Lições de 2025 para a Década

(Continuação do artigo publicado em 11 de Dezembro)

No sector da segurança, o mundo enfrentará desafios complexos. O terrorismo poderá assumir novas formas, com utilização de tecnologias digitais e de inteligência artificial. A cibersegurança tornar-se-á prioridade, com ataques digitais a sistemas críticos a representar riscos significativos. Estima-se que até 2030 os custos globais de ciberataques possam ultrapassar 10 mil milhões de dólares anuais. No plano militar, tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China poderão intensificar-se. O Médio Oriente continuará a ser foco de instabilidade. Entre 2026 e 2030, os cenários sociais e culturais assumirão papel determinante na configuração do futuro global. A migração internacional continuará a ser um dos fenómenos mais marcantes, impulsionada por conflitos armados, desigualdades económicas e alterações climáticas.

Estima-se que centenas de milhões de pessoas possam estar em situação de mobilidade internacional ou interna, seja por procura de melhores condições de vida, seja por necessidade de sobrevivência. A Europa enfrentará pressões migratórias vindas de África e do Médio Oriente, com centenas de milhares de pessoas a procurar refúgio em países como Itália, Grécia, Espanha e Alemanha. Este fluxo exigirá políticas de integração mais robustas, mas também poderá gerar tensões sociais e políticas, alimentando discursos populistas e nacionalistas.

Nos Estados Unidos, a imigração continuará a ser tema central, com políticas restritivas a provocar tensões sociais e protestos, mas também com a necessidade de mão-de-obra em sectores como agricultura, construção e serviços. Na América Latina, migrações internas intensificar-se-ão devido a fenómenos climáticos extremos, como inundações e secas, obrigando milhões de pessoas a deslocar-se das zonas rurais para as cidades. Em África, a desertificação e os conflitos armados no Sahel poderão deslocar mais de 20 milhões de pessoas, criando crises humanitárias de grande escala.

A urbanização será outro fenómeno central. Até 2030, mais de 65% da população mundial viverá em áreas urbanas, com megacidades a crescerem de forma acelerada. Cidades como Lagos, Kinshasa, Mumbai, São Paulo e Jacarta poderão ultrapassar os 30 milhões de habitantes, enfrentando desafios de infra-estrutura, habitação, transporte e saneamento. A urbanização acelerada trará oportunidades de dinamismo económico e cultural, mas também riscos de desigualdade e exclusão social. As cidades terão de investir em soluções sustentáveis, como transportes públicos eficientes, habitação acessível e gestão de resíduos. A digitalização das cidades, com recurso a tecnologias inteligentes, poderá melhorar a qualidade de vida, mas exigirá políticas de inclusão para evitar que populações vulneráveis fiquem excluídas.

As transformações demográficas serão igualmente decisivas. O envelhecimento populacional na Europa, Japão e Coreia do Sul exigirá políticas de saúde e de cuidados de longa duração, com impacto nos sistemas de pensões e na sustentabilidade fiscal. Estima-se que, até 2030, mais de 25% da população da Europa tenha mais de 65 anos, criando desafios de produtividade e de financiamento dos sistemas sociais. Em contrapartida, África e partes da Ásia terão populações jovens em crescimento, com milhões de pessoas a entrar no mercado de trabalho. Este fenómeno poderá ser uma oportunidade de dinamismo económico, mas também um risco de instabilidade se não forem criados empregos suficientes. A Índia, por exemplo, terá mais de 1,5 mil milhões de habitantes em 2030, com uma população jovem que poderá impulsionar crescimento, mas que exigirá investimentos massivos em educação e formação. A China enfrentará o desafio de uma população envelhecida, com mais de 400 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 2030, o que poderá limitar o dinamismo económico e aumentar pressões sobre sistemas de saúde e pensões.

Os cenários culturais também se transformarão. A globalização digital continuará a difundir valores e práticas culturais, mas também a gerar tensões entre tradições locais e influências externas. A música, o cinema e a literatura circularão de forma cada vez mais intensa, criando uma cultura global híbrida. Contudo, movimentos de afirmação identitária e de valorização de culturas locais ganharão força, procurando preservar tradições e resistir à homogeneização cultural. A diversidade cultural será simultaneamente uma riqueza e um desafio, exigindo políticas de inclusão e de respeito pela diferença.

As migrações, a urbanização e as transformações demográficas interagirão com fenómenos ambientais e tecnológicos. As cidades terão de se adaptar a fenómenos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor, que afectarão milhões de pessoas. A migração climática tornar-se-á realidade, com populações inteiras a deslocar-se devido à subida do nível do mar e à desertificação. A urbanização acelerada exigirá soluções tecnológicas, como cidades inteligentes e infra-estruturas sustentáveis, mas também políticas sociais para garantir inclusão. As transformações demográficas criarão novos equilíbrios de poder, com África e Ásia a ganhar peso demográfico e económico, enquanto a Europa e Japão enfrentarão desafios de envelhecimento.

Em síntese, o período entre 2025 e 2030 pode ser descrito como uma fase de transição crítica, em que os acontecimentos de 2025 funcionaram como catalisadores de mudanças estruturais que se manifestaram em diferentes dimensões. A economia global entrou num ciclo de recuperação moderada, mas com riscos persistentes. A política internacional foi marcada por polarização e por tensões geopolíticas, com os Estados Unidos e a China a disputar a liderança tecnológica e industrial, e o Médio Oriente a permanecer como foco de instabilidade. O ambiente revelou a urgência da transição energética e da adaptação climática, com fenómenos extremos a afectarem milhões de pessoas. A tecnologia transformou economias e sociedades, criando oportunidades e riscos. A educação e a saúde exigiram políticas inclusivas e inovadoras. A segurança tornou-se prioridade, com ciberataques e terrorismo digital a representar riscos significativos. Os cenários sociais e culturais revelaram a importância da migração, da urbanização e das transformações demográficas.

O futuro dependerá da capacidade de articular interesses nacionais com responsabilidades colectivas, construindo um equilíbrio entre competitividade e solidariedade. Se os países conseguirem investir em inovação responsável, em educação inclusiva e em sustentabilidade energética, será possível construir um futuro mais justo, sustentável e inclusivo. Caso contrário, o risco de estagnação prolongada e de agravamento das desigualdades permanecerá elevado. O período entre 2025 e 2030 ficará, assim, como um momento decisivo, em que a humanidade foi chamada a escolher entre a cooperação e a fragmentação, entre a coragem de avançar e o risco de permanecer prisioneira das suas próprias contradições.

18 Dez 2025

A minha boca é um cravo

«… Na tua boca desfeito, nascem cravos murcham cravos desfolhados no meu peito»

Estávamos em 1968 e Adriano cantou a profecia. Adriano Correia de Oliveira, o mais expressivo jogral dos nossos tempos cuja vida breve, por muitos não foi esquecida. Foi uma presença modeladora que nos brindou, a sua quase visionária voz só tomou corpo anos mais tarde quando a vida não contemplava muito mais merecimento por ter sido um canto de plena aurora, e nos deixou entregues à sarna do intervencionismo especulativo das vozes de ocasião. Por isso nos tempos das guerras das flores, ele canta ainda, e encanta a todos aqueles que em seu presente nos trazem futuro.

Adriano é nome de Imperador, e também tinha aquele perfil tão nítido e imperturbável, grave e distinto, sabia bem olhá-lo e, foi ainda numa manhã clara de Abril que nasceu com timbre de Primavera na graça de um chão de flores; era um jogral, bem distinto de um cantor, ele será para sempre o mais eloquente dos cancioneiros com um não sei quê de profeta e de senhor pleno de disciplina e nostalgia, aqueles seres que não há, mas existem para sempre em nosso imaginário; este Adriano que nos recita na sequência da canção cantada, que: «o coração só desfolha se lhe apodrece a raiz/triste destino da gente, da gente do meu país» Mas, ” outro cravo é o coração/ desfolhado no teu peito” foi um grande intérprete da canção e um arauto pleno de amanhãs.

Toda esta gente não merece flores, que elas se dão e contemplam no ciclo iniciático das promessas, nas germinais conquistas do amor, nas seivas poderosas da ternura e nos ciclos sociais das grandes conquistas, esta gente não merece flores. Arrancadas à terra. Há guerras de Alecrim e Manjerona, uma comédia de enganos de António José da Silva em pleno século dezoito, o nosso «Judeu» mas a vegetal interpretação dará agora azo a trocadilhos carnavalescos entre rosas e cravos, o que não difere em nada do propósito humorístico do autor. Muitas vezes os mais ferozes seres optam por coisas singulares de brancura gélida, nevoeiros e rosas brancas, eles são exclusivamente puristas na abordagem da matéria e nos reflexos das claríssimas ornamentações, só que nada disso corresponde ao vislumbre da Supraconsciência do outro lado do portal. São assim porque sim, mas nunca sensíveis nem fraternos, rubros, amantes e intensos como os escarlates seres de generosa afirmação.

Rosas no Inverno, já Dom Dinis desconfiara, mas enfim, quem planta pinhais, acresce-lhes roseiras, e os milagres são sempre bem-vindos, e mesmo assim o rei mais esclarecido deixou passar como sinal de amor, só que ele morreria em pleno Inverno com dúvidas acerca das suas “flores de verde pino” mas nunca se escusando ao superlativo acto de uma crença real. Infelizmente que não o temos mais entre nós para dizer de sua senhoria as coisas estranhas que o acometeram, mas não duvidemos jamais da sua boca em cravo desfeito em amores estivais tão rubros quanto o seu ardor. Nesse tempo teríamos um Adriano inebriante e um rei com recitativos e cravos em sua boca, e toda a beleza que se desfaz e recomeça, nos beijos que damos somente no tempo de todas as flores.

17 Dez 2025

Campbell’s Soup

Robert Garza, um antigo analista de ciber-segurança da Campbell’s Soup, uma conhecida marca de alimentos vendida em Macau e em Hong Kong, levantou um processo judicial no tribunal do Michigan, EUA, alegando possuir a gravação de uma reunião com Martin Bally, vice-presidente de tecnologia de informação da empresa, realizada em Novembro de 2024, para discutir uma indeminização.

Na gravação ouve-se Bally dizer que a comida da Campbell’s Soup é “vendida aos pobres” e é “altamente processada”, afirmando ainda que o frango da sopa é “imprimido em 3D” e que “ele nunca a compraria.” Robert Garza está a usar a gravação como prova neste processo, acusando a empresa de o ter despedido injustamente porque considerou os seus comentários desafiadores. O caso está actualmente em julgamento.

Depois de verificar a gravação, a Campbell’s Soup Company determinou que estas observações eram”vulgares, ofensivas e falsas,” despediu Bally no passado mês de Novembro e desculpou-se publicamente. A Campbell’s Soup é vendida em todo o mundo e este incidente, que ocorreu na sede da empresa nos EUA, tem implicações significativas.

Podemos comentar em profundidade estas notícias a partir de múltiplas perspectivas, desde as laborais às empresariais, passando pela indústria alimentar e pelo público. Em primeiro lugar, do ponto de vista das relações laborais, um funcionário superior diz a um funcionário intermédio que o produto que vendem é “comida de pobres” o que afecta a imagem da empresa. A queixa do funcionário de nível intermédio, que resultou em despedimento, demonstra que o mecanismo de reclamações da empresa é ineficaz.

Os funcionários que se queixam põem em risco o seu trabalho. Esta forma de gestão reduz a lealdade dos trabalhadores, anula o potencial de desenvolvimento a longo prazo da empresa e não oferece nada de positivo. Em última análise, obriga os funcionários a demitir-se ou a denunciarem a situação às entidades governamentais ou à imprensa, fazendo escalar o conflito entre a empresa e os trabalhadores. O bom funcionamento das empresas depende de funcionários competentes e leais, ele são o seu activo intangível mais importante, seja qual for a área de negócio.

Neste caso, embora Bally tenha sido despedido, a empresa precisa de repensar o seu mecanismo de reclamações. Por exemplo, podiam ser dirigidas directamente ao Conselho de Administração, o que restauraria a confiança dos trabalhadores e ajudaria a uma gestão mais eficaz. Os consumidores não se interessam pelo despedimento de um funcionário, mas estão interessados em discutir se a empresa usa “frango impresso em 3D” na sua comida.

A Campbell’s Soup esclareceu que o seu frango vem de fornecedores tradicionais e não é carne “cultivada em laboratório”. “O rótulo “bio-engenharia” refere-se à utilização de tecnologias geneticamente modificadas em alguns ingredientes de origem vegetal, como milho e a soja. Esta é uma prática comum na indústria alimentar dos EUA e é completamente diferente da “carne cultivada por células”. Para garantir a reputação comercial e o valor do produto da Campbell Soup, estes esclarecimentos devem ser acompanhados por novas estratégias de vendas e de gestão de crises. Isto passa por reforçar a longo prazo a responsabilidade social da empresa, aumentando a transparência do processo de produção e pela aceitação de inspecções externas aos ingredientes para verificar a presença de componentes geneticamente modificados. Tudo isto testa a capacidade de tomada de decisões e a capacidade de gestão de risco da administração da Campbell Soup.

Por outro lado, “frango impresso em 3D” voltou a despertar as preocupações de longa data do público acerca da moderna indústria alimentar. Os consumidores preocupam-se se a comida produzida em série é excessivamente processada, se a origem dos produtos é clara e também com os efeitos que podem ter na saúde. Este incidente levou novamente os consumidores a discutir estas questões.

O impacto será tanto maior quanto maiores forem as preocupações dos consumidores. Talvez a empresa possa considerar a contratação de uma entidade externa que conduza um inquérito para avaliar o grau de preocupação dos consumidores e depois desenvolver estratégias para o reduzir.

Para a sociedade americana, a Campbell’s Soup, que fornece comida conveniente e acessível, tem desde há muito tempo a imagem de uma marca “familiar” e “reconfortante”. A afirmação “comida de pobres” insulta os consumidores. As pessoas com rendimentos baixos têm recursos financeiros limitados e dependem de alimentos processados, o que levanta a questão da relação entre alimentos produzidos em série e baixos níveis de rendimento. Isto revela que as escolhas alimentares dos americanos estão intimamente relacionadas com as suas finanças.

Este fenómeno expõe a impotência dos americanos de baixos rendimentos na escolha dos alimentos e traça um quadro confrangedor de um país desenvolvido.

O que está no cerne desta questão é o facto de um gestor de topo da Campbell ter minimizado a confiança do público no produto da empresa, causando uma ruptura entre as declarações internas e a confiança dos consumidores. Representa uma situação em que o “mito da marca foi construído na cozinha mas colapsou na sala de reuniões”, uma questão de ética empresarial e não de qualidade do produto.

A forma como este escândalo irá afectar as vendas e a marca dependerá de a Campbell conseguir manter com sucesso a sua imagem de produto familiar e reconfortante, da memória dos consumidores, mas também do seu cepticismo em relação aos alimentos produzidos em série, das acções dos concorrentes, etc.

Além de resolver a crise no mercado interno, a dimensão da confiança dos mercados estrangeiros, enquanto importantes destinos comerciais para a Campbell’s Soup, não pode ser ignorada. Na era da internet, os eventos ocorridos num local atravessam o mundo num instante. Se a Campbell’s Soup não considerar as reacções dos consumidores estrangeiros, estará a fazer uma gestão de crise inadequada.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

16 Dez 2025

Greve geral e surreal

Um casal membro de um sindicato pertencente à CGTP-Intersindical encontrava-se num dilema no passado dia 11, dia de greve geral, antes de sair de casa. O problema era desejar ir à manifestação organizada para protestar contra a absurda proposta do Governo Montenegro sobre uma eventual nova Lei Laboral, uma greve geral que há muitos anos não juntava a UGT e a CGTP. O dilema prendia-se precisamente com a greve geral. O casal, residente na Amadora, não tinha qualquer transporte para se deslocar para o centro de Lisboa. O seu melhor vizinho também tinha decidido não ir à manifestação porque o Metropolitano estava em greve total.

Milhares de trabalhadores ficaram impedidos de ir à manifestação por falta de transporte. O surrealismo estava à vista. Vontade de protestar, sim. Como, impossível. Mais surreal foi o facto de os motoristas de dezenas de autocarros que as centrais sindicais alugaram para transportar manifestantes, terem de trabalhar num dia de greve geral, Portugal político está mesmo dividido ao meio. De um lado, os conservadores e neofascistas. Do outro, a esquerda democrática e radical.

Uma divisão triste para quem deseja um país melhor e uma redução no número de portugueses a viver no limite da pobreza. As centrais sindicais anunciaram que a greve geral foi estrondosa, a melhor de sempre e com uma adesão invulgar a rondar os 80 por cento. A greve paralisou transportes aéreos, ferroviários, rodoviários, marítimos e fluviais, além de escolas, creches, hospitais, centros de saúde, lares para idosos, centros de dia, tribunais, universidades e museus.

O Governo Montenegro veio, com ar de desprezo e arrogância pela realização da greve geral, dizer que a adesão foi diminuta e que não teria passado dos cinco por cento. E a sua demagogia imperou quando “ordenou” aos canais de televisão que controla, que mostrassem bem que na Autoeuropa estavam imensos trabalhadores a não aderir à greve geral. O costume dos números. Para uns, excelente. Para outros, um fiasco. A verdade é que a greve geral mexeu com milhares de portugueses, de uma forma ou outra.

O mais importante nem era a greve geral. O que está em causa é o protesto generalizado, incluindo por parte de alguns antigos dirigentes do PSD e do CDS, contra o conteúdo absurdo e prejudicial da proposta governamental para uma nova Lei Laboral. A preocupação que mais tem crescido nos inquéritos às empresas é a falta de trabalhadores, muitas áreas de actividade enfrentam sérias dificuldades com a falta de pessoal qualificado e as limitações ao recrutamento de mão-de-obra estrangeira a pôr em risco os objectivos do PRR.

Num contexto de escassez de mão-de-obra os salários reais têm crescido nos últimos anos acima da inflação, com destaque para a área da construção, com valorizações acima de oito por cento. Face a este cenário o que resolveu o Governo na sua fúria ideológica? Abrir um incompreensível conflito social em torno das leis laborais, já profundamente revistas várias vezes este século.

Nada se tem percebido sobre a abertura negocial do Governo relativamente aos temas principais da sua proposta. Obviamente que ao fim de quatro meses de orelhas moucas do Governo, tinha de ser organizada uma greve geral. Retrocesso no pacifismo laboral é o Governo pretender a possibilidade de despedimento sem processo nem justa causa nas empresas até 50 trabalhadores, com a dispensa de reintegração caso o despedimento seja considerado ilegal pelo tribunal, a possibilidade de contratar em outsourcing no dia seguinte ao despedimento colectivo, com banco de horas individual, com contrato a prazo para toda a vida, com a possibilidade de reclassificação profissional com a redução de salário, com obrigatoriedade dos pais das crianças trabalharem ao fim-de-semana ou com a descriminalização do trabalho não declarado e pago por baixo da mesa.

Estas são algumas das “inovadoras” propostas do Governo, que em nenhuma altura aceitou retroceder, mas que em nada contribuem para a competitividade, a modernização digital e a qualificação dos trabalhadores. Depois de meses de hipocrisia do diálogo e de inocentes lamentos acerca de uma greve “inoportuna”, Montenegro veio misturar a ameaça sobre o cumprimento dos serviços mínimos, e o terrível impacto económico da greve geral. Simplesmente balelas com uma vaga de demagogia de promessas sobre salários que nem lembrariam aos sindicatos como pedidos ao Pai Natal…

Até Bagão Félix e Silva Peneda vieram já reconhecer a inoportunidade e natureza desequilibrada da reforma da legislação laboral. E estas personalidades não são sindicalistas, nem socialistas e muito menos frequentaram manifestações de protesto ou participaram em greves.

O mais surreal disto tudo, é que o Governo irá esperar que depois de se ter esquecido a greve geral e passado o Natal possa impor a máquina trituradora que levará os trabalhadores portugueses a perderem direitos como nunca sonharam. Só falta que a aliança PSD/Chega anuncie que o regime democrático também será alvo de uma reformulação laboral…

15 Dez 2025

Um passeio por Macau

Todos os anos, a seguir à apresentação das Linhas de Acção Governativa, o Governo da RAE realiza debates na Assembleia Legislativa sobre as várias áreas de governação, onde os responsáveis respondem às perguntas dos deputados. Mas para compreender verdadeiramente a actual situação de Macau, a experiência e o conhecimento em primeira mão são, sem dúvida, essenciais.

Diz-se que vai encerrar uma antiga loja de electrodomésticos situada na Rua das Estalagens porque o dono se vai reformar. Todas as sucursais desta loja fecharam ao mesmo tempo. Estão a oferecer descontos de 50 por cento, o que atrai imensos clientes. Perante uma forte concorrência de sites e aplicações de vendas online, até os supermercados estão a começar a aderir a este sistema. A redução de pessoal é uma forma de manter o negócio, mas que competências tem um trabalhador de supermercado desempregado que lhe permitam conseguir um emprego noutras áreas do sector comercial?

Comprar alimentos presencialmente é sem dúvida a melhor opção, mas o ambiente do mercado municipal de Taipa no domingo é muito diferente do da Rua do Cunha, que está apinhada de gente. Alguns donos de bancas do mercado municipal até optaram por fechar temporariamente. Os turistas não vão certamente comprar produtos no mercado para depois irem cozinhar. E os habitantes de Macau, foram para onde? Um residente de Taipa disse-me que desde que as autoridades de Macau concederam acesso de veículos motorizados de Macau à Ilha de Hengqin, as pessoas deixaram de ir ao mercado local e passaram a fazer compras em Hengqin, depois reabastecem os carros e jantam por lá, simplesmente porque é tudo mais barato.

Perante a forte competitividade da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, ir às compras e jantar em Zhuhai ou Hengqin tornou-se uma tendência irreversível. Para além da redução de impostos ou da diminuição das taxas no arrendamento das propriedades, que medidas efectivas tomou o Governo da RAE para reduzir outros custos operacionais, quebrar monopólios e abrir o mercado?

A atmosfera movimentada das zonas turísticas de Macau durante o dia faz com que as noites tranquilas na Zona A dos Novos Aterros Urbanos pareçam algo solitárias. Os projectos de habitação pública estão a ser concluídos uns após os outros, mas as várias infra-estruturas em redor do complexo habitacional ainda estão em construção. Para sobreviver, a humanidade necessita de um tecto, mas também de qualidade de vida. As recentes medidas de melhoria tomadas pela Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana podem ser consideradas uma resposta às necessidades dos residentes, mas “colmatar” as lacunas e melhorar as condições do tráfego em Macau é da responsabilidade das autoridades competentes.

Com o encerramento dos casinos-satélite, a situação dos negócios circundantes e a reinserção dos funcionários afectados voltou a ser um tópico de debate na Assembleia Legislativa. Devido à mudança do tipo de turistas nos últimos anos, hoje em dia temos maioritariamente os que tiram selfies e fotografias das atracções turísticas. O aumento do número de turistas não é proporcional ao aumento das receitas fiscais. A pergunta é a seguinte, para além dos pontos de referência, da comida e dos casinos, que mais há em Macau que possa levar os turistas a gastar o seu dinheiro?

A relva do Taipa Jockey Club cresceu, o desenvolvimento do parque temático “Parque Oceanis” ainda está na fase de planeamento, e os projectos de construção no terreno do canídromo da Companhia de Corridas de Galgos de Macau (Yat Yuen) deverão começar em breve. Mas com muitos terrenos sem utilização, como é que Macau vai poder gerir o seu desenvolvimento global, e para além disso, integrar-se de forma activa no quadro do desenvolvimento nacional? Depois dos debates sobre as várias áreas de governação na Assembleia Legislativa estarem concluídos, seria uma boa altura para os principais responsáveis governamentais darem um passeio pelas várias zonas de Macau sem combinações prévias e sem séquito.

12 Dez 2025

Lições de 2025 para a década

“In a year of converging crises and recalibrated ambitions, 2025 taught the world that resilience is not merely endurance, but the capacity to adapt, reimagine, and act with foresight across economic, political, environmental, and technological frontiers.”

Margaret Atwood

O ano de 2025 ficará inscrito na história contemporânea como um período de intensas transformações, marcado por acontecimentos que atravessaram múltiplas dimensões da vida internacional e que exigiram dos Estados, das instituições e das sociedades uma capacidade de adaptação sem precedentes. No plano económico, verificou-se uma desaceleração global que reflectiu os efeitos acumulados de políticas monetárias restritivas, tensões comerciais e instabilidade geopolítica. O crescimento mundial situou-se em torno de valores modestos, insuficientes para responder às necessidades de inclusão social e de redução das desigualdades. A transição do ciclo de subida de taxas de juro para cortes graduais trouxe algum alívio às condições financeiras, mas revelou também fragilidades estruturais, com mercados emergentes a enfrentar restrições fiscais e cambiais que limitaram a sua margem de manobra. A América Latina registou uma expansão insuficiente para gerar emprego sustentável, enquanto a África continuou a lutar pela diversificação das suas economias, excessivamente dependentes de commodities. A Ásia manteve dinamismo industrial e tecnológico, mas a China enfrentou o desafio de estimular o consumo interno e corrigir desequilíbrios estruturais que se tornaram mais evidentes.

No plano político, o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em Janeiro constituiu um dos acontecimentos mais marcantes do ano. A sua agenda voltou a ser dominada pelo lema “America First”, com medidas proteccionistas, expulsões em massa de imigrantes irregulares e o desmantelamento de sectores do governo federal. Estas acções geraram contestação judicial e acentuaram a polarização política interna, com a utilização da Guarda Nacional em cidades governadas por democratas e ataques aos meios de comunicação a reforçarem a percepção de erosão institucional. No plano internacional, Trump intensificou a actividade diplomática, com resultados variáveis, mas conseguiu protagonizar um papel central na trégua precária alcançada em Gaza, após dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Este cessar-fogo permitiu a libertação de reféns e prisioneiros, bem como o aumento da ajuda humanitária, embora insuficiente segundo a ONU, e deixou em aberto a questão delicada do desarmamento do Hamas.

A instabilidade no Médio Oriente foi agravada por ataques israelitas a instalações nucleares iranianas, que desencadearam uma guerra de doze dias entre os dois países, com bombardeamentos americanos no Irão. Em Setembro, Israel realizou operações inéditas contra altos dirigentes do Hamas em Doha, no Catar, ampliando a tensão regional. Paralelamente, os Estados Unidos intensificaram acções militares nas Caraíbas e no Pacífico, justificadas como combate ao narcotráfico, mas criticadas pela ONU como execuções extrajudiciais. Estas operações, que resultaram em dezenas de mortos, evidenciaram a disposição americana em projectar poder militar para além do Médio Oriente, reforçando a percepção de unilateralismo e contestação internacional.

No plano geopolítico, a invasão da Ucrânia pela Rússia continuou a ter repercussões, com sanções e tensões energéticas a afectar a Europa. O conflito prolongado manteve a instabilidade na região e reforçou a necessidade de diversificação energética, acelerando a transição para fontes renováveis. No Sudão e em outras regiões africanas, guerras internas agravaram crises humanitárias, com milhões de deslocados e sistemas estatais em colapso. A cooperação internacional revelou fragilidades, com dificuldades em revitalizar mecanismos multilaterais e em garantir previsibilidade nos fluxos comerciais.

No plano ambiental, os impactos das mudanças climáticas tornaram-se cada vez mais evidentes. Ondas de calor devastaram a Ásia, inundações atingiram o Brasil, a Indonésia e partes da Europa, incêndios florestais devastaram o Canadá e furacões como o Helene e Milton provocaram destruição nos Estados Unidos. Estes fenómenos expuseram a urgência da transição energética e da redução da dependência de combustíveis fósseis. A descarbonização da economia foi reconhecida não apenas como exigência ambiental, mas como oportunidade económica, com investimentos em energias limpas, mobilidade sustentável e eficiência energética a gerar empregos e a posicionar países como líderes na nova economia verde. O Fórum Económico Mundial identificou como principais riscos para 2025 os conflitos armados, os eventos climáticos extremos e os confrontos geoeconómicos. A conjugação destes factores revelou a necessidade de acção coordenada e estratégica. A regulação das tecnologias emergentes tornou-se tema central, com debates sobre protecção de dados, inovação responsável e riscos sistémicos. A ausência de normas globais claras aumentou as assimetrias e a insegurança digital, sobretudo em áreas como criptomoedas, inteligência artificial e plataformas digitais.

As comparações regionais revelam disparidades significativas. Nos Estados Unidos, o crescimento rondou os 2,1%, reflectindo cortes graduais nas taxas de juro e políticas proteccionistas. A inflação desceu para valores próximos de 3%, mas o consumo interno manteve-se frágil. Na União Europeia, o crescimento médio foi de 1,3%, com a Alemanha a investir cerca de 40 mil milhões de euros em programas de transição energética e a França a reforçar a aposta na energia nuclear. Portugal registou um crescimento de 2,1%, sustentado pelo turismo, que recuperou para níveis recorde, com mais de 30 milhões de visitantes e receitas superiores a 62 mil milhões de euros, representando cerca de 21,5% do PIB, embora tenha enfrentado inflação persistente nos bens alimentares. Na América Latina, o Brasil cresceu 2,4%, mas enfrentou inundações severas que afectaram mais de 3 milhões de pessoas e provocaram perdas económicas estimadas em 15 mil milhões de dólares, apesar de a inflação se ter mantido em torno de 5%. A Argentina registou um crescimento de 5,5%, com inflação próxima de 30%, muito abaixo dos níveis superiores a 100% dos anos anteriores, reflectindo políticas de estabilização fiscal e monetária.

Em África, o crescimento médio foi de 3,5%, mas desigual, com a Nigéria e Angola vulneráveis à volatilidade dos preços do petróleo e países do Sahel a viverem crises humanitárias agravadas por desertificação e conflitos armados. Na Ásia, a China cresceu cerca de 5%, abaixo das metas oficiais, reflectindo a necessidade de estimular o consumo interno. A Índia registou um crescimento robusto entre 7,5% e 8%, impulsionado por investimentos em digitalização, energias renováveis e reformas fiscais, mantendo-se como a economia de maior expansão global. Assim, o panorama económico de 2025 confirma fortes disparidades regionais. As economias dos Estados Unidos e União Europeia cresceram modestamente, enquanto a Índia e a China lideraram a expansão global. A Argentina destacou-se pela estabilização após anos de hiperinflação, e o Brasil enfrentou choques climáticos severos. A África manteve o crescimento médio positivo, mas marcado por desigualdades estruturais e crises humanitárias.

Os impactos sociais foram profundos. Nos Estados Unidos, as políticas de expulsão de imigrantes afectaram centenas de milhares de famílias. Na Europa, o aumento do custo da energia provocou manifestações em países como França e Itália. No Brasil, as inundações destruíram comunidades inteiras, obrigando à realocação de mais de 500 mil pessoas. Em África, a escassez de água intensificou migrações internas. A crise de consumo interno em Macau reflectiu a diminuição do poder de compra dos turistas chineses e a retracção da procura local, afectando directamente sectores como a restauração e o comércio.

As políticas ambientais ganharam destaque. A União Europeia reforçou o Pacto Ecológico Europeu, investindo mais de 100 mil milhões de euros em energias renováveis e mobilidade sustentável. O Canadá lançou programas de reflorestação que abrangeram 1 milhão de hectares. O Brasil procurou implementar políticas de gestão de inundações com investimentos de 10 mil milhões de dólares. A China investiu em tecnologias de armazenamento de energia, com projectos avaliados em 50 mil milhões de dólares. A Índia ampliou programas solares em zonas rurais, garantindo electricidade a milhões de pessoas.

No campo tecnológico, a inteligência artificial e a digitalização transformaram economias e sociedades. Entre 2026 e 2030, mais de 50% das tarefas administrativas poderão ser automatizadas, criando novos desafios de emprego e exigindo políticas de requalificação. A utilização de criptomoedas e de tecnologias financeiras digitais poderá atingir mais de 500 milhões de utilizadores activos. A regulação global da inteligência artificial e das plataformas digitais será fundamental para evitar abusos de mercado e riscos sistémicos. Países como o Japão e a Coreia do Sul avançarão com legislações rigorosas, enquanto a Europa procurará liderar a criação de normas globais.

No sector da educação, a digitalização e a inclusão serão prioridades. Até 2030, mais de 70% das escolas em países desenvolvidos poderão utilizar plataformas digitais para ensino híbrido. A inteligência artificial será utilizada para personalizar aprendizagem, adaptando conteúdos às necessidades individuais dos estudantes. Contudo, desigualdades persistirão em África e em partes da América Latina. A educação técnica e a formação contínua serão essenciais para preparar trabalhadores para novas exigências do mercado.

(Continua)

11 Dez 2025

Outro tipo de feridas

O fogo de Hung Fuk Court em Tai Po, Hong Kong, continua na ordem do dia quase dez dias depois de ter deflagrado. No momento em que escrevo este artigo, registavam-se 159 vítimas mortais e 79 feridos, continuando desaparecidas 31 pessoas. Antes de continuarmos, lamentemos mais uma vez estas mortes e esperemos que os feridos tenham uma rápida recuperação.

Os dados do Governo de Hong Kong indicam que 79 pessoas ficaram feridas no incêndio. No entanto, na realidade, pode existir outro tipo de feridos que não estão hospitalizados, mas que se encontram entre nós. Merecem da mesma forma a nossa preocupação e o nosso cuidado.

Recentemente, circulou uma história online sobre uma mulher que tinha escutado a conversa de um dos bombeiros que combateram o fogo no Hung Fuk Court. O bombeiro era muito novo e falava informalmente, mas a sua descrição do incêndio era aterradora. Disse que tiveram de correr desde o rés-do-chão até ao 22º andar em 10 minutos, transportando feridos ao longo de seis andares o que exigia uma excelente forma física. Enquanto isto, viu cadáveres a arder e pessoas que perderam pernas e braços. Recordando os esforços de resgate, contou como usou um pé-de-cabra para abrir portas, para salvar as pessoas que se encontravam encarceradas. No entanto, era impossível abrir algumas portas com um pé-de-cabra. Numa corrida contra o tempo e contra a fúria do fogo, teve de desistir de tentar abrir essas portas e passar para as seguintes, lutando para salvar os sobreviventes. Não tinha tempo para pensar se haveria sobreviventes por trás das portas que não se conseguiam abrir. Tinha ainda menos tempo para pensar nas consequências que sofreriam esses sobreviventes. Todas estas situações provocaram neste jovem bombeiro um enorme sentimento de pena e também de culpa.

Um profissional de saúde mental realçou que as equipas de resgate enfrentam frequentemente uma enorme pressão. Se se culparem por não terem conseguido acudir aos sobreviventes, podem vir a desenvolver um Transtorno de Stress Pós-Traumático (PTSD sigla em inglês). Podem vir a sentir medos intensos, impotência e terror. Quem trabalha em equipas de resgate pode vir a ter memórias ou sonhos recorrentes muito angustiantes, ou experienciar um intenso sofrimento psicológico ou físico desencadeado por situações semelhantes. Embora a angústia que experimentaram durante o salvamento dos feridos não seja imediatamente aparente, virá aos poucos ao de cima depois das operações estarem terminadas. Sem uma intervenção adequada, tornar-se-ão noutro tipo de vítimas do incêndio de Hung Fook Court.

O Governo de Hong Kong disponibiliza um forte apoio psicológico às equipas de resgate para aliviar a pressão a que são submetidas. Contudo, para reduzir ainda mais esta pressão psicológica, é necessário melhorar a sua superação mental e despertar a consciência do público para as dificuldades das operações de resgate.

Para fortalecer a firmeza mental das equipas de resgate é necessário, em primeiro lugar, que compreendam que o seu trabalho os confronta com desastres e com a morte. Estes infortúnios e a pressão a que estão sujeitos, não resulta das suas opções pessoais e não acontece porque tenham feito algo de errado. As suas vidas não implicam que tenham necessariamente de enfrentar o infortúnio e a morte. Por conseguinte, depois do trabalho não as podem levar para casa. Só assim podem evitar ficar sobrecarregados com a pressão. Têm ainda de compreender que só conseguindo libertar-se dos traumas que experienciaram se podem salvaguardar e partilhar com os seus entes queridos uma vida familiar normal. Levar para casa as desgraças e a pressão não só os vai afectar a eles como também irá afectar indevidamente os seus familiares, gerando em última análise mais tragédia e transformando os socorristas em vítimas.

Em segundo lugar, existem inúmeros trabalhos, mas nenhum é mais significativo do que o daqueles que salvam vidas. Resgatar do perigo as vítimas de desastres, permitindo que continuem vivas e ilesas, não implica apenas salvá-las da morte; iimplica também garantir que regressam a casa, para os seus entes queridos, salvando assim toda a família. Os socorristas conquistam o amor e o respeito das vítimas, das suas famílias e de toda a comunidade — um reconhecimento que transcende os valores monetários.

Um exemplo perfeito, como se viu nas notícias, é o de uma mulher de meia-idade, na casa dos cinquenta anos, que, depois de receber um telefonema do marido a informá-la do incêndio, abandonou de imediato o edifício. No entanto, sem hesitar, voltou atrás e bateu à porta do vizinho, para o avisar que era necessário fugir. O vizinho, deu-lhe ouvidos, fugiu e sobreviveu, enquanto a mulher acabou por morrer nas chamas. A última mensagem que enviou ao filho foi, “Hoje o jantar fica pronto um bocadinho mais tarde.” Quem haveria de pensar que esta seria a última mensagem que enviava ao filho? Numa entrevista, o marido disse que compreendia e aceitava as acções da esposa porque sabia que ela tinha agido correctamente.

Porque é que esta mulher agiu correctamente? Porque é que o altruísmo é uma coisa boa? A resposta é muito simples. Desde que a pessoa albergue no coração amor e integridade e faça o seu melhor para ajudar os outros, estes irão sentir conforto e humanidade. Se os que foram ajudados retribuírem na mesma moeda, então a sociedade ficará repleta de amor e deixará de haver conflitos. Pode estabelecer-se uma sociedade pacífica e carinhosa onde as pessoas se apoiam entre si. O amor manifestado pelo bombeiro e pela mulher de meia-idade é precisamente o amor que deriva do altruísmo. Expressemos este sentimento com uma deixa clássica de um filme de Hong Kong dos anos 90 “Ele não me pesa, é o meu pai” (新難兄難弟) “Todos por mim e eu por todos.” Só quando os socorristas compreenderem este princípio podem entender o significado profundo do seu trabalho de resgate e reduzir a pressão que carregam.

Para reduzir a pressão destes trabalhadores o reconhecimento e o respeito do público são cruciais. O público deve compreender as dificuldades e as agruras do trabalho de resgate e cooperar activamente. Uma homenagem simples e um respeito sincero valem mais do que o apoio emocional.

Esperemos que este artigo ajude a reduzir a pressão psicológica de todos os envolvidos nas operações de resgate no Hung Fuk Court em Tai Po. O amor, o respeito e o reconhecimento do público pelos socorristas é a maior recompensa pela imensa pressão que sofreram e pelos sacrifícios que tiveram de fazer, o que irá assim aliviar os seus traumas psicológicos.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

10 Dez 2025

Aonde? Em Espanha

O abuso sexual de menores é assustador. A Polícia Judiciária tem apanhado cada vez mais predadores pedófilos que, especialmente através das redes sociais, conseguem convencer menores a trocar fotografias despidos. Fazem-se passar por adolescentes da mesma idade, prometem tudo e chegam ao ponto de marcar encontros, alguns em casa dos predadores, onde violam os menores, sejam do sexo feminino seja do masculino. Muitos casos acontecem no seio familiar. Alguns comentadores já apoiaram a ideia da castração química. Nada mais irrealista porque a doença ou o vício é de tal ordem que se isso se viesse a verificar, os predadores abusariam na mesma com os dedos das mãos.

Um homem que abusou sexualmente de várias jovens menores, todas amigas dos seus filhos, foi condenado a uma pena de 26 anos de prisão. O homem durante os contactos tinha prometido presentes e a experiência de drogas. Os crimes aconteceram entre o final de 2021 e Outubro de 2023. O arguido foi acusado pelos crimes contra liberdade sexual e contra a saúde pública. O caso foi denunciado depois de o pai de uma das vítimas o ter denunciado às autoridades, após a filha ter sido internada várias vezes pelo consumo de droga. Depois disso, o caso passou para as mãos da Unidade de Apoio à Mulher.

Segundo se viria a provar o homem interpelava as amigas de escola dos filhos quando estas iam a sua casa., oferecendo-lhes dinheiro, estupefacientes e presentes, em troca de favores sexuais. Perante os factos, o homem negou todas as acusações, afirmando que apenas lhes dava boleia. A polícia acedeu ao telemóvel do suspeito onde viria a encontrar as provas de mensagens trocadas entre o suspeito e as vítimas. Nas galerias do telefone encontrou fotos e vídeos íntimos das raparigas.

O procurador do caso pediu que fossem aplicadas as medidas de liberdade condicional que variavam entre cinco e dez anos, e penas de inabilitação para o exercício da autoridade parental durante cinco anos, bem como para o exercício de qualquer profissão ou ofício que implicasse contacto directo e regular com menores por um período de até vinte anos.

No entanto, o tribunal em julgamento, analisou todos os factos em pormenor e deliberou que os acontecimentos ocorridos com as várias menores eram de uma gravidade extrema e sentenciou o arguido a 26 anos de prisão.

Mas, afinal, aonde ocorreu o descrito? Em Espanha…

É verdade, em Espanha, para nossa infelicidade, já que temos assistido em Portugal a decisões judiciais absurdas em que os abusadores sexuais de menores saem do tribunal apenas com a pena de “liberdade e residência”. Têm existido casos, em que juízas não perdoam os predadores e sentenciam-nos a alguns anos de prisão. Casos muito escassos.

Ora, aqui está uma matéria que merece ser atendida numa futura reforma da Justiça portuguesa. Este tipo de gente que abusa sexualmente de menores, incluindo pais ou padrastos, não merece perdão algum. Este tipo de criminosos tem de ser severamente punido. Uma psicóloga com quem contactámos afirmou que “estamos perante casos de traumatismo mental nos menores que ficam para toda a vida”, acrescentando que “os abusadores sexuais de menores não podem continuar em liberdade e sabe por quê? Dou-lhe um exemplo: um abusador é proibido de se aproximar de menores pelo tribunal, mas se entra no elevador do seu prédio ao mesmo tempo que um menor, o mais certo é dar-se de imediato a tentativa do abuso”.

Os casos em Portugal de abuso sexual de menores têm tido os mais diferentes cenários. Alguns, por culpa dos próprios pais, que autorizam os filhos menores a sair à tarde ou à noite com a justificação de que vão estudar para casa de uma amiga e, afinal, os filhos vão para festas onde reinam os estupefacientes e a bebida. Ou mesmo para um bar ou discoteca. Ainda recentemente uma menor foi violada às três horas da madrugada por um motorista da Uber e os pais afirmaram que a filha tinha saído de casa depois de eles estarem a dormir. Pergunta-se: e por que não retiraram as chaves da porta ou uma cópia das mesmas das mãos da filha?

O problema é grave e está a agudizar-se. Os menores, em grande maioria, estão a receber uma educação dos pais quase inexistente. Os pais trabalham de manhã à noite e mal têm tempo para dar atenção ao que se passa nos computadores dos filhos, quanto mais ministrarem as boas regras de educação e os cuidados a terem no relacionamento com outros menores, muitas vezes, os tais “menores” que nas redes sociais se fazem passar por amigos da mesma idade e que, ao fim e ao cabo, estamos perante o início de um crime hediondo.

9 Dez 2025

COP30 – Êxito ou desaire?

A 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (United Nations Environment Programme – UNEP), decorreu pela primeira vez num país de língua portuguesa, em plena Amazónia.

Há que salientar que o Brasil, país rico em petróleo, oitavo produtor mundial, teve a coragem de acolher a COP30. Os primeiros dias não foram muito animadores, tendo ocorrido várias manifestações populares, algumas promovidas por autóctones da Amazónia.

Houve mesmo um momento tenso quando um grupo de representantes do povo Munduruku, composto por indígenas da bacia do Amazonas, bloqueou a entrada das instalações da Conferência, obrigando a que centenas de delegados permanecessem algum tempo no exterior, sob calor tórrido. A principal motivação desta manifestação poder-se-á atribuir ao facto de este povo ter sido vítima do garimpo ilegal de ouro, da construção de hidroelétricas e de desflorestação. Apesar das medidas do atual governo do Brasil para a proibição da exploração ilegal de minerais, vários rios da bacia do Amazonas continuam poluídos devido a essa exploração. Embora a época dos grileiros1 já esteja em decadência, os autóctones da Amazónia continuam a ser alvo de práticas ilegais dos que tentam ocupar as terras que lhes foram atribuídas por lei.

Ocorreram outras manifestações com número significativo de participantes, entre as quais um desfile com mais de duas centenas de barcos com cerca de 5 000 participantes, na Baía de Guajará, onde confluem os rios Acará, Guamá e Moju. Os protestos, além de versarem as alterações climáticas, incidiram também sobre vários aspetos relacionados com a exploração de minerais, nomeadamente no que se refere aos empreendimentos promovidos pelo Canadá em países da América do Sul. Além das manifestações, a organização viu-se a braços com um incêndio num dos pavilhões da Zona Azul, área destinada a reuniões oficiais entre as delegações e conferências de imprensa. Desde a COP26 (Glasgow, 2021) que não se realizavam manifestações tão expressivas contra a brandura com que os governos lidam com a crise climática.

Não há dúvida que o presente governo do Brasil está empenhado na luta contra a desflorestação e outras práticas ilegais com fortes repercussões na emissão de gases de efeito de estufa (GEE), a principal causa, segundo o IPCC, das alterações climáticas. Contrariamente ao governo anterior, chefiado por um negacionista confesso, que recusou que a 25.ª Conferência das partes se realizasse no Brasil, quebrando compromisso anterior, o atual presidente empenhou-se em acolher a 30.ª COP. Há, no entanto, uma certa ambiguidade no sistema político brasileiro: enquanto o presidente puxa para um lado, frequentemente o Congresso Nacional puxa para outro. Foi o que aconteceu com o chamado “Projeto-Lei da Devastação”, também referenciado como Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Enquanto Lula da Silva esteve ideologicamente ao lado dos ambientalistas, vetando vários aspetos relacionados com a proteção ambiental desse projeto-lei, este voltou ao Congresso Nacional que anulou a maioria dos vetos, o que permite que vá avante a exploração petrolífera “offshore”, relativamente próxima da foz do rio Amazonas, o que poderá ter fortes implicações ambientais.

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A Conferência teve início a 10 e terminou em 22 de novembro, um dia depois da data prevista. O prolongamento deveu-se à incompatibilidade entre vários pontos de vista dos participantes sobre a declaração final. Como em conferências anteriores, houve graves discordâncias sobre o texto final, atendendo a que, para alguns, seria importante renovar (e reforçar) o que já havia sido acordado previamente no que se refere ao abandono dos combustíveis fósseis e, para outros, seria de camuflar essa recomendação. Infelizmente, foram estes últimos que impuseram a sua vontade, fazendo com que não se renovasse a recomendação expressa na COP 28 (Dubai, 2023) em que, pela primeira vez, se reconheceu oficialmente a necessidade do abandono dos combustíveis fósseis e de acelerar a transição energética. Os principais oponentes a essa referência, na declaração final, foram Arábia Saudita, Índia e Federação Russa. A União Europeia acabou por ceder após se assegurar que seriam respeitadas algumas das suas linhas vermelhas, nomeadamente inserir no texto final a menção sobre a necessidade da não ultrapassagem do aumento de 1,5 ºC do aquecimento global até ao fim do século XXI (em relação aos níveis pré-industriais) e o objetivo de triplicar o orçamento para a adaptação às alterações climáticas nos países em desenvolvimento

António Guterres, Secretário-geral das Nações Unidas, dirigindo-se aos jornalistas durante a COP30, enfatizou que nenhum país pode combater a crise climática isoladamente, e que a Conferência demonstrou que o multilateralismo continua ativo.

Não se pode afirmar que se conseguiu alcançar o sucesso das COP21 e COP28, na primeira das quais (Paris, 2015) foi adotado o Acordo de Paris, tratado juridicamente vinculativo que envolveu a quase totalidade dos países do mundo, que se comprometeram fazer esforços para que o aumento do aquecimento global não ultrapassasse 2 °C, de preferência inferior a 1,5 °C, e proceder à elaboração das chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (“Nationally Determined Contributions – NDCs2”), a serem atualizadas de cinco em cinco anos. No entanto, alguns avanços foram feitos no que se refere ao reconhecimento de que as principais vítimas das alterações climáticas são os que menos contribuíram para a degradação do clima. Foi, assim, aprovado o “Mecanismo de Ação de Belém para a Transição Justa”, que consta de uma iniciativa para que a transição energética se processe de maneira socialmente equitativa e inclusiva, tendo em linha de conta os direitos e meios de subsistência de trabalhadores, afrodescendentes, povos indígenas e comunidades vulneráveis. É como se tentasse compensar o facto de não se ter praticamente tocado nos interesses da indústria dos combustíveis fósseis.

Embora não fosse mencionado no texto final a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis, André Corrêa do Lago (Secretário do Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores), como presidente da COP30, na sua alocução final, e para apaziguar a deceção de muitos dos participantes, comprometeu-se criar dois roteiros: um para “travar e reverter a desflorestação e outro para a transição dos combustíveis fósseis de uma forma justa, ordenada e equitativa”.

Deram-se alguns passos importantes na luta contra as alterações climáticas, mas a ausência dos líderes dos três países maiores emissores de gases de efeito de estufa (China, EUA e Índia) não nos permite concluir que as recomendações da COP30 sejam integralmente cumpridas. Não se tratou de um êxito absoluto, mas também não devemos ser tão pessimistas a ponto de afirmar que se tratou de um desaire.


*Meteorologista

Grileiros – termo para designar os detentores de títulos de posse de propriedades, falsificados com recurso a excrementos de grilos para parecerem antigos.

Contribuições Nacionalmente Determinadas: são o principal instrumento através do qual os países que ratificaram o Acordo de Paris comunicam os compromissos assumidos no que se refere ao combate às alterações climáticas.

4 Dez 2025

O Despertar Estratégico da Alemanha (II)

(Continuação do artigo publicado em 27 de Novembro)

Os primeiros efeitos da crise são visíveis. Emblemático é o impasse do “Future Combat Air System (FCAS)”, programa iniciado em 2018 para a construção de um jacto de sexta geração, hoje à beira do colapso. Segundo o jornal Welt, o governo francês teria exigido o controlo de 80 por cento do projecto, hipótese considerada absolutamente inaceitável na Alemanha, ao ponto de levar o Ministério da Defesa a ponderar o seu cancelamento definitivo e a demonstrar crescente interesse pelo “Global Combat Air Programme”, desenvolvido pela “BAE Systems e Leonardo” em cooperação com a Mitsubishi. O facto de o motor original da nossa Europa dar sinais de avaria diz muito sobre a verdadeira substância do rearmamento europeu. O plano “ReArm Europe”, apresentado com pompa pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, corre o risco de acentuar as incongruências entre os sistemas de defesa do continente, pois, na prática, apenas os Estados com ampla margem fiscal poderão reforçar os seus aparelhos militares. Os países europeus estão a rearmar-se, mas fazem-no de forma desigual e para satisfazer prioridades marcadamente nacionais, por vezes em conflito entre si.

O caso alemão é exemplar. Em resposta às solicitações de Paris, Berlim foi bastante clara ao excluir a hipótese de uma dívida comum europeia para financiar as indústrias de defesa. E, em Março passado, ainda antes de formalizar a nova “Große Koalition”, o Bundestag aprovou um plano monumental que suspende o travão ao endividamento para todas as despesas militares superiores a 1 por cento do PIB. Uma medida sem precedentes, que pela primeira vez abre a perspectiva de um rearmamento potencialmente ilimitado. Segundo as estimativas mais prudentes, a Alemanha deverá assumir um esforço financeiro anual significativo ao longo da próxima década, representando uma fatia relevante do seu PIB. Para compreender a dimensão da ambição da República Federal, basta observar a lista de despesas prevista por responsáveis em Berlim, que se prolonga por várias décadas e integra ainda parte do fundo especial anunciado pelo chanceler Scholz. Entre as áreas mais relevantes destacam-se o investimento em munições, veículos de combate, embarcações e equipamentos navais, aviões e mísseis, bem como recursos logísticos e de campo, outros tipos de veículos, sistemas de telecomunicações e comunicações via satélite. O pico de despesa está previsto entre 2029 e 2030, com mais de 52 mil milhões de euros por ano apenas em equipamentos militares.

Merz tem razão ao afirmar que a República Federal se prepara para se tornar o «exército convencional mais poderoso» do Velho Continente. Menos fundamentada é a ideia de que isso possa automaticamente servir uma causa europeia indefinida. Não se trata de alimentar alarmismos inúteis pois não estamos perante o regresso do militarismo alemão tal como o estudámos nos manuais de história, nem a classe dirigente berlinense ambiciona conquistar um “lugar ao sol” de inspiração guilhermina. Aliás, se a ocasião o exigir, é bastante provável que a Alemanha venha a utilizar o seu instrumento militar em cooperação com outros países europeus. Mas convém lembrar que a medida desse compromisso será determinada, em última análise, exclusivamente por um cálculo dos interesses alemães. O rearmamento alemão está à vista de todos. Menos claro é saber quais são realmente os planos de Berlim. As pressões ocidentais tiveram peso, mas não são suficientes, por si só, para explicar um fenómeno desta magnitude. É preciso ir mais fundo.

Há, antes de mais, um cálculo económico. Na classe dirigente berlinense é generalizada a convicção de que o rearmamento pode dar novo fôlego a um sistema industrial em profunda crise, em particular ao sector automóvel. O pressuposto é que, nos últimos anos, todos os pilares da prosperidade alemã se foram desmoronando. E, ao contrário de outros países ocidentais, a República Federal é uma potência industrial e quer continuar a sê-lo, pois é precisamente a capacidade de exportar produtos de elevado valor acrescentado que sustenta o pleno emprego e o Estado social. É por isso que, em Berlim, se discute a “reconversão”, ou seja, transformar para fins militares uma parte considerável da manufactura civil perspectiva que seduz especialmente o gigante da defesa Rheinmetall, desesperadamente à procura de operários altamente qualificados.

Contudo, é altamente improvável que a produção militar, mesmo levada ao extremo, consiga resolver todos os problemas da Alemanha. Existe, porém, uma dimensão mais profunda. A invasão russa em larga escala da Ucrânia não criou o rearmamento alemão, mas apenas o acelerou até o tornar irreversível. Na verdade, a ideia de que a Alemanha deveria voltar a considerar o uso do seu instrumento militar era cultivada nos círculos estratégicos berlinenses há mais de uma década. Em Maio de 2010, o presidente federal Horst Köhler afirmou, numa entrevista radiofónica, que os alemães deviam preparar-se «para usar a força na defesa dos seus interesses». Essas palavras provocaram tal escândalo que o obrigaram a demitir-se. Mas Köhler não fez mais do que tornar público, talvez com franqueza excessiva, aquilo que se discutia nos bastidores.

Não foi por acaso que, apenas dois anos depois, dois dos mais influentes think tanks de Berlim a “Stiftung Wissenschaft und Politik” e o “German Marshall Fund” lançaram o projecto “New Power, New Responsibility: Elements of a German foreign and security policy for a changing world” em Outubro de 2013. O relatório final, com mais de 50 páginas, estava perfeitamente alinhado com a visão de Köhler de que “Os cidadãos alemães viveram uma era de segurança sem precedentes. Mas ameaças tradicionais como guerra, proliferação nuclear e terrorismo continuam a existir. A Alemanha depende existencialmente do intercâmbio com outras sociedades, e a vulnerabilidade de vizinhos e aliados afecta também a sua própria segurança. A sua protecção é, portanto, do seu interesse. O aumento do seu poder e influência exige que a Alemanha assuma maiores responsabilidades para proteger o seu estilo de vida, recorrendo a todos os meios legítimos, incluindo a força militar, quando e onde necessário.”

Entre os participantes figuravam especialistas em segurança, representantes da indústria de armamento, funcionários dos ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, e deputados do Bundestag. É por isso que, entre 2016 e 2018, a Bundeswehr alterou formalmente a sua missão principal, passando da gestão de crises globais para a defesa territorial. Esta revolução permaneceu durante anos apenas no papel, mas na prática tornou possível o rearmamento anunciado por Scholz em 2022. Em certo sentido, o discurso sobre a Zeitenwende (ponto de viragem histórico) estava pronto há muito tempo e esperava apenas ser pronunciado. A viragem dizia respeito à urgência, não ao conceito. Em três anos, uma ideia minoritária tornou-se senso comum, resultado que se deve sobretudo à iniciativa da classe dirigente, empenhada num esforço total para reintroduzir um ethos militar no tecido da sociedade civil.

A verdadeira revolução está a ocorrer na mente do alemão médio, para quem a guerra deixou de ser impensável. As vozes que apelam a uma paz sem armas, outrora dominantes, foram progressivamente excluídas do debate público. Emblemático é o caso do livro do jovem jornalista Ole Nymoen, “Warum ich niemals für mein Land kämpfen würde (Porque nunca lutaria pelo meu país)” publicado em 11 de Março de 2025. No momento da publicação causou polémica, mas as suas teses nunca foram levadas verdadeiramente a sério. No Bundestag, apenas o Die Linke permanece abertamente pacifista, enquanto a AfD e os partidos tradicionais encontram um ponto de concordância inédito.

O ministro da Defesa, Boris Pistorius actualmente o político mais popular do país não perde oportunidade para afirmar que a Bundeswehr deve voltar a ser «capaz de combater» (kriegstüchtig) e não descartou uma guerra entre a OTAN e a Rússia até 2029. E a população acompanha, pois mais de dois terços dos alemães dizem apoiar o dobro das despesas com a defesa até 2032. Estamos no centro de uma década que, com toda a probabilidade, conduzirá ao fim do complexo de culpa histórica que tem pesado sobre os alemães nos últimos oitenta anos.

O passado não será apagado nem esquecido, mas deixará gradualmente de limitar a margem de manobra de Berlim. Assim se encerra, em parte, aquilo que o historiador britânico Alec Ryrie definiu como a “era de Hitler”, ou seja, o longo pós-guerra em que Adolf Hitler foi “a figura mais poderosa e unificadora”, erigida como negativo absoluto no cânone moral de nações e indivíduos. Uma nova Alemanha desenha-se no horizonte, e os seus contornos permanecem bastante indefinidos. A única certeza é que transformará a Europa.

4 Dez 2025

Lições da tragédia de Hong Kong

O incêndio devastador no Hung Fook Court, em Tai Po, Hong Kong, deflagrou em sete ou oito edifícios. Nestes prédios estavam a decorrer obras de manutenção e os empreiteiros usavam espuma expansiva altamente inflamável para vedar janelas e os andaimes utilizados eram de bambu, o que permitiu que o fogo alastrasse rapidamente depois de ter começado num dos edifícios. Os ventos fortes e o tempo seco provocaram a intensificação das chamas, que posteriormente atingiram todo o bloco habitacional. Os alarmes de incêndio não dispararam, contribuindo para a tragédia.

Cerca de 48 horas depois do acidente, o Governo de Hong Kong tinha extinguido praticamente o fogo. Com a ajuda do Governo Central, que enviou recursos substanciais para Hong Kong, e de inúmeras empresas que doaram dinheiro e provisões, as necessidades foram atendidas, permitindo que as vítimas tivessem um descanso temporário.

No momento em que escrevo este artigo, o Governo de Hong Kong acabou de anunciar que se registam 146 mortes, 79 feridos e 40 desaparecidos. Entre os mortos encontra-se um heroico bombeiro que faleceu a combater as chamas. Antes de continuarmos a nossa análise, observemos um minuto de silêncio por aqueles que perderam a vida e rezemos pelos sobreviventes, esperando que possam em breve superar as suas dificuldades. Manifestamos ainda o nosso mais elevado respeito a todos os trabalhadores e voluntários que participaram nas operações de resgate, elogiando a sua coragem e dedicação face à adversidade.

Além de cuidar das vítimas, o Governo de Hong Kong também tratou rapidamente de procurar identificar os responsáveis pelo acidente. Por exemplo, a pessoa responsável pela manutenção do Hung Fook Court foi presa e é suspeita de homicídio involuntário. A Comissão Independente Contra a Corrupção (ICAC sigla em inglês) também mandou prender indivíduos suspeitos de corrupção. O Governo de Hong Kong realizou imediatamente inspecções surpresa a todas as redes de protecção usadas na manutenção de edifícios para garantir que cumpriam os padrões de segurança contra incêndios.

As seguradoras que trabalhavam com as empresas de manutenção do edifício também declararam publicamente que tinham activado mecanismos de emergência e que forneceriam a compensação adequada de acordo com os contratos celebrados. Em Hong Kong, algumas pessoas sugeriram que de futuro as empresas de manutenção deveriam usar andaimes de metal em vez de usarem andaimes de bambu.

Como é que as vítimas irão lidar com as consequências deste desastre? Em primeiro lugar, os feridos têm de receber tratamento imediato. Em segundo lugar, deverão contactar imediatamente as famílias para os informar que estão a salvo. Vimos na televisão muitas pessoas preocupadas com os familiares, a chorar e à espera de notícias. Enviar-lhes uma mensagem para os tranquilizar é indispensável. Em terceiro lugar, vão ter de resolver o problema de alojamento. Se tiverem outro lugar para morar ou se puderem ficar com familiares ou amigos, terão de dar seguimento a essas diligências. Não se sabe quando é que poderão voltar a casa. Se não tiverem nenhuma solução, terão de ingressar no programa de alojamento temporário do Governo de Hong Kong. Em quarto lugar, assumindo que a inspecção governamental considera que a casa ainda é habitável, deverão os proprietários renová-la? O Hung Fook Court foi inaugurado em 1983, há mais de 40 anos, e as obras de reparação já tinham começado. Este incêndio devastador acelerou a desvalorização da propriedade. Os proprietários devem considerar se vale a pena fazer grandes investimentos em renovação, tendo em vista o valor futuro das casas e a probabilidade de serem vendidas com sucesso.

Para lá das diferentes reacções do Governo de Hong Kong, do público e das vítimas, este devastador acidente levantou, de facto, outras questões que preocupam a sociedade.

Primeiro, Hong Kong é por natureza uma cidade com elevado custo de vida. Um trabalhador que consiga comprar uma casa com o salário que aufere durante a vida activa alcança um feito significativo. Depois de duas ou três décadas a pagar a hipoteca, o edifício já se desgastou e precisa de obras de fundo. Nessa altura, os proprietários precisam de fazer grandes investimentos na manutenção, fazendo com que a casa e os problemas que levanta pareçam um poço sem fundo, um buraco negro impossível de preencher. A relação dos proprietários com as suas casas lembra o título de uma série de televisão – “escravos da propriedade.”

Segundo, a seguir a este acidente raro, os empreiteiros vão ter mais cuidado com os materiais que usam. As seguradoras também vão estar mais atentas quando fizerem contratos com empresas de manutenção e vão impor requisitos mais rigorosos. Isto significa que os prémios de seguro podem aumentar. Os proprietários que adquiriram seguros de habitação e de incêndio podem também ver os seus prémios alterados. Todos estes factores vão recair sobre os proprietários das habitações, significando que irão arcar com mais despesas. Para os proprietários que ainda trabalham, esta situação é agravada com encargos adicionais. E os proprietários reformados? Poderão ter feito um fundo para manutenção antes da reforma, mas com a sua situação financeira pós reforma, podem ter deixado de conseguir cobrir essas despesas.

Isto deve ser um assunto a considerar por todos os proprietários que não foram directamente afectados pelo incêndio e por potenciais compradores de casa. Embora as propriedades em Hong Kong sejam valiosas, também dão origem a muitos problemas. Este acidente devastador trouxe novas perspectivas ao Governo de Hong Kong, à sociedade, às vítimas e aos potenciais compradores de casa. Esperemos que estas novas ideias beneficiem a sociedade de Hong Kong e previnam tragédias semelhantes.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

2 Dez 2025

Comemorações agradaram a alguns fascistas

Há mais de 50 anos, o povo português, incluindo os “bufos” da PIDE/DGS, saiu à rua a comemorar o maior dom que um povo pode ter: a liberdade. Um golpe militar tinha acabado com uma ditadura política com mais de 40 anos. Os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) tinham conseguido derrubar um regime opressivo que levou anos a prender e a deportar quem defendia a liberdade, a democracia, o socialismo e o comunismo. Os tempos seguintes ao golpe militar foram conturbados porque logo nos apercebemos que esses militares também tinham as suas opções políticas e também começavam a fazer o jogo deste ou daquele partido político. Mário Soares e Álvaro Cunhal regressaram do exílio e no primeiro 1º de Maio a festa foi estrondosa e de uma união popular nunca vista. Com o decorrer do tempo fomos assistindo que as divergências entre os militares do MFA apoiadas por certos partidos raiavam o limite do radicalismo.

No dia 28 de Setembro de 1974 assistimos a uma tentativa de golpe de Estado protagonizada por sectores conservadores, liderada pelo Presidente da República, general António de Spínola e onde imperava na altura a chamada “maioria silenciosa” que tinha como objectivo travar o processo democrático, mas, essencialmente, controlar as decisões sobre a descolonização. O sector de esquerda do MFA conseguiu proibir uma manifestação de apoio a Spínola e recordamo-nos que foram colocadas barricadas nas entradas de Lisboa, a fim de impedir a entrada de apoiantes de Spínola. Como consequência foram presos vários organizadores da manifestação, o general Spínola demitiu-se de Presidente da República e o evento marcou a derrota da tentativa de viragem à direita e o reforço do controlo do MFA sobre o processo revolucionário. Primeira nota importante: nunca ao longo de mais de 50 anos de democracia, os democratas de esquerda comemoraram a vitória do 28 de Setembro de 1974.

Em 11 de Março de 1975 assistimos pessoalmente à tentativa de outro golpe de Estado, desta vez, comandado mesmo pelo general António de Spínola contra o governo da altura apoiado pelos militares de esquerda do MFA. A intentona iniciou-se com o bombardeamento ao Regimento de Artilharia Ligeira nº 1 (RAL 1) tendo sido morto um soldado que se encontrava deitado numa das casernas. Nos arquivos da RTP têm de estar as imagens da perfuração do telhado e o sangue na cama e no chão da caserna. O RAL 1 foi cercado por tropas para-quedistas, afectas a Spínola, e as negociações duraram quase todo o dia. A intentona viria a falhar por falta de apoio popular a Spínola e devido à resistência que se registou por parte dos militares do RAL 1 e de muitos populares. O fracasso da tentativa de golpe viria a provocar a fuga de Spínola para Espanha e depois para o Brasil. Segunda nota importante: os democratas de esquerda em mais de 50 anos de democracia nunca comemoraram a vitória sobre a intentona de interromper o processo revolucionário.

O Verão que se seguiu foi muito “quente” com várias disputas no seio do MFA e com os partidos de direita a agudizarem o confronto com o Partido Comunista e outros partidos de esquerda radical. Tudo viria a terminar em 25 de Novembro de 1975.

Nesse dia, os militares de esquerda do MFA ocuparam a RTP e o capitão Duran Clemente, ao usar da palavra directamente nos estúdios da televisão pública, foi interrompido de um momento para outro e a emissão passou a ser dirigida dos estúdios do Porto. Simultaneamente no quartel da Polícia Militar, os militares ali em serviço comandados pelo major Tomé viram-se confrontados pelos militares comandos da ala direita do MFA, comandados pelo capitão Jaime Neves e pelo major Ramalho Eanes. O tiroteio foi uma realidade. Morreram dois militares comandos e outros da Polícia Militar. No Palácio de Belém, onde residia o Presidente da República, general Costa Gomes, pediu-se a prisão do estratega do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho e a ilegalização do Partido Comunista. Ao fim da tarde, com as tropas dos Comandos a controlar todas as operações a seu favor, realizou-se uma reunião do MFA onde a ala moderada, liderada pelo major Melo Antunes, conseguiu que Otelo não fosse preso e que o Partido Comunista se mantivesse como um partido legal ao serviço da democracia. O 25 de Novembro, uma disputa política, mas essencialmente entre militares, foi de imediato anunciado como uma “heroica” reposição do estado democrático. Terceira nota importante: nunca em mais de 50 anos de democracia as forças políticas de direita se lembraram de comemorar oficialmente o 25 de Novembro de 1975.

Na semana passada, constatámos que o 25 de Novembro foi oficialmente comemorado com pompa e circunstância e, obviamente, com o apoio das forças políticas de direita e da extrema-direita, com a discordância do Partido Socialista e de outros partidos políticos de esquerda e, com a agravante, de se ter comemorado a data em plena Assembleia da República com a presença do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

A verdade, é que fomos testemunha de posições de indivíduos defensores de políticas fascistas e neonazis, afirmando que as comemorações do 25 de Novembro “eram muito mais importantes que as do 25 de Abril”. Já não temos quaisquer dúvidas que o sistema político em Portugal está em mudança. Uma mudança perigosa. Uma mudança em que os racistas, xenófobos e neonazis avançam com propostas no Parlamento que colhem o apoio do eleito Governo Montenegro que se anuncia democrático. Não, meus amigos. Temos de nos compenetrar que a mudança política a que assistimos poderá terminar numa ditadura disfarçada de democracia, onde as prisões e a falta de liberdade de imprensa serão uma realidade.

1 Dez 2025

Relatório anual

Antes de analisarmos o Relatório das Linhas de Acção Governativa para o ano de 2026, deixem-me partilhar uma história convosco.

Numa montanha, existiam dois mosteiros. Os monges do Mosteiro A não se davam muito bem uns com os outros, ao passo que os monges do Mosteiro B eram sempre cordiais entre si. O abade do Mosteiro A, foi perguntar ao abade do Mosteiro B, “porque é que os seus monges mantinham relações tão amigáveis”.

O abade do Mosteiro B respondeu, “Erramos frequentemente”. Enquanto o abade do Mosteiro A tentava entender a resposta, um monge do Mosteiro B entrou no corredor, escorregou e caiu no chão. Outro monge que estava a lavar o chão, correu de imediato a pedir desculpas pelo sucedido, dizendo que o chão estava molhado por sua culpa, enquanto outro monge que estava parado à porta também se veio desculpar por não ter alertado aquele que tinha caído que o chão estava molhado. Depois de o terem ajudado a levantar-se, o primeiro monge disse, “Obrigado, mas a culpa foi minha. Estava a andar muito depressa e não tive cuidado”. O abade do Mosteiro A viu o que tinha acabado de acontecer e disse ao abade do Mosteiro B, “Obrigado, penso que já tive a resposta à minha pergunta”.

Para que os membros de uma sociedade vivam em harmonia, além de darem conta dos erros alheios, têm antes do mais de dar conta dos seus próprios erros. É fácil passar a culpa para os outros e é difícil assumirmos a nossa responsabilidade.

Macau é uma cidade com mais de 600.000 habitantes e possui receitas substanciais provenientes da tributação sobre o jogo e sobre a actividade turística, por isso não é assim tão difícil para o Governo olhar por todos os seus cidadãos. No Relatório das Linhas de Acção Governativa para o ano de 2026, é mencionado que vão ser implementadas muitas medidas em prol do bem-estar da população e benefícios fiscais que podem satisfazer as necessidades da maioria das pessoas. Embora o conteúdo do Relatório esteja repleto de ideias visionárias, e o presente orçamento seja bastante bom, quer isso dizer que não haja aspectos que não possam ser revistos e melhorados?

Por exemplo, o Governo da RAEM ainda tem de publicar os resultados da monitorização dos suicídios do segundo trimestre de 2025. De acordo com as estimativas da comunicação social, baseadas na informação das Forças e Serviços de Segurança, ocorreram pelo menos 40 suicídios entre Abril e Outubro de 2025, e o jornal Hoje Macau publicou uma reportagem sobre este assunto. No dia da eleição dos deputados à 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, no passado mês de Setembro, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, foi questionado por jornalistas de Hong Kong sobre os trabalhadores não residentes e os suicídios em Macau. Sam Hou Fai não respondeu, limitando-se a afirmar que as perguntas não estavam relacionadas com as eleições e que responderia noutra ocasião.

Os Serviços de Saúde incentivam as pessoas que se sentem desesperadas e que sofrem de problemas emocionais a ligar para a Linha de Apoio à Vida da Caritas (2852 5222) para receberem aconselhamento. Para mais informações sobre bem-estar psicológico, pode visitar-se a página electrónica de informações sobre saúde mental dos Serviços de Saúde. Embora a linha de apoio e as informações prestadas através da página electrónica sobre a saúde mental sejam indubitavelmente úteis, como ajudar aqueles que não ligam nem visitam a página electrónica? Porque não foram publicados os números de suicídios referentes ao período acima indicado não significa que não tenham ocorrido. Para que Macau seja verdadeiramente uma “cidade feliz”, os casos de “descoberta de cadáveres” não deveriam ser tão frequentes.

Ao responder às perguntas dos jornalistas, o Chefe do Executivo mencionou o sucesso da eleição para a 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa e o primeiro caso em Macau envolvendo a Lei de Defesa da Segurança do Estado.

Seguindo o princípio orientador “Macau governado por patriotas”, a eleição dos deputados para a 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa decorreu sem problemas. No entanto, é lamentável que Lam Yu Tou, que foi considerado leal à RAEM em 2021, tenha sido desclassificado e impedido de concorrer à eleição para a Assembleia Legislatica em 2025. Por outro lado, o recorde de 5.987 votos em branco e 7.053 votos nulos nestas eleições por sufrágio directo é bastante preocupante. Quanto ao julgamento do primeiro caso em Macau que envolve a Lei relativa à Defesa da Segurança do Estado, acredito que provavelmente irá atrair bastante a atenção do público em 2026.

Não deverá haver demasiadas críticas dirigidas ao Chefe do Executivo e à sua equipa, já que aperfeiçoar a eficiência da governação e promover a diversificação da economia não é tarefa fácil e requer a cooperação de todos os membros da sociedade. Não é difícil enumerarmos os nossos dez pontos fortes, mas enumerar os dez pontos fracos é algo que nem todos conseguem fazer. O Relatório das Linhas de Acção Governativa para o ano de 2026 está bem redigido, mas o que os cidadãos desejam acima de tudo é que o seu resultado prático venha a ser igualmente excelente.

29 Nov 2025

O Despertar Estratégico da Alemanha (II)

“The claim that a state’s security interest necessarily coincides with that of its citizens appears downright absurd.”

Ole Nymoen

Se os ditames draconianos do Plano Morgenthau proposta dos Estados Unidos em 1944 para desmilitarizar e desindustrializar a Alemanha após a II Guerra Mundial, transformando-a num país agrário e incapaz de iniciar novos conflitos ficaram letra morta, foi apenas porque, nesses mesmos meses, começava a amadurecer nos Estados Unidos a consciência de um conflito de fundo na Europa com a União Soviética. Com o passar das semanas, a prioridade deixou de ser a neutralização da Alemanha e passou a ser impedir que Moscovo a absorvesse na sua esfera de influência. Na interpretação de vários responsáveis americanos da época, antes de alcançar o Atlântico, o Exército Vermelho teria de se apoderar das capacidades industriais da Renânia e da região do Ruhr coração histórico da indústria alemã, com destaque para os sectores do carvão, aço, química, energia e logística.

Daí a necessidade de reerguer um Estado alemão ocidental e de orientar o seu potencial económico, humano e tecnológico contra o expansionismo soviético. Resumido num documento da CIA de 1949, o objectivo dos Estados Unidos passou a ser “o controlo permanente do poder alemão”. Oitenta anos depois, mudaram os contornos, não a substância. Hoje, para Washington, o desafio do século chama-se China, e os custos da defesa do Velho Continente devem recair sobre os europeus. A margem de manobra financeira da França e do Reino Unido é limitada, também devido aos seus dispendiosos arsenais nucleares. E, do ponto de vista dos polacos, bálticos e escandinavos, a Rússia é uma ameaça existencial, a conter e desgastar por todos os meios. Tudo aponta numa única direcção que é do rearmamento alemão. Segundo esta lógica, caberá à Alemanha assegurar a massa crítica de recursos económicos e forças convencionais que os restantes parceiros ocidentais não podem ou não querem mobilizar.

Naturalmente, pressuposto essencial desta aposta é que Berlim não aja por conta própria, construindo uma esfera de influência ou perseguindo interesses estritamente nacionais. Só assim se compreende que a República Federal, cujo ordenamento jurídico teoricamente proíbe até o envio de armas para zonas de conflito armado, esteja actualmente a debater se deve colocar tropas no terreno na Ucrânia. Nos últimos anos, os alemães quebraram vários tabus alguns de longa data, como o travão ao endividamento mas este seria, por razões evidentes, o mais clamoroso. Assim, em Agosto, no final da cimeira de Washington, Merz sublinhou que a Alemanha tem um “interesse fundamental” em cooperar para oferecer garantias a Kiev, com a imagem do chanceler nos papéis de um sinistro Tio Sam, acompanhada da legenda de que “Merz quer mandar-te para a Ucrânia? Nós não!” Até hoje, trata-se de uma perspectiva não só impopular segundo uma sondagem recente, pois 51 por cento dos alemães são contra e apenas 36 por cento a favor mas também tecnicamente impraticável.

Apesar do aumento significativo das despesas militares, o efectivo das Forças Armadas Alemãs continua a diminuir e a envelhecer. Parece fora de alcance até o objectivo de 203 mil unidades até 2031, meta que a comunidade estratégica de Berlin-Mitte, o distrito mais central e histórico de Berlim, considerado o coração político, cultural e turístico da capital alemã considera totalmente insuficiente para satisfazer as actuais necessidades de segurança alemãs. Nos últimos três anos, os cerca de 180 mil efectivos diminuíram ligeiramente. É difícil imaginar que a reforma do serviço militar recentemente aprovada pelo governo federal possa representar a solução, pois o recrutamento, por agora, continuará a ser voluntário. Não estamos, portanto, perante um processo linear. Mas convém recordar que, por mais que diariamente legiões de especialistas se esforcem por apresentar o rearmamento alemão como a panaceia para todos os males do Ocidente, continua a ser uma aposta de alto risco.

Sobretudo porque o contexto estratégico europeu é radicalmente diferente daquele que, no pós-guerra, levou Washington a deixar-se convencer por Londres e Paris a não abandonar a Europa. Na altura, foram os líderes franceses em particular figuras como Robert Schuman e Jean Monnet que defenderam com firmeza que qualquer retirada das tropas americanas teria “consequências desastrosas” para a segurança nacional dos vencedores. E nos Estados Unidos havia plena consciência de que a reaproximação entre França e a Alemanha era condição fundamental para dar solidez ao bloco ocidental. Como estabeleceu o secretário de Estado Dean Acheson que desempenhou um papel central na formulação da política externa americana durante os primeiros anos da Guerra Fria, afirmaria em 1949 de que “Só a França pode assumir a liderança decisiva na integração da Alemanha na Europa Ocidental… se quiser evitar um domínio russo ou alemão ou talvez russo-alemão na Europa.”

Tendo toda a consideração pela retórica europeísta, sem as garantias de segurança dos Estados Unidos não teria existido qualquer eixo franco-alemão, verdadeiro motor da integração europeia. A prova está à vista de todos e será coincidência que o parcial descomprometimento americano com o continente coincida hoje com uma crise nas relações entre a Alemanha e a França? Washington parece cada vez mais distante. Reemergem feridas antigas, nunca totalmente saradas. Em particular, a origem das tensões entre as duas margens do Reno reside numa percepção oposta do rearmamento alemão. Paris receia que possa se transformar a República Federal numa potência assertiva e desvinculada de qualquer controlo. Berlim, por sua vez, suspeita que os franceses pretendem utilizar os fundos alemães para promover as suas ambições dispendiosas. Trata-se de uma fractura estrutural, impossível de colmatar por completo, independentemente da boa vontade de Merz e Macron.

(Continua)

27 Nov 2025

A Teoria da Vinculação e a nova “Astrologia”

A teoria da vinculação, durante décadas confinada a artigos académicos e consultórios de psicologia, entrou pela cultura popular adentro. De um momento para o outro, encontramos pessoas a descrever-se como “ansiosas”, “evitantes” ou “desorganizadas” com a mesma facilidade com que declaram o seu signo astrológico. A linguagem clínica entrou no senso comum, os estilos de vinculação ganharam vida em memes e reels no TikTok, e a intimidade passou a ser comentada como quem lê um mapa astral. Eu sou assim, tu és assado.

Há algo de irresistível nesta tendência. Em tempos de incerteza, a promessa de uma explicação clara para os nossos padrões emocionais tem um efeito quasi-terapêutico. A tipificação oferece um vocabulário: finalmente podemos expressar, em poucas palavras, porque é que nos sentimos agarrados demais numa relação ou desligados demais noutra. E, para muitos, há um genuíno alívio em reconhecer que certos comportamentos — a urgência de uma resposta, o impulso de desaparecer — não são aleatórias, mas estratégias aprendidas para sobreviver emocionalmente.

No entanto, à medida que esta teoria se tornou mainstream, ganhou também um lado mais complicado. A velocidade das redes sociais simplificou conceitos complexos até quase perderem nuance. O que deveria ser uma lente tornou-se um rótulo; aquilo que poderia ajudar a compreender, começou a aprisionar. E é aqui que surge a frustração: a sensação de que a teoria da vinculação foi transformada numa espécie de determinismo emocional.

É comum ouvir declarações como “sou evitante, é assim que sou”, ou “ele nunca vai conseguir dar-me o que preciso, porque é ansioso”. Cada uma delas revela, ao mesmo tempo, um desejo de entendimento e uma certa resignação. A tipificação, quando usada como sentença, dá conforto mas tira agência: facilita explicações, mas empobrece a complexidade da experiência humana. Mais grave ainda, pode servir para desculpar comportamentos ou para patologizar o outro.

Contudo, a teoria da vinculação, quando aplicada com sensibilidade — especialmente em terapia de casal — torna-se uma ferramenta reveladora. Em vez de reduzir a pessoa ao seu padrão, permite olhar para o que esse padrão tenta proteger. Mostra que as nossas reações na vida adulta são ecos das primeiras experiências de cuidado; não são destinos, mas trilhos que podemos desviar, se os compreendermos.

Pensemos no caso, tão frequente em terapia, do casal em que um parceiro procura contacto e o outro se retrai. À superfície, parece incompatibilidade. Mas, quando os dois começam a explorar a própria história, descobre-se que o que hoje se manifesta como “ansiedade” ou “evitamento” nasceu de contextos muito distintos.

Há quem tenha crescido num ambiente onde o cuidado era inconsistente: ora presente, ora ausente. Essas pessoas aprendem a estar vigilantes, a interpretar qualquer silêncio como rejeição. Na relação adulta, aproximam-se mais quando têm medo de perder. Outras cresceram em famílias onde a autonomia era a única forma segura de existir. Aprenderam a não depender, a não pedir para não correr riscos. Na relação, afastam-se quando a intimidade se intensifica — não porque não sintam, mas porque sentir demais sempre foi perigoso.

Quando estes dois mundos se encontram, formam um ciclo doloroso: quanto mais uma das partes procura ligação, mais a outra se retrai; e quanto mais esta se retrai, mais a primeira intensifica a procura. E é precisamente neste ponto que a tipificação se torna útil: iluminar padrões. Em terapia, quando um parceiro consegue dizer “não estou afastado porque não me importo, mas porque estou sobrecarregado”, algo muda. E quando o outro consegue reconhecer “não quero pressionar-te; só preciso de sentir que continuas aqui”, abre-se um espaço novo de vulnerabilidade.

A teoria da vinculação permite, assim, transformar mal-entendidos em pontes. Dá linguagem aos silêncios, contexto às reações, humanidade aos desencontros. Mostra que ninguém é ansioso “porque sim”, nem evitante por essência: somos todos resultados de histórias complexas, moldados por aquilo que a vida nos ensinou sobre amor.

O problema, portanto, não está na teoria, mas no modo como a cultura pop a simplifica. Quando reduzimos estilos de vinculação a caricaturas perdemos a oportunidade de ver a riqueza emocional que existe por trás dessas estratégias. E, talvez mais importante, esquecemo-nos de que a vinculação é maleável.

No fim, talvez devamos olhar para esta tendência com o mesmo espírito com que lemos um bom horóscopo: um misto de curiosidade, leveza e sentido crítico. A teoria da vinculação pode ser um mapa precioso, desde que não confundamos o mapa com o território. As palavras, e as definições, só valem a pena se nos derem liberdade.

26 Nov 2025

Comida pré-preparada(II)

A semana passada, analisámos a recente controvérsia desencadeada online a propósito da comida pré-preparada. A China continental tinha emitido um “Aviso sobre o Reforço da Supervisão da Segurança Alimentar dos Alimentos Pré-Preparados e a Promoção do Desenvolvimento de Alta Qualidade da Indústria.” O Aviso explicita o que é “comida pré-preparada” e adianta que os alimentos que são confeccionados nas cozinhas centrais das cadeias de restaurantes de acordo com as leis e regulamentos de segurança alimentar, e depois distribuídos pelas suas sucursais, não são, por isso, considerados comida pré-preparada.

Embora existam diferentes definições de comida pré-preparada, para a maior parte dos consumidores, desde que os alimentos não sejam cozinhados no restaurante, e se contiverem ingredientes que tenham sinal de ter sido processados industrialmente, quer sejam refeições prontas ou produtos semi-acabados, são considerados “comida-pré-preparada”. Ou seja, “se não são acabados de cozinhar, logo são pré-preparados” é a percepção generalizada.

As refeições pré-preparadas estão omnipresentes nas modernas de cadeias de restauração. O sabor padronizado garante que os consumidores tenham a mesma experiência, independentemente do restaurante do grupo que visitem. Este procedimento fomenta a lealdade dos consumidores à marca. Os restaurantes não ganham nem perdem clientes por causa da qualidade do chef. A comida pré-preparada reduz o pessoal necessário, diminuindo os custos com salários e aumentando a eficiência do restaurante. Temos uma sociedade onde as pessoas pedem todos os dias “take-away”; os restaurantes precisam de cronometrar a preparação da comida e os estafetas precisam de cronometrar o tempo das entregas. Se a preparação da comida não for suficientemente rápida, os restaurantes não sobrevivem à concorrência. Para garantir uma eficiente preparação dos alimentos, os restaurantes precisam inevitavelmente de recorrer à comida pré-preparada. Impulsionada pelas necessidades dos restaurantes, a procura de comida pré-preparada aumentou exponencialmente. Estudos indicam que este mercado na China continental atingirá em 2026 1.072 biliões de dólares, com potencial para se desenvolver para o próximo mercado avaliado em biliões de dólares. Desta forma, é essencial estabelecer padrões nacionais de segurança alimentar no país.

O foco dos restaurantes em servir a comida rapidamente leva a que os consumidores encarem a comida pré-preparada como “fast food”. Por isso, podem não estar dispostos a pagar preços elevados por este tipo de alimentos. Além disso, os clientes esperam sentir o “wok hei” (o aroma fumado transmitido por um wok quente durante a preparação das refeições) e desfrutar da cozinha “feita na hora” quando vão ao restaurante. Se a comida é confeccionada na cozinha central da cadeia com ingredientes pré-embalados os clientes vão experimentar uma “lacuna psicológica” que provoca uma série de questões. Por exemplo, a comida que estou a consumir já terá passado o prazo de validade? Será que contém conservantes? Estes conservantes são prejudiciais à saúde? Será que afectam o sabor dos alimentos? Se o sabor e a frescura forem afectados, o preço deve baixar? Estas questões dão facilmente origem a dúvidas. Se os consumidores forem forçados a pagar preços elevados por comida pré-preparada, podem sentir-se enganados e entrar em conflito com o restaurante.

Esta controvérsia fez a sociedade perceber que se os consumidores “comerem felizes e com tranquilidade” vão regressar, o que será vantajoso para os clientes e para o restaurante. Talvez se possa considerar indicar no menu se o prato é “feito na hora”, se provém da “cozinha central da cadeia de restauração” ou se é “pré-preparado”, dando assim ao consumidor a possibilidade de escolha. Uma destas cadeias de restauração da China continental, a “Lao Xiang Ji,” usa este método indicando se as refeições são “feitas no restaurante,” “semi-pré-preparadas,” ou se são “comida pré-preparada reaquecida.” Este método satisfaz os clientes, libertando-os de mal-entendidos e preocupações acerca da comida-pré-preparada e da segurança alimentar. A abordagem da Lao Xiang Ji impôs-se à industrialização conseguindo assim reter a clientela.

Além disso, os restaurantes devem compreender que um ambiente transparente e honesto informa melhor o consumidor, o que aumenta a sua confiança nos restaurantes. A confiança do consumidor é o alicerce de todas as marcas. Os consumidores são tanto participantes como motores da indústria alimentar. Esta controvérsia ajudará a indústria alimentar a desenvolver-se numa direcção mais padronizada e saudável.

Para apoiar este desenvolvimento, a China continental precisa de implementar o mais rapidamente possível normas nacionais para a segurança das refeições pré-preparadas e estabelecer um rigoroso mecanismo de controlo de qualidade e rastreio, o que será mais benéfico para a sociedade.

De acordo com a Lei n.º 5/2013 de Macau, a “Lei da Segurança Alimentar”, as refeições pré-preparadas devem ser embaladas de forma segura e os seus ingredientes devem estar etiquetados, mas os restaurantes não são obrigados a indicar se os seus pratos usam ou não ingredientes pré-preparados. Esta controvérsia demonstra que os consumidores estão preocupados com a possibilidade de os restaurantes servirem refeições pré-preparadas. Dada a actual tendência de os habitantes de Macau irem fazer compras à China continental, para sobreviver, a indústria da restauração precisa de se aperfeiçoar para atrair mais turistas. Talvez os restaurantes de Macau possam considerar explicar aos clientes que se usarem alimentos pré-preparados localmente, estão a servir pratos típicos, “Made in Macau.” Se usarem alimentos pré-preparados vindos da China continental e processados nas suas cozinhas, poderão identificá-los como “Made in China continental + Processado em Macau” como um slogan de marketing. Desta forma podem reduzir-se custos operacionais e aumentar-se a percepção do valor do que é “Made in Macau.” Afinal de contas, a nossa indústria do turismo depende dos turistas, E vender aos turistas produtos tipicamente locais é a chave da sobrevivência dos negócios da cidade.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

25 Nov 2025

Presidentes para todos os gostos

A campanha eleitoral para os candidatos a Presidente da República está na estrada. Os pretendentes ao palácio de Belém são mais que muitos e para todos os gostos. No dia 18 de Janeiro do próximo ano, o povo português é, mais uma vez, chamado a dirigir-se às urnas para votar em quem pretende ser o novo Presidente de Portugal. Há candidatos da extrema-direita à extrema-esquerda. O voto é secreto, mas a maioria do povo já tem uma ideia em quem irá votar. Uma coisa é certa: os portugueses querem continuar a viver em democracia e não aceitam teses xenófobas, racistas e neonazis. As sondagens valem o que valem. Normalmente erram no resultado final. No entanto, certos canais de televisão tudo têm feito para influenciar o voto num certo sentido.

Hoje, deixo-vos aqui o que pensamos de cada um dos candidatos.

André Ventura – Um candidato anti-sistema político em vigor, que tem defendido o ódio pelos imigrantes, que preconiza uma mudança nas leis da nacionalidade e até na própria Constituição da República. É visível que apenas se candidata para tentar manter a sua base eleitoral para futuras eleições legislativas, apesar de o seu Partido Chega, ter vindo a perder adeptos. Nos debates televisivos que já participou só sabe gritar e apresentar os mesmos argumentos que anuncia desde que fundou o partido. Não se adivinha sequer que possa participar numa eventual segunda volta das eleições presidenciais.

Marques Mendes – O antigo comentador televisivo e dirigente do PSD resolveu candidatar-se porque o seu companheiro Luís Montenegro lhe garantiu que teria o apoio da Aliança Democrática PSD/CDS, que de momento governa o País. Marques Mendes apresenta-se como um candidato de facção. Sem dúvida, que os adeptos do governo Montenegro irão votar nele. No entanto, nem todos os militantes do PSD apoiam esta candidatura. Para esses militantes, Marques Mendes é um Marcelo Rebelo de Sousa número dois, com menos conhecimento da legislação constitucional. As sondagens fabricadas para sua valorização já chegaram a apresentá-lo como estando à frente das intenções de voto. Não cremos, sinceramente, que o povo escolha um Presidente que apenas iria para Belém defender todas as propostas de Montenegro.

Almirante Gouveia e Melo – Um candidato que recolheu de imediato, ao anunciar a sua candidatura, o apoio popular esmagador por ter sido um homem de seriedade e de organização quando se registou a pandemia do vírus Covid-19. Uns, apoiam novamente um militar na Presidência de Portugal. Outros, são radicalmente contra a eleição de um militar. Dizem que não tem experiência política e que não sabe explicar em que área política se situa. Como é que um cidadão que chega a almirante não sabe de política? Como é que não acompanhou as vicissitudes da política nos 50 anos de democracia? Impossível. Gouveia e Melo sabe perfeitamente os apoios que tem e que ideias possui para ser um Presidente diferente. O problema, é que os seus adversários políticos sabem que Gouveia e Melo sabe demais, como por exemplo, quem recebeu “luvas” na aquisição dos submarinos de alta tecnologia Arpão e Tridente, não tendo existido qualquer investigação do Ministério Público quando os intervenientes alemães no negócio estão presos. Os seus adversários querem a todo o custo afastá-lo, por Gouveia e Melo saber todos os podres de quem o quer afastar. É um dos candidatos fortes a vencer as eleições, à primeira ou à segunda volta.

António José Seguro – Um candidato experiente na política e na vida académica onde tem mantido um vasto contacto com jovens. Foi secretário-geral do Partido Socialista e após a “guerra” com António Costa hibernou. Passados 10 anos regressa trazendo consigo a sua seriedade, o seu conhecimento político da realidade portuguesa e a sua serenidade na análise dos problemas nacionais. O Partido Socialista, ou uma parte dele, viu-se obrigado a anunciar que apoiava este candidato. Seguro agradeceu o apoio, mas sublinhou a sua independência. Seguro desde que anunciou candidatar-se a Presidente, tem subido paulatinamente nas intenções de voto dos portugueses, especialmente entre um “centrão” moderado que inclui social-democratas e socialistas. Poderá surpreender e seguir para uma segunda volta.

Cotrim Figueiredo – Um candidato que foi líder da Iniciativa Liberal, um partido que mais se assemelha ao Chega do que ao PSD. Cotrim poderá ser uma surpresa, especialmente no voto dos jovens e das mulheres. Pessoalmente é uma pessoa cordial, conhecedora dos dossiês políticos, com experiência nos corredores do Parlamento Europeu e que se apresenta como defensor de um liberalismo moderno e reformista. Pode surpreender na percentagem de votos, mas não cremos que chegue para disputar uma segunda volta. A mobilização ao redor de Cotrim está a ser activa e influente. O seu resultado irá depender muito das críticas que anunciar contra o Chega, caso contrário, os militantes social-democratas descontentes com Marques Mendes não o irão apoiar e podem optar pelo voto em Seguro.

António Filipe – Este candidato é um Senhor. Sério, deputado da Assembleia da República durante muitos anos, conhecedor da Constituição do primeiro ao último parágrafo, afável e popular. Não renega as suas raízes de comunista, mas muitas vezes discordou das directrizes do Comité Central do seu partido, o PCP. É um candidato que tem percorrido todo o País e que se senta nos cafés a ouvir as queixas das populações. Tem conseguido uma base de apoio maior que a do seu próprio partido. Já ouvimos socialistas a dizer que votarão na sua candidatura. António Filipe é culto, excelente comentador, amigo dos desprotegidos e poderá obter um resultado surpreendente, apesar de as sondagens encomendadas pela AD o colocarem sem significado eleitoral. Talvez se enganem.

Catarina Martins – A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda devia ter-se mantido na insignificância que se tem registado no seu partido, que mês após mês tem visto fugir eleitores para o Livre. Catarina não tem quaisquer hipóteses de obter um bom resultado, porque a crise que grassa no Bloco em nada a ajuda a conquistar eleitores. Sabe do que fala, aponta erros à governação de Montenegro, defende os reformados de miséria, mas não existe na sua candidatura uma máquina que a pudesse promover a uma candidata credível de conseguir um bom resultado.

Sobre o candidato do Livre e de outros pretendentes ao “trono” de Belém não nos vamos pronunciar pelo facto de não terem qualquer hipótese de serem eleitos. Na nossa modesta opinião, as eleições irão ser disputadas entre Gouveia e Melo e Marques Mendes ou António José Seguro. E numa segunda volta, se Seguro estiver presente, toda a esquerda poderá coexistir com a tese de Álvaro Cunhal de tapar os olhos e colocar a cruz em Seguro.

24 Nov 2025

O Despertar Estratégico da Alemanha (I)

(Continuação do artigo publicado na edição de 13 de Novembro)

Após anos de promessas não cumpridas, a Alemanha leva agora o assunto a sério. E, de repente, o rearmamento alemão, aos olhos dos mesmos aliados que durante tanto tempo exigiram a sua necessidade absoluta, parece pouco tranquilizador. Sorrisos e apertos de mão em público, preocupação nos bastidores, pois percebe-se em palavras fora de lugar, em decisões aparentemente injustificadas e até na expressão dos rostos. Caso contrário, seria difícil explicar por que razão, em Setembro de 2022, Varsóvia decidiu formalmente pedir a Berlim reparações pelas perdas humanas e materiais sofridas durante a ocupação nazi, estimadas em cerca de 1.300 mil milhões de euros. Preço de amigo, claro.

Muito mais directo foi Trump durante o encontro com Merz na Casa Branca em Junho de 2025 ao afirmar que “Estão a gastar mais dinheiro na defesa, e isso é bom. Não tenho a certeza de que o general MacArthur pensasse o mesmo, … percebes o que quero dizer? Ele disse: ‘Nunca deixem que a Alemanha se rearme’. … Eu acho que é positivo, mas só até certo ponto. Vai chegar o momento em que vos direi ‘Por favor, parem de se armar, se não se importam’.” Seguiu-se uma palmada amigável na perna do chanceler alemão dizendo: “Vamos ficar atentos, eu trato disso.” O episódio terminou, para alívio de Merz, com uma risada forçada. O sentimento de incerteza não se sente apenas em Washington e Varsóvia, mas também nos círculos governamentais de Londres e Paris, onde certamente não foram esquecidos os avisos de Margaret Thatcher e François Mitterrand entre 1989 e 1991, aquando da queda do Muro e da reunificação alemã. Por exemplo, entre os responsáveis alemães é convicção generalizada que a proposta do presidente francês Emmanuel Macron de estender à Alemanha o arsenal nuclear francês é, na prática, uma manobra para controlar a sua trajectória, preservar o primado militar francês na União Europeia e, ao mesmo tempo, garantir os vastos recursos financeiros do outro lado do Reno.

Não exactamente um gesto de solidariedade entre aliados. Surge então uma pergunta de por que razão o Ocidente incentivou durante anos o reforço das capacidades militares de Berlim, para depois, pelo menos em parte, arrepender-se? Esta incongruência obedece a alguma lógica? Para responder, ajuda a recordar um leitmotiv que circula em Washington há pelo menos uma década, sobretudo desde que Barack Obama apresentou o chamado “Pivot to Asia” (que foi uma estratégia de política externa lançada pelo presidente Barack Obama em 2011, que marcou uma mudança significativa do foco dos Estados Unidos do Médio Oriente e Europa para a Ásia-Pacífico. O objectivo era reforçar a presença diplomática, económica e militar dos Estados Unidos na região diante da ascensão da China) de que para os Estados Unidos, é imperativo transferir para terceiros os custos de contenção das ambições russas na Europa, pelo menos no plano convencional.

E neste quadro, o contributo da República Federal, primeira economia do continente, parece inevitável. O problema é de quem pode garantir que Berlim, depois de desenvolver as suas capacidades bélicas como solicitado por Washington, as utilizará de forma coerente com os interesses americanos? É fácil controlar quem é frágil e indefeso, muito menos quem está armado até aos dentes. Em suma, as capacidades humanas e industriais da Alemanha são indispensáveis, mas deixá-las nas mãos dos alemães assusta e não pouco. Nada de novo no bloco ocidental pois estamos perante a mesma contradição que, no início da Guerra Fria, levou os Estados Unidos a construir o seu império informal na Europa. Uma arquitectura pensada, em boa parte, para manter os alemães “subjugados”, segundo a célebre fórmula do primeiro secretário-geral da NATO, Lord Ismay.

Inimigos sentados à mesa dos amigos. Nenhum americano, na segunda metade dos anos de 1940, teria consentido na reintegração da Alemanha (ainda que dividida) na “família das nações ocidentais” se não a considerasse estritamente necessária. Aliás, antes do fim das hostilidades, o presidente Franklin Delano Roosevelt defendeu abertamente que os alemães deveriam enfrentar custos “tão impressionantes que hesitassem antes de iniciar uma nova guerra”. Aos seus olhos, a Alemanha seria “menos perigosa para a civilização se dividida em 107 províncias”. Também por isso, em Setembro de 1944, durante a conferência de Québec, Roosevelt aceitou ratificar com Winston Churchill um projecto que previa a transformação do inimigo num “país de carácter predominantemente agrícola e pastoril”. O plano, desenvolvido nos meses anteriores pelo então secretário do Tesouro Henry Morgenthau com o título evocativo de “Programa para Impedir que a Alemanha Inicie uma Terceira Guerra Mundial” previa, na sua essência, retirar aos alemães “todas as suas indústrias pesadas”.

20 Nov 2025

Quem tem medo do ginecologista?

Assim que uma pessoa com vulva inicia a sua vida sexual, as idas ao ginecologista tornam-se obrigatórias. Há quem sugira consultas de ano a ano, há quem recomende intervalos de três em três anos — depende muito da situação médica. Durante a consulta, o médico observa a vulva e o interior da vagina, realiza exames e avalia o estado de saúde das partes íntimas. Ainda que o contacto com o ginecologista possa ser frequente, há quem sinta extrema ansiedade nestas visitas. Afinal, a pessoa fica exposta e vulnerável.

Para além de ter de partilhar detalhes sobre a sua vida sexual e lidar com silêncios constrangedores — facilmente interpretados como julgadores —, há também a discussão sobre fluidos corporais e o uso do espéculo vaginal, por vezes metálico e frio, para que a vagina se abra e a visibilidade seja melhor. Há desconforto associado e as pessoas descrevem diferentes níveis de desconforto, e até de dor. O que é certo é que, para muitas, estas intervenções podem ser dolorosas — e, por isso, a ansiedade dispara. Há quem até prefira não ir ao ginecologista de todo.

Começando pelo espéculo vaginal, por exemplo: mantém praticamente o mesmo formato e funcionamento há 185 anos. Alguns médicos ainda utilizam o modelo metálico e frio, mas acredita-se que, atualmente, se use mais o de plástico descartável, que, embora um pouco mais confortável, não é a solução ideal. Duas mulheres, nos Países Baixos, na Universidade de Técnica de Delf desenvolveram uma alternativa com um mecanismo menos agressivo, que, em estudos iniciais, se revelou muito favorável — não só ao conforto das pacientes, mas também aos médicos, que relataram melhor visibilidade. Lilium, como se chama, é, sem dúvida, uma invenção promissora, mas até chegar aos consultórios ginecológicos de todo o mundo poderá demorar algum tempo. O material é mais suave e a forma de abertura mais gentil, permitindo até que as pacientes controlem a abertura — o que pode ser relevante para quem sofra de extrema ansiedade, tenha vivido experiências sexuais traumáticas ou até experiências negativas anteriores no ginecologista.

Algumas pessoas encaram a consulta com naturalidade; outras evitam-na completamente. A maioria, porém, resigna-se à ideia de que a consulta de rotina é necessária, apesar do mal-estar que possa causar. Pelo bem da saúde, sujeitamo-nos, por vezes, a procedimentos desagradáveis — e está tudo bem com isso: é assim que a medicina funciona.
Contudo, há aspetos que podem ser geridos para que a ida ao ginecologista não seja um “bicho de sete cabeças”. Esta é a parte que nos devolve alguma agência na relação com o ato ginecológico. Como é que podemos cuidar do desconforto?

Estabelecer uma relação de confiança. Para que a experiência seja tranquila, é essencial que a pessoa estabeleça uma relação de confiança com o médico. Convém partilhar ansiedades e medos em relação à visita, explicando o que causa desconforto. Juntos, podem desenvolver estratégias que tornem os exames mais suportáveis (por exemplo, no caso da citologia). É possível pedir ao médico que explique cada passo do procedimento. Nem todos os profissionais são sensíveis a estas questões, mas é importante encontrar um com quem nos sintamos à vontade e com quem a comunicação seja fácil e descomplicada.
Se for a primeira visita, vale a pena pedir referências a amigas ou pessoas de confiança — e procurem médicos que sejam empáticos e disponíveis para ouvir preocupações.

Acompanhar-se de objetos ou circunstâncias confortantes. Na ida à consulta, leve algo que a faça sentir-se segura e que lhe recorde que o desconforto é passageiro. Por exemplo, ouvir música relaxante antes de entrar ou usar um perfume ou aroma familiar. É importante identificar esses pontos de bem-estar e não ter receio de recorrer a eles numa situação stressante. Pode também ser útil levar um acompanhante de confiança que fique consigo na sala de espera e a receba quando sair. Estes momentos de segurança ajudam a que a experiência desconfortável não fique emocionalmente desamparada.

O mundo da medicina ginecológica tem ainda muito espaço para melhorar no que toca ao atendimento e à compreensão do desconforto que este tipo de consulta pode gerar. Mesmo na reformulação dos procedimentos e dos instrumentos de exame, haverá certamente avanços que considerem mais o conforto das pessoas com vulva.

Resta-nos, por enquanto, falar sobre o desconforto com o profissional de saúde e procurar aquele com quem sintamos maior confiança. Apesar do lugar-comum de que a ida ao ginecologista é “apenas um pouco desconfortável”, percebemos cada vez mais que, para muita gente, pode ser muito mais do que isso — e não há nada como desenvolver estratégias que reconheçam o desconforto, mas que cuidem dele da melhor forma possível.

19 Nov 2025

Comida pré-preparada (I)

Recentemente, a imprensa informou que um proeminente empresário chinês, depois de ter jantado num restaurante que pertence a uma cadeia da China continental, veio manifestar a sua indignação online, dizendo que a comida que lhe tinha sido servida era “pré-preparada” e que tinha pago por ela um preço exorbitante. A cadeia de restauração respondeu de imediato, afirmando que os pratos que lhe tinham sido servidos não eram “comida pré-preparada, mas sim confeccionados com produtos provenientes da “Tecnologia de pré-processamento da cozinha central” da cadeia de restauração.

Este incidente desencadeou discussões acesas online em torno da utilização de comida pré-preparada nos restaurantes e do direito do consumidor a ser informado—questões merecedoras da atenção do público.

A 18 de Março de 2024, a China continental emitiu um “Aviso sobre o reforço da supervisão da segurança alimentar dos alimentos pré-preparados e a promoção do desenvolvimento da elevada qualidade da indústria.” O Aviso define comida pré-preparada desta forma:

“Comida pré-preparada, também conhecida como pratos pré-embalados, refere-se a refeições feitas a partir de um ou mais produtos agrícolas comestíveis e seus derivados, com ou sem temperos ou outros ingredientes auxiliares, sem conservantes, através de pré-processamento industrial (como misturar, marinar, fritar, assar, cozer, cozinhar a vapor, etc.), com ou sem pacotes de temperos, satisfazendo as condições de armazenamento, transporte e venda indicadas no rótulo do produto, pratos esses que devem ser consumido depois de aquecidos. Não inclui alimentos básicos, como arroz congelado, macarrão, alimentos de conveniência, refeições embaladas, tigelas de arroz, pães cozidos no vapor, pastelaria, roujiamo (hamburger chinês), pão, hamburgers, sandes, pizza, etc.”

Por outras palavras comida pré-preparada é aquela que é cozinhada previamente, armazenada e depois levada para o restaurante onde será aquecida e servida aos clientes.

Um ponto a salientar é que os alimentos pré-preparados geralmente têm um prazo de validade mais longo, que pode ir de vários dias a alguns meses, ao passo que os alimentos semi-preparados têm um prazo de validade muito mais curto, normalmente de apenas um a dois dias, e necessitam de refrigeração.

Depois de ler a descrição dos alimentos pré-preparados no “Aviso”, levanta-se uma questão: Os alimentos preparados na cozinha central da cadeia de restauração e que depois são transportados para as outras filiais podem serem considerados comida pré-preparada? O “Aviso sobre o reforço da supervisão da segurança alimentar das refeições pré-preparadas e a promoção do desenvolvimento de elevada qualidade da indústria” estipula claramente que as cozinhas centrais devem cumprir os requisitos e normas legais e regulamentares de segurança alimentar na indústria da restauração; por conseguinte, não são alimentos pré-preparados.

A China continental solicitou anteriormente pareceres sobre “Normas Nacionais de Segurança Alimentar de Alimentos Pré-Preparados,” e acredita-se que novas regulamentações serão emitidas em breve. Nessa altura, surgirão mais normas relativas a esta matéria.

A explicação que demos do conceito de alimentos pré-preparados resulta de uma interpretação textual, mas podemos, a partir de comida deliciosa, chegar a pensamentos complexos. Pensar nestas questões antes de comer pode ser mentalmente desgastante e diminuir o prazer da refeição. Agora, vamos tentar pensar sobre o que são alimentos pré-preparados para o consumidor comum.

Para a maior parte dos consumidores, qualquer alimento que não seja arranjado e cozinhado no próprio restaurante, e que contenha algum traço de processamento industrial, seja um kit de refeição ou um produto semi-acabado, é considerado comida pré-preparada. Ou seja, “não é cozinhada na hora, portanto, é pré-preparada” este é o entendimento comum sobre comida pré-preparada.

O caro leitor também partilha desta ideia? Concorda com a percepção generalizada? Na próxima semana, continuaremos a debater este tema e explorar como Macau deverá lidar com o assunto.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

18 Nov 2025

Acabaram os direitos dos trabalhadores

O futuro dos trabalhadores portugueses vai ser muito negro. A maioria dos direitos conquistados com muita luta após o 25 de Abril de 1974 tem vindo a perder-se e agora poderá levar uma machadada forte. O Governo de Montenegro prepara-se, com o apoio do Chega, para apresentar aos deputados da Assembleia da República legislação que fere indubitavelmente os principais direitos adquiridos pelos trabalhadores. Um exemplo? Os patrões poderão despedir sem justa causa quando lhes apetecer.

Em 24 de Julho, o Governo anunciou com inusitado entusiasmo na reunião do Conselho de Ministros a aprovação de uma vasta revisão da legislação laboral com a designação de Lei Trabalho XXI, destinada a destruir quase por inteiro a Agenda para o Trabalho Digno aprovada em 2023.Não se tratava de uma mera reforma. Tinha sido aprovado um ante-projecto de diploma com alterações profundas, que mexem em cerca de uma centena de artigos do Código de Trabalho. Não se tratava de algo leve e a matéria em causa foi logo entregue para discussão aos parceiros sociais. Estes, ao tomarem conhecimento das intenções do Governo, ficaram de tal modo perplexos que andaram estes meses todos a estudar artigo por artigo e concluíram que o caso era de tal forma grave que há muitos anos que não se juntavam as centrais sindicais UGT e CGTP para uma greve geral, a qual está marcada para 11 de Dezembro.

Entretanto, os comentadores televisivos afectos à governação tendencialmente para o neofascismo, vieram logo em defesa de que algo teria de mudar na lei laboral porque as empresas não aguentavam a situação económica degradante em que estavam a caminhar. Nunca se ouviu um comentador dessa estirpe falar nas centenas de empresas que obtém milhões de euros de lucro. Os debates televisivos tinham uma intenção: era distrair as atenções dos aspectos mais relevantes da proposta governamental, enquanto o ritual do diálogo social era praticado em pleno Verão com a concertação social em serviços mínimos e o País a banhos olhando de soslaio para as notícias sobre o descontrolo dos incêndios e as urgências fechadas nos hospitais. Por seu lado, as confederações patronais manifestavam um júbilo previsível sobre as propostas do Governo. Mas, assim que a UGT e a CGTP anunciaram a greve geral eis que o primeiro-ministro veio logo a público com audição repetida em mais de dois dias, para divulgar o patético.

Luís Montenegro descarrilou de imediato ao associar o protesto sindical a intuitos partidários colocando no mesmo saco a relação da UGT com o PS e a da CGTP com o PCP. Marcelo Rebelo de Sousa foi sibilinamente incorrecto como sabe ser quando pretende ser parcial e partidário sem despir a casaca presidencial. Veio dizer que a greve é precipitada por não existir sequer uma proposta legislativa. Presidente chico-esperto é outra coisa.

Não há uma proposta de lei apresentada na Assembleia da República, mas está no site do Governo desde Julho um longo articulado com inúmeras propostas controversas tais como: fim da obrigatoriedade de reintegração do trabalhador em caso de despedimento julgado como ilegal pelos tribunais; possibilidade de contratação imediata de trabalhadores em outsorcing para substituir trabalhadores despedidos em caso de reestruturação empresarial; flexibilização das condições de despedimento sem justa causa; regresso do “banco de horas” individual, até 50 horas semanais ou 150 anuais, com base na ficção de igualdade negocial entre patrão e trabalhador; autorização para a contratação a prazo até três anos (termo certo) ou cinco anos (termo incerto); as mulheres serão severamente penalizadas com mais horas de trabalho e menor remuneração; eliminação da dispensa de trabalho nocturno e ao fim de semana de trabalhadores com filhos até aos 12 anos; tornar quase impossível o reconhecimento como contrato de trabalho das actividades de distribuidores de refeições ou motoristas da TVDE, que são considerados profissionais liberais; alargamento substancial das áreas sujeitas a serviços mínimos em caso de greve; as regras dos contratos colectivos deixam de se aplicar aos trabalhadores em regime de outsorcing e a lista quase não tem fim. Tudo em prejuízo dos direitos dos trabalhadores. Já há quem diga que este Governo de Montenegro é pior que o de Passos Coelho, de má memória.

Em bom rigor, o anúncio da greve geral dá um precioso mês, tanto ao Governo como aos parceiros patronais, para clarificarem qual a evolução possível para que se possam distinguir na abertura e espírito negocial de imposição unilateral.

O quadro de apresentação desta vaga de enfraquecimento dos direitos laborais e de criação de instabilidade adicional, sobretudo afectando as famílias e os jovens trabalhadores, surge numa altura em que o mercado de trabalho está no nível mais alto de sempre, com 5,3 milhões de trabalhadores activos e o desemprego está ao nível mais baixo desde a crise financeira internacional de 2008. Mesmo assim, o que se constata é que existe uma falta de trabalhadores, e que se tem acentuado com as restrições à contratação de estrangeiros, pelo que esta cruzada ideológica pela desregulação do mercado de trabalho é inimiga das famílias que trabalham. Concluindo: os trabalhadores no futuro vão enfrentar imensas dificuldades porque, infelizmente, o regime político está a virar para uma política quase antidemocrática e, quem sabe, se um dia não teremos legislação que proíba uma greve…

17 Nov 2025

Folhas caídas

Este ano, o Inverno não tem estado particularmente frio e não encontramos muitas folhas caídas no chão. No entanto, a 30 de Outubro, o site noticioso “All about Macau”, sediado na cidade, anunciou que depois de cuidadosa ponderação, tinha decidido interromper a sua publicação mensal na sequência do incidente de Outubro e que, a partir de 20 de Dezembro, deixaria de fazer actualizações no website e nas plataformas de comunicação. Os jornalistas devem ter sentido que caiu a última folha da comunicação social independente.

No editorial, “Adeus, até à próxima. Cuidem-se e Sigam em Frente”, o “All about Macau” explicava brevemente as razões do cancelamento das publicações. O principal motivo foi os seus jornalistas estarem impedidos de entrar em eventos oficiais desde Outubro de 2024. Em Abril de 2025, foi-lhes vedado o acesso à Assembleia Legislativa e três deles enfrentam agora um possível processo criminal devido àquele incidente. Além disso, o Gabinete de Comunicação Social notificou o “All about Macau” o mês passado, declarando que, de acordo com os requisitos do registo de publicações especificados na Lei de Imprensa, o “All about Macau” “deixou de reunir as condições para exercer actividade jornalística”, tendo sido cancelado o número de registo da sua publicação mensal.

Tendo sido director da extinta publicação católica “Observatório de Macau”, compreendo perfeitamente o sentimento de profunda impotência daqueles que aspiram a ter uma carreira no jornalismo quando a publicação em que trabalham é encerrada. Desde o regresso de Macau à soberania chinesa, sucessivos Chefes do Executivo mantiveram e, inclusivamente, apoiaram os órgãos de comunicação social, organizando em Janeiro almoços anuais com os seus representantes chineses e portugueses. Durante estes encontros, os funcionários do Gabinete de Comunicação Social aproveitavam a oportunidade para trocar opiniões, ouvir o que os profissionais do sector tinham a dizer e o clima que se vivia era amigável.

É inegável que desde a desclassificação de candidatos ao sufrágio directo (deputados eleitos por sufrágio directo) nas eleições de 2021 para a Assembleia Legislativa, o cenário político de Macau mudou. A publicação online “Macau Concealers”, fundada pela “Associação de Novo Macau”, foi a primeiro a encerrar devido à falta de recursos operacionais, seguido pela “aposentação” da própria “Associação de Novo Macau”.

Por outro lado, o “Observatório de Macau”, do qual fui responsável, foi afectado pela revisão do sistema de apoios do Governo da RAEM às publicações periódicas e deixou de poder concorrer aos apoios financeiros. Assim, o Observatório de Macau, que sempre funcionou sem subsídios governamentais, reduziu as despesas, passou da impressão a cores para a impressão a preto e branco e os colaboradores começaram a participar com base no voluntariado. Nos finais de 2021, o “Observatório de Macau” continuava à procura de apoio junto dos subscritores e de apoiantes. E foi só no início de 2022 que recebemos subitamente a notícia do encerramento da publicação. O motivo apresentado para o encerramento oficial do “Observatório de Macau” na segunda metade de 2022 não tinha a ver com o Governo; foi meramente uma decisão tomada pela entidade que o geria. Foi-nos dito que o conselho de administração planeava reestruturar o “Observatório de Macau”.

Será o encerramento do “All about Macau” a última folha caída da imprensa independente de Macau? Pessoalmente, acredito que o valor de um órgão de comunicação social depende antes de mais das necessidades sociais, particularmente no que respeita a transmitir a realidade dos factos, a salvaguardar o direito dos cidadãos à informação, a apoiar o Executivo ajudando a aperfeiçoar a governação e a assumir um papel de supervisor do desempenho do Governo.

Na China, durante a Dinastia Tang, o Imperador Taizong estava muito insatisfeito com Wei Zheng, um ministro que frequentemente o criticava. O Imperador disse mesmo à Imperatriz que tinha vontade matar esse “burgesso sem educação”, mas foi dissuadido pela esposa e por isso Wei Zheng continuou a ser ministro por mais de uma década.

Embora o poderoso imperador Taizong estivesse certamente insatisfeito com as críticas de Wei Zheng, também sabia que o seu primo mais inteligente, Yang Guang, último Imperador da Dinastia Sui, foi derrubado porque se recusava a aceitar as críticas dos seus ministros. Por conseguinte, o encerramento da publicação “All about Macau” pode não vir a ser a última folha caída.

A garantia da liberdade de expressão, da co-existência de valores diferentes e do direito do público à informação é essencial quer para o Governo quer para a sociedade. Enquanto Macau permanecer como a “terra de Lótus”, certamente que novas folhas irão nascer para saudar o nascer do Sol quando a Primavera chegar.

14 Nov 2025

O Despertar Estratégico da Alemanha (I)

“I fear German inaction more than German power.”
Radosław Sikorski, Berlin, November 2011

Berlim rearma-se, não por uma causa europeia abstracta, mas antes de tudo por si. A “mudança de época” foi preparada ao longo de vários anos e conseguiu convencer a população. Os Estados Unidos encorajam, mas até certo ponto. A crise com a França é notória. Rumo à superação do sentimento de culpa há algum tempo, nas principais chancelarias europeias (e não só), voltou a ecoar uma velha pergunta de para onde vai a Alemanha? A história nunca se repete e raramente rima. No entanto, a questão alemã parece destinada a redefinir ciclicamente os equilíbrios do Velho Continente. Muito mais do que um simples reequipamento das Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr), Berlim atravessa uma revolução estratégica preparada há mais de uma década e acelerada drasticamente com o início da “operação especial” russa na Ucrânia.
Independentemente do desfecho, esta viragem redesenhará de forma definitiva a maneira como a República Federal se representa a si e ao seu papel no mundo. Não há retorno possível. O coração pulsante da revolução alemã é o rearmamento. Para compreender a futura configuração estratégica do país, não basta enumerar os fundos colossais destinados às Forças Armadas Alemãs nos últimos meses, os planos de aquisição ou as declarações enfáticas do Chanceler Friedrich Merz desde 6 de Maio de 2025 e de outros ministros federais. Os números, por mais relevantes que sejam, representam apenas a superfície. A questão é cultural antes de ser material. A Alemanha identificou na força militar o factor decisivo da sua renovação.
Hoje, nos corredores do poder e nas principais instituições berlinenses, admite-se com invulgar franqueza que os pilares sobre os quais os alemães construíram a sua prosperidade durante mais de trinta anos deixaram de existir. Espalha-se uma nova interpretação que é a verdadeira alternativa ao declínio, ou seja, de redefinir a relação com o instrumento militar. Não há terceira via. Inevitavelmente, esta dinâmica não afecta apenas as Forças Armadas Alemãs, mas também a forma como a população concebe o sistema económico, a política externa e até a ética, a cultura e a auto- consciência nacional.
Chega mesmo a tocar na culpa herdada em relação ao passado pela longa sombra de Auschwitz, que para os alemães assume contornos quase metafísicos. Um processo destinado a criar uma nova Alemanha e a transformar profundamente a Europa. Uma cultura estratégica não se inventa de um dia para o outro. Num mundo em que as normas partilhadas cedem lugar às relações de força cruas, os alemães descobrem-se desorientados e sem referências. Certamente, o velho “Modell Deutschland” (é um conceito político e económico que descreve o modelo de desenvolvimento da Alemanha Ocidental durante o pós-guerra, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980) chegou ao fim e aquele modelo fundado na ideia, cada vez mais enraizada após a queda do Muro, de que a República Federal poderia construir uma primazia económica sem se dotar dos meios para a defender pela força. Berlim não decidiu espontaneamente abandonar a sua visão “pós-heróica”, pois era uma moldura confortável, quase ideal, sustentada por dois pilares; o de delegar a segurança aos Estados Unidos e, paralelamente, desenvolver relações comerciais e energéticas com os seus dois rivais estratégicos, China e Rússia.
Actualmente, o último que a Alemanha deseja é liderar a Europa ou assustar os países vizinhos. É um dos poucos pontos em que os partidos tradicionais e as forças nos extremos do espectro político estão de acordo. Aqui tocamos num dos muitos paradoxos do “ponto de inflexão histórico”; a mudança de época proclamada três dias após o início da invasão russa pelo então Chanceler Olaf Scholz, num dos seus raros momentos de firmeza. Mais do que qualquer outra coisa, o que obrigou Berlim a sair da sombra com um projecto de rearmamento sem precedentes foi a pressão constante de vários aliados ocidentais, que durante anos lhe censuraram uma atitude de “aproveitadora” e exigiram um compromisso proporcional à sua dimensão.
Emblemático foi, por exemplo, o discurso proferido em Berlim em Novembro de 2011 por Radosław Sikorski, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Primeiro-Ministro da Polónia, que definiu a Alemanha como a “nação indispensável” na Europa e declarou temer “mais a sua inércia do que o seu poder”. Palavras que ecoaram nos anos seguintes nos avisos de Barack Obama e nas invectivas bem mais contundentes de Donald Trump, que durante o seu primeiro mandato apontou os alemães como “delinquentes” e “prisioneiros dos russos” esta última referência como sendo o alvo mais eficaz da sua retórica.

(Continua)

13 Nov 2025

DE FILINTO ELÍSIO

O que nos poderá trazer à memória remota este autor é digno de ser entendido à luz dos acontecimentos recentes onde o filicídio e o parricídio se levantam desde obscuros tempos no país da longa Inquisição e de expostos à Roda, portanto, uma memória sombria que um povo pequeno ao longo de séculos foi capaz de perpetrar nas agruras de um fatalismo doentio e inegável brutalidade emocional. Assistimos incautos mas não esquecidos (alguns) às manifestas capacidades malignas que se levantam do seu atavismo e tentamos compreender não só o próprio momento mas todos aqueles que o antecederam, e nele nos ocorre Filinto Elísio, uma figura notável do século XVIII com um percurso monumental, um dos grandes conhecedores da cultura clássica da sua época, lembrando que foi a sua própria mãe que o denunciou à Inquisição, não esquecendo ainda que o país foi fundado por um rei que bateu na sua mãe.

Eis que quase subitamente e por um fio rasgado da sorte, existiu para reparar todas estas tragédias o culto mariânico que numa primeira instância se achou suspeitoso mas que fora metodicamente afivelado para transpor, quem sabe, o nível pré-consciente de uma nação que forjou o crime no seio da mais pequena instituição redimindo-a assim do descaso brutal de que deu provas ao longo de séculos. E o mito vingou! Só que deixou a descoberto a existência transsexual das personagens que fixaram os afixos. -Há que descobrir o leitor o que entende por tal definição- Passando de imediato para o autor, a ordem de prisão fora ordenada, só que ele fugira indo parar à casa de um negociante francês, e pouco mais tarde a bordo de um navio sueco; Filinto tinha-se escapulido com todo o seu saber e cultura inscritos para jamais regressar. No meio de tudo isto o drama do obscurantismo foi ainda, e talvez, o melhor que lhe acontecera. Fez um percurso que a nós nos faria falta pela excelência e legou-o a outros, foi amigo de Lamartine que lhe escreveu um poema «Stances à un Poète Portugais Exilé» D. Maria I tinha manifestado simpatia pelo regresso do poeta e em devolver-lhe todos os seus bens alienados, mas os seus muitos adversários impediram o seu retorno. A Revolução Francesa já estava em marcha, só que o espigão do negrume inquisitorial não deixou, levantando-se hoje com força bravia, incalculável.

Não há nenhuma perturbação psíquica. Há sim um atavismo reflector de um longo legado de sordidez que se levantou e reclama a sua esfera, que não existe medicação para níveis de malvadez desta dimensão. A ciência trata os casos e corrigi-os de forma a manter a qualidade da existência, não se ocupando das sombras e seus reflexos sanguíneos na corrente colectiva, que ela se tornou de tal ordem avassaladora que entenderemos melhor este Filinto Elísio no seu descaminho e fuga do que uma qualquer análise nos queira transmitir. Um poeta, por o ser, tem um amplo plano de evasão, sustentado quanto vezes por acasos felizes de outra ordem, só que mesmo assim, a sua dor foi real e manteve-se ao longo de uma vida onde temos todos muita honra por ter sido nosso concidadão.

Afinal, qual a intenção esmagadora de denunciar um filho às chamas da Inquisição? Porquê ter sido permitido fazer Rodas de enjeitados? Por que não se poder nascer com segurança num local onde a obstetrícia é o parente pobre da saúde pública? (talvez por isso) o mesmo terror antigo que nos inibe e controla como um fardo, que há um país no mundo às portas de um total desconhecimento de seu drama íntimo. À memória esquecida de um grande português são dedicadas estas linhas e todas as interrogações. Aos filhos que matam pais, aos pais que matam filhos, aos homens que matam mulheres, às mulheres que matam maridos, ofereçamos Filinto Elísio.

 

12 Nov 2025