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Todos os escritores têm as suas paranóias. Alguns, enquanto estão a escrever. De escrever de pé, como Hemingway ou Virginia Woolf, a escrever deitado de barriga para baixo, como Twain, a escrever nu ou em roupa interior, como Balzac ou Cheever, existe quase sempre a presença de um hábito, superstição ou paranóia intimamente ligada ao processo de escrita.

A minha paranóia (maior) tem lugar na apresentação do livro e na sessão de dedicatórias que normalmente lhe sucede. Imagino sempre que todos os leitores a quem escrevi uma dedicatória se reúnem algures no exterior do local do lançamento para compararem aquilo que escrevi a cada um deles. E imagino sempre que, ofendidos com as inúmeras repetições das múltiplas dedicatórias que cada um julgava serem pessoais e intransmissíveis, me vêm devolver os livros entre exigências de recuperar o dinheiro que deram por eles e juras de desamor eterno. E já sonhei com isto mais do que uma vez.

Para contrariar esta apreensão irracional, de cada vez que me calha em sorte ter de escrever umas palavras de apreço a um leitor, tento invariavelmente grafar qualquer coisa que, pelo menos no contexto da sessão em causa, seja original. Às vezes descubro-me repetindo dedicatórias que escrevi a outras pessoas, noutros lugares, e fico com medo de existir a possibilidade de um e outros se conhecerem.

Desenvolvi algumas técnicas entre o amador e o incipiente para conseguir evitar tanto quanto possível a repetição. Faço ligações entre coisas que disse durante a sessão e a pessoa defronte. Talvez o olhar de uma das personagens do livro seja semelhante ao olhar do recipiente da dedicatória. Talvez seja a forma de andar ou a forma de sorrir. Talvez a voz. Quando nada aparentemente resulta, recorro aos objectos e perspectivas à minha volta: um naco de rio que avisto da janela, o céu, as cadeiras espalhadas anarquicamente pela sala. Às vezes, nada acontece e, quanto mais tempo falta, mais pressionado me sinto. Sorrio, respiro fundo, mexo no cabelo, volto a perguntar o nome. As pessoas na fila impacientam-se (felizmente, as filas são normalmente pequenas). Acabo por escrever “a fulano, um abraço forte do Valério Romão”. Vergonha.

Há dias em que tudo corre bem e cada dedicatória tem laivos de verso. Nesses dias, saio do local do lançamento com inusitada confiança, cumprimentando quem ainda esteja à porta. A tensão pré-lançamento é debelada e, como – imagino eu – no final de um concerto particularmente gratificante, há uma sensação de vitória que parece redimir todas as ocasiões nas quais tudo correu mal.

Quando não é assim, acabo por pensar quase sempre porque estou ali e na razão pela qual me sujeito àquilo. E empatizo com os escritores que se recusam a cumprir aquele momento específico do ritual ou mesmo todo o lançamento. E parecem-me tão sábios como paternalistas: “eu não te disse, Valério?” é o que repetem em uníssono.

Passado algum tempo, até a maior vergonha acaba por beneficiar da distância cronológica e do esquecimento que a acompanha e o “nunca mais, nem pensar!” transforma-se primeiro em dúvida “se calhar, se…” e logo em optimismo infantil “não, desta vez vai correr tudo bem, tenho a certeza”. E volto ao lugar do crime, insuflado de uma confiança tão exagerada como precária. Mas mal sento na carreira de tiro, arrependo-me. Tarde demais.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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