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O escândalo desta semana no Facebook português prende-se com a acusação de plágio que o ministério público moveu contra Tony Carreira e o compositor Ricardo Landum. De repente, o ministério público deu conta de uma evidência que já tinha sido amplamente difundida nas redes sociais: algumas das músicas do Tony Carreira – e sabe Deus quantos mais intérpretes de sucesso comercial – são decalques perfeitos até à semifusa de autores estrangeiros.

Poder-se-ia questionar o timing da notícia. Numa altura em que o governo se vê a braços com o rescaldo dos escândalos de Verão – desde os incêndios e o malfadado SIRESP, aparentemente tão fiável como um Windows 98 SE, até ao furto das armas de Tancos que, afinal, e pelo que vamos sabendo pelos jornais, a) não existiam, b) existiam mas foram furtadas muito antes de existirem, c) existiam, foram furtadas e são tão obsoletas que constituem um perigo para o pobre malfeitor que as operar, d) armas? Que armas? e) nenhuma das acima – e sem o respaldo mediático de um campeonato da europa ou de uma eurovisão, o conspirador insuficientemente medicado que há em mim vê nesta acusação a oportunidade perfeita para folgar as costas do governo enquanto o pau da opinião pública vai e vem.

A despeito do que se possa pensar sobre a oportunidade da acusação, a verdade é que esta é importante e traz a lume uma cultura de chico-espertismo que seria importante desmantelar se queremos afirmar de uma vez por todas a nossa maioridade e debelar a tacanhez própria de um país pequeno que, em tempos, já teve tudo.

Os senhores Carreira e Landum dizem-se vítimas da típica pequenez tuga e do seu correlato primordial, a inveja. Aparentemente, quem os acusa é movido por uma espécie de menoridade que não tolera o sucesso alheio. Terem êxito nas suas actividades deveria ilibá-los da necessidade de se justificarem. É a lógica do empreendedor: o facto de prover trabalho às pessoas eclipsa naturalmente o facto de lhes pagar salários de escravos contemporâneos. Deveríamos estar gratos aos senhores Carreira e Landum por entreterem tantos milhões de pessoas com os seus exercícios de romantismo de jogos florais. Ao invés, esta acusação vem demonstrar empiricamente o postulado do caranguejo: quando um está finalmente a escapar do balde, os outros tratam de puxá-lo de volta para dentro.

A verdade é que o plágio não começa nem termina com os senhores Carreira e Landum. O plágio grassa, por exemplo, num meio que conheço significativamente melhor do que o da música popular: a academia. Há teses inteiras, de mestrado a doutoramento, que são autênticas cópias requentadas de teses alheias. Há trabalhos que não sobrevivem a uma simples pesquisa literal no Google. Insere-se no motor de busca uma frase aleatória e o algoritmo devolve em milissegundos a formulação original. Dir-se-á que aqueles que o fazem não estão a tirar valor aos detentores originais da ideia, porque não a comercializam. Certo. Mas estão a defraudar de forma demolidora o objectivo fundamental da academia, que não é o de papaguear o pensamento alheio mas o de produzir uma tese que contenha, pelo menos, uma nota de rodapé de originalidade.

Quando há uma dezena de anos os mestrados e doutoramentos começaram a tornar-se mais frequentes, muitos políticos e detentores de cargos públicos viram os seus estatutos de doutores a serem postos em causa. Viram-se repentinamente privados da legitimidade hierárquica decorrente dos seus graus académicos perante os seus subordinados. Desataram a encomendar doutoramentos para, pelo menos, se dizerem tão letrados como aqueles que arrojaram anos a fio nas bibliotecas para os conseguir. Muitos deles nem sabem sobre que versa os seus trabalhos, pois a complacência dos júris assegurava uma aprovação suma cum laude a quem se propunha à certificação de competências.

É por isso, também, que esta acusação é importante: para desmontar a cultura do chico-espertismo e da absolutização da aparência. Independentemente do desfecho do processo e da minha costela de teórico da conspiração.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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