China / ÁsiaXangai | China ainda carece de cultura futebolística, diz Leonel Pontes Hoje Macau - 8 Jun 2026 O director técnico do clube chinês Shanghai Shenhua, Leonel Pontes, considera que a China tem condições para desenvolver um futebol competitivo a nível internacional, mas aponta a falta de cultura futebolística como um dos principais obstáculos. “A China tem um potencial gigante”, afirmou à agência Lusa o responsável português, que desde 2023 coordena a estrutura técnica de um dos clubes mais históricos do país. Pontes salientou que a China investiu fortemente em infraestruturas e dispõe de jovens atletas com qualidade: “Os jovens chineses têm muito talento, muita qualidade técnica, muita capacidade e são muito disciplinados”, afirmou. Contudo, sublinhou que o desenvolvimento de jogadores exige tempo e experiência competitiva. “O talento tem de ser trabalhado ao longo dos anos. Isso requer tempo, requer cometer erros e voltar a corrigi-los”, explicou. Segundo Pontes, a pandemia marcou uma interrupção no crescimento do futebol no país asiático, após um período em que os clubes investiram fortemente na contratação de treinadores e jogadores estrangeiros. “A China deu um salto qualitativo antes da pandemia, porque investiu nos clubes para tornar a liga mais competitiva”, disse. O futebol na China está a reerguer-se após três anos da política de ‘zero casos’ de covid-19, que ditou o encerramento das fronteiras e paralisou a atividade económica. Durante aquele período, a competição foi disputada em estádios vazios e vários jogos foram adiados durante semanas ou meses. Devido aos bloqueios rigorosos, os jogadores permaneceram presos em hotéis e várias estrelas estrangeiras não conseguiram voltar do exterior e acabaram por ser dispensadas. Dezenas de clubes entraram em falência, expondo a insustentabilidade dos gastos que nos anos anteriores à pandemia abalaram o mercado de transferências: entre 2016 e 2019, estrelas como Alex Teixeira, Hulk, Carlos Tévez ou Ricardo Goulart rumaram à China, em contratações avaliadas em dezenas de milhões de euros e beneficiando de salários sem precedentes. A exuberância dos gastos resultou também num maior escrutínio por parte das autoridades, que impuseram um tecto salarial de dois milhões de euros e passaram a taxar a 100 por cento as contratações de futebolistas estrangeiros acima de 5,5 milhões de euros. Apesar disso, Leonel Pontes considera que o país ainda não possui uma tradição futebolística comparável à das principais potências. “O futebol na China não tem muitos anos. Os clubes ainda não têm cultura do que é o futebol de alto nível”, afirmou. Limites ao crescimento Pontes identificou também factores sociais que dificultam o recrutamento de jovens praticantes. “Os pais não querem que os seus filhos joguem futebol. Preferem que estudem”, observou. Para o treinador português, essa realidade reduz a base de recrutamento e limita o crescimento competitivo. Como exemplo, apontou Xangai, uma cidade com mais de 25 milhões de habitantes, mas que conta actualmente com apenas quatro clubes nas três principais divisões profissionais. “Para uma cidade com mais de 25 milhões de habitantes, provavelmente poderíamos ter muito mais clubes nas ligas profissionais”, afirmou. Apesar das dificuldades, Pontes acredita que o país reúne condições para evoluir. “A China tem capacidade de crescimento porque tem condições, tem atletas e tem meios. Acredito que os responsáveis estão interessados em desenvolver o futebol e aumentar a sua representatividade internacional”, concluiu.