Cabo Verde – Si Ka Ten Txuba, Morrê Di Sedi, Si Txuba Ben, Morrê Fogade

Já não é notícia, mas permanece bem viva na memória dos cabo-verdianos a tragédia que assolou as ilhas de São Vicente e Santo Antão, há algumas semanas. E tudo o que aconteceu está relacionado não só com o nosso velho conhecido Anticiclone dos Açores, mas também com a topografia de África na latitude das ilhas cabo-verdianas e com a simultaneidade de certas circunstâncias meteorológicas e oceanográficas. Para que se inicie a formação de uma depressão tropical, que poderá evoluir, ou não, no sentido da sua intensificação, dando origem a tempestade tropical e, posteriormente, a furacão1, é necessário que a temperatura da superfície do oceano seja relativamente alta (estatisticamente igual ou superior a cerca de 27 ºC), que haja uma pequena perturbação no campo da pressão atmosférica (um vale designado por “onda de leste”) e que o vento na vertical dessa perturbação varie pouco com a altitude (cisalhamento, ou wind shear, fraco).

A simultaneidade destas circunstâncias ocorreu na madrugada de 11 de agosto de 2025, o que provocou a morte de nove pessoas e transformou muitas casas e infraestruturas em destroços, na ilha de São Vicente.

Além dos fatores naturais mencionados, também contribuíram para esta calamidade a fraca memória que caracteriza os seres humanos, no que se refere a fenómenos meteorológicos, e o facto de o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INMG – autoridade meteorológica de Cabo Verde) não possuir radares meteorológicos estrategicamente colocados de modo a procederem a uma vigilância mais eficiente da evolução dos sistemas meteorológicos. Se as autoridades se lembrassem que situações deste tipo já ocorreram, embora esporadicamente, provavelmente não permitiriam a construção de casas nos leitos e margens das ribeiras, quase permanentemente secas. Mas a natureza não perdoa e, sempre que chove intensamente, a água escorre para as zonas mais baixas, retomando caminhos já outrora percorridos, ou seja, os leitos dessas ribeiras.

Durante a madrugada desse dia, depois de muitos dos habitantes de Mindelo se terem divertido nas festas características do mês de agosto, uma depressão tropical provocou chuva intensa, em especial nas ilhas de São Vicente e Santo Antão. A quantidade de água precipitada atingiu 192,3 mm em apenas 5 horas, superior à média da precipitação anual, o que corresponde a cerca de 38 garrafões de 5 litros de água a caírem na superfície de 1 m² durante esse período, praticamente em toda a ilha de São Vicente.

Chove pouco em Cabo Verde, mas, quando chove, acontece por vezes com grande intensidade, geralmente por ação de perturbações meteorológicas designadas por ondas de leste ou depressões tropicais que delas derivam, e que podem evoluir para tempestades tropicais e furacões. Alguns destes sistemas meteorológicos que ocorrem no Atlântico Norte têm início nas vizinhanças de Cabo Verde, país constituído por um arquipélago localizado no Oceano Atlântico Norte, aproximadamente entre os paralelos 15º e 17º N e os meridianos 22º e 26º oeste, formado por dois subgrupos: Ilhas de Barlavento (Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boavista), localizado a norte do paralelo 16º N e Ilhas de Sotavento (Maio, Santiago, Fogo e Brava), a sul do mesmo paralelo.

O Arquipélago sofre quase permanentemente, em especial as Ilhas de Barlavento, ventos de nordeste, os chamados ventos alísios, relativamente secos devido a parte do trajeto ocorrer sobre o Sahel. Estes ventos, que sopram no bordo sueste do anticiclone dos Açores, transportam por vezes areia e poeira do Sáara que chegam a Cabo Verde e mais além, atravessando grande extensão do Atlântico.

Por sua vez, os ventos alísios de sueste que, devido à rotação da terra infletem para sudoeste após atravessarem o equador (efeito de Coriolis), associados ao anticiclone quase permanente de Santa Helena, situado no Atlântico Sul, são mais húmidos convergem com os alísios de nordeste, dando origem a uma zona designada por Zona Intertropical de Convergência (Intertropical Convergence Zone – ITCZ). Nesta zona, devido à convergência dos dois tipos de alísios, o ar é obrigado a subir dando origem a condensação do vapor de água e formação de nuvens frequentemente de desenvolvimento vertical, designadas por cumulonimbus, caracterizadas por forte precipitação e trovoadas. Esta zona de convergência desloca-se ao longo do ano, acompanhando o movimento aparente do sol, com algum atraso, atingindo a latitude mais a norte em agosto/setembro, regredindo para sul à medida que o ano avança, atingindo a latitude mais baixa em dezembro/janeiro. As condições meteorológicas em Cabo Verde são determinadas principalmente pela posição da ITCZ em relação ao arquipélago. Assim, a estação chuvosa (agosto, setembro e outubro) ocorre quando a ITCZ está mais a norte, e a estação seca abrange os meses de abril a junho, sendo julho o mês de transição. Pode-se também considerar os meses de novembro a março como uma estação intermédia.

Durante a estação das chuvas formam-se, por vezes, ondas de leste nas regiões a sul da ITCZ, devido, em parte, à ação das montanhas existente em África, que introduzem perturbações no fluxo de ar, progredindo de leste para oeste entre as latitudes 5º e 20º N, abrangendo a região em que se localiza Cabo Verde.

Uma destas ondas de leste formou-se em 9 de agosto e evoluiu para depressão tropical. Quando os ventos máximos sustentados atingiram os 34 nós (63 km/h) a depressão passou à categoria de tempestade tropical com o nome Erin2, em 11 de agosto, tendo evoluído para furacão no dia 15. Mais tarde, em 16 de agosto, atingiu a categoria 5, a mais forte da escala de furacões Saffir-Simpson3.

Quando provocou os maiores estragos em Cabo Verde, o sistema meteorológico ainda não tinha nome atribuído, o que só aconteceu quando a depressão tropical evoluiu para tempestade tropical. O seu trajeto seguiu aproximadamente o caminho designado, nos meios meteorológicos, por “rota de Cabo Verde”, que consiste num percurso em torno do Anticiclone dos Açores, com início próximo de Cabo Verde, progredindo para oeste, noroeste, norte, recurvando para nordeste, podendo atingir a Europa já como depressão extratropical.

O bem conhecido cantor Bana (pseudónimo de Adriano Gonçalves), o “Rei da Morna”, na canção “Sina de Cabo Verde”, expressava bem a dureza do clima do seu país: “si ka ten txuba, morrê di sedi, si txuba ben, morrê fogade” (se não há chuva morre-se de sede, se a chuva vem morre-se afogado).

Também Manuel Lopes4, muito antes de Bana, retratou na sua novela “Os flagelados do vento leste”, a tragédia, embora de sinal contrário, do povo cabo-verdiano durante longos períodos de seca.

Olavo Rasquinho

(Meteorologista)

Referências

Os ciclones tropicais, antes de atingirem a classificação de furacão, passam por várias fases, em função da velocidade do vento: depressão tropical, tempestade tropical e furacão (tufão no Noroeste do Pacífico e Mar da China). Quando os ventos máximos sustentados são iguais ou superiores a 34 nós (63 km/h) a depressão tropical passa a Tempestade Tropical (Tropical Storm). Quando iguais ou superiores a 64 nós (119 km/h), toma a designação de Furacão, Tufão, ou Ciclone, conforme as regiões. No caso do Noroeste do Pacífico e Mar do Sul da China, há ainda a considerar uma categoria intermédia, entre a Tempestade Tropical e o Tufão, que é a Tempestade Tropical Severa, quando os ventos máximos sustentados atingem valores iguais ou superiores 48 nós (88 km/h) e inferiores a 64 nós. O sistema depressionário só começa a ser designado pelo um nome internacional quando atinge a categoria Tempestade Tropical. No caso de Noroeste do Pacífico e Mar do Sul da China, os nomes são atribuídos pelo ESCAP/WMO Typhoon Committee, cujo Secretariado está sediado em Macau desde 2007.

No Atlântico, os nomes são atribuídos pelo Hurricane Committee, cujo Secretariado está sediado em Miami.

Na escala de furacões Saffir-Simpson, estes sistemas meteorológicos são classificados com base na velocidade dos ventos máximos sustentados no intervalo de 1 minuto:

Categoria 1 – 64 a 82 nós (119–153 km/h)

Categoria 2 – 83 a 95 nós (154–177 km/h)

Categoria 3 – 96 a 113 nós (178–208 km/h)

Categoria 4 – 114 a 135 nós (209–251 km/h)

Categoria 5 – > 135 nós (> 250 km/h)

Manuel dos Santos Lopes (1907-2005) – escritor, poeta e ensaísta, nascido em Cabo Verde. Juntamente com Baltazar Lopes da Silva, Jorge Barbosa e outros intelectuais cabo-verdianos, fundou no Mindelo, em 1936, a revista “Claridade”, integrada num movimento de emancipação social, cultural e político do povo cabo-verdiano.

5 Set 2025

O fio ético da ciência

“The sciences are unaware that they lack a conscience.”

Edgar Morin

O ano de 2025 não chegou com fanfarra, mas com fadiga. O mundo, após uma década marcada por pandemias, governação algorítmica, colapsos ecológicos e fragmentação epistémica, encontra-se suspenso entre a aceleração e o esgotamento. Neste clima, o aviso profético de Edgar Morin no seu livro “A Ciência com Consciência” considerada como ruína da alma ressoa não como um aforismo ultrapassado, mas como um diagnóstico estrutural. A sua lamentação dos anos 1990 sobre a cisão entre conhecimento e sabedoria exige agora uma releitura radical. Pois, em 2025, a crise deixou de ser meramente moral; tornou-se ontológica. As próprias categorias pelas quais compreendemos a realidade, verdade, vida e identidade foram desestabilizadas pela expansão desenfreada da tecnociência, pela mercantilização da cognição e pela erosão do sentido partilhado.

A tese original de Morin, enraizada no pós-II Guerra Mundial e na ascensão da ciência nuclear, advertia contra o triunfo da racionalidade instrumental dissociada da reflexão ética. Via na figura de Fausto não apenas um arquétipo literário, mas uma trajectória civilizacional na busca de poder através do conhecimento, desancorada da responsabilidade. Hoje, esse impulso faustiano metastizou. Inteligência artificial (IA), biologia sintética, neurocapitalismo e engenharia planetária deixaram de ser domínios especulativos e são realidades operacionais. Contudo, a consciência que deveria acompanhar tal poder permanece conspicuamente ausente, ou pior, terceirizada à lógica de mercado e aos algoritmos preditivos.

Adaptar a obra de Morin à realidade de 2025 exige, antes de tudo, confrontar a ruptura epistemológica que define a nossa era. A ciência, outrora uma busca pela verdade, tornou-se um campo de batalha de narrativas concorrentes. Modelos climáticos são politizados, dados epidemiológicos instrumentalizados, e até o conceito de evidência se vê submetido a fidelidades tribais. A promessa iluminista da razão universal fragmentou-se em câmaras de eco e silos epistémicos. O apelo de Morin ao “pensamento complexo” capaz de integrar incerteza, contradição e interdependência é mais urgente do que nunca. Mas a complexidade hoje não é apenas uma virtude intelectual. É uma estratégia de sobrevivência. Considere-se o domínio da IA. Em 2025, sistemas de IA governam não apenas logística e finanças, mas também sentenças judiciais, acesso à educação e até companheirismo emocional.

Estes sistemas, treinados em vastos conjuntos de dados, reflectem e amplificam os preconceitos dos seus criadores e das sociedades de onde aprendem. No entanto, a sua autoridade raramente é questionada. A opacidade dos modelos de aprendizagem automática, combinada com a fetichização da eficiência, criou um novo sacerdócio de tecnocratas cujas decisões estão blindadas contra o escrutínio democrático. A crítica de Morin ao reducionismo e à tendência de isolar variáveis e ignorar o contexto encontra aqui a sua expressão mais inquietante. O algoritmo não pergunta porquê; optimiza. E ao fazê-lo, corrói as próprias condições da deliberação ética. A biotecnologia oferece outra fronteira onde a ciência sem consciência ameaça romper a condição humana. A edição genética, outrora confinada aos laboratórios, é agora comercializada como melhoria.

A linha entre terapia e aumento esbate-se, e com ela, o conceito de normalidade. A insistência de Morin na inseparabilidade entre biologia e cultura torna-se um correctivo vital. Pois o que está em jogo não é apenas a manipulação de genomas, mas a redefinição do que significa ser humano. A tentação de engenhar inteligência, emoção e até moralidade arrisca reduzir a pessoa a uma função programável. Neste contexto, a consciência não pode ser um pós-escrito mas deve ser o arquitecto. A dimensão ecológica do pensamento de Morin exige igualmente renovação. Em 2025, o Antropoceno deixou de ser um construtor teórico para se tornar uma realidade vivida. Refugiados climáticos, colapso da biodiversidade e padrões meteorológicos erráticos testemunham as consequências planetárias da arrogância científica.

Contudo, a resposta dominante permanece tecnocrática pois esquemas de geoengenharia, mercados de carbono e painéis de resiliência. O humanismo ecológico de Morin e a sua visão da Terra como sistema vivo em que os humanos são simultaneamente participantes e guardiões oferece uma contra-narrativa. Apela a uma ciência que escuta, coexistee e cura. Não uma ciência de dominação, mas de comunhão. Talvez mais urgentemente, a obra de Morin deve ser reinterpretada à luz da fragmentação cultural. Em 2025, a identidade tornou-se simultaneamente refúgio e arma. A aldeia global prometida pela conectividade digital degenerou em enclaves tribais, cada um com a sua epistemologia, moralidade e estética. A ciência, outrora ponte entre culturas, arrisca a tornar-se ferramenta de exclusão.

A linguagem da especialização aliena, os rituais da revisão por pares que intimidam, e os indicadores de impacto distorcem. O apelo de Morin à transdisciplinaridade e ao diálogo entre ciência, arte, filosofia e experiência vivida não é um luxo, mas uma necessidade. Só entrelaçando múltiplas formas de saber poderemos restaurar o tecido do sentido partilhado. Esta “Ciência Sem Consciência” reimaginada deve, portanto, ser mais do que uma crítica, deve ser um manifesto. Deve apelar a uma pedagogia da complexidade, a uma política da humildade e a uma ética do cuidado. Deve desafiar as instituições científicas a democratizar os seus processos, a confrontar os seus pontos cegos e a abraçar a incerteza não como ameaça, mas como condição da verdade.

Deve convidar os cientistas a tornarem-se cidadãos, e os cidadãos a reclamarem a ciência como bem público. Neste espírito, a universidade deve ser reconstituída. Deixando de ser um silo de especialização, deve tornar-se um santuário de integração. Os currículos devem ser redesenhados para cultivar não apenas competência técnica, mas imaginação moral. Os estudantes devem ser treinados para perguntar não apenas “como”, mas “porquê” e “para quem”. A investigação deve ser avaliada não apenas pela sua novidade, mas pela sua relevância, inclusividade e capacidade de iluminar a condição humana. A visão de Morin da educação como processo de despertar e de aprender a viver, a compreender e a coexistir deve orientar esta transformação. Do mesmo modo, a publicação científica deve evoluir.

A fetichização dos factores de impacto e das contagens de citações criou uma cultura de produtividade performativa. O conhecimento fragmenta-se em artigos hiper especializados, inacessíveis ao público e frequentemente irrelevantes para preocupações prementes. Um ecossistema editorial reimaginado deve priorizar acessibilidade, interdisciplinaridade e envolvimento público. Deve recompensar síntese, reflexão e a coragem de colocar questões fundacionais. Os mídia, também, devem recuperar o seu papel como mediadores da consciência. Em 2025, a comunicação científica é frequentemente reduzida a títulos sensacionalistas e debates polarizados. A nuance, o contexto e a humildade que Morin defendia são vítimas da economia da atenção.

Os jornalistas devem ser formados não apenas em literacia científica, mas em discernimento ético. Devem resistir à tentação de simplificar e, em vez disso, cultivar a arte da complexidade. Devem contar histórias que iluminem os dilemas, os riscos e a humanidade por trás dos dados. Ao nível geopolítico, os insights de Morin oferecem um quadro para repensar a governação global. A pandemia revelou a fragilidade da cooperação internacional e os perigos do nacionalismo científico. Em 2025, a diplomacia vacinal, as negociações climáticas e a soberania digital continuam a ser arenas de contestação. Uma ciência infundida de consciência deve advogar pela solidariedade planetária. Deve reconhecer que vírus, moléculas de carbono e algoritmos não respeitam fronteiras. Deve apelar a instituições ágeis, inclusivas e responsáveis não apenas perante Estados, mas perante povos, ecossistemas e gerações futuras.

Esta visão exige coragem. Pois as forças que se opõem à consciência são formidáveis pois objectivam motivos lucrativos, inércia institucional e rigidez ideológica. Mas a alternativa é insustentável. Uma ciência sem consciência conduz não apenas à decadência moral, mas ao colapso civilizacional. Gera alienação, injustiça e ruína ecológica. Reduz o espírito humano a uma variável num modelo, a um nó numa rede, a um consumidor de inovação. Para resistir a esta trajectória, devemos cultivar o que Morin chamou de “reliance” que é a capacidade de conectar, cuidar e co-criar. Devemos redescobrir a alegria da indagação, a humildade de não saber e a responsabilidade de saber. Devemos construir instituições que honrem a complexidade.

4 Set 2025

Barriga de aluguer robótica (II)

Na semana passada, falámos sobre a pesquisa que permite um robot desempenhar o papel de barriga de aluguer e vir a tornar-se o primeiro “Robot Mãe”. Se for bem-sucedido, o Robot Mãe pode vir a ter bebés.

O Robot Mãe custa 100.000 RMB. Se uma criança nascer através deste método, alguém terá de pagar as despesas do “parto”. Quem é esse “alguém” e a quanto ascendem as “despesas do parto”?

À partida, serão naturalmente os pais que irão pagar. O recurso a este método é principalmente determinado por problemas de saúde da mãe, que a impedem de levar uma gravidez a bom porto, pelo que recorre à ajuda do Robot Mãe. Neste caso não há controvérsia. No entanto, se o embrião que cresce no “ventre” do Robot Mãe não tiver sido gerado pelo material genético do casal, ou se apenas resultar de um óvulo ou de um espermatozoide de uma pessoa solteira ou de um dos elementos de um casal homossexual, então será necessário recorrer à ajuda de terceiros e a situação torna-se mais complicada.

Em qualquer dos casos a legislação é essencial e terá de regular o seguinte:

1. É legal usar o Robot Mãe como barriga de aluguer?

2. Se for legal, pode o Robot Mãe dar à luz?

3. Como é que uma empresa de Robots Mãe deve funcionar?

O Robot Mãe é um produto novo da área da saúde que ajuda a resolver o problema da infertilidade feminina, mas que também levanta outra questão: pode uma mulher aceitar que um Robot dê à luz o seu filho? Muitas legislações laborais regulam a licença de maternidade e algumas já incluem a licença de paternidade. Os tratados internacionais também regulam claramente os direitos laborais das mulheres. No entanto, na realidade, e em algumas empresas, só as mulheres que não estão preparadas para ter filhos é que ocupam os cargos mais elevados. Esta conduta há muito que prejudica as mulheres. Com a ajuda do Robot Mãe este problema podia desaparecer e a competição entre homens e mulheres no local de trabalho seria mais equalitária.

A realidade também mostra que as mães são mais carinhosas e têm relações mais estreitas com os filhos. Estes factores são indissociáveis da gravidez. As mulheres transportam durante nove meses os filhos nos seus ventres. Os filhos são a luz dos seus olhos. Cuidar das crianças é um direito natural. As mulheres que deram à luz podem experienciar mais intensamente a grandeza da vida e terão sem qualquer dúvida corações mais caridosos. Irá o Robot Mãe eliminar estas virtudes?

Acredita-se que as crianças concebidas a partir do esperma e óvulo dos pais biológicos, sejam as menos controversas. Nessas circunstâncias, a lei só precisa de regular a técnica de concepção do Robot Mãe. No entanto, quando se trata de gerar uma criança de um pai ou de uma mãe solteiros ou de um casal homossexual, estamos perante uma questão ética que não pode ser facilmente abordada. É certo que o Robot Mãe só pode conceber se houver a quem entregar os bebés, caso contrário estaria a gerar órfãos, criando mais um problema social.

A terceira questão que a lei deve considerar é a operacionalidade das empresas responsáveis pelos Robots Mãe. Os Robots Mãe são simultaneamente produtos de saúde e produtos comerciais. A regulação legal de produtos comerciais visa em primeiro lugar o benefício da humanidade. Por conseguinte, o armazenamento e a utilização de espermatozoides, óvulos e registos médicos deve ser objecto de aconselhamento profissional e especializado.

A lei não deve regular os lucros das empresas dos Robot Mãe, porque a essência do negócio é o lucro. O mais importante nos negócios é avaliar o mercado e ficar na crista da onda para ganhar o primeiro “pote de ouro”. Quando a tecnologia dos Robot Mãe amadurecer e o enquadramento legal estiver em vigor, vão surgir outras considerações comerciais. Portanto, se for legal os Robot Mãe darem à luz, espera-se que os custos iniciais sejam muito altos. Se um produto é inacessível para as pessoas normais e só puder ser adquirido pelos muito ricos, é realmente é um produto da área da saúde?

Durante a pandemia de 2019, as Nações Unidas forneceram vacinas gratuitas a países com dificuldades financeiras. Mais tarde, os Estados Unidos renunciaram às patentes da sua vacina, permitindo que outros países a produzissem e utilizassem. Em ambos os casos foram partilhados progressos científicos na área da medicina e evitada a criação de lucro às custas dos mais fracos. Com os avanços tecnológicos actuais, está iminente o desenvolvimento de úteros artificiais e a criação do Robot Mãe não é uma surpresa. No entanto, as implicações ao nível dos recursos, da ética e da legislação merecem a atenção mais cuidadosa.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

2 Set 2025

Trotinetas são um perigo

Bons tempos em que os nossos pais nos construíam uma trotineta de madeira e íamos até ao jardim ter o prazer de as empurrar com um dos pés. Nos dias de hoje as trotinetas eléctricas são uma praga em quase todo o mundo. Uma praga perigosa. Os acidentes mortais com trotinetas sucedem-se em Portugal. Na semana passada morreu um utilizador de trotineta quando caminhava para o emprego e foi atropelado por um condutor criminoso porque fugiu após o embate no veículo de duas rodas. Em Paris, o uso de trotinetas já foi proibido. Em Lisboa, a praga assusta os passeantes porque os “pilotos” de trotineta andam pelos passeios a grande velocidade e já embateram contra idosos, crianças, deficientes com cadeiras de rodas, invisuais e carrinhos de bebés. Todos os dias assiste-se a um acidente de trotineta. Os condutores das mesmas nada respeitam, especialmente os sinais de trânsito. Passam com o sinal vermelho, atravessam os cruzamentos em diagonal, andam dois e até três numa trotineta e conduzem com auscultadores a ouvir música. Há dias, um condutor de autocarro viu-se impossibilitado de evitar o acidente contra uma trotineta com um casal a bordo. Ele partiu o braço e perna. Ela foi de ambulância para o hospital com traumatismo craniano. Isto, porque a maioria dos utentes de trotinetas anda a grande velocidade pelo meio dos carros sem usar capacete de protecção. Para que tenham uma ideia, em 2024, registaram-se 1.658 acidentes com trotinetas eléctricas em Portugal, resultando em quatro mortes, 72 feridos graves e 1.677 feridos ligeiros. Estes dados foram divulgados em Junho deste ano pela Prevenção Rodoviária Portuguesa, reflectindo uma tendência de agravamento nos sinistros envolvendo trotinetas eléctricas nos últimos anos.

Em Lisboa, construíram-se ciclovias, algumas absurdas porque não têm seguimento. Percorre-se uma determinada distância e terminou a ciclovia. Todavia, mesmo nas ciclovias, algumas com semáforos, os “trotineiros” nada respeitam e embatem contra as bicicletas. Estes números de acidentes são assustadores e preocupantes para as autoridades. Autoridades que têm de tomar medidas sérias sobre o uso das trotinetas, apesar de já ter sido decidido o seguro obrigatório para bicicletas e trotinetas.

Em princípio, o uso do capacete devia passar a ser obrigatório. Seria do melhor bom senso a proibição total do movimento de trotinetas nos passeios das cidades e a proibição de a trotineta ser usada por mais de um utente. Estas três medidas são urgentes, acrescentando que os utentes de trotinetas e bicicletas deviam ter uma licença de circulação, a qual seria retirada para sempre no momento em que um utilizador de trotineta fosse apanhado a andar nos passeios, sem capacete, sem seguro ou a não respeitar a luz vermelha dos semáforos. Um especialista em questões de segurança rodoviária transmitiu-nos que as trotinetas são um verdadeiro perigo no movimento global do tráfego rodoviário citadino, por não respeitarem minimamente as regras do trânsito. Mais nos acrescentou que, dois ‘crash-tests’ realizados pela Fundação Mapfre, em Espanha, revelam que uma colisão, mesmo que apenas a 25 km/h, de uma trotineta eléctrica contra um peão ou um veículo pode causar ferimentos graves ao condutor da trotineta e aos peões. Os especialistas destes estudos indicam como factores que mais influenciam um acidente fatal, prende-se com conduzir trotinetas sem capacete (40 por cento), imprudência cometida por outros veículos (20 por cento) e circular em estradas interurbanas (20 por cento). Não temos dúvidas, de que os acidentes só podem ser reduzidos se passar a ser obrigatório o uso do capacete e colete retro-reflector ou roupa de alta visibilidade, respeitar a sinalização do trânsito, não utilizarem auriculares quando circulam quando chegamos a ver utilizadores de trotinetas a falar ao telemóvel através desses auriculares, não circular nos passeios e quando atravessam uma passagem de peões deverão descer da trotineta.

Imaginem, que as trotinetas eléctricas até foram assunto de primeira página na imprensa porque um dos incendiários das últimas chamas devastadoras andou a pegar fogo em vários locais de trotineta eléctrica… Este assunto das trotinetas é mais grave do que possa parecer. Já é preocupante para o cidadão comum que sai à rua. As pessoas com deficiência visual estão a ter medo de sair de casa perante o risco de sofrerem lesões provocadas por trotinetas eléctricas e pelo seu mau estacionamento nos passeios e nas passagens de peões. A verdade, é que podemos ver trotinetas abandonadas em qualquer lado dos passeios. O presidente da Associação dos Cegos e Amblíope de Portugal (ACAPO), Rodrigo Santos, sublinhou que este meio de transporte tem “prejudicado gravemente um direito fundamental dos invisuais, e não só, que é o de poder sair à rua”. A mesma personalidade adiantou que a ACAPO tem tido contactos com cidadãos cegos que passam por “coisas surreais”, nomeadamente quedas que têm origem num tropeção contra trotineta deitada no meio do passeio ou abalroamento após a saída de uma paragem de autocarros, havendo também vários casos de bengalas partidas e de invisuais que têm ido para o hospital. Entendemos que igualmente devia ser implementada uma lei que limitasse a velocidade das trotinetas eléctricas a 30 km/h em zonas com elevada utilização de veículos de micromobilidade, porque a circulação com trotinetas apresenta maior risco de lesões na cabeça, face e pescoço. Por outro lado, a maioria de utilizadores de trotinetas eléctricas é de jovens que não têm a mínima noção das regras de trânsito. O paradigma deste problema tem de mudar radicalmente, para benefício e segurança dos milhares de peões que frequentam as ruas do país.

1 Set 2025

Sobrevivência das PME

Confrontadas com os desafios colocados pelas plataformas de compras online e pela tendência actual de os residentes de Macau se abastecerem nas cidades da região de Guangdong, e ainda pela mudança do padrão de compras dos turistas da China continental, as pequenas e médias empresas (PME) situadas nas áreas residenciais têm cada vez mais dificuldade em sobreviver. Com o encerramento dos casinos-satélite, as lojas instaladas ao seu redor também estão a enfrentar grandes desafios.

Em resposta ao encerramento de muito mais lojas, o Governo da RAEM lançou recentemente iniciativas como o “ZAPE com Sabores” e o “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias”. O “ZAPE com Sabores” terminou no último domingo (24 de Agosto), mas até que ponto foi eficaz? Aposto que só os comerciantes das zonas comunitárias onde decorreu o ZAPE estão em posição de dar uma resposta.

Segundo o relatório Forbes, em 2025, Macau é a terceira região do mundo com o PIB per capita mais elevado, atingindo os 134.040 US dólares e o primeiro da Ásia. Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos indicam que no segundo trimestre de 2025, a média do rendimento mensal dos residentes empregados foi de 20.000 patacas e a média do salário dos trabalhadores residentes a tempo completo (que trabalharam 35 ou mais horas por semana) cifrou-se nas 21.000 patacas, sendo equivalente à do primeiro trimestre deste ano. Com base nestes números, o poder de compra dos residentes de Macau deve ser muito forte, todos os negócios e comércios deverão estar florescentes e todos devem desfrutar de um sentimento de abastança e de felicidade. Então, porque não parou a onda de encerramento de lojas comerciais? Porque continua a haver notícias de casos de suicídio?

De acordo com a Direção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), que cita os dados divulgados pela Polícia de Segurança Pública, existiam 183.568 trabalhadores não residentes em Macau no final de Abril do corrente ano. Além disso, no passado mês de Junho, a DSAL declarou que em Fevereiro havia em Macau 183.222 trabalhadores não residentes, em resposta a certas interpelações escritas apresentadas pelos deputados na Assembleia Legislativa. A maior parte destes trabalhadores estão ligados ao sector da construção e atravessam a fronteira terrestre Macau-Zhuhai de manhã e ao fim da tarde. A disparidade entre o mercado de trabalho e o mercado de consumo cria dificuldades à sobrevivência das PMEs, sobretudo para aquelas que se localizam em redor da Zona Norte de Macau. Recentemente, mais um restaurante chinês da Zona Norte anunciou o encerramento, após o fecho do Restaurante Wong Kam.

Devido às mudanças do padrão de consumo dos turistas que visitam Macau e ao desequilíbrio da estrutura económica da cidade poderão actividades comunitárias de curta duração ou mesmo o “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” que dura 13 semanas ser um factor de mudança para os pequenos e médios comerciantes?

Enquanto organismo ao serviço dos cidadãos, o Governo da RAEM deve dedicar-se inteiramente ao bem-estar público. Ao abrigo do princípio “Um País, Dois Sistemas”, e no contexto capitalista do livre mercado, quem possui mais recursos ou tem mais poder possui as maiores oportunidades de lucro. O Governo é simultaneamente o gestor e o distribuidor de recursos sociais.

É responsabilidade do Governo utilizar eficazmente os recursos à sua disposição para cuidar de cada cidadão. Uma redistribuição razoável dos bens é a chave para diminuir o fosso entre os ricos e os pobres. Sem qualquer dúvida, o actual Governo da RAE está perfeitamente consciente da presente situação económica e financeira de Macau. O relançamento do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” e o aumento de subsídios para deficientes e idosos demonstra que conhece as dificuldades daqueles que se encontram no fundo da hierarquia social. No entanto, as actuais medidas de alívio são infelizmente de curta duração e não estão bem definidas, faltando-lhes especificidade e planeamento a longo prazo.

A salvação das PME de Macau não é algo que possa ser alcançado em laboratório. As acções governativas da área da economia e finanças contidas no próximo Relatório das Linhas de Acção Governativa para o Ano Financeiro de 2026 serão um teste crucial às capacidades do Governo da RAEM.

29 Ago 2025

O Papa Americano (IV)

“Let us disarm words and we will help to disarm the world.”

Leo XIV

A bordo de uma nave que traça trajectórias por vezes dissonantes em relação aos impulsos de Trump. Sem contar Musk, electrão livre após a separação não consensual do presidente. Pouco se compreende desta vaga ascendente ignorando que ela deve a sua ascensão ao colapso do liberalismo globalista, no seu auge na última década do século XX. O chefe estratega da campanha presidencial em 1992 de Bill Clinton afirmou “It’s the economy, stupid!”, e seguido pelos seus apoiantes de que para o americano médio-baixo se tornou sinónimo de privação, depressão e crise de identidade. O populismo é filho do elitismo. Reforçado pelo arrogante fracasso liberal. Convém levar a sério a reacção trumpista, que procura irradiar para além da temporada do presidente em exercício. Vance e Trump parecem partilhar a cruzada antiliberal que pretende ligar à revolução americana Estados, partidos e lóbis ideologicamente próximos do movimento MAGA.

Eles próprios, juntamente com pesos médios e pesados do circuito trumpista, intervêm sem pudor nas eleições de países “amigos e aliados”. A lista é extensa. O caso mais recente é o da Polónia, onde a responsável pela Segurança Interna, Kristi Noem, empenhou-se com sucesso em apoiar a ascensão do nacional-conservador Karol Nawrocki à presidência da República, em confronto com o primeiro-ministro Donald Tusk, alegado vassalo de Bruxelas. Já em Fevereiro, Vance havia criticado duramente os líderes euro atlânticos na conferência de Munique e apoiado a Alternativa para a Alemanha (AfD) contra moderados, europeístas e tardios globalistas, acusados de reprimir o debate livre e ameaçar a democracia na República Federal. Campanhas semelhantes ocorreram no Reino Unido em apoio ao ressurgido Farage, em França por Marine Le Pen, desqualificada por uma sentença controversa, na Roménia pelo candidato presidencial derrotado George Simion, auto declarado aderente ao “bilhete MAGA”, na Irlanda por Conor McGregor.

Até na Coreia do Sul por Yoon Suk Yeol, que segundo Trump foi removido da presidência por um golpe orquestrado pela China. Sem falar do cordial abraço com Giorgia Meloni, encorajador e ao mesmo tempo embaraçoso para quem se oferece como ponte entre europeus e americanos. O MAGA internacionalizado e não globalizado pretende ser o protector da civilização ocidental, florescida na Europa a partir da semente judaico-cristã, helénica e romana, revisitada e transmitida ao Novo Mundo pelos ingleses, atingindo o seu esplendor máximo nos Estados Unidos. Hoje ameaçada pela finança global, pelo politicamente correcto e pela “substituição étnica” gerada pelo catastrófico cruzamento entre imigração não assimilável e declínio da natalidade. Em defesa dos “valores tradicionais”, a começar pela família.

A civilização ocidental é o conceito de que existe uma ordem natural das coisas e que temos direitos que derivam de Deus. E que existem regras, regista Terry Schilling, fundador do Projecto para os Princípios Americanos. A melhor definição da Internacional MAGA é-nos dada por um jovem conselheiro do Departamento de Estado, Samuel Samson. Para quem é urgente uma nova aliança de civilizações com a Europa, contra o projecto global liberal que impede o florescimento da democracia, que a espezinha juntamente com a herança do Ocidente, em nome de uma decadente classe governante que teme o seu próprio povo. Portanto, esta parceria deve assentar na herança comum americana, não no conformismo globalista. Assistimos ao esboço de uma para doutrina eclesiástica em forma laica. Política e geopolítica. Nova/velha religião com estrelas e faixas. A originalidade deste culto reside na apropriação do catolicismo, moldado às suas próprias necessidades.

Fé que atrai um em cada cinco americanos. Após anos de declínio, o cristianismo latino parece estar em recuperação. Sobretudo converte. Nessa nação antipapista, com ex-evangélicos ou ateus Vance percorreu ambas as etapas rumo à Luz que olham para Roma e se entusiasmam com o “seu” pontífice, significa que o vento está a mudar. O Vaticano está exposto ao duplo risco de ser usado por uma facção de fidelidade canónica duvidosa para fins de poder e/ou de se confrontar com o actor geopolítico e económico “Número Um”, a custos incalculáveis. Inclusive para as suas próprias finanças. A dissolução da USAID já afectou ordens e movimentos católicos em todo o mundo, beneficiários habituais da divisa que garante confiança em Deus. Pior, a recuperação católica em territórios infiéis, mesmo pescando entre cristãos de outras confissões, pode culminar em conflito entre crentes progressistas e tradicionalistas.

O pesadelo do papa americano é ter de resolver disputas internas na sua Igreja de origem. Enquanto Trump via Vance ou vice-versa, engrossa as suas divisões com os departamentos locais do papa. Com que fundamentos? Do catolicismo, Vance atrai-se pelas certezas dogmáticas, liturgias tradicionais, anseio pelo bem comum. Coroadas pela autoridade do papa. Tudo para dotar de moral mobilizadora o despertar da comunidade nacional, objectivo da revolução em curso. Contra o progressismo, liberalismo, socialismo e pecados associados. Se fosse pontífice, Vance regressaria ao Vaticano I, ampliando a esfera da infalibilidade papal. Os seus referentes são Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, dos quais oferece excertos de leitura original. Do “Aquinate” extrai uma interpretação adaptada do ordo amoris. Desafio ao coração da sua religião declarada. O amor é o cristianismo. Em Cristo é gratuito. Vance oferece uma versão paga.

A favor da sua conta corrente política e geopolítica. Diz amor, mas entende norma ética. Com a qual declina a hierarquia sociogeopolítica do amor.A escala de Vance tem cinco graus que são a família, vizinhança, comunidade, pátria e resto do mundo. Classificação dos deveres do bom americano, contra a retórica dos direitos. Inconciliável com o bom samaritano. Irrefreável no impulso agápico de Jesus, abraço aberto a todos. Talvez mais próximo da tradição veterotestamentária que privilegia o amor judaico pelos judeus. O acaso, ou Deus, quis que Vance ocupasse os últimos dias de Francisco. Primeiro obrigando-o à refutação da sua ordem do amor, à qual aderiu publicamente também o cardeal Prevost. Depois, levando-o a receber a sua némesis, poucas horas antes de morrer, num não cruzar de olhares que dizia mais do que qualquer palavra. Agostinho, o africano, relata nas Confissões que, jovem e céptico professor de retórica, em 384 chega a Milão para encontrar o bispo Ambrósio, animador da comunidade cristã perseguida.

Com espanto, descobre-o a percorrer em silêncio as Escrituras: «Quando lia, o olhar corria pela página e o intelecto perscrutava o significado; voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes ficávamos encerrados num longo silêncio e quem ousaria perturbar tal recolhimento? E víamo-lo sempre ler daquela forma silenciosa, nunca de outro modo» (Confissões, 6,3). Na época, e ainda durante séculos, os poucos letrados, sobretudo em ambientes partilhados, liam em voz alta. Um acto de generosidade para com o próximo, muitas vezes iletrado. Hoje, distingue-se uma biblioteca pelo som do silêncio. Naquele tempo, cruzavam-se vozes. A leitura comunicada, ou seja, transmitida em comunidade, era regra e assim permaneceria até ao início do segundo milénio. A leitura silenciosa ou murmurada exclui o próximo. Daí o desconforto de Santo Agostinho. Esta figura patrística, cara a Bento XVI que no seu íntimo solidificava com o ambrosiano ruído do silêncio é trazida pelo psicanalista Luigi Zoja como exemplo da deriva que nos afasta do próximo para nos fecharmos em nós próprios. Fala-se pouco.

O verbo afastou-se dos (virtuais) falantes, substituído pela tecnologia. Com os seus engenhos dedicados ao ego, o “I” inglês: iPhone, iBook, iPod, iPad. Égoïste é o perfume que a Chanel promove como retrato olfactivo de um homem de carácter, fascinante e inatingível. Assistimos ao colapso do “nós”, à morte do próximo, consequência da morte de Deus? O cristão está autorizado a pensar assim por dedução do Evangelho de Marcos (12:28-31), que atribui a Jesus o breve resumo dos mandamentos, ou seja, do amor; primeiro, «O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração»; segundo, «Ama o teu próximo como a ti mesmo». Dois amores encadeados por paradoxo e intenção. Mas onde está o próximo hoje? A distância entre os humanos, animais sociais por constituição, cresce. A tal ponto que compromete o próprio sentido das sociedades, sobretudo mas não só ocidentais. Uma condição antinatural. Um darwinismo anti-social que fragmenta as comunidades. Palavra-programa que une cum e munus, “juntos” e “tarefa”. De tarefas partilhadas há pouca memória.

Pode-se escrever direito por linhas tortas. Mas sem Deus (no sentido próprio de Nietzsche), sem próximo (na abertura ilimitada de Jesus) e sem projectos comuns, ordenar o caos é utopia. Eis a dupla crise de sentido da Igreja e da América, que desencadeia uma competição identitária e geopolítica dentro e entre colectividades em atomização. Está em jogo a razão de viver. Vence, ou pelo menos não se perde, o pastor que melhor reagrupa as suas ovelhas dispersas. É sobre isto que versa a disputa em torno da ordem do amor. Igreja e América enfrentam de forma oposta o desafio do declínio. Na sua ênfase sinodal, Leão XIV associa Santo Inácio de Antioquia, conduzido em cadeias ao martírio como “Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir o meu corpo” (Carta aos Romanos, IV, 1). Referia-se a ser devorado pelas feras no circo e assim aconteceu mas as suas palavras evocam, num sentido mais geral, um compromisso irrenunciável para quem exerce um ministério de autoridade na Igreja como desaparecer para que permaneça Cristo, tornar-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (João, 3,30). Depois de Leão Magno, Leão o Pequeno?

À Igreja introvertida e em cisão não servem grandes papas, que no melhor dos casos encobrem a sua doença. É preciso redescobrir o sentido da comunhão, hoje em risco. Na sua elevada ideia de si, Trump torna-se omnipresente e omnifalante. Incensa-se como mega presidente para tornar a América grande novamente. Os católicos neotradicionalistas que o aplaudem não se preocupam em ser menos do que aparentam. Mas quem, feroz no seu estéril progressismo, ridiculariza a insipiência doutrinal de Vance e associados, glorifica-se a si próprio e aposta que a contra-revolução trumpista é um parêntese deplorável, acabando em fora de jogo. Na Igreja, na América, em todo o Ocidente até nas potências rivais, a privação do contacto com o próximo é insuportável à existência. Não importa se por direito ou por dever, o ser humano procurará sempre o vizinho, sofrerá se não o encontrar. Partilhamos a conclusão de Zoja, para juntos procurarmos uma resposta de que em qualquer lugar, em qualquer época, a distância sempre foi um obstáculo ao amor, porque deveria a nossa ser diferente? Pode-se realmente amar ou apenas conhecer aquilo que está longe? E só o conhecimento permite, ao menos, ser justo? Nada o demonstra.

28 Ago 2025

Tendo em mente a história e construindo juntos um futuro promissor

Por Liu Xianfa*

Este ano assinala-se o 80º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e Guerra Antifascista Mundial. A Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e a Guerra Antifascista Mundial são batalhas decisivas entre o bem e o mal, a luz e as trevas, e o progressista e o reaccionário. De 1931 a 1945, o povo chinês, tendo lutado tenazmente durante 14 anos, conquistou a grande vitória da sua Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa e a vitória completa da Guerra Mundial Antifascista com todos os povos amantes da paz do mundo. Este ano marca também o 80º aniversário da recuperação de Taiwan da ocupação japonesa. A recuperação de Taiwan à China é um resultado vitorioso da Segunda Guerra Mundial, uma parte integrante da ordem internacional do pós-guerra, e uma grande vitória de todo o povo chinês, incluindo os nossos compatriotas em Taiwan, através dos seus esforços sucessivos e batalhas sangrentas.

O papel fundamental do Partido Comunista da China é a chave para a vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa

Ao longo de todo o curso da guerra, o Partido Comunista da China esteve sempre na linha da frente e assumiu as suas responsabilidades, exercendo uma forte liderança política e impulsionando a formação de uma corrente histórica de resistência de toda a nação. A China é o principal campo de batalha oriental na Guerra Antifascista Mundial. A Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa foi uma parte importante da Guerra Mundial Antifascista e contribuiu decisivamente para a vitória da Guerra Antifascista Mundial. Nessa guerra devastadora, a Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa começou mais cedo, durou mais tempo, derrotou o maior número de inimigos e fez o maior sacrifício. Em 1931, os imperialistas japoneses lançaram descaradamente um ataque à cidade de Shenyang encenado pelo Exército de Kwantung japonês, conhecido pelo Incidente de 18 de Setembro, que é 8 anos antes da blitzkrieg da Alemanha nazi na Polónia e 10 anos antes do Ataque a Pearl Harbor. Nessa altura, os soldados e civis chineses já tinham disparado o primeiro tiro na Guerra Antifascista e lutado incansavelmente nas planícies geladas do nordeste da China ocupada. Durante os dias mais negros da Guerra de Resistência, a China imobilizou quase 70% do Exército Japonês e, assim, ajudou as forças Aliadas noutros teatros a obter oportunidades estratégicas vitais. Durante os 14 anos de guerra, o povo chinês fez enormes sacrifícios nacionais e pagou um preço elevado. De acordo com estatísticas incompletas, o número de vítimas dos militares e civis chineses ultrapassou os 35 milhões, representando aproximadamente um terço do total de vítimas durante a Segunda Guerra Mundial. A perda económica directa foi de mais de 100 mil milhões de dólares americanos, e a perda económica indirecta de mais de 500 mil milhões de dólares americanos.

Macau nunca se ausenta desta Guerra e luta lado a lado com a pátria durante todo o tempo

Todos os sectores da sociedade de Macau não pouparam esforços e ultrapassaram todas as dificuldades para prestar ajuda, como alojamento, alimentação e cuidados médicos, a um grande número de compatriotas deslocados pela guerra. Figuras patrióticas de Macau, como o Sr. Ma Man-kei, Sr. Ho Yin e Dr. Ke Lin, romperam os pesados bloqueios dos invasores japoneses e enviaram mantimentos e fundos para a linha da frente. Uma legião de jovens apaixonados de Macau partiu sem hesitação para as frentes de batalha no Delta do Rio das Pérolas, no Dongjiang e noutras zonas. Os grupos patrióticos angariaram enormes somas de dinheiro para apoiar os soldados na linha da frente e fizeram grandes esforços para promover a publicidade da Guerra de Resistência. A Cantata do Rio Amarelo, composta pelo músico do povo de origem de Macau, Sr. Xian Xinghai, fez soar o rugido do perigo nacional e tornou-se a voz mais forte da salvação nacional. A história nunca esquecerá os contributos indeléveis feitos por Macau para a independência nacional e a libertação do povo chinês, nem esquecerá o profundo sentimento de patriotismo e de rectidão nacional dos compatriotas em Macau.

Adotar uma perspetiva histórica correta, que seja pacífica, justa, abrangente e objetiva, sobre a história da Segunda Guerra Mundial

A história não pode ser adulterada e os factos não devem ser apagados. Mesmo hoje, movidos por interesses geopolíticos, existem alguns países e políticos que ainda tentam ignorar os factos históricos, minimizando intencionalmente as importantes contribuições da China para a Segunda Guerra Mundial como o principal campo de batalha oriental, embelezando o domínio colonial e até mesmo negando directamente a história da agressão fascista e dos crimes brutais cometidos pelo exército japonês. Tais actos desprezíveis e vergonhosos representam desafios à Carta das Nações Unidas, à ordem internacional do pós-guerra, à consciência humana e aos povos de todas as nações vitoriosas. Os 1,4 mil milhões de chineses jamais tolerarão qualquer tentativa de manipulação da história da Segunda Guerra Mundial. A China, junto aos povos amantes da paz em todo o mundo, lutará até ao fim contra todos os actos ilícitos que distorcem, glorificam ou negam a história da agressão e, em conjunto, salvaguardarão a verdade histórica e defenderão a paz mundial.

Unir para a construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade

O sistema internacional com as Nações Unidas como seu núcleo é uma reflexão concentrada da vitória da Segunda Guerra Mundial, e serve de pedra basilar para a ordem internacional do pós-guerra. Como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a China sempre é uma força indispensável e importante na manutenção da paz mundial. A China nunca seguirá o antigo caminho de alguns países que alcançaram a modernização através da guerra, da colonização e da pilhagem. Em vez disso, a China permanecerá firmemente do lado certo da história e do progresso da civilização humana, e manterá bem alta a bandeira da paz, do desenvolvimento, da cooperação e de resultados mutuamente benéficos. As propostas da China para a construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade e outros conceitos e iniciativas importantes são uma continuação e um desenvolvimento da valiosa experiência da vitória na Segunda Guerra Mundial e contribuíram com a sabedoria e as soluções chinesas para a promoção da paz e do desenvolvimento humanos. A China trabalhará inabalavelmente com a comunidade internacional para praticar a visão de governança global de ampla consulta e contribuição conjunta para benefício compartilhado, implementar a Iniciativa de Segurança Global, a Iniciativa de Desenvolvimento Global e a Iniciativa de Civilização Global e, construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Como o Presidente Xi Jinping salientou, “A guerra é como um espelho, Olhar para ele ajuda-nos a apreciar melhor o valor da paz”. Devemos aprender com a história, especialmente com as duras lições da Segunda Guerra Mundial, extrair sabedoria e força da grande vitória da Guerra Mundial Antifascista e fortalecer a nossa determinação em salvaguardar a paz e consolidar a segurança para, em conjunto, construirmos um futuro mais brilhante para a humanidade. Acreditamos que todos os sectores em Macau levarão adiante com firmeza a nobre tradição patriótica e o grande espírito da Guerra de Resistência, contribuindo assim para o desenvolvimento constante e abrangente do princípio de “um país, dois sistemas”, para a concretização da reunificação completa da Pátria e para o grande rejuvenescimento da nação chinesa!

*Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China na Região Administrativa Especial de Macau

27 Ago 2025

Barriga de aluguer robótica (I)

Realizou-se este ano na China continental o Mundial de Jogos Robóticos, com a apresentação de competições de badminton, basquetebol e provas de velocidade disputadas entre robots. Estas inovadoras conquistas tecnológicas foram surpreendentemente ofuscadas por outra novidade: a barriga de aluguer robótica.

Em Agosto, vários meios de comunicação divulgaram a notícia de que investigadores de uma reputada instituição universitária de Singapura, em colaboração com outras instituições, estavam a trabalhar no primeiro robot que pode vir a funcionar como barriga de aluguer: o “Robot Mãe.” Se for bem-sucedido, o Robot Mãe pode vir a dar à luz um bebé.

O Robot Mãe mede 1,65 m e tem a aparência de uma mulher. A inovação implica o implante, no local correspondente ao útero, de um sistema de fertilização baseado em bio-engenharia e inteligência artificial. Posteriormente, serão inoculados esperma e óvulos, ocorre a fertilização e o Robot-Mãe pode “dar à luz” um bebé.

Informação disponibilizada online indica que o Robot Mãe poderá custar cerca de 100.000 RMBs. A Sequoia Capital e o conglomerado Tencent já investiram 230 milhões de RMBs no projecto. Espera-se que o Robot Mãe seja lançado este ano.

O Robot Mãe terá um útero humano. Desde há muito que se desenvolvem pesquisas sobre úteros artificiais num hospital de Filadélfia, EUA. O sistema, chamado “Extend”, consiste numa bolsa biológica que contém um fluído esterilizado e pode alojar um embrião e tubos que lhe fornecem nutrientes e oxigénio. Em 2017, o hospital fez uma experiência com o embrião de uma ovelha, num estado de desenvolvimento equivalente a um embrião humano de 23 a 24 semanas, e o cordeirinho nasceu após quatro semanas no hospital.

Em 2021, o First Affiliated Hospital da Universidade de Zhengzhou, na China, efectuou uma experiência semelhante com sucesso, também através do implante de embriões de ovelhas em úteros artificiais.

A 19 de Setembro de 2023, o US Food and Drug Administration realizou uma reunião de consultoria independente para discutir a eventual aprovação da primeira clínica mundial destinada a testar a tecnologia de “úteros artificiais” para a gestação de seres humanos.

Para que um útero artificial possa funcionar, tem de manter uma temperatura constante, fornecer oxigénio e nutrientes, eliminar as fezes e impedir infecções. Com as actuais tecnologias, é possível manter uma temperatura constante, mas os outros requisitos têm de ser aperfeiçoados gradualmente. Portanto, o lançamento no mercado do Robot Mãe no próximo ano vai depender dos avanços tecnológicos que puderem ser obtidos para maximizar as cinco funções do útero humano.

Pessoas mais perspicazes já perceberam que quando as pesquisas para o Robot Mãe começarem, implicarão mudanças sociais significativas e controvérsia. Se um ser humano nascer de um Robot Mãe, a primeira pergunta será quem vai pagar “as despesas do parto?” E a quanto montarão essas despesas”?

A primeira resposta é fácil, serão naturalmente os pais da criança. O principal motivo que os levará a recorrer a este método será qualquer problema de saúde que impede a mãe de engravidar e, após aconselhamento médico, recorre à ajuda do Robot Mãe. Se o embrião que cresce dentro do Robot Mãe for o resultado da inseminação do óvulo da mãe biológica pelo esperma do pai, não haverá provavelmente grande controvérsia.

Mas se este embrião não for originado pelo material genético do casal? O que acontece a seguir? Por exemplo, se um casal doar o esperma e os óvulos e depois o homem morrer num acidente e mais tarde a mulher voltar a casar com outro homem, poderá o novo esposo herdar o estatuto e os direitos parentais do pai biológico?

Um cenário ainda mais complexo envolve um pai solteiro ou uma mãe solteira, dois homens, ou duas mulheres que terão de usar óvulos ou esperma de uma terceira pessoa para dar origem ao embrião que vai crescer no “ventre” do Robot Mãe e que depois terá de ser adoptado.

Em qualquer dos casos, a lei é fundamental. Deve regular o seguinte:

1. A utilização do Robot Mãe é legal?

2. Se for legal, podemos usar o Robot Mãe?

3. Como é que uma empresa de Robots Mães deve operar.

Na próxima semana, abordaremos detalhadamente estas três questões.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

26 Ago 2025

Jornalistas desprezados

O país continua a arder. As chamas não dão tréguas. Um ex-autarca e candidato a presidente de uma Junta de Freguesia, de 40 anos, estava a tentar combater as chamas e salvar animais na sua aldeia morreu carbonizado. Cinco bombeiros da Covilhã a caminho do combate às chamas viram o carro tombar numa ravina e um dos bombeiros morreu, outro, luta pela vida em estado grave e três estão feridos no hospital. Um operador de máquinas de arrasto com larga experiência morreu quando realizava combate às chamas na zona de Mirandela. Um carro de bombeiros foi engolido pelas chamas e enquanto ardia por completo os soldados da paz conseguiram fugir resultando um bombeiro ferido gravemente.

Milhares de moradores de aldeias e vilas combatem os incêndios à porta das suas casas com baldes e pequenas mangueiras sem qualquer apoio aéreo ou por falta de bombeiros que não são suficientes para atender a todo o lado. Os moradores desabafam paras as televisões que o inferno nunca visto tem como culpados os criminosos incendiários, uns doentes mentais, outros pagos e os governantes que nos últimos anos não levaram a efeito o planeamento que há muito está delineado para reduzir a catástrofe. No funeral do bombeiro da Covilhã que faleceu, o primeiro-ministro foi apupado e gritaram “Vai-te embora! Não mereces estar aqui!”. Portugal não possui nem um avião Canadair para o combate eficiente às chamas. Dezenas de casas arderam e vários hectares de produtos agrícolas desapareceram.

A ministra da Administração Interna, antiga provedora de Justiça, não possui a mínima ideia do que é combater um incêndio e, em princípio, chamou os jornalistas para uma conferência de imprensa. Depois de proclamar umas baboseiras e limitar-se a anunciar que o estado de alerta iria continuar, quando os jornalistas se preparavam para confrontar a ministra com várias perguntas pertinentes, a governante disse: “Vamos embora!”. Absurdo, insolente, revoltante a atitude da ministra ao desprezar os jornalistas. Muitos deles que têm arriscado a vida em reportagem no meio das chamas, obrigados a fugir, dia e noite a comer e dormir sem condições. A atitude da ministra já mereceu o apelo da maioria dos portugueses ao primeiro-ministro para a demitir. Luís Montenegro faz ouvidos de mercador e depois de se pôr a nadar nas ondas do mar algarvio e de realizar a festa do Pontal enquanto o país ardia, as redes sociais foram palco dos maiores insultos ao chefe do Executivo obrigando-o a interromper as férias e a mostrar que estava preocupado com a situação de tragédia no país. O Governo tem sido igualmente criticado por não ter pedido apoio europeu quando o drama estava no auge.

Os incêndios têm sido devastadores. Muitas habitações de uso permanente arderam, os idosos são evacuados para pavilhões desportivos ou para instalações das Juntas de Freguesias. A logística de apoio à alimentação dos bombeiros e dos militares da GNR tem sido muito deficiente. A coordenação entre a Proteção Civil e os bombeiros não existe e o presidente da Liga dos Bombeiros já reivindicou um comando nacional autónomo para os bombeiros combaterem os incêndios. Pensamos que o presidente da Liga dos Bombeiros anda a falar para o boneco.

Na televisão temos assistido aos mais diversos especialistas sobre ordenamento do território, sobre soluções para o planeamento futuro de soluções positivas, sobre o que está errado na floresta portuguesa. E por que razão o Governo não chama esses especialistas e reúne com eles para que em Outubro se iniciassem já acções tendentes a resolver muito do que não está certo e que tem colocado a vida de milhares de portugueses em risco? Seria urgente ouvir essa gente para depois agir em conformidade.

Os bombeiros em número insuficiente estão exaustos. Caem no chão e dormem uns minutos, desidratados e, por vezes, a água não existe. Nas aldeias nem água nem electricidade. As intervenções dos responsáveis pela Proteção Civil nunca registam esses dramas e, muito menos, encontram soluções. É o deixa arder e fé em Deus. Não pode continuar a ser assim. Algo tem de mudar drasticamente, caso contrário, para o próximo ano teremos a mesma cena. O povo está triste, desolado, sem confiança nos políticos e, mais uma vez, quem aproveita disto tudo é a demagogia e o populismo do Chega. Ventura tem cada vez mais boa imprensa e não há um dia que não apareça na televisão a proferir aquilo que os desolados gostam de ouvir. É assim que aumenta o número de votantes. Os democratas vão gozar férias para a praia e nem se apercebem do mal que estão a fazer a eles próprios e aos seus partidos para um futuro a curto prazo quando chegarem mais eleições.

Não se gastam milhões de euros a evitar estas tragédias, mas continua-se a admitir o gasto astronómico de milhares de milhões de euros num aeroporto em Alcochete, quando o aeroporto de Beja podia resolver o problema. De tal forma é assim, que muitas equipas de futebol nas suas deslocações para competições europeias já partem e chegam usando o aeroporto de Beja. E isto, sem existir um pequeno empreendimento que ligasse Beja a Lisboa e vice-versa de TGV. Assistimos a governantes preocupados com os milhões de euros que têm de enviar para a Ucrânia e não há dinheiro para salvar os portugueses.

A revolta do povo atingido pelos incêndios é enorme e perto de Seia-Covilhã ouvimos um desabafo de um morador que diz tudo: “Se apanhasse aqui algum político atirava-o para o meio das chamas!”. A situação é grave, gravíssima e ficamos com a ideia que os responsáveis estão completamente impotentes para resolver o problema.

As cartas abertas ao primeiro-ministro têm sido inúmeras. Tivemos acesso a uma carta escrita pelo cidadão Mário Gonçalves, na qual a dado passo, refere que: “Escrevo-lhe em nome da revolta, da indignação e do mais profundo desprezo pelo espectáculo a que assistimos nos últimos dias. Enquanto o País ardia, enquanto famílias perdiam casas, memórias e vidas, enquanto bombeiros se arrastavam exaustos no terreno a lutar contra as chamas incontroláveis, V. Exa apareceu em público a falar de “esgotamento”. Esgotado de quê, senhor Primeiro-Ministro? De farras, de praia, de inaugurações inúteis e de discursos vazios? Esgotados estão os bombeiros que, com meios insuficientes, dormem no chão, comem quando podem e arriscam a vida diariamente. Esgotadas estão as famílias portuguesas que veem arder aquilo que construíram com o suor de uma vida inteira. Esgotado está um povo que tem de aturar a sua indiferença mascarada de encenação política”.

25 Ago 2025

O Papa Americano (III)

(Continuação da edição de 14 de Agosto)

O europeísmo brota de forma tangível do catolicismo euro-ocidental e começa a declinar quando, graças também ao impulso do papa polaco, os «dois pulmões» do continente atravessado pela cortina de ferro, unindo-se com a mão esquerda num casamento morganático, descobrem ser demasiado diferentes. Nacionalismos absolutos e particularismos mesquinhos afligem tanto o continente geopolítico quanto a Igreja na Europa, em balcanização pela ênfase em si mesmas das conferências episcopais individuais. Em busca do cada vez menor e, portanto, mais puro. Antítese do lema agostiniano escolhido por Leão XIV «In Illo uno unum (Naquele que é Um, nós somos um)». Não é uma constatação. É um acto de fé. Os mártires pré-constantinianos diagnosticariam hoje a Lua/Igreja em fase avançada de declínio, mas confiantes no próximo ciclo gerador, finalmente iluminador. Muito diferente do clima sombrio de hoje. Actualmente, os católicos de pouca fé ou excessiva racionalidade descobrem a Igreja morta na Europa. Justamente enquanto em várias regiões do «Sul Global», especialmente na África graças ao impulso demográfico e nas Américas, os católicos crescem também em termos de influência político-cultural.

Mas é lei física a que observa na dilatação espacial a diluição da coerência em qualquer colectividade ou instituição, no caso católico (Santa Igreja Romana) e laico (União Europeia). A difusão de liturgias inerentes ao genius loci específico expressa a heterogeneidade cultural que às vezes torna difícil para um católico reconhecer-se noutro católico. Se a Igreja europeia esgota a sua força propulsora, para o Ocidente é o golpe de misericórdia. Esta é, pelo menos, a tese do cardeal Christoph Schönborn, colosso da aristocracia clerical da Europa Central e teólogo dominicano, aberto à tradição durante os seus trinta anos como arcebispo de Viena, que terminaram em Janeiro passado por (prorrogação) do limite de idade. Na conferência de 3 de Fevereiro de 2010 na Catholic University of America, este íntimo de Ratzinger e depois cauteloso apoiante de Bergoglio revela as suas cartas já no título «Cristianismo, presença alienígena ou fundamento do Ocidente?». Resposta: «Ambas as coisas». De facto, «o cristianismo é uma das raízes da Europa». Mas «para muitos, é um elemento estranho num mundo determinado pela razão, pelo iluminismo e pelos princípios democráticos». Conclusão: «Esta Europa, e todo o mundo ocidental, não sobreviverá sem essa estranheza trazida pelo cristianismo».

No sentido explorado por Diogneto, antecipado pelo mandamento paulino na Carta aos Romanos «Não vos conformeis com este mundo» (Rm 12,2). Este príncipe inclassificável da Igreja inscreve-se na corrente do catolicismo dos Habsburgos, já bastião da reacção às «novidades francesas» denunciadas por Novalis no clássico “A Cristandade ou a Europa” ou seja, a Europa (1802), mas único império europeu a não se manchar com o pecado colonial a menos que se considere colónias o conjunto balcânico e centro-europeu pertencente a Viena. Neste contexto, emergem no século XX personalidades de elevada cultura quase morbidamente apegadas à ideia da Europa, como podiam ser logo após a Guerra Fria os «salvos» do segundo pulmão, forçados durante meio século na gaiola soviética e, por isso, rebaixados a «Oriente». Rede informal geopolítico-espiritual verticalizada com Karol Wojtyła de Wadowice, perto de Cracóvia, papa imediatamente santificado. O nome foi-lhe imposto pelo pai, que serviu no exército imperial-real, em memória de Carlos I, último Kaiser Habsburgo, beatificado em 2004 por João Paulo II.

Outro expoente notável dessa linhagem é o cardeal Péter Erdö, arcebispo de Budapeste e primaz da Hungria, em quem a ala conservadora minoritária, liderada pelo cardeal americano Timothy Dolan, arcebispo católico, da Arquidiocese de Nova Iorque e outros cardeais não apenas americanos, apostou como candidato de bandeira no conclave que convergirá para Prevost. Vice-papa virtual, à frente do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, na votação final dos cardeais. Para ele, «sem a Europa, a Igreja perde o seu coração». Não sabemos se J.D. Vance, o extrovertido vice de Trump, ansioso por sucedê-lo, já visitou a basílica de São Francisco de Assis em Arezzo. Se não o fez, é de ousar sugerir-lhe que o faça. Aqui poderá espelhar-se no Sonho de Constantino, o maravilhoso afresco de Piero della Francesca. Quase amanhecendo nocturno no campo romano, no final de Outubro de 312. O imperador jaz sonhador sob a tenda do seu acampamento perto de Ponte Mílvia, onde está prestes a derrotar o rival Maxêncio. Envolto na luz mística cara a Piero, limiar entre a sombra moribunda e os raios nascentes de Cristo, um anjo estende a cruz cujo sinal Constantino vencerá. Origem da virada iniciada pelo imperador-bispo no Concílio de Niceia, do qual se comemora o décimo sétimo centenário.

Selado em 28 de Fevereiro de 380 por édito do imperador Teodósio I, que decreta a fé em Cristo como religião do Estado. Romanização do cristianismo e cristianização do império. Um anjo deve ter aparecido também a Vance, que, em analogia com Constantino, sonha com a americanização do catolicismo e a conversão da América à religião do papa Americano. O evangelho segundo J.D. é instrumentum regni. Suplemento de alma para a América pós-liberal, nostálgica dos “Roaring Forties and Furious Fifties”, idade augusta do império das estrelas e listras. À espera da parusia de Elvis. Na hipotética exegese vansiana do “Mysterium Lunae”, a América seria assimilada à Igreja «lunar», iluminada pelo Sol divino. Sobre a função estratégica desta visão converge a tribo católica em expansão entre os líderes MAGA. Exuberante ramificação do trumpismo que postula a fecundação recíproca entre o Estado e a Igreja para maior glória do primeiro.

Entre esses apóstolos, muitos convertidos, quorum Vance. Inspirados na encíclica “Longinqua Oceani” (1895) de Leão XIII, segundo a qual a Igreja Católica americana «daria frutos ainda mais abundantes se, além da liberdade, gozasse também do favor das leis e da protecção do público». O sonho de Vance é que Leão, o americano, possa celebrar as núpcias entre os Estados Unidos e a Igreja. Talvez por acordo. Rede a ser estendida a países consentâneos. Para uma Internacional dos nacionalistas, aberta ao Ocidente estratégico, do qual os Estados Unidos são o fulcro. E sensível à cor da pele, preferencialmente branca. Super MAGA que unirá as nações que quiserem aderir, seguidores da Lua com estrelas e listras. O neoconstantinismo com esteróides visa o equilíbrio de poder entre Estados em competição mutuamente legitimados a proteger os seus próprios interesses. Partidas a regular no mercado em que cada actor joga e troca cartas próprias com as dos outros.

É claro que são viciadas. É tudo um acordo. Trump tentou em vão explicá-lo a Zelensky no confronto na Casa Branca, em 28 de Fevereiro passado: «Não tem as cartas!». Entre os sócios fundadores da coligação vansiana destacam-se personalidades de ascendência neoconservadora, como o secretário de Estado Marco Rubio, o mais influente depois de Vance entre os nove expoentes da patrulha católica que anima o governo federal.

20 Ago 2025

Reformas para todos os gostos

Uma notícia recente desencadeou uma discussão acalorada. Uma americana de 77 anos assinou um contrato de 15 anos com uma empresa de cruzeiros, pagando aproximadamente 3.000 US dólares mensais para viver a bordo e viajar durante esse período por 147 países. Investiu todas as suas poupanças numa viagem pelos mares, comprando o tempo da sua liberdade.

Entretanto, surgiu em Hong Kong a moda da “micro-reforma”. Um estudo realizado no passado mês de Maio, conduzido pela T. Rowe Price, uma empresa global de gestão de activos e gestão de investimentos para a aposentação, revelou que 47 por cento dos reformados preferem continuar a trabalhar em tempo inteiro ou em tempo parcial, mas com uma alteração do estilo de vida. Os micro-reformados já não encaram o trabalho como o centro das suas vidas, mas sim como um suplemento algo que pode alegrar os seus dias.

O outro modelo tradicional de aposentação é a “reforma a tempo inteiro”. As pessoas deixam o trabalho para trás e dedicam-se a tomar conta dos netos, a fazer compras, a almoçar com os amigos, desfrutando de uma reforma tranquila no seio da família e da comunidade.

A americana que passou a viver num cruzeiro comprou a sua liberdade, os seniores de Hong Kong passam a ter um trabalho flexível para terem controlo sobre as suas vidas e aqueles que se reformam completamente dedicam-se à família e à comunidade. Embora estes modelos difiram na forma, partilham três pilares:

Primeiro, a necessidade de reservas financeiras suficientes. A americana paga pelo quarto no cruzeiro cerca de 360.000 dólares norte-americanos por ano, um valor que pode representar uma grande pressão na sua estabilidade financeira. Dados do Hong Kong Institute of Financial Planners relativos ao quarto trimestre de 2023 mostram que os gastos médios mensais de um reformado atingem os 14.700 dólares de Hong Kong, ao passo que os mais gastadores chegam aos 23.671. Enquanto os micro-reformados podem contar com um salário, ainda precisam de avaliar se as suas poupanças e o rendimento passivo podem cobrir as despesas quando o salário desaparecer. Embora os reformados a tempo inteiro não tenham à partida despesas com viagens, não devem subestimar custos imprevistos como despesas de saúde e a inflação.

Em segundo lugar, devem estar psicologicamente preparados para a mudança de vida. A americana reinventou-se como uma “viajante de longa duração,” os micro-reformados conservam parte da sua identidade profissional que funciona como uma âncora psicológica e os reformados a tempo inteiro assumem o papel de “avós domésticos”. O cerne dessa transformação assenta na valorização pessoal. Tal como um professor reformado que volta a dar aulas não está só à espera de receber um salário, mas sim o respeito dos alunos e o reconhecimento pelo seu saber. Frequentemente, a realização espiritual alimenta mais uma pessoa idosa do que as recompensas financeiras.

Em terceiro lugar, à medida que envelhecemos, os problemas de saúde começam a surgir. Continuar a trabalhar, não só mantém a motivação, mas também ajuda a desacelerar o envelhecimento da mente. A saúde faz falta a todos. Exercício regular, uma dieta equilibrada e qualidade de sono são coisas que os reformados priorizam. Só quando temos saúde podemos desfrutar da reforma em pleno.

A sabedoria do planeamento da reforma passa por transformar o trabalho de uma “necessidade” para o “condimento da vida” e transformar o “trabalho forçado” num “direito de escolha.” Um plano de aposentação bem pensado nunca passa por ter de escolher entre trabalhar ou não, mas sim por encontrar o equilíbrio perfeito entre as duas opções. Para que isto aconteça são necessárias reservas financeiras suficientes, aceitação da alteração do papel que desempenhamos e saúde para alcançarmos “uma reforma activa e uma reforma sem fadiga,” realizando com sucesso o segundo estádio da vida.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

19 Ago 2025

Beatas eternas

Não, não vou escrever sobre as beatas que frequentam as sacristias das igrejas e que se insinuam junto dos sacerdotes para provocar sexo, porque, isso, daria uma crónica muito polémica e não vou por aí. Venho salientar o que se passa de norte a sul por todas as cidades, vilas e aldeias deste país sobre as beatas dos cigarros consumidos pelos fumadores.

As beatas dos cigarros chegam a levar entre 10 a 12 anos para se deteriorar na natureza nunca chegando a decompor-se na totalidade. E se os filtros das beatas tiverem plástico, as beatas levam mais de 100 anos a desaparecer. Durante esse período, as beatas libertam substâncias químicas tóxicas no solo e na água, contaminando o meio ambiente e prejudicando a vida selvagem e urbana. Já não consideramos o facto de os fumadores prejudicarem a sua saúde, cada um toma a decisão que pretender. Mas os fumadores têm de compenetrarem-se deste facto grave que são as beatas serem atiradas para o chão ou para a água.

Em qualquer cidade, vila ou aldeia podemos ver beatas no chão. São aos milhões. Bem sabemos que alguns cafés não colocam cinzeiros nas mesas das esplanadas, apesar de já haver pessoas que possuem o seu cinzeiro de reduzida dimensão para colocarem as suas beatas que mais tarde atiram para o lixo. Muitas vezes os cidadãos estão a andar pelas ruas, passam por um recipiente próprio para colocarem as beatas e atiram-nas para o chão. Estão no exterior de um bar na conversa e atiram as beatas para o chão. Encontram-se a passear de barco e atiram as beatas para a água. Vão para a praia e enfiam as beatas na areia ou atiram-nas para o mar. Vão a conduzir automóvel fumando e no fim atiram as beatas pela janela tendo cinzeiro no carro. Estão num piquenique em zona florestal e atiram as beatas para qualquer lado, esquecendo-se do perigo de se iniciar um incêndio. As ruas estão cheias de milhões de beatas. Em conversa com um trabalhador municipal que limpa as ruas, este disse-nos que é praticamente impossível recolher todas as beatas porque algumas encontram-se entre as pedras das calçadas.

As beatas são um prejuízo grave para o meio ambiente e para a saúde dos humanos. A maioria dos fumadores tem de se compenetrar que tem de mudar o seu hábito de atirar as beatas para o chão ou para as águas de um rio ou do mar. É um gesto de civismo e de solidariedade pela saúde do próximo se o fumador não colocar as beatas em recipientes próprios para o efeito. Parece um facto de menos importância, mas não o é. Grave é termos milhões de beatas pelas ruas a céu aberto. Um especialista em assuntos do meio ambiente transmitiu-nos que um dos piores males para a saúde de quem vagueia pelas ruas é a existência de milhares de beatas na sua cidade, vila ou aldeia. Este paradigma é importante que seja paulatinamente mudado e que os fumadores deixem de atirar as beatas para onde não devem.

Segundo o Programa de Monitorização de Portugal Continental promovido pela Agência Portuguesa do Ambiente, em 2022, as beatas e os filtros de cigarros ocuparam o terceiro lugar no top 10 do lixo marinho, correspondendo a 13,1% de todo o lixo apanhado. Leiam bem: estima-se que por minuto sejam atiradas 7000 beatas para o chão. As beatas de cigarro são a parte que resta após os cigarros serem fumados. São constituídas por restos de tabaco e um filtro. Os restos de tabaco contêm cerca de 4000 substâncias químicas, das quais mais de 50 são comprovadamente cancerígenas. Dir-me-ão que conhecem fumadores com 80 anos de idade e que fumam um maço por dia e não apanharam cancro. E nós respondemos que também já morreram pessoas fumadoras, com 40 e 50 anos, e que os médicos diagnosticaram que o cancro contraído se deveu ao tabaco.

Acontece que, os filtros incluem uma parte central de acetato de celulose (uma fibra sintética que parece algodão, mas é constituída essencialmente por plástico e daí, a possibilidade de poder levar 100 anos a desfazer-se), envolvida em duas camadas de papel ou outras fibras sintéticas. Enquanto o cigarro é fumado, os filtros acumulam parte dos poluentes presentes no fumo. Quando as beatas se degradam, os filtros libertam esses poluentes, como por exemplo, a nicotina e metais pesados como o ferro e o cobre. Uma beata de cigarro pode contaminar até seis litros de água. Pensamos que se trata de um assunto sério e a ter em conta, que não podemos continuar a atirar com as beatas para o chão ou para a água. É um apelo que deixamos aos potenciais fumadores, que pensem duas vezes antes de se desfazerem da beata que têm nos dedos. Para o chão, para o rio ou para o mar, por favor, não!

P. S. – A nossa solidariedade por quantos em Macau foram prejudicados pelas recentes e graves inundações que se registaram na RAEM.

17 Ago 2025

Teme-se um inverno muito frio

Depois de ter enviado o artigo “Mega-terramoto” para o jornal Hoje Macau, recebi a notícia de que Ron Lam U Tou, actual deputado da Assembleia Legislativa, tinha sido desqualificado este ano para a corrida à 8 ª eleição legislativa por  sufrágio directo. Pensei que como Ron Lam U Tou tinha passado na avaliação da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL) para a 7ª eleição à Assembleia Legislativa em 2021, e tendo em conta o seu desempenho como deputado ao longo de quatro anos, e a sua conduta, também como colunista de um certo periódico, tudo estaria normal.

Um colunista de um jornal local chegou mesmo a declarar, antes de saber da desqualificação de Lam U Tou, “a lista de candidatura “Poder da Sinergia” tem fortes possibilidades de eleger dois deputados no escrutínio de 2025. De facto, muitos acreditam que. Ian Heng Ut, o segundo candidato da lista ‘Poder da Sinergia’, é hábil, pragmático e apresenta em profundidade e detalhadamente os seus argumentos. Depois de Agnes Lam se ter retirado da corrida à eleição por  sufrágio directo, os 3.729 votos que tinha recebido poderão ser deslocados para a ‘Associação da Sinergia de Macau’. Com os 8.700 votos que a ‘Associação da Sinergia de Macau’ já tinha assegurado, se conseguir mais estes 3.729, pode eleger mais um deputado”.

Pensei que depois do “Mega-terramoto” que abalou a cena política de Macau em 2021, a sociedade retomaria a estabilidade. Inesperadamente, quatro anos depois, fizeram-se sentir “réplicas”, que levantaram questões sobre o impacto das “ondas de choque” na estabilidade política de Macau e provocando mudanças subsequentes na sociedade, que acredito virão a ser reveladas em breve.

No final do meu artigo “Mais um infortúnio”, afirmei que “Evitar a ocorrência de infortúnios é da responsabilidade de todos. A segurança nacional é fundamental, mas os direitos e obrigações dos cidadãos não devem ser negligenciados.’ Inesperadamente, há alguns dias, a Polícia Judiciária declarou estar a investigar o primeiro caso de ameaça à segurança nacional, desde que a “Lei relativa à Defesa da Segurança do Estado” foi promulgada em 2009.

Como o caso transitou para o Ministério Público para continuar a ser investigado e, respeitando o segredo de justiça, não pretendo seguir o exemplo de certos colunistas ou comentar este caso em excesso. Devemos ter fé na lei, e Macau, a ser governado pelo Estado de Direito, tem a base para a implementação bem-sucedida e estável do princípio “Um País, Dois Sistemas”.

Recentemente, Macau tem sido afectado por condições climáticas extremas, e o sinal preto de chuva intensa foi içado na sequência da passagem da tempestade tropical “Wipha”. O aparecimento do vírus Chikungunya e da febre causada pelo vírus da dengue tipo 2 (DENV-2) tem provocado esforços intensos para controlar a praga de mosquitos na RAEM. Dado o calor invulgar que se faz sentir em Macau, não pode ser descartado que depois da canícula o próximo Inverno venha a ser mais frio do que o habitual. Com sorte, esta previsão revelar-se-á imprecisa.

15 Ago 2025

O Papa Americano (III)

“To all of you, brothers and sisters of Rome, of Italy, of the whole world, we want to be a synodal Church, a Church that walks, a Church that always seeks peace, that always seeks charity.”

Pope Leo XIV

Em vez disso, todos os Estados totalitários são incompatíveis com o Evangelho, porque negam a natureza do poder». Transferido para os dias de hoje, «o compromisso do cristão no Estado é o de dessacralizar o poder político para superar a era constantiniana que havia sacralizado o poder».

Aqui estamos, precipitados na actualidade. Porque se medirão a continuidade e a descontinuidade entre Francisco e Leão XIV, o jesuíta e o agostiniano, na abordagem da geopolítica eclesiástica e no compromisso da Santa Sé, parte do drama dialéctico entre as potências. E entre os sem poder.

Tudo gira em torno de Constantino. O imperador que legitima os crentes em Jesus preside em Niceia o primeiro concílio ecuménico (325), do qual brota o Credo Niceno-Constantinopolitano que provisoriamente apazigua as disputas em torno da natureza do Filho. Não que o vencedor da Ponte Mílvia, sob o signo de Cristo, cultive interesses teológicos.

As disputas sobre a divindade aborrecem-no. Bagatelas, mas que devem ser acalmadas em nome da unidade do império e da Igreja, seu instrumentum regni, reunidos sob o seu comando. Constantino morre cristão no seu último suspiro, quando um sacerdote ariano o baptiza segundo o rito repudiado pelo moribundo.

Para várias Igrejas ortodoxas e de rito oriental, esse imperador é santo. Não para a católica, onde ainda há uma divisão entre aqueles que o veneram quase como santo (como é o caso de Paulo VI e Bento XVI) e aqueles que o consideram um mau exemplo de culto ao poder, um pecado grave.

As duas escolas enfrentam-se no Concílio Vaticano II. Uma forte corrente teológica e episcopal abala, mas não quebra o tabu constantiniano. Ou seja, a união entre a sacralização da política e a politização da teologia representada no mosaico de Santa Pudência. O “Deus Pantocrator” que abençoa o Império Romano cristão inaugura a linhagem do cesaropapismo, com o soberano que controla a autoridade religiosa, e do seu gémeo inverso, o papocesarismo ou teocracia, onde o tempo clericalizado governa o espírito mundano.

Será necessário mais de um século para abalar, não dissolver, o primado do clero neoconstantiniano, assustado pela Revolução Francesa a ponto de reagir com encíclicas antiliberais e exquisitamente reaccionárias, como a Encíclicas “Mirari vos” (1832) de Gregório XVI e “Quanta cura com o anexo Syllabus Errorum” de Pio IX (1864), condenação da opinião de que «a Igreja deve ser separada do Estado e o Estado da Igreja» (§ 55). Quase como se fosse o Conde de Cavour a comunicar.

Desta vez ex cathedra por licença do Vaticano I, que em 18 de Julho de 1870, com os italianos às portas, dogmatiza e circunscreve a infalibilidade do pontífice romano. Será preciso Francisco para abalar a árvore do constantinismo, sem poder arrancá-la.

A distinção radical entre Estado e Igreja por ele proposta tem um alvo imediato, a América do primeiro Trump, rebaptizada de «novo Constantino». Segundo os seus exegetas mais íntimos, Bergoglio «rejeita radicalmente a ideia da implementação do Reino de Deus na terra, que tinha sido a base do Sacro Império Romano». Esta história tem a sua ironia. Constantino, moderador supremo das disputas teológicas e de poder entre os antigos patriarcados e os efervescentes doutores da Igreja, qualifica-se como episkopos ton ektos, ou seja, «bispo dos que estão de fora»; aqueles que não pertencem ao clero católico.

E por que mais Francisco será lembrado senão pela tentativa de abrir as portas da Igreja aos «de fora», aos leigos e aos marginalizados das periferias geográficas e espirituais? A disputa entre «missionários» e «institucionais» de origem constantiniana continua a ser travada em torno da delimitação do «dentro» e do «fora», tanto na organização eclesiástica como na sua projecção externa, a começar pela relação com as outras Igrejas cristãs, especialmente as orientais.

Enquanto se espera que um émulo de Alexandre VI Borgia que em 1494 pela Encíclica bula “Inter caetera” dividiu as esferas coloniais de Portugal e Espanha com um traço longitudinal de lápis sagrado no meio do Atlântico, cartografe estes dois supostos conjuntos, é de salientar um paradoxo.

Trata-se do título papal de patriarca do Ocidente. O primeiro pontífice baptizado com esse título foi Leão I. Por iniciativa do imperador oriental Teodósio II, para distinguir as principais sedes apostólicas sob sua jurisdição directa como Constantinopla, Antioquia, Alexandria, Jerusalém e de Roma caput do catolicismo latino. Título retomado pelo papa Teodoro I em 642, por sua própria iniciativa.

Antecipação do futuro Grande Cisma de 1054 entre a Igreja de Roma e as Igrejas ortodoxas, nunca mais sanado. Surge hoje a necessidade de redefinir o termo «Ocidente», questão fundamental da geopolítica católica. Objecto de uma sofisticada troca entre Bento XVI e Francisco, sob o signo do paradoxo. Ratzinger renunciou em 2006 ao seu título de patriarca do Ocidente por considerar que diminuía o mandato universal. No entanto, ele mascara essa intenção com o seu oposto.

Ele argumenta que a renúncia pode beneficiar o diálogo ecuménico. Tese que não convence de forma alguma os ortodoxos, desconfiados das reivindicações romanas em relação a eles. E eis que o menos ocidental dos papas modernos, Francisco, restaura esse título. Ele, que pela sua mentalidade latino-americana e especificamente peronista sente o cheiro de enxofre a norte do Rio Bravo (Grande), nem se apaixona pelo Velho Continente, proclama-se patriarca do Ocidente, no sentido comum de América e Europa.

E fá-lo pelas razões declaradas, mas não muito sentidas por Ratzinger que é dialogar como bispo de Roma com o Oriente cristão. Quem sabe se Leão XIV desejará fechar o círculo, ele que é americano de nascimento e, portanto, ocidental, reapropriando-se do título patriarcal. Encontramos aqui um exemplo da maldição semântica que às vezes corrompe a análise geopolítica. O achatamento da comunicação «global» descolora os significados das palavras.

O mesmo termo assume sentidos opostos ou diferentes, dependendo de quem o pronuncia e dos seus fins. Festival do «para onde vais? Levo peixe». Os seus fastos também infestam a «língua» do clero, entendida como Babel, especialmente quando cruza termos desgastados pelo uso múltiplo dos meios de comunicação em âmbitos seculares. Brincamos com palavras vazias ou demasiado cheias de significados.

Como, por exemplo, Ocidente. Ou seja, Europa, seu antecedente e causa no jargão estratégico actual. Drama intelectual cantado há quase um milénio por Bernardo de Cluny nos hexâmetros satíricos do “De Contemptu Mundi”, que inspiraram Umberto Eco em “O Nome da Rosa”. Bernardo proclama que «Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus» (I, 952) – “A rosa primitiva subsiste apenas no nome, nós possuímos apenas nomes simples». Alguns manuscritos trazem «Roma» em vez de «rosa».

A rosa não é uma coisa. Roma ainda é. Ou não? E se também a Europa de filiação romano-germânica, matriz do Ocidente, fosse reduzida apenas ao nome? O antigo jardim do cristianismo está a tornar-se um deserto. Isso é gritado pelos números nus que anunciam o colapso da prática religiosa, o declínio não apenas quantitativo das vocações de quantos seminaristas aspiram ao sacerdócio como a qualquer outra carreira, um emprego mal remunerado, mas seguro, o quase esgotamento dos missionários, para não falar da qualidade do clero.

Daí a reduzida influência do mundo católico no estilo de vida, na política e na alta cultura ou difundida do Velho Continente. A cristandade ocidental europeia é baptizada em 15 de Abril de 800, quando Leão III coroa imperador Carlos Magno, para irritação dos bizantinos. O estigma carolíngio é o ícone do europeísmo contemporâneo. Mas o que resta da koiné eurodemocristã da qual, após a II Guerra Mundial, originou a União Europeia nas suas primeiras vestes comunitárias, sob o patrocínio do novo hegemónico do Ocidente, os Estados Unidos da América?

(Continua)

14 Ago 2025

Paradise Lost

O apolíneo mês de Agosto não é o tempo certo para se levar na bagagem um livro desta dimensão, que a noção de paraíso pode não coincidir com milhares de linhas de versos organizados em doze livros, que o tempo apela a ele, ao paraíso, mas convém salvaguardar outras componentes mais. Esta cisão entre paraísos, aliás, foi sentida por múltiplos autores levando a grandes teorias, discussões, interpretações e debates, naquilo que viria a ser conhecido por crítica miltoniana já no século XX, que a primeira versão da obra, essa fora publicada em 1667. Por tudo isto haverá ainda e sempre gente que se afoite e homens que se arrojem.

O estilo épico não deve desmorecer quem se quer adentrar pela folhagem deste paraíso, o verso em branco de que está munido é uma espécie de verso livre que tem que ver com a complexidade sintática das descrições que requerem grande flexibilidade numa rede consecutiva entre o clássico e o bíblico. Há muitos acrósticos, o que torna o poema uma iniciação àquilo que viria a ser mais tarde a poesia visual. Duas colunas estão aqui delineadas: Lúcifer, Adão e Eva, depois as guerras angélicas e os arcanjos numa batalha de três dias em que banidos os rebeldes, Deus cria o Mundo. A história prossegue num intrincado desfile acerca do livre arbítrio, que deslizando na queda, Lúcifer acaba próximo e transformado em face das duas criaturas que Deus criou para um desígnio diferente do que vem a acontecer.

Os problemas no paraíso não são muitas vezes de carácter factual, mas quase sempre, simbólico, se entre a rede das bênçãos existir aquele que vai trair o movimento harmónico para o qual qualquer paraíso é criado, o olho de Deus que tudo vê, toma foro de justiça e se distância. William Blake afirmou: «a razão que levou Milton a escrever acorrentado quando o fez sobre os Anjos e Deus, e em liberdade quando escreveu sobre Demónios e Inferno, é porque era um verdadeiro poeta e fazia parte do partido do Diabo sem saber.”

O romantismo inglês viu isto em Milton. Giovanni Papini não teria sido mais loquaz.

No quente paraíso do Verão este não será desmerecedor de uma paragem menos rotineira, e poder-se-á ainda pensar que paraísos há muitos mas não tantos como o que aqui se menciona. Milton ficou cego e ditou o seu poema, o que já de si nos diz muito acerca da actividade de escriba, aqui, onde há sempre salvação para os derrotados. Nós iremos ler o Livro IV como lemos o Canto IX dos Lusíadas, que é nele que nos aparecem Adão e Eva, mas um anjo mau escapa do abismo para transformar os amantes em futuros mártires – e ainda Gabriel o mais comovente anjo dos céus- ele aparece sempre para salvar amantes, anunciar gestações, unir as tribos abraâmicas. Ele aparece. [ Ao sono embalam-nos Rouxinóis, e nos dois nus chovem rosas do tecto em flor que a alva repõe. Dorme par feliz…768]

A primeira tradução em português é em 1789, outras mais se lhe seguiriam num espaço público reduzido como são afinal os paraísos.

13 Ago 2025

Anjos silenciosos

No passado dia 10 de Julho, o noticiário da Hong Kong TVB informou que na Austrália, em Melbourne e em Sydney, os tribunais passaram a ter cães para apoiar as vítimas enquanto testemunham em tribunal.

Os Labradores e os Golden Retriever são os cães preferenciais para esta função. São meigos e podem apoiar as vítimas. Leva dois anos a treinar um “cão de tribunal” e custa aproximadamente 150.000 HKD, um valor semelhante ao treino de um cão guia.

As vítimas são geralmente mulheres e crianças. Maioritariamente prestam testemunho no Tribunal de Família em processos de violência doméstica e estão sujeitas a grande tensão emocional. O acompanhamento dos cães de tribunal permite que as vítimas relaxem, que o tempo dos interrogatórios seja reduzido e que o processo seja facilitado.

Os cães de tribunal são treinados pela Guide Association, o treino é pago pela Law Society, Australia, e ficam acomodados nas instalações do tribunal.

Pesquisas científicas mostram que o acompanhamento de cães pode reduzir a secreção de hormonas que provocam tensão, tornar o pensamento mais claro e reduzir o stress de forma mais eficaz. Do ponto de vista jurídico, têm a vantagem de não falarem e de não poderem afectar o testemunho das vítimas. Esta medida é facilmente aceite pela acusação e pela defesa.

A Austrália não é o primeiro país a recorrer a cães de tribunal. Já em 2021, o Japão os utilizava. Existem actualmente quatro cães de tribunal no Japão e são usados principalmente para acompanhar crianças enquanto os seus testemunhos são gravados. Num caso antigo de abuso infantil, uma menina recusou-se a ir a tribunal. Mais tarde, confrontou corajosamente o agressor em público, acompanhada por um destes “anjos silenciosos”. Esta foi a primeira vez no Japão em que um cão compareceu num julgamento. É por isto que se chama a estes cães “anjos silenciosos.”

Segundo dados oficiais japoneses, registaram-se 160.000 casos de abuso infantil em 2019. Se se aumentar o número de cães de tribunal conseguir-se-á lidar mais eficazmente com estes casos.

Para além da Austrália e do Japão, os cães de tribunal também são usados no Reino Unido, nos Estados Unidos, em França, no Canadá e no Chile. Existem actualmente 240 cães de tribunal nos Estados Unidos, divididos por 35 estados.

A lei confere a todos direitos iguais. O tribunal usa procedimentos padrão para ouvir os testemunhos das vítimas, dos réus e das testemunhas de cada caso. Independentemente da igualdade de direitos do queixoso e do réu, e da padronização dos procedimentos do tribunal, cada caso apresenta as suas próprias dificuldades. Quando a vítima testemunha está emocionalmente perturbada e os detalhes e a precisão do testemunho são questionáveis. Assim sendo, como é que o tribunal pode aceitar o testemunho? Em que é que o testemunho vago pode ajudar a não ser na absolvição do réu? A presença dos cães de tribunal para estabilizar as emoções das vítimas é importante para que elas possam corajosamente relatar os factos e permitir que haja um julgamento justo. Esta medida reduz o sofrimento de quem revive uma experiência dolorosa e manifesta empatia com as vítimas. Não admira que se chame aos cães de tribunal “anjos silenciosos”.

É certamente adequado dar bom uso às qualidades especiais dos cães em benefício dos humanos. A partir destas experiências bem-sucedidas, os tribunais de Hong Kong e de Macau podem considerar implementar medidas para melhorar a eficácia dos seus procedimentos. Além disso, pode haver necessidade de adaptar as instalações do tribunal para colocar, por exemplo, casas de banho para cães. Questões como esta devem ser ponderadas antes de se proceder à utilização de cães de tribunal.

As medidas necessárias para introduzir os cães de tribunal fazem-nos lembrar muitas outras que foram implementadas anteriormente nos tribunais de Hong Kong para ajudar nos julgamentos. Por exemplo, no caso de Donald Tsang, o antigo Chefe do Executivo da RAEHK, o caso foi transmitido ao vivo pela televisão para permitir que fosse visto por todos. Outro exemplo é o testemunho das vítimas de abuso sexual ocultas por um ecrã; ou ainda de testemunhas que são interrogadas por vídeo chamada. Nada destas medidas tem a ver com a substância da lei, mas melhoraram a eficácia do julgamento e são a demonstração de que o sentimento das vítimas é tomado em consideração. Deve ser ponderada a implementação de medidas que visem a protecção das vítimas, seja no sistema do direito consuetudinário ou no sistema do direito civil.

Finalmente, para além do uso dos cães de tribunal, a sociedade deve tomar medidas para reduzir os casos de abuso, violação e violência contra mulheres e crianças. Esta é a abordagem correcta para atacar a raiz do problema e construir uma sociedade pacífica e amigável.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

12 Ago 2025

Imigrantes mais-valia

Em qualquer cidade do país se frequentamos ou nos deparamos com um hotel, restaurante, hipermercado, obra de construção civil, apoio domiciliário, hospital, loja comercial, fábrica, vindima, colheita da azeitona ou de outros frutos, encontramos imigrantes de Angola, Guiné-Bissau, São Tomé, Brasil, Cabo Verde, Índia, Nepal ou Bangladesh. Todos a falar português, integrados na grande necessidade que Portugal tem de falta de mão-de-obra e a contribuir para a sustentação da Segurança Social. É com grande satisfação que somos atendidos num bom restaurante onde os funcionários, vestidos a rigor, de uma educação extrema e amabilidade exemplar nos transmitem que são de Angola, da Guiné-Bissau ou do Brasil.

São seres humanos como os portugueses que optaram por Espanha, França, Alemanha, Finlândia, EUA, Austrália, Canadá ou Timor-Leste. Portugueses que foram aprendendo a língua local, integrando-se na sociedade e, essencialmente, recebidos com os benefícios sociais em vigor nesses países. Em Portugal, ainda não recebemos os imigrantes com a dignidade que mereciam. A maioria ainda tem de arrendar um quarto ou uma casa ou, depois de integrados, assumirem um crédito bancário para adquirirem um imóvel.

Alguns imigrantes que já trabalham, que descontam para a Segurança Social são ainda dominados pela impossibilidade de viver dignamente porque aguardam o título de residência, caem nas mãos das mafias que lhes vendem uma barraca nos arredores das grandes cidades. Muitas vezes, existem autarcas que antes de construírem habitação social enveredam pela demolição das barracas deixando essas famílias sem tecto e a dormir ao relento, num gesto de grande crueldade e incompreensão.

Naturalmente que os imigrantes que se desloquem para Portugal com um visto de turismo e que depois ficam por aqui ilegalmente e a viverem 20 num quarto, esses, não podem pensar em adquirir o estatuto de residentes. Vivem na penúria, explorados por próprios compatriotas e ilegais perante a lei portuguesa. Neste particular, o governo está a tomar medidas de regulação para a entrada de imigrantes. No entanto, essa regulação não pode ser radical como defende André Ventura, que, por sua vez, apenas deseja que não entre em Portugal nem mais um imigrante e por vontade do neofascista até seriam expulsos todos os imigrantes. Ventura tem alegado que a criminalidade em Portugal se deve à presença dos imigrantes. Nada mais errado.

A teoria de que a imigração é responsável pelo aumento do crime, de que a mais recente vaga de imigração, qualquer que seja a sua nacionalidade, é menos desejável que as anteriores, de que todos os recém-chegados devem ser encarados com uma atitude de suspeição é uma teoria quase tão antiga como as colónias criadas pelos ingleses na costa da Nova Inglaterra. Recentemente, o director da Polícia Judiciária citou números referentes à criminalidade violenta, a qual tem vindo a diminuir desde há 20 anos e o facto de o rácio de estrangeiros reclusos ter evoluído na razão inversa do aumento da população imigrante.

O mesmo tipo de evolução sucedeu com os detidos pela polícia que Luís Neves dirige. Assim, se em 2009, quando a população estrangeira residente somava menos de meio milhão (454 191), a PJ deteve 631 estrangeiros (correspondendo a 138,9 detidos por 100 mil imigrantes), em 2023, com o número de estrangeiros residentes mais que duplicado (1 044 605), foram 513 os detidos, correspondendo a 49,1 por 100 mil residentes.

Para consubstanciar as suas afirmações, o director da PJ explicou mais: não só esta redução do rácio de detidos estrangeiros face ao número de residentes não portugueses foi consistente nos últimos 14 anos, como uma parte considerável dos detidos e reclusos estrangeiros, sobretudo relacionados com tráfico de estupefacientes, não são imigrantes, mas elementos daquilo a que dá o nome de “criminalidade transnacional” – com relevo para as “mulas de droga”.

Um outro facto demonstrativo de que o aumento da criminalidade não está directamente ligada aos imigrantes são as provas que os municípios têm divulgado. Municípios com maior peso de imigrantes têm menos criminalidade.

Alguns exemplos de municípios onde a população estrangeira tem um impacto significativo na população residente, com dados de 2023: Vila do Bispo (onde os imigrantes representam 43,68% da população total), Odemira (41,8%) e Lisboa (28,7%). Se houvesse uma relação directa entre imigração e criminalidade, a expectativa seria de que o aumento dos estrangeiros residentes se reflectisse directamente numa subida dos crimes registados pelas autoridades policiais.

Porém, nada mais errado. Municípios com maior peso de imigrantes têm menos criminalidade. Em relação ao Porto, onde têm aumentado os crimes contra imigrantes reportados na comunicação social, a evolução crescente dos residentes estrangeiros também não é acompanhada por um aumento da criminalidade, verificando-se até uma diminuição da criminalidade nos anos de maior aumento da imigração. Em 2009 foi registado um total de 17.383 crimes, ano em que ali residiam 8809 estrangeiros. Em 2019, os crimes desceram para 15.422 e os estrangeiros residentes aumentaram para quase o dobro: 14.558. Em 2023, os estrangeiros residentes no Porto voltaram a duplicar – para 35.653 – e o total de crimes registados foi de 14.552. No Porto, os estrangeiros representam neste momento 14,3% da população.

De tudo isto, podemos depreender que o que André Ventura e o seu partido propagandeiam a toda a hora relacionando o aumento de criminalidade com os imigrantes não passa de uma balela racista com vista a igualar as atitudes dos neonazis que tudo têm feito violentamente contra imigrantes.

11 Ago 2025

COP30 – Um desafio para o Brasil

As duas últimas Conferências das Partes (COP) da ConvençãoQuadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas decorreram em 2023 e 2024, respetivamente nos Emirados Árabes Unidos (COP28) e Azerbaijão (COP29) que, como países produtores de petróleo, não devem estar muito interessados na transição energética.

Agora cabe ao Brasil organizar a CPO30, de 10 a 25 de novembro de 2025, em Belém, no Pará. Não é a primeira vez que este país esteve predisposto para organizar uma conferência deste tipo. Já tinha sido convidado, e aceitado o convite, para organizar a COP25. No entanto, o governo chefiado por Bolsonaro, negacionista convicto tal como o seu mentor norte-americano Donald Trump, “roeu a corda”, deu o dito por não dito, alegando que a problemática das alterações climáticas não passaria de um jogo comercial.

O Chile ficou então incumbido de ser o novo anfitrião, mas os grandes distúrbios que ocorreram neste país antes das datas previstas, fez com a realização da conferência passasse para Madrid, entre 2 e 13 de dezembro de 2019. Foi uma oportunidade que se perdeu para projetar o Brasil como um dos países líderes da luta contra as alterações climáticas.

Acontece que o Brasil está entre os dez maiores produtores de petróleo bruto e há quem duvide que o governo brasileiro esteja grandemente interessado na transição energética. Sem dúvida que os governos de Lula da Silva têm tido em consideração, dentro de certa medida, a preservação da Amazónia e o bem-estar das populações indígenas, e têm sido comedidos na exploração petrolífera em zonas que as possam afetar. Porém, o grande valor comercial do petróleo faz com que frequentemente se subalternize o facto de estar provado que os combustíveis fósseis sejam o principal fator do aumento da concentração de gases de efeito de estufa na atmosfera e, consequentemente, do aquecimento global. Houve mesmo alguém1 no Brasil que chegou a afirmar que a exploração do petróleo contribuiria para custear a transição energética.

Não há dúvida de que a realização da COP30 em Belém irá contribuir para que o Brasil tenha um papel cada vez mais importante no contexto da problemática inerente às alterações climáticas. Vai ser necessária, no entanto, muita habilidade por parte do governo brasileiro para convencer a comunidade internacional sobre as suas intenções perante o compromisso assumido aquando da assinatura do Acordo de Paris, em que ficou expressa a necessidade de limitar o aquecimento global, até ao fim do século XXI, no máximo a 2 °C, de preferência a valores inferiores a 1,5 °C. Neste contexto, a política oficial brasileira parece não ser muito coerente, tanto mais que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado o famigerado Projeto-Lei N.º 2159, de 2021, apelidado “PL da devastação”, porque abre o caminho a empreendimentos potencialmente gravosos para o ambiente, como a muito discutida exploração petrolífera “offshore” próximo da foz do rio Amazonas. Este projeto, também designado por “Margem Equatorial”, poderá, perante o risco de derrame de petróleo, afetar as comunidades indígenas e a biodiversidade nas vizinhanças da zona de exploração. Em caso de tal acontecer, não seria a primeira vez no Brasil, atendendo a que, em 2001, uma plataforma operada pela Petrobras sofreu várias explosões, o que provocou o seu afundamento com cerca de 1.500 toneladas de petróleo bruto e a morte de 11 pessoas.

Incidentes deste tipo nas instalações oceânicas onde se procede à perfuração não são raros. Como exemplos pode-se mencionar os derrames recorrentes na década de noventa do século passado, no Mar do Norte, em plataformas operadas pela Shell, com graves consequências para o ambiente marítimo. Mais recentemente ocorreu um derrame no Golfo do México, em 2010, em que a avaria de uma válvula de segurança numa plataforma da BP provocou uma explosão que causou a morte de 8 trabalhadores e um derrame de cerca de 780 milhões de litros de petróleo, causando danos irreparáveis na fauna marítima. Incidentes deste tipo podem também afetar ecossistemas de que os mangais fazem parte, provocando danos nas zonas de transição entre a costa e o mar, o que tem como consequência a destruição de ecossistemas e o aumento da erosão provocada pelas ondas associadas, ou não, a marés de tempestade.

Ciente destes potenciais inconvenientes, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), tem negado por várias vezes licenças para a exploração petrolífera nas vizinhanças da foz do rio Amazonas. De acordo com o “PL da Devastação”, poderão ocorrer “Licenças Ambientais Especiais” para projetos considerados estratégicos, os quais, após submissão à entidade responsável pelo licenciamento e na ausência de resposta no prazo de um ano, passariam automaticamente a ser licenciados. Considerando que o Ibama é caracterizado por escassez de pessoal, haverá o risco de projetos submetidos serem aprovados, passado esse prazo.

Atendendo a que o Presidente pode vetar total ou parcialmente o projeto-lei, no prazo de 15 dias após a sua submissão pelo Congresso2, cabe agora a Lula da Silva tomar essa atitude. Tem apenas alguns dias para o fazer, pois o prazo, em princípio, terminará em 8 de agosto.

Durante todo este processo, o Presidente Lula da Silva, ao contrário da ministra do “Meio Ambiente e Mudança do Clima”, Marina Silva, tem mostrado uma certa passividade, o que provoca algum receio sobre a sua atitude no que se refere à promulgação do decreto. Segundo os meios mais progressistas do Brasil, Lula da Silva não se deveria ter mantido em silêncio após a aprovação pelo Congresso, mas manter-se firme vetando o projeto “PL da Devastação” e outros projetos potencialmente desastrosos e atentatórias das florestas e populações. No caso de haver veto, este necessita de ser explicado invocando razões jurídicas ou políticas, como, por exemplo, a sua inconstitucionalidade ou a não conveniência ou oportunidade.

Entretanto está a decorrer uma campanha internacional da Avaaz “Brazil: Stop the Devastation Bill”, já com cerca de um milhão de apoiantes.

Mas nem tudo está nas mãos de Lula, na medida em que, em caso de veto, o projeto-lei volta ao Congresso, que poderá impor a promulgação da respetiva lei, no caso do veto ser derrubado por maioria absoluta dos votos dos deputados e dos senadores. A última palavra é, portanto, do Congresso. Entretanto há uma grande expetativa de qual será a atitude de Lula da Silva.

Trata-se de um desafio tremendo sobre o equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento económico.

(Meteorologista)

Referências:

Jean Paul Prates – presidente da Petrobras de 26 de janeiro de 2023 a 14 de maio de 2024

Congresso Nacional – órgão máximo do poder legislativo, composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.

Avaaz – movimento à escala global que procura dar voz à sociedade civil nas áreas da democracia, direitos humanos e sustentabilidade da Terra.

7 Ago 2025

O Papa Americano (II)

(Continuação da edição de 24 de Julho)

Ergo, o cristianismo também é pagão porque, na história, enquanto se dispõe a acolher o seu fim. A proposta de Newman de abrir as portas da Igreja aos leigos combina com uma visão teológica muito ampla. Talvez se possa ver um traço inconsciente disso no apelo caro a Leão XIII, referência não apenas nominal de Prevost, que convida a «sair da sagrada estátua» no espírito de sua encíclica Rerum Novarum (1891), hoje muito citada. E reflecte-se no impulso dos inovadores que gostariam de compensar a tremenda crise de vocações recrutando leigos de ambos os sexos para as divisões do papa. A reelaboração do mistério do Sol e da Lua encontra eco na era contemporânea (1958) no então arcebispo de Milão (Papa Paulo VI), último (até agora) governador da cátedra de Pedro, insusceptível de movimentismo pois «A Igreja é comparada até à Lua, cujas fases de diminuição e crescimento reflectem a história alternada da Igreja que decai e se recupera, e que nunca falha, porque fulget Ecclesia non suo sed Christi lumine, brilha não com a sua própria luz, mas com a de Cristo».

A prova ontológica do êxtase romano-cristão, o arrepio da comunhão com Deus todo-poderoso na sua intimidade histórica com a aeternitas Augusti (a imortalidade de Augusto), selo do Império Romano, está na abside da Basílica de Santa Pudenciana. Talvez a casa de Pedro. Destaca-se o mosaico mais antigo de Roma, datado do início do século IV. No centro, Cristo na pele do Imperator Orbis Terrarum, Senhor do Céu e do mundo. Atrás dele, a cruz gemada constantiniana, sobre um fundo azul de pôr-do-sol riscado por pálidos cirros avermelhados. Ao seu lado, os apóstolos Pedro e Paulo, vestidos como senadores romanos, simbolizam a concórdia entre a ecclesia ex circumcisione judaica e a ecclesia ex gentibus pagã ou não judaica. Oriente fundido com Ocidente. Incardinados em Roma. Tanto que os líderes Pedro e Paulo serão por vezes assimilados a Rómulo e Remo.

Nos primeiros três séculos da era cristã, a aristocracia senatorial continua a reivindicar a preservação dos ritos pagãos. Para os seguidores de Jesus, a Urbe continua a ser Babilónia. Entre o imperium (poder temporal ou político) e o sacerdotium (poder espiritual ou religioso) estabelece-se uma rivalidade de longa data, nunca resolvida. Somente após Constantino, no trono de 306 a 337, a sede imperial-papal inclina-se para o segundo corno do poder, o eclesiástico nascente, divino e secular, intercepta e acompanha o imperium sine fine (império eterno) em declínio, destinado a reproduzir-se por gemulação nos âmbitos germânico, bizantino, moscovita e franco-americano. Caput mundi (Capital do mundo) torna-se sede apostólica. Na narrativa do historiador jesuíta Karl Schatz afirma que «As duas correntes confundiram-se numa só e o carácter único da Roma antiga foi comunicado à Roma eclesiástica, papal, refundando a sua primazia. A nobreza romana trouxe como dote a sua maneira de pensar, o carisma da sua liderança, o seu talento para conciliar os opostos, o seu senso prático sóbrio como o do poder. Assim, tudo o que tinha tornado Roma capaz de dominar o mundo».

O universalismo católico é de raiz romana. É bom lembrar o estigma, quando o esgotamento da linhagem local no trono de Pedro expõe os particularismos que enfraquecem o clero e o povo de Deus. Aqui, a poucos passos do túmulo de Francisco em Santa Maria Maggiore, descobrem-se as pegadas mundanas da relação dos cristãos com a Cidade terrena, na espera activa da Cidade de Deus, entre o já e o ainda não. Entre o Apocalipse de João, que vê no Estado a Besta que surge do abismo (13,1 e seguintes), e a Carta aos Romanos (sempre 13,1 e seguintes por alguma razão desconhecida), na qual o civis romanus Paulo ordena que «Todos devem submeter-se às autoridades constituídas. Na verdade, não há autoridade senão a de Deus pois, as que existem são estabelecidas por Deus. Portanto, quem se opõe à autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus». Em sintonia com Jesus, que se dirigindo a Pilatos determina: «Tu não terias nenhum poder sobre mim, se não te tivesse sido dado do alto» (João, 19,11). Entre estes dois pólos, que em casos extremos podem levar ao ascetismo ou à mundanização da instituição eclesiástica, corre a história universal da Igreja, do Gólgota até hoje, ao mesmo tempo alegre e sombria.

O que nos obriga a remontar a Cristo «Caesaris Caesari, Dei Deo Dai (a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus)» (Mateus, 22,21). Quatro palavras de Jesus inauguram séculos de disputas sobre a relação entre o cristianismo e o poder político, tratadas em milhões de páginas. Inscritas na dupla cidadania do cristão, na terra e na Cidade de Deus. Daí guerras hermenêuticas não apenas virtuais, cismas, condenações e reabilitações papais. Rios de tinta ou de bits no seu valor binário simbólico do dualismo Estado/Igreja, mas também de sangue derramado para traçar o caminho certo na questão central da geopolítica eclesiástica. Tensão permanente. Radicalizada com a ascensão de Leão XIV ao trono, rara, se não única, coincidência entre identidade nacional e missão papal, ambas relacionadas com o máximo poder no campo, seja mundano, seja religioso. O que deve o papa, não apenas americano, aos Estados Unidos, o que o “Número Um” gostaria do seu cidadão ecuménico?

Jesus é crucificado porque os romanos o identificam como um zelote que se autoproclama rei dos judeus. Aderente, como outros apóstolos, entre os quais Simão, talvez Judas e o próprio Pedro, ao movimento armado dos zelotes, guerrilheiros (terroristas, corrigiria um Caifás dos dias de hoje) em luta para libertar a Palestina do jugo de Roma. Cristo simpatiza com a causa zelote, mas rejeita a violência, muito menos ambiciona tronos terrestres. Estabelece o historiador e teólogo luterano francês Oscar Cullmann, no seu clássico “Deus e César” afirmando «A posição de Jesus situa-se além tanto de uma aceitação acrítica do Estado romano quanto da resistência política a esse Estado». Uma vez que ele «procura a polis futura». Há algo de pilatesco nesta interpretação? Muito, diria o blasfemo. O dualismo entre poderoso e cristão é traduzido na tensão entre presente e futuro, replicaria o prático.

Para resolver a disputa, convoca-se mais um jesuíta, Francesco Occhetta, autor do prefácio do ensaio de Cullmann que diz que «Certamente, para um cristão, o Estado está no céu, mas o terrestre também é bom, mesmo que seja um Estado pagão, desde que as suas tarefas permaneçam dentro dos limites atribuídos pela vontade divina».

7 Ago 2025

Gestão financeira II

Recentemente, uma publicação que circulou na Internet em Macau desencadeou debates acalorados. A pessoa que a publicou (chamemos-lhe Mary) dizia ter 32 anos, uma poupança de 2 milhões de patacas e perguntava aos internautas o que é que esse valor representava exactamente.

Claro que não existe uma única resposta a esta pergunta. Alguns responderam que era pouco, enquanto outros disseram que era muito. Mas alguns deram uma resposta interessante, dizendo que teria sido melhor se os dois milhões fossem de dólares americanos. Alguns internautas salientaram que vários estudantes provenientes da China continental perderam 9 milhões de RMB num caso de fraude telefónica. Outros perguntaram-lhe quanto tempo levou a juntar os 2 milhões de patacas.

Antes de analisarmos se 2 milhões de patacas é uma quantia pequena ou elevada, vamos primeiro perceber o que são as poupanças. Do ponto de vista das pessoas comuns, as poupanças são o que sobra depois de deduzirmos as despesas às receitas. Mas quem percebe de finanças sabe que esta definição não é correcta. Quando gerimos o nosso dinheiro devemos pôr de parte uma certa quantia para cobrir as despesas. As despesas podem ser divididas em duas categorias: despesas diárias e despesas para emergências. As despesas diárias têm de ser inferiores ao salário mensal, caso contrário o dinheiro que recebemos não nos chega.

Os peritos financeiros recomendam geralmente que devemos ter um fundo para emergências no valor de três a seis salários. Por conseguinte, se tivermos uma conta no banco equivalente a seis salários, significa que o montante de um salário é aplicado para cobrir as despesas mensais e os restantes cinco salários irão para o fundo de emergência. Deste ponto de vista, como é que o valor de seis salários depositado no banco pode ser considerado uma poupança?

A questão levantada pelos internautas é muito razoável. Quanto tempo levou Mary a juntar 2 milhões de patacas? Se conseguir poupar 10.000 patacas por mês, leva 200 meses, ou seja, cerca de 17 anos. Nestes 17 anos, se dinheiro não for levantado da conta, o resultado será alcançado. Neste cálculo, não considerámos os juros gerados pelo depósito; isto porque a incerteza em relação à taxa de juros é elevada e o método de cálculo sem os considerarmos é mais fácil de compreender.

A partir deste método, podemos ver que para juntar 2 milhões de patacas temos de ter em consideração quatro factores: o valor da poupança mensal, o tempo que leva a atingir o objectivo, a impossibilidade de retirar dinheiro da conta e o facto de os juros não serem levados em linha de conta.

O montante da poupança mensal varia conforme a receita. Quanto maior for a receita, maior será a poupança se as despesas não sofrerem alteração. Se o dinheiro que a pessoa recebe provier apenas do salário, estamos perante uma única fonte de receitas. Se provier do arrendamento de uma propriedade, dos dividendos de acções, ou de direitos de autor, estamos perante receitas de uma natureza completamente diferente. Nestes casos, existe em primeiro lugar um bem, bem esse que depois gera um retorno. Portanto, quanto mais bens se possuir, maior será o rendimento e maior será a “capacidade de gerar dinheiro”.

No artigo da semana passada, referimos que o rendimento mensal médio em Macau é de cerca de 20.000 patacas. Se metade deste valor for usado para cobrir as despesas e a outra metade for aplicado em poupanças, são necessários 17 anos para juntar 2 milhões de patacas. Citando a célebre frase de Chai Jiu (柴九), o protagonista da série ” Rosy Business” (巾幗梟雄), da TVB de Hong Kong, “Quantas décadas temos nas nossas vidas” (人生有幾多個十年), podemos compreender que 17 anos não é um período curto.

Do ponto de vista da gestão financeira, é necessário poupar 2 milhões de patacas em dez anos. Como é preciso dinheiro para comprar as casas e as acções, sem o capital inicial, como é que elas podem ser usadas para gerar mais rendimentos? Com base nessa premissa, 2 milhões de patacas devem ser uma meta a que se chega em várias etapas.

A poupança deve ser o objectivo de uma vida que não deve ser interrompido depois de se atingir uma determinada meta. Depois de passarmos muito tempo a poupar, temos de ter cuidado para não ficarmos escravos do dinheiro ou “avarentos”; ou seja, não podemos só poupar e não gastar. Portanto, quando conseguimos juntar 2 milhões, precisamos em primeiro lugar de parar, recompensarmo-nos pelo nosso esforço e auto-disciplina, mimarmo-nos e depois lançarmo-nos num próximo objectivo de poupança.

Nesta vida precisamos de fazer dinheiro e de poupar, mas também precisamos de ser felizes. Sem prazer, não há vida. A satisfação dos nossos prazeres requer algum dinheiro, que vai sair das poupanças. Como compensar esses gastos? A resposta é que devemos aumentar as fontes de rendimento, ou seja, quanto maior for a nossa “capacidade para fazer dinheiro”, mais facilmente compensaremos os gastos.

O rendimento que depende do nosso trabalho e das nossas capacidades é o “dinheiro do povo”. As rendas, os dividendos e os direitos de autor são os rendimentos obtidos através de ferramentas que geram dinheiro, ou seja, “dinheiro que gera dinheiro”. Quanto mais ferramentas que geram dinheiro tivermos, mais rendimentos teremos. Quando o rendimento aumenta e as despesas permanecem iguais, as poupanças também aumentam. O dinheiro gera dinheiro e a procura do prazer consome algum. Desde que saibamos encontrar o equilíbrio, o dinheiro e a felicidade são a nossa riqueza.

Pessoas com uma experiência de vida rica compreendem que o dinheiro e os prazeres são apenas uma parte da nossa riqueza neste mundo. Além deles existem também os afectos familiares, o amor conjugal, a amizade o reconhecimento social, a nossa saúde, etc. São todos elementos importantes que constituem a nossa riqueza. Para que a nossa vida seja muito rica, todos estes elementos devem crescer e não nos podemos focar apenas nos rendimentos e nas poupanças.

Em vez de perguntarmos se 2 milhões é muito ou pouco, porque não juntarmos aos poucos esta quantia para garantir a nossa saúde, os afectos familiares, o amor, a amizade e outros elementos que enriquecem a nossa vida?

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

5 Ago 2025

Aí estão eles

Portugal está a ferro e fogo há mais de uma semana. Aí estão eles, os fogos. Os fogos da inoperância, da demagogia, do desleixo, da incompetência, do altruísmo, da corrupção, dos incendiários criminosos, dos madeireiros interesseiros e da legislação absurda. Arouca, Ponte da Barca, Gondomar, Nisa, Santarém, Penafiel, Castelo de Paiva, Cinfães e dezenas de aldeias são o palco das chamas descontroladas, do desespero de populações, de casas a arder, de animais a morrer, de bombeiros heróicos exaustos, de aeronaves que caem, de moradores a tentar apagar chamas com mais de 10 metros de altura com uns baldes ou umas pás. São 131 Concelhos em risco máximo. A área ardida já é o triplo de 2024. Já foram detidos pelo excelente trabalho da Polícia Judiciária cerca de 30 suspeitos de fogo posto. A maioria das vezes pagos por madeireiros a quem interessa madeira queimada para vender rapidamente e obterem rendimentos destes crimes. Numa noite, viu-se um carro passar junto a uma floresta, passados cinco minutos deu-se início a um fogo enorme que ainda lavra na zona de Ponte da Barca. Os fogos são iniciados por incendiários criminosos, que na maior parte das vezes os tribunais mandam em liberdade.

Mantivemos contacto com um prestigiado geólogo que nos disse que existe uma legislação absurda, no que respeita à limpeza dos terrenos ao redor das casas. Legislação que obriga a limpar uma área circundante das casas com 50 metros. O geólogo explicou que 30 metros seria o suficiente e que a obrigação de limpeza de 50 metros é caríssima para pessoas que vivem do pouco que têm. Resultado: pouca gente limpa os terrenos e o combustível ali está à espera dos incendiários. O mesmo geólogo salientou-nos que o terreno em Portugal contém uma quantidade de biomassa que levará a termos incêndios durante mais uma década, no mínimo. O Governo apareceu com uma nova ministra da Administração Interna que pode saber de coser meias, mas de incêndios é um zero à direita. Nem sequer abordou o problema enorme de continuar adiada a compra de novos helicópteros que tanta falta fazem.

Este ano, à semelhança de outros anos, já tivemos bombeiros feridos, aldeias evacuadas, idosos, mulheres e crianças a dormir no chão em pavilhões polidesportivos, aeronaves a cair e várias casas ardidas. A propósito de casas, uma crítica contundente para os emigrantes que constroem vivendas de três pisos, gastando centenas de milhares de euros, no meio da floresta e depois querem os bombeiros em todo o lado onde as chamas colocam em perigo essas vivendas. A situação é trágica para milhares de portugueses, mas todos os anos é a mesma coisa: permitem a plantação de eucaliptos e pinheiros em todo o lado, quando deveria existir um planeamento global com terrenos apropriados à plantação ordenada de pinheiros, carvalhos, eucaliptos, sobreiros e outras árvores. A falta do referido ordenamento geológico e demográfico leva à desgraça a que assistimos. No sábado passado, dia em que vos escrevi estas palavras, já mais de 20 moradores tinham ido para o hospital e 10 bombeiros receberam tratamento hospitalar. Há mais de uma década que ouvimos dizer que tem de se fazer qualquer coisa. Obviamente que há soluções, mas a maioria dos projectos fica nas gavetas governamentais. E como ninguém o refere, nós salientamos a acção arriscada e profissional dos jornalistas repórteres que têm arriscado a vida de dia e noite a uma temperatura que tem rondado os 45 graus, fugindo das chamas, a dormir e a comer deficientemente. Deixo-vos imagens contundentes deste drama que Portugal está a viver com mais um cenário global de incêndios.

4 Ago 2025

O Papa Americano (I)

“The bishop is not supposed to be a little prince sitting in his kingdom, but rather called authentically to be humble, to be close to the people he serves.”
Pope Leo XIV

Leão XIV encarna a dupla crise da América e da Igreja Católica. Versão contemporânea da antiga tensão entre o império e o papado. Sujeitos incomparáveis por natureza que, por constituição, se excluem mutuamente. Nascidos para redimir o mundo de acordo com os seus princípios. Com a arma do poder em todas as suas dimensões expressas hoje na Terra, depois de amanhã talvez noutros planetas, a América. Com a intenção de converter a humanidade à presença do Reino de Deus encarnado em Cristo, a Igreja de Roma, mediadora entre o Céu e a Terra. Missões impossíveis, mas indispensáveis. Está em jogo a própria identidade. A vida. Cada uma, no seu plano, vive e sofre do crisma original do Ocidente, ao qual ambas se referem de forma diferente; o universalismo. Parte que se sonha inteira.
Sonho que se transforma em pesadelo para os Estados Unidos, que temem morrer globalizados por terem ousado americanizar o mundo. Pelo contrário, a Igreja que, com Francisco, esboçou a saída para as periferias constata que as ovelhas não são muito atraídas pelo pastor, muitas vezes fogem dele. Especialmente no seu núcleo de origem, europeu e ocidental. E se a Igreja desaparecesse de si mesma? Cabe ao novo papa, veremos se mais híbrido ou americano, estabelecer em concílio sinodal a trajetória do povo de Deus. Cabe à sua pátria natal discernir se e como aproveitar a sua esteira para se curar. O clima actual informa-nos que Washington e Roma não seguirão caminhos paralelos, muito menos solidários, para curar a doença que parece assimilá-las. A instituição temporal dotada de religião civil, o “American way of life”, opta com Trump por uma dieta geopolítica de emagrecimento de nada de grandes e comprometedoras aventuras no vasto mundo, fortificação do reduto americano em expansão ártica.
Fiel à tradição ocidental desfigurada pelos iluministas, positivistas e comunistas. A outra, de inspiração celestial e inculturação variada nos territórios de missão marcados pelas dioceses, herança tardo-romana, não tem casca em que se retrair sem se desfigurar. A abertura à ecúmene é a sua razão de ser. A ser modulada de acordo com uma geopolítica eclesiástica sempre actualizada. Nunca se submetendo ao “Número Um” do momento. Se Trump, entusiasmado com a tomada americana do Vaticano com o advento de Leão XIV, conta com um catolicismo pós-franciscano disposto a oferecer um suplemento de alma ao seu magistério rude e imprevisível, está enganado. Como se ilude o alto clero da Santa Igreja quando confia ter arrancado um bilhete premiado ao escolher um sucessor americano para Pedro. A oferta da Papal Foundation e de outros patrocinadores prometidos do outro lado do Atlântico «tem condições», tem restrições rigorosas, como informam «doadores» em equilíbrio entre Deus e Mamona.
É claro que, antes de se encerrarem na Capela Sistina, os cardeais passaram muito tempo a discernir as consequências financeiras da inspiração que o Espírito Santo lhes teria concedido, o que, parafraseando o jargão eclesiástico, é uma revelação. A sede vacante não é tempo de virtudes teologais, mas sim cardinais. Como observou em 1997, com ironia curial, o cardeal Joseph Ratzinger a quem lhe perguntou se o papa era eleito por escrutínio divino afirmou «Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que o escolhe. Diria que o Espírito Santo não assume exactamente o controlo da questão, mas sim, como bom educador que é, deixa-nos muito espaço e liberdade, sem nos abandonar completamente. Assim, o papel do Espírito Santo deve ser entendido num sentido muito mais elástico, não que dite o candidato em quem se deve votar. Provavelmente, a única certeza que oferece é que o facto não pode ser totalmente arruinado. Há demasiados exemplos de papas que, evidentemente, o Espírito Santo não teria escolhido». Não sabemos se o acaso, a necessidade ou a Providência impuseram Robert Francis Prevost no trono de Pedro precisamente na encruzilhada entre as duas (suas) crises.
Certamente é um sinal dos tempos. Vulgarmente representado na selfie artificial divulgada pela Casa Branca, com a qual, na véspera do conclave, o pseudo-Trump disfarçado de papa invadiu a esfera mediática. Quase como para santificar a comunhão entre a Quarta e a Primeira Roma, em ordem hierárquica. Faltava apenas que o pontífice cesariano se dividisse em dois para se dar a unção real. Ironia do conto, pois na fotomontagem, o papa Trump veste-se totalmente de branco, como Francisco. Talvez também por isso, ao ostentar-se urbi et orbi, Leone enriqueceu a batina branca com os símbolos clássicos do pontificado. Mas um grão de verdade expõe essa imagem blasfema. Há muito de eclesiástico na autoconsciência da América. Da mesma forma, há muito de imperial na história da Igreja.
Os Estados Unidos nascem e crescem como uma religião autocentrada em peculiares declinações cristãs. Independentemente da seita ou confissão a que pertençam, os americanos vivem versões estreladas e listradas. Católicos incluídos. Os catolicismos americanos, bastante mundanos, mais conscientes e conflituosos do que nunca, ocupam espaços distintos no rebanho do pastor de Roma. Com e contra as ramificações protestantes predominantes, estabelecidas ou neo-evangélicas, professam o Credo Americano. Religião celebrada na sua época áurea pela nação-Igreja autodenominada ápice da humanidade. Farol da Liberdade, portanto, universal. Autocéfala e ao mesmo tempo católica no sentido etimológico e, portanto, ecuménico da palavra. Como consequência de tantas contradições formidáveis, a crise de identidade da superpotência mundana é ao mesmo tempo própria e mundial.
A Santa Sé, grandioso repositório de cultura e fé, expressão geopolítica da Igreja de Roma e seu órgão supremo de governo no Estado da Cidade do Vaticano, em plena Urbe, nasce, vive e confronta-se com o imperium sine fine em todas as suas ramificações. Os túmulos romanos de Pedro e Paulo, primeiros impulsionadores da evangelização, confirmam a potentior principalitas, a autoridade preeminente do caput mundi em relação aos veneráveis patriarcados originais de Antioquia, Alexandria, Éfeso, Corinto e Tessalónica. A religião dos apóstolos germina sob Tibério na Palestina, expande-se na pars occidentalis da Primeira Roma, delimitada pela instável bipartição estipulada em Brindisi entre António e Otávio quarenta anos antes de Cristo, sanção da heterogeneidade permanente entre Oriente e Ocidente. Depois, baptiza com Constantino a Segunda Roma, ideal-tipo da metrópole de fundação totalmente cristã. Há um milénio que disputa com a ortodoxia da Terceira Roma, coração do império moscovita que se exibe cristão, na utopia de ser reconhecido como terceiro pulmão do Ocidente, com a Europa e a América.
E há oitenta anos convive com a primazia terrena da Quarta Roma, eleita por puríssimos pais peregrinos anglo-irlandeses e erigida por ex-colonos britânicos apaixonados pela tradição helenístico-romana, de modo a corresponder em código através de pseudónimos latinos. A Ecclesia permixta descrita por Santo Agostinho, referência de eleição do papa Prevost, onde se misturam trigo e joio, fertilidade e esterilidade, amor e inveja, descobre-se ferida. Os cismas líquidos que a corroem tendem a coagular. A prioridade do pontificado é a costura das rupturas que dilaceram o corpo da Igreja. Sem renegar Francisco, fechar algumas das brechas por ele abertas, distinguindo aquelas que merecem ser preenchidas das perigosas ou precárias, descartáveis. À espera que os posthumos releiam o seu papado, captando alguns traços proféticos demasiado incoerentes com a realidade, não só eclesial, para poder já agir.
Hoje ressoa o aviso de Bento, mestre do agostinianismo, sobre a necessidade de proteger a missão ad extra do excessivo optimismo sobre a fé como «pressuposto óbvio da vida comum» afirmando que «Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e que a luz seja mantida escondida». Mesmo que isso signifique que a Igreja se queira isolar de graça no mundo sem graça? O clero católico divide-se em três. Aqueles que privilegiam a missão, aqueles que privilegiam a instituição e aqueles que navegam entre as duas correntes. A pedra de toque continua a ser o Concílio Vaticano II. Para os primeiros, deve ser desenvolvida a abertura missionária ao povo de Deus, ou seja, à Igreja propriamente dita, juntamente com o impulso ecuménico. Para os segundos, prevalece a defesa da tradição contra a submissão aos sinais dos tempos, que pode induzir à heresia. Sair ad gentes, portanto, contaminar-se para evangelizar, ou entrincheirar-se em nome da fé «pura»?
Na história, o carisma do papa inclina o barco de Pedro para um lado ou para o outro. Hoje muito mais do que ontem, com o pontífice superstar, enquanto o seu povo parece contrair-se, em crise de caridade interna e de atracção externa. Na vulgata, Francisco é considerado um campeão irregular da Igreja em saída, pela história, doutrina e carácter. Pastor por excelência. Ou em excesso, para os críticos. Bento XVI, seu predecessor traumatizado pelo peso do múnus petrino, é o epónimo do fidei defensor. Teólogo perspicaz. Herr Professor raro do seminário. Claustrofóbico. Simplificações questionáveis, mas poderosas. Leão XIV nem um nem outro. Pelo menos nas intenções de muitos dos seus eleitores. Convertam-se a ele a partir das margens opostas, conscientes das cisões latentes ou já efectivas que estão a fragmentar o arquipélago eclesiástico em ilhas e ilhotas autocentradas. Católicos diferentes. Certamente não romanos. A biografia e algumas palavras do papa americano exaltam a sua vocação pastoral, a proximidade com os humildes. Gestos pontifícios e outras palavras marcam a recuperação de símbolos e liturgias tradicionais. Com uma metáfora política que outrora nos teria colocado no Índice dos Livros Proibidos, poderíamos ver em Prevost um democrata cristão renascido, ancorado no centro, olha para a esquerda enquanto toma cuidado para não ter muitos inimigos à direita. Ou vice-versa. «Pedro, adelante con juicio» expressão da novela “Os noivos” utilizada para pedir a alguém que proceda con precaução e discernimento em uma situação difícil ou complicada.
Leão XIV deve governar a Igreja em missão. Fixar o rumo, manter o leme direito, revitalizar a Cúria e reconectá-la às periferias eclesiais, muitas vezes indiferentes, se não adversas, à cátedra de Pedro. Para manter o mundo à beira do abismo de guerras sem fim. Os princípios da Igreja confiaram a este monarca tranquilo e decidido a tarefa de curar as feridas que sangram o rebanho de Cristo. Para que o fim do catolicismo não antecipe o fim do mundo. Talvez seja tarde, talvez não. Certamente é uma tarefa que Leão XIV poderá iniciar, mas não consolidar. A doença está demasiado disseminada, há muito tempo, para ceder a terapias milagrosas. Passou quase meio século desde o desaparecimento do último pontífice vocacionado (não só) para o governo da Igreja que foi Paulo VI (1963-1978). Os quatro sucessores não quiseram ou não puderam dedicar-se à máquina de Pedro. João Paulo I (1978) por falta de tempo e de firmeza, João Paulo II (1978-2005) por excesso de personalidade, Bento XVI (2005-2013, falecido em 2022) por comovente inaptidão, Francisco (2013-2025) porque queria «fazer barulho» («hagan lío!») para poupar o seu rebanho da morte por asfixia clerical.
Papas conservadores e/ou revolucionários, inadequados e/ou relutantes em reformar na continuidade. A decomposição do tecido católico e a desculturação da sua classe dirigente são tais que excluem um Vaticano III. A menos que se aspire a uma implosão libertadora, para recomeçar a partir de micropatriarcados autocefálicos, nacionais ou subnacionais, de tom neo-ortodoxo. Mais facilmente, a partir de seitas espiritualistas emotivas de cunho neo-evangélico, fiéis a Mamona. Para compreender o desafio do Papa Prevost, convém partir daqui. Está em jogo o sentido da Igreja. Tanto espiritual como terreno. Nunca existiu nem poderá existir um cristianismo separado da realidade do mundo. A Santa Igreja Romana foi e continua a ser, apesar de ferida, um formidável sujeito geopolítico que desenhou a história universal.
Há dois mil anos, católicos e outros cristãos vislumbram nela vários sinais e cores. Retiram dela lições diferentes. Doutrinárias, pastorais e geopolíticas. Para muitos, confirmação da fé em Cristo. Para menos, mas influentes, anúncio do apocalipse iminente. Aos estudiosos da geopolítica, resta a obrigação de estudar a visão e a acção da Santa Sé no cenário da história, cruzando no sentido próprio e figurado o factor humano e a especificidade religiosa. Elegemos como Carta Magna do modo cristão de estar no mundo o misterioso “Carta a Diogneto”, manuscrito grego anónimo do século II-III encontrado em 1436 em Constantinopla por um clérigo latino.

4 Ago 2025

Sim, a China contribuiu de forma decisiva para a vitória de 1945

Por Bruno Guigue

Em 3 de Setembro de 2025, a República Popular da China celebrará o 80º aniversário da vitória da guerra de resistência do povo chinês contra a agressão japonesa. Vitória conquistada nas mas duras condições contra um adversário dotado de enorme superioridade em armamento, e no mais prolongado combate de toda a II Guerra Mundial: desde o início da agressão japonesa em Julho de 1937 até os meses finais de 1945. A historiografia “oficial” ocidental, desde sempre empenhada em reescrever a história dessa guerra – cujas principais vitórias não lhe pertencem – é particularmente omissa em relação a esses 8 anos de heroica resistência. Mas o povo chinês e toda a memória progressista do mundo a celebram.

É um facto: há décadas que a doutrina ocidental lança uma cortina de fumo sobre a realidade de um conflito cujo desenrolar efectivo pouco tem em comum com o relato acreditado nas «democracias».

Se é verdade que a narrativa histórica é frequentemente tributária dos preconceitos daqueles que a fazem, a forma como se relata a Segunda Guerra Mundial não escapa à regra. A historiografia ocidental caracteriza-se, de facto, por uma cronologia contestável dos acontecimentos, uma contagem muito parcial das vítimas e uma avaliação parcial da contribuição das nações combatentes para a vitória final sobre as potências do Eixo. Naturalmente, esta observação aplica-se à corrente dominante da investigação histórica e não aos esforços dos investigadores, menos numerosos é verdade, que revelaram precisamente as suas lacunas. Mas é um facto: a doxa ocidental lançou, durante décadas, uma cortina de fumo sobre a realidade de um conflito cujo desenrolar efectivo tem pouco em comum com o relato acreditado nas «democracias».

A Segunda Guerra Mundial começou na China

Começando, como se pode imaginar, por esse erro monumental que consiste em datar o início do segundo conflito mundial em Setembro de 1939, quando ele já assolava o coração da China desde Julho de 1937 e, se prestarmos atenção aos últimos trabalhos da historiografia chinesa e japonesa, desde Setembro de 1931 nas províncias do nordeste da China. Nessa data, teve início uma invasão maciça do território chinês pelas forças japonesas, o que provocou um confronto quase ininterrupto entre os dois países até 1945. E embora o governo de Chiang Kai-shek tenha negociado uma trégua em 1932, os combates nunca cessaram realmente durante catorze anos (1931-1945) entre as tropas de ocupação japonesas e as forças chinesas, fossem elas os exércitos governamentais ou a resistência comunista.

A este argumento, poder-se-ia responder que a narrativa corrente no Ocidente se concentra principalmente nos acontecimentos que o afectaram, que se trata, no máximo, de um erro de perspectiva compreensível, e não de uma ocultação deliberada do papel de outras regiões do mundo neste confronto planetário. Porque não? Mas, nesse caso, que legitimidade tem tal narrativa histórica quando pretende dar conta da «Segunda Guerra Mundial»? Ou a narrativa visa relatar o curso dos acontecimentos no Ocidente, e a sua focalização nessa área geográfica é legítima. Ou pretende contar a história de uma verdadeira guerra mundial, e essa focalização já não o é.

O facto histórico, dizia Paul Veyne, não existe como tal, «é um cruzamento de itinerários». Ele não estava errado, mas ainda assim é preciso evitar seguir o caminho errado na escolha dos itinerários e, neste caso, tomar o Ocidente como o mundo inteiro. A este respeito, o relato russo-soviético do conflito tem o mérito da coerência, uma vez que faz coincidir logicamente os factos mencionados e a sua denominação: ao seguir uma cronologia válida para a URSS, a «Grande Guerra Patriótica» de 1941-1945 designa bem a experiência histórica vivida pelo povo soviético e não pretende fornecer uma explicação exaustiva dos acontecimentos planetários durante o período em questão.

O esquecimento das vítimas chinesas

Se a primeira distorção do discurso dominante diz respeito à datação do seu verdadeiro início, a segunda diz respeito, evidentemente, ao balanço humano do conflito mundial. Desde o fim da guerra, são raras as obras ocidentais que indicam com um mínimo de exactidão histórica as perdas humanas sofridas pela China. A profusão de detalhes sobre o balanço europeu contrasta geralmente com a sua minimização e imprecisão quando se trata da Ásia. Pior ainda, algumas instituições nem sequer mencionam a existência das vítimas chinesas. No site francês do muito oficial «Mémorial de l’Armistice», ficamos a saber, por exemplo, que «a URSS teve 21 400 000 mortos, a Alemanha 7 060 000, a Polónia 5 820 000, o Japão 2 000 000 e a França 541 000. Quanto ao balanço total, ele está entre 50 e 60 milhões de mortos, ou seja, 22 milhões de militares e 31 milhões de civis”.

Se o Japão não é esquecido, a China nem sequer figura na lista dos países beligerantes, apesar da enormidade das perdas chinesas causadas pela guerra! Por mais escandalosa que seja, tal ocultação contamina o ensino da história nas nossas escolas: raramente mencionado, o desenrolar dos combates na China é relegado para as margens da história militar em benefício do teatro de operações europeu e da «guerra do Pacífico». Esta última expressão foi imposta por Washington, de forma a reduzir a guerra nesta parte do mundo a um duelo entre duas potências aeronavais pelo controlo das ilhas do Pacífico, ignorando convenientemente o teatro de operações chinês e os seus vastos confrontos terrestres.

Os factores de uma ocultação

Afectada por miopia histórica, a narrativa ocidental dominante geralmente omite dizer que a China imobilizou no seu solo a maior parte das forças terrestres japonesas durante catorze anos, que sua resistência impediu Tóquio de lançar um perigoso ataque de flanco contra a URSS, que as forças americanas enfrentaram de 1941 a 1945 apenas uma pequena parte das tropas terrestres japonesas, que 70% das perdas militares do império nipónico foram infligidas na frente chinesa, que 100 milhões de chineses foram deslocados e que 20 milhões deles perderam a vida por causa da guerra devastadora travada pelo invasor: tudo factos ignorados por uma narrativa ocidental que, no mínimo, pode-se dizer que toma liberdades com a verdade histórica.

Sendo esses factos agora claramente estabelecidos e conhecidos por um vasto público, pelo menos fora dos círculos ocidentais, resta a questão de saber por que razão a sua ocultação resistiu tão bem ao progresso do conhecimento objectivo dos acontecimentos: por outras palavras, quais são os factores, políticos ou ideológicos, que explicam a minimização persistente, até aos dias de hoje, do papel da China durante a Segunda Guerra Mundial?

A primeira resposta a esta questão é óbvia: influenciada por uma visão ocidentalocêntrica do conflito, a historiografia dominante relega espontaneamente a Ásia Oriental ao estatuto de teatro de operações secundário. A distância geográfica, no entanto, não é a única causa. A minimização do papel de certas populações, na narrativa dominante, também se inspira no preconceito colonial que lhes nega qualquer capacidade de acção autónoma. Incapazes de fazer a sua própria história, como é que esses povos passivos teriam contribuído para a vitória sobre as potências do Eixo? Há mais. No início do conflito, e pela mesma razão, a China foi frequentemente desvalorizada em relação ao Japão, como se o mundo ocidental lamentasse inconscientemente ter lutado com um contra o outro.

«Este Japão desperto, ardente, guerreiro, vencedor, fomos nós, ocidentais, que o criámos. Sob o impulso do genial imperador Mutsuhito, ele lança-se na era industrial. Arsenal, oficinas, fábricas, ele cria tudo ao mesmo tempo. E quando, finalmente, possui essa força, percebe que é obrigado a usá-la: pois, mais uma vez graças à Europa, que lhe trouxe a sua ciência da medicina e da higiene, as crianças japonesas já não morrem: de 1870 a 1930, a população triplicou e o Japão está, literalmente, a sufocar nas suas ilhas. Se não quiser perecer, tem de sair delas».

Uma linha essencialista com traços coloniais

É assim que se expressa, em agosto de 1937, a prestigiada Revue des Deux Mondes. O expansionismo japonês aparece aqui como um rebento turbulento da modernidade ocidental, cujas ambições são legitimadas pelo avanço tecnológico e pelo dinamismo demográfico. O tom é admirativo, e nenhuma consideração moral ou jurídica mancha a absolvição por assimilação de que Tóquio beneficia. Para os especialistas europeus imbuídos de racialismo e eugenismo, é verdade que a hierarquia das raças coloca os japoneses acima dos chineses, e as ambições territoriais japonesas parecem ditadas por uma obscura lei natural que presidiria ao destino das nações.

Observamos também, na mesma linha essencialista, que circulava nos círculos intelectuais ocidentais da década de 1930 o lugar-comum de que a língua chinesa ignorava a palavra «pátria», enquanto a língua japonesa desconhecia a palavra «paz». Se os japoneses querem subjugar a China, é em virtude de uma predestinação meio biológica, meio cultural: os primeiros seriam guerreiros destinados a dominar os seus vizinhos, enquanto os chineses formariam uma massa amorfa à espera de um senhor que os ocidentais pretensiosos cometeram o erro de acreditar que seria necessariamente o homem branco.

Modernizado a todo o custo, rivalizando com os europeus no campo do expansionismo, o Japão pré-guerra desperta assim sentimentos ambivalentes nos ocidentais. Réplica oriental da supremacia europeia, a sua suposta brutalidade goza de circunstâncias atenuantes. Demasiado ativo para ser pacífico, demasiado avançado para permanecer de braços cruzados, o seu espírito de conquista recebe a absolvição dos realistas, que lhe perdoam tanto mais facilmente a sua agressividade contra a China, quanto esta é considerada decadente e caótica. O facto de a língua chinesa ignorar a palavra «pátria» não é prova da sua inferioridade intrínseca? E se ela é fraca, não é tanto por covardia quanto por impotência?

A doxa antitotalitária

Se o peso dessas representações imaginárias contribui para a frequente ocultação do papel positivo da China, isso também tem origem no reflexo anticomunista que, desde o início da Guerra Fria em 1947, contamina retrospectivamente o relato ocidental da Segunda Guerra Mundial. O mito dos «gémeos totalitários», inventado por Leon Trotsky em 1939, foi rapidamente erigido pela doxa como um artigo de fé que, a partir de 1950, beneficiou da aprovação filosófica de Hannah Arendt. Exilada nos Estados Unidos, a fervorosa discípula do nazi Heidegger fez dele o modelo explicativo de toda a história do século XX, que seria caracterizada pela luta implacável entre os «regimes totalitários» e as «democracias liberais».

É essa narrativa que figura hoje, em França, nos manuais de história. A minimização da contribuição soviéto-chinesa para a derrota do nazismo é a consequência lógica disso, com especialistas em programas de televisão chegando a sugerir que as tropas americanas libertaram os campos de extermínio, enquanto as empresas industriais do outro lado do Atlântico se beneficiavam cinicamente de sua mão de obra cativa. Quanto à China, ela passou para o lado das forças malignas quando se tornou comunista em 1949, e o seu papel na luta antifascista foi rapidamente esquecido no Ocidente. Não foi preciso mais do que isso para reforçar o anticomunismo mais retorcido e, consequentemente, para credibilizar a vulgata da «guerra justa» travada pelas «democracias».

A primeira agressão fascista

No entanto, foi a China que sofreu a primeira agressão fascista do século XX. Antes da invasão da Etiópia pela Itália de Mussolini (1935) e da intervenção ítalo-alemã para apoiar Franco na Espanha (1936), o Japão invadiu as três províncias orientais da China em Setembro de 1931, aproveitando-se do «incidente (fabricado) de Moukden». E se esta agressão pode ser qualificada como «fascista», é devido ao carácter abertamente racista e belicista da política japonesa, mesmo antes da assinatura do muito fascista «pacto anti-komimtern» de 1936 entre Berlim, Roma e Tóquio.

Para aqueles que ficam perplexos com essa qualificação, lembremos que o Japão do final da década de 1930 reunia as principais características de um fascismo análogo ao dos seus homólogos europeus: uma mística da raça superior, uma devoção absoluta ao Imperador como encarnação divina da nação, uma militarização integral da sociedade e uma compulsão irresistível pela expansão territorial, sendo a guerra de conquista sacralizada a ponto de justificar antecipadamente as piores brutalidades contra populações civis desumanizadas.

Além da submissão da China, as ambições expansionistas do Império japonês incluíam o domínio de toda a Ásia e do Pacífico. Mas foi o povo chinês o primeiro no mundo a resistir à barbárie fascista. Com a invasão das forças japonesas em todo o território chinês, a partir de 1937, a resistência chinesa deu origem ao primeiro campo de batalha da Segunda Guerra Mundial. E de Julho de 1937 ao ataque a Pearl Harbor em Dezembro de 1941, durante quatro anos, a China só pôde contar consigo mesma para enfrentar o invasor.

Uma luta ainda mais difícil, pois o Japão, potência industrial, podia fabricar armamento pesado, do qual as tropas chinesas geralmente careciam: porta-aviões, navios de guerra, aviões, tanques, artilharia. Os oficiais superiores japoneses que invadiram a China afirmavam com arrogância que três meses, no máximo, seriam suficientes para resolver o «incidente chinês», e tentaram conquistar a China mobilizando meios colossais: 600 000 homens em 1937, aumentando para mais de um milhão em 1939, com a maior parte do orçamento militar japonês sendo dedicado à ocupação do continente e aos combates incessantes com as tropas chinesas.

Batalhas frontais e guerrilha

Apesar dos seus esforços, o Japão não conseguiu vencer a resistência do povo chinês. Este reuniu as suas forças para formar uma barreira contra o invasor, seja nas batalhas frontais de Taiyuan, Songhu, Xuzhou, Nanjing, Wuhan, lideradas pelo Guomindang, ou nas lideradas pelo Partido Comunista Chinês atrás das linhas inimigas, como a «Batalha de Pingxingguan», a «Ofensiva dos Cem Regimentos», ou ainda os combates travados pelo Exército Unido Antijaponês do Nordeste no coração da Manchúria, sem contar as inúmeras acções da guerrilha comunista para estabelecer bases anti-japonesas e abrir brechas na rectaguarda.

Exigindo a formação de uma «Frente Unida» com os nacionalistas, o Partido Comunista fez da luta pela libertação nacional uma prioridade absoluta. Para cumprir essa tarefa histórica, Mao compreendeu que era necessário «aproveitar o carácter revolucionário da guerra de resistência para transformá-la numa guerra do povo». Porque a guerra de movimento está prestes a ser vencida pelo Japão, explicou ele, e durante esta primeira fase, é o exército nacionalista que desempenha o papel principal. Mas quando passarmos para a segunda fase, por outro lado, será a guerra de guerrilha que assumirá o comando.

Ao atacar os flancos do inimigo, ensinava Mao, o Exército Vermelho esgotaria o inimigo. Aproveitaria o alongamento das suas linhas de comunicação para o hostilizar. Dar-lhe-ia o golpe de misericórdia, quando chegasse o momento, lançando todas as suas forças na batalha. Esta guerrilha anti-japonesa seria determinante para o desfecho do conflito. Porque a China é «um grande país fraco atacado por um pequeno país poderoso», e a guerra de guerrilha terá uma função não só táctica, mas estratégica: o invasor «acabará por ser engolido pelo imenso mar chinês» (1).

O papel decisivo da resistência chinesa

«O Japão pensava que a conquista da China resolveria os seus problemas económicos, proporcionando-lhe matérias-primas e mercados promissores», observa o historiador Olivier Wieworka. «Esperava também que a sua cruzada erradicasse a influência e o modo de pensar ocidentais no país de Confúcio. Desiludiu-se. No norte da China, a guerrilha maoísta impedia-o de explorar as zonas rurais, atacava comboios e sabotava camiões. (..) Assim, o Eldorado sonhado transformou-se num pesadelo. Um pesadelo caro. Na véspera de Pearl Harbor, o império tinha perdido mais de 180 000 mortos e 323 000 feridos na aventura. Estas constatações amargas levaram então os dirigentes japoneses a voltar o olhar para o sul» (2).

Contribuindo para selar o destino do conflito mundial, a resistência obstinada do povo chinês teve duas consequências importantes.

Em primeiro lugar, contribuiu para frustrar o plano japonês de agressão contra a URSS, mobilizando a maior parte das forças nipônicas na frente chinesa, o que permitiu a Staline concentrar as suas tropas para a defesa de Moscovo em Dezembro de 1941. Já abalado pela derrota frente a Zhukov na Mongólia em Dezembro de 1939, o estado-maior japonês passou a privilegiar a ofensiva para o sul (o sudeste asiático e as colónias europeias) em detrimento da ofensiva antissoviética em direcção ao norte. E, em Agosto de 1945, foi o exército soviético, passando à ofensiva, que deu o golpe final nas tropas japonesas estacionadas no norte da China.

Em segundo lugar, a resistência chinesa teve como efeito influenciar a política dos EUA, reforçando a convicção de Roosevelt de que a guerra poderia ser vencida graças à «magnífica luta defensiva da China, que, tenho motivos para o acreditar, ganhará força» (27 de Maio de 1941). Por isso, enviou o general Stilwell para ocupar o cargo de chefe do Estado-Maior junto a Chiang Kai-chek. A ajuda dos EUA permitiu aproveitar o imenso território da China para manter o Japão em xeque e imobilizar as suas forças terrestres, que faltariam cruelmente ao Estado-Maior japonês diante das forças americanas nas ilhas do Pacífico.

Em Fevereiro de 1942, o presidente dos EUA elogiou a resistência chinesa num telegrama enviado a Chiang Kai-chek: «A sua resistência heróica ao cruel agressor valeu ao exército chinês os mais dignos elogios do povo americano e de todos os outros povos amantes da liberdade. O povo chinês, armado e desarmado, que há quase cinco anos oferece uma resistência feroz a um inimigo muito melhor equipado, bem como o espírito indomável que demonstra diante de tal contraste, são uma fonte de inspiração para todos os combatentes e povos das outras nações unidas na resistência» (3).

Orgulho nacional e garantia de unidade

A contribuição chinesa para a luta antifascista também explica a assinatura da China ao lado dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da União Soviética quando essas nações publicaram a Declaração das Nações Unidas na Casa Branca, em 1 de Janeiro de 1942. Juntando-se a outros 22 países no dia seguinte, esse compromisso marcou o estabelecimento oficial de uma aliança mundial contra o fascismo e a criação de uma estrutura diplomática chamada “Quatro Grandes”, selando essa grande coalizão contra as potências fascistas defendida incansavelmente, desde 1937, pelo governo chinês. E foi essa contribuição decisiva da China para a luta comum que também provocou a abolição dos tratados desiguais herdados do século anterior.

É por isso que Xi Jinping declarou no 70º aniversário da vitória de 1945: “A vitória da guerra de resistência do povo chinês contra a agressão japonesa foi um triunfo para toda a nação chinesa. Não só frustrou a tentativa do militarismo japonês de colonizar e escravizar a China, como também aboliu os tratados desiguais assinados com as potências imperialistas desde os tempos modernos, permitindo à China lavar um século de humilhação nacional (..) A vitória lançou bases sólidas para a independência e a libertação da China, estabeleceu um ponto de viragem histórico para o grande renascimento da nação chinesa e proporcionou a condição prévia essencial para a sua realização».

Em 3 de Setembro de 2025, os chineses celebrarão o 80º aniversário dessa vitória conquistada com muito esforço, organizando um impressionante desfile militar no coração da capital, Pequim. Para eles, essa vitória é, de facto, uma fonte legítima de orgulho nacional e uma garantia insubstituível de unidade nacional. A China reconhece que os nacionalistas e os comunistas chineses tiveram um papel importante na luta pela libertação contra o invasor japonês, quer se trate dos exércitos do governo de Nanjing, depois de Chongqiing, ou das forças guerrilheiras que combateram com sucesso as tropas japonesas. Celebrada por todo o povo chinês, essa unidade na luta vitoriosa contra o invasor tem um valor exemplar e constitui um antídoto sério contra todos os fermentos de divisão.

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(1) Mao Zedong, “Problemas estratégicos da guerra dos guerrilheiros contra o Japão”, Maio de 1938.

(2) Olivier Wieworka, História global da Segunda Guerra Mundial, Perrin, 2023, p. 241.

(3) Gu Yunshen, A Segunda Guerra Mundial e a China, Conferências chinesas da Rua d’Ulm, 2022.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/oui-la-chine-a-contribue-de-maniere-decisive-a-la-victoire-de-1945.html

1 Ago 2025

Mais um infortúnio

O que é mais inesperado do que a repetição de um determinado infortúnio num curto espaço de tempo?

Nas eleições para a 8.ª Assembleia Legislativa de 2025, o número listas de candidatura à eleição por sufrágio directo passou de nove a seis depois de analisadas pela Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL). Este é o menor número de listas de candidatura de sempre à eleição por sufrágio directo desde o regresso de Macau à soberania chinesa.

Contudo, depois da verificação da capacidade dos candidatos pela Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, alguns pertencentes a duas das oito listas candidatura foram excluídos por “não defenderem a Lei Básica ou não serem fiéis à RAEM da República Popular da China”. sem ter havido oportunidade de os substituir, pelo que foi estabelecido um novo recorde de menor número de listas de candidatura de sempre à eleição por sufrágio directo.

Nas eleições para a Assembleia Legislativa em 2021, a CAEAL adicionou sete critérios para se determinar se os candidatos defendem A Lei Básica e são leais à RAEM da República Popular da China. Estes novos critérios conduziram à desclassificação de cinco listas de candidatura. Nessa altura, a listas desclassificadas apresentaram reclamação e interpuseram recurso e os candidatos em causa acabaram por ser informados dos motivos da sua desclassificação.

De acordo com a revisão da “Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau”, que entrou em vigor em 2024, compete à Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM determinar se os candidatos defendem a Lei Básica e são fiéis à RAEM da República Popular da China, bem como emitir parecer vinculativo para a CAEAL sobre a verificação de desconformidades.

Além disso, deixaram de poder apresentar reclamação e recorrer da decisão da CAEAL. Assim sendo, os candidatos que são desclassificados para concorrer às eleições para a Assembleia Legislativa em 2025 não podem apresentar reclamação nem recurso da decisão da CAEAL e nunca poderão vir a saber os motivos da sua desclassificação. Alguns destes candidatos comunicaram a sua opinião sobre a decisão da Comissão de Defesa da Segurança do Estado a vários órgãos de comunicação social.

Consideram que a acusação de “não defenderem a Lei Básica ou não serem fiéis à RAEM da República Popular da China” é absurda e consideram-na uma “anedota”. No entanto, têm consciência de que estas são as regras do jogo por isso não pretenderiam recorrer da decisão, mesmo que houvesse um mecanismo que o permitisse.

Além do mais, um candidato que foi desclassificado este ano, mas que concorreu às eleições para
Assembleia Legislativa em 2021 e em 2017, salientou que o seu desempenho foi sempre justo e transparente e que tudo o fez fê-lo por Macau. Afirmou estar de consciência tranquila e afirmou “”quando se quer acusar alguém, pode-se sempre encontrar um pretexto qualquer”.

Outro candidato desclassificado declarou que foi dissuadido em privado de concorrer às eleições. Em resposta a estas declarações a CAEAL manifestou a sua indignação e reservou-se o direito de mover uma acção penal. Muitos estão ansiosos para ver se a CAEAL sempre irá mover a acção legal contra o acima citado instigador, para se ver se a verdade será apurada.

A revisão da “Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau” não requer a publicação do parecer sobre a verificação de desconformidades dos candidatos. Contudo, os candidatos desclassificados deveriam ter o direito de requisitar o parecer da CAEAL ao abrigo do princípio de segredo de justiça, para ficarem a saber os motivos da desclassificação. Caso contrário, será como ser multado sem saber a razão, mas ter de pagar a multa na mesma para respeitar a lei.

Considerando a “Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau”, mesmo que um candidato potencial assine o compromisso de defender a Lei Básica e de ser leal à RAEM, se não obtiver a aprovação da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, mesmo que lhe tenha sido permitido concorrer em eleições anteriores, não tem garantia de poder concorrer às eleições seguintes.

Para evitar a ocorrência de mais um infortúnio nas eleições para Assembleia Legislativa em 2029, que possa vir a manchar a credibilidade do Governo da RAEM, deve considerar-se a revisão da “Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau”? Por exemplo, solicitar ao potencial candidato a apresentação do Certificado de Registo Criminal para ser avaliado pela Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM depois de ter sido pago o depósito de caução.

O candidato só poderia proceder à constituição de comissão de candidatura depois da aprovação da Comissão de Defesa da Segurança do Estado, o que requer o apoio de mais de 300 eleitores e respectivas assinaturas.

Se o candidato for afastado da corrida às urnas depois de ser avaliado pela CAEAL, o depósito de caução não é reembolsado. Esta abordagem pouparia o esforço e os recursos necessários para a constituição de comissão de candidatura e, acima de tudo, evitaria a situação em que 300 ou mais eleitores possam ser rotulados como não defensores da lei Básica e desleais à RAEM, quando a lista de candidatura em causa vier a ser desclassificada.

Evitar a ocorrência de infortúnios é da responsabilidade de todos. A segurança nacional é fundamental, mas os direitos e obrigações dos cidadãos não devem ser negligenciados.

1 Ago 2025