Perspectivas VozesO Ocidente desfeito (IV) Jorge Rodrigues Simão - 4 Jun 2026 “The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge.” Stephen Hawking À medida que os Estados Unidos se debatem nas suas contradições, o mundo observa se conseguirão inverter a trajectória ou se arrastarão os aliados para o mesmo abismo. A velha dialéctica das tempestades que regressam à calma ainda seduz alguns espíritos, mas o realismo impõe-se pois o optimismo tornou-se um luxo difícil de sustentar. O que se pode e deve fazer é assumir as nossas responsabilidades enquanto europeus ocidentais. A súbita moda de demonizar a América, sobretudo entre aqueles que até ontem a idolatravam, é apenas uma fuga às responsabilidades. E esse é um luxo que a Europa não pode pagar. O inimigo de que precisamos de nos defender somos, antes de mais, nós próprios. Fomos nós que nos deixámos aprisionar numa ideologia europeísta transformada em metaverso sentimental que prometia paz, prosperidade e progresso, mas produz belicismo, desconforto social e uma erosão cultural que corrói o que resta das democracias nacionais. A máquina europeísta, construída para fabricar consenso, tornouse uma fábrica de irrealidade que nos afasta das bases democráticas das nossas liberdades e nos empurra para uma deriva autodestrutiva. As estruturas comunitárias, cada vez mais distantes da legitimidade democrática, tentam impor a primazia de poderes delegados e tecnocráticos sobre os poderes eleitos. Esvaziam as democracias nacionais da sua substância e, ironicamente, alimentam os nacionalismos que pretendiam superar. Sem fronteiras claras, a União Europeia transformase numa salada institucional de países que, muitas vezes, têm mais afinidades com parceiros extra europeus do que entre si. Em tempos de paz, esta deriva ainda se tolera. Em tempos de guerra, é letal. Quando tudo é reduzido a preto e branco, a verdade desaparece. A censura e a autocensura atingiram níveis paroxísticos. O resultado é um continente que se gaba de ser o mais pacífico do mundo, esquecendo que essa paz foi um subproduto da derrota nas guerras mundiais e da protecção de uma potência que não tinha interesse em punirnos. A Europa Ocidental caiu, cambaleante, dentro do guardachuva estratégico americano, que nos reergueu para evitar que Moscovo nos absorvesse. Desde então, expulsámos a guerra do nosso horizonte mental, como se isso dependesse apenas da nossa vontade. Muitas Constituições cristalizaram essa ilusão. Para tudo o resto, confiávamos no protector transatlântico. Mas há dois problemas pois guerras não desaparecem por decreto; e a segurança nacional não pode ser terceirizada para um país que age exclusivamente segundo os seus interesses. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, ficámos estupefactos. Transformámos os ucranianos em heróis da nossa liberdade, enviámos armas às escondidas para não nos assustarmos a nós próprios nem irritarmos demasiado Moscovo, e rezámos para que a guerra ficasse longe das nossas fronteiras. Não movemos um dedo para promover negociações. Quando tentámos, no início de 2022, fomos rapidamente informados pelos nossos protectores de que não era o momento. Agora que são eles a tentar, criticamolos por não procurarem uma “paz justa”, como se pudesse existir justiça sem paz. Para agravar, embarcámos num rearmamento caótico, sem estratégia comum, em nome de um exército europeu sem Estado europeu. Cada país faz o que quer, como quer e quando quer. E, apesar disso, continuamos convencidos de que permaneceremos sob tutela americana que os americanos deixaram de garantir. É a síndrome do guardachuva fantasma pois continuamos a sentilo sobre a cabeça mesmo depois de ter desaparecido. Os europeístas mais fervorosos insistem que a defesa europeia criará finalmente a Europa política. Tentámos construir a casa pelo telhado com o carvão e o aço, depois com o mercado único e finalmente com a moeda única. Quando se professa o princípio da irrealidade, nada é obstáculo. Mesmo que o resultado seja a guerra desde que a Constituição continue intacta. O europeísmo tornouse, na prática, antieuropeu. E perigosamente aventureiro em tempos de conflito. O problema é que os seus defensores são sinceros pois acreditam genuinamente no que dizem. Apenas não têm qualquer noção da realidade. E fazem dessa cegueira uma virtude. O barómetro está preso no anticiclone permanente, enquanto a tempestade se aproxima. A devolução voluntária das últimas parcelas de soberania que o império americano nos tinha deixado por falta de vocação imperial completou o trabalho. A destruição deliberada das culturas estratégicas europeias, especialmente na Alemanha, fez o resto. Atordoados pelo ataque russo à Ucrânia, vagueamos como sonâmbulos num continente que perdeu a capacidade de interpretar o mundo e de se situar no tempo. A surpresa foi tal que nem percebemos que perdemos primeiro a guerra dos outros, amanhã talvez a nossa. Nada garante que russos e ucranianos interrompam tão cedo o massacre. E mesmo que o façam, o mais provável é que se trate de uma trégua instável, não de uma paz verdadeira. O que é certo é que os efeitos estratégicos desencadeados por esta ofensiva lenta e devastadora continuarão a propagarse durante anos, com intensidade crescente. A guerra não é mundial pela participação directa, mas é pelas consequências. O conflito abriu fissuras profundas na correlação de forças globais e arrastou para o tabuleiro a chamada “maioria mundial”, que observa o confronto entre um Norte inquieto e um Sul onde escasseiam Estados sólidos precisamente o instrumento que a Europa inventou para transformar guerras em paz. O impacto mais dramático para nós é a dissolução do Ocidente. Não apenas como bloco geopolítico, isso foi, mas como conceito cultural. O “Ocidente” que conhecíamos era herdeiro da Europa anterior a 1914, antes de o ramo americano da família se tornar dominante. Era a Europa civilizacional, matriz do homo occidentalis, livre para procurar a verdade, mas não para impôla. Uma Europa onde as elites falavam a mesma língua intelectual, onde a ciência, filosofia e arte circulavam sem fronteiras, onde um inglês continuava o trabalho de um francês, um alemão desenvolvia o de um inglês, um dinamarquês avançava mais um passo e um americano, ocasionalmente, inventava uma nova sequência. Talvez um dia consigamos recompor alguns fragmentos do Ocidente estratégico. Mas a civilização que lhe deu origem essa, temo, não voltará.