Bienal de Veneza | Macau participa com obras sobre Wu Li

Macau vai estar representada na Bienal de Veneza este ano com uma exposição inspirada na vida do pintor e poeta católico chinês, Wu Li (1623-1718), também conhecido como Jacone.

Com curadoria conjunta de Feng Yan e Ng Sio Ieng, a exposição organizada pelo Instituto Cultural de Macau (IC) e implementada pelo Museu de Arte de Macau reúne os artistas locais Eric Fok Hoi Seng, O Chi Wai e Veronica Lei Fong Ieng, sendo inaugurada em Veneza a 8 de Maio.

Segundo o IC, o projecto integra instalação, pintura e vídeo, e inspira-se na figura do pintor e poeta Wu Li, que viveu entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, para reinterpretar a sua “viagem criativa transcultural e espiritual”.

Wu Li residiu em Macau em 1681, durante o reinado do imperador Kangxi, onde estudou teologia e registou na coletânea Sanba Ji a convergência das culturas chinesa e ocidental. Tendo estudado latim e teologia no Colégio de São Paulo, a primeira escola de estilo Ocidental na China, Wu converteu-se ao catolicismo e foi missionário jesuíta na província chinesa de Jiangsu, referindo-se a si mesmo como “Jacone”.

A exposição recria, através da arte contemporânea, a viagem à Europa que o “poeta nunca realizou”, celebrando as “raízes culturais de Macau e a sua herança multicultural”. A mostra estará patente de 9 de Maio a 22 de Novembro de 2026 no Arsenale, Campo della Tana, em Veneza, com entrada gratuita.

Macau participou pela primeira vez na Bienal de Veneza em 2007, sendo esta a décima participação do território no maior e mais antigo palco internacional de arte.

4 Mai 2026

Jogo | Receitas de Abril foram as mais baixas dos últimos sete meses

Nem tudo foram más notícias para a principal indústria de Macau. Apesar dos resultados mensais mais baixos desde Setembro, Abril trouxe um crescimento anual de 5,5 por cento das receitas brutas dos casinos

As receitas do jogo registaram em Abril uma queda de 12 por cento, em termos mensais, alcançando o valor mais baixo dos últimos sete meses, de acordo com dados anunciados na sexta-feira. Os casinos arrecadaram 19,9 mil milhões de patacas em Abril, contra 22,6 mil milhões de patacas no mês anterior, de acordo com dados da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ).

Trata-se do valor mais baixo desde Setembro de 2025, quando as receitas dos casinos totalizaram 18,3 mil milhões de patacas.
No entanto, em termos homólogos, as receitas apresentaram um crescimento de 5,5 por cento, dado que em Abril do ano passado as receitas tinham alcançado 18,9 mil milhões de patacas. Em 2025, as receitas de 18,9 mil milhões de patacas foram as terceiras mais baixas desse ano, ficando apenas a cima do mês de Setembro, quando o valor foi de 18,3 mil milhões de patacas e do mês de Janeiro, que teve receitas de 18,2 mil milhões de patacas.

Os número revelado na sexta-feira ainda está longe da realidade pré-pandemia. Em Abril de 2019, as receitas do jogo atingiram 23,6 mil milhões de patacas, uma diferença de 18,6 por cento ou 3,7 milhões de patacas.

Carteira mais pesada

Em termos de receita bruta acumulada, os primeiros quatro meses deste ano registaram uma subida de 12,1 por cento em relação ao ano anterior, com um total de 85,8 mil milhões de patacas contra 76,5 mil milhões de patacas entre Janeiro e Abril de 2025.

Também neste aspecto os números estão distantes da realidade pré-covid-19. Em 2019, nos primeiros quatro meses do ano, as receitas do jogo atingiram 99,7 mil milhões de patacas, uma diferença de 23,2 mil milhões de patacas para os números mais recentes. Apesar disso, as receitas continuam a crescer ano após ano, com os primeiros quatro meses de 2026 a atingirem as maiores receitas desde a pandemia.

Macau fechou o ano passado com receitas totais de 247,4 mil milhões de patacas, mais 9,1 por cento do que no ano anterior (226,8 mil milhões de patacas).

4 Mai 2026

Espectáculos | Cadeiras dobráveis geram cenas de violência

O festival de Kpop no K-Spark in Macau foi um sucesso e os bilhetes esgotaram rapidamente. No entanto, os organizadores só disponibilizaram lugares sentados, o que espalhou a confusão entre os fãs

O festival de Kpop no K-Spark in Macau, que decorreu no sábado no Local de Espectáculos ao Ar Livre, ficou marcado pela confusão criada com a colocação de cadeiras dobráveis à frente do palco, uma zona que normalmente é para lugares em pé. Ansiosos por estarem mais pertos dos ídolos, vários fãs não se coibiram de colocar as cadeiras móveis o mais à frente possível, perto do palco, o que gerou momentos de tensão, inclusive cenas de pancadaria.

As imagens da confusão foram divulgadas pelos fãs nas redes sociais, com várias queixas, principalmente através da rede social Threads.

Apesar de ser um lugar de concertos ao ar livre, os organizadores apenas disponibilizaram lugares sentados, mesmo em zonas que normalmente são para lugares em pé. A esperança era que as pessoas respeitassem o lugar onde as cadeiras móveis estavam colocadas.

No entanto, pouco depois de se sentarem, os fãs perceberam que podiam mover as cadeiras mais perto do palco, porque não havia controlo. A situação gerou imediatamente mal-estar, porque quem respeitou o lugar onde tinham sido colocadas as cadeiras ficou com a visão para o palco bloqueada. E os momentos de tensão acabaram mesmo por gerar cenas de pancadaria, pelo menos num caso, que também foi divulgado online, com puxões de cabelos entre fãs, chapadas e empurrões.

Concerto esgotado

Apesar da confusão, o espectáculo foi um sucesso de vendas e os 30 mil bilhetes disponíveis esgotaram rapidamente. Os preços variavam entre as 799 patacas e 2.999 patacas. O espaço tem uma capacidade máxima para 80 mil pessoas, embora normalmente não seja totalmente utilizado, o que voltou a acontecer.

O principal cabeça-de-cartaz foi o cantor coreano G-Dragon, cuja presença em Macau fica mais uma vez marcada por polémica. Em Junho do ano passado, durante outra passagem pelo território, os concertos foram alvos de uma operação contra a contratação ilegal de trabalhadores não-residentes. Em causa, esteve o facto de três mulheres do Interior, envolvidas na equipa de vendas dos organizadores, terem contratado cerca de 68 estudantes, igualmente do Interior, que aproveitaram os vistos para trabalhar, o que constitui uma situação ilegal.

Daesung foi o segundo cantor mais popular do evento, também ele coreano e colega de G-Dragon no grupo de Kpop Big Bang, embora ambos tivessem actuado a solo. Os outros artistas, foram os grupos P1Harmony, Kiss of Life e Kiiikiii.

4 Mai 2026

Dia do Trabalhador | Sétimo ano sem manifestações

As manifestações do Dia do Trabalhador, que chegaram a reunir milhares de participantes em Macau, não se realizaram pelo sétimo ano consecutivo, de acordo com o Corpo de Polícia de Segurança Pública. Este ano, as autoridades não receberam avisos prévios de reunião ou manifestação

As manifestações que durante anos foram uma tradição na celebração do Dia do Trabalhador, a 1 de Maio, desapareceram do panorama político de Macau. Segundo informações avançadas na véspera do feriado pelas autoridades policiais à Lusa, não foram recebidos avisos “prévios de reunião ou manifestação” para 1 de Maio, data que antes de 2020 registava regularmente iniciativas públicas.

Segundo a Lei Básica de Macau, todos os residentes de Macau têm o “direito de se reunir, pacificamente e sem armas, em lugares públicos, abertos ao público ou particulares”. No entanto, é necessário entregar um aviso prévio ao Corpo de Polícia de Segurança Pública por qualquer entidade que planeie realizar uma demonstração, com qualquer recusa ou restrição a ter de ser justificada pelas autoridades policiais.

Durante a pandemia de covid-19, as forças de segurança recusaram-se a aprovar o percurso de qualquer manifestação, invocando razões de “ordem e segurança” ou de saúde pública.

Estas proibições chegaram ao Comité dos Direitos Humanos da ONU que, em 2022, avaliou “um crescente número de informações de restrições indevidas ao exercício da liberdade de manifestações pacíficas”. As autoridades levantaram as restrições antipandémicas no final de 2023, mas as manifestações não voltaram às ruas da cidade.

Ruas só com turistas

No ano passado, o grupo Poder Popular de Macau cancelou uma manifestação planeada para 1 de Maio, a exigir a redução do número de trabalhadores migrantes, devido à “pressão da polícia”, que alegou que o protesto poderia violar a lei de Segurança Nacional, reportou na altura o jornal All About Macau.

O Governo indicou então que a realização de manifestações pode ameaçar a segurança da China, mas negou que a polícia tivesse pressionado a associação a cancelar a iniciativa. “As manifestações podem trazer conflitos à sociedade, à segurança de Estado”, defendeu o então secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, numa conferência de imprensa.

Um homem que protestava contra o número de trabalhadores migrantes em Macau, viria a ser detido no 1 de Maio do ano passado, com as autoridades a invocarem uma violação da lei do Direito de Reunião e Manifestação. Este foi o primeiro protesto público no Dia do Trabalhador desde 1 de Maio de 2019, antes da pandemia da covid-19, quando duas associações organizaram acções. Em 2018, por exemplo, a Nova Associação dos Direitos de Trabalhadores da Indústria de Jogos levou cerca de três centenas de membros a percorrer as ruas de Macau, exigindo melhores condições laborais.

ATFPM | 1 de Maio assinalado com eventos desportivos

A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) organizou no Dia do Trabalhador, 1 de Maio, uma série de actividades desportivas. Segundo um comunicado da associação, a participação este ano bateu o recorde, com “mais de 1.000 funcionários públicos e seus familiares” a participarem no evento. As competições abrangeram desportos como atletismo, futebol de sete, ténis de mesa e badminton.

Além dos funcionários de mais 28 serviços públicos, participaram também docentes e funcionários da Universidade de Macau e da Universidade Politécnica de Macau, bem como trabalhadores da Companhia de Electricidade de Macau. As provas desportivas realizaram-se no Estádio Olímpico e no Pavilhão Desportivo dos Jogos da Ásia Oriental de Macau, e à noite realizou-se uma cerimónia de entrega de prémios.

4 Mai 2026

Criminalidade | Jornal Ou Mun critica fim de conferências de imprensa

O maior jornal diário em língua chinesa de Macau criticou as autoridades por “fecharem as portas ao público”, depois de o Governo ter terminado as conferências de imprensa trimestrais sobre relatórios de criminalidade. O Executivo acrescentou que o fim das conferências de imprensa tem como objectivo “aumentar a transparência”

O jornal Ou Mun publicou um artigo de opinião onde critica o fim das conferências de imprensa, organizadas pela secretaria para a Segurança, de apresentação dos dados estatísticos da criminalidade em Macau.

O relatório de criminalidade 2025 foi divulgado na passada terça-feira, apenas na página do gabinete do secretário para a Segurança, Chan Tsz King, na Internet, e sem a realização da habitual conferência de imprensa. Em comunicado, o gabinete confirmou que irá deixar de realizar conferências de imprensa trimestrais para apresentar os dados, “no intuito de aumentar a transparência das informações” e contribuir “para a paz e harmonia”.

A divulgação regular dos dados estatísticos criminais vai passar a ser efectuada por “meios electrónicos” e apenas presencialmente quando “necessário”.

Na edição de quinta-feira do jornal Ou Mun, um jornalista escreveu uma opinião, em que considerou que a “verdadeira transparência da informação não “significa simplesmente ‘colocar dados online de forma transparente’ mas “ter coragem para enfrentar as críticas e aceitar activamente a supervisão pública”.

O mesmo jornalista afirmou que o ajuste “pode fechar uma das poucas janelas de diálogo que ainda restam” entre as autoridades do território e o público. “Quando um Governo escolhe fechar os canais de comunicação com os ‘media’ e reduzir a interacção directa com os jornalistas, pode parecer que evita o incómodo de lidar com perguntas difíceis, mas ao fazê-lo, também fecha voluntariamente a porta para resolver mal-entendidos e manter a credibilidade pública”, sublinhou o jornalista.

Na mesma opinião, o jornalista aponta que, no passado, as conferências de imprensa “não eram apenas ocasiões para divulgar estatísticas criminais, mas também canais importantes através dos quais os cidadãos podiam comunicar com as autoridades através dos ‘media'”. “Durante as conferências, os responsáveis tinham de responder aos jornalistas em frente às câmaras, mesmo que as suas explicações nem sempre fossem satisfatórias, e pelo menos havia um diálogo aberto”, alertou o jornalista.

Papel com poder

Para o mesmo autor, “por mais detalhados que sejam os dados ou bem organizadas que estejam as tabelas” fornecidas ‘online’, “sem as perguntas de seguimento dos jornalistas, sem as respostas e esclarecimentos imediatos dos responsáveis, e sem um debate interactivo em tempo real” deixa de ser possível informar correctamente o público.

Fundado em 1958 com o apoio do Partido Comunista Chinês, o jornal Ou Mun possui a maior tiragem do território, representando de 70 a 80 por cento da circulação de jornais da cidade.

A publicação tem mantido desde sempre relações muito próximas com o poder político local e nacional. O histórico director da publicação, Lok Po foi membro de Macau no Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) entre 2003 e 2008, e mais tarde representante de Macau na Assembleia Popular Nacional (APN) entre 2008 e 2022. Antes da entrada nos dois principais órgãos consultivos e legislativos a nível nacional, Lok Po foi membro da CCPPC da província de Guangdong. Quando saiu do cargo na APN, foi substituído pelo director-geral do jornal Ou Mun, Wan Nang Hon. João Luz / Lusa

4 Mai 2026

Jacob Fordham, académico: “Estudo a história dos primeiros macaenses”

Jacob Fordham, académico ligado à London School of Economics, está a ultimar um livro que analisa o papel dos tradutores no comércio entre portugueses e chineses em Macau. No âmbito das Conferências da Primavera, no Centro Científico e Cultural de Macau, o investigador apresentou a palestra “Chinese-Portuguese Linguists, Corruption, and Office: a Late Ming Chinese Debate”. Ao HM, diz que os “linguistas” eram “essenciais para gerir relações com chineses”

Tem analisado arquivos chineses, ingleses e portugueses sobre o comércio no sul da China. Falamos de um período intenso de negociações, com muitos interesses em jogo?

Fiz o doutoramento em Estudos Asiáticos e do Médio Oriente na Universidade de Oxford, investigando a história dos “linguistas” ou “jurubaças” [termo atribuído a chineses cristãos nascidos em Macau] do delta do Rio das Pérolas nos séculos XVI e XVII. Eram tradutores e intérpretes, mas, ao contrário do que esperamos hoje — que os tradutores sejam neutros e discretos — estavam também activamente envolvidos nas relações entre chineses e estrangeiros como negociadores e intermediários. Estudei teoria da tradução, mas fiquei um pouco insatisfeito com a análise de textos traduzidos como forma de estudar a tradução no passado.

Porquê?

Porque a tradução não é apenas linguística; é um acto social realizado por pessoas num contexto específico, e queria escrever sobre essas pessoas. Por isso, passei da teoria da tradução para a história.

Mas voltando a esse período histórico em Macau…

Foi, de facto, um período de negociações intensas e de luta pela sobrevivência para a recém-estabelecida cidade de Macau. Não se tratava apenas de um encontro entre duas culturas separadas, mas de um constante vai-e-vem, um contacto que gerou novas formas de pensar a relação entre Estado e comércio, entre chineses e estrangeiros, e assim por diante. Tentei revelar algumas dessas formas de pensamento através da lente dos “linguistas”, que estavam no centro dessas negociações.

Na sua apresentação, no Centro Científico e Cultural de Macau, falou do caso de Paulo Neretti [falante de português que esteve envolvido no comércio entre Macau e o Japão no século XVII] e das percepções de Zhang e Chen [figuras chinesas envolvidas no comércio] sobre o seu papel como “linguistas”, especialmente em relação ao poder político e comercial e à busca de lucro. Como encontrou a figura de Paulo Neretti e qual a sua importância?

Paulo Neretti foi uma descoberta casual que acabou por ser fascinante. Encontrei-o quando procurava material sobre as primeiras viagens inglesas ao sul da China. Na Biblioteca Bodleian, em Oxford, existe o diário de um mercador inglês que participou na primeira expedição comercial inglesa a chegar a Macau e Cantão, e que lidou com este “linguista” bilingue, Paulo Neretti. A partir daí, segui o rasto arquivístico pelo mundo para descobrir quem ele era exactamente. Descobri que, na verdade, era chinês de nascimento, mas foi criado em Macau na casa de um nobre florentino chamado Orazio Neretti, que se estabeleceu na cidade e chegou a servir como enviado a Nagasaki. Esse agregado incluía outros intérpretes bilingues com ligações até à Coreia e ao Japão. Paulo Neretti teve uma vida extraordinária, sendo eventualmente assassinado em sua casa pouco depois de regressar de um encontro com o imperador Shunzhi, onde actuara como intérprete de uma embaixada holandesa. Foi ele quem me colocou no caminho de estudar os “linguistas” e abriu uma janela para um mundo raramente preservado nos arquivos.

Macau foi um porto comercial muito importante no sul da China a partir de meados do século XVI. Como descreveria a relação entre mercadores e tradutores, ou “linguistas” nesse período? Uma relação próxima, com convergência de interesses?

Eram completamente dependentes uns dos outros. Na verdade, os “linguistas” pertenciam normalmente à casa de um mercador, criados desde o nascimento a falar ambas as línguas. A ligação aos mercadores dava-lhes acesso a uma actividade potencialmente muito lucrativa; e, para os mercadores — que não falavam muito chinês —, os “linguistas” eram essenciais para gerir as relações com os chineses.

Mais especificamente sobre a comunidade macaense, participou activamente nesses jogos de poder em nome da administração portuguesa, ou também da chinesa? Pode dar exemplos?

Este foi o período inicial em que aquilo a que chamamos comunidade macaense estava a formar-se. Muitos dos “linguistas” que estudei tinham origens étnicas mistas ou biculturais, o que lhes permitia ser bilingues em português e chinês. Curiosamente, o termo “jurubaça” passou a ser usado não só no sentido de intérprete, mas também como classificativo étnico para chineses cristãos nascidos em Macau, devido à forte associação com essa profissão. Portanto, aquilo que estudo é, na verdade, uma história dos primeiros macaenses.

Como descreveria a perspectiva das autoridades chinesas sobre este tipo de comportamento, especialmente em relação a lucro, poder e Estado? Seriam conceitos muito diferentes dos europeus?

O que me chamou a atenção ao ler fontes chinesas e europeias foi que todos enfrentavam o mesmo problema: a comercialização trazia oportunidades e perigos. Por um lado, os “linguistas”, vindos de famílias mercantis, eram motivados pelo lucro, e isso podia ser aproveitado pelos oficiais para gerir relações com estrangeiros. Por outro lado, era arriscado, pois significava delegar o controlo da fronteira. Hoje vemos a tradução como algo neutro, mas eles encaravam-na como uma actividade com interesses próprios. Em vez de perguntarem “como traduzem os tradutores?”, perguntavam “por que traduzem?”. Ou seja, qual era a sua motivação? Nas fontes europeias, fala-se da “honestidade” e “coragem” dos tradutores; nas chinesas, da sua “orientação para o bem público” ou “interesse próprio”. Assim, o mesmo problema era pensado de formas diferentes em tradições intelectuais distintas.

Podemos concluir que, em termos de corrupção e jogos de poder, as autoridades chinesas estavam conscientes dessas situações e as permitiam para benefício próprio, nomeadamente em Macau?

Sem dúvida que estavam conscientes e faziam uso disso. Hoje, o termo “corrupção” tem uma conotação totalmente negativa, mas alguns oficiais chineses da época viam isto como uma oportunidade. O uso das “línguas” motivado pelo lucro permitia ao Estado expandir a sua influência além das suas capacidades directas. Quanto a Hong Kong, surgiu muito mais tarde, quando os “linguistas” já tinham perdido importância e eram essencialmente funcionários aduaneiros. Este sistema de gestão de fronteira, delegado a intermediários semi-estatais e semi-comerciais, foi bastante específico dos séculos XVI e XVII.

O que revelam estes casos sobre a presença portuguesa e britânica no sul da China e o comércio da época?

Estes debates ajudam a compreender como eram as relações entre a China e os países europeus na época moderna. Muitas vezes, essas relações são vistas de forma negativa, com a ideia de que a China era fechada, xenófoba e imutável. Mas estes casos mostram que isso não é verdade. A forma de pensar era diferente da nossa.

Que investigação pretende desenvolver no pós-doutoramento?

Estou a escrever um livro baseado nesta investigação, que está quase concluído. Espero que esse livro mostre uma história mais humana e que vá além dos estereótipos de uma China passiva e estática. Também podemos aprender com eles sobre o papel de intermediários informais em zonas de fronteira hoje. Estou também a iniciar um novo projecto sobre as relações entre Macau e Malaca, bem como com o mundo malaio em geral.

4 Mai 2026

Criminalidade | Abuso sexual de crianças aumentou 77,3% em 2025

As forças policiais registaram 39 casos de abuso sexual de crianças em 2025, mais 77,3 por cento do que no ano anterior. Os dados fazem parte do balanço da criminalidade em 2025, divulgado na terça-feira apenas na página do gabinete do secretário para a Segurança, Chan Tsz King, sem a realização da habitual conferência de imprensa.

Num comunicado, o gabinete confirmou que irá deixar de realizar conferências de imprensa trimestrais para apresentar os dados, “no intuito de aumentar a transparência das informações” e contribuir “para a paz e harmonia”. Ainda assim, a nota admite que “os respectivos trabalhos de divulgação serão realizados, sempre que necessário, presencialmente”.

O balanço revela ainda que o número de crimes de jogo ilícito em Macau mais que quadruplicou em comparação com 2024, atingindo 570. O documento não fornece qualquer explicação para o aumento dos delitos de jogo ilícito. As forças policiais deixaram também de divulgar dados sobre burla com recurso às telecomunicações e à Internet. O balanço menciona apenas uma queda de 19,5 por cento nas burlas em geral e de 42,7 por cento na criminalidade informática.

No geral, as forças policiais registaram quase 13.500 delitos criminais em 2025, menos 5,9 por cento do que no ano anterior, sobretudo graças a uma queda de 10,5 por cento nos crimes contra o património, incluindo roubo, furto e burla.

30 Abr 2026

GP Consumo | Gerados 290 milhões em duas semanas

Nas primeiras duas semanas, o Grande Prémio do Consumo gerou negócios de cerca de 290 milhões de patacas e foram utilizados cupões de desconto num valor superior a 61 milhões de patacas. Em relação às verbas atribuídas através de cartões de idosos ou portadores de deficiência, foram gastos mais de 18 milhões de patacas

A nova edição do Grande Prémio do Consumo gerou nas primeiras duas semanas negócios na ordem dos 290 milhões de patacas, indicou ontem a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT). A medida de apoio ao comércio local, cuja última edição arrancou no dia 10 de Abril, tem sido uma das medidas do Governo para fazer face ao impacto do baixo consumo de turistas e residentes. Nas primeiras duas semanas desta edição, foram gastos mais de 3,18 milhões de cupões num valor superior a 61 milhões de patacas.

O Governo revelou que nesta ronda, os residentes estão a utilizar mais os descontos, com uma taxa de utilização global na ordem dos 92 por cento, o que representa um aumento de 6,6 por cento face ao período homólogo da actividade do ano anterior.
A DSEDT explica o aumento da utilização dos cupões descontos como um reflexo do “prolongamento do período de utilização”, que “permite um gozo mais suficiente dos benefícios electrónicos”.

Recorde-se que nesta ronda, os sorteios de cupões são disponibilizados após gastos superiores a 50 patacas em compras feitas em lojas aderentes durante o fim-de-semana, e podem ser usados durante a semana, invertendo o sistema das rondas anteriores do Grande Prémio do Consumo.

Os sectores beneficiários são essencialmente os de venda a retalho e de restauração, representando, respectivamente, 62 e 29 por cento do consumo total.

Outros caminhos

Nas primeiras duas semanas desta ronda, foram efectuadas 1,7 milhões de transacções oferecendo oportunidades para ganhar descontos electrónicos. O Governo realça que “o número médio diário de transacções é quase o dobro em relação ao do Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias 2025”. Face aos dados apresentados ontem, o Governo concluiu que “a actividade deste ano recebe reacções mais entusiásticas por parte dos cidadãos, tendo registado um nível de participação significativamente mais elevado em relação ao ano passado”.

A outra modalidade disponível para beneficiar da iniciativa é pela via dos cartões Macau Pass para idosos e para deficientes, onde os beneficiários recebem 500 patacas em cartão. Neste capítulo, a DSEDT dá conta de gastos superiores a 61 milhões de patacas. Até às 10h de ontem, mais de 100 mil pessoas elegíveis já tinham os cartões Macau Pass carregados.

Ao longo das 10 semanas que irá durar a iniciativa, os residentes podem utilizar benefícios electrónicos e descontos imediatos em mais de 20 mil estabelecimentos comerciais de Macau.

30 Abr 2026

Direito | Macau e Coimbra criam centro sobre IA

A nova parceria entre a Universidade de Coimbra e a Universidade de Macau visa “promover a colaboração interdisciplinar na investigação e educação avançada” na ligação entre Direito e Inteligência Artificial. Nos últimos anos, as duas instituições têm promovido várias iniciativas conjuntas

A Universidade de Macau (UM) anunciou ontem a criação de um centro conjunto com a Universidade de Coimbra (UC) sobre Direito e Inteligência Artificial (IA).

Num comunicado, a UM indicou que o novo centro “irá promover a colaboração interdisciplinar na investigação e educação avançada” na ligação entre Direito e IA. A instituição deu como exemplo “projectos de investigação conjunta, formação de quadros, organização de conferências internacionais” e intercâmbio de professores e estudantes.

A UM sublinha que a nova iniciativa representa “uma expansão significativa” da cooperação com a universidade portuguesa no domínio dos estudos jurídicos. Em Outubro de 2024, as duas instituições assinaram um acordo para a criação de um doutoramento em co-tutela na área da Saúde “e das Neurociências em especial”, disse na altura à Lusa o vice-reitor para as Relações Externas da UM, João Nuno Calvão da Silva.

Um ano antes, a UC e a UM criaram um laboratório conjunto para estudar o envelhecimento cognitivo e responder às necessidades geradas pelo aumento da esperança de vida. O acordo para a criação do novo centro conjunto sobre Direito e IA foi assinado em 20 de Abril pelo reitor da UM, Song Yonghua, que esteve em Lisboa integrado na comitiva do líder do Governo, Sam Hou Fai.

Acordo com a UL

Na mesma ocasião, a UM assinou um acordo com a Universidade de Lisboa (ULisboa), que irá apoiar a criação da primeira faculdade de medicina publica da RAEM. Os finalistas do curso conjunto de licenciatura na futura Faculdade de Medicina da UM, com inauguração prevista para 2028, poderão fazer uma tese para completarem o mestrado integrado da ULisboa.

A UM sublinhou ontem que os médicos assim formados poderão obter o reconhecimento e exercer medicina não apenas em Macau, Hong Kong, China continental e Portugal, mas também em toda a União Europeia. Ainda em Lisboa, a UM assinou um acordo com o IPLuso – Instituto Politécnico da Lusofonia e a Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Chengdu para “fomentar a cooperação educacional e de investigação em medicina chinesa”.

A parceria irá usar os recursos das três instituições para formar profissionais de medicina tradicional chinesa, tirando partido “do papel único de Macau como ponte de ligação entre a China e Portugal”.

30 Abr 2026

Habitação social | Fracções chegam a menos de metade dos candidatos

Em seis anos e meio, o Instituto de Habitação recebeu mais de 10 mil candidaturas, das quais 73,5 por cento foram admitidas, resultando na atribuição de habitações sociais a 41,8 por cento dos candidatos. Entre os concorrentes em lista de espera, a larga maioria representam agregados de apenas uma pessoa

Entre o primeiro dia de candidaturas permanentes a habitação social, 20 de Agosto de 2020, e ontem, o Instituto de Habitação (IH) recebeu 10.079 candidaturas em que foram submetidos todos os documentos exigidos. Deste universo, 7.407 foram admitidas pelo IH, correspondendo a 73,5 por cento, enquanto 1.788 (17,7 por cento) foram indeferidas por incumprimento dos requisitos, de acordo com as estatísticas publicadas no portal do IH.

Dos mais de 10 milhares de candidaturas, apenas 407, ou cerca de 4 por cento, estão ainda em apreciação, registo ligeiramente inferior ao número de desistências (438).

No que diz respeito às candidaturas admitidas para habitação social, dos 7.470 processos, 5.342 foram concluídos, o que corresponde a 72,1 por cento das candidaturas admitidas. Entre os processos concluídos, foram atribuídos 4.218 apartamentos, representando uma proporção de 79 por cento.

Já com os processos em andamento, após a admissão de candidaturas, o IH deu conta de mais uma vaga de desistências nos últimos seis anos e meio, com mais 606 candidatos a perder o interesse em habitações sociais. As autoridades especificam que das 7.407 candidaturas admitidas, estão em lista de espera 2.065 processos, o que corresponde a 27,9 por cento.

Quem é quem

De acordo com os dados do IH, a composição dos agregados familiares cuja candidatura se encontra em lista de espera são essencialmente pessoas individuais. Dos 2.065 processos ainda pendentes, 1.146 dizem respeito a candidaturas individuais, ou seja 55,5 por cento, enquanto que um terço (33 por cento) dos processos a aguardar resolução foram submetidos por agregados familiares constituídos por duas pessoas.

As candidaturas em lista de espera que dizem respeito a famílias com 5 ou mais pessoas são as menos “representadas”, com apenas sete processos, ou seja 0,3 por cento.

30 Abr 2026

PME | Crédito malparado caiu 6,3 por cento no 2.º semestre de 2025

Apesar da redução do valor total do crédito malparado, a taxa de incumprimento tem crescido, o que foi explicado com a existência de menos crédito no mercado

Na segunda metade do ano passado, o crédito malparado das pequenas e médias empresas (PME) apresentou uma redução de 6,5 por cento, de acordo com o relatório sobre as Estatística de Crédito das PME. No entanto, os dados da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), mostram que a taxa de incumprimento está a subir.

No final de Dezembro de 2025 as dívidas de PME em atraso há mais de três meses atingiram 5,3 mil milhões de patacas, uma redução de 6,5 por cento em comparação com os dados de Junho desse ano, quando as dívidas chegavam a 5,6 mil milhões de patacas.

A grande maioria das dívidas em atraso está por pagar há mais de um ano. O relatório aponta que dos 5,3 mil milhões de patacas em crédito malparado 3,7 mil milhões de patacas estão há mais de um ano por pagar, o que representa uma proporção de 70,9 por cento. A segunda fatia mais relevante, das dívidas tem um atraso de seis meses a um ano, com um valor de 1,4 mil milhões de patacas, ou 25,7 por cento do total. As dívidas com um atraso superior a três meses, mas inferior a seis meses são de 177,9 milhões de patacas, o que significa 3,4 por cento do total.

Apesar da redução do incumprimento, a taxa de incumprimento tem crescido, atingido 7,9 por cento em Dezembro, quando em Junho não ia além dos 7,6 por cento, um aumento de 0,3 pontos percentuais. Nas conclusões do relatório, a AMCM indica que este aumento se deveu ao facto de haver menos crédito no mercado das PME.

Menos crédito às PME

No espaço de seis meses o crédito emitido pelas instituições de crédito às PME apresentou uma redução de 74,5 mil milhões de patacas para 67,3 por cento, uma diminuição de 9,7 por cento.

O sector que mais recorreu aos empréstimos foi a construção civil, com 42,6 por cento do total, seguido pela categoria “outros”, com 33 por cento. As vendas por grosso e retalho foram o terceiro sector mais significativo, ao receberem 13,8 por cento dos empréstimos, enquanto os restaurantes, hotéis e actividades semelhantes foram responsáveis por 6,8 por cento, enquanto a manufactura pediu 1,9 por cento do crédito total, e os transportes, armazéns e comunicações 1,3 por cento.

Em relação aos principais motivos que levaram as instituições de crédito a recusar empréstimos, no topo da lista surge a “fraca credibilidade”, invocada em 33,3 por cento dos pedidos recusados. Entre outros motivos mais utlizados surge o “desempenho pouco satisfatório” e ainda a “falta de transparência”.

30 Abr 2026

Literatura | Beltrão Coelho lamenta falta de visibilidade de Leal de Carvalho

Rodrigo Leal de Carvalho, juiz e escritor falecido em Janeiro aos 93 anos, “foi sempre preterido em termos oficiais” em Macau, segundo Rogério Beltrão Coelho, que publicou a maioria das obras de Leal de Carvalho com a Livros do Oriente. Num colóquio online, Beltrão Coelho denunciou a dificuldade de criar, ou manter presentes, livros de Macau em Portugal

Decorreu na terça-feira o “Congresso de Homenagem a Rodrigo Leal de Carvalho”, juiz do Supremo Tribunal de Justiça e escritor recentemente falecido, aos 93 anos. O evento, online, foi promovido no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, ligado a dois centros de investigação da Universidade Nova de Lisboa.

Na sessão, Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente e responsável por grande parte da edição dos romances de Leal de Carvalho, destacou o facto de ser quase “a primeira vez, em 15 anos de actividade ligada ao autor, que o editor é chamado a participar” e a falar sobre a obra deste autor que viveu em Macau no âmbito da sua actividade jurídica, mas sobre o qual deixou obra literária importante.

Rogério Beltrão Coelho, que editou, com a Livros do Oriente, títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”, destacou que este romance daria “um filme extraordinário”, mas essa ideia “nunca foi sugerida por ninguém, nem pelos serviços oficiais, que nunca fizeram a abordagem para esse projecto”.

Beltrão Coelho lamenta mesmo que o Instituto Cultural (IC) não tenha dado a devida atenção a Leal de Carvalho e que se tenha imiscuído, muitas vezes, nas tarefas que cabe ao editor de um escritor.

“Houve, durante uns 15 anos, uma oposição sistemática dos serviços públicos, que queriam chamar a si uma actividade que, à partida, pode ser oficial com algumas condições, como é o caso da Imprensa Oficial, mas que em Macau tem uma componente comercial e de divulgação que os serviços públicos não podem fazer. E o doutor Leal de Carvalho foi sempre preterido em termos oficiais durante os anos em que esteve em Macau. Respeitavam-no, ninguém dizia que não era bom [escritor], mas foi sempre preterido. Ainda bem que se está agora a falar nele, e a ser reavivado”, disse.

O fundador da Livros do Oriente diz ter “sofrido por não dar a Rodrigo Leal de Carvalho a posição que ele, de facto, merecia”. “Fizemos [Livros do Oriente] tudo o que estava ao nosso alcance, e deu até certo ponto, mas não deu tudo o que gostaria que tivesse dado”, acrescentou.

Beltrão Coelho referiu os tempos em que o IC, nos anos 80, “produzia livros sem revisão prévia” que, “depois de impressos, e com gralhas, iam para o lixo e faziam-se outros, porque havia dinheiro”.

“Portanto, o Instituto Cultural não estava vocacionado para ser editor, mas para regular a actividade, criar condições para as editoras produzirem, criar prémios literários. Mas chamava a si tudo isso [tarefas do editor], inclusivamente as feiras do livro fora de Macau, em que o Instituto Cultural ia sem convidar ninguém.”

Nas palavras de Rogério Beltrão Coelho, que falou na apresentação “As publicações de Rodrigo Leal de Carvalho em Macau”, a Livros do Oriente “foi, seguramente, a editora que produziu, sem exagero, 90 por cento da ficção de Macau nos anos 90 e que tem mais de 14 autores de ficção e 9 de poesia editados”.

Ainda sobre a ligação do IC com editores e livreiros, Beltrão Coelho recorda que nem sempre beneficiaram da divulgação da literatura que se fazia no território, pois “de cada vez que alguém chegava a Macau e perguntava o que se passava em termos literários, o caminho indicado era apenas um [o próprio IC]”, e que “nunca ninguém foi encaminhado para a Livros do Oriente”.

Uma “ligação visceral”

Foi em 1992 que Beltrão Coelho travou contacto com Rodrigo Leal de Carvalho, quando este foi colocado em Macau, sendo um “dos mais discretos magistrados” do território, no papel de Procurador-geral Adjunto. Foi aí que o editor teve conhecimento da escrita de “Requiem por Irina Ostrakoff”, editado em Janeiro de 1993.

Leal de Carvalho ainda pensou em usar um pseudónimo, mas foi o seu nome verdadeiro que foi dado à estampa. “Estávamos perante o que se poderia classificar de romance histórico, romance-saga ou romance psicológico, no qual eram intersectados acontecimentos históricos ocorridos nos espaços geográficos onde os protagonistas iam vivendo entre as décadas de 20 e 50 do século XX. Tudo com uma rara qualidade literária cuja publicação se impunha”, disse Beltrão Coelho.

“Requiem por Irina Ostrakoff” foi um sucesso, com três edições, “uma situação excepcional em Macau”, e foi “a única obra de ficção distinguida em 1994 com um galardão literário – o prémio IPOR [Instituto Português do Oriente] – nos últimos 25 anos de administração do território”.

Beltrão Coelho recordou a “ligação profunda e visceral a Macau” que Leal de Carvalho manteve nos sete livros seguintes editados por si. “Inteligentemente, e felizmente para nós, leitores, é sempre uma ligação apaixonada e irónica, sem deixar de exercer suficientemente a crítica a Macau, às suas gentes e etnias. Macau é a dama pela qual luta e sofre, numa adesão total quase carnal. A tudo isso se pode acrescentar uma extraordinária capacidade de recriar ambientes e passá-los vivos, quase interactivos, usando uma linguagem moderna para quem o lê, o que não acontece só com Macau”, recordou.

Beltrão Coelho lembrou ainda a personalidade de Leal de Carvalho, um autor “teimoso” com algumas escolhas e ideias, e que, no território, “cedo engajou a simpatia das elites, e não só, de Macau, passando a figura omnipresente nas actividades culturais do território”, embora fosse “formal e discreto como entendia ser exigência do seu estatuto”.

“Ninguém alguma vez imaginou que pudesse ser autor de uma obra como ‘Irina’, não pela qualidade da escrita, que se podia adivinhar pela muito elevada cultura que lhe se conhecia, mas pelo comportamento conservador, reservado e até tímido.”

Foi também destacada a edição de “As Rosas Brancas do Surrey”, em Dezembro de 2007, livro que começou a ser publicado em formato folhetim no jornal Ponto Final em 2005.

Um “percurso inédito”

Para Rogério Beltrão Coelho, “toda a obra de Leal de Carvalho fez um percurso inédito em Macau”, com títulos “a serem, quase sempre, os mais procurados no que se refere à literatura de Macau e que, durante os anos 90, antes do colapso das grandes distribuidoras em Portugal, estiveram acessíveis nas livrarias do país” e até na Feira do Livro de Lisboa.

Beltrão Coelho deixou no ar a possibilidade de Rodrigo Leal de Carvalho ser “o mais importante escritor que se refere ao Extremo Oriente, na senda de William Somerset Maugham, Joseph Conrad ou Rudyard Kipling”, sem desprimor para autores como Maria Ondina Braga ou Venceslau de Morais.

Quem o leu, de Macau, e “os macaenses liam-no muito”, encontraram nos seus livros “as histórias que eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas, embora de forma ficcionada”. “Mas sabiam quem eram os personagens – alguns deles extremamente irónicos, sobretudo nas críticas que fazia à incapacidade da administração portuguesa que ‘reinava’ em Macau”. “Era um homem notável e, sobretudo, com uma educação e delicadeza… só tinha amigos e admiradores em Macau”, frisou.

O fim da livraria

Ainda sobre a dificuldade de distribuição, ou da existência, de obras sobre Macau em Portugal, Rogério Beltrão Coelho lamentou o encerramento, no período da covid-19, da livraria que funcionava na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, e que anualmente se fazia representar na Feira do Livro de Lisboa.

“Tínhamos uma livraria na delegação de Macau e a primeira coisa que se fez foi acabar com isso. Não havendo livros em mais lado nenhum, encaminhavam-se as pessoas para aquele sítio. Hoje não há nenhum local com livros de Macau, e como é um tema que não é muito generalista, as livrarias não aceitam [as obras]. Não é fácil [a distribuição]”, salientou.

Beltrão Coelho destacou que em 1999, aquando da transferência da administração portuguesa de Macau para a China, a Livros do Oriente propôs oferecer dois exemplares de cada uma das edições às bibliotecas portuguesas, o que aconteceu. “Verificou-se, e hoje verifica-se dez vezes mais, que as bibliotecas recusavam porque não era tema que lhes interessasse, ou não tinham espaço”. Além disso, fazer reedições “não é fácil” por não haver “mercado”. O fundador da Livros do Oriente deixou a sugestão de digitalizar algumas obras e colocá-las na Biblioteca Nacional.

O congresso desta terça-feira contou ainda com a apresentação do livro “Dois Olhares sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho”, edição deste ano de Dora Nunes Gago e Anabela Freitas. Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, falou do lugar da mulher nas obras do romancista, enquanto que o tradutor David Brookshaw protagonizou a apresentação “Macau como destino, Macau como lugar de passagem. As ironias do destino na obra de Rodrigo Leal de Carvalho.” Mónica Simas, Dora Nunes Gago e Ana Paula Laborinho foram outras intervenientes no congresso.

30 Abr 2026

China / EUA | Representantes esperam que encontro entre Xi e Trump relance relações

O encontro entre os dois líderes deverá acontecer entre 14 e 15 de Maio em Pequim

Responsáveis chineses e norte-americanos indicaram ontem, em Hong Kong, esperar que visita prevista de Donald Trump à China, em Maio, relance as relações bilaterais entre os países. Durante numa conferência organizada pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos em Hong Kong (AmCham), o comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China naquele território, Cui Jianchun, afirmou que a forma como as duas maiores economias do mundo “se relacionam vai moldar o panorama global fundamental”.

“O único caminho a seguir é através do diálogo e da consulta”, disse, acrescentando que relações estáveis “servem os interesses comuns da comunidade internacional”.

Trump deverá visitar Pequim nos dias 14 e 15 de Maio para se reunir com Xi, naquela que será a primeira deslocação de um Presidente norte-americano em funções à China em quase uma década. A viagem, destinada a estabilizar as relações económicas e comerciais, estava prevista para Março, mas foi adiada devido à guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irão. Está também prevista uma visita de Xi a Washington ainda este ano.

Cui afirmou que a abordagem de Pequim assenta em “respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação mutuamente benéfica”, incluindo o respeito pelos sistemas políticos e interesses fundamentais de cada parte, bem como a gestão das divergências sem conflito. “Desde que a China e os Estados Unidos respeitem estes princípios, as relações bilaterais terão um futuro melhor”, afirmou.

O responsável confirmou que as duas partes mantêm contactos sobre a visita planeada de Trump, acrescentando que relações “estáveis, sólidas e sustentáveis” irão “reforçar a confiança da comunidade empresarial norte-americana” e aprofundar a cooperação económica.

No mesmo evento, a cônsul-geral dos Estados Unidos em Macau e Hong Kong, Julie Eadeh, destacou tanto as oportunidades como as tensões na relação bilateral. “Os desafios que enfrentamos na relação entre os Estados Unidos e a China são reais e, em alguns casos, estão a aumentar”, afirmou, reiterando o compromisso de Washington com o diálogo.

“Os Estados Unidos procuram uma relação com a China assente na equidade e na reciprocidade, que torne o nosso país mais seguro, mais forte e mais próspero”, acrescentou, sublinhando a necessidade de “condições de concorrência equitativas” e de um “acesso ao mercado justo e recíproco”.

Diálogo e incerteza

Eadeh referiu que mais de 1.400 empresas norte-americanas operam em Hong Kong, atraídas pelos “mercados de capitais e conectividade internacional” do território, descrevendo a cidade como um espaço historicamente propício ao “diálogo construtivo”, embora reconhecendo que “a cidade mudou de forma significativa” e que a política dos EUA se ajustou.

Pequim reforçou, desde 2023, o controlo de Hong Kong ao implementar duras medidas de segurança nacional e ao suprimir a oposição política local. David Butts, responsável pela AmCham em Hong Kong, afirmou que a conferência ocorre num momento de elevada incerteza.

“Não há dúvida que o clima empresarial deste ano é dos mais turbulentos”, disse, classificando 2026 como “um ano decisivo” para as relações económicas entre EUA e China, e considerando que a suspensão de um ano de sanções comerciais impostas pelos EUA está prevista terminar em Novembro.

“Estamos a antecipar desenvolvimentos significativos”, afirmou Butts, apontando para a possibilidade de vários encontros entre Trump e Xi este ano, bem como para marcos políticos importantes, incluindo a aprovação do novo plano económico quinquenal da China e a cimeira de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC na sigla inglesa), prevista para Novembro em Shenzhen.

29 Abr 2026

Hengqin | Novo Bairro de Macau oferece fracções espaçosas

A Macau Renovação Urbana anunciou ontem que vai disponibilizar apartamentos modelo de maiores dimensões no Novo Bairro de Macau em Henqgin, para visitas de potenciais compradores. A empresa afirma que moram no complexo habitacional mais de 4.000 residentes da RAEM

O Novo Bairro de Macau, em Hengqin, vai disponibilizar a potenciais compradores fracções modelo correspondentes a fracções mais espaçosas no terceiro andar do Bloco 4, indicou ontem a Macau Renovação Urbana em comunicado. A empresa de capitais públicos revelou que os apartamentos em questão têm “salas de estar espaçosas, áreas multifuncionais e soluções de arrumação flexíveis, o que aumenta significativamente a sensação de amplitude e a entrada de luz natural nos interiores”. A área total destes apartamentos, que estão à venda, é de 118 metros quadrados, área que normalmente correspondente a um imóvel ou quatro a cinco assoalhadas.

Além disso, a Macau Renovação Urbana acrescentou que, actualmente, moram no complexo habitacional mais de 4.000 residentes de Macau. O número de moradores avançado ontem não especifica quantos apartamentos foram vendidos. Porém, o número de moradores da RAEM não difere muito dos últimos dados de vendas, que apontavam para 1.610 fracções vendidas desde o início das vendas, em Novembro de 2023, menos de 40 por cento do total de fracções nos blocos de apartamentos, como noticiou o HM no início do passado mês de Fevereiro. Deste total de vendas, se em cada apartamento viverem três pessoas, isso daria um total de 4.830 moradores. Recorde-se que o Novo Bairro de Macau tem 4.070 apartamentos.

Às mil maravilhas

Apesar de existir uma fronteira entre a RAEM e o Novo Bairro, a Macau Renovação Urbana continua a publicitar as vantagens de mudar para as torres de apartamentos, a começar pelos equipamentos: centros de saúde, escolas, restaurantes, supermercados e autocarros e ligação com o posto fronteiriço de Hengqin. Outro “trunfo” para vender apartamentos no Novo Bairro de Macau diz respeito aos espaços verdes circundantes.

A Macau Renovação Urbana citou ainda um morador, residente da RAEM, que se mudou para o Novo Bairro em Setembro de 2024, depois de comprar uma fracção no primeiro dia de vendas (28 de Novembro de 2023), tornando-se um dos primeiros proprietários a concluir o processo de compra. Além da atmosfera aprazível, o residente, de apelido Hoi, é citado a elogiar a organização dos espaços e a facilidade de deslocação entre Hengqin e Macau, que demora “pouco mais de meia hora”.

29 Abr 2026

Resíduos | Novo Centro de Recuperação a funcionar em 2027

O Novo Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, que teve um custo estimado de construção e exploração de 1,87 mil milhões de patacas, vai começar a funcionar no próximo ano. A exploração inclui a participação das empresas Tongfang Environment e Wangneng Environment

O Novo Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos vai entrar em funcionamento no próximo ano. A confirmação partiu de Ip Kuong Lam, director dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), na resposta a uma interpelação da deputada Song Pek Kei.

Segundo Ip Kuong Lam a entrada em funcionamento da nova infra-estrutura vai acontecer no próximo ano, sem que haja especificação de uma data concreta, e vai permitir “elevar ainda mais o nível da reciclagem de resíduos”. O centro está localizado a Leste do Aterro para Resíduos de Materiais de Construção, junto à Avenida do Aeroporto, no COTAI.

As obras da infra-estrutura de reciclagem começaram na segunda metade de 2023, com os trabalhos a serem adjudicados ao consórcio constituído pelas empresas China Railway First Group, Tongfang Environment, Wangneng Environment e Grupo de Construção OMAS. O consórcio venceu o concurso de construção e de exploração da infra-estrutura ao apresentar uma proposta de 1,87 mil milhões de patacas pelas obras e exploração.

As obras foram contratualizadas com um custo de 1,15 mil milhões de patacas, embora a despesa pudesse aumentar, consoante a evolução dos preços dos materiais de construção e mão-de-obra. A este custo, acrescem ainda 720 milhões de patacas, como assistência para a exploração do centro.

Dividir os ganhos

Segundo o contrato de 2023, quando o consórcio começar a exploração do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos fica obrigado a entregar 30 por cento das receitas ao Governo. A exploração está prevista para um período inicial de 15 anos.

O acordo define ainda que as receitas que estão sujeitas a partilha com o Governo têm de resultar da “venda de energia renovável produzida pelo centro”, “venda de resíduos gordurosos a recicladores qualificados para efeitos de reciclagem”, “exportação do excedente dos fertilizantes orgânicos para o exterior para efeitos de reciclagem” e “venda dos créditos de carbono gerados a partir do tratamento de resíduos alimentares e de gorduras, etc., no mercado do comércio de créditos de carbono”.

Na primeira fase, a capacidade de tratamento diário do centro vai ser de 150 toneladas de resíduos alimentares e de 420 metros cúbicos de águas residuais, transportados por camiões-cisterna. Estas águas são constituídas principalmente por água residual retida nas câmaras retentoras de gorduras de cozinhas de restaurantes e águas residuais químicas de sanitários móveis de estaleiros de obras.

29 Abr 2026

IPIM | Mais de 40 empresas externas interessadas em abrir lojas na RAEM

Apesar do interesse no programa promovido pelo IPIM, o presidente da instituição acredita que apenas 18, 46 por cento, se devem estabelecer efectivamente em Macau. O apoio máximo foi fixado em 1 milhão de patacas

Mais de 40 empresas de fora mostraram interesse em começar a operar em Macau, ao abrigo do Plano para o Desenvolvimento Económico no âmbito de Apoio ao Estabelecimento da Primeira Loja em Macau. O programa é promovido pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM) e o número foi revelado pelo presidente Che Weng Keong, em resposta a uma interpelação da deputada Loi I Weng.

“Na primeira fase de candidatura ao ‘Plano para o Desenvolvimento Económico no âmbito de Apoio ao Estabelecimento da Primeira Loja em Macau’ que decorreu de 1 de Novembro do ano passado a 31 de Janeiro do corrente ano, foram recebidas mais de 40 candidaturas”, foi comunicado.

No entanto, o número de empresas que efectivamente vão operar em Macau ao abrigo deste programa deverá ser inferior, de 18 negócios. Che explicou que as previsões mais recentes apontam para que “cerca de 46 por cento das quais [empresas interessadas] venham a estabelecer as suas lojas nas zonas designadas no âmbito do plano, como, por exemplo, a Zona de Aterros do Porto Exterior, área de San Kio e Areia Preta, entre outras”.

A primeira fase do programa visou as lojas estabelecidas em Macau desde Agosto de 2025, tendo como principais focos marcas ligadas aos países de língua portuguesa, espanhola, mas incluindo também o Interior, Hong Kong e Taiwan.

Até 1 milhão de patacas

Os apoios para estas lojas podem chegar a um máximo de um milhão de patacas, dependendo das despesas efectivas, do número de trabalhadores locais e da zona onde ficam instaladas. O subsídio mais básico é de 500 mil patacas e tem por base as despesas realizadas.

No entanto, as lojas que se instalarem na Zona de Aterros do Porto Exterior, Areia Preta, Iao Hon, Barca, Barra, Fai Chi Kei, Doca do Lamau, Tamagnini Barbosa e Ilha Verde podem receber mais 300 mil patacas. Além disso, se as lojas tiverem uma área entre 100 metros quadrados e 150 metros quadrados, há um apoio adicional de 100 mil patacas. Se a área for superior a 150 metros quadrados, o apoio sobe para 200 mil patacas. Finalmente, os negócios que contratarem entre 10 e 15 trabalhadores locais recebem mais 50 mil patacas. Se o número de empregados domésticos ficar acima dos 15, o apoio financeiro sobe para 100 mil patacas.

O programa tem como objectivo “aumentar a atractividade do ambiente de negócios da cidade, atrair marcas estrangeiras a estabelecerem as suas primeiras lojas em Macau e enriquecer a oferta de consumo local”. A segunda fase do programa arranca em Maio e prolonga-se até ao final de Julho.

29 Abr 2026

Administração | Destacados funcionários de nível médio e superior

Numa sessão de divulgação do espírito das “Duas Sessões”, Wong Sio Chak destacou os funcionários públicos de nível médio e superior como uma “força fundamental” de governação. O secretário pediu aos trabalhadores que traduzam, em acções concretas, o espírito que saiu das “Duas Sessões”

O secretário para a Administração e Justiça, Wong Sio Chak, quer que os funcionários públicos tenham entre as suas prioridades o reforço da cooperação interdepartamental, espírito inovador, responsabilidade e clarificação de objectivos. A posição foi adaptada numa sessão de divulgação do espírito das “Duas Sessões”, realizada na segunda-feira, na qual participaram cerca de 450 dirigentes e chefias de serviços e entidades públicas.

As “Duas Sessões” são os principais eventos políticos do país, incluindo as sessões plenárias da Assembleia Popular Nacional (APN), o órgão máximo legislativo chinês, e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), um órgão consultivo que integra representantes de vários sectores da sociedade.

No discurso de encerramento, Wong Sio Chak referiu que “os trabalhadores dos serviços públicos de nível médio e superior desempenham um papel crucial na governação da administração pública, constituem a força fundamental para melhorar a eficácia da governação, concretizar o desenvolvimento próspero e estável de Macau, bem como apoiar o desenvolvimento de alta qualidade do país”.

Para tal, o governante incutiu os funcionários a adoptarem uma “atitude mais proactiva”, “consciência mais responsável” e uma abordagem pragmática na tradução do espírito das “Duas Sessões” e na articulação com o plano quinquenal nacional.

Noutra perspectiva

Além de Wong Sio Chak, a palestra que se realizou na Universidade de Macau contou com a participação do sub-director do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM, Zhang Yingjie e do chefe da delegação de deputados de Macau à APN, Lau Ngai Leong.

Outro interveniente, foi o deputado e membro permanente do comité nacional da CCPPC Ho Ion Sang, que referiu que Macau está numa “fase crítica de transformação, marcada pela diversificação adequada da economia, reforma institucional e transição para um desenvolvimento de alta qualidade”. Assim sendo, Ho Ion Sang afirmou que os funcionários públicos constituem uma “força fundamental do Governo” e, como tal devem dedicar-se “plenamente ao serviço da estratégia nacional”, preservar a prosperidade e estabilidade, bem como escrever, com acções concretas, um novo capítulo na prática do princípio “Um País, Dois Sistemas”.

Por sua vez, os Serviços de Administração e Função Pública organizaram ontem palestra, depois da inicial a 15 de Abril, para orientar os funcionários públicos na compreensão das “linhas orientadoras traçadas para o desenvolvimento nacional e os planos das principais políticas”.

29 Abr 2026

Crise energética | Deputados exigem medidas para travar preços dos combustíveis

A criação de fundos de apoios, subsídios permanentes ao sector dos transportes e mercadorias e a aposta em energias verdes foram algumas das ideias que Kevin Ho e Song Pek Kei sugeriram ontem ao Executivo para contornar a subida de preço dos combustíveis

A guerra no Irão e no Médio Oriente tem provocado uma escalada de preços a nível global, e também Macau enfrenta o risco de aumento dos preços da energia e dos produtos em termos gerais. A pensar nesta questão, dois deputados recorreram ontem ao período de intervenções antes da ordem do dia para pedir ao Executivo medidas concretas de apoio ao sector da logística e transportes.

Um deles foi o empresário Kevin Ho, que pediu “medidas de curto prazo para atribuição de subsídios de combustíveis, prestando apoio directo e preciso ao sector dos transportes e da logística”, além de, no seu entender, ser necessário “reforçar a fiscalização dos preços dos combustíveis”.

O deputado eleito pela via indirecta pede também a criação de um “mecanismo de sobretaxa de combustível nos transportes públicos, cobrando uma sobretaxa provisória quando o preço do petróleo ultrapassar o limite definido, com a respectiva suspensão automática quando o preço do petróleo descer”. Tudo para “aliviar a pressão sobre os custos do sector”.

“Se o lucro exceder o limite autorizado, o montante excedente deve ser ‘devolvido’ através da redução das tarifas dos serviços de transportes, o que vai ajudar as operadoras a enfrentar o impacto do preço do petróleo e salvaguardar os interesses dos passageiros”, indicou Kevin Ho.

O deputado sugeriu também “criação de um fundo para estabilizar os preços dos combustíveis no sector dos transportes e logística”, tendo em conta os preços praticados nos mercados internacionais. Assim, a ideia é que as autoridades possam recorrer “a meios institucionalizados para fazer face às flutuações drásticas do mercado energético internacional”.

Aposta no hidrogénio

Também a deputada Song Pek Kei, ligada à comunidade de Fujian, falou da crise energética que pode impactar Macau, sugerindo a elaboração de políticas em prol de energias limpas. “A generalização dos veículos movidos a energia eléctrica é cada vez mais rápida, mas representa menos de dez por cento do número total de veículos motorizados, uma percentagem relativamente baixa”, alertou. Assim, as autoridades devem “lançar políticas de apoio mais atractivas para incentivar as empresas e os residentes a substituir veículos movidos a novas fontes de energia”, bem como “acelerar o aperfeiçoamento da rede de infra-estruturas de carregamento e de troca de energia eléctrica”.

Song Pek Kei pediu também celeridade no “lançamento de planos de estudo sobre a aplicação da energia de hidrogénio, a fim de elevar a fiabilidade e a segurança do fornecimento de energia”.

Também Kevin Ho falou da importância do uso de “combustíveis fósseis para electrificação”, a fim de “reduzir a dependência externa”, devendo ser investidos “mais recursos” e criar “incentivos políticos que impulsionem o desenvolvimento das energias verdes”.

Por seu turno, Ella Lei realçou a “preocupação persistente da sociedade” face ao que chama de “subidas rápidas e descidas lentas” nos preços dos combustíveis. No leque de sugestões, a deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau falou na necessidade de reforço da “supervisão do abastecimento e formação de preços dos produtos petrolíferos”, com um mecanismo de ajuste “razoável e transparente”.

A deputada defende que o Executivo deve “continuar a estudar e propor a introdução da Gasolina Sem Chumbo 95 nos terrenos destinados aos novos postos de abastecimento de combustível”, bem como “introduzir mais fontes de energia”, nomeadamente o reforço da “promoção do desenvolvimento dos novos meios de transporte”, entre outras medidas.

29 Abr 2026

Turismo | Macau acolhe nova edição da feira PATA Travel Mart em 2027

Macau vai receber no próximo ano, entre os dias 20 e 22 de Setembro, mais uma edição da PATA Travel Mart, uma feira dedicada ao turismo que visa promover negócios e bolsas de contacto. A iniciativa nasce de uma parceria entre a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) e Associação de Turismo da Ásia Pacífico (Pacific Asia Travel Association – PATA).

Segundo um comunicado oficial, esta edição da PATA “reunirá responsáveis pelo turismo e profissionais do sector da região Ásia-Pacífico e de todo o mundo”, tendo Helena de Senna Fernandes, directora da DST, adiantado que já foi dado início “aos vários trabalhos preparatórios” para o evento.

“A realização da PATA Travel Mart voltará a evidenciar as vantagens únicas da cidade na ligação entre o Interior da China e o mundo, trazendo excelentes oportunidades para os operadores de diversas regiões”, foi acrescentado.

Esta será a terceira vez que a PATA Travel Mart se realiza no território, depois das edições de 2010 e 2017. Fundada em 1951, a PATA é uma associação de filiação sem fins lucrativos dedicada à promoção do desenvolvimento sustentável da indústria de turismo e viagens na Ásia-Pacífico. Macau é membro da PATA desde 1958.

28 Abr 2026

Restauração | Alerta para perigo de comida contrabandeada

Uma conselheira dos serviços comunitários e uma representante dos Moradores apelaram à atenção para condições de salubridade de refeições compradas. O alerta foi dado depois de um residente ter sido apanhado a tentar entrar em Macau com mais de 60 refeições de origem desconhecida

A apreensão de mais 50 quilos de comida cozinhada no Posto Fronteiriço Hengqin, na semana passada, voltou a levantar dúvidas sobre a segurança alimentar na região. Os alimentos frescos, géneros vivos ou alimentos de origem animal importados para Macau são obrigatoriamente sujeitos a inspecção sanitária e a vir acompanhados por certificados sanitários do país de origem. No caso revelado pelos Serviços de Alfândega, as autoridades encontraram 61 embalagens com refeições cozinhadas escondidas numa viatura.

A conselheira dos Serviços Comunitários da Zona Norte Lam Hoi Leng considera que a crescente popularidade das refeições baratas vendidas para fora merece a atenção das autoridades ao nível da segurança alimentar, mas também dos consumidores que devem procurar saber a origem dos alimentos. Em declarações ao jornal Ou Mun, a conselheira lembrou que estas refeições de baixo custo podem representar um risco tendo em conta a falta de controlo sobre o tempo que os alimentos foram cozinhados (elevando o risco, por exemplo, de salmonela), se foram acondicionados em locais refrigerados, se os ingredientes foram manuseados cumprindo normas higiénicas e há quanto tempo foram confeccionadas as refeições.

O alerta da conselheira prende-se com o perigo de contaminação de alimentos e intoxicação alimentar. Face a este panorama, Lam Hoi Leng sugeriu que os consumidores optem por restaurantes com boa reputação e que respeitem regras de salubridade e higiene, e que as autoridades reforcem a supervisão transfronteiriça de alimentos e as inspecções a restaurantes.

Conhecer os ingredientes

Também a directora da Associação de Confraternização dos Moradores do Bairro do Antigo Hipódromo Areia Preta e Iao Hon de Macau, Cheang I Ha, alertou para o perigo de comprar refeições de origem desconhecida e acrescentou que más condições de transporte dos alimentos podem resultar em riscos de saúde. Em declarações ao Ou Mun, a responsável indicou que os residentes devem alertar familiares e amigos que atravessem frequentemente a fronteira entre Macau e Zhuhai para não fazerem contrabando de carne e ovos.

O caso de contrabando que deu origem à celeuma aconteceu na quarta-feira da semana passada, segundo um comunicado dos Serviços de Alfândega divulgado no sábado. Um residente de 35 anos tentou entrar em Macau com mais de 50 quilos de comida confeccionada escondida no porta-bagagens de uma viatura de passageiros, sem refrigeração.

28 Abr 2026

Feriados | Turistas em Maio podem ultrapassar 2019

Macau vai voltar a encher-se de turistas nos feriados nacionais do 1º de Maio. O ex-deputado Cheung Kin Chung, que dirige uma associação de agência de viagens, estima que o volume de turistas ultrapasse o registo de 2019, quando já escasseiam quartos de hotel para os primeiros três dias de feriados. As suites mais caras custam mais de 10 mil patacas por noite

Após a azáfama da semana dourada do Ano Novo Lunar, Macau prepara-se para mais uma época de feriados nacionais, sinónimo de um elevado fluxo de turistas que escolhem o território como destino turístico. Nos primeiros três dias de feriados (que se estendem entre 1 e 5 de Maio), a maior parte dos resorts integrados já não tem quartos disponíveis. Com a oferta a ficar apertada, é expectável encontrar no mercado local quartos a mais de 10 mil patacas nas noites de maior afluência.

Fontes citadas pelo jornal Ming Pao estimaram que o acesso facilitado ao crédito no Interior da China pode levar a subidas anuais das receitas do jogo entre 7 a 8 por cento.

Face ao mesmo período do ano passado, quando nesta altura as reservas esgotavam a ocupação hoteleira nos cinco dias de feriados, ontem, a maioria dos hotéis já não tinha quartos para os dias entre 1 e 3 de Maio, à excepção de unidades na península que ainda aceitavam reservas.

A análise do Ming Pao ao mercado hoteleiro revela ainda algumas descidas de preços. Por exemplo, o Hotel St. Regis tinha ontem quartos a 5.209 dólares de Hong Kong, menos 5,1 por cento face ao mesmo período de 2025, ou menos quase 280 dólares de Hong Kong. No Sofitel Macau Ponte 16, o preço de um quarto superior pode valer 1.664 dólares de Hong Kong, menos 15,2 por cento face ao ano transacto.

Matemática aplicada

Como é habitual em vésperas de semanas douradas, as perspectivas de entradas de turistas são optimistas, com estimativas a apontar para um fluxo diário entre 160 e 170 mil visitantes.

Em declarações ao canal chinês da Rádio Macau, o ex-deputado Cheung Kin Chung, que dirige a Associação das Agências de Turismo de Macau, afirmou o número de entradas diárias irá aumentar significativamente, sendo expectável que a semana dourada de Maio deste ano atinja, ou ultrapasse, o registo de 2019, antes da pandemia da covid-19 paralisar a indústria do turismo. O responsável acrescentou que o mercado turístico local apresenta hoje em dia uma estrutura diversificada com tours que incluem passagens por Hengqin, ou paragens múltiplas por cidades da Grande Baía, pacotes que Cheung Kin Chung considera estarem a tornar-se cada vez mais populares.

Recorde-se que no ano passado mais de 830 mil turistas visitaram Macau durante a semana dourada de Maio. Em 2019, na semana dourada de Maio, Macau foi visitado por cerca de 849 mil turistas.

28 Abr 2026

Língua portuguesa | Posição oficial contrasta com “erosão silenciosa”

Apesar do discurso oficial sobre a promoção do português, os advogados em Macau queixam-se de que é cada vez mais difícil utilizar a língua de Camões.

Advogados defenderam à Lusa que a posição oficial do Governo de Macau sobre a língua portuguesa contrasta com a “erosão silenciosa” do idioma oficial na região. O Chefe do Executivo de Macau, Sam Hou Fai, realizou uma visita oficial a Portugal de 18 a 21 de Abril, marcada por encontros institucionais e declarações diplomáticas de reforço da cooperação entre Portugal e a China, e em que destacou que “a língua [portuguesa] não é questão que mereça preocupação”, quer ao nível do ensino, quer no uso pelos tribunais.

No entanto, de acordo com a advogada Sofia Linhares, a trabalhar no território, “o sorriso diplomático contrasta com a realidade administrativa”, marcada pela “erosão silenciosa do português” como língua oficial na região. Linhares recorda que a Lei Básica de Macau estabelece que “o português é igualmente uma língua oficial”, e que decretos lei consagram que “o chinês e o português têm igual dignidade”.

No entanto, a advogada alertou existir “resistência de funcionários e magistrados ao uso do português em funções oficiais” e uma diminuição da proficiência entre os quadros da administração pública.

Problema conhecido

Uma delegação parlamentar portuguesa, que visitou Macau em Dezembro de 2025, identificou num relatório a resistência de funcionários públicos e de alguns magistrados locais à utilização da língua portuguesa no exercício das suas funções, bem como a necessidade de responder ao aumento da procura por cursos de português, num contexto em que existe o risco de contratação directa de docentes por parte da China.

Para a advogada, a contradição é evidente: de um lado, Portugal e China celebram a “dinâmica cooperação” e do outro, “muitos cidadãos – e até funcionários públicos – não conseguem recorrer ao português em procedimentos administrativos rotineiros”. “Documentos são predominantemente em chinês, tribunais enfrentam atrasos por falta de quadros bilingues e serviços públicos redireccionam falantes de português para cantonês ou inglês”, alertou.

Apesar disso, Linhares reconheceu existir uma “resistência tenaz em Macau” por parte de “uma pequena comunidade de juristas, tradutores e funcionários públicos” que continua a usar o português diariamente nos órgãos administrativos, funcionando como “guardiões da linha temporal até 2049”.

De acordo com a Declaração Conjunta, assinada por Pequim e Lisboa e que levou à transição de administração de Macau em 1999, a cidade deveria manter os direitos, liberdades e garantias durante um período de 50 anos. Mas, sem reforço sistémico de Lisboa e Pequim, “a extinção prática do português administrativo ocorrerá muito antes” dessa meta temporal.

Processo em curso

O advogado Sérgio Almeida Correia partilha a mesma preocupação, considerando que “a situação da língua portuguesa nos tribunais e na administração pública tem sofrido uma involução nos últimos anos”. “Estamos pior do que há cinco ou dez anos,” alertou à Lusa.

De acordo com Correia, embora haja mais pessoas a aprender o idioma, “são cada vez menos os que falam português nos tribunais”. O jurista disse que “mais grave são os despachos, promoções, sentenças e acórdãos em chinês na primeira instância, embora haja alguns juízes sensíveis ao problema”.

A situação nos serviços do Ministério Público “é dramática”, diz Correia, descrevendo que “ultimamente, não há um despacho, uma notificação que seja, que chegue em língua portuguesa”. “Ao menos podiam recorrer às ferramentas de tradução que usam a inteligência artificial, que actualmente estão cada vez mais perfeitas, dizendo-o no despacho ou notificação. Já seria uma ajuda”, notou.

O advogado critica a falta de tradutores qualificados e considera incompreensível que “uma região com orçamentos superavitários, que factura só no jogo mais de 20 mil milhões de patacas todos os meses”, não consiga contratar “gente qualificada e bem paga” para fazer traduções nos tribunais ou na Polícia Judiciária.

Nos tribunais, acrescenta, “os tradutores estão sobrecarregados e a tradução durante diligências é muitas vezes incompleta, deixando advogados e arguidos em desvantagem”.

“O Código de Procedimento Administrativo e a Lei Básica garantem que os residentes podem apresentar requerimentos e receber resposta numa das línguas oficiais. Nos tribunais isto é muitas vezes ignorado” descreveu. Para o profissional de advocacia, isto contraria a Declaração Conjunta e a Lei Básica, e é “mau para Macau e é mau para a China”. “Dá uma péssima imagem da justiça que aqui se faz”, concluiu.

28 Abr 2026

Apoios públicos | Fundo de apoio à ciência distribuiu 578 milhões

O Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia atribuiu no primeiro trimestre deste ano 34,6 milhões de patacas ao Centro Internacional de Tecnologia e Indústria de Macau. A Universidade de Macau e a Universidade Cidade de Macau foram as instituições mais apoiadas

No primeiro trimestre de 2026, o Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia (FDCT) atribuiu 577,7 milhões de patacas em apoios. O maior subsídio individual atingiu 34,6 milhões de patacas e destinou-se à associação Instituto de Tecnologia e Indústria de Macau (MIIT, na sigla em inglês), para o Centro Internacional de Tecnologia e Indústria de Macau.

Os dados foram revelados no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos (DSSGAP), e deixam antever mais subsídios para este projecto, uma vez que os 34,6 milhões de patacas têm a indicação de serem a primeira prestação.

Em Fevereiro deste ano, no tradicional discurso de Ano Novo Lunar, o ex-secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip, revelou que o centro de investigação do MIIT ia iniciar as operações no segundo trimestre deste ano. O centro tem uma área de cerca de 2 mil metros quadrados e está instalado na NAPE, no anterior Centro de Incubação de Negócios para os Jovens de Macau.

Nessa ocasião, o então responsável pela pasta da economia e finanças revelou também que já tinha sido constituída uma equipa especializada em investimento e operações de centros tecnológicos, que fez várias viagens ao Interior para perceber como funcionam centros semelhantes e preparar o início da actividade.

UM recebeu 249 milhões

Em termos dos principais apoios, a entidade mais subsidiada no primeiro trimestre do ano foi a Universidade de Macau, com 225 projectos financiados, num total de 249,1 milhões de patacas.

Os maiores apoios recebidos pela principal universidade pública da região atingiram 15 milhões de patacas, um montante que se repetiu três vezes e que visou subsidiar os Laboratórios do Estado em Macau, que se dedicam à investigação para o desenvolvimento de uma cidade inteligente, integração de circuitos analógicos e digitais e ainda no campo da medicina tradicional chinesa.

Por sua vez, a Universidade Cidade de Macau recebeu 230,5 milhões de patacas em apoios, além de dois outros apoios de 15 milhões de patacas, devido ao facto de explorar dois laboratórios do Estado. Ainda em termos do apoio à investigação, a Universidade Politécnica de Macau recebeu 14,6 milhões de patacas em apoios, a Universidade Cidade de Macau um total de 11,5 milhões de patacas e a Universidade de São José 2,6 milhões de patacas.

28 Abr 2026

Turismo | Governo e operadoras criam percursos de autocarro

Entrou oficialmente em funcionamento o plano “Autocarro de Turismo e Lazer – Explorar o Encanto dos Bairros”, criado pelo Governo e as operadoras de jogo para levar turistas a bairros como a Areia Preta, Patane ou San Kio. Há três percursos temáticos: “Máquina do tempo para a gastronomia”, “Passeio divertido de fim-de-semana” e “Passeio Relaxante de Feriados”

Numa tentativa de dinamizar o turismo em zonas menos visitadas, o Governo lançou um novo programa de percursos turísticos de autocarro em parceria com as seis operadoras de jogo. O plano “Autocarro de Turismo e Lazer – Explorar o Encanto dos Bairros” arrancou oficialmente no sábado com três percursos temáticos: “Máquina do tempo para gastronomia”, “Passeio Relaxante de Feriados” e “Passeio divertido de fim-de-semana”, que percorrem a Zona Norte, a zona de San Kio, o Mercado do Patane e o Mercado Nocturno do Pagode do Bazar, a Barra e o espaço Anim’arte Nam Van, junto ao Lago Nam Van.

O plano, desenvolvido por entidades públicas como a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT), Direcção dos Serviços de Turismo e Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos visa “promover o desenvolvimento económico comunitário” e “dinamizar o fluxo de clientes para as pequenas e médias empresas (PME)”. A ideia é ainda proporcionar aos turistas “experiências de gastronomia comunitária e de pontos turísticos de lazer”, destaca-se num comunicado do Governo.

Os pontos de largada de passageiros estão distribuídos por nove locais no norte da Península, San Kio, Patane e ZAPE. “Tendo em conta as condições rodoviárias das diferentes comunidades”, os autocarros deste plano que passa pela Rotunda de Carlos da Maia e Largo do Pagode do Bazar será um miniautocarro. Durante o período experimental, cada linha terá uma partida por hora.

Mais concretamente, o “Passeio relaxante de feriados” funciona entre a próxima quinta-feira e o dia 5 de Maio, abrangendo os feriados do Dia do Trabalhador, “em articulação com as actividades comunitárias durante os feriados”, circulando entre a ZAPE e Rua dos Ervanários. Por sua vez, o percurso “Máquina do tempo para gastronomia” estará disponível em todos os fins-de-semana até ao dia 26 de Julho, “ligando as comidas características de diferentes comunidades, atraindo os visitantes a experimentar a cultura gastronómica local”. Este autocarro passa pelo norte da península, San Kio, Mercado do Patane e Mercado Nocturno do Pagode do Bazar.

O terceiro percurso criado, o “Passeio divertido de fim-de-semana” também estará disponível em todos os fins-de-semana até 26 de Julho, “tendo como tema a exploração de pontos de lazer comunitários e experiências divertidas”, é explicado na mesma nota. O percurso passa pela Barra e pelo Anim’arte Nam Van.

No que diz respeito à gestão do trânsito e do fluxo de pessoas, o Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) diz ter mobilizado “agentes policiais para manter a ordem normal do trânsito nas diversas zonas da cidade”. Além disso, as autoridades avaliaram o “horário de funcionamento, troços de circulação, pontos de paragem para largada de passageiros e da frequência das carreiras do plano experimental”. Desta forma, e após feita esta avaliação, “prevê-se que o fluxo geral do trânsito seja semelhante à situação actual na cidade”.

Empresas apoiam

A Sands China foi uma das operadoras que reagiu a este plano, referindo que “está a aproveitar os ricos recursos culturais e turísticos de Macau para apoiar a iniciativa, em sintonia com os esforços do Governo para promover o crescimento económico comunitário e ajudar as PME nas áreas comunitárias locais a atrair clientes”.

Wilfred Wong, vice-presidente executivo da Sands China, disse mesmo que a empresa está “muito empenhada em apoiar as directrizes do Governo da RAEM relativas à diversificação económica moderada, através de um vasto leque de iniciativas destinadas a revitalizar a economia local”.

Entretanto, a DSEDT criou um website para este programa, com “conteúdos como horários, pontos de paragens, mapas comunitários e pontos turísticos” que podem ser visitados. Não falta uma lista com 300 lojas tradicionais de Macau pelas quais os visitantes podem passar.

Os autocarros operados pela Sociedade de Jogos de Macau (SJM) partem do Grand Lisboa Palace, no Cotai, seguindo um percurso que passa pelo hotel Grand Lisboa, Jai Alai Oceanus, posto fronteiriço, sendo que “as paragens na Rua dos Ervanários e Templo de Hong Kung ficam apenas a cinco minutos a pé” do antigo Centro Comunitário Kam Pek, que a operadora, num comunicado, descreve como um “marco culinário e cultural emblemático”. Isto no contexto do Plano de Revitalização do Distrito San Ma Lo”, levado a cabo pela SJM.

O edifício do antigo Kam Pek foi “cuidadosamente revitalizado para preservar a memória colectiva do distrito de San Ma Lo”, “oferecendo uma diversificada selecção de gastronomia oriental e ocidental”. O actual Mercado Kam Pek “constitui também uma porta de entrada significativa para a história e o património cultural no coração de Macau”, descreve a SJM.

Na visão da empresa, este novo plano de percursos de autocarro, “ao direccionar os visitantes para bairros locais vibrantes”, permite “criar oportunidades para vivenciar o quotidiano dos residentes”, além de “promover um desenvolvimento sinérgico entre os bairros circundantes”. Desta forma, dá-se apoio às PME para que “expandam o alcance de clientes”.

Descreve a SJM que, “com base na rede existente de autocarros de transporte dos operadores de resorts integrados, o programa introduz paragens adicionais dentro das comunidades locais, orientando os visitantes para experiências gastronómicas autênticas, lojas especializadas e uma vasta oferta de cultura e património local”. Estão abrangidos “mais de 1.000 estabelecimentos”.

“Olhar as artérias”

Do lado da Galaxy, a empresa considera que Macau “olha [com este plano] para as suas artérias mais conhecidas”, ajudando desta forma “a explorar de forma mais profunda a cidade, a expandir as rotas de autocarro e a introduzir novas paragens, incentivando a imersão nas diversas culturas comunitárias de Macau”.

Esta operadora diz ter expandido a sua rede de autocarros “em duas fases” a fim de promover “o desvio do fluxo de visitantes dos circuitos habituais para bairros do quotidiano, onde a vida comunitária, a cultura local e os pequenos negócios definem o ritmo da cidade”, tendo sido adicionadas também novas paragens.

“Este programa reflecte o compromisso a longo prazo da Galaxy no apoio às políticas do Governo da RAEM, reforçando a atractividade de Macau como Centro Mundial de Turismo e Lazer”, numa interligação ao nível do “Turismo +”, uma das políticas governamentais em curso.

No percurso operado pela MGM, a partida faz-se no MGM Cotai, sendo que a empresa “pretende facilitar a mobilidade dos visitantes na cidade, ao mesmo tempo que os incentiva a descobrir os bairros históricos de Macau e a experienciar de perto a cultura local única da cidade”.

Neste percurso incluem-se “mais de 30 comerciantes” como o “Artsy Cake Studio”, “Baba’s Kitchen” ou “Barra Cafe”, numa rede de estabelecimentos que a MGM pretende expandir e enriquecer com ofertas para os turistas.

Com o pé direito

No sábado, as autoridades realizaram acções de fiscalização para garantir que tudo corria bem no primeiro dia do funcionamento destes autocarros. As operadoras de jogo colocaram painéis informativos nas paragens, e a Direcção dos Serviços de Turismo destacou funcionários para informar os visitantes.

O Governo diz ter “discutido com representantes das empresas de lazer assuntos sobre a frequência das partidas de autocarros shuttle, os mecanismos de organização e planos de emergência”, “exigindo claramente a colaboração das empresas de lazer” na promoção deste programa. Verificou-se que não foi feita publicidade ao jogo nestes percursos.

No primeiro dia, “foram analisadas as condições das vias comunitárias e avaliada a capacidade de tráfego em diversos troços, tendo o processo decorrido com sucesso, sem impacto significativo na pressão geral do tráfego rodoviário dos bairros”.

O Governo promete agora manter “uma estreita comunicação com as empresas de lazer, promovendo de forma ordenada a implementação” deste programa que funciona ainda como “projecto-piloto”. As autoridades pretendem também “recolher as opiniões de todos os sectores da sociedade, avaliando de modo abrangente a eficácia com base na operação prática” do plano.

28 Abr 2026