Relicário de sonhos II

Chove. A cover que Cat Power fez do tema “Dream”, de Johnny Mercer, vem-me à cabeça com a sua beleza simples. Talvez eu esteja a sentir-me blue, nesta manhã de chuva miúda. Não acordei de sonhos intranquilos, não vou ouvir o charmoso Otto e o seu álbum maravilhoso com título kafkiano; poderia, afinal faço-o com frequência. Mas hoje é a Chan Marshall quem dá o mote ao texto. Acordei de mais um sonho bonito. Bonito mas proibido. Como diria Ricardo Araújo Pereira (a fazer de Marcelo Rebelo de Sousa naquele mítico sketch de Gato Fedorento), é proibido, mas pode-se fazer. Mas é proibido. Mas pode-se fazer. Substituir fazer por sonhar, que ainda ninguém mos confisca. Ainda sou do tempo em que se dizia que não devemos contar os sonhos se queremos que eles se realizem. Os motivational coaches dirão o mesmo de outros tipos de sonhos, e pergunto-me se algum deles alguma vez comeu os de cenoura ou abóbora, but I digress. Os sonhos ocuparão cerca de 25 por cento do sono, um duodécimo da existência da maior parte das pessoas. Ao fim de uma vida, teremos vivido pelo menos duas horas por noite em modo de simbologia onírica. Dizia Freud que A interpretação dos sonhos é a via real para atingir o conhecimento da alma. Ainda segundo o “Dicionário de Símbolos” de Chevalier e Gheerbrant, no antigo Egipto acreditava-se no poder premonitório dos sonhos como instrumentos divinos, mensagens de deus, janelas para ver um futuro que de outro modo estaria vedado à Humanidade. Existem os sonhos proféticos, os sonhos que nos avisam sobre algo ou alguém, como um pressentimento, os sonhos que reflectem as nossas preocupações quotidianas, os sonhos telepáticos, os sonhos que contribuem para o equilíbrio da nossa flora biológica e emocional, na tentativa de resolvermos enfim nesse mundo o que não conseguimos fazer acordados, por incapacidade própria ou falta de cooperação alheia. Quem nunca tentou acordar de um sonho ou continuar um sonho? Quanto não seria resolvido se nos conseguíssemos recordar de todos eles e interpretá-los. Sonhar é tão importante como dormir, respirar ou comer.

Se o estado em que a nossa casa se encontra diz muito sobre o momento da vida em que estamos e reflecte as nossas emoções, o bem ou mal que com elas lidamos, os sonhos não são menos relevantes e reveladores enquanto instrumento de avaliação e percepção desse mesmo estado do Eu. Jung alertava que Não devemos esquecer que se sonha em primeiro lugar, e quase exclusivamente, consigo mesmo e através de si mesmo. A internet está repleta de interpretações de sonhos sobre dinheiro, morte, amor. Temos de nos lembrar de quem morria e como, quem encontrava o dinheiro, se notas ou moedas, se roubado ou perdido, se era com o/a ex, ou um novo amor. Cada detalhe com implicações diferentes na nossa vida futura e significações distintas na vida actual. Há interpretações para todos os gostos, dos mais práticos aos mais místicos. Deixo aqui mais alguns dos meus. Freud que explique, se conseguir. Eu vou rever a belíssima série “Dreams of Flying”, do fotógrafo Jan Von Helleben, que é o melhor que faço.

Sonhei que tinha casado com alguém que não conheço lá muito bem, um casamento recomendado, e ele ia fazer anos em breve e eu nem sabia o dia. Queria fazer-lhe um bolo. Mas até nos dávamos bem. A nossa casa era péssima. Eu recebia a visita de uma amiga finlandesa… Não me recordo do resto.

Sonhei que eu e um conhecido éramos colegas de trabalho mas nunca tinhamos falado. Um dia íamos beber café, só que o dele tinha muita frescura, tinha de ser preparado quase como um ritual. E não era café, era um cappuccino qualquer, cheio de coisas e coisinhas. Enquanto esperávamos que nos servissem, eu era chamada pelo meu ex marido na ficção e na vida real, Reinaldo Giannechinni, porque tínhamos voltado a viver na mesma casa, e ele estava super aborrecido porque os meus livros estavam todos trocados por dentro. O conhecido acabava por ir falar com ele para o acalmar, mas depois nunca mais voltava.

Sonhei com uns gatinhos, mas não eram meus, eu apenas brincava com eles. Estava em casa de alguém, uma casa muito marcada pelo tempo, mas que não tinha paredes e sim varandas; era uma casa ao ar livre, e havia uma espécie de cama gigante. Um dos gatos era às riscas pretas e laranja… Era como o Hobbes

Sonhei com ginastas vestidas de cor-de-rosa, a fazer formações em pirâmide na praia.

Sonhei que estava numa mansão no meio da floresta, da Lana del Rey, e trabalhava na minha escola primária, que não estava no sítio original. Um dia a Lana decidiu fazer uma creche lá em casa, ocupando os quartos vazios com tudo do bom e do melhor, e chamando as educadoras de infância e os miúdos para a inauguração. À medida que andava de quarto em quarto a ver aquela obra fantástica (ela esmerou-se), só fiz um reparo: Lana, acho que temos de mudar a música ambiente. É que só se ouvia a música dela em todas as divisões da casa.

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