Um SG Ventil, se faz favor

Das coisas que melhor me lembro do meu pai é de vê-lo fumar na varanda, olhos postos no mar (que entretanto perdemos por interposição predial especulativa), provavelmente a pensar no coelho ou na perdiz descomunais que lhe escaparam na última caçada. Pensar no meu pai é pensar em SG Gigante e em SG Ventil, os cigarros da sua vida.

Começou a fumar SG Ventil quando deu conta que o tabaco lhe estava a acrescentar degraus à escadaria do prédio. Pensando que um cigarro mais curto não lhe fazia tanto mal, desistiu com relutância do SG Gigante.

Eu vivi rodeado de fumadores. O meu pai e os seus amigos fumavam em casa, para desespero da minha mãe e dos meus pulmões asmáticos. Fumava-se dentro do carro. Fumava-se nos escritórios. Não se fumava já nos hospitais por conta do oxigénio e dos perigos que comporta acender um isqueiro na sua presença. Como estávamos em Clermont-Ferrand da França, uma terra ali mais ou menos no umbigo do hexágono, rodeada de montanhas e vulcões extintos, fria ao ponto de nevar copiosamente no inverno, as janelas estavam sempre fechadas. As do carro ou as de casa.

Tirando aquela primavera serôdia e pálida em que nos era permitido dois dedos de corrente de ar, o ambiente onde quer que fosse confundia-se amiúde com o cenário de um filme noir.

Em criança abominava o cheiro a cigarros e como nos anos oitenta, em França, já se faziam algumas campanhas antitabagismo, eu, tentando juntar o útil ao agradável, massacrava o meu pai até ao ponto de ele preferir fumar no alpendre, ao frio e à chuva. Quando trazia uns amigos para casa, nada a fazer: juntavam-se na sala e dali só saiam quando tivessem prodigalizado o mais perfeito nevoeiro dickensiano.

Eu afirmava, naturalmente, que nunca fumaria um cigarro na vida. Como todas as crianças, tinha absoluta confiança nas minhas convicções. Fumar era coisa de velhos. Um hábito pouco salutar adquirido na errância e na pobreza. O meu pai começou a fumar muito cedo. Nunca lhe foi dito que os cigarros o iriam matar – como o fizeram. Fumar estava na moda. Era – senão saudável – perfeitamente inofensivo. As pessoas fumavam em todo o lado. As celebridades fumavam. Se o tabaco fizesse mal, elas não o fariam. A lógica era inatacável.

Comecei a fumar com quinze anos. Roubava tabaco ao meu pai, à noite, e fumava na escola. Toda a gente que aspirava a não ser olimpicamente ignorada fumava. E, nas matinés de domingo à tarde, bebia. Eu não gostava de beber. Não gostava do sabor da cerveja. Não conseguia perceber como é que alguém podia suportar aquele sabor só para, passado apenas meia hora, rir-se do ziguezaguear de uma mosca para, no momento seguinte, descambar num choro freudiano. Eu pedia uma imperial e ficava ali hora e meia a fingir beberricá-la. Quando tinha sede, ia à casa de banho beber água da torneira.

O meu pai morreu quando eu tinha dezasseis anos. Numa noite de quarta-feira de cinzas, não resistiu a um enfarte, consequência de uma angina de peito diagnosticada há um par de anos. Ficar sem pai aos dezasseis anos é tremendo. É precisamente a idade em que eles começam a nos achar alguma piada e, quiçá, a nos compreender – e vice-versa. É como finalmente entabular conversa com um vizinho com o qual um sujeito se cruzou nas escadas anos a fio apenas para saber que ele se vai mudar para a semana.

Não devia ter continuado a fumar. Não com este exemplo tão próximo e tão trágico. Mas as coisas que fazemos raramente se definem pelos seus contornos racionais, por mais que tentemos traçar uma orla precisa à amálgama difusa a que chamamos desejo ou decisão. Nunca fumei um cigarro com o meu pai. Até nisso não nos cruzámos.

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