Onde os sonhos vão para morrer (II)

«You’ve heard of people calling in sick. You may have called in sick a few times yourself. But have you ever thought about calling in well?
It’d go like this: You’d get the boss on the line and say, “Listen, I’ve been sick ever since I started working here, but today I’m well and I won’t be in anymore.” Call in well.»
― Tom Robbins

 

Durante muito tempo, a pior pergunta que me podiam fazer era “O que é tu fazes?” É a nossa necessidade de classificar as pessoas, arrumá-las por categorias no nosso catálogo social. O modo como as pessoas se me dirigiam, quando me perguntavam se era cantora ou assumiam: “És escritora, não és? Fotógrafa, talvez? Actriz? Pensava que eras actriz”, não ajudava. Por vezes apresentavam-me assim, e eu sentia o rosto escaldar, como quando uma amiga, sabendo-me infeliz no trabalho, me enviava anúncios para os quais eu não me achava suficientemente qualificada. Dizem os estudos que os homens se candidatam a empregos desde que possuam 65% dos requisitos listados, enquanto as mulheres só o fazem nos 80%. É verdade que muitos artistas têm várias profissões: arquitectos que são escritores ou autores de banda desenhada, engenheiras informáticas que querem ser roadies e estão a tirar cursos de songwriting, têm lições de canto, piano, bateria; escritores que são professores/tradutores/editores, fotógrafas de concertos que são engenheiras. Argumentistas, modelos e actores que trabalham a servir às mesas ou como hosts em restaurantes.

A verdade é que os call centers são, apesar do modo como empresa e cliente muitas vezes tratam as pessoas, um fértil campo de profissões variadas, desde advogados a jornalistas, onde se pode encontrar o maior número de pessoas qualificadas e igualmente subaproveitadas por metro quadrado. Há quem precise desse contraste oferecido por um escritório com horário definido para criar nos intervalos de tempo que sobram. Eugénio de Andrade foi funcionário público. Kafka trabalhou em seguros. Agatha Christie foi assistente de farmácia. Há quem tenha mantido o seu day job mesmo depois de atingida a fama. Há quem nunca tenha conseguido ter um trabalho dito normal e, ao largá-lo, tenha sentido um alívio incomparável.

Atlas Lisboa, que já o tinha sido em 2012 e foi também Atlas Nantes, Berlim, Gasteiz, ao longo dos anos, é uma criação de Ana Borralho e João Galante. Participei na versão de 2018, no teatro municipal São Luiz, naquilo que considero ser uma reflexão comunitária. Em palco temos verdadeira diversidade de cidadãos, numa panóplia de profissões, origens, etnias e idades. Há lugar para alguém em cadeira de rodas, alguém de muletas. E muitas vozes, uma delas de um índio brasileiro. O que me marcou em ser parte do Atlas, inserido n’Os dias do público, para além de ser a minha primeira vez naquele palco e uma honra, foi fazer-me reflectir e dizer em voz alta o que fazia no momento. Responder à tal questão difícil. Na altura, tinha dois trabalhos, um no público e outro no privado, zero folgas. Durante os ensaios e demais preparação dos textos de cada um, foi possível reflectir sobre quanta da nossa identidade está relacionada com o trabalho que fazemos no mínimo durante quarenta horas por semana, sobre o que é a estabilidade, a felicidade.

Uma popular TED TALK baseia-se na premissa BIG – books, individuals, goals como chave para o sucesso. Diz o autor que devemos ler de tudo e ler muito, que a diferença entre sonhos e objectivos são os prazos, e devemos ainda ter em atenção que somos um reflexo das cinco pessoas com as quais passamos mais tempo. O ideal seria rodearmo-nos de pessoas que chegaram mais longe que nós, até porque é preciso alguém que tenha a coragem e a visão, a insolência e mesmo a ambição de chegar onde quer, ou pelo menos tentar, para entender-nos.

De fazer as coisas para além do medo. Os chamados riscos calculados.

Num hilariante meme, que mostra dois homens à conversa, um diz que renunciou ao seu emprego para perseguir o seu sonho. “Que sonho?”, pergunta o amigo. “Renunciar ao meu emprego”, responde o primeiro. Mais seriamente, vem-me à memória a famosa frase de Doris Lessing: “Whatever you are meant to do, do it now. The conditions are always impossible.”

Nunca é a altura certa, nunca estamos preparados para ter um bebé ou deixar um contrato com seguro médico e perseguir os sonhos, ser freelancer, aceitar outro tipo de sacrifícios, liberdade, desafios, benefícios. O que vale é que tudo é aprendizagem. Pode não ser perfeito, mas talvez seja mais verdadeiro. Ou, como diz a personagem de Mad Men, Megan Draper, frequentemente descrita pelo resto das personagens como o tipo de pessoa que faz tudo bem, em vésperas de despedir-se: “Senti-me melhor a falhar em algo que quero verdadeiramente fazer do que a ser bem-sucedida em algo que não é a minha vocação.” Talvez devêssemos, por uma vez na vida, experimentar essa sensação, a de fazermos só o que nos deixa felizes, só para não morrermos estúpidos. Ah, esperem, vamos todos morrer de qualquer modo. Que valha a pena.

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