Grande Plano MancheteUNESCO | Classificados sítios da indústria de porcelana de Jingdezhen Andreia Sofia Silva - 28 Jul 2026 A UNESCO inscreveu os Sítios da Indústria de Porcelana Artesanal de Jingdezhen na lista do património mundial. O reconhecimento ocorreu na 48ª sessão do Comité do Património Mundial que se realizou em Busan, Coreia do Sul. Os locais distinguidos pela UNESCO são testemunhos da história do fabrico da porcelana chinesa entre os séculos X e XIX “Há mais de 2.000 anos que as fornalhas ardem em Jingdezhen, na China, transformando argila humilde em requintadas obras de arte.” É desta forma que a agência estatal chinesa Xinhua destaca o facto de os Sítios da Indústria de Porcelana Artesanal de Jingdezhen, no nordeste da província de Jiangxi, terem sido classificados como património mundial da UNESCO. A inscrição na lista do património mundial inclui este conjunto de sítios que, segundo a UNESCO, “retrata a evolução da produção de porcelana artesanal entre os séculos X e XIX, que teve profundas influências industriais, artísticas e comerciais na China e a nível global”. A cerimónia de inscrição de novo património imaterial e natural decorreu no último sábado na Coreia do Sul, na 48ª Comissão do Património Mundial. Os critérios utilizados pela UNESCO para a inscrição destes Sítios é o facto de estes representarem “uma importante interacção de valores humanos ao longo de um período de tempo” ou ainda “no âmbito de uma área cultural do mundo”; além de estarem relacionados com a “evolução da arquitectura ou tecnologia, artes monumentais, planeamento urbano ou da concepção paisagística”. Outro critério para a classificação prende-se com o facto de serem “um testemunho único ou, pelo menos, excepcional de uma tradição cultural ou de uma civilização, quer esta ainda exista, quer já tenha desaparecido”; além de serem um “um exemplo notável de um tipo de edifício, conjunto arquitectónico ou tecnológico ou paisagem que ilustra uma ou mais fases significativas da história da humanidade”. Por fim, a classificação dos Sítios de Jingdezhen ocorreu por estarem “directamente associados, de forma tangível, a eventos ou tradições vivas, a ideias ou a crenças, bem como a obras artísticas e literárias de notável importância universal”. No complexo industrial ancestral persistem “cinco partes que reflectem os processos de produção da porcelana, incluindo a extracção e o transporte de matérias-primas, as inovações no design dos fornos e a organização espacial e social da produção em imensa escala”. Segundo descreve a UNESCO, “a área da cidade contava com o Forno Imperial, a par de fornos civis, guildas e associações de comerciantes”. Entre os séculos X e XIX, Jingdezhen “foi um centro de inovação tecnológica na produção de porcelana, incluindo a ‘fórmula binária’ de mistura de caulim e pedra de porcelana”. Descreve-se ainda que, nesta cidade, “era produzida porcelana da mais elevada qualidade”, sendo que a “porcelana azul e branca, bem como os seus desenhos, tornaram-se uma mercadoria mundialmente apreciada e um símbolo da cultura e da arte chinesas”. Ligação a Portugal Ainda segundo a Xinhua, Jingdezhen “não é uma cidade qualquer”, estando “situada num recanto da província de Jiangxi, no leste da China, a mundialmente famosa ‘capital da porcelana'” e que “tem sido, desde há muito, o coração da cultura cerâmica chinesa”. A cidade possui uma “história rica em tradições”, personificando “a continuidade duradoura da própria civilização chinesa”, ou seja, “uma tradição viva preservada, remodelada e renovada ao longo das gerações”. O artigo refere o caso particular de Sun, que ainda possui a oficina que herdou do seu bisavô e que se mantém no activo há 120 anos. Este espaço situa-se em Taoyangli, “um bairro histórico ribeirinho onde tradições seculares se misturam com correntes de criatividade contemporânea, tudo à vista de um curso de água que se liga ao rio Yangtze”, pode ler-se. Esta oficina “conta a história através dos objectos”, com “peças de porcelana pintadas à mão com formas tradicionais, porcelana de uso diário produzida em série com decorações em decalque e até criações em estilo de banda desenhada feitas pelos seus alunos”. Os locais agora sob protecção patrimonial são compostos um museu de cerâmica e fornos que datam das dinastias Ming e Qing, entre os anos de 1368 e 1911. Em Outubro de 2023 o Presidente chinês, Xi Jinping visitou o local e, no contexto dessa visita, Weng Yanjun, director do Instituto do Forno Imperial de Jingdezhen, referiu que a porcelana ali produzida é “um microcosmo da cultura chinesa”. Segundo a Xinhua, o responsável, arqueólogo, descreveu também que a cerâmica tem sido “tanto um símbolo cultural da China como uma ponte que liga a China ao mundo”, tendo sido exportada para a Ásia Central e Ocidental, bem como Europa, desde a dinastia Song (anos de 960 a 1279). Portugal também fez parte da rota de exportação desta cerâmica. Weng Yuanjun lembrou que a “porcelana azul e branca, ou cerâmica Qinghua, em particular, ostenta as marcas indeléveis do intercâmbio intercultural”. Depois, no período da dinastia Yuan, já nos anos de 1271 até 1368, “o pigmento de cobalto proveniente da Ásia Ocidental chegou a Jingdezhen através da antiga Rota da Seda e foi utilizado na produção de porcelana azul e branca”. “O resultado foi o azul profundo característico que define as peças da dinastia Yuan. Estas peças, outrora um bem muito cobiçado, representavam o auge da arte cerâmica”, frisou o arqueólogo, especialista em cerâmica. Ásia em destaque As novas inscrições na lista do património mundial da UNESCO incluem locais na Ásia, como as antigas capitais do arquipélago japonês, Asuka e Fujiwara, que marcaram o estabelecimento de um sistema estatal centralizado. Os conjuntos arqueológicos incluem palácios e edifícios governamentais, bem como templos budistas e túmulos que datam do século I. A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, já saudou a decisão “gratificante” e felicitou, através de uma mensagem na rede social X, todas as pessoas, especialmente os residentes locais, que durante anos se dedicaram “com empenho” à proteção dos dois locais. “Renovo a minha determinação em proteger de forma segura este valioso património cultural, que passou de um tesouro do Japão a um tesouro do mundo, e em transmiti-lo de forma segura às gerações futuras”, acrescentou a chefe do Governo japonês. A UNESCO também declarou Património Mundial a arquitectura modernista da capital uzbeque, Tashkent, que surgiu na sequência do devastador terramoto de 1966, altura em que a cidade foi reconstruída com base no conceito de modernismo sísmico, para resistir a novos abalos sísmicos. O conjunto arquitectónico compreende cerca de uma dezena de edifícios de estilo híbrido soviético, que fundem o design brutalista e funcionalista com a tradição ornamental uzbeque. Inclui museus, hotéis, instituições culturais e edifícios residenciais. Para a UNESCO, este conjunto articula os principais espaços públicos da cidade e demonstra a integração dos princípios do planeamento modernista com as condições climáticas, sísmicas e culturais locais. Entre as inclusões na lista encontram-se ainda o templo budista Wat Phra Mahathat Woramahawihan, em funcionamento ininterrupto há mais de 1.500 anos na província tailandesa de Nakhon Si Thammarat, ou os complexos funerários de Xiongu, na Mongólia. Durante um evento transmitido em directo, a UNESCO inscreveu também o conjunto sagrado da província cazaque de Mangystau, composto por mesquitas “subterrâneas únicas”. A UNESCO deu também “luz verde” à declaração de Património Mundial para o antigo templo budista de Sarnath, na Índia, um local sagrado onde se acredita que Buda proferiu o seu primeiro sermão e conheceu os seus primeiros discípulos. Em Perigo O sítio arqueológico de Sebastia, na Cisjordânia, e cinco castelos na região de Monte Amel, no Líbano, foram inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO, apesar das objecções de Israel, que instou a organização a rejeitar as candidaturas. Os membros do comité da UNESCO decidiram também inscrever Sebastia e os cinco castelos da região do Monte Amel na lista do Património Mundial em Perigo, após terem analisado as candidaturas em regime de urgência, invocando os conflitos em curso no Médio Oriente. Sebastia, a noroeste de Nablus, na Cisjordânia ocupada por Israel, é identificada pelos estudiosos como a antiga Samaria, capital do Reino bíblico de Israel. Os vestígios arqueológicos da região abrangem a Idade do Ferro, os períodos romano, bizantino e islâmico. “A integridade do sítio está actualmente ameaçada pelo projecto de expropriação que visa dividir o bem e criar o Parque Nacional ‘Samaria'”, explicou a UNESCO. Os cinco castelos da região do Monte Amel são reconhecidos pelo seu património arquitectónico multifacetado que cruza várias influências. Os locais designados incluem o Castelo de Beaufort, construído pelos cruzados e também conhecido como Al-Shaqif, que as forças israelitas tomaram em Maio. Os “elementos constitutivos” destas fortalezas, que datam do século XII, “sofreram danos” e enfrentam “ameaças suficientemente graves para justificar o recurso a um procedimento de urgência”, explicou a UNESCO.