10 de Junho | “Metropolis”, de António Mil-Homens, abre portas dia 31 

Inserida no programa das comemorações do 10 de Junho, a exposição de pintura “Metropolis”, de António Mil-Homens, abre portas dia 31 deste mês na galeria da Fundação Rui Cunha. Eis um olhar, visto de cima, sobre a vida urbana que nos rodeia, não apenas em Macau, mas nas cidades em geral

 

É no final deste mês que se dá início ao programa cultural de celebrações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, e o pontapé de saída é dado, dia 31, com a exposição “Metropolis”, de António Mil-Homens. O público poderá ver, até ao dia 11 de Junho, na galeria da Fundação Rui Cunha (FRC), um total de 15 obras que remetem para a ideia da cidade vista de cima, todas elas pintadas pelo também fotógrafo durante a quarentena realizada em 2020, mas não só.

“Metropolis” é a segunda exposição de pintura de António Mil-Homens, que se estreou neste campo com a mostra “Monochrome”, depois de anos a guardar as telas numa gaveta. Estes trabalhos revelam agora um espaço citadino que remete não apenas para Macau mas para várias cidades. “Abordei esse tema de uma forma que considero distante”, contou ao HM.

“Em termos estéticos é como se estivesse a observar de longe, de muito alto, o que nos rodeia em termos citadinos. Foi uma ideia espontânea e sem esta intenção. Comecei a pintar sem decidir previamente o quê.”

Essencialmente, o processo de pintura de António Mil-Homens começou de forma mais intensa em 2020, ano em que a produção criativa foi muito frutífera. “De certa forma dei um salto qualitativo. Comecei por pintar de forma instintiva, o que deu lugar aquela exposição variada no que diz respeito às peças [Monochrome], mas depois dei comigo a abordar um tema e uma determinada estética, com consistência, em cada uma das telas que ia pintando.

Em 2020 fiquei com material que eu considerava como tendo potencial para uma nova exposição. E dei-lhe imediatamente um título, ‘Metropolis’”.

Mais tarde, já em contexto de quarentena, António Mil-Homens pediu telas e acrílicos a um amigo e deste período de clausura saíram mais cinco pinturas, que também integram esta mostra.

Na hora da despedida

António Mil-Homens está de saída de Macau e acredita que esta é uma boa forma de se despedir. “Quero acreditar que faço uma boa despedida de Macau e espero que seja essa a opinião das pessoas que forem à exposição. Sinto que consegui algum progresso do ponto de vista estético, e em termos de coerência, que não aconteceu em relação à primeira exposição. Pintava de forma compulsiva todos os dias e era aquilo que acontecia em cada tela.”

Com “Metropolis” as coisas acabaram por funcionar “de modo completamente diferente”. “Continua a ser um pouco estranho este processo, na medida em que não tenho qualquer formação na área da pintura e dei comigo a não querer ver, sequer, tutoriais de pintura, para deixar fluir aquilo que ocorre”, frisou.

No comunicado a propósito desta mostra, o autor destes trabalhos destaca o facto de “Metropolis” simbolizar também “o tempo de virar uma página” da sua vida, 26 anos após a sua primeira visita a Macau, encerrando “uma permanência de cerca de 15 anos”.

“Não a vejo como um adeus. Antes como um até sempre, em que a lógica dessa mesma constância se inverte. Reitero o meu convite para que guardem, se do exposto gostarem, mais estas peças que o território e as circunstâncias me inspiraram. Lançarão mais uma pedra na construção dos projectos futuros”, apontou.

24 Mai 2022

António Mil-Homens, fotógrafo e artista: “Comunidade portuguesa deveria ser mais unida”

É mais uma das figuras da comunidade portuguesa que deixa Macau ao fim de um punhado de anos. Depois de dar cartas nas áreas da fotografia, arte e poesia, António Mil-Homens regressa a Portugal onde pretende desenvolver workshops e residências artísticas. Para trás deixa inúmeras exposições e projectos culturais, lamentando que a comunidade portuguesa não dê mais apoio às associações de matriz portuguesa

 

Deixa Macau ao fim de 15 anos, onde se afirmou como fotógrafo e artista. Foram anos fundamentais na construção de um percurso criativo?

Sem dúvida. Aqui as possibilidades são diferentes em relação ao que se consegue fazer em Portugal. Na prática, não tive apoios, além da cedência de espaços. De todas as exposições tive o apoio efectivo, em 2009, por altura do 10º aniversário da RAEM, quando a Amélia António decidiu a vinda para Macau da minha exposição “Macau para Sempre” e a edição do livro. As outras exposições saíram-me do bolso, mas eu tenho uma má relação com os pedidos, porque as poucas vezes que pedi apoios foram-me recusados ou tiveram respostas tardias. Macau foi importante, mas está na hora de inverter a lógica dos últimos 15 anos.

Regressa a Portugal, onde já tem projectos culturais pensados. 

Sim, tenho condições para os desenvolver e virei a Macau sempre que se justificar. Desde 2018 que tenho casa própria no Alto Alentejo e investi em infra-estruturas que me vão permitir desenvolver projectos na área cultural e ecológica. O cerne será a organização de workshops nas mais variadas áreas, irei convidar pessoas para ministrarem esses workshops nas áreas que não domino e disponibilizo alojamento. Pretendo também criar condições para fazer residências artísticas nas áreas da pintura e da escultura, por exemplo. O meu regresso tem também a ver com uma série de factores, o facto de estar aqui sozinho e de o trabalho na área da fotografia ter caído quase para zero.

A fotografia tem evoluído em Macau de forma positiva?

Houve uma evolução incrível, em prejuízo da fotografia como profissão e modo de vida. Entraram mais fotógrafos no mercado e o digital causou uma certa depreciação que o digital trouxe à forma como a fotografia é olhada, veio democratizar a fotografia. Aponto, o ano passado, a criação da associação Halftone que está a angariar cada vez mais associados, além da existência de outras associações chinesas.

Quando foi para Macau já tinha planos definidos na área cultural?

Tinha estado cinco meses e meio em Macau em 1996, antes da transição. Tinha voltado para fazer a cobertura da transição para a Revista Macau, que na altura era dirigida por Rogério Beltrão Coelho, e também colaborei com um outro projecto, o livro de José Pedro Castanheira, “Os Últimos Cem Dias do Império”. As fotografias não são todas minhas porque quando me juntei ao projecto ele já estava em marcha. Já tinha uma certa ideia de Macau em termos culturais. Claro que nunca me passou pela cabeça que seria em Macau, já numa fase recente, de desenvolver as valências da pintura e da poesia. Em 2010 decidi que os projectos poéticos que tinha na gaveta iam começar a sair, e foi quando editei o meu primeiro livro, uma edição de autor. Em 2020 comecei a pintar, sem qualquer formação ou experiência na área. Foi um processo que sinto como estranho, pela forma e intensidade como aconteceu.

Como foi fotografar a transferência de soberania de Macau? Foi desafiante?

Sim, na medida em que as situações que foram acontecendo eram as mais diversificadas. O projecto implicava que José Pedro Castanheira escrevesse um texto por dia, nos últimos cem dias da Administração portuguesa, e era necessária uma imagem para ilustrar cada texto, e aí foi um desafio. Mas sem modéstia digo que foi fácil na medida em que, odiando a rotina, nunca me especializei num determinado tipo de fotografia. Isso dá-me a capacidade de analisar qualquer tipo de fotografia que me seja solicitado. Foi exaustivo na fase final, pois estavam cá centenas de fotógrafos.

Esperava a permanência desta cultura de matriz portuguesa no território? As iniciativas culturais que acontecem são representativas dessa cultura portuguesa? 

Diria que sim, embora mais pudesse ser feito. Não digo da parte da Casa de Portugal em Macau, que tem desenvolvido um trabalho ímpar, apesar dos apoios que cada vez são menores e dos encargos cada vez maiores. Mas falo da comunidade em si e das pessoas que a compõem. Teria sido importante essa demonstração de vitalidade cultural fosse ainda mais vincada. Esta é uma crítica construtiva, pois há muita gente que tem muito para dar e remete-se ao seu cantinho e não deita cá para fora a sua capacidade criativa.

A pandemia está a mudar profundamente a comunidade portuguesa, mesmo em termos culturais? 

Sim. Nós, humanidade, nos chamados países desenvolvidos, habituámo-nos a um certo facilitismo no dia-a-dia, do que fazemos e não fazemos, do que gostamos ou não. Quando surge algo com impacto, como é o caso da pandemia, as pessoas perdem a capacidade de reagir pela positiva e de entender todas as implicações, a mudança que tem de passar a haver para encararmos o dia-a-dia e a relação com os outros. À conta dos direitos individuais esqueceram-se os deveres colectivos, a solidariedade, o respeito. Temos de aprender a virar a moeda e, com os olhos da esperança, podemos tirar lições destes maus momentos e descobrir algo positivo, apesar de tudo.

O trabalho das entidades de matriz portuguesa está mais dificultado?

Penso que sim, mas muitas vezes o trabalho diplomático, sobretudo se as pessoas não têm uma personalidade mais dinâmica ou para o exterior, passa despercebido ou nem é considerado. Colocamos o voto na urna e achamos que a nossa parte está feita, mas acho isso errado como cidadão, pois todos temos um papel no dia-a-dia. O mesmo se passa com a comunidade portuguesa, que deveria ser mais unida e dar mais apoio às instituições que a representam. Ficámos com um certo comodismo.

Para os próximos anos como será a divulgação cultural a nível local? Haverá espaço para uma maior aproximação entre comunidades? Poderá haver a profissionalização de algumas áreas, por exemplo? 

Penso que sim, assim as pessoas consigam perceber as oportunidades e as dificuldades também. É aquilo que na maior parte das vezes não acontece. Houve uma transição em Macau, temos um período até 2049, mas quem pensaria que este seria um período imutável e que só 50 anos depois é que se viraria a página, é não conhecer minimamente a cultura chinesa. Esta é uma cultura de preparação e programação a longo prazo. É isso que temos de entender. Macau já não vai ser como era antes da pandemia, nem nenhuma outra parte do mundo. Aqui, com a queda acentuada do peso do jogo, que não vai voltar mais ao que foi, com a abertura para a Grande Baía, vão surgir desafios muito maiores, mas imensas oportunidades também. A competitividade será cada vez maior, pois vamos competir com Cantão, Hong Kong ou Shenzhen, e isto tem de obrigar a uma mudança de postura e de actividade.

17 Mai 2022

Poesia | António Mil-homens lança “Poemografias” este sábado na Casa Garden 

É já no próximo sábado, dia 11, que o fotógrafo António Mil-homens lança o seu novo livro de poesia “Poemografia”, que surge numa versão trilingue, português, chinês e inglês. A obra, que conta com apresentação do ex-embaixador Carlos Frota, contém também fotografias e espelha a vivência muito própria do autor com a Macau que habita há vários anos

 

Aproveitando a viagem da sua primeira exposição de pintura, intitulada “Monochrome”, António Mil-homens prepara-se para lançar um novo livro de poesia no mesmo local onde estão expostas as obras, a Casa Garden. O evento de apresentação de “Poemografia” acontece no sábado por volta das 16h e terá como convidados o ex-embaixador Carlos Frota, além de personalidades que vão ler os poemas nas suas versões em português, chinês e inglês. A música de Fabrizio Croce irá acompanhar a leitura dos poemas. A edição do livro está a cargo do Instituto Cultural (IC).

“Poemografias” é o resultado das vivências de António Mil-homens com Macau. “É no fundo uma súmula daquilo que tenho escrito sobre Macau ao sabor da inspiração e daquilo que vou sentindo e vivenciando”, contou ao HM.

Um dos poemas retrata, por exemplo, o primeiro momento em que António Mil-homens chegou a Macau, decorria o ano de 1996. Desde aí que houve alterações na forma de escrita, precisamente devido a uma forte ligação com a cultura chinesa. “De repente ganhei consciência de que o estilo [de escrita] é mais configurativo. Se calhar o estilo de escrita dos poemas reflecte muito daquilo que em mim foi sendo inculcado pela cultura chinesa. Diria que são poemas meus, mas se calhar são muito chineses na forma como foram naturalmente escritos, sem ter tido consciência ou intenção disso.”

O autor não domina a língua chinesa, mas diz sentir-se muito ligado à cultura, sobretudo ao confucionismo e à arte chinesa. “Tenho uma enorme admiração e um profundo respeito. Não ignoro as diferenças e procuro entendê-las. É a minha postura normal relativamente a outras culturas: procurar e analisá-las sem grandes pré-concepções, porque essa é a única forma. Prefiro ter um olhar mais transparente sobre aquilo que me rodeia.”

Há uma naturalidade e sobretudo uma espontaneidade na escrita de António Mil-homens que surgiu quase sem o autor perceber como. “De repente as coisas acontecem e eu tenho necessidade de pegar numa folha de papel para registar o que me está a ocorrer. É raríssimo fazer qualquer rasura ou substituição de palavras.”

Projecto antigo

“Poemografias” começou a ser pensado em 2014, ainda Yao Jingming era vice-presidente do IC. Até que António Mil-homens decidiu que este “não seria mais um livro de poesia em português” e pagou a tradução dos poemas para chinês e inglês. A edição aconteceu o ano passado, a propósito da celebração dos 20 anos da RAEM, mas o lançamento acabou por ser adiado.

Fotógrafo há vários anos, António Mil-homens enveredou recentemente pela pintura, tendo já inclusivamente algumas ideias para uma nova exposição com quadros de maior dimensão. Sobre a escrita, diz ter recebido comentários positivos, o que lhe dá força para continuar a trabalhar em várias vertentes artísticas.

“Além de pessoalmente estar satisfeito com o projecto, sinto-me auto-gratificado. Nunca me passou pela cabeça, quando comecei a pintar, que ia sair com esta força. O retorno ou as opiniões que tenho recebido é de apreciação e de encorajamento, de pessoas a quem não perguntei nada. Ganhei uma força que não me passaria pela cabeça que acontecesse. É mesmo para continuar”, rematou.

7 Jul 2020

Exposição / 10 de Junho | Monocromático de António Mil-Homens na Casa Garden

Do nada se fez tudo. Este pode ser o mote de António Mil-Homens, fotógrafo há décadas radicado em Macau a quem a crise causada pela pandemia da covid-19 trouxe o enorme desafio de conseguir sobreviver sem trabalho. Tendo realizado apenas dois trabalhos desde Janeiro, António Mil-Homens decidiu pegar nas telas de pequena dimensão que tinha em casa, adquiridas há vários anos, e dar-lhes vida.

Assim surgiram os trabalhos que dão agora corpo à exposição “Monochrome”, uma mostra que integra a celebração do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, e que pode ser visitada pelo público a partir desta quinta-feira, 18, na Casa Garden.

Nesta exposição não há cor. O preto e o branco assumem-se como protagonistas principais por vontade expressa do fotógrafo agora tornado pintor. Os quadros podem inserir-se numa corrente abstraccionista que vai buscar inspiração às imagens captadas, mas a decisão do uso de tons exclusivamente monocromáticos surgiu de forma espontânea.

“Gosto muito da fotografia a preto e branco, mas em termos de pintura as coisas começaram a surgir assim e conclui que se calhar em termos de opção, quer queiramos quer não, são as opções iniciais, no sentido de estabelecer um tipo de trabalhos, que determinam a diferença”, contou Mil-Homens ao HM.

“Esta é a minha primeira exposição, mas a pintura é para continuar como forma de expressão artística, e sinto que vai ser com cada vez mais força. Portanto é uma opção estética”, frisou.

Uma vez que a pandemia da covid-19 obrigou as entidades que organizam as celebrações do 10 de Junho a virarem-se para os talentos de Macau, foi o próprio António Mil-Homens que falou, não só com Paulo Cunha Alves, cônsul-geral de Portugal em Macau, mas com outras pessoas no intuito de mostrar o seu trabalho ao público. Se não fosse através das celebrações oficiais do 10 de Junho, seria de outra forma, garante.

Nada é por acaso

Pintar surgiu como um instinto para António Mil-Homens, que assume não ter qualquer formação na área. “Esta é das tais coisas que são difíceis de explicar. São coisas que estão cá dentro que, quando saem, saem com esta força toda. De tal maneira que me levou a achar, e as pessoas a quem tenho mostrado os trabalhos concordam comigo, que valia a pena mostrar.”

Expor com “Monochrome” é também uma oportunidade para o autor garantir algum sustento financeiro, uma vez que o cancelamento de alguns eventos faz com que continue sem trabalho devido à covid-19.

“Isto acontece não só como forma de expressão artística, mas também como uma solução em termos financeiros. Desde Janeiro que fiz apenas dois trabalhos de fotografia e estamos a meio de Junho. Quero acreditar que a pintura seja uma via alternativa mesmo em termos financeiros.”

Apesar de esta ser a primeira vez que expõe a título individual, António Mil-Homens foi fazendo pequenas tentativas na área da pintura. A primeira foi em 2010, com uma exposição no bairro de São Lázaro, onde apareceu a pintar o seu próprio retrato em tempo real.

Grande e pequeno

Há quatro anos, chegou a pensar em pintar quadros de grande dimensão. “Estava em fase de arrancar com um projecto megalómano. Tenho apenas uma peça que nem considero concluída. Entretanto não me renovaram o aluguer do estúdio e a minha ideia era pintar a uma escala que é incomportável em termos de habitação, e isso caiu por terra.”

Depois da ideia de pintar grandes quadros, António Mil-Homens decidiu virar-se apenas para quadros pequenos, e por uma razão muito prática, uma vez que a venda será mais fácil, bem como o transporte das obras.

“Está a dar-me um prazer incrível, de tal maneira que acabei por preterir alguns dos trabalhos iniciais para incluir a todos os que se seguiram e já tenho mais coisas além daquelas que vão constituir a mostra”, acrescentou.

Numa celebração do mês de Junho diferente do habitual, António Mil-Homens recorda que as coisas não acontecem por mero acaso. “A diferença é obrigar-nos a concentrar naquilo que somos enquanto comunidade em Macau. Se calhar isso é o lado bom de entre os aspectos negativos da pandemia e do confinamento. É bom olhar em volta e ver que há valores aos quais, muitas das vezes, não se dá a devida importância. Marca também o arranque da utilização efectiva da Casa de Vidro por parte da Casa de Portugal, portanto nada acontece por acaso”, rematou.

17 Jun 2020

Fundação Casa de Macau | Livro de António Mil-Homens apresentado em Lisboa 

Depois de uma apresentação em Macau, o mais recente livro do fotógrafo António Mil-Homens, intitulado Universália, foi ontem apresentado em Lisboa, graças a uma iniciativa da Fundação Casa de Macau em Portugal.

António Mil-Homens, conhecido fotógrafo de Macau, decidiu embrenhar-se no mundo da poesia depois de ter lançado, em 2010, o livro “Vida ou Morte duma Esperança Anunciada”. “Sem ter em atenção a cronologia da escrita, porque tenho projectos mais antigos, resolvi pegar neste ‘Universália’ que, como todos os outros, tem por base sentimentos, emoções, estímulos exteriores”, que surgiram “na quase totalidade dos casos, como eu costumo frisar, de jorro e na forma acabada”, disse ao HM.

Na área da fotografia, António Duarte Mil-Homens já conta com 22 exposições individuais de Fotografia e a participação em 27 colectivas de Fotografia e Arte.

18 Set 2019

Fundação Casa de Macau | Livro de António Mil-Homens apresentado em Lisboa 

Depois de uma apresentação em Macau, o mais recente livro do fotógrafo António Mil-Homens, intitulado Universália, foi ontem apresentado em Lisboa, graças a uma iniciativa da Fundação Casa de Macau em Portugal.
António Mil-Homens, conhecido fotógrafo de Macau, decidiu embrenhar-se no mundo da poesia depois de ter lançado, em 2010, o livro “Vida ou Morte duma Esperança Anunciada”. “Sem ter em atenção a cronologia da escrita, porque tenho projectos mais antigos, resolvi pegar neste ‘Universália’ que, como todos os outros, tem por base sentimentos, emoções, estímulos exteriores”, que surgiram “na quase totalidade dos casos, como eu costumo frisar, de jorro e na forma acabada”, disse ao HM.
Na área da fotografia, António Duarte Mil-Homens já conta com 22 exposições individuais de Fotografia e a participação em 27 colectivas de Fotografia e Arte.

18 Set 2019

Poesia | Livro de António Mil-Homens lançado amanhã na FRC

O livro de poesia “Universália” saiu da gaveta de António Duarte Mil-Homens e vai estar amanhã à tarde na Fundação Rui Cunha, com apresentação de Sara Augusto e Carlos Morais José

 

Universália” é o título do segundo livro de poemas de António Duarte Mil-Homens, que é lançado amanhã, pelas 18h30, na Fundação Rui Cunha. Depois de uma primeira obra editada em Macau em 2010, “Vida ou Morte duma Esperança Anunciada”, o autor volta a abrir a gaveta onde guarda estes e muitos outros esboços para partilhar estados de espírito e emoções com os leitores.

“Sem ter em atenção a cronologia da escrita, porque tenho projectos mais antigos, resolvi pegar neste ‘Universália’ que, como todos os outros, tem por base sentimentos, emoções, estímulos exteriores”, que surgiram “na quase totalidade dos casos, como eu costumo frisar, de jorro e na forma acabada”, sob a forma de 45 poemas em meia centena de páginas.

António Mil-Homens, conhecido fotógrafo local, desde a adolescência que se aventura pelo universo da poesia, uma espécie de compulsão “como se eu tivesse qualquer coisa a borbulhar cá dentro, que tem que saltar para fora. E quando salta é assim, de fio a pavio”, explicou ao HM.

O seu repositório é extenso e os poemas podem acontecer a qualquer momento, “de repente tenho necessidade de agarrar num papel, posso já estar deitado, ou posso acordar no meio da noite”, e vai somando estados de espírito, que se agrupam e começam a fazer sentido no seu conjunto.

“É assim que as coisas me saem e é assim que tenho escrito. Também é assim que, além destes dois livros publicados, tenho mais seis prontos a serem editados. E outros em progresso.

Primeiro no papel – “que continua a ser o meu modo privilegiado de escrita” –, depois passados para computador, organizados em pastas já com título. “Universália” foi o livro que substituiu o projecto que o autor tinha pensado publicar para o Festival Rota das Letras de 2019, o “Poemografia de Macau” – que reúne poesia e fotografia – que, por razões diversas, não iria ser exequível até ao passado mês de Março.

“A coisa arrastou-se e, quando eu percebi que não ia dar tempo para ser editado, disse: então vai sair mais um da gaveta!”. Assim surgiu o “Universália”, após um contacto feito com o editor responsável da Temas Originais, editora de Coimbra, “com quem nos últimos dois anos tenho participado em colectâneas”. O livro foi impresso “logo com a condição de que viriam 100 exemplares para Macau, por via postal, a tempo do Rota das Letras, onde teoricamente seria apresentado” e “está claro que foi pago do meu bolso, porque infelizmente é assim que a maior parte das edições funcionam”. É um “livro fininho, porque foi logo tido em consideração o peso do correio aéreo”, justificou o autor.

Uma capa especial

O desenho da capa é produzido digitalmente e “é uma das muitas obras de um amigo meu que era completamente genial, em qualquer área pela qual se interessasse, mas que neste momento, já lá vão 17 anos de doença, não é mais do que um vegetal”, dor que António Mil-Homens continua a sentir de cada vez que o visita em Portugal. “Numa fase já adiantada da doença, ele interessou-se pelos fractais e pelo 3D”, de que resultou este desenho gráfico de computador, em tons de azul escuro e prata, utilizado pelo autor.

“Eu já tinha agarrado nesta imagem e decidido há muito tempo que seria a capa do Universália”. E conta porquê. “Eu vejo isto como um corpo celeste, com uma certa complexidade, e vejo o fundo como aquilo que conseguimos observar com a ajuda de um telescópio: vejo nebulosas. E o que de imediato me surgiu foi: universo, Universália. Achei que a imagem se adequava perfeitamente”.

Livros a caminho

“Universália” chegou de Coimbra a tempo do Festival Rota das Letras, em Março de 2019, mas acabou por não ter lançamento oficial, o que acontece amanhã na Fundação Rui Cunha, com apresentação da professora Sara Augusto e do jornalista e escritor Carlos Morais José.

Em Lisboa irá acontecer também um lançamento formal do “Universália”, em meados de Setembro, integrado no UnityGate 2019, “que é uma plataforma cultural em que eu participo desde 2013, normalmente com fotografia”, mas que este ano passa a ter pela primeira vez uma participação escrita do autor. A UnityGate, que organiza diversos eventos culturais, trará algumas dessas iniciativas também a Macau no mês de Outubro.

Entretanto, segundo António Mil-Homens, o “Poemografia de Macau” irá ser finalmente publicado pelo Instituto Cultural, ainda este ano, em edição trilingue (português, chinês e inglês).

8 Jul 2019

António Duarte Mil-Homens, fotógrafo:  “Não tenho tempo para envelhecer”

António Duarte Mil-Homens comemora 70 anos no ano que vem, os mesmos que a República Popular da China. O fotógrafo quer fazer uma exposição que celebre a efeméride, à qual se junta o vigésimo aniversário da RAEM. Ao HM, Mil-Homens falou da início de carreira e das dificuldades numa área cada vez mais acessível a qualquer um

Teve a sua primeira câmara no dia 25 de Abril de 1974. O que é que aconteceu?
Tinha o bichinho da fotografia desde miúdo. O meu pai era fotógrafo amador e durante muitos anos, em que vivíamos numa casa em que existia um quarto interior, o meu pai transformou aquele espaço numa câmara escura onde eu era admitido sob uma condição: só saía de lá quando ele terminasse e não mexia em nada. Ao mesmo tempo era uma espécie de tortura porque assistia, ali, àquela magia da revelação e não podia experimentar. Mas a semente foi ficando. O meu pai também não abria mão das máquinas dele e eu não tinha direito a pegar em nenhuma. Por volta dos meus 16, 17 anos, costumava pedir uma máquina fotográfica a um amigo. Entretanto casei, fui parar a Angola ainda em plena guerra colonial convencido de que lá conseguiria comprar uma máquina para mim por serem substancialmente mais baratas. Não existia o chamado imposto de luxo sobre este tipo e produtos – que na altura era de 60 por cento. Também é verdade que ninguém precisava de uma câmara para comer com batatas, ou seja, era um luxo. Mas o certo é que nem em Angola consegui ter uma. Depois de regressar a Lisboa, em Julho de 73, escolhi uma máquina numa loja de material fotográfico em segunda mão e fiz um acordo com o senhor. Paguei metade do custo que na totalidade era de 6500 escudos e acordámos um dia, quando pudesse pagar o resto, a fosse levantar. Combinámos para o dia 25 de Abril. Acordei com as notícias, ainda fui trabalhar e a determinada altura mandaram todos embora para casa. Fui a correr à loja e por pouco não a conseguia apanhar aberta. Lá consegui trazer a máquina, cheguei a casa, peguei em dois rolos e fui fotografar para a rua. Consegui fazer fotografias que são históricas.

Mas só as apresentou muito tempo depois em Macau. 
Embora tenha publicado duas destas imagens num jornal regional, na altura, só as expus, conjuntamente com as do primeiro de Maio em Liberdade, aqui em Macau. precisamente em 2014, 40 anos depois.

Porquê um intervalo de tanto tempo?
Isso é complicado e tem que ver com a minha postura relativamente a pedir patrocínios e subsídios. A esmagadora maioria das exposições que fiz até hoje foram a expensas próprias. De qualquer forma, parece-me que tendo sido no quadragésimo aniversário daquele dia, foi uma boa data para o fazer.

Era funcionário público. Como é que passou a ter a fotografia como profissão?
Começaram a aparecer amigos que perceberam que tinha herdado o princípio do meu pai, ou seja, o rigor naquilo que fazia em termos fotográficos. Então começaram-me a pedir algumas encomendas. Em 81 resolvi, para estabelecer contactos com mais gente ligada a esta área, inscrever-me num curso na Associação Portuguesa de Arte Fotográfica onde mais tarde vim a fazer o curso profissional. Fiz a minha primeira participação numa colectiva de fotografia integrada neste curso. Isto é um pouco como aquela história da bola de neve que depois de começar a rolar pela encosta vai arrastando mais neve e crescendo. Em 84 recebo um desafio que implicava uma mudança radical na minha vida, para ir fazer fotografia de publicidade. Pedi a minha primeira licença da função pública e fiz a minha opção. Abracei a fotografia por inteiro, até hoje. Depois, com 17 anos trabalhei como fotógrafo na faculdade de agronomia, onde tinha o meu estúdio e também fazia a minha fotografia.

Como é que foi a sua passagem do analógico para o digital?
Acho piada ao facto de hoje em dia, haver gente aí no mercado de arte fotográfica que faz abrir bocas de espanto por estar a usar máquinas analógicas e de grande formato. Foram as minhas ferramentas durante 20 anos. Aquilo que se faz agora com muito espanto, era aquilo que tinha que fazer sistematicamente. Fui forçado a aderir ao digital. Em termos de fotografia de publicidade fui obrigado autenticamente. Embora o digital, de início, fosse em termos de qualidade incipiente, comparando com aquilo que era possível com o analógico. Lembro-me, por exemplo, que estive em Macau para fazer a cobertura da transferência de administração e na cerimónia estava ao meu lado um fotógrafo de Hong Kong com uma Nikon D1 que era assim o supra-sumo da fotografia digital e tinha uma resolução de dois megapixéis. Mas o digital permitia o imediatismo. Quando acabou a cerimónia, ficaram nas bancadas uma meia dúzia de fotógrafos japoneses que tinham a mesma máquina e que traziam o seu portátil e antenas parabólicas. Portanto, de imediato, transmitiram para o Japão fotografias que tinham tirado minutos antes. E esta possibilidade é muito importante. Os clientes também começaram a achar piada à possibilidade de ver logo a imagem. Fui forçado a avançar para o registo digital. Depois comprei o meu primeiro Mac em 2000, comecei a investir moderadamente e a tentar perceber o que é que o digital ia dar.

Como veio para Macau?
Por questões de coração. Por paixão, se calhar mais por loucura. Vim para Macau sempre pela mesma razão. A primeira vez foi em 1996. Cheguei a 2 de Fevereiro. Vinha para ficar. Trazia entre bagagem e carga aérea mais de 300 quilos. Na altura, trazia todo o meu material de grande e médio formato, 35mm, tripés, iluminação, etc. Mas a situação era tão complicada do ponto de vista emocional que regressei Portugal ao fim de cinco meses e meio. Este regresso deu-me a possibilidade de partilhar com a minha mãe os últimos meses da vida dela. Falo nisto porque acredito que nada acontece por acaso. Pela mesma razão, mas desta vez arranjei um “argumento” ou uma almofada financeira. Estive cá um mês e meio na altura da transferência de administração. Vim fazer a cobertura para a Revista Macau, na altura sob a direcção do Rogério Beltrão Coelho. Vinha também fazer fotografias para um projecto que também já estava em marcha: o livro do José Pedro Castanheira, “Macau, os cem últimos dias do Império”. Só volto a Macau em Outubro de 2006, pela mesma razão – a pancada era muito grande – e para ver como é estavam as coisas por aqui. Em 2007, passo cá três períodos de um mês até chegar em Novembro desse ano para ficar, e cá continuo, não sei muito bem até quando.

Como é que e ser fotógrafo em Macau?
Já foi melhor. Já foi bastante mais fácil e bem mais lucrativo. Neste momento, é muito complicado, principalmente quando se é freelancer. É uma angústia permanente sem se saber muito bem como vai ser o mês seguinte. Há também uma concorrência cada vez maior, que o digital veio agravar exponencialmente. Hoje em dia é extremamente fácil uma pessoa que goste de fotografia, comprar a  sua primeira máquina, umas objectivas e um flash e começar a fazer trabalho na área, especialmente se oferecer, linearmente ou quase, esse trabalho. Infelizmente, pelo facilitismo do digital, os próprios clientes e responsáveis dos órgãos de comunicação social, acham que agora toda a gente faz fotografia, até com telemóvel, e o fotógrafo passou a ser dispensável.

Teve um projecto para um espaço multicultural no seu estúdio. O que foi feito dessa ideia?
Não me renovaram o contrato de arrendamento. Fiz obras e um ano depois de ter tudo pronto, disseram-me que  não podia ali continuar. Neste momento, vou partilhar um espaço com mais duas pessoas da área da moda e que pode entrar em funcionamento ainda esta semana. Além de ser concebido para o meu trabalho, pode estar disponível para quem precisar de o usar para fotografia de estúdio com a opção de ser com ou sem equipamento.

Também gosta de poesia. 
Desde muito cedo que escrevo poesia. Os meus primeiros poemas, dignos talvez desse nome, datam dos meus 14 anos. Gosto de escrever, permite-me achar que tenho um domínio razoável da minha língua materna. A poesia surge como uma forma mais fácil de síntese daquilo que me vai na alma. Quando escrevo poesia, as palavras saem de uma vez e já saem na sua forma final. O meu livro “Vida ou morte – de uma esperança anunciada” é o único livro que tenho publicado, e dada a minha aversão a pedir patrocínios, até porque odeio o dinheiro, só o peço pelo meu trabalho. E, entretanto, tenho sete livros feitos em casa prontos a serem editados e que incluem fotografia, sendo que um deles tem como título “Poemografia de Macau “ e já está traduzido em chinês e em inglês.  Também na fotografia tenho três projectos que têm que avançar de Setembro até ao final do ano que vem, e ainda não sei como. O primeiro projecto, já está aprovado e é uma exposição a ser apresentada no Casino Lisboa, em Portugal. O segundo é um projecto que está parado à seis anos e tem como título “Bicicletas de Macau”. Tem o prefácio escrito pelo José Luís Sales Marques. Tenho outro em que levei a estúdio para fotografar 188 pessoas que andam de mota em Macau. Mais uma vez acho que nada acontece por acaso. Para o próximo celebra-se o quadragésimo quinto aniversário da compra da minha primeira máquina fotográfica, são os meus 45 anos de fotografia. Para o ano também será o meu septuagésimo aniversário e também o da República Popular da China, que é oito dias mais velha do que eu. É ainda o vigésimo ano da RAEM. Quero fazer uma exposição que tenha em vista todos todas esta efemérides.

Quais são as suas referências na poesia e na fotografia?
Na poesia são muitos: O Ary dos Santos, a Sophia de Mello Breyner, a Natália Correia ou o David Mourão Ferreira. Na fotografia, e indiscutivelmente, o Henry Cartier Bresson. Num estilo completamente diferente, o Ansel Adams, e claro o Sebastião Salgado, mas há muitos mais.

Vai fazer 70 anos de idade. Qual é o elixir da juventude?
Costumo dizer muito na brincadeira: não tenho tempo para envelhecer. Cuido-me na medida do possível. Fumei o meu último cigarro no dia 28 de Abril de 75. Um ano e quatro dias depois da revolução. Foi a minha revolução pessoal. Penso que deixar de fumar é quase metade do segredo. Tenho também cuidado com a alimentação. Depois recuso escadas rolantes e subo escadas a pé, por exemplo. Faço o exercício que o dia-a-dia me possibilita e recuso ginásios. Se tenho o meu ginásio particular, é a mochila com 10 ou 20 quilos que tenho de carregar para um trabalho fotográfico, se tenho cinco andares para subir em minha casa porque é que vou levantar ferro?

4 Jun 2018

BD | “Deserto/Nuvem” vence o Prémio de Melhor Álbum Português

O livro “Deserto/Nuvem”, de Francisco Sousa Lobo, venceu o Prémio para o Melhor Álbum Português no âmbito dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, foi sábado divulgado no 28.º festival AmadoraBD, que termina no dia 12.

Francisco Sousa Lobo foi ainda distinguido com os prémios nacionais de Melhor Argumento para Álbum Português, também por “Deserto/Nuvem” e o de Melhor Álbum de Autor Português em Língua Estrangeira, pelo título “It’s no Longer I That Liveth”.

O Prémio Nacional para o Melhor Álbum de Autor Estrangeiro foi para “Os Ignorantes”, do francês Étienne Davodeau, e “Conversas com os Putos”, de Álvaro, venceu o Melhor Álbum de Tiras Humorísticas.

O Prémio Nacional de Banda Desenhada para o Melhor Desenho foi para a ilustradora Amanda Baeza, pelo álbum “Bruma”, enquanto o Prémio para o Melhor Ilustrador Português de Livro Infantil foi para Tiago Albuquerque e Nadia Albuquerque, pelo álbum “Sou o Lince Ibérico”, e Jimmy Liao, natural de Taipé, Taiwan, recebeu o Prémio para o Melhor Ilustrador Estrangeiro de Livro Infantil, pelo álbum “Noite Estrelada”.

O Prémio Nacional de BD Clássicos da 9.ª Arte, relativo a uma edição original há mais de dez anos, foi arrebatado por “Ronin”, de Frank Miller, e o Prémio para o Melhor Fanzine foi para “Outro Mundo Ultra Tumba”, de Rufolfo Mariano.

O AmadoraBD, organizado pela Câmara Municipal da Amadora, cumpre a 28.ª edição até 12 de Novembro com exposições, lançamentos editoriais e a presença de autores portugueses e estrangeiros de banda desenhada.

6 Nov 2017

Fotógrafo António Mil-Homens abre e reabre estúdio

A proposta é de um espaço de cultura com a fotografia ao centro. Um local para conviver e ser fotografado por quem faz disso a sua profissão há mais de 40 anos. A propósito da ocasião falámos sobre o espaço e respectivos projectos, claro, mas também sobre as indústrias criativas de Macau

Existe há três anos mas só agora António Mil-Homens sentiu que tinha as condições reunidas para abrir ao público. A grande inauguração foi na passada sexta-feira mas este sábado pelas três da tarde vai haver uma reinauguração. Demonstrar que em Macau existe capacidade, qualidade e condições para trabalho profissional de fotografia sem que tenha sempre de se requisitar os serviços de Hong Kong é o principal objectivo de António Mil-Homens. Mas, para além da fotografia, está apostado em transformar o espaço num clube de amigos, um local que se preste a encontros, a troca de experiências, espaço para poesia, música, tertúlias mas tendo, naturalmente, em vista a angariação de mais clientes. “Dou um exemplo: às vezes a malta não sabe o que fazer, porque não reunir os amigos e vir até ao estúdio beber uns copos, ouvir música, passar um bom bocado e fazer uma sessão fotográfica? Para além das fotografias profissionais que normalmente são solicitadas para websites, ou outros fins mais sérios, porque não fazer uma sessão fotográfica na brincadeira?”, sugere António. Não está, todavia, nos planos do fotógrafo ter uma programação regular até porque isso poderia complicar as marcações das sessões de fotografia que são a sua actividade profissional. “Isto não é uma sala de espectáculos, nem sequer um bar ou uma discoteca”, garante, “é, isso sim, um espaço de convívio, um local de cultura onde aproveitámos o facto de estarmos num edifício industrial, logo não temos problemas de ruído”, acrescenta.

O drama do “vão de escada”

A democratização da fotografia que o digital introduziu facilitando imagens de alta resolução a qualquer pessoa trouxe ao mercado de fotografia pessoas que, garante António Mil-Homens, “nunca viriam a ser fotógrafos e digo isto completamente convicto. Compram uma máquina e uma ou duas objectivas e vão para o mercado. A maioria são jovens, não têm encargos e, por isso, rebentam com os preços”. Esta situação tem vindo a colocar muitos profissionais fora do mercado e é também por isso que surge a necessidade de abrir espaços como este que agora se inaugura vendo nesta iniciativa uma forma de diversificação e sofisticação da sua oferta. “O que estes miúdos não percebem”, explica Mil-Homens, “é que, se realmente pretendem fazer uma carreira na fotografia, com este tipo de actuação estão não só a dinamitar o mercado actual como também a comprometer o seu próprio futuro.” E dá o exemplo de Portugal, um mercado que conhece bem, onde hoje apenas meia dúzia (mesmo) de fotógrafos consegue viver bem da profissão.
“O mercado”, considera, “é exíguo mas eu acredito que ainda pode ser mais explorado”. Todavia, António Mil-Homens não tem dúvidas que tudo passa por exportar e dá o exemplo de Hong Kong há 60 ou 70 anos atrás, quando o conceito desenvolvido na região vizinha ultrapassava fronteiras e fazia com que grandes clientes mundiais fossem de propósito a Hong Kong para fotografar os seus produtos. “Desde que me comecei a interessar por fotografia”, diz-nos, “Hong Kong era uma referência para mim. Os fotógrafos de Hong Kong tinham sempre um cunho de inovação e qualidade que era único no mundo na época.”, revela António. Mais feiras de arte, mais festivais, mais intercâmbios até que um dia seja possível desenvolver um conceito criativo original em Macau é a receita do fotógrafo, “mas não falo apenas de fotografia. Falo de dança, de escultura, de cinema, música.” A este propósito cita o exemplo da Unitygate, uma plataforma de intercâmbio cultural entre Macau e Portugal e na qual também já participou como exemplo a seguir e a repetir.

Controlar a especulação imobiliária

Conforme aconteceu em Nova Iorque, aqui ao lado em Hong Kong, em Pequim e em muitas outras cidades, a deslocalização de unidades fabris permitiu a muitos artistas “invadirem” os espaços das ex-fábricas para aí montarem os seus ateliers e espaços de cultura. Em Macau isso está a acontecer agora mas grande parte dos artistas foram ultrapassados pelos especuladores e o valor de aluguer de espaços como estes, de há dois ou três anos, praticamente duplicou. “A grande maioria dos artistas trabalha para sobreviver, produzem arte para darem vazão à sua criatividade e não propriamente para enriquecerem”, diz António Mil-Homens, e continua, “entendo perfeitamente que quem adquiriu os espaços pretenda fazer dinheiro mas têm de perceber que se os preços sobem demasiado toda esta explosão criativa pode vir a ser aniquilada.” Como solução, fazendo fé na visão que o Secretário Alexis Tam tem demonstrado, António julga que “talvez o governo pudesse comprar alguns desses espaços e depois cedê-los a preços mais controlados porque os que existem, como o Macau Design Centre, não chegam para a procura”.

Formação e diversificação da oferta turística

“Adoro trabalhar em estúdio. Criar a minha própria luz, este intimismo… A não interferência de factores externos”, confessa António vendo no estúdio uma oportunidade de dar continuidade às acções de formação que tem desenvolvido com a Casa de Portugal, podendo agora adicionar a experiência de fotografia em estúdio. E vai mais além sugerindo a possibilidade de adicionar um workshop de fotografia ao menu dos turistas que nos visitam: “unir a visita ao território com a aprendizagem de fotografia parece-me uma boa ideia. No fundo, formação, para mim, é uma forma de transmissão dos meus conhecimentos e de eu próprio aprender”. O intercâmbio é mesmo uma preocupação fundamental do fotógrafo que vê no estúdio uma base para a troca de experiências: “porque existe a técnica mas depois a abordagem em termos estéticos varia de pessoa para pessoa, por isso o diálogo é fundamental para a evolução mútua”, ajuíza.
A abertura deste estúdio vem na sequência da inauguração, há cerca de dois meses, do “Core Studio” de Nuno Veloso, também ele um conhecido fotógrafo profissional residente no território e com quem António Mil-Homens mantém “uma relação de estreita colaboração e não de concorrência”, como o próprio nos garante.

2 Fev 2016