Michelangeli “Il grande”

Poucos pianistas provocaram maior reverência e controvérsia que Arturo Benedetti Michelangeli: reverência pela sua perfeição cristalina, e controvérsia por interpretações que podiam ir do arrepiante ao sublime. O pianista italiano que foi aclamado por muitos críticos e músicos como um dos artistas supremos do teclado do seu tempo, teria feito 100 anos no passado dia 5 de Janeiro. Os críticos dividiam-se sobre o seu trabalho, mas o seu comando técnico supremo do piano é um aspecto indisputável da sua arte. Era um homem bem constituído cujos longos braços e mãos grandes estavam tanto à vontade a segurar o volante do seu Ferrari (foi três vezes concorrente na famosa corrida de automóveis Mille Miglia) como a domesticar o teclado do seu Steinway de concerto que insistia em levar consigo em digressão.

Nascido numa pequena povoação perto de Brescia, Arturo Benedetti Michelangeli começa a estudar violino aos três anos de idade com o seu pai, prosseguindo os estudos de música no Instituto Venturi, em Brescia.

Aos 10 anos, entra para o Conservatório Verdi, em Milão, onde se diploma em piano aos 13 anos. Em 1938, aos 18 anos, inicia a sua carreira internacional ao participar no Festival Internacional Isaÿe em Bruxelas, no qual se classifica em sétimo lugar e do qual foi vencedor o célebre pianista russo Emil Gilels. Um ano depois, alcança o primeiro lugar na primeira edição do Concurso Internacional de Execução Musical de Genebra (piano), no qual foi aclamado como “um novo Liszt” pelo pianista Alfred Cortot, presidente do júri, do qual fazia também parte o pianista Ignacy Paderewski, que viria a apoiar Michelangeli no início da sua carreira.

Durante a II Guerra Mundial, Michelangeli serviu o país como piloto na Força Aérea Italiana, sendo capturado pelos alemães para o final da guerra, que, declarou mais tarde, lhe vergastaram as mãos e braços quando descobriram que era pianista. Após o conflito, ensinou no Conservatório Martini em Bolonha e o ensino permaneceria uma parte essencial do seu trabalho. Em 1949, foi escolhido como pianista oficial dos eventos comemorativos dos 100 anos da morte de Chopin, que tiveram lugar em Varsóvia.

Tornou-se conhecido pelo seu ensino pouco convencional e lendário, nas suas famosas Academias Internacionais que leccionava no belo Schloss Paschbach, em Eppan, no Tirol do sul, em Itália. Os seus melhores alunos eram convidados a frequentar estas academias gratuitamente, mas segundo as regras e horários restritos de Michelangeli. Dois alunos que reverenciaram o seu trabalho foram Maurizio Pollini e Martha Argerich. A actual Academia de Piano Eppan inspira-se na tradição das famosas master classes realizadas por Michelangeli em Eppan, nos anos 50. Nesse período ensinava no Conservatório em Bolzano mas vivia em Eppan, no referido castelo, onde ainda é possível admirar o seu piano. A sua generosidade para com os jovens artistas era muito conhecida. A Academia de Piano Eppan segue esta tradição. Seis jovens pianistas são convidados para uma master class exclusiva e a dar aí concertos ao serão. Um dos participantes recebe o Prémio Arturo Benedetti Michelangeli (no valor de €5.000) atribuído pela Cidade de Eppan.

De aparência aristocrática e quase Lisztiana, Michelangeli aparecia em palco com aspecto cadavérico e sepulcral. A sua execução, frequentemente controversa, não pertencia a nenhuma escola a não ser a sua. O seu estilo, individual e possivelmente perverso em alguns aspectos, era directo, mas contido, caloroso mas frio. A sua técnica, que podia ocasionalmente ser imaculada, era não apenas fruto de um prodigioso talento, mas também de um trabalho árduo. Costumava dizer aos seus alunos que para tocar piano “tem que se trabalhar até nos doerem os braços e as costas todos. A música é um direito para os que o merecem.” Palavras exigentes de um homem que as seguia.

Conhecido pelo seu perfeccionismo, seriedade de estilo e obsessão por pianos impecavelmente regulados e afinados, Michelangeli foi um pianista de muitos recitais cancelados à última da hora, para desespero dos seus managers, e que reputadamente não gostava de dar concertos. Era um conhecedor da mecânica do piano e insistia que os seus instrumentos de concerto estivessem em perfeitas condições. Este artista inigualável destacou-se principalmente como grande intérprete de Debussy e Ravel; e em Beethoven, Chopin, Schumann e Brahms soube igualmente mostrar o seu imenso talento. Era conhecido também pela sua hipocondria, pelas suas superstições e por passar noites inteiras acordado, estudando piano. O seu último recital, com um programa inteiramente dedicado a Debussy, realizou-se em Hamburgo, no dia 7 de Maio de 1993. Arturo Benedetti Michelangeli faleceu em Lugano, no dia 12 de Junho de 1995, na sequência de uma crise cardíaca e encontra-se sepultado em Pura, na Suíça.

Sugestão de audição:
Claude Debussy: Préludes – Volume 1
Arturo Benedetti Michelangeli, piano – Deutsche Grammophon, 1984

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