Da arte de contar uma história

Walter Benjamin diz que os contadores de histórias se podem dividir, fundamentalmente, em dois tipos cujas raízes são tão antigas como a própria necessidade de contar uma história: aquele que, por opção ou por destino, não tem como sair do seu sítio de origem e conta as histórias, tradições e mitos locais, e aquele que, viajando mundo fora – sendo o expoente máximo dessa figura o marinheiro – vai contando, por onde passa e, sobretudo, quando regressa de onde partiu, aquilo que viu.

Já nos cruzamos de algum modo com uma destas duas figuras. Mais: cada um de nós tem, em quantidades desiguais, uma destas perspectivas de estar no e de ver o mundo. Somos, naturalmente, contadores de histórias. Estas servem o propósito de constituir um património comum de experiências, lendas e mitos que nos ligam e nos situam enquanto identidades sociais. Os gregos representavam a linha do tempo – e a marcha de um homem nela – como alguém virado para o passado que anda, inexoravelmente, em direcção ao futuro, de costas. A imagem, para além de adequada, é honesta. O futuro é o atractor universal que confere direcção – e, por isso, sentido – à caminhada. Mas é desconhecido. A única coisa a que temos acesso (ainda que o estatuto desse acesso não seja de todo claro) é o património de experiências que amealhámos. E neste património incluem-se as histórias que vivemos e que ouvimos e ambas, de certo modo, nos definem.

Segundo Benjamin, a arte de contar uma história está em declínio (o texto no qual o afirma data de 1936 e chama-se “The Storyteller – Reflections on the Works of Nikolai Leskov”). A massificação da informação e do seu formato específico (o de abarcar quase tudo e de ser plausível) é o oposto daquilo que alimenta a arte de contar uma história. Como diz Benjamin, quando abrimos um jornal ao calhas, de manhã, e apesar da multiplicidade de notícias de todos os cantos do globo, a quantidade de histórias dignas de relevo é incrivelmente diminuta. Isto porque, na explicação benjaminiana, tudo quanto nos chega pela via do relato e, sobretudo, do relato noticioso, já vem acompanhado de uma explicação. E a arte de contar uma história, prossegue o autor, é a de libertar a própria história da tentação de explicá-la de alguma forma, de remover quaisquer ligações psicológicas e subjectivas entre os acontecimentos da história. Um dos autores que melhor faz isso e que me vem imediatamente à cabeça é a Flannery O’Connor. A elisão a que nos vota relativamente às motivações psicológicas das suas personagens será talvez um dispositivo pelo qual faz ressair a natureza moral das mesmas. De qualquer modo, e independentemente da razão pela qual Flannery (e os contadores de histórias, na generalidade) escolhe suprimir das histórias que contam as ligações subjectivas de carácter psicológico ou explicativo acaba por dotar a história de uma miríade de ângulos que a explicação, pela sua própria natureza, tenta obviamente reduzir a um único apenas.

Numa época em que a informação se tornou o meio de transmissão de conhecimento por excelência (e que, por acréscimo, deixou de ter a verdade como fundamento axiológico) e, com isso, minou a nossa capacidade inata de trocar experiências, mirrando-a como um membro que não se exercita, era importante percebermos quais as formas que subsistem de produzir as ligações invisíveis que entretecem as estruturas sobre as quais assenta a própria noção de comunidade. Ou a solidão contemporânea deixará de ser uma metáfora simplista para passar a ser um modo de vida sem alternativas.

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