em vez de o vermos como estorvo. O que começa por simplificarmos.

Ontem, por exemplo, depois de uma boa sesta, acordei para a delicadeza da Sónia, que (quase com recato) me batia uma sarapitola (- ah, alegria dos esses!).

A Sónia tem seis dedos em cada mão, como os teve el-rei dom Sebastião, e é vão querer saber se isso lhe dá uma tactibilidade especial ou se será da fantasia que a sua anomalia provoca em nós, o certo é que depois de confiarmos na Sónia ficamos menos tolerantes aos homens infames.
 Tinha convidado a Sónia para almoçar, preparando-a para a sessão de nus que iríamos fazer no estúdio à tarde. E perguntou-me ela, como me vais pagar isso? Na brincadeira, olhando-lhe as mãos, respondi, E que tal uma pívia? Para surpresa minha, isso provocou-lhe um sorriso mais aberto que a calvície do Yul Brynner.

Adoro mostrar os meus dons, justificou.

Nunca lhe serei suficientemente grato, ela foi buscar o ouro a cinquenta metros de profundidade – sabe simplificar, é o que é.

À saída disse-me: Gostei, julgava que eras um panhonha!

Era, mas panhonha nunca mais, antes primeiro-ministro!

A quem não acreditar na bondade das coisas simples, lembro o aviso de Jim Harrison: (também) a morte tem para nós a inverosimilhança que terá a realidade da nossa viagem à lua para uma zebra.

5 Mar 2020

Parting is such a sweet sorrow

Preocupa-me a morte. Não tenho credo religioso, pelo que a minha ideia da morte é um contra-senso, dado fundar-se na impossibilidade de um acompanhamento do próprio. Morrer é deixar de ser e deixar de ser não é propriamente concebível. A consciência, como a natureza, tem horror ao vazio. Até no suicídio se alimenta de algum modo a ideia romântica de que “isto é o melhor para mim”, quando na verdade, o “melhor” exclui o “mim”.

A nossa obsolescência programada não dá sinal de vida frequentemente. Na maior parte das vezes a morte é apenas uma coisa entre outras que acontece exclusivamente aos outros. E ainda bem que é assim. O nosso sistema operativo não lida bem com esta peculiar noção de termo certo, dado não ser uma experiência capaz de ser vivida ou transmitida. Já a mortalidade é toda outra coisa, um emaranhado complexo de teses pelas quais vivemos afastando-nos tanto quanto possível da morte e sentido o fluxo do tempo como a ventania que pouco a pouco desfaz uma duna.

Quando se tem um filho, vive-se a mortalidade de outra forma. É a mesma imagem aterradora mas um pouco mais calibrada. Um filho é uma espécie de vitória de Pirro sobre a morte. É uma forma de enganá-la e de lhe alimentar o rebanho ao mesmo tempo. Cada gesto nosso traça uma tangente à morte; cada respiração, cada garfada de comida, cada sinfonia escutada ou produzida, cada livro lido ou escrito. E, como no Sétimo Selo de Bergman, basta perder uma vez. Entramos no jogo sem qualquer preparação e sem margem para falhar e, para apimentar a coisa, a maior parte das variáveis que influem sobre o nosso destino não são controláveis.

Dou por mim a pensar mais na morte quando viajo. Não por ter medo de andar de avião, não tenho. Talvez porque associo a maravilha da descoberta de novas coisas à fugacidade da nossa permanência por aqui. Há tanto para ver, tanto para ler, tanto para experimentar. Somos crianças numa loja de brinquedos a que estamos condenados a ver só uma ínfima parte. Ou leitores curiosos numa biblioteca infinita. A morte devia ser uma opção.

Os animais, cujos sistemas operativos são fundamentalmente diferentes dos nossos, não albardam com este peso. A morte, não estando prestes a acontecer, não é um problema. Não fazem oferendas para evitá-la ou para aplacar a fúria dos mortos, não constroem igrejas através das quais esperam salvar as suas almas, não edificam quaisquer monumentos para perpetuar as suas memórias, não escrevem, não pintam, não celebram o sagrado ou o profano. Ao contrário de nós, estão completos desde o momento que chegam até ao momento em que partem. Um tigre não acrescenta nada à “tigreza”, não a revoluciona, não a modifica. Os animais, vistos aqui do lado do humano, parecem ser apenas elementos decorativos do cenário incrivelmente complexo para onde fomos atirados.

Prestes a partir de Macau, onde estive um mês, não consigo evitar de pensar em tudo quanto não vi, em tudo quanto, num momento de excepcional fortuna, poderia ter acrescentado facetas perenes ao poliedro de memórias que cada um de nós é. Não estou preparado para partir. Não estou preparado para ficar. Talvez seja essa a definição mais adequada de humano: uma criatura eternamente em trânsito e levando-se a si própria ao colo.

9 Dez 2019

Hong Kong | Estudante que sofreu queda a fugir de gás da Polícia declarado morto

O estudante de Hong Kong que sofreu uma queda em altura, nas primeiras horas de Segunda-feira, quando tentava fugir do gás pimenta utilizada pela Polícia de Hong Kong foi declarado morto esta manhã, por volta das 08h09. Nos últimos dias, os média de Hong Kong já tinham avançado que o jovem estava em morte cerebral, mas o óbito foi apenas confirmado esta manhã, o que faz do aluno de 22 anos a primeira vítima directa das manifestações.
O acidente tinha acontecido na passagem de Domingo para Segunda-feira, quando o estudante caiu de um terceiro andar para o segundo, num parque de estacionamento privado. Apesar do alerta ter sido dado rapidamente, as equipas de salvamento só chegaram mais de 20 minutos depois.
A entidade gestora do espaço onde aconteceu a morte afirma que as imagens de videovigilância não captaram o momento da queda e o que terá estado na origem do acidente. A Polícia de Hong Kong já negou que o ocorrido se tenha ficado a dever à intervenção dos seus agentes.
Desde o acidente que o jovem estava internado no Hospital Queen Elizabeth, tendo sido alvo de duas operações ao cérebro. Contudo, os resultados mostraram-se sempre limitados e o aluno de 22 anos acabou mesmo por ser declarado morto na manhã de hoje.
 
 

8 Nov 2019

Hong Kong | Estudante que sofreu queda a fugir de gás da Polícia declarado morto

O estudante de Hong Kong que sofreu uma queda em altura, nas primeiras horas de Segunda-feira, quando tentava fugir do gás pimenta utilizada pela Polícia de Hong Kong foi declarado morto esta manhã, por volta das 08h09. Nos últimos dias, os média de Hong Kong já tinham avançado que o jovem estava em morte cerebral, mas o óbito foi apenas confirmado esta manhã, o que faz do aluno de 22 anos a primeira vítima directa das manifestações.

O acidente tinha acontecido na passagem de Domingo para Segunda-feira, quando o estudante caiu de um terceiro andar para o segundo, num parque de estacionamento privado. Apesar do alerta ter sido dado rapidamente, as equipas de salvamento só chegaram mais de 20 minutos depois.

A entidade gestora do espaço onde aconteceu a morte afirma que as imagens de videovigilância não captaram o momento da queda e o que terá estado na origem do acidente. A Polícia de Hong Kong já negou que o ocorrido se tenha ficado a dever à intervenção dos seus agentes.

Desde o acidente que o jovem estava internado no Hospital Queen Elizabeth, tendo sido alvo de duas operações ao cérebro. Contudo, os resultados mostraram-se sempre limitados e o aluno de 22 anos acabou mesmo por ser declarado morto na manhã de hoje.

 

 

8 Nov 2019

Jovem que sofreu queda a fugir de gás da Polícia de Hong Kong encontram-se em morte cerebral

Um estudante de Hong Kong que caiu de um terceiro andar, quando tentava fugir do gás lacrimogéneo disparado pelas autoridades da RAEHK, no Domingo, foi declarado em morte cerebral. A informação foi noticiada esta tarde pelo jornal Ming Pao e o jovem de 22 anos está desde o Domingo a lutar pela vida, no Hospital Queen Elizabeth. A morte cerebral ainda não foi declarada a nível oficial.

Um artigo desta manhã do jornal Ming Pao revelava que a equipa médica teria já realizado duas intervenções ao cérebro do jovem de 22 anos, mas os próprios médicos reconheciam que os resultados tinham sido muito limitados. Porém, esta tarde, os familiares do estudante foram chamados de urgência ao hospital e o jovem terá mesmo sido declarado em morte cerebral.

Os detalhes da queda de um terceiro andar para um segundo andar num estacionamento privado continuam por esclarecer. Segundo a informação da imprensa de Hong Kong, o aluno estaria a tentar fugir da intervenção da polícia que recorreu a gás lacrimogéneo numa área privada. Contudo, esta manhã a entidade responsável pelo espaço veio a pública afirmar que o acidente não ficou registado das câmaras de CCTV.

Caso a morte seja confirmada , o jovem do sexo masculino torna-se na primeira vítima mortal das manifestações, que duram há cinco meses e causaram a detenção de mais de 3 mil pessoas.

5 Nov 2019

Do consolo

Eu diria que tudo pode vir de um acaso». Assim começa um poema de Nuno Júdice, À Porta do Cinema. E sobre a certeza do acaso já aqui conversámos, amigos. Escrevi-vos na altura que é preciso resistir aos dias mecânicos, criar tempo e lugar para que o acaso nos comande, para que a incerteza exista e nos espante. De forma que, outra vez, tudo aqui veio de um acaso – desta vez chegou para me levar a territórios menos luminosos mas também necessários de enfrentar.

Primeiro, foi a redescoberta de uma crónica que escrevi há quase uma década na ressaca da morte de um amigo. Chamava-se A Vida Tem Morte A Mais. Fiquei espantado com o desamparo que aquelas palavras mostravam e que era o que realmente sentia. Não sabia o que fazer, não encontrava resposta ou solução. Pouco tempo depois de ter regressado ao que tinha escrito vi alguém que amo chorar a memória de alguém que amou e que, apesar de ter desaparecido há já alguns meses ainda a assombra. É uma ausência presente, uma sombra que tanto pode levar a sorrir como a verter lágrimas. E o que assisti foi novamente a esse desamparo, a essa vertiginosa solidão no meio da floresta, mesmo no meio de quem nos é mais próximo. E desta vez, outra vez, fui incapaz de estancar aquela dor, por muito que desejasse, apenas porque é uma dor subterrânea e perene. Podemos aprender a domesticá-la mas ela nunca sairá de nós.

Shakespeare, o homem que nos inventou, dizia que todos podem suportar um desgosto com a excepção daqueles que o sofrem. É verdade. Não há gesto, não há jeito, não há olhar que nos liberte, por mais gratos que possamos estar. Mas foi para estes momentos extremos que foi inventada uma das mais bonitas palavras da língua portuguesa: consolo.

É a mais doce medicina que a humanidade pode praticar. Mesmo que na essência não resolva o que nos aperta o coração, é uma prática necessária, urgente, imprescindível. É algo que toda a gente necessita, um bem maior que existe para ser partilhado em vez de acumulado. Noutro tempo, quando o tempo que existia era outro e mais longo, consolar alguém poderia demorar todo o tempo necessário. Agora não: talvez um abraço, frases tímidas de circunstância e pouco mais. Apesar da nossa necessidade de consolo ser enorme, para parafrasear um título feliz de um livro, deixámos de nos entregar, de entregar ao outro o melhor de nós. Porque o consolo implica também o abandono total de quem consola, a entrega irreversível de uma força e bondade que tem de nascer das profundezas da alma.

Sei que quando o desgosto nos assola muitas vezes o consolo pode residir na mais desejada das solidões. E se sei é porque assim me acontece. Mas é preciso resistir, deixar que o outro nos guie devagar, a pequenos passos para longe dessa floresta que sabemos – oh, se sabemos! – que nunca mais iremos abandonar. Mas pelo menos, com o consolo certo e demorado, iremos aprender a reparar na beleza das árvores.

4 Out 2019

Duas residentes de Macau mortas em acidente na Austrália

Um acidente entre um carro particular e um autocarro de turismo causou a morte de duas residentes de Macau, a norte de Perth, na Austrália. Esta noite estava igualmente uma outra residente, de 23 anos, internada num estado considerado grave, mas que não coloca a sua vida em risco. A tragédia aconteceu no Sábado, pelas 14h00 de Macau, quando o Nissan SUV tripulado por uma das residentes locais tentou atravessar um cruzamento, na estrada Indian Ocean Drive, em direcção às rochas Pinnacles. Esta é uma das atracções turísticas mais famosas do Parque de Nambung, que fica a 190 kilómetros a norte de Perth. Terá sido nessa altura que a colisão com um autocarro de turismo, que tinha no interior 34 passageiros, aconteceu.

O impacto fez com que o carro em que as turistas de Macau circulavam capotasse e fosse arrastado pelo autocarro durante vários metros. Quando as equipas de salvamento chegaram ao local, uma das residentes já estava morta e outra acabaria por morrer já no hospital. O transporte foi feito de helicóptero.

A residente de 23 anos que se encontra em estado grave, mas estável, está no Hospital Royal Perth, onde já está a ser acompanhada por funcionários do Consulado da China em Perth.

O acidente causou igualmente feridos ligeiros entre alguns dos tripulantes do autocarro que foram socorridos e receberam alta poucas horas depois.

 

“Mau cruzamento”

Horas depois do ocorrido, o superintendente da Western Police Australiana lamentou a tragédia, de acordo com a Rádio ABC. “Segundo as informações que temos, as pessoas que infelizmente perderam a vida ocupavam o lugar do condutor e do pendura”, disse Domenic Wood, à Rádio ABC. “É um cruzamento mau… E claro quando há um choque lateral há sempre o risco de ser fatal, especialmente quando o choque é com um veículo pesado”, explicou sobre o ocorrido.

A polícia australiana sublinhou ainda a importância de prestar auxílio às famílias dos envolvidos, que no Sábado foram apenas identificadas como chinesas. Só ontem, em comunicado, é que o consulado chinês em Perth confirmou que as vítimas são residentes de Macau. Segundo a mesma informação, o consulado vai cooperar com as autoridades australianas e prestar todo o auxílio necessário aos familiares das vítimas.

Nos últimos anos a estrada em questão, que abriu em 2010, tem sido um local com vários acidentes. Em Dezembro do ano passado dois turistas chineses haviam perdido a vida num acidente que aconteceu no mesmo cruzamento.

16 Set 2019

A Vulgaridade da Morte na Morte de Herbert Marcuse

Conheci Marcuse em Junho de 1967 quando ele veio a Berlim para uma curta estadia. Do aeroporto de Tempelhof dirigiu-se de pronto para o edifício da ópera onde, algumas semanas antes, um estudante tinha sido assassinado por um polícia à paisana durante as manifestações contra o Xá do Irão.

Na noite da sua chegada, encontrou-se com um pequeno grupo de pessoas no seu hotel, em Dhalem, para longas discussões. Hans Magnus Enzensberger, Rudi Dutschke e Henri Lefevbre já lá estavam quando entrei na sala. A primeira coisa que ouvi Marcuse dizer foi, “O nosso dilema é que as pessoas que beneficiariam das mudanças que desejamos levar a cabo não desejam essas mudanças em si mesmas.” Não era exactamente isso que queríamos ouvir naquele momento.

Muito depois, disse-me que ter encontrado todos aqueles estudantes alemães, decididos antifascistas, em protesto, significou, para si, uma espécie de reconciliação com a Alemanha.
Meio ano passado sobre aquela noite, encontrámo-nos na mesma universidade da Califórnia. O gabinete de Marcuse ficava dois andares acima do meu, pelo que nos vimos quase diariamente ao longo de mais de doze anos. Ele não tinha “tabus” de Esquerda; por exemplo, condenou o ataque dos Estados Unidos ao Vietname tanto quanto criticou o ataque chinês ao Vietname, e recusou um convite para ir à China com o comentário: “Não passarei por uma porta que tenha sido aberta por Kissinger!”

Quase todos os escritores e filósofos que conheci desenvolveram, no decurso das suas vidas, um hábil sistema de defesas, a fim de protegerem o seu trabalho das indignidades que se repetiam à sua volta. Não Marcuse. O que o caracterizava era uma constante vulnerabilidade, o seu choque, mesmo quando cara a cara com o esperado, e uma quotidiana, dolorosa consciência do contexto em que trabalhava. A frase que possivelmente o ouvi dizer mais vezes foi “Temos de fazer algo sobre isso imediatamente!” Era demasiado sensível aos horrores diários para se proteger do envolvimento neles. Pode dizer-se que o seu trabalho, a sua escrita, teve que ser feito, e defendido, nos breves intervalos de tempo entre cada novo ultraje.

Quando criança, sempre achei que um filósofo era alguém continuamente espantado com tudo, que levava tudo a sério. Marcuse preencheu essa minha noção de infância com a sua atenção não apenas às ideias, mas a tudo o que pudesse ser apreendido sensitivamente: um hipopótamo, uma alface, ou uma colher de chá da casa de seus pais. Estas eram três coisas que ele adorava; ao passo que veículos de recreio, rádios portáteis e motas eram três que ele odiava e queria abolir depois da revolução. Também odiava viajar, porque significava despedida.

Admirava o respeito dele pelos objectos. Ele desculpou a ordem militar na minha cozinha com uma citação de Virgílio, dizendo que “as coisas também têm lágrimas”; e o direito ao seu próprio espaço onde se sentem confortáveis.

Ele odiava a morte com uma intensidade que me surpreendia, até que finalmente entendi que só um ódio tão tremendo poderia sondar a vulgaridade, a gratuitidade da morte. Em Dezembro de 1972, convidei-o e à sua esposa Inge (com quem também muito aprendi) para jantar. Ele ligou-me na noite anterior para dizer que ela tinha uma dor de estômago e não podia vir. Por altura do Natal, na Alemanha, recebi uma carta registada. Marcuse comunicou-me que Inge estava a morrer de cancro e não teria mais que oito meses de vida. Concluiu a sua carta com as seguintes palavras: “‘L’amour est plus fort que la mort’ – que repugnante, desprezível aldrabice!”

Nos últimos doze meses da sua vida, Marcuse estudou minuciosamente A Alternativa de Rudolf Bahro e redigiu uma profunda análise da mesma. Mas as consequências da resposta pública ao “Holocausto” e, relacionada com isto, a célebre questão sobre a possibilidade da “poesia depois de Auschwitz”, ocuparam-no mais, chegando ao ponto de considerar uma revisão da sua estética anterior. Procurou material, instigou debates, correspondeu-se intensamente acerca destas preocupações. Teve grande relutância face a uma literatura que, retratando a violência, foi uma “privatização de Auschwitz”; e também se inquietou com a nova tendência romântica na Europa, na qual não há mais a lembrança do horror.

Os seus escritores contemporâneos favoritos eram Peter Weiss e Samuel Beckett, e ele sentiu-se honrado quando este último lhe dedicou um poema no ano passado, por ocasião do seu octogésimo aniversário. Perguntou-me uma dúzia de vezes se eu achava apropriado que ele escrevesse uma nota de agradecimento a Beckett. Encorajei-o, dizendo que não concebia que um escritor se ofendesse com o facto de Marcuse ter gostado de algo que ele tivesse escrito. Acabou por lhe escrever.

Nunca, durante o tempo em que o conheci, foi ele tão incapaz de esconder a sua emoção como durante o nosso último almoço em La Jolla. Parou de comer e disse-me que Beckett, certa vez, fora desafiado por um crítico para explicar a estrutura da sua escrita. “Eu posso explicar-lhe a estrutura da minha escrita”, respondeu Beckett. “Uma vez estive num hospital e, no quarto ao lado, uma mulher, que estava a morrer de cancro, gritou a noite toda. Este grito é a estrutura da minha escrita!”

 

tradução de:
The Vulgarity of Death. On Herbert Marcuse’s Death
City Lights Review, n.º 1, 1987, San Francisco, pp. 54-55
ed. Lawrence Ferlinghetti e Nancy J. Peters

primeira versão do texto de Reinhard Lettau:
Herbert Marcuse and the Vulgarity of Death
New German Critique, n.º 18, Outono de 1979, pp. 19-20

28 Ago 2019

Obituário.

Apagaste-te nesta Páscoa. Não sabíamos de ti. E. ligou-te muitas vezes desde quinta-feira santa até Domingo. Talvez tivesses ido à pesca. Foste até aos noventa. É muita maré.

Lembro-me daquela rua. Não era bem uma rua. Era um caminho. Fomos vizinhos durante muito tempo como se fosse uma comunidade. A princípio, encontrávamo-nos só no verão, quando éramos jovens imortais. Depois, quase todo o ano, durante alguns fins-de-semana. Sempre tinha havido os muito velhos, aqueles que tinham um quotidiano moderado, sensato. Ou então se calhar era outra coisa, era a velhice a “dar-lhes” já. Que é feito dessa gente? Pouco menos de vinte anos tinha eu e eles eram já tão velhos. Subsistem ainda na minha memória, mas não podem continuar ainda vivos. Revisito esses tempos. Lembro-me da rua antes de ser habitada, quando ainda era só um pinhal, prestes a ser colonizado, como se fôramos colonizadores do Sudoeste português. Estava deitado numa cama de rede. Olhava o céu azul, plano de fundo para árvores recortadas nas suas formas. Eram castanhas, quase negras, e verdes. O que se vê a olhar o céu é virgem. É igual ao que tantas gerações de homens viram, sem fios ou parabólicas, postes de electricidade ou o que tiver sido feito pelo ser humano. Tive essa percepção. A natureza tem outro tempo e outra história, diferente da do ser humano. Antecipei o que aí vinha. Ano após anos viríamos de férias, haveria festa e romance, descanso. Os pais tinham uma outra experiência de férias. Os miúdos viviam as férias grandes do mundo. E vieram anos atrás de anos. Sestas dormidas e mergulhos dados, bebedeiras e romance. Aprendizagem difícil de ser-se fora de si e ao mesmo tempo estar-se em si, ser-se o próprio, o único com quem se tinha intimidade e ao mesmo tempo aquela remissão ancestral, arquetípica, primordial e proto qualquer coisa que nos atirava para o outro, a outra pessoa. O desejo que nascia e não era um acrescento, algo que queríamos ter a mais. Era a falta de outra pessoa, a falta inteira de sermos outros, uma outra versão completamente diferente de nós mesmos e que passava pelo outro que queríamos encontrar e só inventávamos no sonho. Era isso que eu via a olhar deitado de costas o céu azul, plano de fundo daquela percepção com formas de árvores, pinheiros e eucaliptos. Era o princípio informe de qualquer coisa que iria acontecer, a história, a minha biografia. Tudo aquilo iria transformar-se com os 15 anos que viriam e depois os 16 e os 17 com fim do liceu e a faculdade.

Tudo a perder de vista, perdido da vista, longe da vista, estava já naquela percepção daquela tarde do início de Agosto em que a nossa rua não existia ainda. Os dias seguir-se-iam. Depois, o tempo entre o fim das férias grandes e o princípio das férias do ano seguinte. Amizades que se mantinham à distância temporal de um ano. Sentia-se a transformação. Ela ligou-te para te desejar boa páscoa. Começou a ligar-te na quinta-feira santa e continuou até Domingo. Já não nos víamos há algum tempo. O tempo passa. Já não há a nossa rua. Desfizeram-na, quando transplantamos as nossas vidas para outras ruas e as casas foram dadas ou deixadas ao abandono.

A rua já nem sequer é insólita como nas noites de inverno, despovoadas de gente, vividas a pão e vinho e conversa. Aquecíamo-nos como podíamos. Ainda tínhamos tempo. Ainda viria um verão e outro. Depois, os velhos começaram a morrer. Os outros, os das outras famílias. As casas, pouco a pouco, começaram a ficar desabitadas. Primeiro, ainda bem conservadas. Algum dos mais novos vinha e ainda passava lá um fim de semana, limpava a casa, fechava a casa. Era uma casa habitada mas pouco frequentada. Os mais novos emigraram ou perdiam o interesse, deixavam de pagar a renda ou esqueciam e abandonavam as casas. Abandonar uma casa é abandonar uma legião de famílias. A casa esperava as famílias o ano inteiro e despedia-se delas no fim do verão. As casas ficaram decrépitas. Mais velhos morreram. A maior parte dos jovens envelheceram e quiseram ir viver para outras ruas, outros bairros, outras vilas, outras cidades. Tudo envelheceu. Já não testemunhei a vinda de mais novos. Também acabei por fazer o que fizeste. Não emigrei, mas dei a casa. Ninguém ma comprava e para não a deixar abandonada, dei-a a quem mais precisava. Foi um descanso. As memórias seriam intoleráveis. Preferi lembrar-me da casa desde o primeiro dia até ao último dia. Foram mais de três décadas felizes. Vivas dadas ao Verão e o gosto por regressar para a rentrée. Telefonei-te para te desejar boa páscoa. Estaríamos lá naquela rua se fossem outros tempos, quando era o princípio antes de estar definido e quando começou a estar definido. Os tempos da estabilidade quando eu próprio deixei há já muito os meus 14 anos.

Alguém atendeu o ™. Era uma sobrinha tua. Disseram-me que foste ao hospital para um exame de rotina. Abriram-te. Fecharam-te. Duraste mais três dias e morreste. Ressuscitaste escandalosamente para mim, que não te via há quase cinco anos. Não ver alguém é deixar alguém no campo de latência que é idêntico à morte. Ressuscitaste-me também aquela rua onde passamos férias durante mais de três décadas. Vi-a, como se fosse daquela primeira vez, sem casas, nem pessoas. Só o céu azul e árvores. A floresta tornara-se virgem, de novo. Nunca nada nem ninguém testemunha a nossa infância ou juventude ou idade adulta já. É tudo como se não tivéssemos sido. Quase como se não tivéssemos sido. Agora, tu habitas em mim esse olhar. Não és visto, mas vives comigo no meu olhar. É um olhar à distância. Não é perceptivo. Nem é só o da lembrança. Sou eu no meu futuro despovoado de ti, mas a fazer vida ainda.

3 Mai 2019

PJ | Mulher morre após 10 dias no hospital

Uma mulher de 26 anos, de nacionalidade Filipina, que foi encontrada no dia 9 de Março pendurada pelo pescoço numa janela, com um cachecol, foi ontem declarada morta, no hospital. A informação foi divulgada pela Polícia Judiciária, que disse não haver condições suspeitas em relação às circunstâncias em que a mulher foi encontrada. De acordo com as autoridades, também, não foi encontrada qualquer bilhete de suicídio.

20 Mar 2019

Trânsito | Idosa morre atropelada na Av. Sidónio Pais

Uma mulher com 85 anos morreu ontem, de manhã, depois de ter sido atropelada por um motociclo. O sinistro aconteceu na Avenida Sidónio Pais, às 8h00, e a mulher ainda foi transportada para o Hospital Conde São Januário com lesões na cabeça. Contudo, de acordo com o jornal Ou Mun, não resistiu aos ferimentos e acabou por ser declarada morta, horas depois. Segundo os dados da Direcção de Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC) até Janeiro tinha morrido uma pessoa nas estradas. Este número não inclui o acidente no Cotai. Se este acidente e o de ontem forem tidos em conta, desde Janeiro há três vitimas mortais a registar.

 

18 Mar 2019

GP Macau enviou carta de condolências à FIA pela morte de Charlie Whiting

Charlie Whiting, Director de Corrida do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 e Delegado de Segurança da Federação Internacional Automóvel (FIA), morreu ontem devido a uma embolia pulmonar, na Austrália, onde se encontrava para mais um início de temporada da classe rainha do automobilismo. Whiting, de 66 anos, era uma figura muito ligada ao Grande Prémio de Macau, onde desempenhou várias funções, entre elas a de Director de Corrida. Era também uma presença constante nas inspecções ao circuito.

A morte apanhou de surpresa o mundo do automobilismo e Macau não passou ao lado das notícias. Fonte da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau informou o HM que o presidente, Pun Weng Kun, enviou ainda ontem uma carta de condolências à FIA. Em relação à edição deste ano do Grande Prémio de Macau, que se realiza em Novembro, vai ainda ser equacionada uma homenagem. Contudo, uma vez que “ainda faltam vários meses para o evento” não há nenhuma decisão tomada.

Além destes actos, a Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau colocou o portal da prova a preto-e-branco e emitiu um comunicado a valorizar o papel de Charlie Whiting para a prova: “Ao longo dos anos os contributos para o Grande Prémio de Macau do Charlie foram imensos. A sua orientação e experiência ajudaram a que o Circuito da Guia e o Grande Prémio de Macau continuassem a cumprir e a exceder os mais elevados padrões desportivos e organizativos. Macau ficará eternamente grata ao Charlie pela sua dedicação, profissionalismo e amizade”, podia ler-se na mensagem.

Condolências gerais

Além da comissão do Grande Prémio, foram várias as figuras do automobilismo que deixaram mensagens de condolências à família de Charlie Whiting, como o presidente da FIA, Jean Todt, ou os campeões mundiais de Fórmula 1 Lewis Hamilton ou Sebastian Vettel. “Uma figura central e inimitável, que personificava a ética e o espírito da Fórmula 1”, considerou Jean Todt.

Por sua vez, Hamilton recordou que Charlie era uma “figura icónica”. Já Vettel considerou que o britânico era a excelente ponte de ligação entre os técnicos e pilotos e que “tinha sempre a porta aberta para receber os pilotos”.

Charlie Whiting começou a carreira na Fórmula 1 como mecânico, em 1977. Porém, em 1988 mudou-se para a FIA e assumiu as funções de Delegado Técnico da Fórmula 1, onde continuou a carreira.

 

15 Mar 2019

Leong exige explicações sobre proibição de motoristas

Leong Sun Iok questiona a implementação da lei que proíbe que trabalhadores não-residentes exerçam funções de motoristas. É este o conteúdo da última interpelação do deputado da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), que surge na sequência de um acidente de viação ocorrido na passada sexta-feira.

“A comunidade apela às autoridades que reforcem a eficácia da implementação da lei. Quais foram os resultados da aplicação desta lei no ano passado?”, pergunta Leong Sun Iok.

O membro da Assembleia Legislativa (AL) fala também em práticas repetidas por parte das empresas promotoras do jogo e dos grandes hotéis, que utilizam condutores do Interior da China. “De acordo com os condutores profissionais de Macau, é muito comum que se utilizem condutores do exterior, que atravessam a fronteira, conduzam em Macau e depois regressem. O que está a ser feito para aumentar as inspecções e atacar estas ilegalidades?”, questiona.

Em relação ao acidente que tirou a vida à estudante de 22 anos, Leong Sun Iok fala de uma “tragédia de partir o coração” e responsabiliza os condutores ilegais por causaram acidentes graves, de tempos a tempos, nas estradas do território. Ainda sobre este assunto, Leong responsabiliza o Governo por afirmar constantemente que não aceita condutores do exterior. Contudo, na altura de executar a lei, o deputado diz que o Executivo não toma as acções que devia.

6 Mar 2019

Trânsito | Autoridades suspeitam que estudante foi morta por condutor ilegal

Uma jovem de 22 anos morreu na sexta-feira, quando o motociclo em que circulava foi atingido por uma viatura, alegadamente, conduzida por um motorista ilegal. A estudante tinha marcada para hoje sessão de fotografias para celebrar o fim do curso

Ohomem que conduzia o carro de sete lugares que vitimou uma jovem de 22 anos, no Cotai, pode vir a responder pelo crime de homicídio por negligência. O caso foi entregue ao Ministério Público e, segundo as autoridades, o homem não estava habilitado a conduzir em Macau, pelo que lhe foi aplicado o termo de identidade e residência.

Segundo um artigo do portal Macau Concealers, que cita as autoridades, o residente do Interior da China de 40 estava a conduzir ilegalmente para uma empresa promotora do jogo, o que contraria as leis do território que definem que a profissão de motorista só pode ser exercida por locais.

O acidente aconteceu na sexta-feira, por volta das 17h, quando a carrinha de sete lugares se preparava para atravessar a Avenida Marginal da Flor de Lótus e entrar na estrada que dá acesso ao Hotel Okura. Nessa altura, a viatura da promotora Seng Keng Group atingiu o motociclo conduzido pela estudante universitária de 22 anos, que foi levada de urgência para o Centro Hospitalar Conde São Januário na sequência do acidente. Quando foi transportada na ambulância, a jovem já não respirava nem apresentava batimentos cardíacos e mais tarde foi declarado o óbito.

De acordo com o código penal, o crime de homicídio por negligência é punido com uma pena de prisão até três anos. Caso seja considerado que houve “negligência grosseira, o limite máximo da pena sobe para cinco anos.

 

Quase licenciada

A vítima estudava na Universidade de Macau e estava em vias de terminar os estudos. Por esse motivo, tinha combinado para essa tarde uma sessão fotográfica com os amigos para assinalar o fim da licenciatura.

Após a notícia ter sido divulgada, colegas da faculdade começaram a juntar fundos para ajudar a família da vítima e houve mesmo um amigo que falou ao portal Macau Concealers, sem ser identificado. “Ainda não estou a conseguir lidar com a notícia. Vi que o condutor foi detido e houve um certo alívio, mas muito ligeiro”, disse a fonte ouvida. “Não é o primeiro acidente que acontece naquele cruzamento. Normalmente, os carros atravessam sem olharem se outras viaturas vêm em sentido contrário”, acrescentou.

A mesma pessoa responsabilizou o Governo devido à falta de medidas para combater o fenómeno dos condutores e trabalhadores ilegais.

 

Sou responsabiliza Governo

Também o deputado Sulu Sou entende haver responsabilidade do Governo nesta matéria, depois de ter verificado, recentemente, uma série de acidentes com motoristas ilegais. O pró-democrata recordou dois acidentes, em Julho de 2017 e Janeiro de 2018, em que condutores ilegais do Interior da China causaram vítimas ou feridos graves. “Apesar das várias críticas da sociedade, o Governo continua a adoptar uma postura fraca no combate aos motoristas ilegais”, afirmou Sulu Sou, num comunicado publicado nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, o deputado voltou a mostrar-se contra o reconhecimento mútuo das cartas de condução. Esta é uma medida que o Governo pretende adoptar para que os condutores do Interior da China possam conduzir durante alguns dias sem carta de condução válida, como já acontece com condutores de outros países. “Em Abril de 2018, o Chefe do Executivo ignorou a sociedade. E apesar das forças em contrário, autorizou o secretário para os Transportes e Obras Públicas a assinar um acordo para o reconhecimento mútuo. Após um ano, o acordo não avançou, mas as pessoas percebem que vai agravar a situação do trânsito”, opinou Sulu Sou.

Também nas redes sociais surgiram vários ataques aos deputados Ma Chi Seng e Lao Chi Ngai, nomeados pelo Chefe do Executivo, que em Novembro do ano passado tiveram uma intervenção no hemiciclo a defender o reconhecimento mútuo. Os dois legisladores consideraram o reconhecimento uma prioridade.

4 Mar 2019

Cinestesia V. Infinitivos

Os infinitivos: “vestir”, “despir”, “mergulhar”, “enxugar”, “adormecer”, “acordar”, “andar”, “correr”, “sentar”, “deitar”, “levantar”, “adoecer”, “convalescer”, “trabalhar”, “descansar”, “alterar”, “ligar”, “desligar”, “crescer”, “envelhecer”, “amar”, “nascer”, “morrer” dizem o “ser” da vida humana. O ser da vida humana não é uma substância matemática e inerte, infinitesimal ou infinita, interior ou exterior, mas é uma actividade dinâmica, implica-nos na mudança, altera, transforma, mesmo quando tudo se mantém inalterado. O fluxo da consciência pode correr à velocidade da luz, quando olhamos para alguém que se encontre ao pé de nós, mas o espaço em que nos encontramos está inalterado, pelo menos aparentemente. O mesmo acontece quando revisitamos os sítios da nossa infância que não sofreram processos agressivos de urbanização. Tudo pode permanecer inalterado. E, contudo, a última vez que lá estivemos pode ter sido há décadas. Nós não somos definitivamente os mesmos. Basta invocar uma lembrança de uma situação ocorrida há mais de quarenta anos para perceber que não somos os mesmos, ainda que os sítios possam parecer os mesmos. Entre as duas apresentações podia só ter decorrido um instante, um dia ou uma semana. Mas, não, passaram-se décadas. Talvez que as próprias coisas também se tivessem alterado debaixo da lente transparente do tempo. De facto, a divisão da casa em que me encontro era a sala de estar da casa dos meus avós. Já cá não estão sofás, nem a velha telefonia, nem a pesada mesa de jantar com cadeiras de madeira negra à volta, nem armários, nem os avós. Agora, a divisão serve de quarto de dormir e de gabinete de trabalho. O tempo enxertado entre a memória da sala de jantar com toda a gente viva e a percepção do espaço agora é de mais de quarenta anos, mas podia ser de um só dia ou do tempo que demorou a transformar o conteúdo de sala de jantar no conteúdo quarto de dormir e gabinete de trabalho. Os infinitivos exprimem acções. Para percebermos os seus conteúdos temos de invocar-nos a nós como seus protagonistas: vestimo-nos, despimo-nos, mergulhamos, enxugamos, etc., etc., ou então temos de ver alguém a executar as acções expressas por eles: alguém adormeceu, acordou, anda ou corre. A gramática antiga fala de “nomes de acção”. Como o no poema de António Machado se escuta que não há caminho, que o caminho se faz andando ou caminhando. O que aí está enunciado é que o caminho não é asfalto ou terra batida, nem pedras da calçada nem alcatrão nem nenhum dos materiais que revestem ruas, estradas e calçadas. O caminho implica saber fazer-se ao caminho a pé ou de meio de transporte, implica uma intervenção determinada. É isso que nos leva do ponto de partida ao ponto de chegada, da partida à meta. O ser humano está espalhado por todo um sem número de acções. Ser é agir, ser humano é já em acção. As acções podem parecer as mais simples que existem: respirar, ver e ouvir, levantar-se e ir-se embora ou deslocar-se com um determinado fim em vista. Sou sempre eu o protagonista de todas as acções. Podemos também agir em proveito próprio ou com prejuízo, reflexivamente ou passivamente. Podemos estar expostos à acção de terceiros, agentes da passiva a que nos expõem. A doença adoece-nos, a saúde convalesce-nos, o trabalho cansa, somos levantados e deitados, vestem-nos e despem-nos, como fazem as avós na infância. A percepção que cada um tem de si próprio não permite perceber que há limites estanques em cada uma destas acções, ainda que as consigamos compreender num horizonte de limites opostos. Vestir é o contrário de despir, adormecer de acordar, nascer de morrer, etc., etc.. Mesmo aqui se percebe que somos protagonistas de acções contrárias uma da outra. Sou eu quem adormece e que acorda, quem se veste e despe, que se molha e enxuga, anda, para, senta-se, deita-se, levanta-se. Tudo sem nos apercebermos do limite estanque, das fronteiras temporais e espaciais complexas que se erguem entre cada uma das acções. Nós compreendemos que antecipamos acordar no dia seguinte quando vamos para a cama dormir e quando nos levantamos, depois de acordar prevemos sem pensar nisso que vamos dormir à noite ou quando estivermos com sono. Antecipamos o sítio onde descansar depois do almoço para recuperar com a sesta para a travessia da tarde, o dia inteiro de manhã com todas as tarefas a desempenhar, funções a exercer. Sou eu no fim do dia que traz consigo como uma cauda do cometa ainda muito próxima da sua cabeça todo o dia que passou, até um fim de semana inteiro, umas férias, um ano lectivo ou os anos da vida. Ser eu, o sou implicado no ser da minha vida, está distendido para lá dos limites que se estabelecem de forma abstracta entre início, começo, princípio e fim. A percepção que cada um tem de si próprio, a propriocepção excede todas as acções, mesmo acções paralelas a decorrer em simultâneo e a coexistirem, desde sempre já e até à hora da nossa morte. Todas as acções estabelecem um hiato entre si mesmo quando se repetem. Quantas vezes adormecemos e acordamos, mergulhamos na praia e nos secamos, adoecemos e convalescemos, começamos a trabalhar e descansamos? E somos sempre nós a fazer transitar acções para o interior de outras acções, iniciá-las e terminá-las deixar decorrer em simultâneo, deixar para o dia seguinte, interromper provisória ou definitivamente. Nascer aproxima-se mais do sentido do ser enquanto a acção originária, a proto acção ou a arqui acção no interior do qual decorre tempo. Nós próprios somos passivos relativamente ao nosso nascimento. Precisamos de pai e de mãe ou de engenharia genética. Não nos fazemos a nós próprios, não nos fazemos nascer a nós próprios, mesmo que muitas vezes renasçamos ou ressuscitemos como se fosse a partir desses momentos que tudo começasse a ser a sério, como quando amamos e somos amados. E, mesmo assim, diz o poeta que “aqui não se pode amar senão deixar-se amar”. E mesmo que se diga no nosso idioma: “temos virão”, temos a a percepção do tempo, a percepção de si próprio a sermos sempre a passar de forma ininterrupta, descobrimo-nos a crescer em diversas fases, quase aos solavancos, os pelos púbicos e a barba, o cabelo que cai e o rosto que envelhece. O tempo passa irreversivelmente. Somos o tempo que passa no tempo que vem sempre para passar a partir da sua própria essência. Por defeito existir é ser o tempo que passa. O tempo começou a passar desde o primeiro instante. Desde o princípio que somos suficientemente velhos para morrer. Ser no tempo é ser a morrer. Não se morre nunca apenas na hora da nossa morte senão a partir do primeiro instante, logo ao nascer.

 

1 Mar 2019

Tragédia | Idoso morre em incêndio no Fai Chi Kei

A vítima vivia no apartamento que terá começado a arder, alegadamente devido a um problema com um dos electrodomésticos. O incêndio levou mais três pessoas ao hospital, reteve vários moradores nas habitações e obrigou à retirada de 100 pessoas do edifício

Um homem de 83 anos perdeu a vida num incêndio que deflagrou na quarta-feira à noite, por volta das 21h03, no Bloco B do edifício Van Sion Son Chun, no Fai Chi Kei. A confirmação do óbito foi avançada pela Polícia Judiciária. O fogo terá começado num electrodoméstico. O equipamento em causa não foi identificado, mas o jornal Ou Mun avança que poderá ter sido um aquecedor.

“Às 22h10 de ontem [quarta-feira], a PJ foi informada pelo hospital público de que um apartamento no Fai Chi Kei estava a arder e que um homem tinha sido transportado de urgência para o hospital, onde foi declarado morto”, começou por informar a força de segurança. “A investigação ao caso começou a partir desse momento”, foi acrescentado.

Quando chegaram ao apartamento em causa, a vítima já apresentava batimentos cardíacos muito fracos e dificuldades respiratórias. Além do homem, outras três pessoas, uma do sexo masculino, com 60 anos, e duas do sexo feminino, com 54 e 73 anos, que viviam na mesma unidade residencial, necessitaram de ser transportadas para o hospital, devido à inalação de fumos.

O incidente fez ainda com que cerca de 100 pessoas fossem retiradas do prédio em causa. Por este motivo, foi montado no local um centro de comando para assistir os moradores e também o Instituto para a Acção Social abriu um centro de acolhimento.

 

Moradores presos

Após as chamas, o jornal Ou Mun entrevistou um dos moradores, com o apelido Choi, que fez o relato do “inferno” que se viveu dentro do edifício. De acordo com a versão apresentada, este morador estava sozinho em casa, a dormir, e acordou com os gritos dos vizinhos a dizer “fogo”. Segundo as declarações prestadas o morador só conseguiu sair com a ajuda dos bombeiros.

“Mesmo em casa, o fumo era muito espesso e não parava de entrar por debaixo da porta de entrada. Mesmo as paredes já estavam a ficar todas pretas”, relatou. “Assim que decidi que ia sair de casa, abri a porta para o corredor, mas o fumo era mesmo muito denso. Nem conseguia ver os meus dedos. Por isso, e para evitar o perigo, tive de regressar a casa. Felizmente, com a ajuda dos bombeiros, embrulhei-me numa toalha molhada e deixei devagar o prédio”, contou o homem de apelido Choi.

O caso continua a ser investigado pela PJ para apurar a causa do incêndio e os motivos que levaram à morte do homem.

 

1 Mar 2019

Até já, Joana

A minha Joana tinha cerca de quinze anos quando morreu. A Joana era uma gata. Minto. Era “a” gata. Um bicho único. Porventura, e chegado apenas à segunda linha desta crónica, exagero. A minha mãe, que não se cansa de repetir alguns ditados capazes de sintetizar a vida e as suas experiências num conjunto bem medido de palavras, seria lesta a dizer “não há zorra a quem lhe pareça os filhos feios”. Para quem não sabe, zorra é uma raposa velha e matreira. Ao contrário de nós, citadinos, a malta do campo aquilatava a beleza dos animais pelo préstimo. A raposa, típica assaltante de galinheiros, não granjeava a simpatia – estética ou outra – dos donos das galinhas.

A verdade é que, embora goste muito dos dois gatos que neste momento me permitem morar com eles, a Joana era especial. O Rim e o Croquete são fantásticos. Tão diferentes um do outro como dois irmãos e capazes de em conjunto exprimir inteiramente a paleta dos comportamentos felinos. Mas a comparação é injusta, Rim e Croquete são dois magníficos exemplares da espécie Felis catus. A Joana era algo mais, estava mais próxima do humano do que dos gatos. Como diria a minha mãe, do alto da sua proverbial sapiência, “só lhe faltava falar.”

A Joana teve uma única ninhada de gatos. Gata de apartamento, não saía de casa. O que não impediu um gato Cardinali de entrar pela janela da cozinha (ainda não sabemos como) e de nos trocar a visita de médico por três gatinhos. Há vinte anos, eu tinha o sono muito mais pesado do que agora. A Joana (ainda não sabemos porquê) decidiu parir em cima de mim. Eu estava a dormir e só acordei na terceira e última prenda.

E quando acordei, encharcado de líquido amniótico, imaginei por momentos que com 24 anos tinha feito o meu primeiro xixi na cama. Passadas as formalidades de lamber copiosamente os filhotes e de comer a placenta (a Joana, note-se), decidi instalar mãe e filhos numa caixa de cartão ao lado da cama. A Joana, despeitada, passava o dia a levar os gatos pelo cachaço da caixa para a cama. Eu passava o dia a fazer o movimento inverso. Ela, que sempre dormira comigo, não percebia: renegas os miúdos?

Quando o Guilherme nasceu (este sim, meu) tive algum receio. É comum falar-se da ciumeira dos animais de estimação em geral e dos gatos em particular. A Joana não ia para nova. “You can’t teach an old dog new tricks”, pensava. Para minha surpresa, a Joana adoptou o Gui. Velava-lhe o sono e avisava-me quando ele acordava. Zangava-se comigo quando eu me zangava com ele. Mordia-me se lhe falava mais alto (também me mordia se cantava, mas isso compreendo muito melhor).

A Joana ainda passou por três mastectomias (as vantagens e desvantagens de ter oito mamas). São muitos meses com uma espécie de copo de Dry Martini à volta do pescoço. Felizmente para ela, o óbice de ver mais longe do que o presente estava do meu lado. Para a Joana, o incómodo da situação resumia-se às visitas ao veterinário. Não tinha – exceptuando os derradeiros dias – dores. Apesar de muito humana, não lograva compreender a inelutabilidade do futuro. Os dias da Joana eram os dias de qualquer gato: dezoito horas de sono, repartidas entre o sofá e um vaso desabitado na varanda e meia dúzia de refeições diárias.

O papa Francisco esclareceu-nos: um céu sem cães não é propriamente um céu desejável. Ainda não se pronunciou acerca dos gatos. A despeito disso, estou confiante de que, em havendo um quintal supra-terreno, a Joana lá esteja a desperdiçar tempo. Espero que ainda me conheça à chegada. Até já, Joana.

25 Jan 2019

“Jack, o Estripador” chinês foi executado

O assassino em série responsável pela morte de 11 mulheres e raparigas entre 1988 e 2002, Gao Chengyong, foi executado depois de ser condenado à morte em Março do ano passado.

Como escreve a BBC, Chengyong seguia as suas vítimas até casa antes de roubá-las, violá-las e matá-las, cortando-lhes a garganta e mutilando os corpos. Por seguir este modus operandi, a imprensa chinesa começou a apelidá-lo de “Jack, o Estripador”, nome pelo qual foi conhecido o assassino em série que aterrorizou Londres durante a Era Vitoriana, no final do século XIX.

Casado e com dois filhos, o homem de 53 anos foi detido pelas autoridades em 2016 na sua mercearia na cidade de Baiyin, província de Gansu, depois do seu ADN ter sido identificado nos locais dos crimes.

O primeiro assassinato terá decorrido em Maio de 1988, quando uma mulher de 23 anos foi encontrada morta em Baiyin com 26 facadas no corpo. Seguiram-se outros homicídios de características semelhantes, tanto na forma de matar como no perfil das vítimas, raparigas novas, que vestiam vermelho quando foram mortas. A mais nova tinha oito anos.

Segundo os relatos na imprensa chinesa, as notícias sobre os assassinatos terão causado uma onda de pânico em Baiyin, levando a que muitas mulheres deixassem de sair de casa sozinhas.

4 Jan 2019

El duende

Experimentei no meu quase afogamento da semana transacta um estado prostrador de isolamento e de separação, instrumentos com que a morte pode actuar. Afinal, morre-se em comunhão ou contra ela: até a morte tem estas duas faces.

Levei demasiado tempo a combater contra a água sem me lembrar de que a água nos sustém. A minha consciência estava dividida. Naquele momento, seria uma morte macaca por causa das sensações despoletadas que acrescentariam agonia e desespero aos últimos instantes, ou melhor: um estado de orfandade.

Seria o contrário de morrer, por exemplo, numa trincheira, ao serviço de uma causa redentora, o que nos faz superar o medo e a eclosão da iminência, porque na verdade estamos fora de nós, envolvidos em algo que nos ultrapassa: aí «o corpo – como bem descreveu Ruy Belo – entra por engano morte»; ou de morrer mergulhado – a linguagem é tramada – num sentimento de unicidade, como o rio que penetra no mar, numa reminiscência que o exalta. Julgo ser disto que falam os místicos quando mencionam a importância da palavra Deus ser a última palavra. Julgo até que nomear Deus é outra forma de designar uma experiência que se localiza além das palavras e nos devolve a um estado de não-dualidade.

Só que esta experiência é concreta, não tem nada de “metafísica”.

A este sentimento de unicidade – como muita gente – já o experimentei. Algumas vezes nas aulas, ou numa por outra palestra, quando engreno na palavra e solta-se um fio discursivo que se conduz a si mesmo, num fluxo que ultrapassa as minhas capacidades expressivas. Aquela limpeza de raciocínio não é pauta que me pertença. Não me é habitual afluírem as palavras com o recorte, a nitidez, de quem lê um teletipo invisível, interior. Sou mais trapalhão, menos ordenado, menos inteligível. Contudo, nesse transe que me ocorre sulcar há um momento em que sou, à vez, actor, espectador e encenador, na medida em que observo os efeitos que a minha emprestada eloquência – num tempo dilatado, que não é o dos relógios – produz nos alunos.

Quando sou transportado por esta inominada energia verbal, embora não seja propriamente o ‘autor’ do texto, controlo a cadência rítmica, a respiração das frases, a melodia. Os alunos ou a plateia reagem consoante as virtualidades do instrumento cognitivo, a sua capacidade de escuta, mas claramente naquele momento somos um, como num cardume ou orquestra – enovelados na espécie de inteligência não circunscrita que nos abarca. O mais surpreendente é que ao mesmo tempo que as palavras me conduzem me sinto um ponto atento aos meandros, às minudências da enunciação – não separado da experiência mas numa dobra da mesma.

Inesperada aptidão e talvez similar à que Pere Gimferrer atribui ao poeta: ver o acto de ver, dobra na qual a consciência se reconhece a si mesma e as palavras se conciliam com o mundo que designam – em confluência.

Será esta a experiência do self-remembering a que aludem certos mestres budistas? Sinto que aquele fluxo discursivo se resgata ali, e a si mesmo, do esquecimento, expondo a sua face inteira, a sua amplitude, e que ressoa em mim uma maravilhosa não-identidade; a qual me consente encarnar aquela presença a si-mesmo, sem me fundir nela.

O que me surpreende nesta experiência não é tanto o fluido encadeamento dos conceitos como a sua liquidificação, a sensação de experimentar um pensamento pensante que transborda largamente a represa do pensamento pensado e se apresenta como a condição de possibilidade que emerge após o desaparecimento do sujeito que, paradoxalmente, incubou e expandiu.

Será raro esse estado de não-dualidade.

Nunca ouvi nenhum professor falar desta ocorrência e que sei comum ao que experimentam alguns actores durante a actuação. É como um despertar dentro da palavra e uma navegação no seu leito: basta seguir o ponto-da-vela, prenhe por uma lucidez diáfana.

E nesse estado tudo parece a um tempo simples e novo, como a resposta que o bailarino Nijinsky deu à senhora que no bar do teatro lhe perguntou:

«como é que faz?
perdão?
a maior parte das pessoas quando salta no ar vem imediatamente para baixo…
porque hão-de vir logo para baixo… – replicou Nijinsky – demorem-se no ar um bocadinho, antes de descerem…».

Agora leio no último e maravilhoso livro do John Berger, Confabulações, este naco sobre El Duende:

«Os artistas de flamenco falam muitas vezes de el duende. O duende é uma qualidade, uma ressonância que torna uma actuação inesquecível. Ocorre quando um artista é possuído, habitado por uma força ou um conjunto de compulsões vindas do exterior de si mesmo. O duende é um fantasma do passado e é inesquecível porque visita o presente para se dirigir ao futuro.

No ano de 1933, o espanhol Garcia Lorca proferiu uma palestra em Buenos Aires relativa à natureza do el duende. (…) “todas as artes”, declarou ele na sua palestra, “são capazes de duende, mas onde ele naturalmente encontra mais espaço é na música, na dança e na poesia declamada, uma vez que elas necessitam de um corpo vivo que as interprete, porque são formas que nascem e morrem de um modo perpétuo e elevam os seus contornos sobre um presente exacto. El duende actua sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia”»

um mundo em estado de dador: imagens à procura de um relator, pensamentos que buscam o seu pensador, ritmos que procuram o seu canal (as configurações do duende) e calha-nos ser o transporte para o tempo dessas ”doações” mas só o corpo as intercepta e traduz.

Isso nota-se muito em quem recita: há quem só dê o conteúdo, aí captamos com a inteligência, e quem consiga o regresso do poema a um estado pré-verbal, que a performance do corpo, daquela voz, naquela expressividade, volta a fazer nascer.

Aí emocionamo-nos e o contacto com o recitador levanta o vento sobre a areia: então “vemos” o que ouvimos.

20 Set 2018

Justiça | Homem que incendiou karaoke condenado à morte

Oresponsável pelo homicídio de 18 pessoas, após incendiar um bar de karaoke, em Abril passado, na província de Guangdong, no sul da China, foi condenado à morte, noticiou ontem a agência oficial chinesa Xinhua. Liu Chunlu foi julgado pelo tribunal Popular Intermédio de Qingyuan, localidade onde ocorreu o crime.

O réu confessou que iniciou o fogo por vingança, após lhe ter sido recusada uma sala privada nas instalações. Na mesma noite, uma reunião de negócios no bar terá corrido mal, após este ter sido interrompido por outro cliente. Liu decidiu então extrair óleo da sua moto e pegar fogo às instalações.

O incêndio causou a morte por asfixia de 18 pessoas e feriu quatro. Liu foi detido na manhã seguinte pela polícia.

A China tem registado vários incidentes do género, normalmente ligados a pessoas com problemas psicológicos ou ressentimentos com vizinhos ou a sociedade em geral. Em Abril passado, um homem armado com uma faca matou sete estudantes e feriu 19, quando os jovens regressavam a casa, no norte da China. Em Fevereiro, um homem matou uma mulher e feriu 12 pessoas num centro comercial em Pequim, também num ataque com faca.

13 Set 2018