Um espectáculo, digo eu!

No caminho para a paragem, onde se cruzam eléctricos e autocarros, distraída e com sono, quase piso a passadeira ainda a ser pintada de fresco. Há operários, cones de sinalização, luzes amarelas e coletes reflectores. Alguns metros à frente, os homens do lixo fazem a recolha. Levo a mão à cabeça para ter a certeza de que não trouxe um capacete em vez do gorro. Fico confusa por momentos; poderia julgar que o ensaio acabara e que já não estava em directo do grande auditório do CCB, onde o público aguarda o início de mais uma criação da mala voadora e sim na rua, em Lisboa. O autocarro chega e a viagem é feita aos solavancos. O cheiro a frango assado que o passageiro sentado atrás de mim devora torna tudo mais real. É o descanso do trabalhador, a marmita tradicional, o piquenique em movimento para quem ainda tiver forças para comer a esta hora da noite.

As últimas semanas foram intensas e exigentes, e nesta viagem que nunca começa para todos ao mesmo tempo, apenas termina, encontramo-nos cada vez mais lado a lado para ensaiar, jantar quando conseguimos, fumar um cigarro, tocar piano a quatro mãos, apertar um botão da camisa ou acertar colarinhos no último segundo, mandar calar, matar os colegas cem vezes na nossa cabeça, apenas para depois com eles dançar em conjunto entre cada cena, fazer rir e trocar histórias, para desesperar e zangar. Temos pouco tempo e no entanto há sempre tempo para atrasos, faltas, momentos de diva, para ficar doente, mudar de ideias, perder e reaver objectos, habituar-se a que tudo mude todos os dias e mais do que uma vez por dia, cortar e acrescentar cenas, cimentar e criar amizades, e ainda cobiçar todo o guarda-roupa do director artístico. Não importa como se chegou aqui, agora estamos juntos nisto.

Sábado de tarde: turistas e locais passeiam, fotografam, lancham e apanham sol, como sempre ou talvez com maior fervor, pois afinal é um feriado religioso. Técnicos fazem greve, como é de seu direito. O espectáculo é cancelado. Sucedem-se as mensagens, telefonemas, suspiros e brados de revolta, tristeza, desilusão e frustração. Como manda o figurino, há uma reunião de última hora com quem de direito e com direito a explicação, que sabe naturalmente a pouco, sabe talvez a algum do material usado na construção do cenário. Existe solidariedade de parte a parte, só tenho pena que o “crítico” não tenha escolhido o dia de hoje para vir ao teatro. Provavelmente teria apreciado mais esta versão. Fausto não é para todos, não agrada a todos (de qualquer um dos lados do palco, pois acreditem que é possível fazer um espectáculo de que não se gosta) mas é, inegavelmente, sobre todos e dá um lugar e visibilidade a todos. Sou suspeita mas, pessoalmente, é isso o que me interessa na arte. E o respeito por quem trabalha, claro. Em Fausto, trabalhou-se e aprendeu-se muito.

Um coro, um rancho e um stripper entram num palco… Ganhamos mais do que perdemos. Para trás ficam lantejoulas, folhos, escudos, luvas e cacetetes, azulejos e leques, camas de hospital e os vinte cinco anos do Centro Cultural de Belém. Fica a festa possível, sem esquecer que são as pessoas que fazem as instituições. As recentes greves demonstram isso, sejamos estivadores ou actores na tv ou no teatro. Ou todas as profissões que estes últimos representam, por vezes até fora do blueroom. Alguém disse que a ambição é necessária para a realização. Eu penso nos Apanhados TVI e RTP e em maquilhagem que serve para nos fazer parecer que estamos sem maquilhagem e, de algum modo, tudo isto parece fazer sentido.

Conto, para que vocês acreditem. Talvez este seja o final, o único final possível. Mais irónico e genial do que qualquer um de nós poderia ter criado intencionalmente. Nós, a equipa, saímos de malas e bagagens como tantas vezes estivémos em cena. Talvez a arte não imite a vida, apenas a amplifique, pois em Fausto houve manifestações, revoluções, feridos e queimados, migrantes e desempregados. Talvez esta greve tenha o seu quê de justiça poética, não houvesse também um grupo de juízes em cena. Mas agora é hora de arrumar tudo, apagar as luzes, apanhar novo eléctrico, novo autocarro, e voltarmos a ser as pessoas de todos os dias, sem fronteiras e quase sem limites. Caótica e elegantemente, como um povo e uma família de artistas que se preze.

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