Via do MeioO Pássaro Jingwei Que Pretende Encher o Mar Paulo Maia e Carmo - 15 Out 2026 Sima Shao (299-325), que foi durante os dois últimos anos da sua curta vida o segundo imperador da dinastia Jin do Leste (317-420), com o título de Ming de Jin, deixaria a memória de um príncipe especialmente educado que estudou as artes do pincel, a caligrafia e a pintura com os mais célebres cultores do seu tempo, como o preclaro Wang Xizhi (303-361). E entre os registos dessa augusta recordação avulta o facto de o seu nome constar entre os vinte e sete nomes de pintores referidos na pioneira obra de análise crítica da pintura Guhua pinglu, «Registo e classificação de antigos pintores» de Xie He que viveu no século VI. Será difícil encontrar hoje exemplares das suas pinturas, mas uma tradição sustenta que o jovem imperador se notabilizou na pintura de aves (niao), em particular de aves de rapina contidas na expressão ying que inclui as águias e os falcões. Objectos datados da dinastia Shang, há três mil anos, mostram bronzes rituais e objectos esculpidos em jade com a forma de corujas ou mochos revelando a persistente associação do poder e prestígio da corte a figuras de pássaros que voam livres no céu. Em textos antigos são referidos ainda outros pássaros que emergem da imaginação, como a mais conhecida Fenghuang, traduzida muitas vezes como a fénix chinesa, uma figura que se observa em inúmeros suportes, especialmente têxteis e personificando a majestade da imperatriz. No texto Zhuangzi do século IV a. C. é referido o peng, uma ave simbólica da ilimitada capacidade da mente para imaginar a possibilidade. E como é descrita, a ave peng apareceu de uma transformação que relata uma metamorfose do peso bruto à diáfana leveza, com origem numa enorme criatura marinha designada kun. Da associação entre a largura do mar e o etéreo do azul celeste é referida na mitologia popular uma outra ave associada a um mito fundador envolvendo Nuwa, que segundo alguns relatos seria a criadora da Humanidade. De acordo com uma lenda o pequeno pássaro Jingwei é o renascimento de Nuwa, a filha mais nova do imperador Yan, após se ter afogado no mar do Oriente. Jiang Yinghao, um pintor e gravador activo no final do século XVI, retratou numa xilografia Jingwei, na edição de 1597 do Shanhai jing, o «Clássico das montanhas e dos Mares» tal como descrita no texto como semelhante a um corvo, cabeça matizada em padrões e garras ou patas vermelhas. No bico branco um raminho que, com pequenas pedrinhas, a ave vai levando num infatigável vaivém, desde as montanhas do Ocidente para o mar Oriental com intenção de o encher. Porque como se afogou no mar Jingwei, o «espírito protector», faz da sua dor um bem e deseja que mais ninguém possa sucumbir nas águas ao seu peso, afinal a própria matéria que nos permite habitar o tempo. No Shanhai jing diz-se que o pássaro faz um som semelhante ao seu nome: «jingwei, jingwei».